quinta-feira, outubro 20, 2005

A SUA ZONA JÁ TEM UM INTELECTUAL?: Chegou-me às mãos o primeiro número de uma revistazita de divulgação da actividade cultural e comercial da área das Avenidas Novas (Lisboa). Logo na página 4, anuncia-se um Ciclo de Cinema e Cultura ao Pequeno-Almoço, com arranque previsto para dia 15 de Outubro. Nesse dia, de acordo com o programa, "Intelectual da zona faz um comentário sobre cinema". Ignoro o que seja um intelectual da zona, mas a expressão sugere-me algo de manhoso e mais do que vagamente ilícito, a meio caminho entre "dealer" e simples pária tolerado. Declaro que valeu a pena ter folheado esta publicação, quanto mais não seja pela entrevista a Gérard Castello Lopes, a propósito da tertúlia do "Vá-Vá" (Fernando Lopes, Paulo Rocha, José Fonseca e Costa, João César Monteiro, Seixas Santos...). Morei, durante dois anos e meio, a cerca de três minutos a pé do "Vá-Vá" (sem contar os tempos de espera nos semáforos), sem nunca lá ter posto os pés. É por estas e por outras que sinto por vezes vontade de escrever "Cinéfilo preguiçoso" nos meus cartões de visita.
O REPUBLICANO QUE HÁ DENTRO DE CADA UM NÓS ÀS VEZES PÕE-SE A ESPERNEAR!: É algo que faz bem ao coração, constatar como é o dilatado o número de personalidades, de tão notável gabarito, que, de repente, se descobriram convictos adeptos do reforço dos poderes presidenciais, e de um semi-presidencialismo com tendência para largar o "semi", como se de um atavio incómo se tratasse, demasiado abafado para os tempos de tórrida crise que se avizinham. Com o aproximar do momento em que o povo soberano, nos moldes consagrados pela Constituição, elegerá o magistrado supremo da República, por sufrágio directo e universal, existe como que um entusiasmo renovado em torno da figura do presidente, e um vivo e são desejo de consolidar as suas competências. E não me venham agora uns quantos maledicentes insinuar que este afã, consubstanciado em numerosos artigos de opinião recentes, se deve unicamente ao calculismo interesseiro e oportunista de quem já antecipa um resultado favorável para as eleições, e que, deste modo, cederia ao pecadilho de preconizar soluções concretas e ad hominem sem parecer deixar o plano abstracto. Não! Nós acreditamos que este frémito traduz um sentimento genuíno, expresso de maneira espontânea, longinquamente apadrinhado por Gambetta, Afonso Costa, e, porque não, Montesquieu!

