quarta-feira, julho 27, 2005

QUASE EM PORTUGUÊS (*): Há dias, na Antena 1, Carlos Magno disse, a propósito das (previsíveis) candidaturas de Cavaco Silva e Mário Soares às presidenciais, que "quase tudo já foi dito, mas está ainda quase tudo por dizer". Terá sido Carlos Magno quem escreveu, na contracapa do romance "Aparição" (editorial Verbo, colecção Livros RTP, 1971), que "(...)Vergílio Ferreira é um escritor possuído da mais funda problemática frente à existência"? Eu gostaria de ser um blogger possuído de uma funda problemática, ainda que essa problemática não fosse a mais funda. À falta de tão crucial requisito, restam-me os bolos de arroz, as conspirações urbanas e os gatos perdidos, ainda por cima fictícios. (*) Com piscadela de olho a este blog, e pedidos de desculpa pelo abuso.
LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Na linha verde do metropolitano, uma jovem lia "Murphy", a tradução portuguesa do romance de Samuel Beckett, editada pela Assírio & Alvim. Em tempos, desenvolvi uma obsessão duradoura por esta obra (como, aliás, por dois em cada três dos textos em prosa de Beckett). Oh, linha verde, linha verde, que nobilíssimas janelas sobre os hábitos de leitura quotidiana dos portugueses e portuguesas nos escancararás ainda?! Que formosos avistamentos, que empolgantes testemunhos de devoção e hábito literário nos desvendarás neste futuro próximo, ao longo do teu nada sinuoso percurso que liga Telheiras ao Cais do Sodré, com passagem por Campo Grande, Alvalade, Roma, Areeiro, Alameda, Arroios, Anjos, Intendente, Martim Moniz (ex-Socorro), Rossio e Baixa-Chiado?

segunda-feira, julho 25, 2005

...UMA COISA AZUL:

(Marc Chagall, "A Criação do Homem")

VERSOS PORQUE SIM: Anniversaries Day by nomadic day Our anniversaries go by, Dates anchored in an inner sky, To utmost ground, interior clay. It was September blue When I walked with you first, my love, In Roukenglen and Kelvingrove, Inchinnan's beech-wood avenue. That day will still exist Long after I have joined you where Rings radiate the dusty air And bangles bind each powdered wrist. Here comes that day again. What shall I do? Instruct me, dear, Longanimous encourager, Sweet soul in the athletic rain And wife now to the weather. (Douglas Dunn)

domingo, julho 24, 2005

PARA QUANDO UMA REPÚBLICA?: Espanha, Bélgica, Holanda, Massachusetts e Canadá (por ordem de proximidade geográfica) são os estados que já enquadraram legalmente as uniões entre indivíduos do mesmo sexo, e resta aguardar que o efeito dominó se estenda rapidamente às restantes sociedades democráticas (e às não democráticas também, obviamente, se bem que as esperanças sejam exíguas). Porém, surge uma questão: Espanha, Bélgica e Holanda são monarquias; o Massachusetts é um estado federado dos E.U.A.; o Canadá é uma monarquia constitucional, chefiada, no papel, e por uma dessas bizarrias que desafiam a compreensão, pela rainha de Inglaterra Isabel II, pela graça de Deus etcaetera e tal. Quanto mais será preciso esperar para que uma república soberana siga o bom exemplo destas nações, e adopte legislação no sentido de respeitar este imperativo social? De países como a Irlanda (onde a Igreja Católica assume, historicamente, um peso esmagador) e da Itália (dirigida por Berlusconi, que já de si não é flor que se cheire, e que se vê obrigado a pactuar com a xenófoba e ultramontana Liga Norte, de Bossi, Buttiglione e seus sequazes), pouco há a esperar. Mas a França, a Alemanha, ou as repúblicas progressistas do norte da Europa (Islândia e Finlândia) parecem-me candidatos mais naturais. Enquanto a História não segue o seu curso, para desgosto de muitos, deixo-vos com a bandeira do Massachusetts, castiça como poucas, à laia de ilustração. (Retirada daqui.)
TRIO DE COISAS BOAS: «Fomos até ao Conde Redondo, entrámos numa leitaria qualquer, e eu paguei-lhe um copo de cacau e um bolo de arroz.» (José Rodrigues Miguéis, in "Uma Carreira Cortada", extraído do livro "Léah e outras histórias", Editorial Estampa, 1997.) Três coisas boas numa só frase, a saber: 1) O Conde Redondo; 2) Um copo de cacau; 3) Um bolo de arroz. Os pontos 2) e 3) dispensam explicações, parece-me. A Rua do Conde Redondo é uma artéria lisboeta muito do meu grado, por diversas razões. Pela sua natureza íngreme (sem exageros à la Barata Salgueiro), pelo carácter nem excessivamente cosmopolita nem declaradamente popular, e por me parecer um cenário apropriado para instalar estabelecimentos de comércio e serviços cujos assalariados são aliciados por sinistros indivíduos, em nome de organizações clandestinas de poder desmedido, que laboram na sombra para minar a sociedade civil tal como a conhecemos.

