domingo, maio 22, 2005
QUERELA DOS ROMÂNTICOS E DOS CLÁSSICOS NUMA SÓ PESSOA: Stendhal dizia querer ser romântico nas ideias e clássico nos meios de expressão. Não posso senão simpatizar com este propósito - tão abundante e genialmente vertido em obras por este autor. Aplicado a uma cidade como Lisboa, um tal princípio equivaleria a insuflar paixões inverosímeis nas estátuas públicas sobriamente proporcionadas, e a dissimular segredos atrozes por detrás das regras de ouro que regem as medidas das fachadas dos edifícios.
quinta-feira, maio 19, 2005
POR ESTA ORDEM: Por exigência do seu novo filme, Natalie Portman rapou inteiramente o cabelo. Falando do seu novo visual, a actriz declarou: «Alguns vão provavelmente pensar que eu sou neo-nazi, que tenho um cancro, ou que sou lésbica.».
Ou seja, um crescendo de horrores.
O QUE HÁ NUM NOME? (3 E FIM):
Hipótese 7: Talvez Bento XVI tenha escolhido o nome "Bento" por ser apreciador do licor Bénédictine.
Hipótese 8: Testemunho de admiração pela obra poética de José Bento.
Hipótese 9: Recordação (voluntária ou não) da inesquecível personagem de Bento Pertunhas, imortalizada por Júlio Dinis em "A Morgadinha dos Canaviais".
E, finalmente, a décima e perturbadora hipótese:
Ao escolher o nome "Bento", o pastor alemão associou ao trono pontifício o número XVI. Ora, 16 é o número atómico do enxofre. Será este um sinal oculto relativo à verdadeira origem de Ratzinger?
UMA PAUSA SEM KITKAT:
O Zé Mário desafiou, e a gente aqui gosta de desafios.
1- Não podendo sair do Fahrenheit 451, que livro quererias ser?
Gostava de ser o "Crime e Castigo" em versão de livro para banho. Com um Raskolnikov em versão popup insuflável.
2- Já alguma vez ficaste perturbado/apanhado por uma personagem de ficção?
As personagens de ficção perturbam-me invariavelmente, sobretudo as que colocam anúncios no jornal para descobrir o homem que as engravidou, as que se evadem da prisão graças a um sismo na América do Sul, e as que se revoltam contra os poderes instituídos quando medíocres sicários devolvem os seus cavalos num estado deplorável.
3- O último livro que compraste?
O último livro que comprei deve ter sido um livro de poemas de Charles Simic, mas parece-me que este é o momento ideal para me queixar por não me terem dado o livro sobre cozinha italiana que deveria vir hoje com o "Público".
4- Os últimos livros que leste?
Ler, ler, ler, ler, aquilo que se chama ler, terá sido "The Woman in White", de Wilkie Collins. Há uma personagem do "Ulysses" de Joyce que lê este livro. Melhor do que leituras em lugares públicos, só leituras dentro de leituras!
5- Que livros estás a ler?
"Comment Une Figue de Paroles et Pourquoi", de Francis Ponge, onde se fala de poeira açucarada depositada nos lábios, de dulcíssima polpa pastosa e de interiores de fruto que brilham como altares em igrejas abandonadas.
6- Que livros levarias para uma ilha deserta?
A Constituição da República Portuguesa, a Cartilha Maternal e o Tesouro das Cozinheiras.
7 – Quatro pessoas a quem vais passar este testemunho e porquê?
Por me encontrar numa fase da vida em que a ficção supera em interesse a realidade, passo este inquérito a quatro irmãs solteironas de Friburgo, cuja literacia não supera o nível da "TV Guia", mas que guardam no seu sótão a maior colecção de notas falsas do mundo.
terça-feira, maio 17, 2005
ADVERSATIVA: Mas, algumas linhas mais adiante:
«Je veux donc dire que "avoir perdu le silence" ne signifie rien de ce qu'on pourrait croire. Du reste, peu importe. J'ai décidé de suivre cette voie.»
Se está decidido, decidido está. Prossiga-se o caminho, com um cântico de jovial optimismo nos lábios. Deixemos ao inexistente homúnculo o luxo de se calar. Acocorado no seu limbo, o silêncio mendigado ao mundo como estalactites nos seus bolsos.
