quarta-feira, junho 29, 2005

DOMINGO SABE DE COR O QUE VAI DIZER SEGUNDA-FEIRA (*): No sábado, fui almoçar a um restaurante zen. (Bastante bom, por sinal. Na Av. Barbosa du Bocage, para quem estiver interessado. Nº 107-C. O "C" é muito importante.) Dois dias depois deste momento zen alimentar, esperava-me o meu momento zen espiritual das segundas-feiras (nas palavras do Diário Ateísta), sob a forma de crónica do Prof. João César das Neves. João César das Neves é um dos mais lídimos representantes da escola do terrorismo argumentativo: ao prodigalizar as falácias e vícios de raciocínio, que se encavalitam uns nos outros com uma densidade sufocante, o seu discurso induz no leitor desprevenido um efeito semelhante ao choque provocado por um engenho explosivo. Na impossibilidade de refutar, uma a uma, tão caudalosa torrente de inépcias, o infeliz pode convencer-se a aceitar, en bloc, a abstrusa argumentação nevesiana, apenas para evitar incorrer em colapso mental. A crónica "A Liberdade que mata a Liberdade" é disto um portentoso exemplo, com o interesse acrescido de constituir uma espécie de sequela da lendária "Glória feminina" (quem se lembra deste momento histórico?). Tal como é típico da grande literatura, as crónicas nevesianas enriquecem-se à distância, comunicam entre si por meio de uma fascinante rede de ecos e ressonâncias. Limito-me a escolher alguns dos momentos mais representativos desta crónica. Os comentários, mais do que a minha opinião pessoal, dita-os o simples bom senso. «A família é aquele campo em que, tolamente, a sociedade moderna preconiza uma liberdade radical, sem limites.» Falso. Nem sequer como caricatura funciona. Ninguém, na sociedade moderna, preconiza uma "liberdade sem limites". Aquilo para que se tem caminhado é para um enquadramento de situações muito concretas que - bem entendido - entram em conflito com as susceptibilidades de JCN e da sua clique. «Precisamente no aspecto humano mais influente e na área onde, historicamente, mais hábitos e prescrições vigoraram, defende-se hoje, em maciças campanhas mediáticas, o libertarismo mais absoluto.» A referência às "maciças campanhas mediáticas" é o primeiro indício da obsessão persecutória de que JCN, pelos vistos, não consegue livrar-se. Ao contrário daquilo que JCN procura fazer passar, a época contemporânea caracteriza-se por uma intensa actividade legislatória em torno quer da família, quer dos delitos de índole sexual. Nunca, como hoje, foram punidos e repudiados de forma tão convicta os crimes de pedofilia. Nunca as violações mereceram condenação judicial e moral tão forte. Contrastando com o cenário de "libertarismo absoluto", vigora hoje um quadro judicial que contempla ou tende a contemplar, de forma bastante exaustiva, um largo leque de situações associadas ao estabelecimento de agregados familiares. Sucede é que muitas dessas situações (uniões de facto, uniões e adopção entre homossexuais, divórcio) têm o dom de pôr fora de si o Prof. César das Neves, para quem elas não mereceriam qualquer enquadramento legal, mas apenas o desdém de quem sabe estar do Lado Certo. «Enfraqueceu-se o matrimónio pelo divórcio e as uniões de facto.» Segundo JCN, seria preferível fazer perdurar artificialmente matrimónios virtualmente desfeitos por incompatibilidade dos cônjuges, e deixar na clandestinidade situações de união que, independentemente de o quadro legal existir ou não, continuariam a verificar-se. «Mas no campo sexual a única regra admissível é fazer-se o que se quer, sem ninguém ter nada com isso.» Esta visão absolutista nada tem a ver com a realidade, com a legislação vigente e com as mentalidades predominantes. «Os idosos são esquecidos em vida nos lares e apressados na morte pela eutanásia. Estas são hoje propostas políticas defendidas furiosamente em nome da liberdade.» Confundir a eutanásia com um estratagema para livrar a sociedade dos seus idosos é demasiado grotesco para que eu acredite estar JCN a falar a sério. Provavelmente, tratou-se aqui de uma tentativa mal sucedida de lançar uma pequena facécia. «A mulher é sempre a grande sacrificada. Vivemos no tempo que mais a agride, despreza e oprime.» É inacreditável que se possa defender seriamente tal coisa. Provavelmente, JCN acha que a mulher estava mais eficazmente defendida quando não podia deixar o país sem autorização do marido, quando não podia votar, nem seguir uma educação superior, nem mesmo (recuando algumas décadas, não tantas quanto isso) aprender a ler e escrever. JCN considera sem dúvida que as mulheres levavam uma vida mais fácil e digna nos tempos em que as únicas alternativas que se lhes abriam eram o casamento, o convento ou uma vida de solteirona exposta às aleatoriedades de uma condição financeira precária. Não me custa acreditar que, no entendimento de JCN, a idade de ouro da condição feminina se situe uns bons séculos antes do mais pernicioso acontecimento para a humanidade desde que Adão disse para Eva "Olha, filha, era muito sumarenta". Refiro-me, obviamente, à invenção e popularização da pílula. «O feminismo radical é paralelo ao marxismo, que destruiu a condição dos trabalhadores em nome da defesa dos seus interesses.» Fico a saber que o marxismo destruiu a condição dos trabalhadores. Não sabia. Ainda bem que fiquei a saber, porque gosto muito de ficar a saber coisas novas. «Objectivamente, a nossa cultura de ambição, violência e competição é, em múltiplos aspectos, diametralmente oposta aos valores femininos. A mulher foi influente em épocas que preferiam a honra ao sucesso, a estabilidade ao progresso, a beleza à eficácia, a tradição à novidade.» Que épocas? Como é apanágio daqueles que têm o hábito de torcer os factos para os harmonizar com as suas patuscas mundividências , JCN engendra mitos que confunde com a realidade histórica. Claramente, JCN nega à mulher a capacidade e o interesse de se afirmar neste nosso mundo iníquo, que privilegia o sucesso e a eficácia. Segundo esta ordem de ideias, uma ministra ou uma presidente de conselho de administração estão, sem o saber, a atentar contra a dignidade da condição feminina. «Temos meninas de escola a aclamar uma atitude tradicionalmente preconizada por marialvas e chauvinistas.» Obviamente, JCN nunca pestanejaria enquanto tal atitude se confinasse ao género masculino, porque afinal, convenha-se, está na natureza do homem andar atrás do mulherio. A partir do momento em que as mulheres reivindicam o direito a um papel mais activo do que a submissão tímida e modesta, o caldo entorna-se. Temos dissipação. E todas as mulheres que, subitamente, vêem abrir-se horizontes de que as gerações anteriores nem suspeitavam estão, ao ceder à tentação de explorar relacionamentos fora do sacramento matrimonial, a cair em atroz engodo. Está-se mesmo a ver. Pobres meninas da escola. Caminham para a sua perdição espiritual com um sorriso dançando nos lábios. «A "mulher desinibida" é a realização do sonho mais machista de Casanova e Don Juan, em nome da paradoxal "libertação da mulher".» Aquilo que está certo é os casanovas deste mundo espalharem a sua semente com a cumplicidade transiente de donas-de-casa virtuosas, apanhadas num instante de desculpável fraqueza, prontamente remível com a ajuda do confessor solícito. Assim, sim. Tudo o resto é perversão. E a verdadeira libertação da mulher, para JCN, tem de passar pela abdicação de qualquer veleidade concupiscente. "Livre" de paixões e de aspirações a algo mais do que a beatitude doméstica, de preferência numa das tais épocas em que se preferia a beleza à eficácia, ela realizar-se-á por completo, com ou sem discreta música de flauta e harpas a acompanhar. «Recusa-se já a existência de atitudes típicas de cada sexo. Vive-se a própria negação da identidade feminina, exaltando homens efeminados e mulheres másculas.» Nisto é também JCN useiro e vezeiro: confundir tolerância com promoção de determinados comportamentos. Tudo o que soe a cedência às (aliás legítimas) reivindicações das orientações sexuais minoritárias equivale, para JCN, a uma apologia entusiástica da sodomia. «Estas questões estraçalham hoje a sociedade espanhola, corroem a cultura holandesa, incendeiam os estados norte-americanos.» Ignorava que a sociedade espanhola estivesse estraçalhada (ao contrário, presumo, do que sucedia no tempo de Franco, com tudo nos seus lugarzinhos), a cultura holandesa corroída, os estados norte-americanos incendiados... Decididamente, aprendo muita coisa nova com o bom Professor! Mais palavras para quê? João César das Neves, se não anda na boca de toda a gente, pelo menos transforma a nossa vida em algo de mais aprazível, e traz-nos o elemento zen que escasseia nos nossos grisalhos quotidianos. À falta da sensatez e da penetração, louve-se esse seu serviço público hebdomadário. (*) Jorge Palma

terça-feira, junho 28, 2005

POESIA ESPANHOLA, ANOS 90 (3 E ÚLTIMO): Mau grado o cepticismo que exprimi em posts anteriores, esta antologia organizada por Joaquim Manuel Magalhães trouxe algumas descobertas agradáveis. Apreciei, por exemplo, os poemas de Ana Merino, muito belos na sua sobriedade concisa e tensa, mas também doce. Transcrevo um deles (no original, sem desprimor para o esforço de tradução de JMM): Atarse a los secretos de los días gemelos no es tarea fácil para mi pobre amigo. A veces viene a verme, a romper el silencio de una lenta agonía que guarda en la memoria. Atarse tantos nudos no ha servido de nada. Lo dice con los ojos hundidos en la lluvia y así nace su sombra en el cielo quebrado que esconde el abandono. Outros nomes que me chamaram a atenção: Jordi Doce, Marcos Canteli e Antonio Lucas.
PORTAS TRAVESSAS: Sábado sim, sábado sim, é com incontido entusiasmo que extraio a revista "Xis" de dentro do jornal "Público", antes ainda de dedicar a minha atenção ao "1000 Folhas". Entre outras pérolas de sublime espiritualidade, a "Xis" oferece aos seus leitores, na coluna "Outra Porta", uma viagem a um território algures entre o esoterismo e a parapsicologia "new age". Quem escreve é Maria José Costa Félix, e escreve com uma clareza cartesiana e um sereno poder de persuasão que quase me convencem a perdoar a hedionda indigência da sua lábia. Certas semanas há em que a prosa costafelixiana se resume a um ramalhete de lugares comuns e conselhos que, na sua inócua generalidade, se aplicam a tudo e a nada. (Reencontrar o equilíbrio anterior, expulsar os sentimentos negativos, vencer o medo dos relacionamentos, e outros clássicos no mesmo género.) Mais frequentemente, a charlatanice vem ao de cima com uma pujança soberba. Na semana passada, por exemplo, a crónica intitulada "Fontes naturais de energia" foi de molde a perguntarmo-nos que tipo de crivo editorial deixa passar tão asininas monstruosidades. «Tudo nas flores está em movimento...» Tudo? Pétalas, sépalas, pólen, estames, caule? «...e essa vibração harmoniosa pode transmitir determinada informação a qualquer estrutura...» Qualquer estrutura? Uma ponte suspensa, por exemplo? Uma molécula de glucose? O Universo? E como é que essa informação é transmitida? Radiação? De que tipo? Electromagnética? Qual é o seu processo de geração? «...que, se estiver perturbada, poderá assim recuperar-se.» O duplo emprego do verbo "poder" leva-nos a concluir que este processo não é 100 % eficaz. De que depende o sucesso curativo desta "vibração harmoniosa"? «A bio-informação contida nas essências florais tem sido investigada por diversos cientistas e médicos.» Quais? Que tipo de investigação foi conduzida? Está publicada? Em jornais com sistema de peer-reviewing? Ou em gazetas "psi"? E, já agora, o que é a bio-informação? Limitei-me a transcrever algumas frases de um dos parágrafos, que julgo representativo do tom lamentavelmente frouxo e manhoso do artigo: uma série de afirmações pseudo-científicas, habilmente dopadas por considerações de índole lírica sobre a alienação da humanidade relativamente à natureza. Maria José Costa Félix mostra-se indigna da linguagem de que se serve, multiplicando os abusos e as imprecisões, e entregando-se (como não podem deixar de o fazer os cultores de pseudo-saberes) a uma orgia de falácias, cujas vergonhas mal são cobertas pelos farrapos de um discurso com pretensões ao rigor científico. Como é possível deixar publicar tão colossais cretinices? Se há combate que eu ache valer a pena travar, nos tempos que correm, é o combate contra a superstição e o obscurantismo. "Outra Porta"? Não tenho nada contra, desde que faculte acesso a um lugar habitável, e não a um logradouro nauseabundo pejado de fundos falsos.