quarta-feira, julho 20, 2005

TRÊS PALAVRINHAS APENAS: Adeus, Quartzo. Obrigado. (Resolvi passar a ser sintético aquando da morte dos blogs que eram importantes para mim. O risco de derramar as minhas reservas de cabotinismo sentimentalão justificaria um alerta vermelho.)
PICTÓRICO: Uma paisagem marítima de mestre holandês, de tons sombrios e vociferantes. Raiva por não existir um equivalente verbal para esse mar cor de cinza, gratuitamente feroz. (Angústia, se existisse.)
OS DIAMANTES SÃO ETERNOS: «(...)This Jack, joke, poor potsherd, patch, matchwood» (Gerard Manley Hopkins, "That Nature is a Heraclitean Fire and of the comfort of the Resurrection") Por vezes, aquilo que se resgata a uma vida que soçobrou, e que se julga digno de ser submetido ao escrutínio dos humanos, merece mais desprezo do que a sua própria caricatura, do que a sua eventual repetição em comédia buffa. Não escondas, aniquila; não cales, renega-te; não abdiques, muda-te em sombra.

segunda-feira, julho 18, 2005

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Aqui há dias, na linha verde do metropolitano, avistei uma jovem que lia uma biografia de Gamal Abdel Nasser, escrita em língua inglesa. Por vezes, os guardiões da verosimilhança descuram a sua vigilância por uns momentos, e o resultado está à vista.
BLOGS ON A HOT TIN ROOF: O Nocturno com Gatos é um blog sobre diversíssimas coisas, com epígrafe de Salvatore Quasimodo, e abundância de motivos de interesse. A Arca da Jade é um blog sobre gatos, como o nome não indica, como o denunciam as deliciosas imagens de homenagem à espécie felina. Confusos? Não há motivo para tal. Vão lá e leiam.
GANHE VOCÊ TAMBÉM: Eu vou mudar todas as minhas poupanças, aplicações financeiras e cabedais vários para o BPI. Um banco que logra convencer o Mourinho a barbear-se merece-me total e cega confiança. Pouco me interessam taxas de juro e demais detalhes mesquinhos. Os operadores de milagres estão acima de tais chafurdices. A fé não se explica.