LEITURAS: Lido num romance de Maurice Blanchot ("L'Arrêt de Mort"):
«Avoir perdu le silence, le regret que j'en éprouve est sans mesure. Je ne puis dire quel malheur envahit l'homme qui une fois a pris la parole.»
Perder o silêncio. Pouco importa se comparável à perda de uma graça, de um objecto (rugoso e resistente à pressão), ou de uma amizade. Ver-se de súbito despido e espoliado de silêncio, ainda por cima por vontade própria, uma vaga variedade de vontade própria. Abdicar do silêncio com o arrependimento desde logo cingido à garganta.
Uma e outra vez. Todos os dias.
Não poder dizer "a infelicidade que invade o homem", nem sequer a respectiva lucidez.
O lento movimento da luta terá primazia agora e sempre sobre a pobre eloquência daquele que quis balbuciar.
XADREZ: Está a desenrolar-se em Sófia um dos torneios de xadrez mais fortes do ano, o "M-Tel Masters". Os seis participantes, que se defrontam num sistema de todos contra todos a duas voltas, são os seguintes: Viswanathan Anand (Índia, nº 2 do mundo), Veselin Topalov (Bulgária, nº 3), Vladimir Kramnik (Rússia, nº 5), Michael Adams (Inglaterra, nº 7), Judit Polgár (Hungria, nº 8) e Ruslan Ponomariov (Ucrânia, nº 20).
Este torneio apresenta uma característica inovadora, que contribui para lhe conferir um interesse excepcional: os jogadores estão impedidos de acordarem empates entre si. Os empates apenas poderão resultar de decisões dos árbitros ou de situações de empate técnico óbvio, como a repetição de lances. Espera-se, com esta medida, minimizar os chamados "empates de salão", jogos com poucos lances e nenhum espírito combativo, e que infelizmente parecem ter vindo a tornar-se cada vez mais abundantes ao mais alto nível.
Até ao momento, as estatísticas a este respeito não são animadoras: num momento em que se chegou a meio do torneio (hoje cumpriu-se o dia de descanso), o número de empates é de 11 em 15 partidas, ou seja, uma percentagem de 73 %, o que é francamente elevado, e decepcionante para um torneio cujas regras visam desencorajar os empates. Porém, saliente-se que muitos destes empates foram combativos, por vezes deveras emocionantes. Os empates fazem parte do xadrez, afinal de contas. Só se lamenta que certos grandes-mestres, a coberto desta evidência, procurem empates a todo o custo, com eventuais benefícios a curto prazo, mas hipotecando a possibilidade de o xadrez vir a conquistar mais fãs e atrair mais patrocínios.
Ao fim de 5 rondas, Kramnik e Adams lideram. O site oficial do torneio está aqui. As partidas podem ser seguidas em directo, por exemplo na página da revista Europe Échecs.
segunda-feira, maio 16, 2005
LONGO TEMPO EU ME FUI DEITADO DE BOA HORA: Amanhã, terça, na Fnac do Chiado, Pedro Tamen debaterá com a crítica Maria da Conceição Caleiro a sua tradução de "Em Busca do Tempo Perdido", de Marcel Proust. Às 18h30.
Quem sempre reprimiu a vontade de se erguer e proclamar, alto e bom som, "Senhor Pedro Tamen, na página 477 o senhor confundiu um imperfeito do conjuntivo com um presente do conjuntivo!!!", que aproveite a ocasião ou se cale para sempre.
"LORD JIM" (3): Uma coisa que aprecio sobremaneira em "Lord Jim" é o seu estilo. Conrad faz justiça à apaixonante riqueza da língua inglesa, mas sem abuso de preciosismos, evitando com naturalidade os alardes de erudição vocabular que denunciam o exilado linguístico. O seu idioma é casual e eficaz, quase rude a espaços. Há um lado funcional da língua que é explorado com sobriedade, mas não necessariamente sem requinte. Não o requinte de um esteta, como Nabokov, outro anglófono por adopção; antes o requinte discreto de quem se permite um instante de volúpia verbal como minúsculo consolo perante o espectáculo vagamente degradante da natureza humana em acção; infinitamente ponderado, muito "stiff upper lip".
domingo, maio 15, 2005
INVENTÁRIO E DESPEDIDA: Como hoje estou com muito pouco tempo, limito-me a enumerar o nome dos doze titãs originais citados por Hesíodo: Cronos, Oceanus, Coeus, Iapetus, Hyperion, Crius, Rhea, Themis, Mnemosyne, Theia, Phoebe, Tethys.
