sexta-feira, junho 03, 2005
PONGE: Nas sucessivas reelaborações do seu poema "La Figue (Sèche)", ao longo dos anos, Francis Ponge experimentou, para além de numerosos elementos, imagens, módulos significadores, pelo menos duas "ficções legitimadoras" (chamemos-lhe assim) susceptíveis de o enquadrar.
Numa primeira fase, colocou-se na posição de quem responde a um inquérito sobre a poesia. Posteriormente, optou por simular uma carta/saudação espiritual dirigida a Symmaque (ignoro a tradução deste nome em português), «...grand païen de Rome [qui] se moquait de l'empire devenu chrétien: "Il est impossible, disait-il, qu'un seul chemin mène à un mystère aussi sublime"».
Seduz-me, esta preocupação quanto ao modo de fazer existir o poema no mundo.
(As sucessivas aproximações a este poema estão publicadas sob o título "Comment une figue de paroles et pourquoi", GF Flammarion, 1997, edição de Jean-Marie Gleize. Leitura fascinante, e diferente de qualquer outra coisa que alguma vez me tenha passado pelas mãos.)
ABRAM OS DIQUES!: Na sua coluna de hoje, Luís Delgado, o gentleman-cronista cuja pena acerada faz tremer tudo e todos (não necessariamente de medo), escreve assim: «A Holanda é minúscula de mais e demasiadamente esotérica para causar mossa na União ela é sempre o contrário de tudo o resto. Se a droga é proibida na Europa, ela é permitida na Holanda; se a eutanásia é conflituosa nos nossos costumes, ela é uma prática regular naquele país, e por aí adiante. Não querem, não têm.»
Luís Delgado tem o seu estilo, a sua maneira de escrever e de estar, mas do que ele não pode deixar de estar ciente, de maneira alguma, vivendo no planeta Terra e convivendo com as opiniões dos seus pares, é de que isto está próximo do grau zero do jornalismo de opinião: não passa de uma manta de retalhos de chavões ofensivos e inconsequentes, alinhavados com uma irresponsabilidade difícil de conceber, e enfermando de um simplismo que não se desculparia nem nos trabalhos de casa de um qualquer aluno de liceu, rabiscados em cima do joelho e com os olhos pregados numa Playstation.
DERRETEM-SE NA BOCA: Na sua crónica de sábado passado no "Público", Helena Matos, com imparável brio, fustiga os artistas, e em particular as estrelas de rock, que se permitem exigir mordomias impensavelmente extravagantes durante as digressões que efectuam. Um dos exemplos que avança (Marilyn Manson, que, entre outras tropelias, teria solicitado dezenas de caixas de smarties das quais teriam de ser retirados todos os castanhos) chamou-me a atenção por se assemelhar a uma das muitas lendas urbanas abordada pelo insubstituível site Snopes. A história, cuja leitura me parece valer amplamente a pena, passa-se com o grupo Van Halen, e envolve M&M's em vez de smarties (ah!, a cor local). Segundo aquilo que defende o vocalista David Lee Roth, a cláusula que exigia a taça de M&M's submetida à expurgação cromática era, mais do que capricho de estrela, uma maneira de se certificarem de que o contrato era lido até ao fim, e cumprido com escrúpulo e rigor pela organização local.
Há aqui margem para especulação. Pessoalmente, pergunto-me se Manson imitou esta bela ideia, ou se tudo isto não passa de uma ramificação inocente de uma deliciosa lenda urbana.
Do que não duvido é de que tudo isto, a começar - e quem sabe se a acabar - pelos M&M's castanhos, faz parte de uma conspiração dos fazedores de opinião bem-pensantes e politicamente correctos contra a liberdade de expressão. Pim.
LINGUAGEM (2): Sim, tal como a personagem de Camus, acredito sinceramente que quase todas as desgraças da humanidade têm por origem um uso deficiente da linguagem.
(Não me refiro, bem entendido, a catástrofes naturais como epidemias ou terramotos, no Chile ou noutras nações.)
Um exemplo evidente: a reificação de conceitos abstractos tais como "Pátria", "Nação", "Raça", e seu subsequente emprego em frases que não deveriam admitir substantivos cuja natureza seja a de serem absolutos, imunes aos salutares efeitos relativizadores da sintaxe e do discurso crítico.
