terça-feira, maio 31, 2005

PAS DE REPOS POUR LES BRAVES (4): Congratulo-me por verificar que este filme sumptuoso não passou despercebido à crítica especializada em Portugal. Tive oportunidade de ler dois artigos francamente elogiosos da autoria de Luís Miguel Oliveira e Augusto M. Seabra no "Público" (penso que nenhum deles está online). Este último chamou-me a atenção por mencionar dois outros nomes que causaram forte impacto no cinema francês dos últimos anos: Arnaud Desplechin ("Esther Kahn", e outros filmes infelizmente ainda por estrear entre nós) e Eugène Green ("Le Monde Vivant" e "Le Pont des Arts", que marcaram as duas primeiras edições do IndieLisboa). Tenho algumas reservas quanto às propostas de Green, mas não duvido que Guiraudie tem todas as condições para se içar ao nível destes dois autores, em vista da inteligência, originalidade e consistência estética das suas primeiras obras. Notei, em contrapartida, uma crítica manifestamente negativa de João Miguel Tavares no "DN". JMT parece colocar a questão em termos de "ame-o ou deixe-o, e eu deixo-o". Tratando-se de afinidade pessoal, ou falta dela, qualquer discussão perde razão de ser. Pelo que conheço de escritos anteriores de JMT, quer-me parecer que, não sendo um crítico reticente a acolher novidades, carece de benevolência para com incursões por veredas menos batidas das cinematografias actuais. Sobretudo se essas incursões se fizerem sob o signo da metanarratividade ou da desconstrução. Daí que a estrelinha singular com que brinda o filme de Guiraudie não constitua grossa surpresa.
LINGUAGEM: «(...) j'ai compris que tout le malheur des hommes venait de ce qu'ils ne tenaient pas un langage clair.» (Albert Camus, "La Peste") Há muito tempo que eu não me sentia tão profundamente de acordo com uma personagem de ficção (Jean Tarrou, neste caso).

segunda-feira, maio 30, 2005

MITOS: Leio, no posfácio à edição de Fernando Cabral Martins da "Mensagem", que Pessoa escreveu: «Desejo ser um criador de mitos, que é o mistério mais alto que pode obrar alguém da humanidade.» (in "Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação"). Um mais alto grau da ambição humana corresponde (parece-me) ao ensejo de forjar historietas urbanas que se auto-promovam ao estatuto de lendas. De ser o autor daqueles pedaços de imaginário popular que se transformam em património comum, por definição supostos desprovidos de criador, fruto do génio nacional no seu modo mais corriqueiro. Escrevinhar nas costas de um prospecto aquilo que será repetido em paragens de autocarro de Campolide, uma semana mais tarde, ou nos barcos que partem do Terreiro do Paço. Talvez por desfastio, num fim de tarde acabrunhado de outono, num rés-do-chão do bairro dos Actores, em Lisboa. Numa oficina onde cheira a escape de automóvel e a graxa para calçado. Entre uma e outra escapadela à pastelaria do outro lado da rua. Fabrico próprio de madalenas, queques, croissants, palmiers, jesuítas, pastéis de feijão, bolos de arroz, éclairs, mil-folhas, tartes de maçã, pastéis de nata, quindins, pães-de-Deus, tíbias, queijadas, babás, caracóis, e doçaria sazonal.
DENSAS COMO FRUTOS: Breves histórias de mãos, vistas em quadros de mestres da pintura contemporâneos ou antigos. Histórias de mãos aflitas.
SE É CERTO QUE A NOITE: A sombra nos olhos. A sombra da mortalidade nos olhos, depois de um trajecto de quilómetros através da noite litoral, pairando sem intrigar. A sombra.
DA CONTIGUIDADE: Na Feira do Livro de Lisboa, escassos metros separam a Sociedade Bíblica do quiosque dos cientologistas. Quaisquer que sejam as minhas opiniões acerca da Igreja Católica e do seu papel na sociedade contemporânea, prefiro uma página dos evangelhos à obra completa de L. Ron Hubbard. E a homilia de um qualquer padre de província é-me mais agradável do que as discursatas do inefável Tom Cruise, do alto do seu púlpito, pregando urbi et orbi, com abundância de requebros hollywoodescos, as virtudes da dianética. (Excepto se dessa homilia constarem referências a «corpos esquartejados de bebés [que] vão aparecer em lixeiras de toda a espécie ao olhar horrorizado ou faminto de pessoas e animais».)
O SEGREDO ESTÁ NO ARTIGO DEFINIDO: Hoje chegou-me aos ouvidos uma conversa de teor cinéfilo. Discutiam-se os méritos e insuficiências dos filmes quase homónimos "O Pianista", "A Pianista" e "O Piano", que um cidadão desprevenido se arrisca seriamente a confundir. Da conversa resultou que: 1 - "O Pianista" é um dos melhores filmes dos últimos anos. 2 - "A Pianista" é uma porcaria. 3 - "A Pianista" é um filme tipicamente francês: demasiado sexo, e no fim não se percebe nada. E ainda há quem diga que André Bazin não deixou herança.

