segunda-feira, maio 23, 2005
RIDENDO CASTIGAT DÉFICE: Na revista "Visão" do passado dia 19 de Maio, alguns economistas nacionais de graúda reputação opinam sobre as medidas a tomar perante a aflitiva derrapagem das contas públicas. O rol de medidas raramente sai do previsível: com mais ou menos cambiantes, andam à volta dos cortes nas despesas, do aumento dos impostos, emagrecimento do sector público, et caetera. Não deixa, contudo, de ser fascinante apreciar, de proposta em proposta, as pequenas diferenças, que (como dizia John Travolta em "Pulp Fiction") é onde reside o verdadeiro interesse. Por exemplo, Miguel Cadilhe preconiza a "Autoproibição do Estado de recair em grandiosos eventos/equipamentos caríssimos e desproporcionados (estádios de futebol, submarinos), e não serei eu quem discordará. Já Miguel Beleza, esse, escolhe outro alvo, com uma precisão pragmática de cortar o fôlego: defende "mais rigor nas despesas supérfluas, como, por exemplo, na atribuição de alguns subsídios à Cultura".
A cultura e a sua vocação para bombo da festa. A cultura e a sua fama de capricho, vistoso mas inútil, de uma sociedade.
Eleger a cultura como vítima prioritária de cortes e medidas de contenção em tempo de crise pode dever mais ao filistinismo do que à sagacidade. Admitir que tal possa contribuir significativamente para reduzir o défice é certamente de mau economista.
(Como, mais adiante, Miguel Beleza aponta o regresso de José Mourinho como outra das medidas que urge tomar, talvez não passe tudo isto de uma longa e sofisticada chalaça.)
domingo, maio 22, 2005
DOIS ANOS DE PETAS: O Almocreve das Petas fez dois anos. 365x2 dias (mais um por causa do bissexto) de prosa inspirada e certeira, a espaços gongórica mas límpida nas intenções, nas embirrações, mas também na generosidade com que explora os seus temas predilectos. Kleist sopra os seus parabéns!
QUERELA DOS ROMÂNTICOS E DOS CLÁSSICOS NUMA SÓ PESSOA: Stendhal dizia querer ser romântico nas ideias e clássico nos meios de expressão. Não posso senão simpatizar com este propósito - tão abundante e genialmente vertido em obras por este autor. Aplicado a uma cidade como Lisboa, um tal princípio equivaleria a insuflar paixões inverosímeis nas estátuas públicas sobriamente proporcionadas, e a dissimular segredos atrozes por detrás das regras de ouro que regem as medidas das fachadas dos edifícios.
quinta-feira, maio 19, 2005
POR ESTA ORDEM: Por exigência do seu novo filme, Natalie Portman rapou inteiramente o cabelo. Falando do seu novo visual, a actriz declarou: «Alguns vão provavelmente pensar que eu sou neo-nazi, que tenho um cancro, ou que sou lésbica.».
Ou seja, um crescendo de horrores.
O QUE HÁ NUM NOME? (3 E FIM):
Hipótese 7: Talvez Bento XVI tenha escolhido o nome "Bento" por ser apreciador do licor Bénédictine.
Hipótese 8: Testemunho de admiração pela obra poética de José Bento.
Hipótese 9: Recordação (voluntária ou não) da inesquecível personagem de Bento Pertunhas, imortalizada por Júlio Dinis em "A Morgadinha dos Canaviais".
E, finalmente, a décima e perturbadora hipótese:
Ao escolher o nome "Bento", o pastor alemão associou ao trono pontifício o número XVI. Ora, 16 é o número atómico do enxofre. Será este um sinal oculto relativo à verdadeira origem de Ratzinger?
UMA PAUSA SEM KITKAT:
O Zé Mário desafiou, e a gente aqui gosta de desafios.
1- Não podendo sair do Fahrenheit 451, que livro quererias ser?
Gostava de ser o "Crime e Castigo" em versão de livro para banho. Com um Raskolnikov em versão popup insuflável.
2- Já alguma vez ficaste perturbado/apanhado por uma personagem de ficção?
As personagens de ficção perturbam-me invariavelmente, sobretudo as que colocam anúncios no jornal para descobrir o homem que as engravidou, as que se evadem da prisão graças a um sismo na América do Sul, e as que se revoltam contra os poderes instituídos quando medíocres sicários devolvem os seus cavalos num estado deplorável.
3- O último livro que compraste?
O último livro que comprei deve ter sido um livro de poemas de Charles Simic, mas parece-me que este é o momento ideal para me queixar por não me terem dado o livro sobre cozinha italiana que deveria vir hoje com o "Público".
4- Os últimos livros que leste?
Ler, ler, ler, ler, aquilo que se chama ler, terá sido "The Woman in White", de Wilkie Collins. Há uma personagem do "Ulysses" de Joyce que lê este livro. Melhor do que leituras em lugares públicos, só leituras dentro de leituras!
5- Que livros estás a ler?
"Comment Une Figue de Paroles et Pourquoi", de Francis Ponge, onde se fala de poeira açucarada depositada nos lábios, de dulcíssima polpa pastosa e de interiores de fruto que brilham como altares em igrejas abandonadas.
6- Que livros levarias para uma ilha deserta?
A Constituição da República Portuguesa, a Cartilha Maternal e o Tesouro das Cozinheiras.
7 – Quatro pessoas a quem vais passar este testemunho e porquê?
Por me encontrar numa fase da vida em que a ficção supera em interesse a realidade, passo este inquérito a quatro irmãs solteironas de Friburgo, cuja literacia não supera o nível da "TV Guia", mas que guardam no seu sótão a maior colecção de notas falsas do mundo.
terça-feira, maio 17, 2005
ADVERSATIVA: Mas, algumas linhas mais adiante:
«Je veux donc dire que "avoir perdu le silence" ne signifie rien de ce qu'on pourrait croire. Du reste, peu importe. J'ai décidé de suivre cette voie.»
Se está decidido, decidido está. Prossiga-se o caminho, com um cântico de jovial optimismo nos lábios. Deixemos ao inexistente homúnculo o luxo de se calar. Acocorado no seu limbo, o silêncio mendigado ao mundo como estalactites nos seus bolsos.
LEITURAS: Lido num romance de Maurice Blanchot ("L'Arrêt de Mort"):
«Avoir perdu le silence, le regret que j'en éprouve est sans mesure. Je ne puis dire quel malheur envahit l'homme qui une fois a pris la parole.»
Perder o silêncio. Pouco importa se comparável à perda de uma graça, de um objecto (rugoso e resistente à pressão), ou de uma amizade. Ver-se de súbito despido e espoliado de silêncio, ainda por cima por vontade própria, uma vaga variedade de vontade própria. Abdicar do silêncio com o arrependimento desde logo cingido à garganta.
Uma e outra vez. Todos os dias.