(O título deste post, como é óbvio, é o de um notável livro de poesia de Paulo Teixeira.)
O QUE HÁ NUM NOME? (2): Mais alvitres sobre as razões que levaram o cidadão Ratzinger a escolher Bento como nome papal, em vez de outros igualmente bem soantes e ricos de história como Umbelino ou Adalgiso:
Hipótese 4: Discretíssima homenagem aos Ovos "Benedict", acepipe obrigatório em qualquer brunch digno desse nome, e que consiste (para os plebeus que não frequentam estas ocasiões sociais/gastronómicas) em muffins, bacon canadiano e ovos escalfados, tudo coberto por molho holandês.
Hipótese 5: Tributo a Bento de Jesus Caraça, matemático, pedagogo e activista político português do século XX.
Hipótese 6: Testemunho de admiração pelo actor francês Benoît Régent, falecido prematuramente em 1994, e que marcou com a sua participação, com os seus olhos ternos e com a sua reticência discreta de eterno pasmado com a vida, filmes como "La Bande des Quatre" (Rivette), "Bleu" (Kieslowski) e "J'entends plus la guitare" (Garrel).
sábado, maio 14, 2005
NÓS, VÓS, ELES: Perante o último opus de Margarida Rebelo Pinto, "Pessoas Como Nós", cujo primeiro capítulo suportei na íntegra (graças à generosa e desinteressada divulgação que dele foi feita), sinto vontade de reagir um pouco à semelhança de Nanni Moretti, no filme "Caro Diario", perante o filme italiano que em má hora decide ver em pleno verão romano.
«Vocês é que gritavam coisas absurdas, vocês é que envelheceram!» bufava Moretti. «Eu gritava coisas justíssimas, e tornei-me um esplêndido quarentão!»
E eu, mais ou menos no mesmo tom: «Não, essas pessoas que a senhora Rebelo Pinto descreve no seu livrito não são como eu! Nem como ninguém que eu conheça, aliás.» Entre outros encantos e louváveis virtudes, as pessoas têm a vantagem de não se parecerem com estereótipos de literatura "light". Mas não é a futilidade e a vulgaridade das suas personagens que transforma a leitura de um romance como este num penoso exercício: é a falta de engenho e de criatividade na exposição das suas misérias. (Um bocadito de cuidado com a gramática também não faria mossa.)
O QUE HÁ NUM NOME?: Permito-me acrescentar algumas achegas às conjecturas relativas à escolha do nome do novo papa.
Porquê Bento XVI?
Hipótese 1: Homenagem a Benedetto Croce, intelectual e político italiano, autor de "L'Estetica come scienza dell'espressione e linguistica generale", entre outras obras de poderosa influência.
Hipótese 2: Reconhecimento do peso histórico, sociológico e económico da estação ferroviária de São Bento, no Porto. A notável azulejaria do átrio principal pode ter sido factor decisivo na escolha.
Hipótese 3: Tributo à actriz Benedita Pereira, que formou com João Catarré parelha inesquecível na série "Morangos com Açúcar", ícone da tê-vê-i.
LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Há alguns dias, no metropolitano, sentei-me em frente a uma senhora que lia um livro intitulado "Viver Com os Outros", de Isabel da Nóbrega. A princípio, cuidei tratar-se de uma obra de auto-ajuda. Bastou, porém, uma consulta breve à "História da Literatura Portuguesa" de Saraiva e Lopes para me inteirar de que se trata de um romance publicado em 1964, e que Isabel da Nóbrega foi ainda autora da novela "Já Não Há Salomão" e dos volumes de contos "Solo Para Gravador" e "Quadratim".
Há lá mais nobre ambição para um escrevinhador do que desejar que os seus livros sejam lidos na rede de transportes públicos pelas gerações vindouras?
sexta-feira, maio 13, 2005
NOVISSIMUS BLOGUS: Parece nome de encíclica acabada de brotar da inspirada pluma do pastor alemão, mas não é. É apenas uma maneira latino-macarrónica de introduzir um elenco de blogs que chamaram a minha atenção durante a longa-oh-demasiado-longa ausência das últimas semanas.
