terça-feira, agosto 02, 2005
A MOÇA MAILINDA: Num encontro/entrevista de Carlos Vaz Marques a Maria do Rosário Pedreira, que a SIC-Mulher emitiu recentemente, a conhecida autora e editora manifestou uma indignação e reprovação inesperadamente virulentas contra este verso de Florbela Espanca:
«Ser a moça mais linda do povoado»
Para MdRP, este verso conteria no seu bojo tudo o que de mau e vicioso a poesia pode reservar, e constituiria o exemplo vivo daquilo que não se pode escrever, por amor à decência.
Discordo. Fraco conhecedor da obra espanciana, sempre gostei deste verso. Talvez pela candura ofuscante, que imagino (provavelmente sem razão) que nunca poderia ser em primeiro grau. Talvez pela simplicidade brutal da asserção, inclusivamente ao nível gramatical. Talvez, mais simplesmente, por uma questão de eufonia. A sonoridade deste verso parece-me, a todos os títulos, muito bem conseguida. E agrada-me a palavra "povoado": tem um não sei quê de redondo e cheio, e um travo vetusto que não chega para o banir do vocabulário corrente.
(Não se veja neste post uma admissão implícita, por parte do seu autor, de ser espectador da SIC-Mulher. Nada disso! Completamente errado! Não é mesmo nada, nada, nada, nada disso! Com excepção do programa de Carlos Vaz Marques, e da série "Sex and the City", e de algumas outras séries, e de alguns telediscos, e de alguns minutos do programa da Oprah para acompanhar o pequeno-almoço, nunca sigo esse canal. Os meus propósitos na vida são outros, quase todos rectos, elevados e espirituais.)
segunda-feira, agosto 01, 2005
DOS VENTOS TEMPESTUOSOS QUE SOPRAM SOBRE A IMPRENSA ESCRITA: Os diários "O Comércio do Porto" e "A Capital" suspenderam a sua publicação.
Do primeiro, penso nunca ter comprado um único exemplar; mas entristece-me, ainda assim, a sua morte.
Quanto à "Capital", a relação que com ela mantinha era bem diferente.
Sem deixar de endereçar a minha solidariedade aos outros profissionais deste diário (por vezes criticado, quando não achincalhado, de uma maneira que sempre me pareceu exagerada e desproporcionada face aos seus defeitos e virtudes), era a página de xadrez semanal das terças-feiras, da autoria de Luís Santos, que me fazia leitor regular.
Durante mais de vinte e cinco anos (julgo não estar a exagerar), Luís Santos manteve este espaço onde divulgava notícias da modalidade, a nível nacional e internacional, e transcrevia e comentava partidas.
Esta longevidade, acrescida à elevada qualidade do trabalho produzido, e à fraca implantação da modalidade em Portugal, fizeram deste espaço um exemplo absolutamente notável. Nunca, nos meus contactos com imprensa escrita de outros países ocidentais, deparei com outra ocorrência de uma secção xadrezística regular, de página inteira. É provável que existam outros exemplos, mas não os conheço. (Por sinal, a coluna de xadrez do "Daily Telegraph" acaba de ser suprimida.)
Os tempos mudaram. Hoje em dia, os jogos completos dos principais torneios de xadrez mundiais chegam-nos no próprio dia, via Internet, e isto quando não são transmitidos em directo, para gáudio dos fãs. Existem milhares de sites dedicados às notícias do mundo das 64 casas. A globalização também se estendeu aos domínios da deusa Caissa.
Mas nada substituirá a sensação de abrir a secção de Desporto da "Capital" à procura do xadrez. E nada apagará as recordações do ano de 1991, desse inebriante torneio de Linares em que o meu ídolo Vassily Ivanchuk triunfou brilhantemente sobre Kasparov e Karpov, reavivando o interesse deste republicano empedernido pelo "jogo dos reis"; nem dos quartos-de-final do torneio de candidatos desse mesmo ano, em que "A Capital", comprada num quiosque de uma vila do litoral alentejano, era a minha única fonte de notícias sobre os desenvolvimentos desse quádruplo choque de titãs.
Tenho esperança de que "A Capital" regresse em breve às bancas, e que a página de xadrez de Luís Santos não falte à chamada.