domingo, junho 26, 2005

DOIS SINAIS DE QUE O APOCALIPSE ESTÁ PARA BREVE: 1) O mundial de voleibol de praia está a realizar-se em Berlim. 2) Estão à venda espadas do Anakin Skywalker nos postos dos CTT.
1DVDSOBREKLEIST: Outros blogs existem já em livro, mas seremos nós, o 1bsk, a oferecer à nossa corte de leitores o primeiro DVD baseado num blog! Com lançamento previsto para uma data próxima, a anunciar, o DVDKleist terá uma gama de conteúdos sortida e actual, a saber: - texto integral do blog, incluindo posts suprimidos, quer por serem contrários à moral vigente, quer por não conterem suficientes verbos da terceira conjugação; - texto integral das obras de Heinrich von Kleist, no original alemão e em traduções inéditas para português (um patrocínio Babelfish); - um total de 45 minutos de clips vídeo mostrando pombos (bem alimentados) voltejando em torno da efígie do doutor Sousa Martins, no Campo dos Mártires da Mátria, e um passatempo "redija você mesmo a sua ladainha de agradecimento por cura milagrosa"; - todos os lances de todas as derrotas de Garry Kasparov durante a sua carreira profissional, sendo que as mais humilhantes virão acompanhadas por comentários recitados por Luís Miguel Cintra; - ficheiros MP3 contendo depoimentos de personalidades subordinados ao tema: "os meus lugares preferidos para comer bolo de arroz"; - texto integral da Constituição da República Portuguesa; - guia de ruas de Paris interactivo; - duas curtas-metragens realizadas pela colega América, uma delas respeitando o espírito do Dogma 95; - palavra de passe para aceder a conteúdos exclusivos no blog (é preciso clicar na bochecha direita do Kleist, e depois escrever a palavra de passe; as cookies têm de estar activadas). Tudo isto pela módica quantia de 19,99 euros (e, caso eu soubesse qual é o superlativo absoluto sintético de "módica", esta frase soaria ainda melhor).
DESVARIO FRUTÍCOLA DEVIDAMENTE JUSTIFICADO: 1) No dicionário Houaiss da língua portuguesa encontram-se elencadas numerosas variedades de maracujá, incluindo um enigmático "maracujá-fedorento". 2) Não tenho, neste momento, o referido dicionário à mão. 3) Por isso, vou inventar, a meu bel-prazer, nomes de variedades de maracujá que soem de forma agradável aos meus ouvidos. Maracujá-solteiro Maracujá-da-Babilónia Maracujá-branco Maracujá-veludo Maracujá-escondido Maracujá-riscado Maracujá-da-manhã Maracujá-moço Maracujá-malandro Maracujá-tília Maracujá-Strindberg Maracujá-dióspiro Maracujá-antigo Maracujá-bastardo Maracujá-sem-pejo Maracujá-felizardo Maracujá-nuvem Maracujá-proletário Maracujá-sem-fins-lucrativos Maracujá-um-mês-de-férias-numa-casa-rústica-num-pinhal

sexta-feira, junho 24, 2005

WISHFUL THINKING: Na sua crónica de anteontem, Luís Delgado escreve o seguinte: «Já chega. Alguém, algum dia, tem de fazer as coisas de modo acertado: o que está mal ou a mais corta-se, reduz-se, rentabiliza-se, e isso chega para equilibrar as contas públicas. Depois incentiva-se o investimento, faz-se um discurso de determinação optimista e ajuda-se a criar riqueza.» E, em seguida, erradicam-se todas as doenças conhecidas, resolve-se o problema da pobreza mundial, e unifica-se a relatividade com a mecânica quântica. Tudo antes da hora de almoço. (Não se pede a um cronista que seja capaz de avançar com soluções milagrosas para os problemas sobre os quais discorre. É de exigir, porém, que reconheça a magnitude das dificuldades e complexidades envolvidas, e que estas vão muito para além das poucas dezenas de linhas de que ele ou ela dispõe para emitir os seus veredictos. E isto por uma questão de humildade, se não for por uma questão de sensatez e discernimento.)

segunda-feira, junho 20, 2005

AO CORRER DO TEMPO: É tão bom escrever sobre cinema. Tenho de fazer isto mais vezes. Mas não hoje.
RECORDAÇÕES DE UMA OBRA-PRIMA: Poucos portugueses haverá que conheçam menos de vinho do que eu. E contudo, eu estava decidido a ver "Mondovino", quanto mais não fosse em jeito de tributo às gratas recordações que me suscita a obra anterior de Nossiter. "Signs & Wonders" é um filme que provavelmente me teria passado ao lado, não fora a chamada de atenção dos "Cahiers du Cinéma". É um filme simplesmente assombroso, com Charlotte Rampling, Stellan Skarsgård (o marido de Emily Watson em "Breaking the Waves") e Deborah Kara Unger ("Crash"), um filme sobre uma traição e tentativa de reconciliação orientadas por uma profusão de falsos símbolos, e sobre os padecimentos que estão reservados àqueles que querem, a todo o custo, obrigar o mundo a significar alguma coisa. Leitor do 1bsk, se alguma vez te surgir uma oportunidade para visionar este filme, aconselho-te apaixonadamente a não deixares que ela te escape!
CINEMA: "Mondovino", de Jonathan Nossiter. Não se trata, certamente, de um daqueles documentários susceptíveis de revolucionar o género. É uma obra que se ocupa de um assunto evidentemente caro ao realizador, e que o faz com uma mistura agradável e conseguida de empenho, profissionalismo e deleite. Uma das coisas que mais me seduz em "Mondovino"é a maneira como Nossiter aborda as diversíssimas facetas do negócio vinícola, da produção à distribuição, ao consumo e à crítica, sem nunca deixar perder de vista, com aguçado sentido da imagem e do timing, o lado orgânico e vegetal do vinho, afinal o mais importante e o único verdadeiramente indispensável. Como se o realizador se divertisse secretamente (mas sem nunca se permitir uma ironia) por tanto dinheiro e tantas pessoas dependerem daquilo que derramam inocentes bagos com dois centímetros de diâmetro. O método de Nossiter implica deixar as pessoas falar, abdicando de voz-off ou qualquer outro fio condutor explícito. (O seu aspecto jovial e amistoso, que sugere o ideal de todas as sogras do hemisfério ocidental, é uma importante ajuda.) Mas seria ingénuo supor que um tal método exclui por completo qualquer tipo de manipulação. A inocência não existe no cinema; e, por maioria de razão, não existe na montagem, que aqui é subtilmente coordenada, não para demonstrar teses, mas simplesmente para as ilustrar. Grande indústria contra pequenos produtores, tradicionalismo contra métodos científicos, tirania da crítica contra autenticidade, monopólios do gosto contra diversidade, poder económico contra poder autárquico, todos estes conflitos são aflorados, como que por núcleos, habilmente, sem soluções de continuidade, não escamoteando à inteligência do espectador o seu papel inalienável. O "deixar as pessoas falar" implica igualmente oferecer-lhes o tempo necessário para que, sem necessidade de incentivo, alguns dos entrevistados revelem mais de si do que aquilo de que estariam dispostos a abrir mão. É talvez esta uma das missões do documentarista. Há quem se desempenhe dela como um pulha, como um oportunista. Nossiter fá-lo com uma gentileza do mais benigno que há, apagando-se na sua condição de poliglota sorridente, confiante na irreprimível loquacidade das coisas e das pessoas.

domingo, junho 19, 2005

FIAT LUX: - Queria um pastel de nata, se faz favor. (O começo de uma ficção é precioso. Cada cidadão transforma-se numa personagem subtilmente tangida pelas palavras iniciais.)
WALSER SOBRE KLEIST: Lê-se em "A Rosa", de Robert Walser, a dada altura (traduzo da versão francesa, pois não tenho comigo a tradução em português): «Pentesileia dá-me a impressão de ter uma voz em plena mudança; existe nesta peça, para mim, uma ambição de grandeza falha de inteligência, que se desmorona no seu posto; uma maneira de querer-muito-de-repente-tirar-demasiado-de-si-próprio». Sim, há qualquer coisa de atentado ao bom senso nas atitudes de Pentesileia e de Aquiles. Algo que supera até as atrozes leis da guerra e do amor. Uma vez encontrada a desmesura na desmesura que, talvez sem o saber, ambos buscavam, é natural que se "desmoronem". Ninguém os perdoa: nem os comedidos, nem aqueles que encaram o excesso como uma natural manifestação humana, saudável e domesticável. (Mais sobre Walser, a propósito da leitura de "Jakob von Gunten", muito em breve.)

