quinta-feira, março 10, 2005
quarta-feira, março 09, 2005
PENSAMENTOS: Segundo Pascal, Deus ocultar-se-ia apenas o suficiente para que aqueles que o procurassem com sinceridade pudessem encontrá-lo. Pode ser que este estratagema ajude a explicar a eterna incapacidade dos homens para se saciarem de símbolos e revelações. Uma cidade como Lisboa, visto não ter obrigações de demiurgo nem ter firmado alianças com povos escolhidos, desobriga-se desse dever de visibilidade. E o mais cruel é que pode nem sequer haver o que revelar. Pode dar-se que, entre paredes maciças e encardidas da baixa pombalina, entre roufenhos vendedores de castanhas e a ocasional gaivota, tudo se resuma a páginas de Apollinaire manchadas de sumo de romã, e ao magnífico choro da solidão.
HOMO LINKENS: A Klepsýdra e a Linha dos Nodos, 2 blogs porreiros como já não se fazem, também nos dirigiram simpáticas menções, razão pela qual os nossos corações transbordam gratidão em copiosos caudais verde vivo.
terça-feira, março 08, 2005
OS INFORTÚNIOS DA HAGIOGRAFIA: Afinal de contas, em que data foi inaugurada a estátua do Doutor Sousa Martins? Tratar-se-á de uma confusão lançada deliberadamente pelos discípulos do Divino Doutor, no intuito de desnortear os falsos seguidores, e distinguir destes os Autênticos Seguidores? Ou terá sido este um exemplo de inauguração eleitoralista? Terá o rei D. Carlos inaugurado a estátua antes de esta estar pronta? Temeria ele o veredicto das urnas?
PS: Gemedura e panela rachada?
QUE TAL UMA GEMINAÇÃOZINHA?: A Memória Inventada e a Voz do Deserto fizeram anos por estes dias, e estão, assim sendo, de parabéns. Somos quase gémeos. Pergunto-me se o zodíaco reservou algum destino especial para os blogs nascidos entre o início e os idos de Março de 2003. (Nota mental, elaborar uma lista de aniversários, para minimizar as hipóteses de me esquecer de saudar blogs amigos que cumpram mais um elíptico périplo terrestre em torno do sol, afixar a lista em paredes, frigoríficos, agendas e costas de mão.)
GALHARDETIBUS TROCARIBUS BLOGEI AMICI: Aos nossos confrades, Almocreve das Petas, Memória Inventada e Welcome to Elsinore, temos também a agradecer amáveis menções por ocasião da nossa entrada no terceiro ano de blogosfera. Obrigado, e possam os vossos posts continuar a brotar céleres e inspirados como de costume.
domingo, março 06, 2005
CLASSIFICADOS: O anúncio do senhor padre Serras Pereira, negando a comunhão às ovelhas que incorressem num extenso rol de alegados crimes contra a vida, levantou grande e justificado burburinho. Não vou comentar, até porque o disparate da iniciativa é tal que se critica e parodia a si mesma. O combate pela laicidade joga-se a outro nível. Este arremedo não passou de uma diversão, inegavelmente burlesca, mas apenas marginalmente relevante.
Interessa-me mais cotejar este anúncio com um outro, que, colocado pela Marquesa de O... nos jornais locais de M..., marca o início da famosa novela de Kleist. Nesse anúncio, recorde-se, a Marquesa fazia saber que tinha engravidado, e que desposaria o pai da criança se este se apresentasse. Os propósitos virtuosos são tão louváveis como os do senhor padre Serras Pereira, mas valha a verdade que as semelhanças entre estes dois anúncios classificados, separados por mais de dois séculos, se ficam por aí. Tratou-se de uma associação forçada, mas que serve para agradecer a menção que o Quartzo, Feldspato e Mica fez ao segundo aniversário deste blog. (E fica também a nossa gratidão para o BdE, Digitalis, Epicentro, Last Tapes e Seta Despedida, e para outros que tenham escapado à minha vigilância e às malhas do Technorati.)
