terça-feira, junho 28, 2005
PORTAS TRAVESSAS: Sábado sim, sábado sim, é com incontido entusiasmo que extraio a revista "Xis" de dentro do jornal "Público", antes ainda de dedicar a minha atenção ao "1000 Folhas". Entre outras pérolas de sublime espiritualidade, a "Xis" oferece aos seus leitores, na coluna "Outra Porta", uma viagem a um território algures entre o esoterismo e a parapsicologia "new age". Quem escreve é Maria José Costa Félix, e escreve com uma clareza cartesiana e um sereno poder de persuasão que quase me convencem a perdoar a hedionda indigência da sua lábia.
Certas semanas há em que a prosa costafelixiana se resume a um ramalhete de lugares comuns e conselhos que, na sua inócua generalidade, se aplicam a tudo e a nada. (Reencontrar o equilíbrio anterior, expulsar os sentimentos negativos, vencer o medo dos relacionamentos, e outros clássicos no mesmo género.) Mais frequentemente, a charlatanice vem ao de cima com uma pujança soberba. Na semana passada, por exemplo, a crónica intitulada "Fontes naturais de energia" foi de molde a perguntarmo-nos que tipo de crivo editorial deixa passar tão asininas monstruosidades.
«Tudo nas flores está em movimento...» Tudo? Pétalas, sépalas, pólen, estames, caule? «...e essa vibração harmoniosa pode transmitir determinada informação a qualquer estrutura...» Qualquer estrutura? Uma ponte suspensa, por exemplo? Uma molécula de glucose? O Universo? E como é que essa informação é transmitida? Radiação? De que tipo? Electromagnética? Qual é o seu processo de geração? «...que, se estiver perturbada, poderá assim recuperar-se.» O duplo emprego do verbo "poder" leva-nos a concluir que este processo não é 100 % eficaz. De que depende o sucesso curativo desta "vibração harmoniosa"? «A bio-informação contida nas essências florais tem sido investigada por diversos cientistas e médicos.» Quais? Que tipo de investigação foi conduzida? Está publicada? Em jornais com sistema de peer-reviewing? Ou em gazetas "psi"? E, já agora, o que é a bio-informação?
Limitei-me a transcrever algumas frases de um dos parágrafos, que julgo representativo do tom lamentavelmente frouxo e manhoso do artigo: uma série de afirmações pseudo-científicas, habilmente dopadas por considerações de índole lírica sobre a alienação da humanidade relativamente à natureza. Maria José Costa Félix mostra-se indigna da linguagem de que se serve, multiplicando os abusos e as imprecisões, e entregando-se (como não podem deixar de o fazer os cultores de pseudo-saberes) a uma orgia de falácias, cujas vergonhas mal são cobertas pelos farrapos de um discurso com pretensões ao rigor científico.
Como é possível deixar publicar tão colossais cretinices?
Se há combate que eu ache valer a pena travar, nos tempos que correm, é o combate contra a superstição e o obscurantismo.
"Outra Porta"? Não tenho nada contra, desde que faculte acesso a um lugar habitável, e não a um logradouro nauseabundo pejado de fundos falsos.
domingo, junho 26, 2005
1DVDSOBREKLEIST: Outros blogs existem já em livro, mas seremos nós, o 1bsk, a oferecer à nossa corte de leitores o primeiro DVD baseado num blog! Com lançamento previsto para uma data próxima, a anunciar, o DVDKleist terá uma gama de conteúdos sortida e actual, a saber:
- texto integral do blog, incluindo posts suprimidos, quer por serem contrários à moral vigente, quer por não conterem suficientes verbos da terceira conjugação;
- texto integral das obras de Heinrich von Kleist, no original alemão e em traduções inéditas para português (um patrocínio Babelfish);
- um total de 45 minutos de clips vídeo mostrando pombos (bem alimentados) voltejando em torno da efígie do doutor Sousa Martins, no Campo dos Mártires da Mátria, e um passatempo "redija você mesmo a sua ladainha de agradecimento por cura milagrosa";
- todos os lances de todas as derrotas de Garry Kasparov durante a sua carreira profissional, sendo que as mais humilhantes virão acompanhadas por comentários recitados por Luís Miguel Cintra;
- ficheiros MP3 contendo depoimentos de personalidades subordinados ao tema: "os meus lugares preferidos para comer bolo de arroz";
- texto integral da Constituição da República Portuguesa;
- guia de ruas de Paris interactivo;
- duas curtas-metragens realizadas pela colega América, uma delas respeitando o espírito do Dogma 95;
- palavra de passe para aceder a conteúdos exclusivos no blog (é preciso clicar na bochecha direita do Kleist, e depois escrever a palavra de passe; as cookies têm de estar activadas).