sábado, junho 18, 2005

A IDADE DAS ESTRELAS: Brilha a estrela polar e a luz azul dos olhos amados anuvia-se do derradeiro horror. (Anna Akhmatova, in "Requiem", tradução de Nina e Filipe Guerra)
POESIA ESPANHOLA, ANOS 90 (2): Por exemplo, Joaquim Manuel Magalhães aguça o apetite do leitor com frases como esta: «Igualmente nos defrontamos com um conjunto de relações que podem ir, entre outros, de poetas romanos clássicos ao ácido filósofo Cioran. Isto é, um eclectismo referencial apesar de tudo rarefeito, sem qualquer intuito culturalista, um mero e escasso registo de gostos deambulantes que dão voz a uma coloquialidade expressiva, ao fluir conversacional dos versos, ao uso da língua trivial.» Perante esta introdução, pode-se perdoar ao leitor se se sentir um poucochinho desapontado com os versos do poeta em questão (Juan Miguel López): São quase sete da tarde e não sei que fazer. Na realidade, não quero fazer absolutamente nada. E não é que esteja cansado ou com sono, é só que não tenho motivos ou desejos que me inclinem para o oposto. Não tenho vontade de ler. Não me apetece sair. Também não me apetece ouvir música ou ver um filme no vídeo. (...) Porém, nem só de paladinos da "língua trivial", na mais indigente acepção do termo, vive esta antologia. Há pelo menos três ou quatro poetas muito interessantes, e espero falar de alguns deles em postas futuras.
PAS DE REPOS POUR LES BRAVES (7): Graças à gentileza do respectivo autor, transcrevo na íntegra o artigo ("A vigília de um bravo") do "Público" do dia 24/5, de Augusto M. Seabra, sobre o extraordinário filme de Alain Guiraudie. Os meus comentários, a negrito, podem ser saltados, que eu não me importo. «É uma daquelas raras obras em que somos constantemente surpreendidos, em que nos é dado o grato privilégio de nunca podermos adivinhar o plano seguinte, um daqueles filmes irredutivelmente singulares que só por sim são um mundo – a isto se chama cinema. [Manifestar adesão ou frieza relativamente a um filme em função daquilo que se acredita "ser" ou "não ser" o cinema pode parecer abusivo, prepotente até; mas eu penso que não há outra maneira de o fazer. Muito pior é o contrário disto mesmo: admitir que o cinema pode ser tudo e o seu contrário, em nome da diversidade e da vontade de abarcar numa mesma categoria manifestações de índole irreconciliável.] Poderá imaginar-se uma fábula cinematográfica que se aparente a um “western” onírico, burlesco e homoerótico, e para mais francês, ainda por cima fortemente enraizado no Languedoc e com o sotaque da região? A coisa parece absurda e dito assim é mesmo um pouco. Acontece contudo que o “absurdo” é a redução industrial e de “marketing” dos filmes a categorias, que inclusive passou um pouco para todos os nossos discursos críticos, nem que seja quando no esforço de mediação com o leitor e potencial espectador sobre um objecto que ainda desconhece o bombardeamos de referências, quantas vezes perfeitamente incongruentes ou tão só legitimadoras. [Perfeitamente de acordo. A divisão compulsiva em géneros é uma das aberrações mais devastadoras do cinema. 95 % dos grandes filmes da história são inclassificáveis, ou então inserem-se deliberadamente num género para o subverter, ou tirar partido dos procedimentos canónicos que o público se habituou a associar a esse mesmo género.] Só que às vezes aparecem objectos completamente singulares, e de facto tudo o que acima se disse de “Pas de repos pour les braves” pode ser conferido – mas ainda mais importa aceder à sua espantosa singularidade. Pensando bem, a revelação de Arnaud Desplechin já tem uns quantos anos – “La Vie des Morts” data de 91, mas é reconfortante pensar que quatro longas-metragens de ficção transcorridas, está mais que confirmado ser ele um grande cineasta. [Sem dúvida, e só é pena que os distribuidores portugueses não abram os olhos para essa realidade.] E quanto ao resto de novas afirmações e de promessas concretizadas no cinema francês? O que mais vejo é uma reprodução tão entediante quanto a de Hollywood, sempre o mesmo naturalismo feito de diálogos intelectuais e parisienses, e nenhum sentido daquilo que precisamente se designou em francês de “mise en scène”. Até que bem recentemente surgiram dois casos de excepção: Alain Guiraudie e Eugene Green, este americano, mas hoje não só cineasta como o grande especialista da declamação barroca francesa. [A estes eu acrescentaria Claire Denis, François Ozon, Olivier Assayas, Leos Carax e Laetitia Masson, todos eles com obra feita revelando personalidade, talento e ideias novas. Destes, que eu saiba, só Ozon e Assayas têm sido mostrados com alguma regularidade em ecrãs portugueses. (Carax filma muito pouco.)] Já agora vou fazer aqui um pequeno “desvio”, ou para usar um termo apropriado ao barroco, uma “dobra” – o que, como se verá, nem vem assim tanto a despropósito como possa parecer num texto sobre “Os Bravos Não têm Descanso” – e dizer algo dos filmes de Green, “Le Monde Vivant”, Grande Prémio do IndieLisboa-2004, e “Le Pont des Arts”, exibido há pouco no Indie-2005. Quando no suposto quadro medieval do primeiro vejo um jovem com trajes de hoje e um cão, e o jovem se apresenta como Cavaleiro e diz “este é o meu leão” e o plano é o do cão, a contradição entre a ficção e o visível supõe que o código da narração solicita o espectador a outro nível, que “ver” é também “crer” – e querer e desejar “crer”. No momento sublime de “Le Pont des Arts”, o jovem suicida é salvo pela voz da Euridice que em disco canta o “Lamento della Ninfa” de Monteverdi – a “arte” é também uma “ponte” para além do real e do visível imediatos. “Pas de repos pour les braves” é um filme em estado de vigília. Na primeira cena, Basile conta a Igor que vive ensombrado por Faftla-Laoupo (???), com o qual sonhou, e se voltar a sonhar, se voltar a adormecer portanto, esse sonho será o derradeiro. A falta de descanso, é essa vigília sonâmbula do filme, entre a lógica do sonho e os restos de uma realidade, aliás realidade particular de um mundo rural, numa ponte entre vivos e mortos (“A Aldeia-Que-Vive” e “A Aldeia-Que-Morre”), construindo uma extravagante cartografia paródica, com Buenozères e Onquecongue, que também se poderão pronunciar como Buenos Aires e Hong-Kong. [A construção dessa "cartografia paródica" parece decorrer à medida que cresce a urgência em dar continuidade à sequência de peripécias, urgência narrativa que se confunde com a própria necessidade da personagem em evitar o sono, a morte das histórias. Se necessário, e uma vez que o sono é interdito, sonha-se acordado. "Rêver c'est pas dormir", como diz a personagem Basile. Esta hiperactividade logorreica é, aliás, uma constante nas personagens dos filmes de Guiraudie.] É uma “Alice do Outro Lado do Espelho” ou uma “Zazie dans le Metro” em terras de “Ubu”. Pode ser que os mortos de uma cena estejam de novo presentes nas seguintes, pode concluir-se que determinada cena supostamente preceda – caso a cronologia fosse linear – uma outra que contudo ocorreu há já muito. Ou se aceitam as regras do jogo ou não, ou se crê ou não crê, e por mim não sei como não crer, que a persuasão, a invenção, originalidade e brilhantismo de Guiraudie são imensas - assim esteja disposto e alerta o espectador para as solicitações. Na parte final do filme, estão Johnny Got (aliás espécie de “alter-ego” de Guiraudie, inclusive fisicamente) e Basile acossados num quarto de hotel, e no diálogo das rememorações o segundo diz ao primeiro: “et après tu est parti pour une autre histoire” – “e depois deste meia-volta” nas legendas. Não é que esteja incorrecto do estrito ponto de vista da tradução, mas aqui deve mesmo ser entendido à letra: “e depois partiste para outra história”, que nunca se sabe que desvios, que dobras, que histórias, vão seguir estas personagens. “Os Bravos Não Têm Descanso” é um filme sob o signo da imprevisibilidade, é uma daquelas raras obras em que somos constantemente surpreendidos, em que nos é dado o grato privilégio de nunca podermos adivinhar o plano seguinte, um daqueles filmes irredutivelmente singulares que só por sim são um mundo – a isto se chama cinema. [Sim, mas a imprevisibilidade e a surpresa constante não se confundem aqui com mera aleatoriedade, nem com a arbitrariedade compulsiva que os autores sem talento fazem passar por desenvoltura ou "golpe de asa".] Num plano completamente delirante, Igor entra pela taberna ou “saloon” (e mais não digo) a pedir querosene para a avionete. “Saloon”? Bem, falei da “Alice” de Carroll e da “Zazie” de Queneau, mas este filme, como as anteriores médias-metragens de Guiraudie, “Du soleil pour les gueux” e “Ce vieux rêve qui bouge” (e só por isso esta não é uma revelação absoluta, embora como estreia na longa-metragem seja uma confirmação considerável), é um universo masculino, aliás de um homoerotismo proletário que tenho as maiores dúvidas que encaixe nas construções culturais da categoria “gay”. [E estou convencido que Guiraudie é o primeiro a estar-se nas tintas relativamente a isso...] É como se as amizades viris dos “westerns” de Ford e sobretudo de Hawks (“Rio Bravo”, evidentemente) não pudessem mais ter lugar senão já plenamente investida do desejo entre os homens, noutro território que não o “west” e senão como recriação onírica e fantasista. É caso de dizer – “bravo!”, há um cineasta.» (Augusto M. Seabra)

sexta-feira, junho 17, 2005

LUGARES DE PARIS: Paris conta com cerca de 6000 artérias, vasta malha de ruas, avenidas, becos, passagens e praças dotada do poder de titilar as imaginações dos peripatéticos e das comissões de toponímia. Se por esta profusão de espaços multiplicarmos a virtualmente infinita variedade de acções humanas possíveis, forçosamente concluímos estar perante uma poderosa máquina geradora de binómios "onde/o quê", susceptível de esgotar a fracção narrável de todas as vidas da história da humanidade, passada e por vir. Por exemplo: tapar os olhos com as mãos em concha na Rue du Chemin Vert, temer a crueldade e a prepotência na Rue du Louvre, cuspir para o chão com um nojo que desejaríamos simulado na ponte Mirabeau, ferir o próprio rosto com um formão na Rue de Tolbiac (vasta artéria comercial que corta o 13ème arrondissement), escrever uma carta repleta de recriminações na Place du Châtelet, ceder à amargura no cais de Conti, voltando-se na direcção contrária à da corrente do rio Sena, humilhar-se em público no Boulevard de Courcelles, mais precisamente no troço que confina com o Parc de Monceau, jardim de inspiração inglesa onde teve lugar o primeiro salto de pára-quedas da história, em 1797, emitir gritos guturais à chuva no Boulevard Masséna, invejar os ascetas na Avenue Ledru Rollin, atrair deplorável reputação na Place des Vosges, compor mentalmente sonetos escabrosos, de medíocre qualidade, na Rue Soufflot, com a fachada do Panteão à vista, semelhante a um mostrengo iracundo, exilar-se da companhia dos homens no Boulevard de la Bonne Nouvelle, rojar-se no chão em pleno Boulevard Richard Lenoir (que tem a honra de ter acolhido o domicílio fictício do fictício inspector Maigret), deixar-se obcecar pela cor vermelha na Rue Daguerre, perder ou espezinhar a esperança na Rue Caulaincourt, no coração de Montmartre. Não esqueçamos os arredores. Em Ivry-sur-Seine, existe um terreno grande o suficiente para conter todos os erros grosseiros que cabem na vida de um homem.

quinta-feira, junho 16, 2005

A LISBOAPHOTO ESTÁ AÍ:
(Albano Afonso, "Still Life") Mais pormenores sobre o evento nesta pulquérrima webpage.
LEITURAS: Estou neste momento a ler a antologia "Poesia Espanhola, Anos 90" (Relógio d'Água, 2000), com organização e tradução de Joaquim Manuel Magalhães. Com aproximadamente dois terços do volume já lidos, foram muito poucos os autores que me entusiasmaram, ou cujos trabalhos incluídos na antologia fogem a uma quase embaraçosa mediania. Quer-me parecer que, em Espanha (e à semelhança do que se passa em Portugal), predomina entre as gerações mais novas uma tendência confessionalista, soturna, urbana, muito dada à exploração das banalidades quotidianas, adepta do grau zero do formalismo e de um abjeccionismo com o seu quê de pueril. Quase invariavelmente, as considerações introdutórias de JMM são mais interessantes e ricas, a todos os níveis, da prosódia ao conteúdo, do que os poemas do autor apresentado, que redundam em autêntico anti-clímax. Por exemplo, a propósito de Pablo García Casado: «O que faz supor que toda a sua poesia da linearidade aliterária se acompanha de um sagaz uso da máscara, onde os temas recorrentes do autor se cristalizam, sendo indiferentes se coincidentes ou não com a sua própria existência pessoal. Construção da confissão; e não confessionalidade.» Acho sedutora esta ideia de uma pseudo-confessionalidade fictícia e construída, e da exploração da própria essência da confissão, desligada da urgência de contar e revelar tradicionalmente assumida e reivindicada pela primeira pessoa poética.

quarta-feira, junho 15, 2005

CINEMA: Fui ver "Mondovino", de Jonathan Nossiter. Para quem não o tenha visto, ou nada tenha lido sobre este filme, trata-se de um documentário sobre o negócio do vinho e sobre as suas vertentes: produção, exportação, estratégias de mercado, crítica, etc. Para já, não tenho tempo para escrever sobre este filme. Espero ainda poder fazê-lo nos próximos dias. Limito-me a assinalar, com surpresa e deleite, a enorme quantidade de canídeos que aparece no decorrer do documentário. Poucos são os entrevistados que não surgem ladeados por pelo menos um cão. Vêem-se cães de numerosas raças diferentes. Frequentemente, a câmara parece mais interessada nas cabriolas dos animaizinhos do que no entrevistado ou nas suas vinhas. Tentei procurar alguma associação entre os cães e o vinho, mas não me lembrei de nada a não ser da história bíblica das vinhas de Naboth, e dos cães que lamberam o sangue do rei, cumprindo a profecia. Talvez não se tratasse de um símbolo. (Aliás, o filme anterior de Nossiter, o fabuloso "Signs & Wonders", que tive a felicidade de poder ver, ensinava a nunca confiar nos símbolos, ou nos detalhes em que o ser humano sedento de símbolos julga vislumbrar um qualquer significado.)
LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Um cavalheiro ainda jovem, vestido com informalidade, possuidor de um gabarito físico que impunha respeito, folheava as "Meditações Metafísicas", de René Descartes, e era de pé que o fazia. Até que se sentou. Onde se passou isto? Ora, na linha verde do metropolitano, pois então. A terra é um lugar gratificante para se viver, e os deuses risonhos são incapazes de atentar, por mero capricho, contra a felicidade humana.
SETE ROTAÇÕES TERRESTRES MAIS TARDE: Após interrupção por ausência, retomemos este blog, fazendo por cumprir a sua vocação de pedrada na engrenagem e grão de areia no charco.