quarta-feira, outubro 19, 2005

A (MAGRA) COLHEITA DA FESTA DO CINEMA FRANCÊS: Este ano não vi mais do que três filmes... Este ano vi apenas três filmes... Não vi mais do que... Foram apenas três os filmes que... Não foram mais de três... Na Festa do Cinema Francês deste ano... Foram apenas em número de três... Fiquei-me por três filmes... A minha contabilidade pessoal... Ficou-se pelos três filmes... Fiquei-me por apenas três filmes, na Festa do Cinema Francês deste ano. Tão somítica colheita ter-se-á devido ao menor interesse (na minha humilde opinião) da selecção deste ano, quando comparada com anos passados, mas também, inevitavelmente, aos habituais constrangimentos de tempo e ânimo. Um factor adicional de desencorajamento foi a marcação de grande parte das sessões do programa lisboeta para o Instituto Franco-Português, cujo auditório, de dimensões reduzidas, não me parece minimamente capacitado para receber este tipo de iniciativa; acrescente-se ainda a isto tudo um horário absurdo (a última sessão, das 21h30, começava apenas duas horas após o início da anterior, fomentando a confusão e aglomerações entre um filme e o seguinte, e inviabilizando as pausas prandiais que não são despiciendas para a fruição cinéfila). Falando dos filmes que vi, o balanço pode fazer-se recorrendo somente a três substantivos: revelação, desilusão e confirmação. Pela revelação foi responsável Lucile Hadzihalilovic, ex-assistente de Gaspar Noé (o realizador de "Irréversible"), que assina com "Innocence", inspirado numa obra de Wedekind, uma intrigante primeira longa-metragem. Passado quase integralmente numa misteriosa escola de meninas, pautada por complexos rituais e por uma autarcia quase absoluta, este filme impressiona pela maneira como manipula uma simbologia directa e forte, assumindo-se deliberadamente como metáfora, mas sem se deixar cristalizar nesse estatuto, antes mantendo a porta aberta a uma multiplicidade de leituras. Uma realizadora a seguir. Com "Les Mots Bleus", Alain Corneau demonstra eloquentemente os riscos a que se expõe um realizador cujo principal talento se resume a adaptar, com a inspiração do momento, e um quanto baste de sensibilidade e bom gosto, obras literárias pré-existentes. Depois de um magnífico "Tous les Matins du Monde" e de um muito conseguido "Stupeur et Tremblements", Corneau assinou agora uma obra medíocre, sem o respaldo literário de Pascal Quignard ou Amélie Nothomb (desconheço por completo Dominique Mainard, em cujo livro de baseou o argumento de "Les Mots Bleus"). Esquemas psicologistas estafados, com desfecho previsível e pleno de pathos pré-fabricado, são, aqui, o prato forte, e o cabotinismo de Sergi Lopez ajuda sobremaneira à indigestão. Nem Sylvie Testud (uma das minhas actrizes francesas favoritas, pelo menos desde "La Captive" de Chantal Akerman) salva este filme, que parece querer demonstrar que a exibição das fragilidades humanas, devidamente lastradas pelos inevitáveis traumatismos de infância, chegam para compor uma obra artística válida. Sem o conseguir minimamente. Sobre o sumptuoso "Rois et Reine", de Arnaud Desplechin, pouco escreverei agora, por duas razões: porque se trata de um filme que não se presta a que sobre ele se escreva em cima do acontecimento (demasiado complexo, demasiado original, demasiado desconcertante), e porque a sua estreia está anunciada para breve pela Atalanta, o que me permitirá a ele voltar numa ocasião oportuna, quando mais pessoas o tiverem apreciado. Limito-me a dizer que Arnaud Desplechin reafirma, de forma inequívoca, o seu estatuto de cineasta mais empolgante e inventivo da sua geração. É sempre algo de maravilhoso, quando um criador cuja obra amamos atravessa uma fase em que ao talento se vem juntar a consciência plena desse mesmo talento, e a vontade de o explorar, sem excluir nem o virtuosismo celebratório nem o sentido da responsabilidade perante a arte que pratica. Creio que é precisamente nesse ponto que se encontra Desplechin.