CINEMA: "Les Temps Qui Changent", de André Téchiné. Este filme retoma muitos dos temas centrais da obra de Téchiné: o exílio, a desambientação cultural, as derivas emocionais, as relações familiares, os atritos entre gerações, a homossexualidade. Se as linhas fortes são conhecidas, a maneira como este antigo crítico dos "Cahiers du Cinéma" as explora em "Les Temps Qui Changent" é particularmente subtil e dinâmica. Téchiné consegue o feito de, no seio de uma teia de personagens e relações de força típicas de um filme seu, introduzir um elemento de heterogeneidade que serve ao mesmo tempo de contraponto e de potenciador dos conflitos latentes. Falo da personagem Gérard Depardieu, Antoine, engenheiro francês em missão em Marrocos, habitado pela ideia fixa de reconquistar o primeiro amor da sua vida, Cécile (Catherine Deneuve). O propósito de Antoine é ao mesmo tempo simples e eminentemente escandaloso. Não tem nada a seu favor, não avança com argumentos, mal se atreve a suplicar. Limita-se a estar lá: maciço, insistente, senhor de uma melancolia distante e (muito vagamente) lunática. Recorre à feitiçaria, mas mais como quem admite serenamente os limites da lógica e da persuasão. Acredita, contudo.

Na história do cinema, não é raro que o escândalo surja sob roupagens modestas e banais: relembre-se Terence Stamp no "Teorema", de Pasolini, anjo imaculado que irrompe no ambiente de uma família italiana com a naturalidade de uma visita de circunstância. Em "Les Temps Qui Changent", o escândalo é um corpo (Antoine, de fato e gravata, tenso e desajeitado), e um modo de contaminar a narrativa: directa ou indirectamente, distorce as relações de força, engendra pontos de fuga, e, por fim, impõe um desfecho, auxiliado (ou não) pelas circunstâncias da natureza (as chuvadas, a derrocada, o coma). A personagem aparentemente mais débil acaba, assim, por se afirmar como a mais poderosa. E é notável como Téchiné consegue articular este fulcro com episódios colaterais, frequentemente de singular beleza (a cauterização da ferida com a chave, o passeio do marido de Cécile e da irmã da companheira do filho). Longe de se dispersar em irrelevâncias, aquilo que Téchiné faz é oferecer-nos blocos narrativos em movimento centrífugo relativamente à acção principal, subitamente válidos e intensos por si mesmos, na sua trivialidade. Haverá vida depois do milagre, depois de Antoine acabar ganhando a sua aposta louca de recuperar Cécile. "Os tempos que mudam" acabam por se assemelhar estranhamente aos primórdios de uma paixão que se julgava, mais do que extinta, marginalizada pela memória.
A arte da Téchiné é uma arte de filmar à flor da pele, com um imediatismo feito de epifanias minúsculas e nervosas; mas é também uma arte do argumento, burilada ao longo de uma carreira já longa, e que vai muito além de um mero desenrolar eficaz de um enredo. Em "Les Temps Qui Changent", ao dar mostras de uma soberba maturidade que admite questionamento constante de processos e modos de operar, Téchiné oferece o seu filme mais conseguido desde as suas anteriores colaborações com Deneuve em "Ma Saison Préférée" e "Les Voleurs".
(Uma derradeira palavra para exaltar o trabalho de Depardieu, magnífico no seu desespero contido, inigualável no seu talento de traduzir o desiderato inverosímil da sua personagem em gestos e posturas de convenção e resignação. Para mim, ele é o maior actor da história do cinema francês, juntamente com Michel Simon. Só é de lamentar que disperse tão amiúde as suas capacidades em filmes menoríssimos.)

sábado, março 05, 2005
A MARCA CERTA: Numa das últimas sessões do concurso "O Preço Certo em Euros", um dos prémios anunciados era um leitor de DVD de marca Sony. Todavia, no aparelho em questão, lia-se distintamente a palavra "Toshiba". Esta discrepância pode parecer de somenos importância, mas o cidadão alerta não deve discriminar as pequenas das grandes coisas. Um estado de vigilância permanente é incumbência de todos. Ego vir videns, eu sou um homem que vê ("Lamentações de Jeremias", 3, 1).