Tudo isto pela módica quantia de 19,99 euros (e, caso eu soubesse qual é o superlativo absoluto sintético de "módica", esta frase soaria ainda melhor).
DESVARIO FRUTÍCOLA DEVIDAMENTE JUSTIFICADO:
1) No dicionário Houaiss da língua portuguesa encontram-se elencadas numerosas variedades de maracujá, incluindo um enigmático "maracujá-fedorento".
2) Não tenho, neste momento, o referido dicionário à mão.
3) Por isso, vou inventar, a meu bel-prazer, nomes de variedades de maracujá que soem de forma agradável aos meus ouvidos.
Maracujá-solteiro
Maracujá-da-Babilónia
Maracujá-branco
Maracujá-veludo
Maracujá-escondido
Maracujá-riscado
Maracujá-da-manhã
Maracujá-moço
Maracujá-malandro
Maracujá-tília
Maracujá-Strindberg
Maracujá-dióspiro
Maracujá-antigo
Maracujá-bastardo
Maracujá-sem-pejo
Maracujá-felizardo
Maracujá-nuvem
Maracujá-proletário
Maracujá-sem-fins-lucrativos
Maracujá-um-mês-de-férias-numa-casa-rústica-num-pinhal
sexta-feira, junho 24, 2005
WISHFUL THINKING: Na sua crónica de anteontem, Luís Delgado escreve o seguinte:
«Já chega. Alguém, algum dia, tem de fazer as coisas de modo acertado: o que está mal ou a mais corta-se, reduz-se, rentabiliza-se, e isso chega para equilibrar as contas públicas. Depois incentiva-se o investimento, faz-se um discurso de determinação optimista e ajuda-se a criar riqueza.»
E, em seguida, erradicam-se todas as doenças conhecidas, resolve-se o problema da pobreza mundial, e unifica-se a relatividade com a mecânica quântica. Tudo antes da hora de almoço.
(Não se pede a um cronista que seja capaz de avançar com soluções milagrosas para os problemas sobre os quais discorre. É de exigir, porém, que reconheça a magnitude das dificuldades e complexidades envolvidas, e que estas vão muito para além das poucas dezenas de linhas de que ele ou ela dispõe para emitir os seus veredictos.
E isto por uma questão de humildade, se não for por uma questão de sensatez e discernimento.)
segunda-feira, junho 20, 2005
RECORDAÇÕES DE UMA OBRA-PRIMA: Poucos portugueses haverá que conheçam menos de vinho do que eu. E contudo, eu estava decidido a ver "Mondovino", quanto mais não fosse em jeito de tributo às gratas recordações que me suscita a obra anterior de Nossiter. "Signs & Wonders" é um filme que provavelmente me teria passado ao lado, não fora a chamada de atenção dos "Cahiers du Cinéma". É um filme simplesmente assombroso, com Charlotte Rampling, Stellan Skarsgård (o marido de Emily Watson em "Breaking the Waves") e Deborah Kara Unger ("Crash"), um filme sobre uma traição e tentativa de reconciliação orientadas por uma profusão de falsos símbolos, e sobre os padecimentos que estão reservados àqueles que querem, a todo o custo, obrigar o mundo a significar alguma coisa.
Leitor do 1bsk, se alguma vez te surgir uma oportunidade para visionar este filme, aconselho-te apaixonadamente a não deixares que ela te escape!
