segunda-feira, julho 11, 2005

OFERTA E PROCURA: Vi a edição holandesa da revista "Men's Health" à venda na Praça da Liberdade, Porto.

quinta-feira, julho 07, 2005

(Gerhard Richter, "Três irmãs", 1965) «A vida é-nos mediada como convenção, como jogo e norma social. As fotografias são representações breves desta mediação tal como os quadros que eu pinto com base nas fotografias. Por terem sido pintados, deixam de relatar determinada situação e a representação torna-se absurda. Enquanto imagem, têm outro significado, outras informações.» (G.R.)
VERSOS PORQUE, EM LONDRES...: Um poema sobre Londres. A arte, a decência e a dignidade contra o fanatismo obscurantista do terrorismo. Convido os outros bloggers a fazerem o mesmo. Composed upon Westminster Bridge Earth has not anything to show more fair: Dull would he be of soul who could pass by A sight so touching in its majesty: This City now doth like a garment wear The beauty of the morning: silent, bare, Ships, towers, domes, theatres, and temples lie Open unto the fields and to the sky; All bright and glittering in the smokeless air. Never did sun more beautifully steep In his first splendour valley, rock or hill; Ne'er saw I, never felt, a calm so deep! The river glideth at his own sweet will: Dear God! the very houses seem asleep; And all that mighty heart is lying still! (William Wordsworth, 1802)
A LER: O artigo do Ricardo sobre o "politicamente correcto".
QUE É FEITO DO MEU MOMENTO ZEN?: Passei sem momento zen na segunda-feira passada, pois a crónica do Prof. João César das Neves não foi colocada online no "DN" (ou, pelo menos, não no sítio habitual). Felizmente, tive acesso à edição em papel, e pude constatar que a produção nevesiana desta semana versou sobre economia, e não sobre os temas fracturantes da sociedade que tão caros são ao seu temperamento. Quando JCN discorre sobre economia, por vezes dou por mim a concordar com os seus pontos de vista. É em situações como esta que se perdoa a um homem um arrepiozito de inquietação.
LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Um cavalheiro lia "O Céu que Nos Protege", de Paul Bowles. Na linha verde do metropolitano. Uma senhora, esta na linha vermelha, lia "Abóboras em Flor", de Dragoslav Mihajlovic, na edição da Cavalo de Ferro. Ambos sentados. Nada de versão original. Nada de lágrimas de êxtase estético brotando dos respectivos ductos. Nenhum ponto de bónus. (NOTA: Não sei como se insere o c com acento em "Mihajlovic", paciência.)
A RAIVA DA EXPRESSÃO (*): Continua a ser verdade intocável que este blog está fundado no ódio e no ressentimento. Isto é o caso agora como o foi antes e o será. Também e sobretudo quando a prosa é feita de tépidas palavras-madrepérola. Tão bonitas! (*) Francis Ponge

quarta-feira, julho 06, 2005

CONFESSIONALIDADE: A ideia de uma confessionalidade assumidamente construída, ficcionalizada, devendo menos à experiência pessoal do que à idealização do modo como a esfera privada pode verter para a esfera pública, atrai-me sobremaneira. Mais do que atrair-me, sinto-a como fulcral, sem ser capaz de explicar qual o jogo de forças implicado por esse fulcro. Posso pensar nas coisas do seguinte modo: muitos dos meus blogs preferidos são caracterizados por uma componente ficcional muito marcada. Sucede-me não conseguir evitar (é humano) interrogar-me sobre a natureza verídica dos episódios relatados ou aludidos. O mais frequente, porém, é desvalorizar essa questão, admitindo, até ordem em contrário, estar perante uma ficção, ou um processo de ficcionalização da realidade, mais ou menos elaborado, e marcado pela perpétua obrigação de se reinventar quotidianamente. Mas, afinal de contas, quem será mais perverso: aquele que apregoa aos quatro ventos as misérias da sua existência, ou aquele que, avançando mascarado, encena os mecanismos da confissão, como um médico legista que fizesse a autópsia simultânea de todos os episódios de infelicidade na história do Mundo, passados e por ocorrer? Estas questões são pertinentes e dignas de atenção, mas provavelmente acessórias para a felicidade humana. Ninguém pode ser recriminado por deixá-las de lado, quando as preocupações diárias, o corpo ou o clima fornecem chamamentos mais urgentes. Triste folhita seca do Parc Monceau, o teu destino é voltejar sem interrupção, desfasada do ciclo das estações, assim como o meu é o de olhar nos olhos a pessoa que copia quadros de mestres quinhentistas no Louvre, antes que o museu feche. Mas não para lhe dizer alguma coisa, não para lhe falar. Traços insubmissos no papel, garrafa de água dentro da mochila de pano.