quarta-feira, junho 08, 2005

PONGE (4): «C'est en cela aussi que je suis en quelque façon surréaliste, c'est-à-dire que je laisse venir autant que possible, enfin tout, mais pourtant en sachant que je fais un livre. Aucune illusion sur l'écriture automatique. C'est-à-dire que je sais parfaitemente qu'on dégorge, quand on fait de l'écriture automatique, ce qu'on a lu la veille. (...) C'est en ce sens aussi que je suis profondément matérialiste, au sens où tout commence para la sensation.» (Francis Ponge, entrevista com Jean Ristat, 1978.) Com estas frases, afinal de contas bastante simples (mas plenas de nuances complexas), Ponge define muito do essencial da sua atitude perante a escrita. Por um lado, uma disponibilidade para receber do exterior. Receber as metáforas, as ideias, as imagens que se lhe impõem a propósito dos objectos ou situações que pretende descrever. (E poucos autores, no século XX, terão conseguido o feito de Ponge: praticar uma poesia predominantemente descritiva e materialista, sem abdicar de uma liberdade absoluta, que por vezes, erradamente, se julga inconciliável com esses atributos.) Receber, estar disponível, mas partindo do estímulo, da sensação. Recusar o mito da livre associação como expressão de uma autenticidade interior, que alguns surrealistas quiseram fazer passar como a liberdade suprema, mas que não passa de uma das mais detestáveis tiranias.
O LIVRUS DO MODUS: Alguma vez haveria de ser: comprei um livro baseado num blog. Mas não um blog qualquer: o Modus Vivendi, que eu sigo com enorme prazer desde o seu início, há mais de 2 anos. O lançamento decorreu hoje, no bar da "Barraca", e o José Mário Silva, na sua intervenção, resumiu com eficácia os principais aspectos que tornam este blog tão fascinante, e de onde destaco as suas reflexões e apontamentos sobre os afectos, sobre a exposição pública e o acto de se expor. Ao longo dos meses, com efeito, a Ana tem escrito de maneira extraordinariamente lúcida e penetrante sobre a importância da prática da escrita para a auto-definição do indivíduo nos planos moral e afectivo, e isto evitando os chilros lugares comuns que quase nunca deixam de acorrer à chamada quando tais temáticas são tratadas por mãos menos hábeis (ou menos exigentes consigo mesmas). E tudo isto recorrendo a uma erudição vasta e usada com a-propósito, ou seja, sem temer o excesso de citação, ponderada mas sem parcimónias engendradas pela falsa modéstia. Dos blogs que conheço, serão talvez três ou quatro dezenas aqueles cujos textos teriam qualidade suficiente para merecer edição. Destes, pelas suas características ou registo, menos de metade - creio - suportariam incólumes a passagem para livro. O Modus Vivendi é, sem dúvida, um deles, e a leitura apressada que fiz de alguns posts deste livro, "Pagar para Ver", que agora prolonga a sua existência sob forma de papel e tinta, confirmaram essa convicção.
A SEMANA DOS PRODÍGIOS: Ontem, uma senhora, descendo placidamente o Parque Eduardo VII, trazendo consigo, bem visíveis, um livro do Piggy-Wiggy e os "Estados Eróticos Imediatos de Sören Kierkegaard", de Agustina Bessa-Luís. Hoje, Luís Delgado, provavelmente num momento de fraqueza, permitiu-se uma retractação. E a semana ainda vai a meio. O que se seguirá? (Uma eventual refutação do teorema de Pitágoras não impressionaria ninguém. Demasiado visto.)

terça-feira, junho 07, 2005

SOBRE O MÉTODO: Existe um método para encenar Kleist que é o seguinte: esquecer as deixas, as indicações de cena e (muito importante) o sentido último da peça, e sair para as ruas de Lisboa, decorar toponímias, inscrever-se numa piscina municipal. Raramente falha.
FÓSSIL DE UM FÓSSIL: «Aquilo que, a meu ver, nunca se poderá escamotear é isto: a elaboração de qualquer texto literário, seja ele poético, ficcional, crítico ou de que género for, foi movida por um propósito inserido no mundo dos homens. Fosse esse propósito a expressão de uma paixão, a sobrevivência material, a denúncia, ele projectou, nesse momento, um desejo humano de aceitação pelos seus pares, de conformidade a um cânone, de ruptura (ou de uma combinação de mais do que uma destas componentes).» ...disse ela, consciente (sem o revelar) do que isso significava, e de como todos os seus esforços do último meio ano tinham sido completamente em vão. Restava-lhe, como última e bem pobre esperança, ir bater à porta do homem que restaurava móveis antigos por gosto e não por lucro; transida, pingando água da chuva, dormir à sua porta, se a isso a sua ausência a obrigasse.
A ORDEM NATURAL DAS COUSAS: De acordo com a teoria que muitos se apressaram a defender, logo após o conclave, Ratzinger teria tendência (quem sabe se por transubstanciação) a dar lugar a Bento XVI, um novo avatar que sublimaria o conservadorismo obtuso do ex-pitbull da fé. Parece, contudo, que o Cardeal Ratzinger deixou de ser Bento XVI para voltar a ser o cardeal Ratzinger. Desdenhando a máscara de ecumenista benigno (que nunca chegou a envergar com demasiada convicção), veio B16 agora zurzir na homossexualidade, no divórcio, nas uniões de facto e na procriação assistida, com a mesma generosa alacridade de que dava mostras nos seus tempos de guardião da fé. Somente, com muito maior atenção mediática. Entretanto, com a serena naturalidade de uma coisa evidente, os suíços votavam favoravelmente as uniões de facto entre pessoas do mesmo sexo. Para repulsa profunda, imagino, dos Césares das Neves helvéticos, para quem chegou a altura de começar a pensar em que recanto da Europa ainda se poderão considerar ao abrigo dos viciosos ventos de mudança. Entre um papa retrógrado e ortodoxo até ao tutano, por um lado, e um bom senso cívico dos países que vão legislando sobre estas matérias fazendo orelhas moucas aos ditames emanados do Vaticano, desconfio que o abismo tenderá a abrir-se cada vez mais. Tanto melhor. Quanto mais rapidamente a Igreja católica for forçada a admitir que os tempos do monopólio sobre as consciências já lá vão, melhor será. Para todos.
PONGE (3): «Pour qu'il n'y ait plus ce scandale qui consiste à faire croire qu'on peut passer du monde verbal au monde de la réalité. Pour qu'on en finisse avec cette imposture - comment dirais-je - cette prétention de la plupart des artistes de croire qu'il y a communication possible entre le monde extérieur et le monde verbal.» (Francis Ponge, entrevista a Jean Ristat, 1978.) Um fruto seco, um mineral, duas mãos perfeitas sobre fundo amarelo de folhas decadentes, merecem o paraíso da existência que estas palavras para os designar não conspurcam.

segunda-feira, junho 06, 2005

LISBOA DÁ-LHE AS BOAS VINDAS!: Uma cidade de grandes dimensões não passa sem os seus mistérios, signos exibidos como uma frontaria de azulejo, segredos camuflados por ruas subtilmente falhas de ortogonalidade e por praças ditas "públicas". São múltiplas as razões que levam alguém a esforçar-se por penetrar nos mistérios de uma cidade. A curiosidade, o desejo de conhecer, podem não ser as mais potentes motivações: muitas vezes, o verdadeiro prémio é esse tecido de peripécias, enganos e reviravoltas que a urbe segrega. Uma história para cada investigador intrépido, um fio tenso que o conduza através dos dias. Não das trevas para a luz, mas segundo sucessivas tangentes a uma verdade grisalha e bastarda, provavelmente caduca.
COMBINAÇÃO DE TOPALOV:
É precisa uma grande dose de coragem para sacrificar material, ao décimo quarto lance, contra um dos melhores jogadores da actualidade. Aqui, Topalov jogou 14.Cxf7! sacrificando o cavalo face ao indiano Anand, que o aceitou. A tentação de inventar graçolas contendo referência ao cavalo de Tróia é grande; limitemo-nos a indicar que Anand aceitou o presente, perdão, o sacrifício, mas saiu derrotado ao fim de uma partida electrizante que durou 52 lances. (Diagrama extraído de Chessbase.)
XADREZ: O búlgaro Vesselin Topalov conquistou, de forma categórica, o primeiro lugar no fortíssimo torneio "M-Tel Masters", disputado recentemente em Sófia. Topalov demonstrou assim, mais uma vez, o seu magnífico momento de forma, depois de, há poucos meses, no torneio de Linares, só ter sido apeado de um merecido primeiro lugar do pódio devido a critérios de arbitragem francamente discutíveis, que favoreceram Garry Kasparov. Para além da eficácia do seu jogo, Topalov continua a alardear o estilo ofensivo, imaginativo e sem compromissos que fez dele um dos favoritos do público que verdadeiramente ama o xadrez. Desde que Kasparov anunciou a sua retirada (espero escrever mais, em breve, sobre o instrutivo episódio da despedida do sr. Garry Kimovich), que Vyswanathan Anand parece fraquejar depois de um ano de 2004 fulgurante, e que Vladimir Kramnik e Péter Lékó deixaram de convencer nas suas últimas actuações, Topalov assume-se como um candidato natural ao título oficioso de melhor jogador do mundo. É provável que figure em segundo lugar no próximo ranking, ou mesmo no primeiro (isto sem contar com Kasparov, que deverá ainda constar da lista mau grado a sua condição de reformado). O torneio de Sófia ficou ainda marcado por um novo regulamento que visava minimizar os empates sem luta, que têm vindo a envenenar o xadrez de competição ao mais alto nível. Depois de um começo pouco prometedor (e eu próprio exprimi o meu cepticismo a esse respeito), as últimas rondas do torneio foram marcadas por um xadrez excitante e combativo, bem longe das demonstrações entediantes com que os fãs têm sido supliciados nos últimos tempos, por culpa de grandes-mestres irresponsáveis e comodistas. Este torneio foi unanimemente considerado um êxito. A experiência foi positiva; há que tirar partido dela, continuando a privilegiar a competitividade e a verdade desportiva.

domingo, junho 05, 2005

EM FORMA:
Vesselin Topalov. 30 anos. Bulgária. Será este o melhor xadrezista do mundo da actualidade? (Foto retirada do site Chessbase.)
AS GAIVOTAS TAMBÉM ATACAM DE NOITE, MAMÃ?: No próximo dia 9, quinta-feira, a partir das 21h30, no Café Literário da Feira do Livro do Porto, estarão a conversar João Tordo, Valter Hugo Mãe e um indivíduo vagamente semelhante, na fisionomia e timbre vocal, ao autor destas linhas. A presença habitual, nas cercanias do Palácio de Cristal, de aves de grande porte e voracidade leva-me a desaconselhar a presença aos mais novos e aos mais impressionáveis.
CADA POEMA UM GESTO FOSSILIZADO: Pode-se negar a presença da personalidade do autor num texto; pode-se fazê-lo com a maior convicção, com a mais peremptória solenidade. É legítimo defender que a biografia de um autor é a mais falível e menos interessante fonte de informações para a interpretação de uma obra, e para a aferição do seu valor real. Cai bem, nestas ocasiões, mencionar um certo Proust e um certo Sainte-Beuve. Aquilo que, a meu ver, nunca se poderá escamotear é isto: a elaboração de qualquer texto literário, seja ele poético, ficcional, crítico ou de que género for, foi movida por um propósito inserido no mundo dos homens. Fosse esse propósito a expressão de uma paixão, a sobrevivência material, a denúncia, ele projectou, nesse momento, um desejo humano de aceitação pelos seus pares, de conformidade a um cânone, de ruptura (ou de uma combinação de mais do que uma destas componentes). Custa-me aceitar que a abordagem de uma qualquer obra faça tábua rasa desse âmago insubmisso, dessa aspiração de felicidade que - como seria possível de outra maneira? - é à medida do homem ou mulher que a viveu.
PONGE (2): A dada altura (1959), Francis Ponge fez menção de integrar o seu poema-em-progresso "La Figue (Sèche)" numa suposta recolha de poemas sobre frutos. Chegou a acrescentar glosas dedicadas à tâmara, à ameixa e ao figo fresco. Essa recolha nunca se concretizou. Ou, quem sabe, talvez nunca tivesse passado de mais uma fugaz estratégia para enquadrar a sua obra numa intenção mais vasta do que um simples e pobre poema em prosa dedicado ao figo seco, "pauvre gourde". Assim como o figo conserva na sua superfície o irredutível "bouton de sevrage", que assinala o ponto que o ligava à árvore, talvez Ponge tenha sentido a necessidade passageira de fazer figurar no poema os vestígios fictícios de um tentáculo de ligação com o universo dos modos e vícios da literatura.

sábado, junho 04, 2005

PAS DE REPOS POUR LES BRAVES (6): A grandeza de um filme não é apenas função da riqueza de leituras possíveis que ele oferece; é certo. Pessoalmente, contudo, valorizo muito fortemente os filmes que se prestam a múltiplas abordagens, e que incitam o espectador a produzir os seus próprios discursos e esforços interpretativos, prolongando a experiência vivida durante o visionamento. Em "Pas de repos pour les braves", um dos múltiplos ângulos de aproximação consiste no problema da ocupação do tempo, motivo de elevada relevância para a nossa época, tanto na sua vertente positiva (o ócio) como negativa (o desemprego). Tanto este como os restantes filmes de Guiraudie (com a possível excepção de "Ce vieux rêve qui bouge") podem ser vistos como máquinas de ocupar o tempo, movidas pelo terror da lacuna narrativa. À falta de assunto propriamente dito (a personagem principal, Basile, parece ser o tipo de pessoa a quem nada sucede), recorre-se à efabulação, à vampirização do quotidiano (Basile começa por escutar na televisão a referência às "bolinhas vermelhas" antes de a transplantar para a sua história de tráfico e perseguição), à proliferação onírica. Trata-se de um filme de acção, sem que essa acção possua um móbil concreto: as personagens movem-se e evoluem, dir-se-ia, essencialmente porque a suspensão do movimento implicaria o desmoronamento da própria razão de ser do filme. Até mesmo nas cenas isentas de dinamismo físico (por exemplo, as que têm lugar no café) existe como que uma componente cinética dos diálogos, que são tensos, sincopados e repetitivos (a história do frigorífico e do secador de cabelo...). Quanto a dormir, bem entendido, isso está fora de questão: o medo-pânico que Basile sente do sono (por culpa do temível Faftao-Laoupo...) justfica-se porque só o estado de semi-vigília, povoado de sonhos mais ou menos fragmentários, lhe permite manter-se naquele estado equidistante da nulidade quotidiana e da inconsciência. Mas talvez tudo isto que eu acabo de escrever não passe de um arrazoado delirante. Talvez o filme, em vez disto, seja...
PAS DE REPOS POUR LES BRAVES (5): No "Público", tanto Luís Miguel Oliveira como Vasco Câmara atribuíram três estrelas (em cinco) a "Os Bravos Não Têm Descanso". (Os restantes críticos, creio, ainda não se pronunciaram.) Tendo em conta a bitola que o painel de críticos de cinema deste jornal habitualmente pratica, esta é uma excelente classificação. A meu ver, a função de crítico cinematográfico requer um certo comedimento na atribuição de classificações encomiásticas. O sistema das estrelinhas é contestável, mas qualquer credibilidade que possa ter desvanece-se caso as classificações máximas surjam demasiado amiúde. Penso que só os filmes verdadeiramente marcantes e excepcionais, susceptíveis de terem impacto na história desta arte, deveriam merecer as cinco estrelas. Entre os filmes que estreiam em salas portuguesas em cada ano, de quantos se pode dizer isto? Meia dúzia? Uma dezena? Estou a estimar por alto... (Neste ano, até agora, só me lembro de dois: "Saraband", obviamente, mas também, perdoem-me novo puxanço de brasa à sardinha, o próprio "Pas de repos pour les braves".)