CINEMA: "Mondovino", de Jonathan Nossiter. Não se trata, certamente, de um daqueles documentários susceptíveis de revolucionar o género. É uma obra que se ocupa de um assunto evidentemente caro ao realizador, e que o faz com uma mistura agradável e conseguida de empenho, profissionalismo e deleite. Uma das coisas que mais me seduz em "Mondovino"é a maneira como Nossiter aborda as diversíssimas facetas do negócio vinícola, da produção à distribuição, ao consumo e à crítica, sem nunca deixar perder de vista, com aguçado sentido da imagem e do timing, o lado orgânico e vegetal do vinho, afinal o mais importante e o único verdadeiramente indispensável. Como se o realizador se divertisse secretamente (mas sem nunca se permitir uma ironia) por tanto dinheiro e tantas pessoas dependerem daquilo que derramam inocentes bagos com dois centímetros de diâmetro.
O método de Nossiter implica deixar as pessoas falar, abdicando de voz-off ou qualquer outro fio condutor explícito. (O seu aspecto jovial e amistoso, que sugere o ideal de todas as sogras do hemisfério ocidental, é uma importante ajuda.) Mas seria ingénuo supor que um tal método exclui por completo qualquer tipo de manipulação. A inocência não existe no cinema; e, por maioria de razão, não existe na montagem, que aqui é subtilmente coordenada, não para demonstrar teses, mas simplesmente para as ilustrar. Grande indústria contra pequenos produtores, tradicionalismo contra métodos científicos, tirania da crítica contra autenticidade, monopólios do gosto contra diversidade, poder económico contra poder autárquico, todos estes conflitos são aflorados, como que por núcleos, habilmente, sem soluções de continuidade, não escamoteando à inteligência do espectador o seu papel inalienável.
O "deixar as pessoas falar" implica igualmente oferecer-lhes o tempo necessário para que, sem necessidade de incentivo, alguns dos entrevistados revelem mais de si do que aquilo de que estariam dispostos a abrir mão. É talvez esta uma das missões do documentarista. Há quem se desempenhe dela como um pulha, como um oportunista. Nossiter fá-lo com uma gentileza do mais benigno que há, apagando-se na sua condição de poliglota sorridente, confiante na irreprimível loquacidade das coisas e das pessoas.
domingo, junho 19, 2005
WALSER SOBRE KLEIST: Lê-se em "A Rosa", de Robert Walser, a dada altura (traduzo da versão francesa, pois não tenho comigo a tradução em português): «Pentesileia dá-me a impressão de ter uma voz em plena mudança; existe nesta peça, para mim, uma ambição de grandeza falha de inteligência, que se desmorona no seu posto; uma maneira de querer-muito-de-repente-tirar-demasiado-de-si-próprio».
Sim, há qualquer coisa de atentado ao bom senso nas atitudes de Pentesileia e de Aquiles. Algo que supera até as atrozes leis da guerra e do amor. Uma vez encontrada a desmesura na desmesura que, talvez sem o saber, ambos buscavam, é natural que se "desmoronem". Ninguém os perdoa: nem os comedidos, nem aqueles que encaram o excesso como uma natural manifestação humana, saudável e domesticável.
(Mais sobre Walser, a propósito da leitura de "Jakob von Gunten", muito em breve.)
sábado, junho 18, 2005
POESIA ESPANHOLA, ANOS 90 (2): Por exemplo, Joaquim Manuel Magalhães aguça o apetite do leitor com frases como esta: «Igualmente nos defrontamos com um conjunto de relações que podem ir, entre outros, de poetas romanos clássicos ao ácido filósofo Cioran. Isto é, um eclectismo referencial apesar de tudo rarefeito, sem qualquer intuito culturalista, um mero e escasso registo de gostos deambulantes que dão voz a uma coloquialidade expressiva, ao fluir conversacional dos versos, ao uso da língua trivial.»
