domingo, maio 29, 2005

VIER LETZTE: É verdade, Dissoluto Punito, é verdade! Duas récitas das "Quatro Últimas Canções" de Strauss. A primeira delas, se não erro, pela Soile Isokoski, e a segunda, ali no São Carlos, pela "diva" Cheryl Studer. Ambas memoráveis, cada uma à sua maneira. (PS - Diverte-te em Paris!)
NORTE CONTRA SUL: Para além de ser pouco espessa, a separatória que divide a vida pública da vida privada possui marcas verticais nos pontos onde devem incidir as catanas.
LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Nas escadas rolantes da estação de metro da Alameda, um cavalheiro lia "Pedro Páramo", de Juan Rulfo, denotando a concentração que esta obra-prima da literatura mexicana exige.

terça-feira, maio 24, 2005

PAS DE REPOS POUR LES BRAVES: Começaria por transcrever um excerto da crítica de Jean-Michel Frodon para os "Cahiers du Cinéma", onde é levantado um ponto que me parece crucial relativamente a este filme de Alain Guiraudie: «Guiraudie rêve ses films éveillé, mais il est un sacré bon rêveur. Dans la joie alerte des assonances de couleur, des rebonds, des péripéties, des échos de récits anciens, de films aimés, de moments intimes, voici que se déploie, souveraine et modeste, l'épopée de Basile (...) Guiraudie est un farceur insolent, un styliste doué, un graphiste méridional (...) Mais surtout, Alain Guiraudie est un cinéaste. Quand il fait un plan, c'est un véritable plan de cinéma.» Independemente da história (hilariante, por sinal), do seu universo pessoal, das suas obsessões, é precisamente isso que impressiona em Guiraudie (e não só neste filme, aliás): em cada plano, existe uma lógica na disposição dos elementos, não a lógica fria de uma demonstração, mas a lógica levemente anárquica, dinâmica e celebratória de um filme transbordante de criatividade e de confiança na sua capacidade de transmitir algo mais para além de uma simples construção narrativa ou de um cambiante emocional de uma personagem. Ou, misturando duas famosas citações de Rivette e de Godard: uma ideia de cinema 24 vezes por segundo. (NOTA: Ao escrever de forma tão ditirâmbica sobre um filme que, tanto quanto sei, só está em exibição em Lisboa, peço desculpa aos meus leitores de fora da capital. É triste constatá-lo, mas, neste país culturalmente centralizado, falar de bom cinema equivale muitas vezes a excluir quem está fora dos grandes centros. Esperemos que este filme tenha a difusão que merece por outras salas mais periféricas.)
O MEU MOMENTO ZEN (*): As crónicas semanais de João César das Neves oscilam entre ponderadas lucubrações sobre aquilo de que ele realmente percebe (economia) e hilariantes desvarios sobre temas "de sociedade" ditos "fracturantes" (para empregar um termo em voga), como sejam a homossexualidade, a degradação dos costumes, o aborto, etc. São raras as suas intervenções que se situam a meio caminho entre estes dois extremos, mas são também, a meu ver, as mais interessantes. Eivadas de inconsistências e vícios de raciocínio, generalizações apressadas e analogias mancas, sucede-lhes escapar à inanidade absoluta. Na sua coluna de ontem, JCN traça um cenário futurista aparentemente inquietante (mas que, entende-se implicitamente, não seria mais do que um juste retour des choses, uma vingança irónica da história sobre a secularização galopante do nosso tempo): «Imagine que dentro de décadas toda a gente pense que a ciência é uma actividade sinistra, enganadora, perigosa. O uso de tecnologias por terroristas, os infindáveis debates académicos, as dúvidas sobre teorias estabelecidas irão minando a confiança absoluta que temos no conhecimento científico.» Este cenário não é difícil de imaginar, pois a ciência já é desprezada e olhada com irada desconfiança por muitos sectores, e por largas faixas da opinião pública. O próprio JCN admite prontamente, aliás, que esta sua especulação conceptual não prima pela ousadia: «Este cenário nem é bizarro. Basta lembrar as suspeitas pós-modernas e a popularidade crescente de ideias esotéricas e mágicas para que se torne bastante plausível.» Com a extrapolação que se segue, começa a derrapagem: «Se extrapolarmos tais tendências, não faltará muito para a cultura vir a pensar da ciência e técnica aquilo que hoje pensa da religião e fé.» Seguindo a estratégia da vitimização adoptada por 9 em cada 10 colunistas do nosso burgo, JCN parece querer-nos fazer acreditar que a religião é hoje unanimemente espezinhada e desacreditada, ao passo que a ciência é universalmente exaltada como a única e infalível fonte de verdade. Bastam umas migalhitas de atenção e boa fé para constatar que este quadro distorce grotescamente a realidade. E a realidade é esta: da RTP a transmitir a procissão das velas em directo até aos escapulários