quinta-feira, maio 12, 2005

"LORD JIM" (2): Quando Jim se despede de Marlow, a dada altura, parece ir falar, mas remete-se a um «No. Nothing.» Mais tarde, reflectindo sobre este momento, Marlow escreve: «That was all then - and there shall be nothing more; there shall be no message, unless such as each of us can interpret for himself from the language of facts, that are so often more enigmatic than the craftiest arrangement of words.» A linguagem dos factos. Um conceito fascinante: transmitir mensagens por meio dos actos, banais, fúteis ou corajosos, cometidos no Mundo, à revelia das verbalizações julgadas traiçoeiras. Sobretudo se a mensagem for dirigida a um único receptor inacessível. Como Lancelot, batendo-se e passando privações, vivendo as aventuras mais perigosas como quem explora uma sintaxe ingrata, substituindo pelas suas errâncias as sílabas que nunca saberia pronunciar em presença de Guenièvre, ou pelo menos nunca sem desmaiar, mordendo a terra demasiado rude.
"LORD JIM" (1): Terminei recentemente a leitura do romance "Lord Jim", de Joseph Conrad. Gostei sobretudo da maneira como neste romance coexistem o lado inglês de Conrad (a omnipresença dos escrúpulos morais por vezes indiscernível de uma preocupação pelas aparências, ou mesmo pela postura no sentido físico do termo) e o seu lado eslavo (manifesto no pessimismo céptico e crepuscular que permeia o livro, que seria talvez apocalíptico se o autor reconhecesse à humanidade uma relevância que lhe conferisse verdadeira dimensão trágica). Mas o aspecto que considero mais interessante em "Lord Jim" é a sobreposição da história do jovem Jim, grumete caído em desgraça devido a um acto de cobardia que o assombrará o resto da vida, com a história da opinião que o narrador (Marlow) vai formando desse mesmo Jim. Oitenta ou noventa por cento do livro é ocupado pela narrativa de Marlow (dirigido, diga-se, a uma plateia escassamente interessada), e, com muita frequência, a urgência de contar é vencida pela urgência de exprimir o que ele via de excepcional em Jim. Interesso-me muitíssimo pela tensão entre o excepcional e o medíocre em personagens de romance. Tal como em "A Sibila" ou "The Bostonians", o leitor é deixado na dúvida sobre se está perante uma criatura singular ou perante uma fraude mais ou menos voluntária. Em "Lord Jim", as páginas finais revelam um Jim indiscutivelmente dotado de força de carácter e bravura fora do comum. Muito pessoalmente, acho este dissipar da tensão pouco satisfatório. Senti-me muito mais fascinado pelo Jim que ocupa sucessivos limbos, arrastando o seu orgulho abjectamente ferido pelos portos do Sudeste asiático, entre a aniquilação e a irrelevância. A sua grandeza possui um brilho secreto quando latente no seu corpo jovem e robusto, adivinhada pela narrativa de um perplexo Marlow.
APELO À APEL: É bem sabido que chove sempre, torrencialmente, por alturas da Feira do Livro. (Quem ignora o encanto de ziguezaguear Parque Eduardo VII acima e abaixo, de banca em banca, confiando na protecção precária de um saco de plástico para preservar a integridade dos opúsculos adquiridos?) Nenhum cidadão esclarecido ignorará, por outro lado, que atravessamos um período de seca, se grave ou extrema pouco importa para o caso. Não é preciso ser-se génio nem guru para atinar com uma solução. Prolonguem a Feira do Livro! Façam-na durar meses, até que os aguaceiros concomitantes encham as albufeiras até ao bordo! É claro que esta seria uma medida ousada, mas os grandes homens da História, como Copérnico, Colombo e Sousa Martins, nada teriam sido sem a vontade de desafiar a tacanhez dos seus contemporâneos.
DISPONÍVEL PARA BLOGAR: Após uma detestavelmente longa hibernação, motivada por interrupção de acesso à Internet e por vasto sortimento de cabalas dirigidas contra mim, este blog regressa ao seu estado normal, a saber, verde, moderadamente prolixo, circunspecto mas opinativo, multifacetado, contras as Coisas Más e a favor das Coisas Boas.

quarta-feira, maio 04, 2005

AI FLORES AI FLORES: No Porto, no dia 1 de Maio, prendem-se florzitas amarelas do lado de fora das portas, para afugentar o demónio. As flores roçam ao de leve os cotovelos de quem passa. Os caules prendem a massa inverosímil dos edifícios aos nevoeiros do Inverno passado. Em cada caixa de correio, um inquieto quinhão de atmosfera. Mas o demónio não existe. Não passa de uma metáfora com olhos raiados.

domingo, maio 01, 2005

APELO ÀS MASSAS: Leiam o 1bsk! O blog que diz o que os outros não dizem, e que não diz o que os outros dizem, excepto quando aquilo que os outros dizem, por merecer ser dito, é dito.
CLARO QUE NÃO PODE DEIXAR DE SER SAUDADA...: ...a decisão da CP de acabar com as carruagens para fumadores nos comboios Alfa Pendular.
IF YOU BUILD IT HE WILL COME: Plantar os respectivos bolbos e regar com regularidade será bastante para que brotem as tulipas (singelas ou não)? Recusemos estas dádivas de simplicidade num mundo eminentemente complexo e intratável, com a mesma obstinação acanhada com que uma criança declina doces ofertados por um estranho.
GRANDE PERDA PARA A HUMANIDADE: Quando este blog regressar ao esplendor d'antanho, não deixaremos de comentar a anunciada retirada de Garry Kasparov do xadrez profissional. Uma notícia que trouxe (ainda que fugazmente) o xadrez aos noticiários generalistas não poderia deixar de ser tratada aqui. Do muito que haveria para dizer, será dito um poucochinho.