domingo, maio 29, 2005

PAS DE REPOS POUR LES BRAVES (3): "Os Bravos Não Têm Descanso" (título português do filme "Pas de repos pour les braves") não pode deixar de ser visto no contexto do actual cinema francês, onde predomina o naturalismo de pendor psicologista ou sociológico, e cujo inamovível centro de gravidade continua a ser Paris, hoje assim como no dia em que Jean Seberg gritava "New York Herald Tribune!" em plenos Champs-Elysées. Tanto este como os restantes filmes de Alain Guiraudie rejeitam esta tendência, para se situarem numa gloriosa "Terra do Nunca" cinematográfica, pejada de referências e citações mas dotada de contornos fortemente originais, arrancada à província francesa (mais concretamente ao sul-sudoeste, de onde o realizador é natural), transfigurada, atravessada por dimensões paralelas que deixam coexistir o sórdido e o magnífico, o mítico e o proletário. O registo é eufórico, de um onirismo a mil léguas de Freud, dotado de lógicas próprias que se encavalitam e fazem negaças umas às outras. E, contudo, o mundo real dir-se-ia mais presente do que em qualquer produto da escola realista, se bem que filtrado, distorcido, transitoriamente do avesso. Felizmente, esta atitude de ruptura com a estética dominante não redunda em mero esforço de provocação. Todos os filmes de Guiraudie, e notavelmente esta sua primeira longa-metragem, transportam consigo uma proposta forte e coerente. Todos eles constituem momentos de uma visão cinematográfica movida por um desejo permanente de reinvenção, e de um talento fecundo que, felizmente para todos nós, promete continuar a dar que falar nos tempos mais próximos. Guiraudie parece-me ser daqueles cuja vitalidade criativa não se compadece com pausas de 5 anos entre cada filme, à espera das condições perfeitas ou da visita inopinada da inspiração.
KISUN TALO VALAISEE KOKO TIENOON: Pelo andar da carruagem, ser-me-á complicado (ou mesmo impossível) visitar as exposições no âmbito do 6º Salão Lisboa de Ilustração e Banda Desenhada, como por exemplo este "ABC do Gatinho", de Katja Tukiainen. Para os interessados, esta exposição estará patente até ao próximo dia 5, na Estufa Fria. Ideal para acoplar a uma surtida pela Feira do Livro, que é mesmo ali ao lado.
VIER LETZTE: É verdade, Dissoluto Punito, é verdade! Duas récitas das "Quatro Últimas Canções" de Strauss. A primeira delas, se não erro, pela Soile Isokoski, e a segunda, ali no São Carlos, pela "diva" Cheryl Studer. Ambas memoráveis, cada uma à sua maneira. (PS - Diverte-te em Paris!)
NORTE CONTRA SUL: Para além de ser pouco espessa, a separatória que divide a vida pública da vida privada possui marcas verticais nos pontos onde devem incidir as catanas.
LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Nas escadas rolantes da estação de metro da Alameda, um cavalheiro lia "Pedro Páramo", de Juan Rulfo, denotando a concentração que esta obra-prima da literatura mexicana exige.