oferecidos por um jornal de grande tiragem, a religião continua a ter um peso esmagador na nossa sociedade (refiro-me à portuguesa), que a ciência está longe de poder contrabalançar. Ou então escapou-me o que JCN entende por "a cultura", essa cultura fantasma que menoriza e achincalha a religião. Pressinto que isto nos faria enveredar por indesejáveis labirintos argumentativos colaterais. Adiante. «Parece impossível que alguém ponha em dúvida a certeza demonstrada da ciência.» Falso. Não só não parece impossível, como a isso obriga a boa prática científica. Não existem "certezas demonstradas" na ciência, mas sim modelos, hipóteses e teorias que podem e devem ser constantemente confrontados com a experiência, e que devem ser abandonados ou reformulados quando se demonstre a sua incoerência ou incompatibilidade com observações empíricas. JCN procura conferir à ciência uma natureza dogmática, quiçá se para a fazer assemelhar-se à religião, e assim polir a sua duvidosa analogia. «Nesse cenário fictício, os habitantes do futuro julgarão que nós, por acreditarmos na ciência, somos parolos ignorantes e boçais, vítimas de superstição. [...] Se for verdade essa possibilidade, os nossos descendentes vão achar que os investigadores de hoje são todos interesseiros e corruptos, usando a sua actividade só para encher os bolsos. Precisamente como os filmes de Hollywood costumam representar os clérigos.» Claramente, JCN e eu não andamos a ver os mesmos filmes. Talvez o cine-clube da Universidade Católica esteja a passar uns ciclos interessantes. A conferir. «Existe um abismo que nos separa das nossas fontes culturais. Este é o terrível drama actual deitámos fogo às nossas raízes.» Leia-se "às nossas raízes cristãs", bem entendido. Não se leia "às nossas raízes humanistas e ao legado iluminista", coisa que seria de somenos importância na óptica de JCN. «O homem de hoje continua a confrontar-se com o mistério da sua origem e do seu destino. Os modernos esforços científicos nada conseguem dizer quanto ao sentido da existência humana.» Nem é esse o seu objectivo. O "sentido da vida", entendido na sua acepção maximalista, como resposta a perguntas como "Quem somos? Para onde vamos?" e outros sucessos do género, não passa de um abuso linguístico, uma ficção que tem sido sequestrada e prostituída por ideologias e religiões de todos os quadrantes, ao longo da história. «Os que hoje ridicularizam a religião não têm nada que a substitua e perderam o rumo e orientação.» Mais uma glosa do popular tema segundo o qual não existe "rumo" nem "orientação", ou seja "moral", sem religião. Também isto é um dogma. Em resumo: JCN baseia-se num cenário que pouco deve à realidade (religião oprimida e substituída pela ciência triunfante na sociedade de hoje), e daí projecta uma fantasia histórica (a ciência, por sua vez, desacreditada pela mesma "cultura" que a aclamou) que, por se fundar em terreno tão movediço, tem um interesse nulo. A ciência não se veio substituir à religião (a não ser no terreno particular da explicação dos fenómenos naturais, onde a religião nunca deveria ter interferido), nem veio trazer um sucedâneo de sentido e de moral susceptíveis de serem postos em causa pelos vindouros. Muito pragmaticamente, limita-se a classificar e enquadrar em modelos a realidade do Mundo, e apenas entra em conflito com a religião quando esta tenta impor a sua Verdade revelada, absoluta e eterna (e de natureza assaz vaga, diga-se de passagem) às verdades (sublinho o plural e a minúscula) provisórias e de alcance circunscrito, mas fecundas, que a actividade científica produz. (Mas gostei muito da parábola de Kierkegaard.) (*) Título surripiado aos mais incisivos e incansáveis exegetas cesarnevesianos da blogosfera e arredores, o Diário Ateísta.
TÃO LONGE, TÃO PERTO: Fiquei a par da escolha de António Guterres como novo Alto Comissário para os refugiados graças a um jornal esloveno, o Vecer. (Don't ask...) Confirmei a notícia no Expresso, que (e isto até os seus detractores admitirão) possui a suprema vantagem de estar escrito em português.
CINEMA:
Estreou finalmente o filme "Pas de Repos pour les Braves", evento que em muito contribuiu para o meu bem estar geral, já para não falar da minha fé na providência e na humanidade em geral. Espero falar com algum detalhe deste filme. De momento, limito-me a afirmar que, instado a explicar em duas ou três frases o que me entusiasmou neste filme de Alain Guiraudie, eu balbuciaria uma vacuidade relacionada com o facto de ser esta uma obra que faz plena justiça ao cinema enquanto arte autónoma e maior, dotada de especificidade, e que apaixona tanto mais quanto afirma e explora essa especificidade, em vez de se remeter ao deprimente e bem comportado papel de parente pobre.