terça-feira, abril 19, 2005

UMA BOA NOTÍCIA QUE NÃO COMPENSA UMA MÁ NOTÍCIA (RATZINGER), MAS LÁ QUE FAZ O SEU ESFORÇOZITO, LÁ ISSO FAZ: Ontem, na acanhada sala do Quarteto, pouco faltou para dar uma pirueta no ar, seguida de flic-flac à retaguarda e parafuso. Felizmente, pude conter-me, e tanto melhor, pois espantar o burguês é passatempo que só pratico esporadicamente. Motivo da regozijança: a anunciada estreia de um filme francês, "Pas de repos pour les braves", de Alain Guiraudie. Juntamente com Arnaud Desplechin, Guiraudie foi a grande revelação do cinema francês dos últimos anos, a julgar pelas amostras a que tive acesso na minha estadia em Paris. As suas duas longas-metragens e várias curtas-metragens têm sido copiosamente elogiadas pela crítica, e pelo próprio Godard. "Pas de repos pour les braves" é uma fantasia profundamente divertida e original. E, quando falo de originalidade, saliente-se que é disso mesmo que se trata, e não de mais um dos seus vulgares ersatz. Espero voltar a falar deste filme. Depois de estrear. Depois de o rever. Já com o blog recuperado. Entretanto, concentremos baterias no IndieLisboa!

domingo, abril 17, 2005

NEM CHUVA NEM BLOG: O tempo é de penúria. Já se sabe. Na impossibilidade de, nos dias mais próximos, retomar o blog, nem sequer uma amostra de serviços mínimos, limito-me a gabar a paciência dos estimados leitores que continuam a passar por aqui. Eu já teria ido bater a outra freguesia. Aguardemos dias melhores, com ou sem trejeito de resignação estampado no rosto.

segunda-feira, março 21, 2005

MITOS URBANOS (2): "Um relógio de pulso deixado em cima do frigorífico avaria-se instantaneamente." Como propagar esta advertência desprovida de fundamento? Como fazê-lo brilhando de Graça e Virtude, agradável aos olhos alheios e aos juízos, na cidade em que a multidão se demora nas ruas subitamente interessada nas evoluções da fauna alada?
MAS FICA A PROMESSA: Cada gato perdido vale um soneto. Dos já antigos. Pejados de ternura e de garras retrácteis.
QUERER SEM PODER: A vontade é muita, mas as ocasiões para postar têm sido mais do que escassas. A conspiração das Forças do Mal ganha peso, e o resultado está à vista. Com mágoa, não posso prometer ser mais assíduo nos próximos dias. Tende compaixão de mim, bloggers dotados de ADSLs de corridas, agraciados com a possibilidade de postar às 4 da manhã no recato do lar se a isso vos conduzir a vontade!

quinta-feira, março 10, 2005

PARCIMÓNIA COM JUSTA CAUSA: Devido a uma situação de acesso à Internet transientemente precária, os próximos tempos serão mais parcos em posts do que o habitual.
VERSOS PORQUE SIM: ENVELHECER Antes, todos os caminhos iam. Agora todos os caminhos vêm. A casa é acolhedora, os livros poucos. E eu mesmo preparo o chá para os fantasmas. (Mário Quintana, in "Poesia Brasileira do século XX", Antígona.)
DECÊNCIA: Ludwig Wittgenstein afirmava ambicionar, antes de tudo o mais, viver uma vida decente. Hoje em dia, tal desiderato parecerá ridiculamente simples a alguns, absurdamente inalcançável a outros. Não é outro o drama da nossa época.

quarta-feira, março 09, 2005

VEZ SEM EXEMPLO: Se eu fosse dado a posts umbiguistas, dir-vos-ia que, por incrível que pareça, há agora uma cidade cujo nome começa por "P", que não é Paris, e onde eu gostaria de estar mais do que em qualquer outro lugar. (Upsss!...)
PENSAMENTOS: Segundo Pascal, Deus ocultar-se-ia apenas o suficiente para que aqueles que o procurassem com sinceridade pudessem encontrá-lo. Pode ser que este estratagema ajude a explicar a eterna incapacidade dos homens para se saciarem de símbolos e revelações. Uma cidade como Lisboa, visto não ter obrigações de demiurgo nem ter firmado alianças com povos escolhidos, desobriga-se desse dever de visibilidade. E o mais cruel é que pode nem sequer haver o que revelar. Pode dar-se que, entre paredes maciças e encardidas da baixa pombalina, entre roufenhos vendedores de castanhas e a ocasional gaivota, tudo se resuma a páginas de Apollinaire manchadas de sumo de romã, e ao magnífico choro da solidão.
ESCONDIDO: «Vere tu es Deus absconditus.», «Em verdade tu és o Deus oculto.» (Isaías, 45,15). Citado por Blaise Pascal ("Pensées").