LIDO NO "DN" DE 21/2: Em declarações recentes, a actriz Jennifer Beals defendeu que «Discriminar alguém por amar outra pessoa do mesmo sexo parece-me absurdo». E ainda: «Fico chocada com o facto de os casamentos homossexuais serem sempre um grande caso». Nos tempos que correm, todas as vozes que contribuam para derrubar os preconceitos dirigidos contra as orientações sexuais alternativas são bem-vindas. Para as gentes mais moças, refira-se que Jennifer Beals ficou conhecida por protagonizar o grande êxito dos anos 80 "Flashdance". Contudo, atrevo-me a vaticinar que as gerações cinéfilas futuras a recordarão essencialmente pela sua mítica aparição no filme "Caro Diario", de Nanni Moretti. Michèle Apicella (Moretti) acaba de se lamentar por nunca ter aprendido a dançar, e confessa que Jennifer Beals é um dos seus ídolos, e eis senão quando avista a própria Jennifer numa rua de Roma.
«Off... vuol dire... Strano. Particolare. Verso il pazzo, ma non ancora.»
quinta-feira, março 03, 2005
O QUE HÁ NUM NOME?: Escreve Gertrude Stein, em "The Coming of the Americans":
«(...) after every war when I talk and listen to all our army, it feels like that too, the thing I like most are the names of all the states of the United States. They make music and they are poetry, you do not have to recite them all but you just say any one two three four or five of them and you will see they make music and they make poetry.»
Não podia ser mais solidário com este fascínio por nomes de lugar. Por aquilo que evocam, pelas promessas que os detalhes da sua fonética e da sua grafia contêm. Pronunciar um nome é trazê-lo para a vida, integrá-lo em frases é oferecer-lhe os prodígios da sintaxe para ocupar o seu lugar nos anseios e aspirações dos viajantes frustrados. Um nome de lugar é um nome repleto: de informação, de construções imaginárias, de um percurso pessoal que difere de pessoa para pessoa. É quando neles coexistem a realidade física, verificável, e a efabulação solitária de um visitante potencial, que o nome de lugar alcança a sua condição mais fascinante.
Gertrude Stein tem, obviamente, um precursor ilustre. O que se segue é um excerto de Marcel Proust ("Nom de Pays: le Nom", "Du Côté de Chez Swann", "À la Recherche du Temps Perdu"):
«(...) de même la production de ces rêves d'Atlantique et d'Italie cessa d'être soumise uniquement aux changements des saisons et du temps. Je n'eus besoin pour les faire renaître que de prononcer ces noms: Balbec, Venise, Florence, dans l'intérieur desquels avait fini par s'accumuler le désir que m'avaient inspiré les lieux qu'ils désignaient. Même au printemps, trouver dans un livre le nom de Balbec suffisait à réveiller en moi le désir des tempêtes et du gothique normand; même par un jour de tempête le nom de Florence ou de Venise me donnait le désir du soleil, des lys, du palais des Doges et de Sainte-Marie-des-Fleurs.»
SEM TIRAR NEM PÔR: O tom adoptado neste blog tem vindo a pender, com muita frequência, para a sátira, para a vinheta bem-humorada, mais ou menos jocosa, para o enésimo grau da ironia. De quando em vez, surge a necessidade de arrumar a um canto as máquinas de fumo, os prismas e filtros, as mascarilhas e os adereços. De vez em quando, impõe-se a urgência de dizer as coisas como elas são. A sério. Sem outra preocupação que não seja a de transmitir convicções.
E os dois anos deste blog são pretexto tão bom como qualquer outro.
Aqui vai. Vou numerar os parágrafos. Acho que é assim que estas coisas se fazem.