terça-feira, julho 05, 2005

SEPARADOS À NASCENÇA?: Têm surgido numerosas especulações sobre a possibilidade de Mahmoud Ahmanidejad, recentemente eleito presidente do Irão, ter tomado parte activa no episódio dos reféns da embaixada dos EUA em Teerão, em 1979. Pessoalmente, as minhas suspeitas são outras. Desconfio que Ahmanidejad se fez passar, algures no fim dos anos 80, pelo realizador Mohsen Makhmalbaf, um embuste que foi imortalizado graças ao filme "Close Up", de Abbas Kiarostami: Verifique o leitor as incontestáveis semelhanças fisionómicas. Depois de ter enganado uma respeitável família, estará o senhor Sabzian agora a enganar toda uma nação?

segunda-feira, julho 04, 2005

CINEMA: "Adriana", de Margarida Gil. As minhas expectativas para este filme não eram muito favoráveis, tendo em conta o único filme da autora que eu conhecia ("Rosa Negra"), que me parecera, na altura, uma obra algo desequilibrada, e um exemplo eloquente de uma realização incapaz de gerir todos os temas que a ambição do argumento fazia irromper em cena. Algumas críticas, lidas a propósito deste seu novo filme, tinham-me levado a recear que Margarida Gil tivesse reincidido nessa falta. Porém, acabei sendo agradavelmente surpreendido. "Adriana" parte de um pressuposto cuja inverosimilhança gritante não deixou de ser apontada por todas as críticas negativas: o patriarca de uma ilha açoriana que, desesperado pela morte da mulher, decreta o fim das fornicações e nascimentos no território. É nesta fase inicial que o filme ameaça seriamente soçobrar sob o peso de uma grotesca improbabilidade que se pressente deliberada, mas cujo freio chega a parecer estar irremediavelmente preso aos dentes de um ridículo galopante. A chegada da jovem Adriana a Lisboa (em busca de "constituir família por métodos naturais") faz, por seu lado, temer um clima de romance de iniciação aos vícios e iniquidades da Grande Cidade (o roubo no aeroporto, o deambular nocturno pelas ruas hostis...) Contudo, rapidamente o filme encontra o seu registo, que não mais abandona. Descrever esse mesmo registo não é tarefa das mais simples. Dir-se-ia um bildungsroman em que as diferentes etapas tivessem sido baralhadas aleatoriamente, em vez de seguir a linearidade consagrada pelos cânones: é inegável que Adriana se encontra mais experiente no fim da sua odisseia por terras do continente, mas o "drôle de chemin" que a conduziu a esse estado é tortuoso, demasiado tortuoso. E para isso muito contribuem as personagens que se vão atravessando no seu caminho: nenhuma delas contraria abertamente a ideia fixa da rapariga insular, mas tão pouco alguma delas se esforça demasiado para a colocar no bom caminho. Em vez disso, arrastam-na para situações de um absurdo vagamente surrealista (a actuação do imitador de Amália Rodrigues, o ferimento provocado pela seta da estátua de São Sebastião). Tais derivas podem aparecer como entraves ao ritmo natural da narrativa, mas fazem parte da própria respiração do filme. Criticá-las como inconsequentes é tanto menos razoável quanto Margarida Gil revela notável talento para transformar essas ramificações colaterais da narrativa em gloriosas vinhetas, plenas de humor e candura visual, para o que muito contribui a presença, frágil mas voluntariosa, de Ana Moreira. Uma das coisas que mais aprecio quando vou ao cinema é o momento (raro, e por isso mais digno de apreço) em que um filme, que parecia destinado a ser alguma coisa de identificável, cotejável, classificável, se revela subitamente como ele próprio, único e serenamente orgulhoso disso. "Adriana" respeita suficientemente os seus espectadores para lhes reclamar tempo para criar o seu próprio espaço, o seu ritmo e a sua maneira, por vezes algo bizarra ou improvável. E, se o faz com sucesso, deve-o em muito aos diálogos (tanto mais conseguidos, parece-me, quanto menos "cinematográficos" são), onde se detecta a mão de Maria Velho da Costa. Mas o principal mérito deve recair inteirinho em Margarida Gil, que nos oferece razões para desejarmos que as oportunidades para levar avante os seus projectos continuem a surgir-lhe.
GRAVIDEZ MISTERIOSA NA BARATA SALGUEIRO: 1) Kleist. 2) Rohmer. 3) Um dos filmes preferidos de Peter Greenaway. Sobejam as razões para ir ver o filme "A Marquesa de O...", amanhã, terça-feira, às 19h, na Cinemateca. Na avenida Barata Salgueiro, onde os sonhos se transformam em realidade. Estações de metro mais próximas: Marquês de Pombal e Avenida. Este filme está integrado no ciclo "Ficções de Filmes", em colaboração com a revista "Ficções", e repete no próximo dia 12.
Gerhard Richter, "Pintura Abstracta" (1990)
«Existe a fotografia, capaz de representar tudo melhor, existe a história da arte, que já há muito revelou tudo, e existem os novos media, o vídeo, a performance, etc., capazes de exprimir tudo de um modo muito mais actual. Por outro lado, existe a vontade - em si mesma uma prova da necessidade da pintura. Todas as crianças pintam de livre vontade. A pintura tem um futuro radioso pela frente. Não acha?» (G.R.)