Na esfera pessoal e da socialização, acredito ser muito importante o quinhão de agruras e dissabores que deriva de erros de linguagem: generalizações abusivas, problemas mal colocados, falácias inadvertidas, incapacidade de usar da penetração para averiguar o que está por detrás das frases que introduzem ou sustêm um conflito.
E a maior falácia de todas, provavelmente a mais grave - falo da procura de um Sentido para a Vida - é, também ela, de ordem linguística.
quarta-feira, junho 01, 2005
DE NOITE UMA VOZ: Wittgenstein escreveu: «Um elemento pode ser o caso ou não ser o caso e tudo o resto permanecer idêntico.» ("Tractatus Logico-Philosophicus", 1.21).
Um mundo em que eu não tivesse canções de Ella Fitzgerald na cabeça pode muito bem ser idêntico ao mundo em que eu tenho canções de Ella Fitzgerald na cabeça. A melodia, e a assombrosa verdade de que são sintoma, chegam-me como diferença.
terça-feira, maio 31, 2005
PAS DE REPOS POUR LES BRAVES (4): Congratulo-me por verificar que este filme sumptuoso não passou despercebido à crítica especializada em Portugal. Tive oportunidade de ler dois artigos francamente elogiosos da autoria de Luís Miguel Oliveira e Augusto M. Seabra no "Público" (penso que nenhum deles está online). Este último chamou-me a atenção por mencionar dois outros nomes que causaram forte impacto no cinema francês dos últimos anos: Arnaud Desplechin ("Esther Kahn", e outros filmes infelizmente ainda por estrear entre nós) e Eugène Green ("Le Monde Vivant" e "Le Pont des Arts", que marcaram as duas primeiras edições do IndieLisboa). Tenho algumas reservas quanto às propostas de Green, mas não duvido que Guiraudie tem todas as condições para se içar ao nível destes dois autores, em vista da inteligência, originalidade e consistência estética das suas primeiras obras.
Notei, em contrapartida, uma crítica manifestamente negativa de João Miguel Tavares no "DN". JMT parece colocar a questão em termos de "ame-o ou deixe-o, e eu deixo-o". Tratando-se de afinidade pessoal, ou falta dela, qualquer discussão perde razão de ser. Pelo que conheço de escritos anteriores de JMT, quer-me parecer que, não sendo um crítico reticente a acolher novidades, carece de benevolência para com incursões por veredas menos batidas das cinematografias actuais. Sobretudo se essas incursões se fizerem sob o signo da metanarratividade ou da desconstrução. Daí que a estrelinha singular com que brinda o filme de Guiraudie não constitua grossa surpresa.
segunda-feira, maio 30, 2005
MITOS: Leio, no posfácio à edição de Fernando Cabral Martins da "Mensagem", que Pessoa escreveu: «Desejo ser um criador de mitos, que é o mistério mais alto que pode obrar alguém da humanidade.» (in "Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação").
Um mais alto grau da ambição humana corresponde (parece-me) ao ensejo de forjar historietas urbanas que se auto-promovam ao estatuto de lendas. De ser o autor daqueles pedaços de imaginário popular que se transformam em património comum, por definição supostos desprovidos de criador, fruto do génio nacional no seu modo mais corriqueiro.
Escrevinhar nas costas de um prospecto aquilo que será repetido em paragens de autocarro de Campolide, uma semana mais tarde, ou nos barcos que partem do Terreiro do Paço.
Talvez por desfastio, num fim de tarde acabrunhado de outono, num rés-do-chão do bairro dos Actores, em Lisboa. Numa oficina onde cheira a escape de automóvel e a graxa para calçado.
Entre uma e outra escapadela à pastelaria do outro lado da rua. Fabrico próprio de madalenas, queques, croissants, palmiers, jesuítas, pastéis de feijão, bolos de arroz, éclairs, mil-folhas, tartes de maçã, pastéis de nata, quindins, pães-de-Deus, tíbias, queijadas, babás, caracóis, e doçaria sazonal.
DA CONTIGUIDADE: Na Feira do Livro de Lisboa, escassos metros separam a Sociedade Bíblica do quiosque dos cientologistas.
