sábado, setembro 22, 2012

IMPRESSÕES DE PARIS (5): Encerre-se o capítulos dos museus com o museu Bourdelle. Este museu existe no antigo atelier e habitação do escultor Antoine Bourdelle (1861-1929), aluno de Rodin e professor de Giacometti e Vieira da Silva, entre muitos outros.

Este é o tipo de museu que ganha em ser visitado num dia em que o tempo esteja bom. O atelier propriamente dito aproveita muito bem a luz natural. No seu interior estão dispostas esculturas, móveis e vários apetrechos, sem critério aparente. Não é preciso muito mais para nos imaginarmos dentro de um quadro de Magritte ou Delvaux.




Bourdelle nutria uma admiração muito forte por Beethoven, de quem esculpiu numerosos bustos.



Gostei mais das esculturas de pequena e média dimensão do que das obras monumentais que mais contribuíram para a sua fama e para o seu sustento; mas isto reflecte sem dúvida o meu temperamento, e não um juízo estético. Este é um busto de James Frazer, autor de "The Golden Bough", clássico da antropologia dos mitos e das religiões.



Parece tarefa impossível encontrar um museu parisiense que não esteja acompanhado pelo respectivo jardim, e pelo consequente convite a horas de leitura ou ócio. Este está povoado por esculturas susceptíveis de induzir pesadelos aos mais impressionáveis.


DEIXEM O HOMEM DECIDIR OS SEUS TÍTULOS: Os títulos de trabalho da última longa-metragem de Woody Allen foram "Bop Decameron" e "Nero Fiddles", ambos excelentes. O título que acabou por ficar foi "To Rome With Love", insípido e aparentemente detestado pelo próprio realizador. Quanto ao filme, cumpre o que se esperava dele: ligeiro, mas com alguns momentos cómicos a roçar a excelência e a colecção de interpretações inteligentes (p.ex. Alec Baldwin, Judy Davis, Ellen Page, Roberto Benigni) que nunca falta aos filmes de Woody (cuja simples presença no filme como actor, que não acontecia desde "Scoop" é desde logo factor de recomendação). Dentro do cânone de Woody Allen, prefiro os filmes deliberadamente despretensiosos, como este, àqueles atravessados por uma suspeita, por leve que seja, de tese ou ideia a demonstrar (como "Midnight in Paris", excessivamente baseado na desmontagem do hábito, demasiado humano, de olhar para as épocas passadas como infinitamente mais venturosas e excitantes).

quarta-feira, setembro 19, 2012

IMPRIMAM O MITO: João César das Neves prossegue a sua exploração semanal do território onde se cruzam a infâmia, a beatice e o disparate. De tanto cruzar os limites do razoável, deixou de se fazer notado. De facto, só aos mais dedicados observadores da natureza humana sobra paciência para continuar a acompanhar a sua rota.

Mas há coisas que custa deixar passar. Nesta semana, JCN insiste pela enésima vez num dos seus estribilhos preferidos: a desordem pública, os protestos,a indignação popular, são em última análise responsáveis pelas ditaduras que lhes sucedem; o totalitarismo surge como a única resposta expectável face à anarquia; os excessos da Primeira República conduziram inevitavelmente ao 28 de Maio, Weimar justificou o 3º Reich, a Frente Popular abriu caminho para Vichy, a República Espanhola não deixou outro remédio ao general Franco a não ser tomar o poder e ficar com ele. Bla bla bla, rebeubéu pardais ao ninho.

É desolador alguém afirmar ou insinuar que o protesto, a reivindicação de direitos, acarretam o risco de o Estado soçobrar, e que tais prerrogativas devem por isso ser usadas com comedimento e humilde parcimónia. Nem dá vontade de imaginar em que espécie de idade média viveríamos ainda hoje em dia, se esta maneira de pensar fosse partilhada por todos.

Menos grave, mas preocupante quando saído da pena de um economista, são afirmações como «Nunca tivemos até hoje democracia com controlo das contas públicas: nem na Monarquia, nem na Primeira República, nem desde 1974.» JCN deveria talvez solicitar à direcção do jornal que continua a abrigar a sua prosa que passasse a periodicidade da sua coluna para quinzenal, e usar o tempo livre para estudar a história da Primeira República. Dando a palavra a quem sabe do assunto ("A Política Financeira", de Maria Eugénia Mata, in "História da Primeira República Portuguesa", coordenação de Fernando Rosas e Maria Fernanda Rollo, Tinta-da-China, 2009), a história financeira da Primeira República pode descrever-se muito resumidamente em 3 fases:

  • Equilíbrio das contas públicas durante o período em que José Relvas exerceu o cargo de ministro das Finanças, no seguimento aliás de uma tendência, que já se verificava no final da Monarquia, de recuperação das consequências da bancarrota de 1892.  
  • Entrada na 1ª Guerra Mundial, com consequente aumento do défice devido às despesas militares, queda nas receitas fiscais devido ao abrandamento da economia, e (após o final do conflito) falta de pagamento das reparações de guerra por parte da Alemanha. Esta tendência foi comum à maioria das nações beligerantes.
  • Após vários anos de descontrolo e hiperinflação, reequilíbrio progressivo das contas públicas durante o governo de Álvaro de Castro (1924).
   