Não poder dizer "a infelicidade que invade o homem", nem sequer a respectiva lucidez.
O lento movimento da luta terá primazia agora e sempre sobre a pobre eloquência daquele que quis balbuciar.
XADREZ: Está a desenrolar-se em Sófia um dos torneios de xadrez mais fortes do ano, o "M-Tel Masters". Os seis participantes, que se defrontam num sistema de todos contra todos a duas voltas, são os seguintes: Viswanathan Anand (Índia, nº 2 do mundo), Veselin Topalov (Bulgária, nº 3), Vladimir Kramnik (Rússia, nº 5), Michael Adams (Inglaterra, nº 7), Judit Polgár (Hungria, nº 8) e Ruslan Ponomariov (Ucrânia, nº 20).
Este torneio apresenta uma característica inovadora, que contribui para lhe conferir um interesse excepcional: os jogadores estão impedidos de acordarem empates entre si. Os empates apenas poderão resultar de decisões dos árbitros ou de situações de empate técnico óbvio, como a repetição de lances. Espera-se, com esta medida, minimizar os chamados "empates de salão", jogos com poucos lances e nenhum espírito combativo, e que infelizmente parecem ter vindo a tornar-se cada vez mais abundantes ao mais alto nível.
Até ao momento, as estatísticas a este respeito não são animadoras: num momento em que se chegou a meio do torneio (hoje cumpriu-se o dia de descanso), o número de empates é de 11 em 15 partidas, ou seja, uma percentagem de 73 %, o que é francamente elevado, e decepcionante para um torneio cujas regras visam desencorajar os empates. Porém, saliente-se que muitos destes empates foram combativos, por vezes deveras emocionantes. Os empates fazem parte do xadrez, afinal de contas. Só se lamenta que certos grandes-mestres, a coberto desta evidência, procurem empates a todo o custo, com eventuais benefícios a curto prazo, mas hipotecando a possibilidade de o xadrez vir a conquistar mais fãs e atrair mais patrocínios.
Ao fim de 5 rondas, Kramnik e Adams lideram. O site oficial do torneio está aqui. As partidas podem ser seguidas em directo, por exemplo na página da revista Europe Échecs.
segunda-feira, maio 16, 2005
LONGO TEMPO EU ME FUI DEITADO DE BOA HORA: Amanhã, terça, na Fnac do Chiado, Pedro Tamen debaterá com a crítica Maria da Conceição Caleiro a sua tradução de "Em Busca do Tempo Perdido", de Marcel Proust. Às 18h30.
Quem sempre reprimiu a vontade de se erguer e proclamar, alto e bom som, "Senhor Pedro Tamen, na página 477 o senhor confundiu um imperfeito do conjuntivo com um presente do conjuntivo!!!", que aproveite a ocasião ou se cale para sempre.
"LORD JIM" (3): Uma coisa que aprecio sobremaneira em "Lord Jim" é o seu estilo. Conrad faz justiça à apaixonante riqueza da língua inglesa, mas sem abuso de preciosismos, evitando com naturalidade os alardes de erudição vocabular que denunciam o exilado linguístico. O seu idioma é casual e eficaz, quase rude a espaços. Há um lado funcional da língua que é explorado com sobriedade, mas não necessariamente sem requinte. Não o requinte de um esteta, como Nabokov, outro anglófono por adopção; antes o requinte discreto de quem se permite um instante de volúpia verbal como minúsculo consolo perante o espectáculo vagamente degradante da natureza humana em acção; infinitamente ponderado, muito "stiff upper lip".
domingo, maio 15, 2005
INVENTÁRIO E DESPEDIDA: Como hoje estou com muito pouco tempo, limito-me a enumerar o nome dos doze titãs originais citados por Hesíodo: Cronos, Oceanus, Coeus, Iapetus, Hyperion, Crius, Rhea, Themis, Mnemosyne, Theia, Phoebe, Tethys.
(O título deste post, como é óbvio, é o de um notável livro de poesia de Paulo Teixeira.)
O QUE HÁ NUM NOME? (2): Mais alvitres sobre as razões que levaram o cidadão Ratzinger a escolher Bento como nome papal, em vez de outros igualmente bem soantes e ricos de história como Umbelino ou Adalgiso:
Hipótese 4: Discretíssima homenagem aos Ovos "Benedict", acepipe obrigatório em qualquer brunch digno desse nome, e que consiste (para os plebeus que não frequentam estas ocasiões sociais/gastronómicas) em muffins, bacon canadiano e ovos escalfados, tudo coberto por molho holandês.
Hipótese 5: Tributo a Bento de Jesus Caraça, matemático, pedagogo e activista político português do século XX.
Hipótese 6: Testemunho de admiração pelo actor francês Benoît Régent, falecido prematuramente em 1994, e que marcou com a sua participação, com os seus olhos ternos e com a sua reticência discreta de eterno pasmado com a vida, filmes como "La Bande des Quatre" (Rivette), "Bleu" (Kieslowski) e "J'entends plus la guitare" (Garrel).
sábado, maio 14, 2005
NÓS, VÓS, ELES: Perante o último opus de Margarida Rebelo Pinto, "Pessoas Como Nós", cujo primeiro capítulo suportei na íntegra (graças à generosa e desinteressada divulgação que dele foi feita), sinto vontade de reagir um pouco à semelhança de Nanni Moretti, no filme "Caro Diario", perante o filme italiano que em má hora decide ver em pleno verão romano.
«Vocês é que gritavam coisas absurdas, vocês é que envelheceram!» bufava Moretti. «Eu gritava coisas justíssimas, e tornei-me um esplêndido quarentão!»
E eu, mais ou menos no mesmo tom: «Não, essas pessoas que a senhora Rebelo Pinto descreve no seu livrito não são como eu! Nem como ninguém que eu conheça, aliás.» Entre outros encantos e louváveis virtudes, as pessoas têm a vantagem de não se parecerem com estereótipos de literatura "light". Mas não é a futilidade e a vulgaridade das suas personagens que transforma a leitura de um romance como este num penoso exercício: é a falta de engenho e de criatividade na exposição das suas misérias. (Um bocadito de cuidado com a gramática também não faria mossa.)
O QUE HÁ NUM NOME?: Permito-me acrescentar algumas achegas às conjecturas relativas à escolha do nome do novo papa.
Porquê Bento XVI?
Hipótese 1: Homenagem a Benedetto Croce, intelectual e político italiano, autor de "L'Estetica come scienza dell'espressione e linguistica generale", entre outras obras de poderosa influência.
Hipótese 2: Reconhecimento do peso histórico, sociológico e económico da estação ferroviária de São Bento, no Porto. A notável azulejaria do átrio principal pode ter sido factor decisivo na escolha.
Hipótese 3: Tributo à actriz Benedita Pereira, que formou com João Catarré parelha inesquecível na série "Morangos com Açúcar", ícone da tê-vê-i.
LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Há alguns dias, no metropolitano, sentei-me em frente a uma senhora que lia um livro intitulado "Viver Com os Outros", de Isabel da Nóbrega. A princípio, cuidei tratar-se de uma obra de auto-ajuda. Bastou, porém, uma consulta breve à "História da Literatura Portuguesa" de Saraiva e Lopes para me inteirar de que se trata de um romance publicado em 1964, e que Isabel da Nóbrega foi ainda autora da novela "Já Não Há Salomão" e dos volumes de contos "Solo Para Gravador" e "Quadratim".
Há lá mais nobre ambição para um escrevinhador do que desejar que os seus livros sejam lidos na rede de transportes públicos pelas gerações vindouras?
sexta-feira, maio 13, 2005
NOVISSIMUS BLOGUS: Parece nome de encíclica acabada de brotar da inspirada pluma do pastor alemão, mas não é. É apenas uma maneira latino-macarrónica de introduzir um elenco de blogs que chamaram a minha atenção durante a longa-oh-demasiado-longa ausência das últimas semanas.
"Ópera e Demais Interesses", do Dissoluto Punito, cuja paixão melómana já tive ocasião de aferir ao vivo, deve passar a ser um ponto de passagem obrigatório para quem aprecia o espectáculo operático.
"Educação Sentimental" é o nome do novo blog da autora do saudoso "My Moleskine".
"Esquerda Republicana" é onde escreve o Ricardo Alves, que também participa no imprescindível "Diário Ateísta".
"Da Literatura", cuja esfera temática se depreende limpidamente do título, tem ao leme um quarteto que tem mostrado capacidade de reflectir e discorrer sobre livros e letras furtando-se à brevidade ou negligência demasiadas vezes cultivada por essa blogosfera fora.
"Marionetas a Norte" tão pouco esconde o jogo: é de bonecos e títeres que se fala neste interessante blog temático. Kleist aprecia e agradece!
A 13 DE MAIO, NA COVA DA IRIA, LÁ LÁ LÁ...: Sou laicista militante durante 364 dias do ano. A excepção é o 13 de Maio. Passo a explicar-me. As imagens que nos chegam do santuário, dos idosos progredindo penosamente de joelhos, ou arrastando-se para agradecer sabe-se lá que ilusória intercessão, de crianças entregues a absurdos pagamentos de promessas, são tão degradantes e eloquentes que me julgo dispensado de acrescentar seja o que for.
Claro que muitos defenderão estarmos perante outras tantas manifestações de sublime fé. Seja. Mas também há quem defenda que o Zeppo era o mais divertido dos irmãos Marx.
E, a propósito, constou-me, já não sei por que via, que tinha sido o António Botto o autor da letra da canção "A 13 de Maio na Cova da Iria". E isto para cair nas boas graças do regime que o exilara. Facto ou mito urbano? Em todo o caso, mal por mal, antes a publicidade da Coca-Cola.
OU... OU...: Hoje assisti a uma apresentação oral subordinada à temática das relações (mais ou menos conflituosas) entre as culturas das ciências exactas e das ciências humanas. Da apresentação fazia parte uma citação de Kleist. Reproduzo de memória: «A humanidade divide-se em dois grupos: aqueles que compreendem as metáforas e aqueles que compreendem as fórmulas. São pouquíssimos aqueles que compreendem tanto umas como outras.».
Desconheço a origem da citação. E não sei se estou de acordo. Tudo dependerá da noção de "compreensão" que está aqui em jogo.
Mas a cavalo dado (neste caso a uma referência kleistiana caída de onde nunca a esperaria) não se deve olhar o dente.
AMBIÇÃO DESMEDIDA: A minha Grande Aspiração, para falar com absoluta franqueza, era manter um blog igual a este, sem tirar nem pôr, mas em que todas as ocorrências da frase "Gosto muito de vinho branco" fossem substituídas pela frase "Gosto muito de vinho tinto".
Ambição desmedida? Pode ser que sim.
quinta-feira, maio 12, 2005
ANÚNCIOS DE GATO PERDIDO INVENTADOS (9):
Íamos no número 9, não era?
Perdeu-se lindo gato.
Foi num domingo.
O gato tinha uma coleira de cabedal verde.
Eu acabava de completar as palavras cruzadas.
3 vertical, "sempre ao nosso lado, nunca à frente, vermelhas e delicadas", 8 letras.
"PAPOILAS!"
Um vizinho pregava um prego.
Nisto olho para o parapeito, e descubro ausência do gato.
Como cantar a minha mágoa?
Talvez sob a forma de ode.
Em moça, tinha jeito para as cantorias.
Três colunas num jornal local, após vitória em concurso de orfeão.
Nesse dia a água-pé subiu-me à cabeça.
Ah ah, no pun intended.
O meu ricto transtornado diz tudo, poupar-me-ei às manifestações vocais.
Da última vez que ele desapareceu, encontrei-o dentro da embalagem da edição de coleccionador do DVD da "Boceta de Pandora" de Georg Wilhelm Pabst.
Mas desta vez já passaram três dias.
E se ele apanha uma dessas doenças que andam por aí?
Hipótese que de académica não tem nada.
Quem o encontrar, que o venha entregar à dona chorosa.
Mas resignada, com o lábio inferior mordido pelos incisivos, e os punhos devidamente cerrados.
Feito em Lisboa, pelo punho desta que assina...
"LORD JIM" (2): Quando Jim se despede de Marlow, a dada altura, parece ir falar, mas remete-se a um «No. Nothing.» Mais tarde, reflectindo sobre este momento, Marlow escreve: «That was all then - and there shall be nothing more; there shall be no message, unless such as each of us can interpret for himself from the language of facts, that are so often more enigmatic than the craftiest arrangement of words.»
A linguagem dos factos. Um conceito fascinante: transmitir mensagens por meio dos actos, banais, fúteis ou corajosos, cometidos no Mundo, à revelia das verbalizações julgadas traiçoeiras. Sobretudo se a mensagem for dirigida a um único receptor inacessível. Como Lancelot, batendo-se e passando privações, vivendo as aventuras mais perigosas como quem explora uma sintaxe ingrata, substituindo pelas suas errâncias as sílabas que nunca saberia pronunciar em presença de Guenièvre, ou pelo menos nunca sem desmaiar, mordendo a terra demasiado rude.
"LORD JIM" (1): Terminei recentemente a leitura do romance "Lord Jim", de Joseph Conrad. Gostei sobretudo da maneira como neste romance coexistem o lado inglês de Conrad (a omnipresença dos escrúpulos morais por vezes indiscernível de uma preocupação pelas aparências, ou mesmo pela postura no sentido físico do termo) e o seu lado eslavo (manifesto no pessimismo céptico e crepuscular que permeia o livro, que seria talvez apocalíptico se o autor reconhecesse à humanidade uma relevância que lhe conferisse verdadeira dimensão trágica).