Quaisquer que sejam as minhas opiniões acerca da Igreja Católica e do seu papel na sociedade contemporânea, prefiro uma página dos evangelhos à obra completa de L. Ron Hubbard. E a homilia de um qualquer padre de província é-me mais agradável do que as discursatas do inefável Tom Cruise, do alto do seu púlpito, pregando urbi et orbi, com abundância de requebros hollywoodescos, as virtudes da dianética.
(Excepto se dessa homilia constarem referências a «corpos esquartejados de bebés [que] vão aparecer em lixeiras de toda a espécie ao olhar horrorizado ou faminto de pessoas e animais».)
O SEGREDO ESTÁ NO ARTIGO DEFINIDO: Hoje chegou-me aos ouvidos uma conversa de teor cinéfilo. Discutiam-se os méritos e insuficiências dos filmes quase homónimos "O Pianista", "A Pianista" e "O Piano", que um cidadão desprevenido se arrisca seriamente a confundir. Da conversa resultou que:
1 - "O Pianista" é um dos melhores filmes dos últimos anos.
2 - "A Pianista" é uma porcaria.
3 - "A Pianista" é um filme tipicamente francês: demasiado sexo, e no fim não se percebe nada.
E ainda há quem diga que André Bazin não deixou herança.
domingo, maio 29, 2005
PAS DE REPOS POUR LES BRAVES (3): "Os Bravos Não Têm Descanso" (título português do filme "Pas de repos pour les braves") não pode deixar de ser visto no contexto do actual cinema francês, onde predomina o naturalismo de pendor psicologista ou sociológico, e cujo inamovível centro de gravidade continua a ser Paris, hoje assim como no dia em que Jean Seberg gritava "New York Herald Tribune!" em plenos Champs-Elysées. Tanto este como os restantes filmes de Alain Guiraudie rejeitam esta tendência, para se situarem numa gloriosa "Terra do Nunca" cinematográfica, pejada de referências e citações mas dotada de contornos fortemente originais, arrancada à província francesa (mais concretamente ao sul-sudoeste, de onde o realizador é natural), transfigurada, atravessada por dimensões paralelas que deixam coexistir o sórdido e o magnífico, o mítico e o proletário. O registo é eufórico, de um onirismo a mil léguas de Freud, dotado de lógicas próprias que se encavalitam e fazem negaças umas às outras. E, contudo, o mundo real dir-se-ia mais presente do que em qualquer produto da escola realista, se bem que filtrado, distorcido, transitoriamente do avesso.
Felizmente, esta atitude de ruptura com a estética dominante não redunda em mero esforço de provocação. Todos os filmes de Guiraudie, e notavelmente esta sua primeira longa-metragem, transportam consigo uma proposta forte e coerente. Todos eles constituem momentos de uma visão cinematográfica movida por um desejo permanente de reinvenção, e de um talento fecundo que, felizmente para todos nós, promete continuar a dar que falar nos tempos mais próximos. Guiraudie parece-me ser daqueles cuja vitalidade criativa não se compadece com pausas de 5 anos entre cada filme, à espera das condições perfeitas ou da visita inopinada da inspiração.
KISUN TALO VALAISEE KOKO TIENOON:
Pelo andar da carruagem, ser-me-á complicado (ou mesmo impossível) visitar as exposições no âmbito do 6º Salão Lisboa de Ilustração e Banda Desenhada, como por exemplo este "ABC do Gatinho", de Katja Tukiainen. Para os interessados, esta exposição estará patente até ao próximo dia 5, na Estufa Fria. Ideal para acoplar a uma surtida pela Feira do Livro, que é mesmo ali ao lado.
Pelo andar da carruagem, ser-me-á complicado (ou mesmo impossível) visitar as exposições no âmbito do 6º Salão Lisboa de Ilustração e Banda Desenhada, como por exemplo este "ABC do Gatinho", de Katja Tukiainen. Para os interessados, esta exposição estará patente até ao próximo dia 5, na Estufa Fria. Ideal para acoplar a uma surtida pela Feira do Livro, que é mesmo ali ao lado.
VIER LETZTE: É verdade, Dissoluto Punito, é verdade! Duas récitas das "Quatro Últimas Canções" de Strauss. A primeira delas, se não erro, pela Soile Isokoski, e a segunda, ali no São Carlos, pela "diva" Cheryl Studer. Ambas memoráveis, cada uma à sua maneira.