"Ópera e Demais Interesses", do Dissoluto Punito, cuja paixão melómana já tive ocasião de aferir ao vivo, deve passar a ser um ponto de passagem obrigatório para quem aprecia o espectáculo operático.
"Educação Sentimental" é o nome do novo blog da autora do saudoso "My Moleskine".
"Esquerda Republicana" é onde escreve o Ricardo Alves, que também participa no imprescindível "Diário Ateísta".
"Da Literatura", cuja esfera temática se depreende limpidamente do título, tem ao leme um quarteto que tem mostrado capacidade de reflectir e discorrer sobre livros e letras furtando-se à brevidade ou negligência demasiadas vezes cultivada por essa blogosfera fora.
"Marionetas a Norte" tão pouco esconde o jogo: é de bonecos e títeres que se fala neste interessante blog temático. Kleist aprecia e agradece!
A 13 DE MAIO, NA COVA DA IRIA, LÁ LÁ LÁ...: Sou laicista militante durante 364 dias do ano. A excepção é o 13 de Maio. Passo a explicar-me. As imagens que nos chegam do santuário, dos idosos progredindo penosamente de joelhos, ou arrastando-se para agradecer sabe-se lá que ilusória intercessão, de crianças entregues a absurdos pagamentos de promessas, são tão degradantes e eloquentes que me julgo dispensado de acrescentar seja o que for.
Claro que muitos defenderão estarmos perante outras tantas manifestações de sublime fé. Seja. Mas também há quem defenda que o Zeppo era o mais divertido dos irmãos Marx.
E, a propósito, constou-me, já não sei por que via, que tinha sido o António Botto o autor da letra da canção "A 13 de Maio na Cova da Iria". E isto para cair nas boas graças do regime que o exilara. Facto ou mito urbano? Em todo o caso, mal por mal, antes a publicidade da Coca-Cola.
OU... OU...: Hoje assisti a uma apresentação oral subordinada à temática das relações (mais ou menos conflituosas) entre as culturas das ciências exactas e das ciências humanas. Da apresentação fazia parte uma citação de Kleist. Reproduzo de memória: «A humanidade divide-se em dois grupos: aqueles que compreendem as metáforas e aqueles que compreendem as fórmulas. São pouquíssimos aqueles que compreendem tanto umas como outras.».
Desconheço a origem da citação. E não sei se estou de acordo. Tudo dependerá da noção de "compreensão" que está aqui em jogo.
Mas a cavalo dado (neste caso a uma referência kleistiana caída de onde nunca a esperaria) não se deve olhar o dente.
AMBIÇÃO DESMEDIDA: A minha Grande Aspiração, para falar com absoluta franqueza, era manter um blog igual a este, sem tirar nem pôr, mas em que todas as ocorrências da frase "Gosto muito de vinho branco" fossem substituídas pela frase "Gosto muito de vinho tinto".
Ambição desmedida? Pode ser que sim.
quinta-feira, maio 12, 2005
ANÚNCIOS DE GATO PERDIDO INVENTADOS (9):
Íamos no número 9, não era?
Perdeu-se lindo gato.
Foi num domingo.
O gato tinha uma coleira de cabedal verde.
Eu acabava de completar as palavras cruzadas.
3 vertical, "sempre ao nosso lado, nunca à frente, vermelhas e delicadas", 8 letras.
"PAPOILAS!"
Um vizinho pregava um prego.
Nisto olho para o parapeito, e descubro ausência do gato.
Como cantar a minha mágoa?
Talvez sob a forma de ode.
Em moça, tinha jeito para as cantorias.
Três colunas num jornal local, após vitória em concurso de orfeão.
Nesse dia a água-pé subiu-me à cabeça.
Ah ah, no pun intended.
O meu ricto transtornado diz tudo, poupar-me-ei às manifestações vocais.
Da última vez que ele desapareceu, encontrei-o dentro da embalagem da edição de coleccionador do DVD da "Boceta de Pandora" de Georg Wilhelm Pabst.
Mas desta vez já passaram três dias.
E se ele apanha uma dessas doenças que andam por aí?
Hipótese que de académica não tem nada.
Quem o encontrar, que o venha entregar à dona chorosa.
Mas resignada, com o lábio inferior mordido pelos incisivos, e os punhos devidamente cerrados.
Feito em Lisboa, pelo punho desta que assina...
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