terça-feira, outubro 18, 2005

PERGUNTAS SOBRE VIENA À ESPERA DE RESPOSTA (9/10): Na loja do museu Albertina, estava à venda uma caneca com uma imagem representando um famoso auto-retrato de Vincent van Gogh. A caneca possuía a particularidade de a orelha do artista desaparecer quando nela se vertia um líquido quente. Ora bem, a minha pergunta à espera de resposta é a seguinte: Has the world changed or have I changed? (The Smiths) (Nesta mesma linha, aqui, podem igualmente adquirir o St. Sebastian Pin Cushion - "for your favorite martyr".)
POPULISMOS: No seu espaço do jornal "Público" do passado dia 13, Pacheco Pereira enumera os três candidatos às autárquicas que, no seu entender, «fundaram a sua campanha quase exclusivamente num apelo populista sem freios». Os fautores de tamanho despautério são: Fátima Felgueiras, Valentim Loureiro e... Francisco Louçã. O mais decepcionante aqui nem é a falta de discernimento com que este comentador coloca tudo no mesmo saco, aparentemente apostado em testar os limites da credulidade dos seus leitores. Consternante mesmo é verificar que, um pouco mais adiante, PP menciona um "sistema" que teria sido responsável por uma campanha de ataque, dirigida contra Rui Rio, vinda de jornalistas do Porto. Tal "sistema" agregaria «todos os agentes comunicacionais, jornalistas, "artistas", meios da cultura subsidiada, intelectuais, instituições.» Sublinho, nesta curta citação: por um lado a palavra "todos", cujo emprego tem o mérito de deixar bem vincado que ninguém pode reivindicar estar fora deste tenebroso "sistema"; por outro lado, o preciosismo das aspas que envolvem a palavra "artistas", deixando pairar a dúvida sobre quais as individualidades da cultura tripeira (inevitavelmente fervorosos apoiantes de Rio) a quem o qualificativo seria aplicável com uma legitimidade que dispensasse esse sinal de pontuação. Ou seja: poucas linhas depois de condenar os populismos de toda a espécie, PP cede a uma das mais serôdias e repisadas formas desse mesmo populismo, ao evocar o fantasma de uma minoria elitista, composta por intelectuais, pela comunicação social e por asquerosos "artistas" enriquecidos à custa dos ovos de ouro do erário público, todos em flagrante delito de conspiração contra o esforçado candidato (inequivocamente apoiado, depreende-se facilmente, pela "maioria silenciosa", pelo "bom povo" decente e trabalhador, que não pode deixar de nutrir justo rancor e ressentimento pela tribo de bem pensantes que povoa as redacções dos jornais). Por momentos, julguei escutar ecos da diatribe inflamada de Fátima Felgueiras, na noite da vitória eleitoral, contra os comentadores e jornalistas que ousaram opinar contra ela ao arrepio da vontade maciça dos honestos felgueirenses.
LEITURAS: "Le Cousin Pons", de Honoré de Balzac. «Le moment exige que je fasse deux ou trois œuvres capitales qui renversent les faux dieux de cette littérature bâtarde, et qui prouveront que je suis plus jeune, plus frais, et plus grand que jamais» escreveu Balzac, numa carta a Madame Hanska. O momento é 1847, e os "falsos deuses" são, verosimilmente, os autores de folhetins de sucesso como Eugène Sue ("Les Mystères de Paris"). E uma das obras capitais que Balzac se sente compelido a escrever, neste seu crepúsculo de carreira, será "Le Cousin Pons". Poucas terão sido as novidades, de conteúdo ou de forma, que este romance trouxe à "Comédia Humana". Pode-se dizer que "Le Cousin Pons" é a obra de um homem tocado pelo despeito, movido pela urgência de mostrar aos outros e a si mesmo que ainda é capaz das mesmas proezas de antigamente, e de pôr cobro a um período de esterilidade (coincidente com os seus trajectos pela Europa em busca da felicidade conjugal) de uma forma categórica, de preferência não isenta de estrondo e sensação. As traves-mestras de "Le Cousin Pons" tinham já ajudado a sustentar porções importantes do edifício da "Comédia": o arrivismo, a cupidez como sentimento transversal a todos os estratos da sociedade, o coleccionismo, o amor pela Arte como indutor de comportamentos bizarros e potenciadores da desgraça, a linguagem da Lei como armadilha e arma retórica à disposição dos perversos. Balzac actua, sem pudor, como um mestre de cerimónias, que faz intervir os diferentes elementos e personagens com um sentido de oportunidade que, ao mesmo tempo, lhes pertence e serve a narrativa. Como se o próprio autor se perfilasse lado a lado com os facínoras que arquitectam a perdição de Pons e a usurpação da sua herança de quadros valiosos. Pons, velho músico solteirão de fealdade inaudita, doentiamente apaixonado pela sua pinacoteca pessoal, viciado nos prazeres da gastronomia, é uma das mais ricas criações da derradeira fase do período de Balzac. Alma sensível entre empedernidos, o seu trágico fim, neste romance negro em que o Mal triunfa em toda a linha, assemelha-se demasiado a um sacrifício no altar do talento do autor. Raras vezes Balzac terá ido tão longe na sondagem do cinismo humano. A três anos da morte do romancista, a corrupção do seu semelhante afirma-se, em definitivo, como fulcro da sua diabólica máquina romanesca.