(PS - Diverte-te em Paris!)
terça-feira, maio 24, 2005
PAS DE REPOS POUR LES BRAVES: Começaria por transcrever um excerto da crítica de Jean-Michel Frodon para os "Cahiers du Cinéma", onde é levantado um ponto que me parece crucial relativamente a este filme de Alain Guiraudie:
«Guiraudie rêve ses films éveillé, mais il est un sacré bon rêveur. Dans la joie alerte des assonances de couleur, des rebonds, des péripéties, des échos de récits anciens, de films aimés, de moments intimes, voici que se déploie, souveraine et modeste, l'épopée de Basile (...) Guiraudie est un farceur insolent, un styliste doué, un graphiste méridional (...) Mais surtout, Alain Guiraudie est un cinéaste. Quand il fait un plan, c'est un véritable plan de cinéma.»
Independemente da história (hilariante, por sinal), do seu universo pessoal, das suas obsessões, é precisamente isso que impressiona em Guiraudie (e não só neste filme, aliás): em cada plano, existe uma lógica na disposição dos elementos, não a lógica fria de uma demonstração, mas a lógica levemente anárquica, dinâmica e celebratória de um filme transbordante de criatividade e de confiança na sua capacidade de transmitir algo mais para além de uma simples construção narrativa ou de um cambiante emocional de uma personagem. Ou, misturando duas famosas citações de Rivette e de Godard: uma ideia de cinema 24 vezes por segundo.
(NOTA: Ao escrever de forma tão ditirâmbica sobre um filme que, tanto quanto sei, só está em exibição em Lisboa, peço desculpa aos meus leitores de fora da capital. É triste constatá-lo, mas, neste país culturalmente centralizado, falar de bom cinema equivale muitas vezes a excluir quem está fora dos grandes centros. Esperemos que este filme tenha a difusão que merece por outras salas mais periféricas.)
O MEU MOMENTO ZEN (*): As crónicas semanais de João César das Neves oscilam entre ponderadas lucubrações sobre aquilo de que ele realmente percebe (economia) e hilariantes desvarios sobre temas "de sociedade" ditos "fracturantes" (para empregar um termo em voga), como sejam a homossexualidade, a degradação dos costumes, o aborto, etc.
São raras as suas intervenções que se situam a meio caminho entre estes dois extremos, mas são também, a meu ver, as mais interessantes. Eivadas de inconsistências e vícios de raciocínio, generalizações apressadas e analogias mancas, sucede-lhes escapar à inanidade absoluta. Na sua coluna de ontem, JCN traça um cenário futurista aparentemente inquietante (mas que, entende-se implicitamente, não seria mais do que um juste retour des choses, uma vingança irónica da história sobre a secularização galopante do nosso tempo):
«Imagine que dentro de décadas toda a gente pense que a ciência é uma actividade sinistra, enganadora, perigosa. O uso de tecnologias por terroristas, os infindáveis debates académicos, as dúvidas sobre teorias estabelecidas irão minando a confiança absoluta que temos no conhecimento científico.»
Este cenário não é difícil de imaginar, pois a ciência já é desprezada e olhada com irada desconfiança por muitos sectores, e por largas faixas da opinião pública. O próprio JCN admite prontamente, aliás, que esta sua especulação conceptual não prima pela ousadia:
«Este cenário nem é bizarro. Basta lembrar as suspeitas pós-modernas e a popularidade crescente de ideias esotéricas e mágicas para que se torne bastante plausível.»
Com a extrapolação que se segue, começa a derrapagem:
«Se extrapolarmos tais tendências, não faltará muito para a cultura vir a pensar da ciência e técnica aquilo que hoje pensa da religião e fé.»
Seguindo a estratégia da vitimização adoptada por 9 em cada 10 colunistas do nosso burgo, JCN parece querer-nos fazer acreditar que a religião é hoje unanimemente espezinhada e desacreditada, ao passo que a ciência é universalmente exaltada como a única e infalível fonte de verdade. Bastam umas migalhitas de atenção e boa fé para constatar que este quadro distorce grotescamente a realidade. E a realidade é esta: da RTP a transmitir a procissão das velas em directo até aos escapulários oferecidos por um jornal de grande tiragem, a religião continua a ter um peso esmagador na nossa sociedade (refiro-me à portuguesa), que a ciência está longe de poder contrabalançar.