COMO ESCARPAS CONTUDO: Sem menosprezo algum pelos excelentes artistas nacionais representados na exposição "Entre Linhas" (Desenho na Colecção da Fundação Luso-Americana, Culturgest Lisboa, até 25/9), o que mais fortemente me chamou a atenção nela foram as obras do suíço (radicado em Portugal) Michael Biberstein.
As suas "aguarelas metafísicas", que evocam aproximações miniaturais a improváveis penhascos, gargantas ou massas nebulosas, possuem um encantamento desolado feito de minúcia e de concisão. O pendor abstractizante que a elas parece presidir pode ser encarado como uma reinvenção, temporalmente remota, da tradição paisagística romântica de Friedrich. Um prolongamento supérfluo, mas também, à sua maneira, urgente.
Infelizmente, não consegui aceder na Internet a obras desta série, mas escolhi uma outra que não é totalmente alheia ao espírito destas aguarelas.
(Grey accelerator, 1994)
Ao leitor que desejar conhecer um pouco mais da obra de Biberstein, recomendo que clique aqui ou aqui com o botão esquerdo do seu rato.
Da exposição "Entre Linhas", também apreciei as composições de Pedro Proença, jubilatórias justaposições de significado, conceito e travessura pictórica. Quanto a Helena Almeida e Lourdes Castro, duas artistas que admiro, os trabalhos expostos parecem-me escassamente representativos.
quarta-feira, julho 27, 2005
QUASE EM PORTUGUÊS (*): Há dias, na Antena 1, Carlos Magno disse, a propósito das (previsíveis) candidaturas de Cavaco Silva e Mário Soares às presidenciais, que "quase tudo já foi dito, mas está ainda quase tudo por dizer".
Terá sido Carlos Magno quem escreveu, na contracapa do romance "Aparição" (editorial Verbo, colecção Livros RTP, 1971), que "(...)Vergílio Ferreira é um escritor possuído da mais funda problemática frente à existência"?
Eu gostaria de ser um blogger possuído de uma funda problemática, ainda que essa problemática não fosse a mais funda. À falta de tão crucial requisito, restam-me os bolos de arroz, as conspirações urbanas e os gatos perdidos, ainda por cima fictícios.
(*) Com piscadela de olho a este blog, e pedidos de desculpa pelo abuso.
LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Na linha verde do metropolitano, uma jovem lia "Murphy", a tradução portuguesa do romance de Samuel Beckett, editada pela Assírio & Alvim.
Em tempos, desenvolvi uma obsessão duradoura por esta obra (como, aliás, por dois em cada três dos textos em prosa de Beckett).
Oh, linha verde, linha verde, que nobilíssimas janelas sobre os hábitos de leitura quotidiana dos portugueses e portuguesas nos escancararás ainda?! Que formosos avistamentos, que empolgantes testemunhos de devoção e hábito literário nos desvendarás neste futuro próximo, ao longo do teu nada sinuoso percurso que liga Telheiras ao Cais do Sodré, com passagem por Campo Grande, Alvalade, Roma, Areeiro, Alameda, Arroios, Anjos, Intendente, Martim Moniz (ex-Socorro), Rossio e Baixa-Chiado?
segunda-feira, julho 25, 2005
VERSOS PORQUE SIM:
Anniversaries
Day by nomadic day
Our anniversaries go by,
Dates anchored in an inner sky,
To utmost ground, interior clay.
It was September blue
When I walked with you first, my love,
In Roukenglen and Kelvingrove,
Inchinnan's beech-wood avenue.
That day will still exist
Long after I have joined you where
Rings radiate the dusty air
And bangles bind each powdered wrist.
Here comes that day again.
What shall I do? Instruct me, dear,
Longanimous encourager,
Sweet soul in the athletic rain
And wife now to the weather.
(Douglas Dunn)
domingo, julho 24, 2005
PARA QUANDO UMA REPÚBLICA?:
Espanha, Bélgica, Holanda, Massachusetts e Canadá (por ordem de proximidade geográfica) são os estados que já enquadraram legalmente as uniões entre indivíduos do mesmo sexo, e resta aguardar que o efeito dominó se estenda rapidamente às restantes sociedades democráticas (e às não democráticas também, obviamente, se bem que as esperanças sejam exíguas).