1 - Este blog nasceu de um insulto, e nem por um único momento, nem por uma única linha, isso foi esquecido. Não é de agora a suspeita de que o ódio é o mais potente de todos os impulsos. Fiquei a saber que é também o mais duradouro.
2 - Este blog representa um esforço de conciliação entre a faceta pública e a faceta privada, esforço esse que passa por forçar a coabitação entre essas mesmas facetas, para melhor pôr a nu as diferenças de natureza, e assim promover uma separação de águas mais eficaz, indolor e permanente. Os episódios de promiscuidade não ultrapassam a dimensão de escaramuças. No teatrinho de fantoches, emulam a luta real, com uma graça enternecedora que é também pedagógica.
3 - Este blog fundou-se sobre a certeza de que existe uma maneira moralmente acertada de beber um copo de água, descascar uma maçã, etc. Ou melhor: fundou-se sobre a convicção de que se deve agir como se essa certeza existisse.
4 - Este blog aniquilar-se-ia (sem um suspiro) se não fosse a persuasão de que a pergunta "como viver bem?", mais do que uma pergunta importante, é a única pergunta.
5 - Este blog existe porque existe a esperança de que a arte, os livros, filmes, quadros, sejam dotados de um poder resgatador, de magnitude suficiente para dispensar questões sobre o que há para resgatar. O gesto artístico é uma singularidade irredutível às convulsões da vida; mas a arte está na vida, e declina-se em vivências que os nossos quotidianos acolhem. Eis o paradoxo. Perante uma obra de arte, quem dela frui tem todos os deveres, e nenhum direito; reduz-se à humildade absoluta, ainda que sem abjecção («(...)avec combien peu d'abjection s'égale-t-il [le chrétien] aux vers de la terre!», Pascal, "Pensées"). Mas não abdica por isso da sua condição de cidadão, livre e com direitos. Eis o paradoxo.
6 - É tudo.
quarta-feira, março 02, 2005
TABELA DE COZEDURA: Num cartão publicitário de empresa de alumínios que aterrou na minha caixa de correio, uma útil tabela indica-nos os tempos de cozedura de diversas variedades de marisco. De entre a sapateira média, santola média, lagostim médio, camarão médio, navalheira, percebe, burrié, búzio, canilhas, caranguejo médio, caranguejo grande, lagosta média e lavagante médio os campeões são estes dois últimos, com 20 minutos de cozedura. Em contrapartida, o lagostim médio não requer mais do que um minuto e meio na água fervente e salgada.
Fica-se também a saber que uma colher de sopa rasa de sal equivale a 15 gramas.
Que saudades que eu tenho do boletim da paróquia de Santa Joana Princesa.
KLEIST NO CINEMA, VERSÃO FAIT-DIVERS: No filme "O Casamento de Maria Braun", de Fassbinder, a personagem de Hanna Schygulla recusa, no mercado negro, um volume de obras de Kleist, sob o pretexto de que um livro arde mais rapidamente do que a madeira. Em tempos de ressaca da segunda guerra mundial, as qualidades combustíveis ganhavam precedência sobre a valia literária.
terça-feira, março 01, 2005
M IS FOR MOZART:
« Mozart menino magicava melopeias, maravilhando monarcas, marquesas, marqueses. Mozart maduro matava memórias malditas, musicando motivos matreiros.» (continua...)
Assinalável, a aliterativa alusão ao adorado artista austríaco Amadeus. No blog Digitalis.
GODARD ENCONTRA PASCAL:
«Si nous rêvions toutes les nuits la même chose, elle nous affecterait autant que les objets que nous voyons tous les jours. Et si un artisan était sûr de rêver toutes les nuits, douze heures durant, qu'il est roi, je crois qu'il serait presque aussi heureux qu'un roi qui rêverait toutes les nuits, douze heures durant, qu'il serait artisan.» (Blaise Pascal, "Pensées")
«Frantz pense à tout et à rien. Il ne sait pas si c'est le monde qui est en train de devenir rêve ou le rêve, monde.» (Voz de Jean-Luc Godard, no filme "Bande à Part", a propósito da personagem de Sami Frey.)
