terça-feira, abril 19, 2005
UMA BOA NOTÍCIA QUE NÃO COMPENSA UMA MÁ NOTÍCIA (RATZINGER), MAS LÁ QUE FAZ O SEU ESFORÇOZITO, LÁ ISSO FAZ: Ontem, na acanhada sala do Quarteto, pouco faltou para dar uma pirueta no ar, seguida de flic-flac à retaguarda e parafuso. Felizmente, pude conter-me, e tanto melhor, pois espantar o burguês é passatempo que só pratico esporadicamente.
Motivo da regozijança: a anunciada estreia de um filme francês, "Pas de repos pour les braves", de Alain Guiraudie.
Juntamente com Arnaud Desplechin, Guiraudie foi a grande revelação do cinema francês dos últimos anos, a julgar pelas amostras a que tive acesso na minha estadia em Paris. As suas duas longas-metragens e várias curtas-metragens têm sido copiosamente elogiadas pela crítica, e pelo próprio Godard. "Pas de repos pour les braves" é uma fantasia profundamente divertida e original. E, quando falo de originalidade, saliente-se que é disso mesmo que se trata, e não de mais um dos seus vulgares ersatz.
Espero voltar a falar deste filme. Depois de estrear. Depois de o rever. Já com o blog recuperado.
Entretanto, concentremos baterias no IndieLisboa!
domingo, abril 17, 2005
NEM CHUVA NEM BLOG: O tempo é de penúria. Já se sabe. Na impossibilidade de, nos dias mais próximos, retomar o blog, nem sequer uma amostra de serviços mínimos, limito-me a gabar a paciência dos estimados leitores que continuam a passar por aqui. Eu já teria ido bater a outra freguesia.
Aguardemos dias melhores, com ou sem trejeito de resignação estampado no rosto.
segunda-feira, março 21, 2005
MITOS URBANOS (2): "Um relógio de pulso deixado em cima do frigorífico avaria-se instantaneamente." Como propagar esta advertência desprovida de fundamento? Como fazê-lo brilhando de Graça e Virtude, agradável aos olhos alheios e aos juízos, na cidade em que a multidão se demora nas ruas subitamente interessada nas evoluções da fauna alada?
QUERER SEM PODER: A vontade é muita, mas as ocasiões para postar têm sido mais do que escassas. A conspiração das Forças do Mal ganha peso, e o resultado está à vista. Com mágoa, não posso prometer ser mais assíduo nos próximos dias. Tende compaixão de mim, bloggers dotados de ADSLs de corridas, agraciados com a possibilidade de postar às 4 da manhã no recato do lar se a isso vos conduzir a vontade!
quinta-feira, março 10, 2005
quarta-feira, março 09, 2005
PENSAMENTOS: Segundo Pascal, Deus ocultar-se-ia apenas o suficiente para que aqueles que o procurassem com sinceridade pudessem encontrá-lo. Pode ser que este estratagema ajude a explicar a eterna incapacidade dos homens para se saciarem de símbolos e revelações. Uma cidade como Lisboa, visto não ter obrigações de demiurgo nem ter firmado alianças com povos escolhidos, desobriga-se desse dever de visibilidade. E o mais cruel é que pode nem sequer haver o que revelar. Pode dar-se que, entre paredes maciças e encardidas da baixa pombalina, entre roufenhos vendedores de castanhas e a ocasional gaivota, tudo se resuma a páginas de Apollinaire manchadas de sumo de romã, e ao magnífico choro da solidão.
HOMO LINKENS: A Klepsýdra e a Linha dos Nodos, 2 blogs porreiros como já não se fazem, também nos dirigiram simpáticas menções, razão pela qual os nossos corações transbordam gratidão em copiosos caudais verde vivo.
terça-feira, março 08, 2005
OS INFORTÚNIOS DA HAGIOGRAFIA: Afinal de contas, em que data foi inaugurada a estátua do Doutor Sousa Martins? Tratar-se-á de uma confusão lançada deliberadamente pelos discípulos do Divino Doutor, no intuito de desnortear os falsos seguidores, e distinguir destes os Autênticos Seguidores? Ou terá sido este um exemplo de inauguração eleitoralista? Terá o rei D. Carlos inaugurado a estátua antes de esta estar pronta? Temeria ele o veredicto das urnas?
PS: Gemedura e panela rachada?