sábado, outubro 15, 2005

LEITURAS: No romance "Le Cousin Pons", de Balzac, Schmucke, músico alemão residente em Paris, sofre um cruel desgosto com o falecimento do seu amigo Pons. A única personagem que não alberga dúvidas sobre a sinceridade da dor de Schmucke (designado herdeiro universal por Pons, que era possuidor de uma colecção de arte de valor incalculável) é o mestre de cerimónias das pompas fúnebres: «Le maître des cérémonies regarda Schmucke d'un air de pitié, car cet expert en douleur distinguait bien le vrai du faux(...)»
XADREZ: Tal como se esperava, Veselin Topalov, da Bulgária, sagrou-se campeão do mundo da Federação Internacional de Xadrez (FIDE), ao terminar com um ponto e meio de vantagem sobre os mais directos perseguidores, no torneio realizado em San Luis, Argentina. (Ver aqui, o relato relativo à última jornada, e, aqui, a página oficial do campeonato do mundo.) Topalov culmina assim um ciclo fabuloso de grandes resultados, sagrando-se campeão com todo o merecimento. O seu início foi fulgurante (seis vitórias e um empate). A meio do torneio, a sua performance era sobre-humana. Na segunda metade, Topalov geriu a sua vantagem com inteligência, acumulando os empates. No entanto, é de salientar que Topalov só esporadicamente se permitiu daqueles empates curtos e sensaborões de que abusam tantos grandes-mestres. O seu espírito combativo raramente o abandonou. Acompanharam Topalov no pódio o indiano Vyswanathan Anand e o russo Peter Svidler. Para além destes, o russo Aleksandr Morozevich e o uzbeque Rustam Kasimdzhanov (o ex-campeão agora destronado) podem estar relativamente satisfeitos com a sua actuação. Em contrapartida, o torneio foi um rotundo fracasso para o húngaro Péter Lékó (apontado como um dos grandes favoritos, e que não passou de quinto), para o inglês Michael Adams, e para a húngara Judit Polgár, única mulher presente. A FIDE dispõe agora de um campeão inequívoco e incontestável, que não deixará de apresentar como trunfo em eventuais negociações com o campeão do mundo oficioso (o russo Vladimir Kramnik), com vista a uma reunificação dos títulos. Estou curioso em acompanhar a evolução dos acontecimentos. (Para aqueles que se interessam por estas coisas, ou que sentem nem que seja um grãozinho de curiosidade para saber os extremos de paixão e de retórica que se atingem quando se discute "quem é o verdadeiro campeão do mundo de xadrez", aconselho esta longa linha de comentários no blog de Mig Greengard.)

quinta-feira, outubro 13, 2005

MISSÃO: RECUPERAÇÃO DO TEMPO PERDIDO (2): Goradas que foram as boas intenções de apresentar, um a um, os candidatos ao título de campeão do mundo de xadrez, resta-me anunciar que o búlgaro Veselin Topalov está prestes a levar a melhor sobre os seus adversários, no torneio que decorre em San Luis, Argentina. A duas rondas do final, Topalov dispõe de 1,5 pontos de avanço sobre os perseguidores mais próximos (relembro que, em xadrez, uma vitória vale um ponto, e o empate meio ponto). Tudo ficará decidido nos próximos dois dias. Se Topalov triunfar, como tudo parece indicar, verificar-se-á uma situação curiosa: a Bulgária deterá o monopólio sobre os títulos mundiais de xadrez masculino, feminino e de veteranos.
MISSÃO: RECUPERAÇÃO DO TEMPO PERDIDO (1): O blog Seta Despedida cumpriu 2 anos no passado dia 25. Quanto representam 2 anos em anos de blog? Pelo menos uns 100 ou 200, estimo eu, atendendo à enorme quantidade daqueles que entregaram a virtual alma ao criador em menos de um périplo terrestre. E, com efeito, estes últimos 2 anos parecem-me ter contido várias vidas.
MISSÃO: RECUPERAÇÃO DO TEMPO PERDIDO (0): No decurso desta paragem, que motivos imprevistos prolongaram para lá do inicialmente esperado, houve vários acontecimentos que foram passados em claro. Tentaremos repescar alguns daqueles a que o colectivo, na sua imensa sabedoria (aqui no 1bsk pratica-se a democracia directa), atribuiu pertinência e importância mais graúdas. É forte a tentação de parafrasear Yourcenar: O Tempo, esse grande Estafermo.
GENEALOGIA: Este blog equivale a um (desnecessário) cruzamento entre o (meio) minuto de silêncio de Anna Karina, Sami Frey e Claude Brasseur em "Bande à Part", de Godard, e o grito de Michael Lonsdale em "India Song", de Duras.