Gosto de imaginar que as fantasias pascalianas de Frantz tiveram como origem um livro de bolso comprado num bouquiniste nas margens do Sena, lido em diagonal num banco de esplanada de um café de Saint-Michel, mal assimilado devido às derivas constantes do seu pensamento, em torno de algumas ideias fixas: conquistar a Odile de Anna Karina, roubar um milhão, fugir para a América do Sul.
DEMAGOGIA CRISTÃ: Numa tirada que deveria passar a constar dos anais do disparate, do despeito e do mau perder, Paulo Portas afirmou que Portugal é o único país do mundo em que "os trotskistas estão apenas a um por cento da democracia cristã". A afirmação é bem menos ousada do que aparenta ser. A democracia cristã é uma aberração com uma implantação que está longe de ser mundial, uma amálgama destituída de sentido e de propósito, a não ser o de servir de cavalo de Tróia para a imisção da religião na esfera política.
Em França, por exemplo, o trotskismo tem até maior expressão eleitoral do que a democracia cristã, pela simples razão de que esta não existe. E assim é que está certo. Mas talvez Paulo Portas exclua automaticamente a França do cortejo das nações livres, sem sentir a necessidade de o frisar nos seus discursos.
MAIS UMA ELIPSE TRANSLATIVA TERRESTRE: Este blog cumpre hoje dois anos. Quando lançámos este projecto singularmente colectivo, eu ignorava se duraria dois meses ou trinta anos. A segunda hipótese, contra toda a verosimilhança e o bom senso, está agora apenas a 28 anos de se transformar em realidade, em verde e garbosa realidade. E tudo isto graças a quem? A vocês, leitores, a quem mais!? É por vós todos que este coração empedernido, outrora incapaz de latejar, lateja.
segunda-feira, fevereiro 28, 2005
ANÚNCIOS DE GATO PERDIDO INVENTADOS (8):
Perdi gato
Quero gato
Dou dinheiro a quem me der gato
Dinheiro é bom
Com dinheiro compram-se coisas
Bijuteria em ouro
De raro quilate
Trajos debruados
Regalo para vista e tacto
Gato é bom
Tem narinas, garras e mia
Enfim é gato
Também tenho lindas noivas da Ucrânia
Discrição total garantida
Gato ronronava como um fole
Perdi-o e pronto
Cabe um gato enroscado no colo das noivas ucranianas
Eslavas interjeições de ternura polvilham a interminável noite
domingo, fevereiro 27, 2005
DE ENVELOPES E BOCADOS DE METAL: E eis que se repete o ritual dos óscares, com as inevitáveis colateralidades sob a forma de especulações, graçolas asininas, toilettes hediondas e pseudo-controvérsias. Dizer mal dos óscares, neste blog, transformou-se já numa pequena tradição. Compreendo mal o interesse dedicado a este evento de auto-celebração de uma indústria, onde acabam sempre, salvo raras excepções (e as excepções são amiúde mais reveladoras do que a regra, neste caso), por ser premiados o conformismo e o respeito pelos cânones.
Tal como sucede com tantos outros prémios de prestígio, em diversas áreas (estou a pensar no Nobel, no Goncourt...), os óscares souberam dotar-se de um poder auto-legitimador que dispensa considerações sobre a competência e a idoneidade de quem os atribui. Um óscar é UM ÓSCAR, e ponto final parágrafo. Mas um óscar é muito mais do que um prémio: é uma marca registada que também serve como elemento na cadeia de promoção comercial de um filme. Dedicar às estatuetas douradas mais do que uma referência en passant, num órgão de comunicação social, implica conivência com essa situação, nos limites entre o reconhecimento da excelência artística e a propaganda.