sexta-feira, junho 03, 2005

PONGE: Nas sucessivas reelaborações do seu poema "La Figue (Sèche)", ao longo dos anos, Francis Ponge experimentou, para além de numerosos elementos, imagens, módulos significadores, pelo menos duas "ficções legitimadoras" (chamemos-lhe assim) susceptíveis de o enquadrar. Numa primeira fase, colocou-se na posição de quem responde a um inquérito sobre a poesia. Posteriormente, optou por simular uma carta/saudação espiritual dirigida a Symmaque (ignoro a tradução deste nome em português), «...grand païen de Rome [qui] se moquait de l'empire devenu chrétien: "Il est impossible, disait-il, qu'un seul chemin mène à un mystère aussi sublime"». Seduz-me, esta preocupação quanto ao modo de fazer existir o poema no mundo. (As sucessivas aproximações a este poema estão publicadas sob o título "Comment une figue de paroles et pourquoi", GF Flammarion, 1997, edição de Jean-Marie Gleize. Leitura fascinante, e diferente de qualquer outra coisa que alguma vez me tenha passado pelas mãos.)
ABRAM OS DIQUES!: Na sua coluna de hoje, Luís Delgado, o gentleman-cronista cuja pena acerada faz tremer tudo e todos (não necessariamente de medo), escreve assim: «A Holanda é minúscula de mais e demasiadamente esotérica para causar mossa na União ela é sempre o contrário de tudo o resto. Se a droga é proibida na Europa, ela é permitida na Holanda; se a eutanásia é conflituosa nos nossos costumes, ela é uma prática regular naquele país, e por aí adiante. Não querem, não têm.» Luís Delgado tem o seu estilo, a sua maneira de escrever e de estar, mas do que ele não pode deixar de estar ciente, de maneira alguma, vivendo no planeta Terra e convivendo com as opiniões dos seus pares, é de que isto está próximo do grau zero do jornalismo de opinião: não passa de uma manta de retalhos de chavões ofensivos e inconsequentes, alinhavados com uma irresponsabilidade difícil de conceber, e enfermando de um simplismo que não se desculparia nem nos trabalhos de casa de um qualquer aluno de liceu, rabiscados em cima do joelho e com os olhos pregados numa Playstation.
DERRETEM-SE NA BOCA: Na sua crónica de sábado passado no "Público", Helena Matos, com imparável brio, fustiga os artistas, e em particular as estrelas de rock, que se permitem exigir mordomias impensavelmente extravagantes durante as digressões que efectuam. Um dos exemplos que avança (Marilyn Manson, que, entre outras tropelias, teria solicitado dezenas de caixas de smarties das quais teriam de ser retirados todos os castanhos) chamou-me a atenção por se assemelhar a uma das muitas lendas urbanas abordada pelo insubstituível site Snopes. A história, cuja leitura me parece valer amplamente a pena, passa-se com o grupo Van Halen, e envolve M&M's em vez de smarties (ah!, a cor local). Segundo aquilo que defende o vocalista David Lee Roth, a cláusula que exigia a taça de M&M's submetida à expurgação cromática era, mais do que capricho de estrela, uma maneira de se certificarem de que o contrato era lido até ao fim, e cumprido com escrúpulo e rigor pela organização local. Há aqui margem para especulação. Pessoalmente, pergunto-me se Manson imitou esta bela ideia, ou se tudo isto não passa de uma ramificação inocente de uma deliciosa lenda urbana. Do que não duvido é de que tudo isto, a começar - e quem sabe se a acabar - pelos M&M's castanhos, faz parte de uma conspiração dos fazedores de opinião bem-pensantes e politicamente correctos contra a liberdade de expressão. Pim.
LINGUAGEM (2): Sim, tal como a personagem de Camus, acredito sinceramente que quase todas as desgraças da humanidade têm por origem um uso deficiente da linguagem. (Não me refiro, bem entendido, a catástrofes naturais como epidemias ou terramotos, no Chile ou noutras nações.) Um exemplo evidente: a reificação de conceitos abstractos tais como "Pátria", "Nação", "Raça", e seu subsequente emprego em frases que não deveriam admitir substantivos cuja natureza seja a de serem absolutos, imunes aos salutares efeitos relativizadores da sintaxe e do discurso crítico. Na esfera pessoal e da socialização, acredito ser muito importante o quinhão de agruras e dissabores que deriva de erros de linguagem: generalizações abusivas, problemas mal colocados, falácias inadvertidas, incapacidade de usar da penetração para averiguar o que está por detrás das frases que introduzem ou sustêm um conflito. E a maior falácia de todas, provavelmente a mais grave - falo da procura de um Sentido para a Vida - é, também ela, de ordem linguística.

quarta-feira, junho 01, 2005

DE NOITE UMA VOZ: Wittgenstein escreveu: «Um elemento pode ser o caso ou não ser o caso e tudo o resto permanecer idêntico.» ("Tractatus Logico-Philosophicus", 1.21). Um mundo em que eu não tivesse canções de Ella Fitzgerald na cabeça pode muito bem ser idêntico ao mundo em que eu tenho canções de Ella Fitzgerald na cabeça. A melodia, e a assombrosa verdade de que são sintoma, chegam-me como diferença.

terça-feira, maio 31, 2005

PAS DE REPOS POUR LES BRAVES (4): Congratulo-me por verificar que este filme sumptuoso não passou despercebido à crítica especializada em Portugal. Tive oportunidade de ler dois artigos francamente elogiosos da autoria de Luís Miguel Oliveira e Augusto M. Seabra no "Público" (penso que nenhum deles está online). Este último chamou-me a atenção por mencionar dois outros nomes que causaram forte impacto no cinema francês dos últimos anos: Arnaud Desplechin ("Esther Kahn", e outros filmes infelizmente ainda por estrear entre nós) e Eugène Green ("Le Monde Vivant" e "Le Pont des Arts", que marcaram as duas primeiras edições do IndieLisboa). Tenho algumas reservas quanto às propostas de Green, mas não duvido que Guiraudie tem todas as condições para se içar ao nível destes dois autores, em vista da inteligência, originalidade e consistência estética das suas primeiras obras. Notei, em contrapartida, uma crítica manifestamente negativa de João Miguel Tavares no "DN". JMT parece colocar a questão em termos de "ame-o ou deixe-o, e eu deixo-o". Tratando-se de afinidade pessoal, ou falta dela, qualquer discussão perde razão de ser. Pelo que conheço de escritos anteriores de JMT, quer-me parecer que, não sendo um crítico reticente a acolher novidades, carece de benevolência para com incursões por veredas menos batidas das cinematografias actuais. Sobretudo se essas incursões se fizerem sob o signo da metanarratividade ou da desconstrução. Daí que a estrelinha singular com que brinda o filme de Guiraudie não constitua grossa surpresa.
LINGUAGEM: «(...) j'ai compris que tout le malheur des hommes venait de ce qu'ils ne tenaient pas un langage clair.» (Albert Camus, "La Peste") Há muito tempo que eu não me sentia tão profundamente de acordo com uma personagem de ficção (Jean Tarrou, neste caso).

segunda-feira, maio 30, 2005

MITOS: Leio, no posfácio à edição de Fernando Cabral Martins da "Mensagem", que Pessoa escreveu: «Desejo ser um criador de mitos, que é o mistério mais alto que pode obrar alguém da humanidade.» (in "Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação"). Um mais alto grau da ambição humana corresponde (parece-me) ao ensejo de forjar historietas urbanas que se auto-promovam ao estatuto de lendas. De ser o autor daqueles pedaços de imaginário popular que se transformam em património comum, por definição supostos desprovidos de criador, fruto do génio nacional no seu modo mais corriqueiro. Escrevinhar nas costas de um prospecto aquilo que será repetido em paragens de autocarro de Campolide, uma semana mais tarde, ou nos barcos que partem do Terreiro do Paço. Talvez por desfastio, num fim de tarde acabrunhado de outono, num rés-do-chão do bairro dos Actores, em Lisboa. Numa oficina onde cheira a escape de automóvel e a graxa para calçado. Entre uma e outra escapadela à pastelaria do outro lado da rua. Fabrico próprio de madalenas, queques, croissants, palmiers, jesuítas, pastéis de feijão, bolos de arroz, éclairs, mil-folhas, tartes de maçã, pastéis de nata, quindins, pães-de-Deus, tíbias, queijadas, babás, caracóis, e doçaria sazonal.
DENSAS COMO FRUTOS: Breves histórias de mãos, vistas em quadros de mestres da pintura contemporâneos ou antigos. Histórias de mãos aflitas.
SE É CERTO QUE A NOITE: A sombra nos olhos. A sombra da mortalidade nos olhos, depois de um trajecto de quilómetros através da noite litoral, pairando sem intrigar. A sombra.
DA CONTIGUIDADE: Na Feira do Livro de Lisboa, escassos metros separam a Sociedade Bíblica do quiosque dos cientologistas. Quaisquer que sejam as minhas opiniões acerca da Igreja Católica e do seu papel na sociedade contemporânea, prefiro uma página dos evangelhos à obra completa de L. Ron Hubbard. E a homilia de um qualquer padre de província é-me mais agradável do que as discursatas do inefável Tom Cruise, do alto do seu púlpito, pregando urbi et orbi, com abundância de requebros hollywoodescos, as virtudes da dianética. (Excepto se dessa homilia constarem referências a «corpos esquartejados de bebés [que] vão aparecer em lixeiras de toda a espécie ao olhar horrorizado ou faminto de pessoas e animais».)
O SEGREDO ESTÁ NO ARTIGO DEFINIDO: Hoje chegou-me aos ouvidos uma conversa de teor cinéfilo. Discutiam-se os méritos e insuficiências dos filmes quase homónimos "O Pianista", "A Pianista" e "O Piano", que um cidadão desprevenido se arrisca seriamente a confundir. Da conversa resultou que: 1 - "O Pianista" é um dos melhores filmes dos últimos anos. 2 - "A Pianista" é uma porcaria. 3 - "A Pianista" é um filme tipicamente francês: demasiado sexo, e no fim não se percebe nada. E ainda há quem diga que André Bazin não deixou herança.