quinta-feira, setembro 15, 2005

MEDO DO ESCURO: Não daquilo que se esconde no escuro. Do escuro.
NEM MENSAGEM NEM GARRAFA: Este blog aproxima-se cada vez mais do seu espírito original: absolutamente nada para dizer, e a embaraçosa necessidade de reunir um punhado de testemunhas para constatar isso mesmo.
IDEIA PARA UM CONTO: Lançar para o mundo personagens que, para além do T2 partilhado em Queluz e do apetite fortuito pelo teatro amador, sejam prodigiosos produtores de literatura, por vezes fantástica, por vezes virtual, quase sempre supérflua. (Dotá-los de meios de locomoção, de sentido gregário e de um pudor que ninguém acredite não ser simulado.)

quarta-feira, setembro 14, 2005

XADREZ: Vai ter lugar, entre os dias 27 de Setembro e 16 de Outubro, o campeonato mundial de xadrez, em San Luis, na Argentina. Espero, ao longo dos próximos dias, ir fazendo apresentações dos 8 grandes-mestres que disputarão a coroa mundial neste torneio. Para já, impõe-se uma breve contextualização do panorama actual do xadrez mundial, sem o qual o leitor menos informado não terá possibilidades de compreender a relevância deste acontecimento. Desde 1993 que o título mundial de xadrez se encontra cindido em dois. Nessa data, Garry Kasparov e Nigel Short optaram por romper com a FIDE (Federação Internacional de Xadrez, que atribuía o título desde os anos 40), e por disputar o seu encontro relativo à final do campeonato do mundo sob a égide de uma outra organização criada para o efeito. A partir de então, têm coexistido dois títulos mundiais: o oficial, sob a responsabilidade da FIDE, e o oficioso, que tem vindo a ser organizado por diversas entidades, e é directamente herdeiro desse encontro Kasparov-Short. A comunidade escaquística tem sido terreno fértil para debates (geralmente tão estéreis quanto repetitivos) sobre quem é o "verdadeiro" campeão do mundo. Os "legitimistas" afirmam que só a FIDE tem o direito de outorgar um título mundial, à falta de outra organização com um mínimo de solidez; aceitar o contrário seria regressar aos tempos da arbitrariedade total, em que o campeão do mundo era o proprietário do título, e, basicamente, só o punha em jogo quando e nas condições que lhe apetecesse. Do outro lado da barricada estão aqueles que defendem ser o título oficioso (ou "clássico") aquele que melhor respeita a tradição e a verdade desportiva, porque representa a continuidade relativamente ao historial de campeões que teve início com Wilhelm Steinitz, em 1886; afirmam também que a FIDE, ao mudar por completo os moldes em que o campeonato do mundo é disputado, lhe retirou credibilidade. Como se compreenderá, esta situação lamentável tem contribuído para transmitir uma imagem pouco lisonjeira da modalidade, o que, segundo muitos comentadores, tem dificultado a sua evolução enquanto actividade profissional, nomeadamente ao nível da obtenção de patrocínios. A primeira tentativa consistente de reunificação, o chamado "acordo de Praga", abortou quando o encontro previsto entre Garry Kasparov e Rustan Kasimdzhanov (actual campeão FIDE), após vários adiamentos, foi finalmente cancelado. (A integração de Kasparov neste processo, diga-se a talhe de foice, tinha representado uma profunda injustiça e um grosseiro privilégio, justificável apenas pelo prestígio, peso mediático e influência negocial da personagem. Kasparov, entretanto, anunciou o abandono completo da modalidade, no princípio deste ano.) Decidida a retomar o domínio da situação, a FIDE anunciou um torneio para a atribuição do título mundial, integrando o actual campeão e 7 outros jogadores. Tanto Kasparov como Vladimir Kramnik (actual campeão do mundo oficioso) declinaram o convite, sendo substituídos por outros dois grandes-mestres. Ao contrário do que sucedeu com outros anúncios da FIDE, tudo indica que este se irá concretizar. O vencedor do torneio de San Luis não será o campeão unificado. Porém, é de prever que Kramnik, sem o peso nem a fama de Kasparov, e fragilizado por uma série de fracas actuações em torneios recentes, verá a credibilidade do seu título muito afectada. Tudo dependerá, a meu ver, da prontidão com que colocar o seu próprio título em jogo, e da capacidade demonstrada pela Association of Chess Professionals, que o apoia. Mas chega de política. Esperemos pelo xadrez, e que este seja de puríssimo quilate, capaz de planar bem acima do nível rasteiro das querelas humanas.