Mas o aspecto que considero mais interessante em "Lord Jim" é a sobreposição da história do jovem Jim, grumete caído em desgraça devido a um acto de cobardia que o assombrará o resto da vida, com a história da opinião que o narrador (Marlow) vai formando desse mesmo Jim. Oitenta ou noventa por cento do livro é ocupado pela narrativa de Marlow (dirigido, diga-se, a uma plateia escassamente interessada), e, com muita frequência, a urgência de contar é vencida pela urgência de exprimir o que ele via de excepcional em Jim.
Interesso-me muitíssimo pela tensão entre o excepcional e o medíocre em personagens de romance. Tal como em "A Sibila" ou "The Bostonians", o leitor é deixado na dúvida sobre se está perante uma criatura singular ou perante uma fraude mais ou menos voluntária. Em "Lord Jim", as páginas finais revelam um Jim indiscutivelmente dotado de força de carácter e bravura fora do comum. Muito pessoalmente, acho este dissipar da tensão pouco satisfatório. Senti-me muito mais fascinado pelo Jim que ocupa sucessivos limbos, arrastando o seu orgulho abjectamente ferido pelos portos do Sudeste asiático, entre a aniquilação e a irrelevância. A sua grandeza possui um brilho secreto quando latente no seu corpo jovem e robusto, adivinhada pela narrativa de um perplexo Marlow.
APELO À APEL: É bem sabido que chove sempre, torrencialmente, por alturas da Feira do Livro. (Quem ignora o encanto de ziguezaguear Parque Eduardo VII acima e abaixo, de banca em banca, confiando na protecção precária de um saco de plástico para preservar a integridade dos opúsculos adquiridos?) Nenhum cidadão esclarecido ignorará, por outro lado, que atravessamos um período de seca, se grave ou extrema pouco importa para o caso. Não é preciso ser-se génio nem guru para atinar com uma solução. Prolonguem a Feira do Livro! Façam-na durar meses, até que os aguaceiros concomitantes encham as albufeiras até ao bordo!
É claro que esta seria uma medida ousada, mas os grandes homens da História, como Copérnico, Colombo e Sousa Martins, nada teriam sido sem a vontade de desafiar a tacanhez dos seus contemporâneos.
DISPONÍVEL PARA BLOGAR: Após uma detestavelmente longa hibernação, motivada por interrupção de acesso à Internet e por vasto sortimento de cabalas dirigidas contra mim, este blog regressa ao seu estado normal, a saber, verde, moderadamente prolixo, circunspecto mas opinativo, multifacetado, contras as Coisas Más e a favor das Coisas Boas.
quarta-feira, maio 04, 2005
AI FLORES AI FLORES: No Porto, no dia 1 de Maio, prendem-se florzitas amarelas do lado de fora das portas, para afugentar o demónio. As flores roçam ao de leve os cotovelos de quem passa. Os caules prendem a massa inverosímil dos edifícios aos nevoeiros do Inverno passado. Em cada caixa de correio, um inquieto quinhão de atmosfera. Mas o demónio não existe. Não passa de uma metáfora com olhos raiados.
domingo, maio 01, 2005
IF YOU BUILD IT HE WILL COME: Plantar os respectivos bolbos e regar com regularidade será bastante para que brotem as tulipas (singelas ou não)?
Recusemos estas dádivas de simplicidade num mundo eminentemente complexo e intratável, com a mesma obstinação acanhada com que uma criança declina doces ofertados por um estranho.
GRANDE PERDA PARA A HUMANIDADE: Quando este blog regressar ao esplendor d'antanho, não deixaremos de comentar a anunciada retirada de Garry Kasparov do xadrez profissional. Uma notícia que trouxe (ainda que fugazmente) o xadrez aos noticiários generalistas não poderia deixar de ser tratada aqui. Do muito que haveria para dizer, será dito um poucochinho.
terça-feira, abril 19, 2005
UMA BOA NOTÍCIA QUE NÃO COMPENSA UMA MÁ NOTÍCIA (RATZINGER), MAS LÁ QUE FAZ O SEU ESFORÇOZITO, LÁ ISSO FAZ: Ontem, na acanhada sala do Quarteto, pouco faltou para dar uma pirueta no ar, seguida de flic-flac à retaguarda e parafuso. Felizmente, pude conter-me, e tanto melhor, pois espantar o burguês é passatempo que só pratico esporadicamente.
Motivo da regozijança: a anunciada estreia de um filme francês, "Pas de repos pour les braves", de Alain Guiraudie.
Juntamente com Arnaud Desplechin, Guiraudie foi a grande revelação do cinema francês dos últimos anos, a julgar pelas amostras a que tive acesso na minha estadia em Paris. As suas duas longas-metragens e várias curtas-metragens têm sido copiosamente elogiadas pela crítica, e pelo próprio Godard. "Pas de repos pour les braves" é uma fantasia profundamente divertida e original. E, quando falo de originalidade, saliente-se que é disso mesmo que se trata, e não de mais um dos seus vulgares ersatz.
Espero voltar a falar deste filme. Depois de estrear. Depois de o rever. Já com o blog recuperado.
Entretanto, concentremos baterias no IndieLisboa!
domingo, abril 17, 2005
NEM CHUVA NEM BLOG: O tempo é de penúria. Já se sabe. Na impossibilidade de, nos dias mais próximos, retomar o blog, nem sequer uma amostra de serviços mínimos, limito-me a gabar a paciência dos estimados leitores que continuam a passar por aqui. Eu já teria ido bater a outra freguesia.
Aguardemos dias melhores, com ou sem trejeito de resignação estampado no rosto.
segunda-feira, março 21, 2005
MITOS URBANOS (2): "Um relógio de pulso deixado em cima do frigorífico avaria-se instantaneamente." Como propagar esta advertência desprovida de fundamento? Como fazê-lo brilhando de Graça e Virtude, agradável aos olhos alheios e aos juízos, na cidade em que a multidão se demora nas ruas subitamente interessada nas evoluções da fauna alada?
QUERER SEM PODER: A vontade é muita, mas as ocasiões para postar têm sido mais do que escassas. A conspiração das Forças do Mal ganha peso, e o resultado está à vista. Com mágoa, não posso prometer ser mais assíduo nos próximos dias. Tende compaixão de mim, bloggers dotados de ADSLs de corridas, agraciados com a possibilidade de postar às 4 da manhã no recato do lar se a isso vos conduzir a vontade!
quinta-feira, março 10, 2005
quarta-feira, março 09, 2005
PENSAMENTOS: Segundo Pascal, Deus ocultar-se-ia apenas o suficiente para que aqueles que o procurassem com sinceridade pudessem encontrá-lo. Pode ser que este estratagema ajude a explicar a eterna incapacidade dos homens para se saciarem de símbolos e revelações. Uma cidade como Lisboa, visto não ter obrigações de demiurgo nem ter firmado alianças com povos escolhidos, desobriga-se desse dever de visibilidade. E o mais cruel é que pode nem sequer haver o que revelar. Pode dar-se que, entre paredes maciças e encardidas da baixa pombalina, entre roufenhos vendedores de castanhas e a ocasional gaivota, tudo se resuma a páginas de Apollinaire manchadas de sumo de romã, e ao magnífico choro da solidão.