quinta-feira, fevereiro 24, 2005
MITOS URBANOS (1): O sucesso de um mito urbano joga-se no improvável terreno de intersecção entre o inverosímil e a comodidade doméstica da narrativa. Para que ganhe aceitação, é necessário que reúna duas condições quase incompatíveis: deve, por um lado, conter uma parcela de escabroso, um insulto latente à tepidez do quotidiano; e, por outro, deve ser domesticável sob a forma de uma narrativa, capaz de ser acolhida na matriz de ficções que constitui o tecido das vivências e especulações humanas. Gerar e propagar um mito urbano é tarefa de elevada dificuldade. Basta experimentar para se ficar com a certeza disso. É requerida imaginação. É requerida experiência. O acesso a uma amostra de população atenta e móvel é condição necessária. Não é indispensável um plano, um propósito. Pelo contrário. O sucesso premeia o desprendimento. Na rua, à tardinha, as pessoas cujo caminhar apressado se observa à altura dos tornozelos não adivinham aquilo que as espera para o dia seguinte. Os tempos estão perigosos.
DO QUE SE NUTRE A GRANDE LITERATURA: Uma das personagens do romance "La Muse du Département", de Balzac, sustenta que, excepção feita à "Histoire des Variations" de Bossuet, e às "Provinciales" de Pascal, nada restaria da literatura, se dela se extirpassem as obras que tratam do adultério («...où il est question de femmes aimées à l'encontre des lois.»). E menciona "Tartuffe", "L'École des Femmes", "Phèdre", "Andromaque", o "Inferno", os sonetos de Petrarca e a história romana, e até mesmo o "Paraíso Perdido" e os salmos de David!
E contudo, contudo, quando escutamos o Prof. João César das Neves, ficamos convencidos de que o adultério só passou a existir na nossa sociedade obcecada com o prazer após as libertinagens de Maio de 68 e os desmandos do Concílio Vaticano II. Antes disso, imperava a harmonia conjugal universal. Em quem acreditar? O que faz a polícia?
AO QUE ISTO CHEGOU: A estação de metropolitano Roma encontra-se num estado deplorável: graffiti velhos de anos (se não de décadas), obras que se arrastam, canais de acesso avariados, iluminação escassa, desleixo geral, aspecto lúgubre. Na minha qualidade de utente regular, que paga o seu passe de 30 dias e que em troca espera um serviço de qualidade, sinto-me no dever e no direito de protestar. Se existe correlação entre esta situação e o descalabro moral da nação, cabe a espíritos mais esclarecidos do que eu indagar. Mas lá que existe concomitância temporal, existe. (NOTA: Isto não é um pastiche de carta a director de jornal de freguesia.)
quarta-feira, fevereiro 23, 2005
THE EMPEROR'S NEW CLOTHES: Este blog está agora instalado aqui, consumou-se a mudança de entidade albergadora. Porém, devido a condicionalismos transientes de ordem informática/logística, o ritmo de publicação não deverá recuperar a vivacidade d'antanho antes de algumas semanas. Gratos pela paciência. Ah, e, caso notem problemas no template, etc., ficarei reconhecido se tiverem a fineza de mo comunicar por e-mail (ver coluna da esquerda), viva voz, ou estreita tira de papel glorificada com cursivo minúsculo e enrolada em pata de pombo.
LE FOND DE L'AIR EST ROUGE: A Fábrica de Chaves do Areeiro oferece uma vasta gama de artigos, entre os quais fechaduras sem cilindro, de duas ou quatro trancas, com chave tipo "cofre", fechaduras de alta segurança eléctricas em dois pontos, sem cilindro, com chave telescópica, e uma super porta blindada com fechadura de alta segurança, visor panorâmico de 180 º, dobradiças especiais, aros em aço, estrutura com secção rectangular de aço, e folheado em contraplacado de mogno. Nenhum pai de família deve dispensar equipar-se com estes dispositivos, agora que os trotskistas estão apenas a um por cento dos democratas cristãos. Protejam os vossos bens!
segunda-feira, fevereiro 21, 2005
CHUVA, CHUVA, CHUVINHA...: Em Fátima, reza-se para que a chuva chegue, por fim. Acho sempre instrutivo constatar como a Igreja se permite deixar fugir o pé para a chinela do paganismo, quando tal lhe convém. A chuva é, decerto, objectivo mais aliciante e vendável do que a salvação eterna ou a virtude cristã. Quando as primeiras gotas caírem, não faltarão as vozes para sugerir uma intercessão da Virgem Maria. Nem de outro modo funcionam os ritos de fertilidade. O modus operandi e a eficácia estão comprovados há vários milénios.