Perante esta introdução, pode-se perdoar ao leitor se se sentir um poucochinho desapontado com os versos do poeta em questão (Juan Miguel López):
São quase sete da tarde
e não sei que fazer.
Na realidade, não quero
fazer absolutamente nada.
E não é que esteja cansado
ou com sono, é só
que não tenho motivos ou desejos
que me inclinem para o oposto.
Não tenho vontade de ler.
Não me apetece sair.
Também não me apetece ouvir música
ou ver um filme no vídeo.
(...)
Porém, nem só de paladinos da "língua trivial", na mais indigente acepção do termo, vive esta antologia. Há pelo menos três ou quatro poetas muito interessantes, e espero falar de alguns deles em postas futuras.
PAS DE REPOS POUR LES BRAVES (7): Graças à gentileza do respectivo autor, transcrevo na íntegra o artigo ("A vigília de um bravo") do "Público" do dia 24/5, de Augusto M. Seabra, sobre o extraordinário filme de Alain Guiraudie. Os meus comentários, a negrito, podem ser saltados, que eu não me importo.
«É uma daquelas raras obras em que somos constantemente surpreendidos, em que nos é dado o grato privilégio de nunca podermos adivinhar o plano seguinte, um daqueles filmes irredutivelmente singulares que só por sim são um mundo – a isto se chama cinema.
[Manifestar adesão ou frieza relativamente a um filme em função daquilo que se acredita "ser" ou "não ser" o cinema pode parecer abusivo, prepotente até; mas eu penso que não há outra maneira de o fazer. Muito pior é o contrário disto mesmo: admitir que o cinema pode ser tudo e o seu contrário, em nome da diversidade e da vontade de abarcar numa mesma categoria manifestações de índole irreconciliável.]
Poderá imaginar-se uma fábula cinematográfica que se aparente a um “western” onírico, burlesco e homoerótico, e para mais francês, ainda por cima fortemente enraizado no Languedoc e com o sotaque da região?
A coisa parece absurda e dito assim é mesmo um pouco. Acontece contudo que o “absurdo” é a redução industrial e de “marketing” dos filmes a categorias, que inclusive passou um pouco para todos os nossos discursos críticos, nem que seja quando no esforço de mediação com o leitor e potencial espectador sobre um objecto que ainda desconhece o bombardeamos de referências, quantas vezes perfeitamente incongruentes ou tão só legitimadoras.
[Perfeitamente de acordo. A divisão compulsiva em géneros é uma das aberrações mais devastadoras do cinema. 95 % dos grandes filmes da história são inclassificáveis, ou então inserem-se deliberadamente num género para o subverter, ou tirar partido dos procedimentos canónicos que o público se habituou a associar a esse mesmo género.]
Só que às vezes aparecem objectos completamente singulares, e de facto tudo o que acima se disse de “Pas de repos pour les braves” pode ser conferido – mas ainda mais importa aceder à sua espantosa singularidade.
Pensando bem, a revelação de Arnaud Desplechin já tem uns quantos anos – “La Vie des Morts” data de 91, mas é reconfortante pensar que quatro longas-metragens de ficção transcorridas, está mais que confirmado ser ele um grande cineasta.
[Sem dúvida, e só é pena que os distribuidores portugueses não abram os olhos para essa realidade.]
E quanto ao resto de novas afirmações e de promessas concretizadas no cinema francês? O que mais vejo é uma reprodução tão entediante quanto a de Hollywood, sempre o mesmo naturalismo feito de diálogos intelectuais e parisienses, e nenhum sentido daquilo que precisamente se designou em francês de “mise en scène”. Até que bem recentemente surgiram dois casos de excepção: Alain Guiraudie e Eugene Green, este americano, mas hoje não só cineasta como o grande especialista da declamação barroca francesa.
[A estes eu acrescentaria Claire Denis, François Ozon, Olivier Assayas, Leos Carax e Laetitia Masson, todos eles com obra feita revelando personalidade, talento e ideias novas. Destes, que eu saiba, só Ozon e Assayas têm sido mostrados com alguma regularidade em ecrãs portugueses. (Carax filma muito pouco.)]