HOMO LINKENS: A Klepsýdra e a Linha dos Nodos, 2 blogs porreiros como já não se fazem, também nos dirigiram simpáticas menções, razão pela qual os nossos corações transbordam gratidão em copiosos caudais verde vivo.
terça-feira, março 08, 2005
OS INFORTÚNIOS DA HAGIOGRAFIA: Afinal de contas, em que data foi inaugurada a estátua do Doutor Sousa Martins? Tratar-se-á de uma confusão lançada deliberadamente pelos discípulos do Divino Doutor, no intuito de desnortear os falsos seguidores, e distinguir destes os Autênticos Seguidores? Ou terá sido este um exemplo de inauguração eleitoralista? Terá o rei D. Carlos inaugurado a estátua antes de esta estar pronta? Temeria ele o veredicto das urnas?
PS: Gemedura e panela rachada?
QUE TAL UMA GEMINAÇÃOZINHA?: A Memória Inventada e a Voz do Deserto fizeram anos por estes dias, e estão, assim sendo, de parabéns. Somos quase gémeos. Pergunto-me se o zodíaco reservou algum destino especial para os blogs nascidos entre o início e os idos de Março de 2003. (Nota mental, elaborar uma lista de aniversários, para minimizar as hipóteses de me esquecer de saudar blogs amigos que cumpram mais um elíptico périplo terrestre em torno do sol, afixar a lista em paredes, frigoríficos, agendas e costas de mão.)
GALHARDETIBUS TROCARIBUS BLOGEI AMICI: Aos nossos confrades, Almocreve das Petas, Memória Inventada e Welcome to Elsinore, temos também a agradecer amáveis menções por ocasião da nossa entrada no terceiro ano de blogosfera. Obrigado, e possam os vossos posts continuar a brotar céleres e inspirados como de costume.
domingo, março 06, 2005
CLASSIFICADOS: O anúncio do senhor padre Serras Pereira, negando a comunhão às ovelhas que incorressem num extenso rol de alegados crimes contra a vida, levantou grande e justificado burburinho. Não vou comentar, até porque o disparate da iniciativa é tal que se critica e parodia a si mesma. O combate pela laicidade joga-se a outro nível. Este arremedo não passou de uma diversão, inegavelmente burlesca, mas apenas marginalmente relevante.
Interessa-me mais cotejar este anúncio com um outro, que, colocado pela Marquesa de O... nos jornais locais de M..., marca o início da famosa novela de Kleist. Nesse anúncio, recorde-se, a Marquesa fazia saber que tinha engravidado, e que desposaria o pai da criança se este se apresentasse. Os propósitos virtuosos são tão louváveis como os do senhor padre Serras Pereira, mas valha a verdade que as semelhanças entre estes dois anúncios classificados, separados por mais de dois séculos, se ficam por aí. Tratou-se de uma associação forçada, mas que serve para agradecer a menção que o Quartzo, Feldspato e Mica fez ao segundo aniversário deste blog. (E fica também a nossa gratidão para o BdE, Digitalis, Epicentro, Last Tapes e Seta Despedida, e para outros que tenham escapado à minha vigilância e às malhas do Technorati.)
CINEMA: "Les Temps Qui Changent", de André Téchiné. Este filme retoma muitos dos temas centrais da obra de Téchiné: o exílio, a desambientação cultural, as derivas emocionais, as relações familiares, os atritos entre gerações, a homossexualidade. Se as linhas fortes são conhecidas, a maneira como este antigo crítico dos "Cahiers du Cinéma" as explora em "Les Temps Qui Changent" é particularmente subtil e dinâmica. Téchiné consegue o feito de, no seio de uma teia de personagens e relações de força típicas de um filme seu, introduzir um elemento de heterogeneidade que serve ao mesmo tempo de contraponto e de potenciador dos conflitos latentes. Falo da personagem Gérard Depardieu, Antoine, engenheiro francês em missão em Marrocos, habitado pela ideia fixa de reconquistar o primeiro amor da sua vida, Cécile (Catherine Deneuve). O propósito de Antoine é ao mesmo tempo simples e eminentemente escandaloso. Não tem nada a seu favor, não avança com argumentos, mal se atreve a suplicar. Limita-se a estar lá: maciço, insistente, senhor de uma melancolia distante e (muito vagamente) lunática. Recorre à feitiçaria, mas mais como quem admite serenamente os limites da lógica e da persuasão. Acredita, contudo.

Na história do cinema, não é raro que o escândalo surja sob roupagens modestas e banais: relembre-se Terence Stamp no "Teorema", de Pasolini, anjo imaculado que irrompe no ambiente de uma família italiana com a naturalidade de uma visita de circunstância. Em "Les Temps Qui Changent", o escândalo é um corpo (Antoine, de fato e gravata, tenso e desajeitado), e um modo de contaminar a narrativa: directa ou indirectamente, distorce as relações de força, engendra pontos de fuga, e, por fim, impõe um desfecho, auxiliado (ou não) pelas circunstâncias da natureza (as chuvadas, a derrocada, o coma). A personagem aparentemente mais débil acaba, assim, por se afirmar como a mais poderosa. E é notável como Téchiné consegue articular este fulcro com episódios colaterais, frequentemente de singular beleza (a cauterização da ferida com a chave, o passeio do marido de Cécile e da irmã da companheira do filho). Longe de se dispersar em irrelevâncias, aquilo que Téchiné faz é oferecer-nos blocos narrativos em movimento centrífugo relativamente à acção principal, subitamente válidos e intensos por si mesmos, na sua trivialidade. Haverá vida depois do milagre, depois de Antoine acabar ganhando a sua aposta louca de recuperar Cécile. "Os tempos que mudam" acabam por se assemelhar estranhamente aos primórdios de uma paixão que se julgava, mais do que extinta, marginalizada pela memória.
A arte da Téchiné é uma arte de filmar à flor da pele, com um imediatismo feito de epifanias minúsculas e nervosas; mas é também uma arte do argumento, burilada ao longo de uma carreira já longa, e que vai muito além de um mero desenrolar eficaz de um enredo. Em "Les Temps Qui Changent", ao dar mostras de uma soberba maturidade que admite questionamento constante de processos e modos de operar, Téchiné oferece o seu filme mais conseguido desde as suas anteriores colaborações com Deneuve em "Ma Saison Préférée" e "Les Voleurs".