domingo, maio 29, 2005

PAS DE REPOS POUR LES BRAVES (3): "Os Bravos Não Têm Descanso" (título português do filme "Pas de repos pour les braves") não pode deixar de ser visto no contexto do actual cinema francês, onde predomina o naturalismo de pendor psicologista ou sociológico, e cujo inamovível centro de gravidade continua a ser Paris, hoje assim como no dia em que Jean Seberg gritava "New York Herald Tribune!" em plenos Champs-Elysées. Tanto este como os restantes filmes de Alain Guiraudie rejeitam esta tendência, para se situarem numa gloriosa "Terra do Nunca" cinematográfica, pejada de referências e citações mas dotada de contornos fortemente originais, arrancada à província francesa (mais concretamente ao sul-sudoeste, de onde o realizador é natural), transfigurada, atravessada por dimensões paralelas que deixam coexistir o sórdido e o magnífico, o mítico e o proletário. O registo é eufórico, de um onirismo a mil léguas de Freud, dotado de lógicas próprias que se encavalitam e fazem negaças umas às outras. E, contudo, o mundo real dir-se-ia mais presente do que em qualquer produto da escola realista, se bem que filtrado, distorcido, transitoriamente do avesso. Felizmente, esta atitude de ruptura com a estética dominante não redunda em mero esforço de provocação. Todos os filmes de Guiraudie, e notavelmente esta sua primeira longa-metragem, transportam consigo uma proposta forte e coerente. Todos eles constituem momentos de uma visão cinematográfica movida por um desejo permanente de reinvenção, e de um talento fecundo que, felizmente para todos nós, promete continuar a dar que falar nos tempos mais próximos. Guiraudie parece-me ser daqueles cuja vitalidade criativa não se compadece com pausas de 5 anos entre cada filme, à espera das condições perfeitas ou da visita inopinada da inspiração.
KISUN TALO VALAISEE KOKO TIENOON: Pelo andar da carruagem, ser-me-á complicado (ou mesmo impossível) visitar as exposições no âmbito do 6º Salão Lisboa de Ilustração e Banda Desenhada, como por exemplo este "ABC do Gatinho", de Katja Tukiainen. Para os interessados, esta exposição estará patente até ao próximo dia 5, na Estufa Fria. Ideal para acoplar a uma surtida pela Feira do Livro, que é mesmo ali ao lado.
VIER LETZTE: É verdade, Dissoluto Punito, é verdade! Duas récitas das "Quatro Últimas Canções" de Strauss. A primeira delas, se não erro, pela Soile Isokoski, e a segunda, ali no São Carlos, pela "diva" Cheryl Studer. Ambas memoráveis, cada uma à sua maneira. (PS - Diverte-te em Paris!)
NORTE CONTRA SUL: Para além de ser pouco espessa, a separatória que divide a vida pública da vida privada possui marcas verticais nos pontos onde devem incidir as catanas.
LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Nas escadas rolantes da estação de metro da Alameda, um cavalheiro lia "Pedro Páramo", de Juan Rulfo, denotando a concentração que esta obra-prima da literatura mexicana exige.

terça-feira, maio 24, 2005

PAS DE REPOS POUR LES BRAVES: Começaria por transcrever um excerto da crítica de Jean-Michel Frodon para os "Cahiers du Cinéma", onde é levantado um ponto que me parece crucial relativamente a este filme de Alain Guiraudie: «Guiraudie rêve ses films éveillé, mais il est un sacré bon rêveur. Dans la joie alerte des assonances de couleur, des rebonds, des péripéties, des échos de récits anciens, de films aimés, de moments intimes, voici que se déploie, souveraine et modeste, l'épopée de Basile (...) Guiraudie est un farceur insolent, un styliste doué, un graphiste méridional (...) Mais surtout, Alain Guiraudie est un cinéaste. Quand il fait un plan, c'est un véritable plan de cinéma.» Independemente da história (hilariante, por sinal), do seu universo pessoal, das suas obsessões, é precisamente isso que impressiona em Guiraudie (e não só neste filme, aliás): em cada plano, existe uma lógica na disposição dos elementos, não a lógica fria de uma demonstração, mas a lógica levemente anárquica, dinâmica e celebratória de um filme transbordante de criatividade e de confiança na sua capacidade de transmitir algo mais para além de uma simples construção narrativa ou de um cambiante emocional de uma personagem. Ou, misturando duas famosas citações de Rivette e de Godard: uma ideia de cinema 24 vezes por segundo. (NOTA: Ao escrever de forma tão ditirâmbica sobre um filme que, tanto quanto sei, só está em exibição em Lisboa, peço desculpa aos meus leitores de fora da capital. É triste constatá-lo, mas, neste país culturalmente centralizado, falar de bom cinema equivale muitas vezes a excluir quem está fora dos grandes centros. Esperemos que este filme tenha a difusão que merece por outras salas mais periféricas.)
O MEU MOMENTO ZEN (*): As crónicas semanais de João César das Neves oscilam entre ponderadas lucubrações sobre aquilo de que ele realmente percebe (economia) e hilariantes desvarios sobre temas "de sociedade" ditos "fracturantes" (para empregar um termo em voga), como sejam a homossexualidade, a degradação dos costumes, o aborto, etc. São raras as suas intervenções que se situam a meio caminho entre estes dois extremos, mas são também, a meu ver, as mais interessantes. Eivadas de inconsistências e vícios de raciocínio, generalizações apressadas e analogias mancas, sucede-lhes escapar à inanidade absoluta. Na sua coluna de ontem, JCN traça um cenário futurista aparentemente inquietante (mas que, entende-se implicitamente, não seria mais do que um juste retour des choses, uma vingança irónica da história sobre a secularização galopante do nosso tempo): «Imagine que dentro de décadas toda a gente pense que a ciência é uma actividade sinistra, enganadora, perigosa. O uso de tecnologias por terroristas, os infindáveis debates académicos, as dúvidas sobre teorias estabelecidas irão minando a confiança absoluta que temos no conhecimento científico.» Este cenário não é difícil de imaginar, pois a ciência já é desprezada e olhada com irada desconfiança por muitos sectores, e por largas faixas da opinião pública. O próprio JCN admite prontamente, aliás, que esta sua especulação conceptual não prima pela ousadia: «Este cenário nem é bizarro. Basta lembrar as suspeitas pós-modernas e a popularidade crescente de ideias esotéricas e mágicas para que se torne bastante plausível.» Com a extrapolação que se segue, começa a derrapagem: «Se extrapolarmos tais tendências, não faltará muito para a cultura vir a pensar da ciência e técnica aquilo que hoje pensa da religião e fé.» Seguindo a estratégia da vitimização adoptada por 9 em cada 10 colunistas do nosso burgo, JCN parece querer-nos fazer acreditar que a religião é hoje unanimemente espezinhada e desacreditada, ao passo que a ciência é universalmente exaltada como a única e infalível fonte de verdade. Bastam umas migalhitas de atenção e boa fé para constatar que este quadro distorce grotescamente a realidade. E a realidade é esta: da RTP a transmitir a procissão das velas em directo até aos escapulários oferecidos por um jornal de grande tiragem, a religião continua a ter um peso esmagador na nossa sociedade (refiro-me à portuguesa), que a ciência está longe de poder contrabalançar. Ou então escapou-me o que JCN entende por "a cultura", essa cultura fantasma que menoriza e achincalha a religião. Pressinto que isto nos faria enveredar por indesejáveis labirintos argumentativos colaterais. Adiante. «Parece impossível que alguém ponha em dúvida a certeza demonstrada da ciência.» Falso. Não só não parece impossível, como a isso obriga a boa prática científica. Não existem "certezas demonstradas" na ciência, mas sim modelos, hipóteses e teorias que podem e devem ser constantemente confrontados com a experiência, e que devem ser abandonados ou reformulados quando se demonstre a sua incoerência ou incompatibilidade com observações empíricas. JCN procura conferir à ciência uma natureza dogmática, quiçá se para a fazer assemelhar-se à religião, e assim polir a sua duvidosa analogia. «Nesse cenário fictício, os habitantes do futuro julgarão que nós, por acreditarmos na ciência, somos parolos ignorantes e boçais, vítimas de superstição. [...] Se for verdade essa possibilidade, os nossos descendentes vão achar que os investigadores de hoje são todos interesseiros e corruptos, usando a sua actividade só para encher os bolsos. Precisamente como os filmes de Hollywood costumam representar os clérigos.» Claramente, JCN e eu não andamos a ver os mesmos filmes. Talvez o cine-clube da Universidade Católica esteja a passar uns ciclos interessantes. A conferir. «Existe um abismo que nos separa das nossas fontes culturais. Este é o terrível drama actual deitámos fogo às nossas raízes.» Leia-se "às nossas raízes cristãs", bem entendido. Não se leia "às nossas raízes humanistas e ao legado iluminista", coisa que seria de somenos importância na óptica de JCN. «O homem de hoje continua a confrontar-se com o mistério da sua origem e do seu destino. Os modernos esforços científicos nada conseguem dizer quanto ao sentido da existência humana.» Nem é esse o seu objectivo. O "sentido da vida", entendido na sua acepção maximalista, como resposta a perguntas como "Quem somos? Para onde vamos?" e outros sucessos do género, não passa de um abuso linguístico, uma ficção que tem sido sequestrada e prostituída por ideologias e religiões de todos os quadrantes, ao longo da história. «Os que hoje ridicularizam a religião não têm nada que a substitua e perderam o rumo e orientação.» Mais uma glosa do popular tema segundo o qual não existe "rumo" nem "orientação", ou seja "moral", sem religião. Também isto é um dogma. Em resumo: JCN baseia-se num cenário que pouco deve à realidade (religião oprimida e substituída pela ciência triunfante na sociedade de hoje), e daí projecta uma fantasia histórica (a ciência, por sua vez, desacreditada pela mesma "cultura" que a aclamou) que, por se fundar em terreno tão movediço, tem um interesse nulo. A ciência não se veio substituir à religião (a não ser no terreno particular da explicação dos fenómenos naturais, onde a religião nunca deveria ter interferido), nem veio trazer um sucedâneo de sentido e de moral susceptíveis de serem postos em causa pelos vindouros. Muito pragmaticamente, limita-se a classificar e enquadrar em modelos a realidade do Mundo, e apenas entra em conflito com a religião quando esta tenta impor a sua Verdade revelada, absoluta e eterna (e de natureza assaz vaga, diga-se de passagem) às verdades (sublinho o plural e a minúscula) provisórias e de alcance circunscrito, mas fecundas, que a actividade científica produz. (Mas gostei muito da parábola de Kierkegaard.) (*) Título surripiado aos mais incisivos e incansáveis exegetas cesarnevesianos da blogosfera e arredores, o Diário Ateísta.
TÃO LONGE, TÃO PERTO: Fiquei a par da escolha de António Guterres como novo Alto Comissário para os refugiados graças a um jornal esloveno, o Vecer. (Don't ask...) Confirmei a notícia no Expresso, que (e isto até os seus detractores admitirão) possui a suprema vantagem de estar escrito em português.
CINEMA:
Estreou finalmente o filme "Pas de Repos pour les Braves", evento que em muito contribuiu para o meu bem estar geral, já para não falar da minha fé na providência e na humanidade em geral. Espero falar com algum detalhe deste filme. De momento, limito-me a afirmar que, instado a explicar em duas ou três frases o que me entusiasmou neste filme de Alain Guiraudie, eu balbuciaria uma vacuidade relacionada com o facto de ser esta uma obra que faz plena justiça ao cinema enquanto arte autónoma e maior, dotada de especificidade, e que apaixona tanto mais quanto afirma e explora essa especificidade, em vez de se remeter ao deprimente e bem comportado papel de parente pobre.

segunda-feira, maio 23, 2005

ANÚNCIOS DE GATO PERDIDO INVENTADOS (10): Hoje temos uma enorme surpresa para todos os nossos leitores. O anúncio de gato perdido inventado "númaro" 10 é nada mais nada menos do que um poema de João Luís Barreto Guimarães, extraído do seu livro "3" (Gótica, 2001). um gato assim era quase um sítio perdido entre o pêlo e o acordar (pequena fábula sonhada por entre as patas) quem o enviou quis ensinar ao mundo o sentimentos da inveja. a mãe tirava da boca para lhe dar assim mesmo o lorde mentia na hora a que chegava das sete vidas paralelas. um dia fugiu pela manhã o (in)g(r)ato mesmo sem se despedir ou pagar o que levou: a coleira nova e o guizo.............................150$00 duas latas de comida.................................395$00 um saco de areia higiénica.......................200$00 dá notícias pedaço de deus se acordares desse intrigante sono repousando de (qual?) cansaço que pensas tu afinal de Ivan Petrovich Pavlov?
PEQUENO E NEGRO É COMO O QUEREMOS: Parabéns (tragicamente atrasados) e obrigado ao Little Black Spot por 2 anos que valeram a pena seguir. E as minhas desculpas a todos os blogs porreiros cujos aniversários me vou esquecendo de assinalar por desleixo. Deus quer, o homem sonha, e eu procrastino como gente grande.
RIDENDO CASTIGAT DÉFICE: Na revista "Visão" do passado dia 19 de Maio, alguns economistas nacionais de graúda reputação opinam sobre as medidas a tomar perante a aflitiva derrapagem das contas públicas. O rol de medidas raramente sai do previsível: com mais ou menos cambiantes, andam à volta dos cortes nas despesas, do aumento dos impostos, emagrecimento do sector público, et caetera. Não deixa, contudo, de ser fascinante apreciar, de proposta em proposta, as pequenas diferenças, que (como dizia John Travolta em "Pulp Fiction") é onde reside o verdadeiro interesse. Por exemplo, Miguel Cadilhe preconiza a "Autoproibição do Estado de recair em grandiosos eventos/equipamentos caríssimos e desproporcionados (estádios de futebol, submarinos), e não serei eu quem discordará. Já Miguel Beleza, esse, escolhe outro alvo, com uma precisão pragmática de cortar o fôlego: defende "mais rigor nas despesas supérfluas, como, por exemplo, na atribuição de alguns subsídios à Cultura". A cultura e a sua vocação para bombo da festa. A cultura e a sua fama de capricho, vistoso mas inútil, de uma sociedade. Eleger a cultura como vítima prioritária de cortes e medidas de contenção em tempo de crise pode dever mais ao filistinismo do que à sagacidade. Admitir que tal possa contribuir significativamente para reduzir o défice é certamente de mau economista. (Como, mais adiante, Miguel Beleza aponta o regresso de José Mourinho como outra das medidas que urge tomar, talvez não passe tudo isto de uma longa e sofisticada chalaça.)

