quarta-feira, fevereiro 16, 2005

PROCURA-SE SERVIÇO PÚBLICO DE TELEVISÃO: Estou a assistir ao oportunista documentário da RTP1 sobre Fátima. Uma só palavra: desastroso. A perspectiva céptica e crítica não é minimamente tida em conta. O documentário parte do princípio de que as aparições sucederam, e preocupa-se mais em narrar o lento despertar das hierarquias católicas para o interesse de anexar Fátima à sua doutrina do que em procurar respostas para a questão "o que se passou ao certo na Cova da Iria entre 13 de Maio e 13 de Outubro de 1917?". Poderá ser alegado que não era esse o objectivo do documentário. Mas como é que uma peça jornalística sobre um fenómeno com tão forte impacto se pode furtar a dar voz a uma abordagem céptica e indagadora? No mínimo, as opiniões de um especialista em psicologia de massas seriam fortemente bem-vindas. Deplorável, mas previsível. O rol de razões para ler o Diário Ateísta alonga-se de dia para dia.

terça-feira, fevereiro 15, 2005

O SEU A SEU DONO: Na Biblioteca Municipal Orlando Ribeiro, os DVDs dos filmes "Os Idiotas" (Lars Von Trier) e "Conto de Verão" (Éric Rohmer) encontram-se classificados na secção "comédias". A Biblioteca Municipal Orlando Ribeiro fica situada no antigo Solar da Nora, Estrada de Telheiras, Lx. Será a divisão em géneros uma mera e conveniente invenção da indústria cinematográfica? Sinto vontade de rever "Conto de Verão", mas também de o ver pela primeira vez. Sinto vontade de comer uma "galette de sarrasin" com manteiga bretã salgada.

segunda-feira, fevereiro 14, 2005

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Na estação de Campanhã, um moço lia uma obra de José Gil. A atenção denunciada pela postura física justifica os cinco pontos de bónus.

domingo, março 02, 2003

VERSOS PORQUE SIM: Outro segredo corre o rosto. Fundámos uma história de água entre nós e o mês de junho. A pedra o nome dos que têm esta terra outro segredo. (João Miguel Fernandes Jorge, in "À Beira do Mar de Junho")
Hoje é dia 1 de Março. Estou a escutar um CD dos Jethro Tull. A primavera já não poderá tardar muito. Hoje o dia foi desolador, por culpa da chuva contínua e da falta de sol.

sábado, março 01, 2003

Numa época que receia as causas, como se receiam as investidas de um vizinho importuno, com fama de lunático, a entrega a uma causa pode revestir-se de formas muito diversas. Nem todas envolvem um antigo armazém na zona de Alcântara (mediocremente aquecido), ou a encenação de uma peça de Heinrich von Kleist (1777-1811), ou tempo roubado aos afazeres, ao sono, às obrigações sociais, ou adereços vários. Não era inevitável que este projecto transbordasse para a esfera da vida real, e que as frases, gestos, sussurros, combates simulados, amuos, versos livres, pausas, enganos, contornos de lábios, convicções, se instalassem no quotidiano, nas semanas, no domínio público. Não era inevitável, mas qualquer um de nós o poderia prever, se as implicações do credo que nos unia tivessem sido sondadas desde o início. E esse credo era (é): UMA MÁXIMA QUE É VÁLIDA NO PALCO É-O TAMBÉM NA VIDA. Talvez a essência daquilo que se persegue durante os ensaios acabe por ganhar hegemonia no Mundo, e talvez sirva de pólo/intérprete/rasto de pedrinhas para todos os assuntos do Mundo; e talvez a verdade daquilo que assim se desoculte seja melancólica. Ainda assim, e ainda que seja esse o último capítulo da história do mundo é importante (ou, pelo menos, vagamente edificante) que alguém faça a crónica.