segunda-feira, maio 23, 2005

ANÚNCIOS DE GATO PERDIDO INVENTADOS (10): Hoje temos uma enorme surpresa para todos os nossos leitores. O anúncio de gato perdido inventado "númaro" 10 é nada mais nada menos do que um poema de João Luís Barreto Guimarães, extraído do seu livro "3" (Gótica, 2001). um gato assim era quase um sítio perdido entre o pêlo e o acordar (pequena fábula sonhada por entre as patas) quem o enviou quis ensinar ao mundo o sentimentos da inveja. a mãe tirava da boca para lhe dar assim mesmo o lorde mentia na hora a que chegava das sete vidas paralelas. um dia fugiu pela manhã o (in)g(r)ato mesmo sem se despedir ou pagar o que levou: a coleira nova e o guizo.............................150$00 duas latas de comida.................................395$00 um saco de areia higiénica.......................200$00 dá notícias pedaço de deus se acordares desse intrigante sono repousando de (qual?) cansaço que pensas tu afinal de Ivan Petrovich Pavlov?
PEQUENO E NEGRO É COMO O QUEREMOS: Parabéns (tragicamente atrasados) e obrigado ao Little Black Spot por 2 anos que valeram a pena seguir. E as minhas desculpas a todos os blogs porreiros cujos aniversários me vou esquecendo de assinalar por desleixo. Deus quer, o homem sonha, e eu procrastino como gente grande.
RIDENDO CASTIGAT DÉFICE: Na revista "Visão" do passado dia 19 de Maio, alguns economistas nacionais de graúda reputação opinam sobre as medidas a tomar perante a aflitiva derrapagem das contas públicas. O rol de medidas raramente sai do previsível: com mais ou menos cambiantes, andam à volta dos cortes nas despesas, do aumento dos impostos, emagrecimento do sector público, et caetera. Não deixa, contudo, de ser fascinante apreciar, de proposta em proposta, as pequenas diferenças, que (como dizia John Travolta em "Pulp Fiction") é onde reside o verdadeiro interesse. Por exemplo, Miguel Cadilhe preconiza a "Autoproibição do Estado de recair em grandiosos eventos/equipamentos caríssimos e desproporcionados (estádios de futebol, submarinos), e não serei eu quem discordará. Já Miguel Beleza, esse, escolhe outro alvo, com uma precisão pragmática de cortar o fôlego: defende "mais rigor nas despesas supérfluas, como, por exemplo, na atribuição de alguns subsídios à Cultura". A cultura e a sua vocação para bombo da festa. A cultura e a sua fama de capricho, vistoso mas inútil, de uma sociedade. Eleger a cultura como vítima prioritária de cortes e medidas de contenção em tempo de crise pode dever mais ao filistinismo do que à sagacidade. Admitir que tal possa contribuir significativamente para reduzir o défice é certamente de mau economista. (Como, mais adiante, Miguel Beleza aponta o regresso de José Mourinho como outra das medidas que urge tomar, talvez não passe tudo isto de uma longa e sofisticada chalaça.)