Para rematar: «Transferiram-se assim para o novo sistema político [Ditadura Nacional e Estado Novo] os louros da política de saneamento das finanças públicas dos anos finais da Primeira República.» (página 202).

Transformar em realidade o mito de uma Primeira República despesista, descontrolada e financeiramente irresponsável irá requerer, temo-o bem, um pouco mais de empenho da parte de JCN. O wishful thinking não chega.

 
LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Na linha verde do metropolitano alfacinha, um leitor lia Cesare Pavese. Pareceu-me ser "A Lua e as Fogueiras". Curiosamente, o leitor trazia um outro livro, não identificado, na mão e em posição de leitura iminente. Um plano B para o caso pouco provável de o Pavese não estar à altura?

segunda-feira, setembro 17, 2012

IMPRESSÕES DE PARIS (4): O Petit Palais merecia ser mais conhecido do que é.



O edifício é imponente sem ser ostentatório, o interior foi concebido de modo a tirar o máximo partido da luz natural, a colecção é variada e integra desde antiguidades a objectos decorativos, pintura e escultura; a qualidade é uniformemente muito boa e a visita faz-se, sem forçar, numa manhã. Ao Petit Palais não ficaria mal um apodo como "o anti-Louvre".

O Petit Palais fica situado entre a margem direita do Sena e os Champs-Elysées, e face (como seria lícito supor) ao Grand Palais. Ambos os edifícios foram construídos com vista à exposição universal de 1900. Como é inevitável em França, não faltaram detractores e defensores que protagonizaram uma disputa efémera mas acesa. Julien Green, por exemplo, detestava-os a ambos, ao grande como ao pequeno. Paul Claudel, pelo seu lado, elogiou o pátio interior do Petit Palais e afirmou que tudo o que se lhe seguiu em arquitectura foi marcado pelo estigma da decadência.

Não seria difícil destacar uma mão cheia de quadros expostos no Petit Palais. Fico-me por dois.

Gustave Courbet, "Autoportrait au chien noir" (1842)

É extremamente raro deparar com uma obra de Courbet que me deixe indiferente. Este auto-retrato tem tudo: originalidade, insolência, e uma aparente simplicidade de meios quase rústica. É um quadro inteiro, sincero e perturbador, ou seja tudo aquilo que se espera de Courbet.

Pierre Bonnard, "Conversation à Arcachon" (1926-1930)


Bonnard é um enigma pessoal. Nunca me ocorre o seu nome quando me forço, por ócio ou estímulo alheio, a fazer a lista dos pintores que verdadeiramente contam para mim. E no entanto, dele posso dizer com convicção aquilo que não posso dizer de muitos: os seus quadros interpelam-me, todos parecem albergar um segredo, grandioso ou corriqueiro; algo na sua imperfeição, num detalhe ou num capricho da sua execução transformam-nos em coisa única.

Como se tudo isto não bastasse, a loja do museu, embora pequena, está muito bem fornecida, e o museu é dotado de um jardim interior onde apetece passar o tempo.

sexta-feira, setembro 14, 2012

IMPRESSÕES DE PARIS(3): Tudo no Museu do Louvre obedece a uma concepção maximalista, adequada aos livros de recordes mas madrasta para o visitante desprevenido. A quantidade de obras-primas é muito grande, mas há que reconhecer que a abundância de obras indiferentes ou medíocres funciona como um ruído de fundo que só com alguma prática se aprende a ignorar. As salas dedicadas à pintura francesa dos séculos XVII e XVIII são o exemplo mais óbvio disso mesmo. Entre paredes que quase soçobram com o peso do academismo e da grandiloquência dos quadros que suportam, o visitante tem de dar mostras de paciência para chegar ao seu nicho preferido, que no meu caso é a secção dos Watteau e em particular os assombrosos "Les Deux Cousines" e "Le Faux-Pas".


Antoine Watteau, "Les Deux Cousines", c. 1716


Ainda a propósito das estratégias para escapar às filas de espera à entrada do Louvre, uma das mais simples consiste em comprar o bilhete combinado Museu Delacroix/Louvre. Claro está que isto faz mais sentido quando existe pelo menos uma admiração remota pela obra de Delacroix, sobretudo atendendo a que o museu que lhe é dedicado apresenta um interesse muito fraco para o não iniciado. O museu fica instalado numa zona entalada entre o Boulevard Saint-Germain e o Sena, que surpreende pela pacatez. Trata-se da casa que Delacroix ocupou nos últimos anos da sua vida, escolhida pela proximidade relativamente à igreja de Saint-Sulpice, aonde o artista se deslocava regularmente para trabalhar na decoração de uma capela.

