DOMINGO SABE DE COR O QUE VAI DIZER SEGUNDA-FEIRA (*): No sábado, fui almoçar a um restaurante zen. (Bastante bom, por sinal. Na Av. Barbosa du Bocage, para quem estiver interessado. Nº 107-C. O "C" é muito importante.) Dois dias depois deste momento zen alimentar, esperava-me o meu momento zen espiritual das segundas-feiras (nas palavras do
Diário Ateísta), sob a forma de crónica do Prof. João César das Neves.
João César das Neves é um dos mais lídimos representantes da escola do terrorismo argumentativo: ao prodigalizar as falácias e vícios de raciocínio, que se encavalitam uns nos outros com uma densidade sufocante, o seu discurso induz no leitor desprevenido um efeito semelhante ao choque provocado por um engenho explosivo. Na impossibilidade de refutar, uma a uma, tão caudalosa torrente de inépcias, o infeliz pode convencer-se a aceitar,
en bloc, a abstrusa argumentação nevesiana, apenas para evitar incorrer em colapso mental.
A crónica
"A Liberdade que mata a Liberdade" é disto um portentoso exemplo, com o interesse acrescido de constituir uma espécie de sequela da lendária "Glória feminina" (quem se lembra deste momento histórico?). Tal como é típico da grande literatura, as crónicas nevesianas enriquecem-se à distância, comunicam entre si por meio de uma fascinante rede de ecos e ressonâncias.
Limito-me a escolher alguns dos momentos mais representativos desta crónica. Os comentários, mais do que a minha opinião pessoal, dita-os o simples bom senso.
«A família é aquele campo em que, tolamente, a sociedade moderna preconiza uma liberdade radical, sem limites.»
Falso. Nem sequer como caricatura funciona. Ninguém, na sociedade moderna, preconiza uma "liberdade sem limites". Aquilo para que se tem caminhado é para um enquadramento de situações muito concretas que - bem entendido - entram em conflito com as susceptibilidades de JCN e da sua clique.
«Precisamente no aspecto humano mais influente e na área onde, historicamente, mais hábitos e prescrições vigoraram, defende-se hoje, em maciças campanhas mediáticas, o libertarismo mais absoluto.»
A referência às "maciças campanhas mediáticas" é o primeiro indício da obsessão persecutória de que JCN, pelos vistos, não consegue livrar-se.
Ao contrário daquilo que JCN procura fazer passar, a época contemporânea caracteriza-se por uma intensa actividade legislatória em torno quer da família, quer dos delitos de índole sexual. Nunca, como hoje, foram punidos e repudiados de forma tão convicta os crimes de pedofilia. Nunca as violações mereceram condenação judicial e moral tão forte. Contrastando com o cenário de "libertarismo absoluto", vigora hoje um quadro judicial que contempla ou tende a contemplar, de forma bastante exaustiva, um largo leque de situações associadas ao estabelecimento de agregados familiares. Sucede é que muitas dessas situações (uniões de facto, uniões e adopção entre homossexuais, divórcio) têm o dom de pôr fora de si o Prof. César das Neves, para quem elas não mereceriam qualquer enquadramento legal, mas apenas o desdém de quem sabe estar do Lado Certo.
«Enfraqueceu-se o matrimónio pelo divórcio e as uniões de facto.»
Segundo JCN, seria preferível fazer perdurar artificialmente matrimónios virtualmente desfeitos por incompatibilidade dos cônjuges, e deixar na clandestinidade situações de união que, independentemente de o quadro legal existir ou não, continuariam a verificar-se.
«Mas no campo sexual a única regra admissível é fazer-se o que se quer, sem ninguém ter nada com isso.»
Esta visão absolutista nada tem a ver com a realidade, com a legislação vigente e com as mentalidades predominantes.
«Os idosos são esquecidos em vida nos lares e apressados na morte pela eutanásia. Estas são hoje propostas políticas defendidas furiosamente em nome da liberdade.»
Confundir a eutanásia com um estratagema para livrar a sociedade dos seus idosos é demasiado grotesco para que eu acredite estar JCN a falar a sério. Provavelmente, tratou-se aqui de uma tentativa mal sucedida de lançar uma pequena facécia.
«A mulher é sempre a grande sacrificada. Vivemos no tempo que mais a agride, despreza e oprime.»