(Uma derradeira palavra para exaltar o trabalho de Depardieu, magnífico no seu desespero contido, inigualável no seu talento de traduzir o desiderato inverosímil da sua personagem em gestos e posturas de convenção e resignação. Para mim, ele é o maior actor da história do cinema francês, juntamente com Michel Simon. Só é de lamentar que disperse tão amiúde as suas capacidades em filmes menoríssimos.)

sábado, março 05, 2005
A MARCA CERTA: Numa das últimas sessões do concurso "O Preço Certo em Euros", um dos prémios anunciados era um leitor de DVD de marca Sony. Todavia, no aparelho em questão, lia-se distintamente a palavra "Toshiba". Esta discrepância pode parecer de somenos importância, mas o cidadão alerta não deve discriminar as pequenas das grandes coisas. Um estado de vigilância permanente é incumbência de todos. Ego vir videns, eu sou um homem que vê ("Lamentações de Jeremias", 3, 1).
LIDO NO "DN" DE 21/2: Em declarações recentes, a actriz Jennifer Beals defendeu que «Discriminar alguém por amar outra pessoa do mesmo sexo parece-me absurdo». E ainda: «Fico chocada com o facto de os casamentos homossexuais serem sempre um grande caso». Nos tempos que correm, todas as vozes que contribuam para derrubar os preconceitos dirigidos contra as orientações sexuais alternativas são bem-vindas. Para as gentes mais moças, refira-se que Jennifer Beals ficou conhecida por protagonizar o grande êxito dos anos 80 "Flashdance". Contudo, atrevo-me a vaticinar que as gerações cinéfilas futuras a recordarão essencialmente pela sua mítica aparição no filme "Caro Diario", de Nanni Moretti. Michèle Apicella (Moretti) acaba de se lamentar por nunca ter aprendido a dançar, e confessa que Jennifer Beals é um dos seus ídolos, e eis senão quando avista a própria Jennifer numa rua de Roma.
«Off... vuol dire... Strano. Particolare. Verso il pazzo, ma non ancora.»
quinta-feira, março 03, 2005
O QUE HÁ NUM NOME?: Escreve Gertrude Stein, em "The Coming of the Americans":
«(...) after every war when I talk and listen to all our army, it feels like that too, the thing I like most are the names of all the states of the United States. They make music and they are poetry, you do not have to recite them all but you just say any one two three four or five of them and you will see they make music and they make poetry.»
Não podia ser mais solidário com este fascínio por nomes de lugar. Por aquilo que evocam, pelas promessas que os detalhes da sua fonética e da sua grafia contêm. Pronunciar um nome é trazê-lo para a vida, integrá-lo em frases é oferecer-lhe os prodígios da sintaxe para ocupar o seu lugar nos anseios e aspirações dos viajantes frustrados. Um nome de lugar é um nome repleto: de informação, de construções imaginárias, de um percurso pessoal que difere de pessoa para pessoa. É quando neles coexistem a realidade física, verificável, e a efabulação solitária de um visitante potencial, que o nome de lugar alcança a sua condição mais fascinante.
Gertrude Stein tem, obviamente, um precursor ilustre. O que se segue é um excerto de Marcel Proust ("Nom de Pays: le Nom", "Du Côté de Chez Swann", "À la Recherche du Temps Perdu"):
«(...) de même la production de ces rêves d'Atlantique et d'Italie cessa d'être soumise uniquement aux changements des saisons et du temps. Je n'eus besoin pour les faire renaître que de prononcer ces noms: Balbec, Venise, Florence, dans l'intérieur desquels avait fini par s'accumuler le désir que m'avaient inspiré les lieux qu'ils désignaient. Même au printemps, trouver dans un livre le nom de Balbec suffisait à réveiller en moi le désir des tempêtes et du gothique normand; même par un jour de tempête le nom de Florence ou de Venise me donnait le désir du soleil, des lys, du palais des Doges et de Sainte-Marie-des-Fleurs.»
SEM TIRAR NEM PÔR: O tom adoptado neste blog tem vindo a pender, com muita frequência, para a sátira, para a vinheta bem-humorada, mais ou menos jocosa, para o enésimo grau da ironia. De quando em vez, surge a necessidade de arrumar a um canto as máquinas de fumo, os prismas e filtros, as mascarilhas e os adereços. De vez em quando, impõe-se a urgência de dizer as coisas como elas são. A sério. Sem outra preocupação que não seja a de transmitir convicções.
E os dois anos deste blog são pretexto tão bom como qualquer outro.
Aqui vai. Vou numerar os parágrafos. Acho que é assim que estas coisas se fazem.
1 - Este blog nasceu de um insulto, e nem por um único momento, nem por uma única linha, isso foi esquecido. Não é de agora a suspeita de que o ódio é o mais potente de todos os impulsos. Fiquei a saber que é também o mais duradouro.
2 - Este blog representa um esforço de conciliação entre a faceta pública e a faceta privada, esforço esse que passa por forçar a coabitação entre essas mesmas facetas, para melhor pôr a nu as diferenças de natureza, e assim promover uma separação de águas mais eficaz, indolor e permanente. Os episódios de promiscuidade não ultrapassam a dimensão de escaramuças. No teatrinho de fantoches, emulam a luta real, com uma graça enternecedora que é também pedagógica.
3 - Este blog fundou-se sobre a certeza de que existe uma maneira moralmente acertada de beber um copo de água, descascar uma maçã, etc. Ou melhor: fundou-se sobre a convicção de que se deve agir como se essa certeza existisse.
4 - Este blog aniquilar-se-ia (sem um suspiro) se não fosse a persuasão de que a pergunta "como viver bem?", mais do que uma pergunta importante, é a única pergunta.
5 - Este blog existe porque existe a esperança de que a arte, os livros, filmes, quadros, sejam dotados de um poder resgatador, de magnitude suficiente para dispensar questões sobre o que há para resgatar. O gesto artístico é uma singularidade irredutível às convulsões da vida; mas a arte está na vida, e declina-se em vivências que os nossos quotidianos acolhem. Eis o paradoxo. Perante uma obra de arte, quem dela frui tem todos os deveres, e nenhum direito; reduz-se à humildade absoluta, ainda que sem abjecção («(...)avec combien peu d'abjection s'égale-t-il [le chrétien] aux vers de la terre!», Pascal, "Pensées"). Mas não abdica por isso da sua condição de cidadão, livre e com direitos. Eis o paradoxo.
6 - É tudo.
quarta-feira, março 02, 2005
TABELA DE COZEDURA: Num cartão publicitário de empresa de alumínios que aterrou na minha caixa de correio, uma útil tabela indica-nos os tempos de cozedura de diversas variedades de marisco. De entre a sapateira média, santola média, lagostim médio, camarão médio, navalheira, percebe, burrié, búzio, canilhas, caranguejo médio, caranguejo grande, lagosta média e lavagante médio os campeões são estes dois últimos, com 20 minutos de cozedura. Em contrapartida, o lagostim médio não requer mais do que um minuto e meio na água fervente e salgada.