QUE TAL UMA GEMINAÇÃOZINHA?: A Memória Inventada e a Voz do Deserto fizeram anos por estes dias, e estão, assim sendo, de parabéns. Somos quase gémeos. Pergunto-me se o zodíaco reservou algum destino especial para os blogs nascidos entre o início e os idos de Março de 2003. (Nota mental, elaborar uma lista de aniversários, para minimizar as hipóteses de me esquecer de saudar blogs amigos que cumpram mais um elíptico périplo terrestre em torno do sol, afixar a lista em paredes, frigoríficos, agendas e costas de mão.)
GALHARDETIBUS TROCARIBUS BLOGEI AMICI: Aos nossos confrades, Almocreve das Petas, Memória Inventada e Welcome to Elsinore, temos também a agradecer amáveis menções por ocasião da nossa entrada no terceiro ano de blogosfera. Obrigado, e possam os vossos posts continuar a brotar céleres e inspirados como de costume.
domingo, março 06, 2005
CLASSIFICADOS: O anúncio do senhor padre Serras Pereira, negando a comunhão às ovelhas que incorressem num extenso rol de alegados crimes contra a vida, levantou grande e justificado burburinho. Não vou comentar, até porque o disparate da iniciativa é tal que se critica e parodia a si mesma. O combate pela laicidade joga-se a outro nível. Este arremedo não passou de uma diversão, inegavelmente burlesca, mas apenas marginalmente relevante.
Interessa-me mais cotejar este anúncio com um outro, que, colocado pela Marquesa de O... nos jornais locais de M..., marca o início da famosa novela de Kleist. Nesse anúncio, recorde-se, a Marquesa fazia saber que tinha engravidado, e que desposaria o pai da criança se este se apresentasse. Os propósitos virtuosos são tão louváveis como os do senhor padre Serras Pereira, mas valha a verdade que as semelhanças entre estes dois anúncios classificados, separados por mais de dois séculos, se ficam por aí. Tratou-se de uma associação forçada, mas que serve para agradecer a menção que o Quartzo, Feldspato e Mica fez ao segundo aniversário deste blog. (E fica também a nossa gratidão para o BdE, Digitalis, Epicentro, Last Tapes e Seta Despedida, e para outros que tenham escapado à minha vigilância e às malhas do Technorati.)
CINEMA: "Les Temps Qui Changent", de André Téchiné. Este filme retoma muitos dos temas centrais da obra de Téchiné: o exílio, a desambientação cultural, as derivas emocionais, as relações familiares, os atritos entre gerações, a homossexualidade. Se as linhas fortes são conhecidas, a maneira como este antigo crítico dos "Cahiers du Cinéma" as explora em "Les Temps Qui Changent" é particularmente subtil e dinâmica. Téchiné consegue o feito de, no seio de uma teia de personagens e relações de força típicas de um filme seu, introduzir um elemento de heterogeneidade que serve ao mesmo tempo de contraponto e de potenciador dos conflitos latentes. Falo da personagem Gérard Depardieu, Antoine, engenheiro francês em missão em Marrocos, habitado pela ideia fixa de reconquistar o primeiro amor da sua vida, Cécile (Catherine Deneuve). O propósito de Antoine é ao mesmo tempo simples e eminentemente escandaloso. Não tem nada a seu favor, não avança com argumentos, mal se atreve a suplicar. Limita-se a estar lá: maciço, insistente, senhor de uma melancolia distante e (muito vagamente) lunática. Recorre à feitiçaria, mas mais como quem admite serenamente os limites da lógica e da persuasão. Acredita, contudo.

Na história do cinema, não é raro que o escândalo surja sob roupagens modestas e banais: relembre-se Terence Stamp no "Teorema", de Pasolini, anjo imaculado que irrompe no ambiente de uma família italiana com a naturalidade de uma visita de circunstância. Em "Les Temps Qui Changent", o escândalo é um corpo (Antoine, de fato e gravata, tenso e desajeitado), e um modo de contaminar a narrativa: directa ou indirectamente, distorce as relações de força, engendra pontos de fuga, e, por fim, impõe um desfecho, auxiliado (ou não) pelas circunstâncias da natureza (as chuvadas, a derrocada, o coma). A personagem aparentemente mais débil acaba, assim, por se afirmar como a mais poderosa. E é notável como Téchiné consegue articular este fulcro com episódios colaterais, frequentemente de singular beleza (a cauterização da ferida com a chave, o passeio do marido de Cécile e da irmã da companheira do filho). Longe de se dispersar em irrelevâncias, aquilo que Téchiné faz é oferecer-nos blocos narrativos em movimento centrífugo relativamente à acção principal, subitamente válidos e intensos por si mesmos, na sua trivialidade. Haverá vida depois do milagre, depois de Antoine acabar ganhando a sua aposta louca de recuperar Cécile. "Os tempos que mudam" acabam por se assemelhar estranhamente aos primórdios de uma paixão que se julgava, mais do que extinta, marginalizada pela memória.