domingo, julho 03, 2005

DA INDIGNAÇÃO: Não tenho por hábito insultar pessoas que não conheço, mas, por vezes, perante certas cretinices de calibre invulgarmente graúdo, é a custo que mantenho fechados os cordões do meu saco dos impropérios. No "Público" de sábado, o crítico David Lopes Ramos escreve, num artigo relativo a uma viagem à região vinícola de Bordéus: «Como se sabe, e se comprova a cada passo, a simpatia é uma qualidade pouco francesa.». "Como se sabe"? Quem é que sabe? A humanidade em geral? O leitor médio do "Público"? Ou todos aqueles cuja experiência em primeira mão da suposta antipatia francesa se limitou a um empregado de café contrariado por ter de trocar uma nota de 50 euros para pagar uma água Perrier, ou a um polícia interrogado em mau francês ou inglês sofrível sobre o caminho para a Notre-Dame? Vivi durante mais de 3 anos em Paris. Não reivindico, por isso, autoridade especial para me pronunciar sobre o carácter mais ou menos rebarbativo do povo francês. Mas talvez ouse pensar que o meu parecer, nesta matéria, não seja completamente destituído de relevância ou fundamento. Só raramente passei por experiências de acentuada falta de simpatia ou polidez por parte dos nativos. E não só discordo de que a simpatia seja uma qualidade pouco francesa, como me parece estar o forasteiro menos exposto a uma resposta desabrida ou a uma manifestação de rudeza em Paris do que em Londres ou Nova York, por exemplo. (Ou Lisboa, bem entendido.) O que me revolta é a ligeireza de caganita de pombo com que certos plumitivos debitam e ajudam a consolidar estes horrendos memes, com a negligente convicção de estarem a fazer eco de verdades tão universalmente reconhecidas como o carácter elíptico da órbita terrestre. A história da discórdia e da desconfiança mútua entre povos também é feita disto: preconceitos mesquinhos, que reflectem muito mais a pequenez e imbecilidade daqueles que lhes dão periodicamente alento do que qualquer remoto fundo de verdade.
NOVE OU DEZ?: No "Público" do passado sábado, um dos artigos tem por título "10 números para explicar porque é preciso ajudar África". Contudo, os números apresentados são apenas nove. A não ser que o próprio número "10" faça parte da conta dos números que explicam porque é preciso ajudar África. O raciocínio seguido pode ter sido este: o facto de bastarem 10 números para explicar porque é preciso ajudar África é também, por si só, uma justificação para a necessidade de ajudar África. Mas nem por isso os números deixam de ser apenas nove...
ADDING INSULT TO INJURY: Maria José Costa Félix reincide na sua coluna "Outra Porta", na "Xis" desta semana. Mostrando-se briosa adepta daquele princípio que, em inglês, se enuncia como "to add insult to injury" (juntar ao dano o insulto, neste caso insulto à inteligência do leitor), MJCF volta a falar das essências florais de Bach, e de outras charlatanices envolvendo gemas, cristais e cogumelos. MJCF tem razão: uma só crónica não esgota este assunto. A quantidade de resmas A4 que se podem cobrir com este assunto é à medida da credulidade humana, que, como sabemos, é imensa e desprovida de limites. «As doenças físicas reflectem falhas ou alterações ao nível do nosso corpo anímico, através do qual estamos ligados ao cosmos. E é a esse nível que as essências florais actuam. Não o fazem directamente ao nível do físico, mas transmitem-nos uma vibração que, sendo harmoniosa, tem capacidade para corrigir algo que, em nós, esteja perturbado.» Assim começa o artigo desta semana. Mais grave e nefasto do que afirmações manifestamente falsas ou absurdas, só asserções deste jaez, que, devido à indefinição e carácter vago dos conceitos empregues, se esquivam a qualquer tentativa de lhes atribuir valor lógico ou plausibilidade. Mais condenáveis ainda são quando, como é o caso, tanto pelo vocabulário como pelo assunto tratado, se tentam revestir de uma aparência de respeitabilidade científica, que o seu autor não hesita em usurpar. Lendo a badana de um livro recentemente publicado, da autoria de MJCF, fiquei a saber duas coisas: que a senhora foi astróloga, e que foi por duas vezes secretária de estado. Duas condições que - assim o imporiam o bom senso e a ordem natural das coisas - deveriam ser rigorosamente incompatíveis. Neste seu avatar de propagandista das curas naturais e da auto-ajuda "new age", MJCF tem menos possibilidades de causar dano do que num governo constitucional. Valha-nos ao menos isso.