segunda-feira, setembro 12, 2005

O SEU A SEU DONO: Celebrar-se-á, dentro de poucos meses, o centenário da lei que, em França, determinou a separação entre Igreja e Estado. Neste blog, daremos o devido destaque a este momento decisivo da história contemporânea. Em 2 de Dezembro de 1905, lia-se, no jornal católico "La Croix": «La loi veut faire de notre pays une exception unique et monstrueuse, inconnue de l'histoire, inconnue de la géographie: un pays sans Dieu.» Paradoxalmente (desde que se substitua "país" por "Estado"), até subscrevo estas palavras, a cem anos de distância. Mas em tom de exaltação, e não de consternação. É por estas e outras excepcionalidades que sou francófilo, e que o sou também retroactivamente.
ANÚNCIOS DE GATO PERDIDO INVENTADOS (12):
Perdeu-se lindo gato,
ó passantes,
ficai sabendo que esse lindo gato sou eu que vos escrevo
em rectângulos A4, à míngua de arauto garboso
que proclamasse o meu sonoro drama
!
Perdi-me do meu dono,
esse que uma espiritualidade mal dirigida
e o consumo compulsivo de Xanax transformaram
numa sombra daquilo que foi.
Os nossos afectos eram como laços,
como laços levou-os um zéfiro falso e cálido,
assistido por esse escultor cego, o
tempo.
Erro por travessas indiferentes
à minha dor.
Perdi-me do meu dono, mas apenas
simbolicamente, pois conheço o caminho para casa,
aliás estou agora junto à soleira,
saciado com o conteúdo de uma lata de sardinhas,
por sinal com molho de tomate picante.
Perdi-o enquanto bússola moral,
dedicado titilador da minha vaidade felina,
intermediário entre a minha insignificância
e o Mundo maiúsculo, bojudo,
pejado de leis e de ícones.
Bocejo, faz-se tarde.
Onde ia eu?
Bem, é um drama, aquilo que eu vivo.
Sem uma figura de dono, um bichano
não passa de um farrapo.
Gato por conta própria: eis coisa que não se admite!
Tende, pois, piedade de mim, passantes!
Dedicai a este felino albípede pelo menos um
dos vossos milhentos pensamentos
efémeros.
Apoiai o meu dono nesta hora ingrata.
À falta do que, definharei.
KAK-40: Leia o 1bsk, um blog que nunca será apanhado em contraciclo com as principais praças financeiras europeias!