Já agora vou fazer aqui um pequeno “desvio”, ou para usar um termo apropriado ao barroco, uma “dobra” – o que, como se verá, nem vem assim tanto a despropósito como possa parecer num texto sobre “Os Bravos Não têm Descanso” – e dizer algo dos filmes de Green, “Le Monde Vivant”, Grande Prémio do IndieLisboa-2004, e “Le Pont des Arts”, exibido há pouco no Indie-2005.
Quando no suposto quadro medieval do primeiro vejo um jovem com trajes de hoje e um cão, e o jovem se apresenta como Cavaleiro e diz “este é o meu leão” e o plano é o do cão, a contradição entre a ficção e o visível supõe que o código da narração solicita o espectador a outro nível, que “ver” é também “crer” – e querer e desejar “crer”. No momento sublime de “Le Pont des Arts”, o jovem suicida é salvo pela voz da Euridice que em disco canta o “Lamento della Ninfa” de Monteverdi – a “arte” é também uma “ponte” para além do real e do visível imediatos.
“Pas de repos pour les braves” é um filme em estado de vigília. Na primeira cena, Basile conta a Igor que vive ensombrado por Faftla-Laoupo (???), com o qual sonhou, e se voltar a sonhar, se voltar a adormecer portanto, esse sonho será o derradeiro. A falta de descanso, é essa vigília sonâmbula do filme, entre a lógica do sonho e os restos de uma realidade, aliás realidade particular de um mundo rural, numa ponte entre vivos e mortos (“A Aldeia-Que-Vive” e “A Aldeia-Que-Morre”), construindo uma extravagante cartografia paródica, com Buenozères e Onquecongue, que também se poderão pronunciar como Buenos Aires e Hong-Kong.
[A construção dessa "cartografia paródica" parece decorrer à medida que cresce a urgência em dar continuidade à sequência de peripécias, urgência narrativa que se confunde com a própria necessidade da personagem em evitar o sono, a morte das histórias. Se necessário, e uma vez que o sono é interdito, sonha-se acordado. "Rêver c'est pas dormir", como diz a personagem Basile.
Esta hiperactividade logorreica é, aliás, uma constante nas personagens dos filmes de Guiraudie.]
É uma “Alice do Outro Lado do Espelho” ou uma “Zazie dans le Metro” em terras de “Ubu”. Pode ser que os mortos de uma cena estejam de novo presentes nas seguintes, pode concluir-se que determinada cena supostamente preceda – caso a cronologia fosse linear – uma outra que contudo ocorreu há já muito. Ou se aceitam as regras do jogo ou não, ou se crê ou não crê, e por mim não sei como não crer, que a persuasão, a invenção, originalidade e brilhantismo de Guiraudie são imensas - assim esteja disposto e alerta o espectador para as solicitações.
Na parte final do filme, estão Johnny Got (aliás espécie de “alter-ego” de Guiraudie, inclusive fisicamente) e Basile acossados num quarto de hotel, e no diálogo das rememorações o segundo diz ao primeiro: “et après tu est parti pour une autre histoire” – “e depois deste meia-volta” nas legendas. Não é que esteja incorrecto do estrito ponto de vista da tradução, mas aqui deve mesmo ser entendido à letra: “e depois partiste para outra história”, que nunca se sabe que desvios, que dobras, que histórias, vão seguir estas personagens.
“Os Bravos Não Têm Descanso” é um filme sob o signo da imprevisibilidade, é uma daquelas raras obras em que somos constantemente surpreendidos, em que nos é dado o grato privilégio de nunca podermos adivinhar o plano seguinte, um daqueles filmes irredutivelmente singulares que só por sim são um mundo – a isto se chama cinema.
[Sim, mas a imprevisibilidade e a surpresa constante não se confundem aqui com mera aleatoriedade, nem com a arbitrariedade compulsiva que os autores sem talento fazem passar por desenvoltura ou "golpe de asa".]