domingo, maio 22, 2005

DOIS ANOS DE PETAS: O Almocreve das Petas fez dois anos. 365x2 dias (mais um por causa do bissexto) de prosa inspirada e certeira, a espaços gongórica mas límpida nas intenções, nas embirrações, mas também na generosidade com que explora os seus temas predilectos. Kleist sopra os seus parabéns!
QUERELA DOS ROMÂNTICOS E DOS CLÁSSICOS NUMA SÓ PESSOA: Stendhal dizia querer ser romântico nas ideias e clássico nos meios de expressão. Não posso senão simpatizar com este propósito - tão abundante e genialmente vertido em obras por este autor. Aplicado a uma cidade como Lisboa, um tal princípio equivaleria a insuflar paixões inverosímeis nas estátuas públicas sobriamente proporcionadas, e a dissimular segredos atrozes por detrás das regras de ouro que regem as medidas das fachadas dos edifícios.

quinta-feira, maio 19, 2005

POR ESTA ORDEM: Por exigência do seu novo filme, Natalie Portman rapou inteiramente o cabelo. Falando do seu novo visual, a actriz declarou: «Alguns vão provavelmente pensar que eu sou neo-nazi, que tenho um cancro, ou que sou lésbica.». Ou seja, um crescendo de horrores.
O QUE HÁ NUM NOME? (3 E FIM): Hipótese 7: Talvez Bento XVI tenha escolhido o nome "Bento" por ser apreciador do licor Bénédictine. Hipótese 8: Testemunho de admiração pela obra poética de José Bento. Hipótese 9: Recordação (voluntária ou não) da inesquecível personagem de Bento Pertunhas, imortalizada por Júlio Dinis em "A Morgadinha dos Canaviais". E, finalmente, a décima e perturbadora hipótese: Ao escolher o nome "Bento", o pastor alemão associou ao trono pontifício o número XVI. Ora, 16 é o número atómico do enxofre. Será este um sinal oculto relativo à verdadeira origem de Ratzinger?
UMA PAUSA SEM KITKAT: O Zé Mário desafiou, e a gente aqui gosta de desafios. 1- Não podendo sair do Fahrenheit 451, que livro quererias ser? Gostava de ser o "Crime e Castigo" em versão de livro para banho. Com um Raskolnikov em versão popup insuflável. 2- Já alguma vez ficaste perturbado/apanhado por uma personagem de ficção? As personagens de ficção perturbam-me invariavelmente, sobretudo as que colocam anúncios no jornal para descobrir o homem que as engravidou, as que se evadem da prisão graças a um sismo na América do Sul, e as que se revoltam contra os poderes instituídos quando medíocres sicários devolvem os seus cavalos num estado deplorável. 3- O último livro que compraste? O último livro que comprei deve ter sido um livro de poemas de Charles Simic, mas parece-me que este é o momento ideal para me queixar por não me terem dado o livro sobre cozinha italiana que deveria vir hoje com o "Público". 4- Os últimos livros que leste? Ler, ler, ler, ler, aquilo que se chama ler, terá sido "The Woman in White", de Wilkie Collins. Há uma personagem do "Ulysses" de Joyce que lê este livro. Melhor do que leituras em lugares públicos, só leituras dentro de leituras! 5- Que livros estás a ler? "Comment Une Figue de Paroles et Pourquoi", de Francis Ponge, onde se fala de poeira açucarada depositada nos lábios, de dulcíssima polpa pastosa e de interiores de fruto que brilham como altares em igrejas abandonadas. 6- Que livros levarias para uma ilha deserta? A Constituição da República Portuguesa, a Cartilha Maternal e o Tesouro das Cozinheiras. 7 – Quatro pessoas a quem vais passar este testemunho e porquê? Por me encontrar numa fase da vida em que a ficção supera em interesse a realidade, passo este inquérito a quatro irmãs solteironas de Friburgo, cuja literacia não supera o nível da "TV Guia", mas que guardam no seu sótão a maior colecção de notas falsas do mundo.