É inacreditável que se possa defender seriamente tal coisa. Provavelmente, JCN acha que a mulher estava mais eficazmente defendida quando não podia deixar o país sem autorização do marido, quando não podia votar, nem seguir uma educação superior, nem mesmo (recuando algumas décadas, não tantas quanto isso) aprender a ler e escrever. JCN considera sem dúvida que as mulheres levavam uma vida mais fácil e digna nos tempos em que as únicas alternativas que se lhes abriam eram o casamento, o convento ou uma vida de solteirona exposta às aleatoriedades de uma condição financeira precária. Não me custa acreditar que, no entendimento de JCN, a idade de ouro da condição feminina se situe uns bons séculos antes do mais pernicioso acontecimento para a humanidade desde que Adão disse para Eva "Olha, filha, era muito sumarenta". Refiro-me, obviamente, à invenção e popularização da pílula.
«O feminismo radical é paralelo ao marxismo, que destruiu a condição dos trabalhadores em nome da defesa dos seus interesses.»
Fico a saber que o marxismo destruiu a condição dos trabalhadores. Não sabia. Ainda bem que fiquei a saber, porque gosto muito de ficar a saber coisas novas.
«Objectivamente, a nossa cultura de ambição, violência e competição é, em múltiplos aspectos, diametralmente oposta aos valores femininos. A mulher foi influente em épocas que preferiam a honra ao sucesso, a estabilidade ao progresso, a beleza à eficácia, a tradição à novidade.»
Que épocas? Como é apanágio daqueles que têm o hábito de torcer os factos para os harmonizar com as suas patuscas mundividências , JCN engendra mitos que confunde com a realidade histórica. Claramente, JCN nega à mulher a capacidade e o interesse de se afirmar neste nosso mundo iníquo, que privilegia o sucesso e a eficácia. Segundo esta ordem de ideias, uma ministra ou uma presidente de conselho de administração estão, sem o saber, a atentar contra a dignidade da condição feminina.
«Temos meninas de escola a aclamar uma atitude tradicionalmente preconizada por marialvas e chauvinistas.»
Obviamente, JCN nunca pestanejaria enquanto tal atitude se confinasse ao género masculino, porque afinal, convenha-se, está na natureza do homem andar atrás do mulherio. A partir do momento em que as mulheres reivindicam o direito a um papel mais activo do que a submissão tímida e modesta, o caldo entorna-se. Temos dissipação. E todas as mulheres que, subitamente, vêem abrir-se horizontes de que as gerações anteriores nem suspeitavam estão, ao ceder à tentação de explorar relacionamentos fora do sacramento matrimonial, a cair em atroz engodo. Está-se mesmo a ver. Pobres meninas da escola. Caminham para a sua perdição espiritual com um sorriso dançando nos lábios.
«A "mulher desinibida" é a realização do sonho mais machista de Casanova e Don Juan, em nome da paradoxal "libertação da mulher".»
Aquilo que está certo é os casanovas deste mundo espalharem a sua semente com a cumplicidade transiente de donas-de-casa virtuosas, apanhadas num instante de desculpável fraqueza, prontamente remível com a ajuda do confessor solícito. Assim, sim. Tudo o resto é perversão.
E a verdadeira libertação da mulher, para JCN, tem de passar pela abdicação de qualquer veleidade concupiscente. "Livre" de paixões e de aspirações a algo mais do que a beatitude doméstica, de preferência numa das tais épocas em que se preferia a beleza à eficácia, ela realizar-se-á por completo, com ou sem discreta música de flauta e harpas a acompanhar.
«Recusa-se já a existência de atitudes típicas de cada sexo. Vive-se a própria negação da identidade feminina, exaltando homens efeminados e mulheres másculas.»
Nisto é também JCN useiro e vezeiro: confundir tolerância com promoção de determinados comportamentos. Tudo o que soe a cedência às (aliás legítimas) reivindicações das orientações sexuais minoritárias equivale, para JCN, a uma apologia entusiástica da sodomia.
«Estas questões estraçalham hoje a sociedade espanhola, corroem a cultura holandesa, incendeiam os estados norte-americanos.»
Ignorava que a sociedade espanhola estivesse estraçalhada (ao contrário, presumo, do que sucedia no tempo de Franco, com tudo nos seus lugarzinhos), a cultura holandesa corroída, os estados norte-americanos incendiados... Decididamente, aprendo muita coisa nova com o bom Professor!
Mais palavras para quê? João César das Neves, se não anda na boca de toda a gente, pelo menos transforma a nossa vida em algo de mais aprazível, e traz-nos o elemento zen que escasseia nos nossos grisalhos quotidianos. À falta da sensatez e da penetração, louve-se esse seu serviço público hebdomadário.
(*) Jorge Palma