Ou então escapou-me o que JCN entende por "a cultura", essa cultura fantasma que menoriza e achincalha a religião. Pressinto que isto nos faria enveredar por indesejáveis labirintos argumentativos colaterais. Adiante.
«Parece impossível que alguém ponha em dúvida a certeza demonstrada da ciência.»
Falso. Não só não parece impossível, como a isso obriga a boa prática científica. Não existem "certezas demonstradas" na ciência, mas sim modelos, hipóteses e teorias que podem e devem ser constantemente confrontados com a experiência, e que devem ser abandonados ou reformulados quando se demonstre a sua incoerência ou incompatibilidade com observações empíricas. JCN procura conferir à ciência uma natureza dogmática, quiçá se para a fazer assemelhar-se à religião, e assim polir a sua duvidosa analogia.
«Nesse cenário fictício, os habitantes do futuro julgarão que nós, por acreditarmos na ciência, somos parolos ignorantes e boçais, vítimas de superstição. [...] Se for verdade essa possibilidade, os nossos descendentes vão achar que os investigadores de hoje são todos interesseiros e corruptos, usando a sua actividade só para encher os bolsos. Precisamente como os filmes de Hollywood costumam representar os clérigos.»
Claramente, JCN e eu não andamos a ver os mesmos filmes. Talvez o cine-clube da Universidade Católica esteja a passar uns ciclos interessantes. A conferir.
«Existe um abismo que nos separa das nossas fontes culturais. Este é o terrível drama actual deitámos fogo às nossas raízes.»
Leia-se "às nossas raízes cristãs", bem entendido. Não se leia "às nossas raízes humanistas e ao legado iluminista", coisa que seria de somenos importância na óptica de JCN.
«O homem de hoje continua a confrontar-se com o mistério da sua origem e do seu destino. Os modernos esforços científicos nada conseguem dizer quanto ao sentido da existência humana.»
Nem é esse o seu objectivo. O "sentido da vida", entendido na sua acepção maximalista, como resposta a perguntas como "Quem somos? Para onde vamos?" e outros sucessos do género, não passa de um abuso linguístico, uma ficção que tem sido sequestrada e prostituída por ideologias e religiões de todos os quadrantes, ao longo da história.
«Os que hoje ridicularizam a religião não têm nada que a substitua e perderam o rumo e orientação.»
Mais uma glosa do popular tema segundo o qual não existe "rumo" nem "orientação", ou seja "moral", sem religião. Também isto é um dogma.
Em resumo: JCN baseia-se num cenário que pouco deve à realidade (religião oprimida e substituída pela ciência triunfante na sociedade de hoje), e daí projecta uma fantasia histórica (a ciência, por sua vez, desacreditada pela mesma "cultura" que a aclamou) que, por se fundar em terreno tão movediço, tem um interesse nulo. A ciência não se veio substituir à religião (a não ser no terreno particular da explicação dos fenómenos naturais, onde a religião nunca deveria ter interferido), nem veio trazer um sucedâneo de sentido e de moral susceptíveis de serem postos em causa pelos vindouros. Muito pragmaticamente, limita-se a classificar e enquadrar em modelos a realidade do Mundo, e apenas entra em conflito com a religião quando esta tenta impor a sua Verdade revelada, absoluta e eterna (e de natureza assaz vaga, diga-se de passagem) às verdades (sublinho o plural e a minúscula) provisórias e de alcance circunscrito, mas fecundas, que a actividade científica produz.
(Mas gostei muito da parábola de Kierkegaard.)
(*) Título surripiado aos mais incisivos e incansáveis exegetas cesarnevesianos da blogosfera e arredores, o Diário Ateísta.
TÃO LONGE, TÃO PERTO: Fiquei a par da escolha de António Guterres como novo Alto Comissário para os refugiados graças a um jornal esloveno, o Vecer. (Don't ask...) Confirmei a notícia no Expresso, que (e isto até os seus detractores admitirão) possui a suprema vantagem de estar escrito em português.
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