terça-feira, maio 17, 2005

ADVERSATIVA: Mas, algumas linhas mais adiante: «Je veux donc dire que "avoir perdu le silence" ne signifie rien de ce qu'on pourrait croire. Du reste, peu importe. J'ai décidé de suivre cette voie.» Se está decidido, decidido está. Prossiga-se o caminho, com um cântico de jovial optimismo nos lábios. Deixemos ao inexistente homúnculo o luxo de se calar. Acocorado no seu limbo, o silêncio mendigado ao mundo como estalactites nos seus bolsos.
LEITURAS: Lido num romance de Maurice Blanchot ("L'Arrêt de Mort"): «Avoir perdu le silence, le regret que j'en éprouve est sans mesure. Je ne puis dire quel malheur envahit l'homme qui une fois a pris la parole.» Perder o silêncio. Pouco importa se comparável à perda de uma graça, de um objecto (rugoso e resistente à pressão), ou de uma amizade. Ver-se de súbito despido e espoliado de silêncio, ainda por cima por vontade própria, uma vaga variedade de vontade própria. Abdicar do silêncio com o arrependimento desde logo cingido à garganta. Uma e outra vez. Todos os dias. Não poder dizer "a infelicidade que invade o homem", nem sequer a respectiva lucidez. O lento movimento da luta terá primazia agora e sempre sobre a pobre eloquência daquele que quis balbuciar.
XADREZ: Está a desenrolar-se em Sófia um dos torneios de xadrez mais fortes do ano, o "M-Tel Masters". Os seis participantes, que se defrontam num sistema de todos contra todos a duas voltas, são os seguintes: Viswanathan Anand (Índia, nº 2 do mundo), Veselin Topalov (Bulgária, nº 3), Vladimir Kramnik (Rússia, nº 5), Michael Adams (Inglaterra, nº 7), Judit Polgár (Hungria, nº 8) e Ruslan Ponomariov (Ucrânia, nº 20). Este torneio apresenta uma característica inovadora, que contribui para lhe conferir um interesse excepcional: os jogadores estão impedidos de acordarem empates entre si. Os empates apenas poderão resultar de decisões dos árbitros ou de situações de empate técnico óbvio, como a repetição de lances. Espera-se, com esta medida, minimizar os chamados "empates de salão", jogos com poucos lances e nenhum espírito combativo, e que infelizmente parecem ter vindo a tornar-se cada vez mais abundantes ao mais alto nível. Até ao momento, as estatísticas a este respeito não são animadoras: num momento em que se chegou a meio do torneio (hoje cumpriu-se o dia de descanso), o número de empates é de 11 em 15 partidas, ou seja, uma percentagem de 73 %, o que é francamente elevado, e decepcionante para um torneio cujas regras visam desencorajar os empates. Porém, saliente-se que muitos destes empates foram combativos, por vezes deveras emocionantes. Os empates fazem parte do xadrez, afinal de contas. Só se lamenta que certos grandes-mestres, a coberto desta evidência, procurem empates a todo o custo, com eventuais benefícios a curto prazo, mas hipotecando a possibilidade de o xadrez vir a conquistar mais fãs e atrair mais patrocínios. Ao fim de 5 rondas, Kramnik e Adams lideram. O site oficial do torneio está aqui. As partidas podem ser seguidas em directo, por exemplo na página da revista Europe Échecs.

segunda-feira, maio 16, 2005

LONGO TEMPO EU ME FUI DEITADO DE BOA HORA: Amanhã, terça, na Fnac do Chiado, Pedro Tamen debaterá com a crítica Maria da Conceição Caleiro a sua tradução de "Em Busca do Tempo Perdido", de Marcel Proust. Às 18h30. Quem sempre reprimiu a vontade de se erguer e proclamar, alto e bom som, "Senhor Pedro Tamen, na página 477 o senhor confundiu um imperfeito do conjuntivo com um presente do conjuntivo!!!", que aproveite a ocasião ou se cale para sempre.
"LORD JIM" (3): Uma coisa que aprecio sobremaneira em "Lord Jim" é o seu estilo. Conrad faz justiça à apaixonante riqueza da língua inglesa, mas sem abuso de preciosismos, evitando com naturalidade os alardes de erudição vocabular que denunciam o exilado linguístico. O seu idioma é casual e eficaz, quase rude a espaços. Há um lado funcional da língua que é explorado com sobriedade, mas não necessariamente sem requinte. Não o requinte de um esteta, como Nabokov, outro anglófono por adopção; antes o requinte discreto de quem se permite um instante de volúpia verbal como minúsculo consolo perante o espectáculo vagamente degradante da natureza humana em acção; infinitamente ponderado, muito "stiff upper lip".