Porém, surge uma questão: Espanha, Bélgica e Holanda são monarquias; o Massachusetts é um estado federado dos E.U.A.; o Canadá é uma monarquia constitucional, chefiada, no papel, e por uma dessas bizarrias que desafiam a compreensão, pela rainha de Inglaterra Isabel II, pela graça de Deus etcaetera e tal.
Quanto mais será preciso esperar para que uma república soberana siga o bom exemplo destas nações, e adopte legislação no sentido de respeitar este imperativo social?
De países como a Irlanda (onde a Igreja Católica assume, historicamente, um peso esmagador) e da Itália (dirigida por Berlusconi, que já de si não é flor que se cheire, e que se vê obrigado a pactuar com a xenófoba e ultramontana Liga Norte, de Bossi, Buttiglione e seus sequazes), pouco há a esperar. Mas a França, a Alemanha, ou as repúblicas progressistas do norte da Europa (Islândia e Finlândia) parecem-me candidatos mais naturais.
Enquanto a História não segue o seu curso, para desgosto de muitos, deixo-vos com a bandeira do Massachusetts, castiça como poucas, à laia de ilustração. (Retirada daqui.)
TRIO DE COISAS BOAS:
«Fomos até ao Conde Redondo, entrámos numa leitaria qualquer, e eu paguei-lhe um copo de cacau e um bolo de arroz.»
(José Rodrigues Miguéis, in "Uma Carreira Cortada", extraído do livro "Léah e outras histórias", Editorial Estampa, 1997.)
Três coisas boas numa só frase, a saber:
1) O Conde Redondo;
2) Um copo de cacau;
3) Um bolo de arroz.
Os pontos 2) e 3) dispensam explicações, parece-me. A Rua do Conde Redondo é uma artéria lisboeta muito do meu grado, por diversas razões. Pela sua natureza íngreme (sem exageros à la Barata Salgueiro), pelo carácter nem excessivamente cosmopolita nem declaradamente popular, e por me parecer um cenário apropriado para instalar estabelecimentos de comércio e serviços cujos assalariados são aliciados por sinistros indivíduos, em nome de organizações clandestinas de poder desmedido, que laboram na sombra para minar a sociedade civil tal como a conhecemos.
quarta-feira, julho 20, 2005
TRÊS PALAVRINHAS APENAS:
Adeus, Quartzo. Obrigado.
(Resolvi passar a ser sintético aquando da morte dos blogs que eram importantes para mim. O risco de derramar as minhas reservas de cabotinismo sentimentalão justificaria um alerta vermelho.)
OS DIAMANTES SÃO ETERNOS:
«(...)This Jack, joke, poor potsherd, patch, matchwood»
(Gerard Manley Hopkins, "That Nature is a Heraclitean Fire and of the comfort of the Resurrection")
Por vezes, aquilo que se resgata a uma vida que soçobrou, e que se julga digno de ser submetido ao escrutínio dos humanos, merece mais desprezo do que a sua própria caricatura, do que a sua eventual repetição em comédia buffa.
Não escondas, aniquila; não cales, renega-te; não abdiques, muda-te em sombra.
segunda-feira, julho 18, 2005
LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Aqui há dias, na linha verde do metropolitano, avistei uma jovem que lia uma biografia de Gamal Abdel Nasser, escrita em língua inglesa.
Por vezes, os guardiões da verosimilhança descuram a sua vigilância por uns momentos, e o resultado está à vista.
BLOGS ON A HOT TIN ROOF: O Nocturno com Gatos é um blog sobre diversíssimas coisas, com epígrafe de Salvatore Quasimodo, e abundância de motivos de interesse. A Arca da Jade é um blog sobre gatos, como o nome não indica, como o denunciam as deliciosas imagens de homenagem à espécie felina. Confusos? Não há motivo para tal. Vão lá e leiam.
GANHE VOCÊ TAMBÉM: Eu vou mudar todas as minhas poupanças, aplicações financeiras e cabedais vários para o BPI.
Um banco que logra convencer o Mourinho a barbear-se merece-me total e cega confiança.