Conheço poucos lugares mais tranquilos e incompatíveis com ralações pequenas, médias ou graúdas do que o jardim do Museu Delacroix:


Voltando ao Louvre, algo que impressiona negativamente é a negligência do pessoal nos acessos ao recinto e às galerias. A minha mochila foi objecto do mais sumário dos exames e não passou por uma única máquina de raios X. O que poderá justificar esta falta de cuidado? Estarão a esconder-nos algo? As obras expostas possuirão mesmo o valor incalculável que lhes é atribuído, ou não passarão de imitações, por exigência das seguradoras? Por muito menos do que isto, há por aí teorias da conspiração a medrar com uma pujança invejável.

quinta-feira, setembro 13, 2012

INCURSÕES ON THE WILD SIDE: Por vezes, faz bem ao espírito aventurar-se por territórios onde a falta de tino convive na perfeição com uma certa desenvoltura opinativa. O blog "Blasfémias" é um desses lugares revigorantes:

«O Primeiro Ministro comunicou ao país na Sexta-Feira uma solução que é um tratado de como fazer liberalismo prático num país minado por uma constituição socialista e uma opinião pública de esquerda.» (João Miranda)

Vivi estes anos num país minado por uma opinião pública de esquerda, sem o saber. Vou passar a prestar mais atenção a onde ponho os pés, quando sair à rua.

Bem vistas as coisas, valha a verdade, o "Blasfémias" não passa de uma droga recreativa. Para material mais hardcore (potencialmente viciante), sugiro uma visita aqui.

segunda-feira, setembro 10, 2012

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Paris é Paris, mas o metro de Lisboa é (como negá-lo?) o metro de Lisboa. Hoje, um leitor a ler "O Riso", de Bergson.

domingo, setembro 09, 2012

IMPRESSÕES DE PARIS (2) e LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Uma excursão a Paris representa uma autêntica injecção de adrenalina nesta rubrica tão apreciada pelos leitores!
  • Só no aeroporto e durante o voo Lisboa-Paris, os avistamentos foram muitos e variados: Balzac ("La Femme de 30 Ans"), Borges ("Fictions", em francês), Cormac McCarthy ("The Road"), Tolstoi ("Anna Karénine", em francês).
  • No jardim das Tuileries: uma leitora, confortavelmente instalada com os pés apoiados numa cadeirita, lendo "The Sense of an Ending", de Julian Barnes.
  • No voo de regresso: uma leitora entretida com "W ou le Souvenir d'Enfance", do grande Georges Perec.
Ver alguém a ler Perec a milhares de pés de altitude, por cima do golfo da Biscaia, tem o efeito de uma gota de bálsamo no coração.

quinta-feira, setembro 06, 2012

A PROPÓSITO DE "O CONCERTO DOS FLAMENGOS": Certas frases da Agustina são tão ricas, tão inesperadas, tão livres, tão gloriosamente convoluídas, tão cheias de uma sonoridade singular e insolente, que apetece sair para a rua a cantar, dar piruetas ou fechar-se num quarto com mantimentos para dois meses e escrever um romance.

(Incluindo as frases mais exasperantes e que se contradizem entre si; sobretudo essas.)


segunda-feira, setembro 03, 2012

IMPRESSÕES DE PARIS (1): Por onde começar? Na desordem, sem qualquer veleidade de sistematização, comecemos pelos museus.

O gigantesco museu do Louvre pode transformar-se num problema intratável, ou num sorvedouro de energias para o visitante. Há dois conselhos que são repetidos até à saciedade pelos mais calejados, e que nunca é demais repetir:
  1. Evitar a entrada principal (a da pirâmide), e optar, em vez desta, pela entrada do Carrousel (centro comercial subterrâneo) ou pela Porta dos Leões, habitualmente menos concorridas.
  2. Abdicar da ambição (nobre, reconheça-se) de ver todo o museu. É mais avisado planear a visita e concentrar-se nalgumas secções específicas. A não ser, claro, que o objectivo seja o de bater algum recorde...

Esta última visita que fiz concentrou-se na colecção de antiguidades egípcias e na pintura francesa e holandesa.

Duas das peças egípcias de que mais gostei foram estas estátuas da deusa Sekhmet, tradicionalmente representada sob a forma de leoa, com a cabeça encimada pelo disco solar:


Estas serpentes de cauda excepcionalmente longa foram encontradas no túmulo de um governador que viveu durante o reino de Sesóstris I (1943-1898 a.C.):



Convém estar atento, durante a visita, a pormenores exteriores à colecção propriamente dita. Por exemplo, o tecto da "Salle des Bronzes" foi pintado por Cy Twombly, um dos poucos artistas contemporâneos a quem foi dada a oportunidade de decorar o Louvre:



domingo, setembro 02, 2012

48° 51′ 24.12″ N, 2° 21′ 2.88″ E: Alguns dias passados na mais bela cidade do mundo representam uma injecção poderosa de ânimo, mas também deixam um vestígio duradouro de melancolia. Não são coisas incompatíveis.