Num plano completamente delirante, Igor entra pela taberna ou “saloon” (e mais não digo) a pedir querosene para a avionete. “Saloon”? Bem, falei da “Alice” de Carroll e da “Zazie” de Queneau, mas este filme, como as anteriores médias-metragens de Guiraudie, “Du soleil pour les gueux” e “Ce vieux rêve qui bouge” (e só por isso esta não é uma revelação absoluta, embora como estreia na longa-metragem seja uma confirmação considerável), é um universo masculino, aliás de um homoerotismo proletário que tenho as maiores dúvidas que encaixe nas construções culturais da categoria “gay”.
[E estou convencido que Guiraudie é o primeiro a estar-se nas tintas relativamente a isso...]
É como se as amizades viris dos “westerns” de Ford e sobretudo de Hawks (“Rio Bravo”, evidentemente) não pudessem mais ter lugar senão já plenamente investida do desejo entre os homens, noutro território que não o “west” e senão como recriação onírica e fantasista.
É caso de dizer – “bravo!”, há um cineasta.» (Augusto M. Seabra)
sexta-feira, junho 17, 2005
LUGARES DE PARIS: Paris conta com cerca de 6000 artérias, vasta malha de ruas, avenidas, becos, passagens e praças dotada do poder de titilar as imaginações dos peripatéticos e das comissões de toponímia. Se por esta profusão de espaços multiplicarmos a virtualmente infinita variedade de acções humanas possíveis, forçosamente concluímos estar perante uma poderosa máquina geradora de binómios "onde/o quê", susceptível de esgotar a fracção narrável de todas as vidas da história da humanidade, passada e por vir. Por exemplo: tapar os olhos com as mãos em concha na Rue du Chemin Vert, temer a crueldade e a prepotência na Rue du Louvre, cuspir para o chão com um nojo que desejaríamos simulado na ponte Mirabeau, ferir o próprio rosto com um formão na Rue de Tolbiac (vasta artéria comercial que corta o 13ème arrondissement), escrever uma carta repleta de recriminações na Place du Châtelet, ceder à amargura no cais de Conti, voltando-se na direcção contrária à da corrente do rio Sena, humilhar-se em público no Boulevard de Courcelles, mais precisamente no troço que confina com o Parc de Monceau, jardim de inspiração inglesa onde teve lugar o primeiro salto de pára-quedas da história, em 1797, emitir gritos guturais à chuva no Boulevard Masséna, invejar os ascetas na Avenue Ledru Rollin, atrair deplorável reputação na Place des Vosges, compor mentalmente sonetos escabrosos, de medíocre qualidade, na Rue Soufflot, com a fachada do Panteão à vista, semelhante a um mostrengo iracundo, exilar-se da companhia dos homens no Boulevard de la Bonne Nouvelle, rojar-se no chão em pleno Boulevard Richard Lenoir (que tem a honra de ter acolhido o domicílio fictício do fictício inspector Maigret), deixar-se obcecar pela cor vermelha na Rue Daguerre, perder ou espezinhar a esperança na Rue Caulaincourt, no coração de Montmartre.
Não esqueçamos os arredores. Em Ivry-sur-Seine, existe um terreno grande o suficiente para conter todos os erros grosseiros que cabem na vida de um homem.
quinta-feira, junho 16, 2005
A LISBOAPHOTO ESTÁ AÍ:

(Albano Afonso, "Still Life")
Mais pormenores sobre o evento nesta pulquérrima webpage.

LEITURAS: Estou neste momento a ler a antologia "Poesia Espanhola, Anos 90" (Relógio d'Água, 2000), com organização e tradução de Joaquim Manuel Magalhães. Com aproximadamente dois terços do volume já lidos, foram muito poucos os autores que me entusiasmaram, ou cujos trabalhos incluídos na antologia fogem a uma quase embaraçosa mediania.
Quer-me parecer que, em Espanha (e à semelhança do que se passa em Portugal), predomina entre as gerações mais novas uma tendência confessionalista, soturna, urbana, muito dada à exploração das banalidades quotidianas, adepta do grau zero do formalismo e de um abjeccionismo com o seu quê de pueril.