A arte da Téchiné é uma arte de filmar à flor da pele, com um imediatismo feito de epifanias minúsculas e nervosas; mas é também uma arte do argumento, burilada ao longo de uma carreira já longa, e que vai muito além de um mero desenrolar eficaz de um enredo. Em "Les Temps Qui Changent", ao dar mostras de uma soberba maturidade que admite questionamento constante de processos e modos de operar, Téchiné oferece o seu filme mais conseguido desde as suas anteriores colaborações com Deneuve em "Ma Saison Préférée" e "Les Voleurs".
(Uma derradeira palavra para exaltar o trabalho de Depardieu, magnífico no seu desespero contido, inigualável no seu talento de traduzir o desiderato inverosímil da sua personagem em gestos e posturas de convenção e resignação. Para mim, ele é o maior actor da história do cinema francês, juntamente com Michel Simon. Só é de lamentar que disperse tão amiúde as suas capacidades em filmes menoríssimos.)

sábado, março 05, 2005
A MARCA CERTA: Numa das últimas sessões do concurso "O Preço Certo em Euros", um dos prémios anunciados era um leitor de DVD de marca Sony. Todavia, no aparelho em questão, lia-se distintamente a palavra "Toshiba". Esta discrepância pode parecer de somenos importância, mas o cidadão alerta não deve discriminar as pequenas das grandes coisas. Um estado de vigilância permanente é incumbência de todos. Ego vir videns, eu sou um homem que vê ("Lamentações de Jeremias", 3, 1).
LIDO NO "DN" DE 21/2: Em declarações recentes, a actriz Jennifer Beals defendeu que «Discriminar alguém por amar outra pessoa do mesmo sexo parece-me absurdo». E ainda: «Fico chocada com o facto de os casamentos homossexuais serem sempre um grande caso». Nos tempos que correm, todas as vozes que contribuam para derrubar os preconceitos dirigidos contra as orientações sexuais alternativas são bem-vindas. Para as gentes mais moças, refira-se que Jennifer Beals ficou conhecida por protagonizar o grande êxito dos anos 80 "Flashdance". Contudo, atrevo-me a vaticinar que as gerações cinéfilas futuras a recordarão essencialmente pela sua mítica aparição no filme "Caro Diario", de Nanni Moretti. Michèle Apicella (Moretti) acaba de se lamentar por nunca ter aprendido a dançar, e confessa que Jennifer Beals é um dos seus ídolos, e eis senão quando avista a própria Jennifer numa rua de Roma.
«Off... vuol dire... Strano. Particolare. Verso il pazzo, ma non ancora.»
quinta-feira, março 03, 2005
O QUE HÁ NUM NOME?: Escreve Gertrude Stein, em "The Coming of the Americans":
«(...) after every war when I talk and listen to all our army, it feels like that too, the thing I like most are the names of all the states of the United States. They make music and they are poetry, you do not have to recite them all but you just say any one two three four or five of them and you will see they make music and they make poetry.»
Não podia ser mais solidário com este fascínio por nomes de lugar. Por aquilo que evocam, pelas promessas que os detalhes da sua fonética e da sua grafia contêm. Pronunciar um nome é trazê-lo para a vida, integrá-lo em frases é oferecer-lhe os prodígios da sintaxe para ocupar o seu lugar nos anseios e aspirações dos viajantes frustrados. Um nome de lugar é um nome repleto: de informação, de construções imaginárias, de um percurso pessoal que difere de pessoa para pessoa. É quando neles coexistem a realidade física, verificável, e a efabulação solitária de um visitante potencial, que o nome de lugar alcança a sua condição mais fascinante.
Gertrude Stein tem, obviamente, um precursor ilustre. O que se segue é um excerto de Marcel Proust ("Nom de Pays: le Nom", "Du Côté de Chez Swann", "À la Recherche du Temps Perdu"):
«(...) de même la production de ces rêves d'Atlantique et d'Italie cessa d'être soumise uniquement aux changements des saisons et du temps. Je n'eus besoin pour les faire renaître que de prononcer ces noms: Balbec, Venise, Florence, dans l'intérieur desquels avait fini par s'accumuler le désir que m'avaient inspiré les lieux qu'ils désignaient. Même au printemps, trouver dans un livre le nom de Balbec suffisait à réveiller en moi le désir des tempêtes et du gothique normand; même par un jour de tempête le nom de Florence ou de Venise me donnait le désir du soleil, des lys, du palais des Doges et de Sainte-Marie-des-Fleurs.»
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