Fica-se também a saber que uma colher de sopa rasa de sal equivale a 15 gramas.
Que saudades que eu tenho do boletim da paróquia de Santa Joana Princesa.
KLEIST NO CINEMA, VERSÃO FAIT-DIVERS: No filme "O Casamento de Maria Braun", de Fassbinder, a personagem de Hanna Schygulla recusa, no mercado negro, um volume de obras de Kleist, sob o pretexto de que um livro arde mais rapidamente do que a madeira. Em tempos de ressaca da segunda guerra mundial, as qualidades combustíveis ganhavam precedência sobre a valia literária.
terça-feira, março 01, 2005
M IS FOR MOZART:
« Mozart menino magicava melopeias, maravilhando monarcas, marquesas, marqueses. Mozart maduro matava memórias malditas, musicando motivos matreiros.» (continua...)
Assinalável, a aliterativa alusão ao adorado artista austríaco Amadeus. No blog Digitalis.
GODARD ENCONTRA PASCAL:
«Si nous rêvions toutes les nuits la même chose, elle nous affecterait autant que les objets que nous voyons tous les jours. Et si un artisan était sûr de rêver toutes les nuits, douze heures durant, qu'il est roi, je crois qu'il serait presque aussi heureux qu'un roi qui rêverait toutes les nuits, douze heures durant, qu'il serait artisan.» (Blaise Pascal, "Pensées")
«Frantz pense à tout et à rien. Il ne sait pas si c'est le monde qui est en train de devenir rêve ou le rêve, monde.» (Voz de Jean-Luc Godard, no filme "Bande à Part", a propósito da personagem de Sami Frey.)
Gosto de imaginar que as fantasias pascalianas de Frantz tiveram como origem um livro de bolso comprado num bouquiniste nas margens do Sena, lido em diagonal num banco de esplanada de um café de Saint-Michel, mal assimilado devido às derivas constantes do seu pensamento, em torno de algumas ideias fixas: conquistar a Odile de Anna Karina, roubar um milhão, fugir para a América do Sul.
DEMAGOGIA CRISTÃ: Numa tirada que deveria passar a constar dos anais do disparate, do despeito e do mau perder, Paulo Portas afirmou que Portugal é o único país do mundo em que "os trotskistas estão apenas a um por cento da democracia cristã". A afirmação é bem menos ousada do que aparenta ser. A democracia cristã é uma aberração com uma implantação que está longe de ser mundial, uma amálgama destituída de sentido e de propósito, a não ser o de servir de cavalo de Tróia para a imisção da religião na esfera política.
Em França, por exemplo, o trotskismo tem até maior expressão eleitoral do que a democracia cristã, pela simples razão de que esta não existe. E assim é que está certo. Mas talvez Paulo Portas exclua automaticamente a França do cortejo das nações livres, sem sentir a necessidade de o frisar nos seus discursos.
MAIS UMA ELIPSE TRANSLATIVA TERRESTRE: Este blog cumpre hoje dois anos. Quando lançámos este projecto singularmente colectivo, eu ignorava se duraria dois meses ou trinta anos. A segunda hipótese, contra toda a verosimilhança e o bom senso, está agora apenas a 28 anos de se transformar em realidade, em verde e garbosa realidade. E tudo isto graças a quem? A vocês, leitores, a quem mais!? É por vós todos que este coração empedernido, outrora incapaz de latejar, lateja.
segunda-feira, fevereiro 28, 2005
ANÚNCIOS DE GATO PERDIDO INVENTADOS (8):
Perdi gato
Quero gato
Dou dinheiro a quem me der gato
Dinheiro é bom
Com dinheiro compram-se coisas
Bijuteria em ouro
De raro quilate
Trajos debruados
Regalo para vista e tacto
Gato é bom
Tem narinas, garras e mia
Enfim é gato
Também tenho lindas noivas da Ucrânia
Discrição total garantida
Gato ronronava como um fole
Perdi-o e pronto
Cabe um gato enroscado no colo das noivas ucranianas
Eslavas interjeições de ternura polvilham a interminável noite
domingo, fevereiro 27, 2005
DE ENVELOPES E BOCADOS DE METAL: E eis que se repete o ritual dos óscares, com as inevitáveis colateralidades sob a forma de especulações, graçolas asininas, toilettes hediondas e pseudo-controvérsias. Dizer mal dos óscares, neste blog, transformou-se já numa pequena tradição. Compreendo mal o interesse dedicado a este evento de auto-celebração de uma indústria, onde acabam sempre, salvo raras excepções (e as excepções são amiúde mais reveladoras do que a regra, neste caso), por ser premiados o conformismo e o respeito pelos cânones.
Tal como sucede com tantos outros prémios de prestígio, em diversas áreas (estou a pensar no Nobel, no Goncourt...), os óscares souberam dotar-se de um poder auto-legitimador que dispensa considerações sobre a competência e a idoneidade de quem os atribui. Um óscar é UM ÓSCAR, e ponto final parágrafo. Mas um óscar é muito mais do que um prémio: é uma marca registada que também serve como elemento na cadeia de promoção comercial de um filme. Dedicar às estatuetas douradas mais do que uma referência en passant, num órgão de comunicação social, implica conivência com essa situação, nos limites entre o reconhecimento da excelência artística e a propaganda.
quinta-feira, fevereiro 24, 2005
MITOS URBANOS (1): O sucesso de um mito urbano joga-se no improvável terreno de intersecção entre o inverosímil e a comodidade doméstica da narrativa. Para que ganhe aceitação, é necessário que reúna duas condições quase incompatíveis: deve, por um lado, conter uma parcela de escabroso, um insulto latente à tepidez do quotidiano; e, por outro, deve ser domesticável sob a forma de uma narrativa, capaz de ser acolhida na matriz de ficções que constitui o tecido das vivências e especulações humanas. Gerar e propagar um mito urbano é tarefa de elevada dificuldade. Basta experimentar para se ficar com a certeza disso. É requerida imaginação. É requerida experiência. O acesso a uma amostra de população atenta e móvel é condição necessária. Não é indispensável um plano, um propósito. Pelo contrário. O sucesso premeia o desprendimento. Na rua, à tardinha, as pessoas cujo caminhar apressado se observa à altura dos tornozelos não adivinham aquilo que as espera para o dia seguinte. Os tempos estão perigosos.