quinta-feira, julho 14, 2005

Vermalung (Grau), 1975
«Também a cor, qualquer que tenha sido a escolha, é para Richter apenas um material, um tipo de ferramenta, que permite à realidade - e só a ela - tornar-se quadro. Não obstante, o cinzento tem um lugar especial no conjunto da sua obra; não só de uma perspectiva histórica, evolucionista, não só quantitativa, como também e especialmente qualitativa, porque já contém em si mesma, enquanto "cor" ou mesmo "não-cor", algo da indiferença que Richter pretende e espera alcançar.» (Johannes Cladders, a propósito de Gerhard Richter, 1975)
LEITURAS: Na página 84 do romance "Pode um desejo imenso", de Frederico Lourenço, lê-se o seguinte: «A quarta década da sua vida não estava a começar mal.» Como a personagem a que se refere a frase (Nuno Galvão, professor, especialista em Camões e melómano) acaba de cumprir 40 anos, existe aqui um erro óbvio: é a quinta década da sua vida que ele enceta, e não a quarta. Mas como criticar tais picuinhices num livro que, ao fim de uma mancheia de páginas, nos brindou com termos como "charlusianismo" e "itifálico"?
A LIBERDADE GUIANDO O POVO: Porque acredito convictamente em valores que a Revolução Francesa ajudou a veicular (Liberdade, Igualdade e Fraternidade, igualmente importantes, complementares entre si, valores basilares de qualquer sociedade decente, hoje como em 1789); porque este dia simboliza a França, o país com o qual sinto maiores afinidades (como alguns leitores já terão percebido); porque é precisa uma pantagruélica dose de fantasia e engenharia argumentativa para negar que, durante muitas décadas, nomeadamente no século XIX, a Revolução foi o farol de milhares de homens e mulheres que pugnaram pela liberdade contra a tirania, pela constituição contra a arbitrariedade dos estados, pela emancipação intelectual contra a censura; porque não partilho do cepticismo de um Georges Brassens ("Mourir pour des idées, l'idée est excellente/Moi j'ai failli mourir de ne l'avoir pas eu/Car tous ceux qui l'avaient, multitude accablante/En hurlant à la mort me sont tombés dessus"), uma vez que são as ideias, por vezes, que engendram a felicidade dos povos, se bem que nem sempre pelo caminho mais directo; o 14 de Julho será sempre um dia muito especial para mim.

terça-feira, julho 12, 2005

A MORTE DE UM ESCRITOR: Fiquei contente por deparar com esta evocação justíssima do romancista francês Claude Simon, recentemente falecido. Recordo, dos romances que dele li (há já um rorzito de anos), uma prosa complexa e densa, convoluída pelo peso da história, moderadamente obcecada pelo tempo mas não subjugada à ilusória linearidade deste. Estranhei sempre que o prémio Nobel lhe tivesse sido atribuído, em vez de, por exemplo, Alain Robbe-Grillet ou Nathalie Sarraute, escolhas que teriam sido mais óbvias e, atrevo-me a alvitrar, mais populares. Talvez isso se tenha devido ao facto de Simon introduzir de forma mais explícita o elemento humano na sua obra. Conto-me entre aqueles que pensam que a ficção contemporânea teria ainda muito a aprender com o nouveau roman. (NOTA: Stendhal era outro que se (auto?)definia como escritor sem imaginação. Os seus enredos eram, na maioria dos casos, decalcados de episódios verídicos e faits-divers. A fronteira entre a crónica e a ficção esbatida, e redesenhada com o ímpeto de quem ama e odeia com igual intensidade.)
SE SEI PORQUE É QUE PERGUNTO?: Há quem fantasie com a possibilidade de, um dia, dirigir uma pergunta a Deus. Que teria de ser uma Pergunta para acabar com todas as perguntas, pois a solenidade da situação não se compadeceria com interpelações mesquinhas. Mais modesto nos meus propósitos, escassamente interessado em tais banquetes de transcendência, eu contentar-me-ia em dirigir uma pergunta a Vasco Pulido Valente. E a pergunta seria a seguinte: «Existe debaixo do Sol, ou mesmo em paragens mais longínquas da galáxia, alguma coisa, seja personalidade pública, instituição, esforço ou ideia, que mereça um bocadinho mais do que o cepticismo agoirento, o descrédito e o azedume misantrópico que o Sr. imprime sistematicamente às suas crónicas?»
VERSOS PORQUE SIM: A TIGRE AUSÊNCIA pro patre et matre Ai que a Tigre a Tigre Ausência, ó amados, devorou tudo deste rosto voltado para vós! A boca apenas pura reza-vos ainda: para que rezeis ainda a fim que a Tigre a Tigre Ausência, ó amados, não devore boca e oração... (Cristina Campo, in "O Passo do Adeus", Tradução de José Tolentino Mendonça)
CONFESSIONALIDADE (2): Uma confissão encenada requer candeias, uma de cada lado da cabeça, e empunhadas pelo próprio. O âmago é descerrado durante um polido momento de silêncio. Como num poema de Cristina Campo, receia-se que a própria boca que revela seja devorada por uma temível ausência de felino selvagem.

segunda-feira, julho 11, 2005

OFERTA E PROCURA: Vi a edição holandesa da revista "Men's Health" à venda na Praça da Liberdade, Porto.