UMA BRECHA NO CINISMO: A mulher da Cova da Moura que chorava por causa da morte do agente da PSP. Nem por afinidade familiar nem desgosto por via do genérico estado das coisas: mas porque "ele também era filho de alguém". Esta brecha no cinismo nosso de cada dia fez-me recordar que há poucas coisas mais nobres do que a compunção pela dor alheia.
quarta-feira, fevereiro 16, 2005
PROCURA-SE SERVIÇO PÚBLICO DE TELEVISÃO: Estou a assistir ao oportunista documentário da RTP1 sobre Fátima. Uma só palavra: desastroso. A perspectiva céptica e crítica não é minimamente tida em conta. O documentário parte do princípio de que as aparições sucederam, e preocupa-se mais em narrar o lento despertar das hierarquias católicas para o interesse de anexar Fátima à sua doutrina do que em procurar respostas para a questão "o que se passou ao certo na Cova da Iria entre 13 de Maio e 13 de Outubro de 1917?".
Poderá ser alegado que não era esse o objectivo do documentário. Mas como é que uma peça jornalística sobre um fenómeno com tão forte impacto se pode furtar a dar voz a uma abordagem céptica e indagadora? No mínimo, as opiniões de um especialista em psicologia de massas seriam fortemente bem-vindas.
Deplorável, mas previsível.
O rol de razões para ler o Diário Ateísta alonga-se de dia para dia.
terça-feira, fevereiro 15, 2005
O SEU A SEU DONO: Na Biblioteca Municipal Orlando Ribeiro, os DVDs dos filmes "Os Idiotas" (Lars Von Trier) e "Conto de Verão" (Éric Rohmer) encontram-se classificados na secção "comédias". A Biblioteca Municipal Orlando Ribeiro fica situada no antigo Solar da Nora, Estrada de Telheiras, Lx. Será a divisão em géneros uma mera e conveniente invenção da indústria cinematográfica? Sinto vontade de rever "Conto de Verão", mas também de o ver pela primeira vez. Sinto vontade de comer uma "galette de sarrasin" com manteiga bretã salgada.
segunda-feira, fevereiro 14, 2005
domingo, março 02, 2003
sábado, março 01, 2003
Numa época que receia as causas, como se receiam as investidas de um vizinho importuno, com fama de lunático, a entrega a uma causa pode revestir-se de formas muito diversas. Nem todas envolvem um antigo armazém na zona de Alcântara (mediocremente aquecido), ou a encenação de uma peça de Heinrich von Kleist (1777-1811), ou tempo roubado aos afazeres, ao sono, às obrigações sociais, ou adereços vários.
Não era inevitável que este projecto transbordasse para a esfera da vida real, e que as frases, gestos, sussurros, combates simulados, amuos, versos livres, pausas, enganos, contornos de lábios, convicções, se instalassem no quotidiano, nas semanas, no domínio público.
Não era inevitável, mas qualquer um de nós o poderia prever, se as implicações do credo que nos unia tivessem sido sondadas desde o início. E esse credo era (é): UMA MÁXIMA QUE É VÁLIDA NO PALCO É-O TAMBÉM NA VIDA.
Talvez a essência daquilo que se persegue durante os ensaios acabe por ganhar hegemonia no Mundo, e talvez sirva de pólo/intérprete/rasto de pedrinhas para todos os assuntos do Mundo; e talvez a verdade daquilo que assim se desoculte seja melancólica.
Ainda assim, e ainda que seja esse o último capítulo da história do mundo
é importante (ou, pelo menos, vagamente edificante) que alguém faça a crónica.
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