terça-feira, maio 24, 2005

PAS DE REPOS POUR LES BRAVES: Começaria por transcrever um excerto da crítica de Jean-Michel Frodon para os "Cahiers du Cinéma", onde é levantado um ponto que me parece crucial relativamente a este filme de Alain Guiraudie: «Guiraudie rêve ses films éveillé, mais il est un sacré bon rêveur. Dans la joie alerte des assonances de couleur, des rebonds, des péripéties, des échos de récits anciens, de films aimés, de moments intimes, voici que se déploie, souveraine et modeste, l'épopée de Basile (...) Guiraudie est un farceur insolent, un styliste doué, un graphiste méridional (...) Mais surtout, Alain Guiraudie est un cinéaste. Quand il fait un plan, c'est un véritable plan de cinéma.» Independemente da história (hilariante, por sinal), do seu universo pessoal, das suas obsessões, é precisamente isso que impressiona em Guiraudie (e não só neste filme, aliás): em cada plano, existe uma lógica na disposição dos elementos, não a lógica fria de uma demonstração, mas a lógica levemente anárquica, dinâmica e celebratória de um filme transbordante de criatividade e de confiança na sua capacidade de transmitir algo mais para além de uma simples construção narrativa ou de um cambiante emocional de uma personagem. Ou, misturando duas famosas citações de Rivette e de Godard: uma ideia de cinema 24 vezes por segundo. (NOTA: Ao escrever de forma tão ditirâmbica sobre um filme que, tanto quanto sei, só está em exibição em Lisboa, peço desculpa aos meus leitores de fora da capital. É triste constatá-lo, mas, neste país culturalmente centralizado, falar de bom cinema equivale muitas vezes a excluir quem está fora dos grandes centros. Esperemos que este filme tenha a difusão que merece por outras salas mais periféricas.)
O MEU MOMENTO ZEN (*): As crónicas semanais de João César das Neves oscilam entre ponderadas lucubrações sobre aquilo de que ele realmente percebe (economia) e hilariantes desvarios sobre temas "de sociedade" ditos "fracturantes" (para empregar um termo em voga), como sejam a homossexualidade, a degradação dos costumes, o aborto, etc. São raras as suas intervenções que se situam a meio caminho entre estes dois extremos, mas são também, a meu ver, as mais interessantes. Eivadas de inconsistências e vícios de raciocínio, generalizações apressadas e analogias mancas, sucede-lhes escapar à inanidade absoluta. Na sua coluna de ontem, JCN traça um cenário futurista aparentemente inquietante (mas que, entende-se implicitamente, não seria mais do que um juste retour des choses, uma vingança irónica da história sobre a secularização galopante do nosso tempo): «Imagine que dentro de décadas toda a gente pense que a ciência é uma actividade sinistra, enganadora, perigosa. O uso de tecnologias por terroristas, os infindáveis debates académicos, as dúvidas sobre teorias estabelecidas irão minando a confiança absoluta que temos no conhecimento científico.» Este cenário não é difícil de imaginar, pois a ciência já é desprezada e olhada com irada desconfiança por muitos sectores, e por largas faixas da opinião pública. O próprio JCN admite prontamente, aliás, que esta sua especulação conceptual não prima pela ousadia: «Este cenário nem é bizarro. Basta lembrar as suspeitas pós-modernas e a popularidade crescente de ideias esotéricas e mágicas para que se torne bastante plausível.» Com a extrapolação que se segue, começa a derrapagem: «Se extrapolarmos tais tendências, não faltará muito para a cultura vir a pensar da ciência e técnica aquilo que hoje pensa da religião e fé.» Seguindo a estratégia da vitimização adoptada por 9 em cada 10 colunistas do nosso burgo, JCN parece querer-nos fazer acreditar que a religião é hoje unanimemente espezinhada e desacreditada, ao passo que a ciência é universalmente exaltada como a única e infalível fonte de verdade. Bastam umas migalhitas de atenção e boa fé para constatar que este quadro distorce grotescamente a realidade. E a realidade é esta: da RTP a transmitir a procissão das velas em directo até aos escapulários oferecidos por um jornal de grande tiragem, a religião continua a ter um peso esmagador na nossa sociedade (refiro-me à portuguesa), que a ciência está longe de poder contrabalançar. Ou então escapou-me o que JCN entende por "a cultura", essa cultura fantasma que menoriza e achincalha a religião. Pressinto que isto nos faria enveredar por indesejáveis labirintos