Pouco me interessam taxas de juro e demais detalhes mesquinhos. Os operadores de milagres estão acima de tais chafurdices. A fé não se explica.
quinta-feira, julho 14, 2005
Vermalung (Grau), 1975«Também a cor, qualquer que tenha sido a escolha, é para Richter apenas um material, um tipo de ferramenta, que permite à realidade - e só a ela - tornar-se quadro. Não obstante, o cinzento tem um lugar especial no conjunto da sua obra; não só de uma perspectiva histórica, evolucionista, não só quantitativa, como também e especialmente qualitativa, porque já contém em si mesma, enquanto "cor" ou mesmo "não-cor", algo da indiferença que Richter pretende e espera alcançar.» (Johannes Cladders, a propósito de Gerhard Richter, 1975)
LEITURAS: Na página 84 do romance "Pode um desejo imenso", de Frederico Lourenço, lê-se o seguinte:
«A quarta década da sua vida não estava a começar mal.»
Como a personagem a que se refere a frase (Nuno Galvão, professor, especialista em Camões e melómano) acaba de cumprir 40 anos, existe aqui um erro óbvio: é a quinta década da sua vida que ele enceta, e não a quarta.
Mas como criticar tais picuinhices num livro que, ao fim de uma mancheia de páginas, nos brindou com termos como "charlusianismo" e "itifálico"?
A LIBERDADE GUIANDO O POVO:
Porque acredito convictamente em valores que a Revolução Francesa ajudou a veicular (Liberdade, Igualdade e Fraternidade, igualmente importantes, complementares entre si, valores basilares de qualquer sociedade decente, hoje como em 1789);
porque este dia simboliza a França, o país com o qual sinto maiores afinidades (como alguns leitores já terão percebido);
porque é precisa uma pantagruélica dose de fantasia e engenharia argumentativa para negar que, durante muitas décadas, nomeadamente no século XIX, a Revolução foi o farol de milhares de homens e mulheres que pugnaram pela liberdade contra a tirania, pela constituição contra a arbitrariedade dos estados, pela emancipação intelectual contra a censura;
porque não partilho do cepticismo de um Georges Brassens ("Mourir pour des idées, l'idée est excellente/Moi j'ai failli mourir de ne l'avoir pas eu/Car tous ceux qui l'avaient, multitude accablante/En hurlant à la mort me sont tombés dessus"), uma vez que são as ideias, por vezes, que engendram a felicidade dos povos, se bem que nem sempre pelo caminho mais directo;
o 14 de Julho será sempre um dia muito especial para mim.
terça-feira, julho 12, 2005
A MORTE DE UM ESCRITOR: Fiquei contente por deparar com esta evocação justíssima do romancista francês Claude Simon, recentemente falecido. Recordo, dos romances que dele li (há já um rorzito de anos), uma prosa complexa e densa, convoluída pelo peso da história, moderadamente obcecada pelo tempo mas não subjugada à ilusória linearidade deste.
Estranhei sempre que o prémio Nobel lhe tivesse sido atribuído, em vez de, por exemplo, Alain Robbe-Grillet ou Nathalie Sarraute, escolhas que teriam sido mais óbvias e, atrevo-me a alvitrar, mais populares. Talvez isso se tenha devido ao facto de Simon introduzir de forma mais explícita o elemento humano na sua obra.
Conto-me entre aqueles que pensam que a ficção contemporânea teria ainda muito a aprender com o nouveau roman.
(NOTA: Stendhal era outro que se (auto?)definia como escritor sem imaginação. Os seus enredos eram, na maioria dos casos, decalcados de episódios verídicos e faits-divers. A fronteira entre a crónica e a ficção esbatida, e redesenhada com o ímpeto de quem ama e odeia com igual intensidade.)
SE SEI PORQUE É QUE PERGUNTO?: Há quem fantasie com a possibilidade de, um dia, dirigir uma pergunta a Deus. Que teria de ser uma Pergunta para acabar com todas as perguntas, pois a solenidade da situação não se compadeceria com interpelações mesquinhas.
Mais modesto nos meus propósitos, escassamente interessado em tais banquetes de transcendência, eu contentar-me-ia em dirigir uma pergunta a Vasco Pulido Valente.
E a pergunta seria a seguinte:
«Existe debaixo do Sol, ou mesmo em paragens mais longínquas da galáxia, alguma coisa, seja personalidade pública, instituição, esforço ou ideia, que mereça um bocadinho mais do que o cepticismo agoirento, o descrédito e o azedume misantrópico que o Sr. imprime sistematicamente às suas crónicas?»
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