sexta-feira, julho 01, 2005

ANÚNCIOS DE GATO PERDIDO INVENTADOS (11):
Perdeu-se lindo gato,
ou, melhor dizendo,
perdeu-se (o autor destas linhas)
da própria essência de gato que prevalecia para além
da felpuda diversidade de raças,
temperamentos
e fisionomias felinas.
Perdeu-se (perdi)
aquela consciência universal do que é
"UM GATO",
o animal que Adão nomeou com sagacidade
inspirada por Javé,
aquilo, enfim,
que nos une na inamovível certeza
de que um gato é bicho meigo e mamífero,
e que um gato não acasala com okapis nem
pesca à linha.
Perdeu-se o conceito de gato que me prestava
serena e fiel companhia em húmidas tardes
de Novembro com migalhas de biscoito de canela
presas ao pêlo.
Resta-nos a tirania do acidente felino, do bravio e
indomável gato individual.
Esgueira-se por becos, prefere a sombra à luz.
Acaba neste momento de evitar uma motorizada que galgou
o passeio,
na zona das Janelas Verdes.
VERSOS PORQUE SIM: CAFÉ DO MOLHE Perguntavas-me (ou talvez não tenhas sido tu, mas só a ti naquele tempo eu ouvia) porquê a poesia, e não outra coisa qualquer: a filosofia, o futebol, alguma mulher? Eu não sabia que a resposta estava numa certa estrofe de um certo poema de Frei Luis de Léon que Poe (acho que era Poe) conhecia de cor, em castelhano e tudo. Porém se o soubesse de pouco me teria então servido, ou de nada. Porque estavas inclinada de um modo tão perfeito sobre a mesa e o meu coração batia tão infundadamente no teu peito sob a tua blusa acesa que tudo o que soubesse não o saberia. Hoje sei: escrevo contra aquilo de que me lembro, essa tarde parada, por exemplo. (Manuel António Pina, in "Nenhuma Palavra e Nenhuma Lembrança", Assírio & Alvim, 1999)

quinta-feira, junho 30, 2005

A SOMBRA DO Z: Ela aí está, a comentadora mais activa e surpreendente da blogosfera resolveu-se a satisfazer os anseios de milhares de famílias portuguesas. A Zazie tem um blog só dela! Conhecendo os seus antecedentes, ninguém se surpreenderá por se tratar de um lugar onde à inteligência, ao humor tongue in cheek e à originalidade é dada rédea solta. Já para não falar numa prolixa erudição, tudo pontilhado pela ironia cáustica que todos aprendemos a reconhecer nas caixinhas de comentários e na mais-do-que-saudosa Janela.
QUESTIONÁRIO MUSICAL: Caramba, David, tu metes-me em Sarilhos Grandes (e Pedrógão Pequeno). 1) Tamanho total dos arquivos de música no meu computador? Não tenho música no computador. Não se trata de preconceito, sucede apenas que nunca me dei a esse trabalho. Cheguei a ter uma cançoneta da Sandie Shaw, mas devo tê-la apagado com indesculpável displicência. Sandie Shaw possuía uma das mais fabulosas vozes dos últimos 40 anos. Conjugação intrigante e rara de fragilidade e desenvoltura. 2) Último disco que comprei. Não m'alembro. Tenho comprado poucos. A culpa é dos invólucros de celofane, que são excessivamente difíceis de retirar. Eduardo Prado Coelho tem hoje uma crónica no "Público" onde aborda este assunto, que só os estultos classificarão como trivial. 3) Canção que estou a escutar agora. Bach, "Arte da Fuga", Savall, na aparelhagem. Bem mais perto de mim, a sonata para modem ADSL e laptop. 4) Cinco canções que ouço frequentemente ou que têm algum significado para mim. «A rosa que te dei não foi criada num jardim./Por isso tinha mais significado para mim.» Não temas, leitor, a minha escolha não recairá sobre José Cid! Francofilia obriga, aqui vai. "Initials B.B.", Serge Gainsbourg; "Dans la Maison Vide", Michel Polnareff; "Bébé Requin", France Gall; "Juste Quelqu'un de Bien", Enzo Enzo; "Le Chanteur", Daniel Balavoine. 5) Lanço o testemunho a outros três bloggers. Ai isso é que não lanço.