argumentativos colaterais. Adiante. «Parece impossível que alguém ponha em dúvida a certeza demonstrada da ciência.» Falso. Não só não parece impossível, como a isso obriga a boa prática científica. Não existem "certezas demonstradas" na ciência, mas sim modelos, hipóteses e teorias que podem e devem ser constantemente confrontados com a experiência, e que devem ser abandonados ou reformulados quando se demonstre a sua incoerência ou incompatibilidade com observações empíricas. JCN procura conferir à ciência uma natureza dogmática, quiçá se para a fazer assemelhar-se à religião, e assim polir a sua duvidosa analogia. «Nesse cenário fictício, os habitantes do futuro julgarão que nós, por acreditarmos na ciência, somos parolos ignorantes e boçais, vítimas de superstição. [...] Se for verdade essa possibilidade, os nossos descendentes vão achar que os investigadores de hoje são todos interesseiros e corruptos, usando a sua actividade só para encher os bolsos. Precisamente como os filmes de Hollywood costumam representar os clérigos.» Claramente, JCN e eu não andamos a ver os mesmos filmes. Talvez o cine-clube da Universidade Católica esteja a passar uns ciclos interessantes. A conferir. «Existe um abismo que nos separa das nossas fontes culturais. Este é o terrível drama actual deitámos fogo às nossas raízes.» Leia-se "às nossas raízes cristãs", bem entendido. Não se leia "às nossas raízes humanistas e ao legado iluminista", coisa que seria de somenos importância na óptica de JCN. «O homem de hoje continua a confrontar-se com o mistério da sua origem e do seu destino. Os modernos esforços científicos nada conseguem dizer quanto ao sentido da existência humana.» Nem é esse o seu objectivo. O "sentido da vida", entendido na sua acepção maximalista, como resposta a perguntas como "Quem somos? Para onde vamos?" e outros sucessos do género, não passa de um abuso linguístico, uma ficção que tem sido sequestrada e prostituída por ideologias e religiões de todos os quadrantes, ao longo da história. «Os que hoje ridicularizam a religião não têm nada que a substitua e perderam o rumo e orientação.» Mais uma glosa do popular tema segundo o qual não existe "rumo" nem "orientação", ou seja "moral", sem religião. Também isto é um dogma. Em resumo: JCN baseia-se num cenário que pouco deve à realidade (religião oprimida e substituída pela ciência triunfante na sociedade de hoje), e daí projecta uma fantasia histórica (a ciência, por sua vez, desacreditada pela mesma "cultura" que a aclamou) que, por se fundar em terreno tão movediço, tem um interesse nulo. A ciência não se veio substituir à religião (a não ser no terreno particular da explicação dos fenómenos naturais, onde a religião nunca deveria ter interferido), nem veio trazer um sucedâneo de sentido e de moral susceptíveis de serem postos em causa pelos vindouros. Muito pragmaticamente, limita-se a classificar e enquadrar em modelos a realidade do Mundo, e apenas entra em conflito com a religião quando esta tenta impor a sua Verdade revelada, absoluta e eterna (e de natureza assaz vaga, diga-se de passagem) às verdades (sublinho o plural e a minúscula) provisórias e de alcance circunscrito, mas fecundas, que a actividade científica produz. (Mas gostei muito da parábola de Kierkegaard.) (*) Título surripiado aos mais incisivos e incansáveis exegetas cesarnevesianos da blogosfera e arredores, o Diário Ateísta.
TÃO LONGE, TÃO PERTO: Fiquei a par da escolha de António Guterres como novo Alto Comissário para os refugiados graças a um jornal esloveno, o Vecer. (Don't ask...) Confirmei a notícia no Expresso, que (e isto até os seus detractores admitirão) possui a suprema vantagem de estar escrito em português.
CINEMA:
Estreou finalmente o filme "Pas de Repos pour les Braves", evento que em muito contribuiu para o meu bem estar geral, já para não falar da minha fé na providência e na humanidade em geral. Espero falar com algum detalhe deste filme. De momento, limito-me a afirmar que, instado a explicar em duas ou três frases o que me entusiasmou neste filme de Alain Guiraudie, eu balbuciaria uma vacuidade relacionada com o facto de ser esta uma obra que faz plena justiça ao cinema enquanto arte autónoma e maior, dotada de especificidade, e que apaixona tanto mais quanto afirma e explora essa especificidade, em vez de se remeter ao deprimente e bem comportado papel de parente pobre.