Quase invariavelmente, as considerações introdutórias de JMM são mais interessantes e ricas, a todos os níveis, da prosódia ao conteúdo, do que os poemas do autor apresentado, que redundam em autêntico anti-clímax.
Por exemplo, a propósito de Pablo García Casado: «O que faz supor que toda a sua poesia da linearidade aliterária se acompanha de um sagaz uso da máscara, onde os temas recorrentes do autor se cristalizam, sendo indiferentes se coincidentes ou não com a sua própria existência pessoal. Construção da confissão; e não confessionalidade.»
Acho sedutora esta ideia de uma pseudo-confessionalidade fictícia e construída, e da exploração da própria essência da confissão, desligada da urgência de contar e revelar tradicionalmente assumida e reivindicada pela primeira pessoa poética.
quarta-feira, junho 15, 2005
CINEMA: Fui ver "Mondovino", de Jonathan Nossiter. Para quem não o tenha visto, ou nada tenha lido sobre este filme, trata-se de um documentário sobre o negócio do vinho e sobre as suas vertentes: produção, exportação, estratégias de mercado, crítica, etc.
Para já, não tenho tempo para escrever sobre este filme. Espero ainda poder fazê-lo nos próximos dias. Limito-me a assinalar, com surpresa e deleite, a enorme quantidade de canídeos que aparece no decorrer do documentário. Poucos são os entrevistados que não surgem ladeados por pelo menos um cão. Vêem-se cães de numerosas raças diferentes. Frequentemente, a câmara parece mais interessada nas cabriolas dos animaizinhos do que no entrevistado ou nas suas vinhas.
Tentei procurar alguma associação entre os cães e o vinho, mas não me lembrei de nada a não ser da história bíblica das vinhas de Naboth, e dos cães que lamberam o sangue do rei, cumprindo a profecia.
Talvez não se tratasse de um símbolo. (Aliás, o filme anterior de Nossiter, o fabuloso "Signs & Wonders", que tive a felicidade de poder ver, ensinava a nunca confiar nos símbolos, ou nos detalhes em que o ser humano sedento de símbolos julga vislumbrar um qualquer significado.)
LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Um cavalheiro ainda jovem, vestido com informalidade, possuidor de um gabarito físico que impunha respeito, folheava as "Meditações Metafísicas", de René Descartes, e era de pé que o fazia. Até que se sentou. Onde se passou isto? Ora, na linha verde do metropolitano, pois então. A terra é um lugar gratificante para se viver, e os deuses risonhos são incapazes de atentar, por mero capricho, contra a felicidade humana.
quarta-feira, junho 08, 2005
PONGE (4): «C'est en cela aussi que je suis en quelque façon surréaliste, c'est-à-dire que je laisse venir autant que possible, enfin tout, mais pourtant en sachant que je fais un livre. Aucune illusion sur l'écriture automatique. C'est-à-dire que je sais parfaitemente qu'on dégorge, quand on fait de l'écriture automatique, ce qu'on a lu la veille. (...) C'est en ce sens aussi que je suis profondément matérialiste, au sens où tout commence para la sensation.» (Francis Ponge, entrevista com Jean Ristat, 1978.)
Com estas frases, afinal de contas bastante simples (mas plenas de nuances complexas), Ponge define muito do essencial da sua atitude perante a escrita. Por um lado, uma disponibilidade para receber do exterior. Receber as metáforas, as ideias, as imagens que se lhe impõem a propósito dos objectos ou situações que pretende descrever. (E poucos autores, no século XX, terão conseguido o feito de Ponge: praticar uma poesia predominantemente descritiva e materialista, sem abdicar de uma liberdade absoluta, que por vezes, erradamente, se julga inconciliável com esses atributos.) Receber, estar disponível, mas partindo do estímulo, da sensação. Recusar o mito da livre associação como expressão de uma autenticidade interior, que alguns surrealistas quiseram fazer passar como a liberdade suprema, mas que não passa de uma das mais detestáveis tiranias.
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