domingo, maio 22, 2005

DOIS ANOS DE PETAS: O Almocreve das Petas fez dois anos. 365x2 dias (mais um por causa do bissexto) de prosa inspirada e certeira, a espaços gongórica mas límpida nas intenções, nas embirrações, mas também na generosidade com que explora os seus temas predilectos. Kleist sopra os seus parabéns!
QUERELA DOS ROMÂNTICOS E DOS CLÁSSICOS NUMA SÓ PESSOA: Stendhal dizia querer ser romântico nas ideias e clássico nos meios de expressão. Não posso senão simpatizar com este propósito - tão abundante e genialmente vertido em obras por este autor. Aplicado a uma cidade como Lisboa, um tal princípio equivaleria a insuflar paixões inverosímeis nas estátuas públicas sobriamente proporcionadas, e a dissimular segredos atrozes por detrás das regras de ouro que regem as medidas das fachadas dos edifícios.

quinta-feira, maio 19, 2005

POR ESTA ORDEM: Por exigência do seu novo filme, Natalie Portman rapou inteiramente o cabelo. Falando do seu novo visual, a actriz declarou: «Alguns vão provavelmente pensar que eu sou neo-nazi, que tenho um cancro, ou que sou lésbica.». Ou seja, um crescendo de horrores.
O QUE HÁ NUM NOME? (3 E FIM): Hipótese 7: Talvez Bento XVI tenha escolhido o nome "Bento" por ser apreciador do licor Bénédictine. Hipótese 8: Testemunho de admiração pela obra poética de José Bento. Hipótese 9: Recordação (voluntária ou não) da inesquecível personagem de Bento Pertunhas, imortalizada por Júlio Dinis em "A Morgadinha dos Canaviais". E, finalmente, a décima e perturbadora hipótese: Ao escolher o nome "Bento", o pastor alemão associou ao trono pontifício o número XVI. Ora, 16 é o número atómico do enxofre. Será este um sinal oculto relativo à verdadeira origem de Ratzinger?
UMA PAUSA SEM KITKAT: O Zé Mário desafiou, e a gente aqui gosta de desafios. 1- Não podendo sair do Fahrenheit 451, que livro quererias ser? Gostava de ser o "Crime e Castigo" em versão de livro para banho. Com um Raskolnikov em versão popup insuflável. 2- Já alguma vez ficaste perturbado/apanhado por uma personagem de ficção? As personagens de ficção perturbam-me invariavelmente, sobretudo as que colocam anúncios no jornal para descobrir o homem que as engravidou, as que se evadem da prisão graças a um sismo na América do Sul, e as que se revoltam contra os poderes instituídos quando medíocres sicários devolvem os seus cavalos num estado deplorável. 3- O último livro que compraste? O último livro que comprei deve ter sido um livro de poemas de Charles Simic, mas parece-me que este é o momento ideal para me queixar por não me terem dado o livro sobre cozinha italiana que deveria vir hoje com o "Público". 4- Os últimos livros que leste? Ler, ler, ler, ler, aquilo que se chama ler, terá sido "The Woman in White", de Wilkie Collins. Há uma personagem do "Ulysses" de Joyce que lê este livro. Melhor do que leituras em lugares públicos, só leituras dentro de leituras! 5- Que livros estás a ler? "Comment Une Figue de Paroles et Pourquoi", de Francis Ponge, onde se fala de poeira açucarada depositada nos lábios, de dulcíssima polpa pastosa e de interiores de fruto que brilham como altares em igrejas abandonadas. 6- Que livros levarias para uma ilha deserta? A Constituição da República Portuguesa, a Cartilha Maternal e o Tesouro das Cozinheiras. 7 – Quatro pessoas a quem vais passar este testemunho e porquê? Por me encontrar numa fase da vida em que a ficção supera em interesse a realidade, passo este inquérito a quatro irmãs solteironas de Friburgo, cuja literacia não supera o nível da "TV Guia", mas que guardam no seu sótão a maior colecção de notas falsas do mundo.

terça-feira, maio 17, 2005

ADVERSATIVA: Mas, algumas linhas mais adiante: «Je veux donc dire que "avoir perdu le silence" ne signifie rien de ce qu'on pourrait croire. Du reste, peu importe. J'ai décidé de suivre cette voie.» Se está decidido, decidido está. Prossiga-se o caminho, com um cântico de jovial optimismo nos lábios. Deixemos ao inexistente homúnculo o luxo de se calar. Acocorado no seu limbo, o silêncio mendigado ao mundo como estalactites nos seus bolsos.
LEITURAS: Lido num romance de Maurice Blanchot ("L'Arrêt de Mort"): «Avoir perdu le silence, le regret que j'en éprouve est sans mesure. Je ne puis dire quel malheur envahit l'homme qui une fois a pris la parole.» Perder o silêncio. Pouco importa se comparável à perda de uma graça, de um objecto (rugoso e resistente à pressão), ou de uma amizade. Ver-se de súbito despido e espoliado de silêncio, ainda por cima por vontade própria, uma vaga variedade de vontade própria. Abdicar do silêncio com o arrependimento desde logo cingido à garganta. Uma e outra vez. Todos os dias. Não poder dizer "a infelicidade que invade o homem", nem sequer a respectiva lucidez. O lento movimento da luta terá primazia agora e sempre sobre a pobre eloquência daquele que quis balbuciar.
XADREZ: Está a desenrolar-se em Sófia um dos torneios de xadrez mais fortes do ano, o "M-Tel Masters". Os seis participantes, que se defrontam num sistema de todos contra todos a duas voltas, são os seguintes: Viswanathan Anand (Índia, nº 2 do mundo), Veselin Topalov (Bulgária, nº 3), Vladimir Kramnik (Rússia, nº 5), Michael Adams (Inglaterra, nº 7), Judit Polgár (Hungria, nº 8) e Ruslan Ponomariov (Ucrânia, nº 20). Este torneio apresenta uma característica inovadora, que contribui para lhe conferir um interesse excepcional: os jogadores estão impedidos de acordarem empates entre si. Os empates apenas poderão resultar de decisões dos árbitros ou de situações de empate técnico óbvio, como a repetição de lances. Espera-se, com esta medida, minimizar os chamados "empates de salão", jogos com poucos lances e nenhum espírito combativo, e que infelizmente parecem ter vindo a tornar-se cada vez mais abundantes ao mais alto nível. Até ao momento, as estatísticas a este respeito não são animadoras: num momento em que se chegou a meio do torneio (hoje cumpriu-se o dia de descanso), o número de empates é de 11 em 15 partidas, ou seja, uma percentagem de 73 %, o que é francamente elevado, e decepcionante para um torneio cujas regras visam desencorajar os empates. Porém, saliente-se que muitos destes empates foram combativos, por vezes deveras emocionantes. Os empates fazem parte do xadrez, afinal de contas. Só se lamenta que certos grandes-mestres, a coberto desta evidência, procurem empates a todo o custo, com eventuais benefícios a curto prazo, mas hipotecando a possibilidade de o xadrez vir a conquistar mais fãs e atrair mais patrocínios. Ao fim de 5 rondas, Kramnik e Adams lideram. O site oficial do torneio está aqui. As partidas podem ser seguidas em directo, por exemplo na página da revista Europe Échecs.

segunda-feira, maio 16, 2005

LONGO TEMPO EU ME FUI DEITADO DE BOA HORA: Amanhã, terça, na Fnac do Chiado, Pedro Tamen debaterá com a crítica Maria da Conceição Caleiro a sua tradução de "Em Busca do Tempo Perdido", de Marcel Proust. Às 18h30. Quem sempre reprimiu a vontade de se erguer e proclamar, alto e bom som, "Senhor Pedro Tamen, na página 477 o senhor confundiu um imperfeito do conjuntivo com um presente do conjuntivo!!!", que aproveite a ocasião ou se cale para sempre.
"LORD JIM" (3): Uma coisa que aprecio sobremaneira em "Lord Jim" é o seu estilo. Conrad faz justiça à apaixonante riqueza da língua inglesa, mas sem abuso de preciosismos, evitando com naturalidade os alardes de erudição vocabular que denunciam o exilado linguístico. O seu idioma é casual e eficaz, quase rude a espaços. Há um lado funcional da língua que é explorado com sobriedade, mas não necessariamente sem requinte. Não o requinte de um esteta, como Nabokov, outro anglófono por adopção; antes o requinte discreto de quem se permite um instante de volúpia verbal como minúsculo consolo perante o espectáculo vagamente degradante da natureza humana em acção; infinitamente ponderado, muito "stiff upper lip".
"A MENINA DO RÁDIO": (Título para uma biografia de Marie Curie que nunca escreverei.)

domingo, maio 15, 2005

INVENTÁRIO E DESPEDIDA: Como hoje estou com muito pouco tempo, limito-me a enumerar o nome dos doze titãs originais citados por Hesíodo: Cronos, Oceanus, Coeus, Iapetus, Hyperion, Crius, Rhea, Themis, Mnemosyne, Theia, Phoebe, Tethys. (O título deste post, como é óbvio, é o de um notável livro de poesia de Paulo Teixeira.)
O QUE HÁ NUM NOME? (2): Mais alvitres sobre as razões que levaram o cidadão Ratzinger a escolher Bento como nome papal, em vez de outros igualmente bem soantes e ricos de história como Umbelino ou Adalgiso: Hipótese 4: Discretíssima homenagem aos Ovos "Benedict", acepipe obrigatório em qualquer brunch digno desse nome, e que consiste (para os plebeus que não frequentam estas ocasiões sociais/gastronómicas) em muffins, bacon canadiano e ovos escalfados, tudo coberto por molho holandês. Hipótese 5: Tributo a Bento de Jesus Caraça, matemático, pedagogo e activista político português do século XX. Hipótese 6: Testemunho de admiração pelo actor francês Benoît Régent, falecido prematuramente em 1994, e que marcou com a sua participação, com os seus olhos ternos e com a sua reticência discreta de eterno pasmado com a vida, filmes como "La Bande des Quatre" (Rivette), "Bleu" (Kieslowski) e "J'entends plus la guitare" (Garrel).

sábado, maio 14, 2005

NÓS, VÓS, ELES: Perante o último opus de Margarida Rebelo Pinto, "Pessoas Como Nós", cujo primeiro capítulo suportei na íntegra (graças à generosa e desinteressada divulgação que dele foi feita), sinto vontade de reagir um pouco à semelhança de Nanni Moretti, no filme "Caro Diario", perante o filme italiano que em má hora decide ver em pleno verão romano. «Vocês é que gritavam coisas absurdas, vocês é que envelheceram!» bufava Moretti. «Eu gritava coisas justíssimas, e tornei-me um esplêndido quarentão!» E eu, mais ou menos no mesmo tom: «Não, essas pessoas que a senhora Rebelo Pinto descreve no seu livrito não são como eu! Nem como ninguém que eu conheça, aliás.» Entre outros encantos e louváveis virtudes, as pessoas têm a vantagem de não se parecerem com estereótipos de literatura "light". Mas não é a futilidade e a vulgaridade das suas personagens que transforma a leitura de um romance como este num penoso exercício: é a falta de engenho e de criatividade na exposição das suas misérias. (Um bocadito de cuidado com a gramática também não faria mossa.)
O QUE HÁ NUM NOME?: Permito-me acrescentar algumas achegas às conjecturas relativas à escolha do nome do novo papa. Porquê Bento XVI? Hipótese 1: Homenagem a Benedetto Croce, intelectual e político italiano, autor de "L'Estetica come scienza dell'espressione e linguistica generale", entre outras obras de poderosa influência. Hipótese 2: Reconhecimento do peso histórico, sociológico e económico da estação ferroviária de São Bento, no Porto. A notável azulejaria do átrio principal pode ter sido factor decisivo na escolha. Hipótese 3: Tributo à actriz Benedita Pereira, que formou com João Catarré parelha inesquecível na série "Morangos com Açúcar", ícone da tê-vê-i.
LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Há alguns dias, no metropolitano, sentei-me em frente a uma senhora que lia um livro intitulado "Viver Com os Outros", de Isabel da Nóbrega. A princípio, cuidei tratar-se de uma obra de auto-ajuda. Bastou, porém, uma consulta breve à "História da Literatura Portuguesa" de Saraiva e Lopes para me inteirar de que se trata de um romance publicado em 1964, e que Isabel da Nóbrega foi ainda autora da novela "Já Não Há Salomão" e dos volumes de contos "Solo Para Gravador" e "Quadratim". Há lá mais nobre ambição para um escrevinhador do que desejar que os seus livros sejam lidos na rede de transportes públicos pelas gerações vindouras?