segunda-feira, maio 23, 2005

ANÚNCIOS DE GATO PERDIDO INVENTADOS (10): Hoje temos uma enorme surpresa para todos os nossos leitores. O anúncio de gato perdido inventado "númaro" 10 é nada mais nada menos do que um poema de João Luís Barreto Guimarães, extraído do seu livro "3" (Gótica, 2001). um gato assim era quase um sítio perdido entre o pêlo e o acordar (pequena fábula sonhada por entre as patas) quem o enviou quis ensinar ao mundo o sentimentos da inveja. a mãe tirava da boca para lhe dar assim mesmo o lorde mentia na hora a que chegava das sete vidas paralelas. um dia fugiu pela manhã o (in)g(r)ato mesmo sem se despedir ou pagar o que levou: a coleira nova e o guizo.............................150$00 duas latas de comida.................................395$00 um saco de areia higiénica.......................200$00 dá notícias pedaço de deus se acordares desse intrigante sono repousando de (qual?) cansaço que pensas tu afinal de Ivan Petrovich Pavlov?
PEQUENO E NEGRO É COMO O QUEREMOS: Parabéns (tragicamente atrasados) e obrigado ao Little Black Spot por 2 anos que valeram a pena seguir. E as minhas desculpas a todos os blogs porreiros cujos aniversários me vou esquecendo de assinalar por desleixo. Deus quer, o homem sonha, e eu procrastino como gente grande.
RIDENDO CASTIGAT DÉFICE: Na revista "Visão" do passado dia 19 de Maio, alguns economistas nacionais de graúda reputação opinam sobre as medidas a tomar perante a aflitiva derrapagem das contas públicas. O rol de medidas raramente sai do previsível: com mais ou menos cambiantes, andam à volta dos cortes nas despesas, do aumento dos impostos, emagrecimento do sector público, et caetera. Não deixa, contudo, de ser fascinante apreciar, de proposta em proposta, as pequenas diferenças, que (como dizia John Travolta em "Pulp Fiction") é onde reside o verdadeiro interesse. Por exemplo, Miguel Cadilhe preconiza a "Autoproibição do Estado de recair em grandiosos eventos/equipamentos caríssimos e desproporcionados (estádios de futebol, submarinos), e não serei eu quem discordará. Já Miguel Beleza, esse, escolhe outro alvo, com uma precisão pragmática de cortar o fôlego: defende "mais rigor nas despesas supérfluas, como, por exemplo, na atribuição de alguns subsídios à Cultura". A cultura e a sua vocação para bombo da festa. A cultura e a sua fama de capricho, vistoso mas inútil, de uma sociedade. Eleger a cultura como vítima prioritária de cortes e medidas de contenção em tempo de crise pode dever mais ao filistinismo do que à sagacidade. Admitir que tal possa contribuir significativamente para reduzir o défice é certamente de mau economista. (Como, mais adiante, Miguel Beleza aponta o regresso de José Mourinho como outra das medidas que urge tomar, talvez não passe tudo isto de uma longa e sofisticada chalaça.)

domingo, maio 22, 2005

DOIS ANOS DE PETAS: O Almocreve das Petas fez dois anos. 365x2 dias (mais um por causa do bissexto) de prosa inspirada e certeira, a espaços gongórica mas límpida nas intenções, nas embirrações, mas também na generosidade com que explora os seus temas predilectos. Kleist sopra os seus parabéns!