DO QUE SE NUTRE A GRANDE LITERATURA: Uma das personagens do romance "La Muse du Département", de Balzac, sustenta que, excepção feita à "Histoire des Variations" de Bossuet, e às "Provinciales" de Pascal, nada restaria da literatura, se dela se extirpassem as obras que tratam do adultério («...où il est question de femmes aimées à l'encontre des lois.»). E menciona "Tartuffe", "L'École des Femmes", "Phèdre", "Andromaque", o "Inferno", os sonetos de Petrarca e a história romana, e até mesmo o "Paraíso Perdido" e os salmos de David!
E contudo, contudo, quando escutamos o Prof. João César das Neves, ficamos convencidos de que o adultério só passou a existir na nossa sociedade obcecada com o prazer após as libertinagens de Maio de 68 e os desmandos do Concílio Vaticano II. Antes disso, imperava a harmonia conjugal universal. Em quem acreditar? O que faz a polícia?
AO QUE ISTO CHEGOU: A estação de metropolitano Roma encontra-se num estado deplorável: graffiti velhos de anos (se não de décadas), obras que se arrastam, canais de acesso avariados, iluminação escassa, desleixo geral, aspecto lúgubre. Na minha qualidade de utente regular, que paga o seu passe de 30 dias e que em troca espera um serviço de qualidade, sinto-me no dever e no direito de protestar. Se existe correlação entre esta situação e o descalabro moral da nação, cabe a espíritos mais esclarecidos do que eu indagar. Mas lá que existe concomitância temporal, existe. (NOTA: Isto não é um pastiche de carta a director de jornal de freguesia.)
quarta-feira, fevereiro 23, 2005
THE EMPEROR'S NEW CLOTHES: Este blog está agora instalado aqui, consumou-se a mudança de entidade albergadora. Porém, devido a condicionalismos transientes de ordem informática/logística, o ritmo de publicação não deverá recuperar a vivacidade d'antanho antes de algumas semanas. Gratos pela paciência. Ah, e, caso notem problemas no template, etc., ficarei reconhecido se tiverem a fineza de mo comunicar por e-mail (ver coluna da esquerda), viva voz, ou estreita tira de papel glorificada com cursivo minúsculo e enrolada em pata de pombo.
LE FOND DE L'AIR EST ROUGE: A Fábrica de Chaves do Areeiro oferece uma vasta gama de artigos, entre os quais fechaduras sem cilindro, de duas ou quatro trancas, com chave tipo "cofre", fechaduras de alta segurança eléctricas em dois pontos, sem cilindro, com chave telescópica, e uma super porta blindada com fechadura de alta segurança, visor panorâmico de 180 º, dobradiças especiais, aros em aço, estrutura com secção rectangular de aço, e folheado em contraplacado de mogno. Nenhum pai de família deve dispensar equipar-se com estes dispositivos, agora que os trotskistas estão apenas a um por cento dos democratas cristãos. Protejam os vossos bens!
segunda-feira, fevereiro 21, 2005
CHUVA, CHUVA, CHUVINHA...: Em Fátima, reza-se para que a chuva chegue, por fim. Acho sempre instrutivo constatar como a Igreja se permite deixar fugir o pé para a chinela do paganismo, quando tal lhe convém. A chuva é, decerto, objectivo mais aliciante e vendável do que a salvação eterna ou a virtude cristã. Quando as primeiras gotas caírem, não faltarão as vozes para sugerir uma intercessão da Virgem Maria. Nem de outro modo funcionam os ritos de fertilidade. O modus operandi e a eficácia estão comprovados há vários milénios.
UMA BRECHA NO CINISMO: A mulher da Cova da Moura que chorava por causa da morte do agente da PSP. Nem por afinidade familiar nem desgosto por via do genérico estado das coisas: mas porque "ele também era filho de alguém". Esta brecha no cinismo nosso de cada dia fez-me recordar que há poucas coisas mais nobres do que a compunção pela dor alheia.
quarta-feira, fevereiro 16, 2005
PROCURA-SE SERVIÇO PÚBLICO DE TELEVISÃO: Estou a assistir ao oportunista documentário da RTP1 sobre Fátima. Uma só palavra: desastroso. A perspectiva céptica e crítica não é minimamente tida em conta. O documentário parte do princípio de que as aparições sucederam, e preocupa-se mais em narrar o lento despertar das hierarquias católicas para o interesse de anexar Fátima à sua doutrina do que em procurar respostas para a questão "o que se passou ao certo na Cova da Iria entre 13 de Maio e 13 de Outubro de 1917?".
Poderá ser alegado que não era esse o objectivo do documentário. Mas como é que uma peça jornalística sobre um fenómeno com tão forte impacto se pode furtar a dar voz a uma abordagem céptica e indagadora? No mínimo, as opiniões de um especialista em psicologia de massas seriam fortemente bem-vindas.
Deplorável, mas previsível.
O rol de razões para ler o Diário Ateísta alonga-se de dia para dia.
terça-feira, fevereiro 15, 2005
O SEU A SEU DONO: Na Biblioteca Municipal Orlando Ribeiro, os DVDs dos filmes "Os Idiotas" (Lars Von Trier) e "Conto de Verão" (Éric Rohmer) encontram-se classificados na secção "comédias". A Biblioteca Municipal Orlando Ribeiro fica situada no antigo Solar da Nora, Estrada de Telheiras, Lx. Será a divisão em géneros uma mera e conveniente invenção da indústria cinematográfica? Sinto vontade de rever "Conto de Verão", mas também de o ver pela primeira vez. Sinto vontade de comer uma "galette de sarrasin" com manteiga bretã salgada.
segunda-feira, fevereiro 14, 2005
domingo, março 02, 2003
sábado, março 01, 2003
Numa época que receia as causas, como se receiam as investidas de um vizinho importuno, com fama de lunático, a entrega a uma causa pode revestir-se de formas muito diversas. Nem todas envolvem um antigo armazém na zona de Alcântara (mediocremente aquecido), ou a encenação de uma peça de Heinrich von Kleist (1777-1811), ou tempo roubado aos afazeres, ao sono, às obrigações sociais, ou adereços vários.
Não era inevitável que este projecto transbordasse para a esfera da vida real, e que as frases, gestos, sussurros, combates simulados, amuos, versos livres, pausas, enganos, contornos de lábios, convicções, se instalassem no quotidiano, nas semanas, no domínio público.
Não era inevitável, mas qualquer um de nós o poderia prever, se as implicações do credo que nos unia tivessem sido sondadas desde o início. E esse credo era (é): UMA MÁXIMA QUE É VÁLIDA NO PALCO É-O TAMBÉM NA VIDA.
Talvez a essência daquilo que se persegue durante os ensaios acabe por ganhar hegemonia no Mundo, e talvez sirva de pólo/intérprete/rasto de pedrinhas para todos os assuntos do Mundo; e talvez a verdade daquilo que assim se desoculte seja melancólica.
Ainda assim, e ainda que seja esse o último capítulo da história do mundo
é importante (ou, pelo menos, vagamente edificante) que alguém faça a crónica.
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