sexta-feira, maio 13, 2005

NOVISSIMUS BLOGUS: Parece nome de encíclica acabada de brotar da inspirada pluma do pastor alemão, mas não é. É apenas uma maneira latino-macarrónica de introduzir um elenco de blogs que chamaram a minha atenção durante a longa-oh-demasiado-longa ausência das últimas semanas. "Ópera e Demais Interesses", do Dissoluto Punito, cuja paixão melómana já tive ocasião de aferir ao vivo, deve passar a ser um ponto de passagem obrigatório para quem aprecia o espectáculo operático. "Educação Sentimental" é o nome do novo blog da autora do saudoso "My Moleskine". "Esquerda Republicana" é onde escreve o Ricardo Alves, que também participa no imprescindível "Diário Ateísta". "Da Literatura", cuja esfera temática se depreende limpidamente do título, tem ao leme um quarteto que tem mostrado capacidade de reflectir e discorrer sobre livros e letras furtando-se à brevidade ou negligência demasiadas vezes cultivada por essa blogosfera fora. "Marionetas a Norte" tão pouco esconde o jogo: é de bonecos e títeres que se fala neste interessante blog temático. Kleist aprecia e agradece!
A 13 DE MAIO, NA COVA DA IRIA, LÁ LÁ LÁ...: Sou laicista militante durante 364 dias do ano. A excepção é o 13 de Maio. Passo a explicar-me. As imagens que nos chegam do santuário, dos idosos progredindo penosamente de joelhos, ou arrastando-se para agradecer sabe-se lá que ilusória intercessão, de crianças entregues a absurdos pagamentos de promessas, são tão degradantes e eloquentes que me julgo dispensado de acrescentar seja o que for. Claro que muitos defenderão estarmos perante outras tantas manifestações de sublime fé. Seja. Mas também há quem defenda que o Zeppo era o mais divertido dos irmãos Marx. E, a propósito, constou-me, já não sei por que via, que tinha sido o António Botto o autor da letra da canção "A 13 de Maio na Cova da Iria". E isto para cair nas boas graças do regime que o exilara. Facto ou mito urbano? Em todo o caso, mal por mal, antes a publicidade da Coca-Cola.
OU... OU...: Hoje assisti a uma apresentação oral subordinada à temática das relações (mais ou menos conflituosas) entre as culturas das ciências exactas e das ciências humanas. Da apresentação fazia parte uma citação de Kleist. Reproduzo de memória: «A humanidade divide-se em dois grupos: aqueles que compreendem as metáforas e aqueles que compreendem as fórmulas. São pouquíssimos aqueles que compreendem tanto umas como outras.». Desconheço a origem da citação. E não sei se estou de acordo. Tudo dependerá da noção de "compreensão" que está aqui em jogo. Mas a cavalo dado (neste caso a uma referência kleistiana caída de onde nunca a esperaria) não se deve olhar o dente.
AMBIÇÃO DESMEDIDA: A minha Grande Aspiração, para falar com absoluta franqueza, era manter um blog igual a este, sem tirar nem pôr, mas em que todas as ocorrências da frase "Gosto muito de vinho branco" fossem substituídas pela frase "Gosto muito de vinho tinto". Ambição desmedida? Pode ser que sim.

quinta-feira, maio 12, 2005

ANÚNCIOS DE GATO PERDIDO INVENTADOS (9): Íamos no número 9, não era?
Perdeu-se lindo gato.
Foi num domingo.
O gato tinha uma coleira de cabedal verde.
Eu acabava de completar as palavras cruzadas.
3 vertical, "sempre ao nosso lado, nunca à frente, vermelhas e delicadas", 8 letras.
"PAPOILAS!"
Um vizinho pregava um prego.
Nisto olho para o parapeito, e descubro ausência do gato.
Como cantar a minha mágoa?
Talvez sob a forma de ode.
Em moça, tinha jeito para as cantorias.
Três colunas num jornal local, após vitória em concurso de orfeão.
Nesse dia a água-pé subiu-me à cabeça.
Ah ah, no pun intended.
O meu ricto transtornado diz tudo, poupar-me-ei às manifestações vocais.
Da última vez que ele desapareceu, encontrei-o dentro da embalagem da edição de coleccionador do DVD da "Boceta de Pandora" de Georg Wilhelm Pabst.
Mas desta vez já passaram três dias.
E se ele apanha uma dessas doenças que andam por aí?
Hipótese que de académica não tem nada.
Quem o encontrar, que o venha entregar à dona chorosa.
Mas resignada, com o lábio inferior mordido pelos incisivos, e os punhos devidamente cerrados.
Feito em Lisboa, pelo punho desta que assina...
"LORD JIM" (2): Quando Jim se despede de Marlow, a dada altura, parece ir falar, mas remete-se a um «No. Nothing.» Mais tarde, reflectindo sobre este momento, Marlow escreve: «That was all then - and there shall be nothing more; there shall be no message, unless such as each of us can interpret for himself from the language of facts, that are so often more enigmatic than the craftiest arrangement of words.» A linguagem dos factos. Um conceito fascinante: transmitir mensagens por meio dos actos, banais, fúteis ou corajosos, cometidos no Mundo, à revelia das verbalizações julgadas traiçoeiras. Sobretudo se a mensagem for dirigida a um único receptor inacessível. Como Lancelot, batendo-se e passando privações, vivendo as aventuras mais perigosas como quem explora uma sintaxe ingrata, substituindo pelas suas errâncias as sílabas que nunca saberia pronunciar em presença de Guenièvre, ou pelo menos nunca sem desmaiar, mordendo a terra demasiado rude.
"LORD JIM" (1): Terminei recentemente a leitura do romance "Lord Jim", de Joseph Conrad. Gostei sobretudo da maneira como neste romance coexistem o lado inglês de Conrad (a omnipresença dos escrúpulos morais por vezes indiscernível de uma preocupação pelas aparências, ou mesmo pela postura no sentido físico do termo) e o seu lado eslavo (manifesto no pessimismo céptico e crepuscular que permeia o livro, que seria talvez apocalíptico se o autor reconhecesse à humanidade uma relevância que lhe conferisse verdadeira dimensão trágica). Mas o aspecto que considero mais interessante em "Lord Jim" é a sobreposição da história do jovem Jim, grumete caído em desgraça devido a um acto de cobardia que o assombrará o resto da vida, com a história da opinião que o narrador (Marlow) vai formando desse mesmo Jim. Oitenta ou noventa por cento do livro é ocupado pela narrativa de Marlow (dirigido, diga-se, a uma plateia escassamente interessada), e, com muita frequência, a urgência de contar é vencida pela urgência de exprimir o que ele via de excepcional em Jim. Interesso-me muitíssimo pela tensão entre o excepcional e o medíocre em personagens de romance. Tal como em "A Sibila" ou "The Bostonians", o leitor é deixado na dúvida sobre se está perante uma criatura singular ou perante uma fraude mais ou menos voluntária. Em "Lord Jim", as páginas finais revelam um Jim indiscutivelmente dotado de força de carácter e bravura fora do comum. Muito pessoalmente, acho este dissipar da tensão pouco satisfatório. Senti-me muito mais fascinado pelo Jim que ocupa sucessivos limbos, arrastando o seu orgulho abjectamente ferido pelos portos do Sudeste asiático, entre a aniquilação e a irrelevância. A sua grandeza possui um brilho secreto quando latente no seu corpo jovem e robusto, adivinhada pela narrativa de um perplexo Marlow.
APELO À APEL: É bem sabido que chove sempre, torrencialmente, por alturas da Feira do Livro. (Quem ignora o encanto de ziguezaguear Parque Eduardo VII acima e abaixo, de banca em banca, confiando na protecção precária de um saco de plástico para preservar a integridade dos opúsculos adquiridos?) Nenhum cidadão esclarecido ignorará, por outro lado, que atravessamos um período de seca, se grave ou extrema pouco importa para o caso. Não é preciso ser-se génio nem guru para atinar com uma solução. Prolonguem a Feira do Livro! Façam-na durar meses, até que os aguaceiros concomitantes encham as albufeiras até ao bordo! É claro que esta seria uma medida ousada, mas os grandes homens da História, como Copérnico, Colombo e Sousa Martins, nada teriam sido sem a vontade de desafiar a tacanhez dos seus contemporâneos.
DISPONÍVEL PARA BLOGAR: Após uma detestavelmente longa hibernação, motivada por interrupção de acesso à Internet e por vasto sortimento de cabalas dirigidas contra mim, este blog regressa ao seu estado normal, a saber, verde, moderadamente prolixo, circunspecto mas opinativo, multifacetado, contras as Coisas Más e a favor das Coisas Boas.

quarta-feira, maio 04, 2005

AI FLORES AI FLORES: No Porto, no dia 1 de Maio, prendem-se florzitas amarelas do lado de fora das portas, para afugentar o demónio. As flores roçam ao de leve os cotovelos de quem passa. Os caules prendem a massa inverosímil dos edifícios aos nevoeiros do Inverno passado. Em cada caixa de correio, um inquieto quinhão de atmosfera. Mas o demónio não existe. Não passa de uma metáfora com olhos raiados.

domingo, maio 01, 2005

APELO ÀS MASSAS: Leiam o 1bsk! O blog que diz o que os outros não dizem, e que não diz o que os outros dizem, excepto quando aquilo que os outros dizem, por merecer ser dito, é dito.
CLARO QUE NÃO PODE DEIXAR DE SER SAUDADA...: ...a decisão da CP de acabar com as carruagens para fumadores nos comboios Alfa Pendular.
IF YOU BUILD IT HE WILL COME: Plantar os respectivos bolbos e regar com regularidade será bastante para que brotem as tulipas (singelas ou não)? Recusemos estas dádivas de simplicidade num mundo eminentemente complexo e intratável, com a mesma obstinação acanhada com que uma criança declina doces ofertados por um estranho.
GRANDE PERDA PARA A HUMANIDADE: Quando este blog regressar ao esplendor d'antanho, não deixaremos de comentar a anunciada retirada de Garry Kasparov do xadrez profissional. Uma notícia que trouxe (ainda que fugazmente) o xadrez aos noticiários generalistas não poderia deixar de ser tratada aqui. Do muito que haveria para dizer, será dito um poucochinho.

terça-feira, abril 19, 2005

UMA BOA NOTÍCIA QUE NÃO COMPENSA UMA MÁ NOTÍCIA (RATZINGER), MAS LÁ QUE FAZ O SEU ESFORÇOZITO, LÁ ISSO FAZ: Ontem, na acanhada sala do Quarteto, pouco faltou para dar uma pirueta no ar, seguida de flic-flac à retaguarda e parafuso. Felizmente, pude conter-me, e tanto melhor, pois espantar o burguês é passatempo que só pratico esporadicamente. Motivo da regozijança: a anunciada estreia de um filme francês, "Pas de repos pour les braves", de Alain Guiraudie. Juntamente com Arnaud Desplechin, Guiraudie foi a grande revelação do cinema francês dos últimos anos, a julgar pelas amostras a que tive acesso na minha estadia em Paris. As suas duas longas-metragens e várias curtas-metragens têm sido copiosamente elogiadas pela crítica, e pelo próprio Godard. "Pas de repos pour les braves" é uma fantasia profundamente divertida e original. E, quando falo de originalidade, saliente-se que é disso mesmo que se trata, e não de mais um dos seus vulgares ersatz. Espero voltar a falar deste filme. Depois de estrear. Depois de o rever. Já com o blog recuperado. Entretanto, concentremos baterias no IndieLisboa!

domingo, abril 17, 2005

NEM CHUVA NEM BLOG: O tempo é de penúria. Já se sabe. Na impossibilidade de, nos dias mais próximos, retomar o blog, nem sequer uma amostra de serviços mínimos, limito-me a gabar a paciência dos estimados leitores que continuam a passar por aqui. Eu já teria ido bater a outra freguesia. Aguardemos dias melhores, com ou sem trejeito de resignação estampado no rosto.