terça-feira, outubro 25, 2005

LEITURAS: Nas "Metamorfoses" (livro XIV), Ovídio conta a história da Sibila, que, por ter prestado serviço inestimável a Eneias (ao indicar-lhe a maneira de visitar o reino dos mortos), recebe deste a promessa de um templo e de um tributo de incenso. A Sibila recusa tal oferta, por não possuir estatuto divino. Mas acrescenta (em tom de desabafo amargurado demasiadas vezes reprimido) que poderia ter-se tornado uma deusa, se tivesse feito a Apolo, que outrora a amou, o dom da sua virgindade. Como Apolo lhe concedera qualquer desejo que a Sibila formulasse, ela pediu-lhe que a deixasse viver tantos anos quantos os graus de poeira contidos numa mão cheia. Porém, esqueceu-se de pedir também a eterna juventude, o que a levou a definhar, ao longo dos setecentos anos seguintes, até a um estado de decrepitude humanamente inimaginável. Ainda assim, Apolo ter-lhe-ia concedido que conservasse o viço da juventude, se a Sibila lhe oferecesse o seu amor. Mas esta recusou. Perante Eneias, queixa-se de que virá o tempo em que o seu corpo acabará reduzido a um peso insignificante. O próprio Apolo não mais a reconhecerá, ou então negará alguma vez tê-la amado. Porém, mesmo quando mais ninguém a puder ver, de tão minguada, os destinos deixar-lhe-ão a voz, pela qual continuará a ser recordada. E é este último desejo que me faz acrescentar a Sibila ao meu rol de vozes descorporizadas. (Curiosamente, este episódio não consta da Eneida, se bem que Ovídio seguisse a tradição Virgiliana de forma bastante próxima.)
LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Um jovem lia "A Mãe", de Gorky, enquanto caminhava, absorto, junto ao muro do Museu da Cidade, ao Campo Grande, expondo-se ao risco de tropeçar na cauda multicor de um pavão, também ele multicor. A quem deverei telefonar, caso me cruze com um pavão engripado? Ao Ministério da Saúde? E se for fora do horário de expediente? Nada disto, bem entendido, tem a mais leve relação com Gorky, romancista russo (1868-1936) que é considerado um dos fundadores do realismo soviético.

quinta-feira, outubro 20, 2005

SANTOS E PROSADORES: Graças ao Diário Ateísta, fico a saber que o cardeal Newman vai ser elevado a santo. Associo esta personalidade, antes de tudo o mais, a James Joyce, que tinha em altíssima conta a prosa deste inglês convertido ao catolicismo. Joyce escreveu: «I have read him a great deal... [in 'Oxen'] where all the other authors are parodied, Newman alone is rendered pure, in the grave beauty of his style. Besides, I needed that fulcrum to hold up the rest... The Church will surely decide to make a saint of him, if only for the numerous conversions that have followed in the wake of his own. At least a Blessed, if they don't succeed in finding a miracle.» ("Oxen" refere-se a um dos capítulos de "Ulysses", em que a história da prosa em língua inglesa é percorrida por meio de pastiches, num assombroso tour-de-force.) Assim se vê que, para além de génio, Joyce tinha um pouco de profeta, o que se coaduna com o seu estatuto de exilado crónico. Recomendo vivamente a consulta desta página, onde estão recenseadas algumas das preferências e aversões literárias de Joyce. Há também uma passagem de "A Portrait of the Artist as a Young Man" em que o jovem Stephen Dedalus é forçado a revelar que Newman e Byron são os seus prosadores e poetas favoritos, o que atrai a animosidade de dois colegas seus, admiradores de Tennyson.
A SUA ZONA JÁ TEM UM INTELECTUAL?: Chegou-me às mãos o primeiro número de uma revistazita de divulgação da actividade cultural e comercial da área das Avenidas Novas (Lisboa). Logo na página 4, anuncia-se um Ciclo de Cinema e Cultura ao Pequeno-Almoço, com arranque previsto para dia 15 de Outubro. Nesse dia, de acordo com o programa, "Intelectual da zona faz um comentário sobre cinema". Ignoro o que seja um intelectual da zona, mas a expressão sugere-me algo de manhoso e mais do que vagamente ilícito, a meio caminho entre "dealer" e simples pária tolerado. Declaro que valeu a pena ter folheado esta publicação, quanto mais não seja pela entrevista a Gérard Castello Lopes, a propósito da tertúlia do "Vá-Vá" (Fernando Lopes, Paulo Rocha, José Fonseca e Costa, João César Monteiro, Seixas Santos...). Morei, durante dois anos e meio, a cerca de três minutos a pé do "Vá-Vá" (sem contar os tempos de espera nos semáforos), sem nunca lá ter posto os pés. É por estas e por outras que sinto por vezes vontade de escrever "Cinéfilo preguiçoso" nos meus cartões de visita.
O REPUBLICANO QUE HÁ DENTRO DE CADA UM NÓS ÀS VEZES PÕE-SE A ESPERNEAR!: É algo que faz bem ao coração, constatar como é o dilatado o número de personalidades, de tão notável gabarito, que, de repente, se descobriram convictos adeptos do reforço dos poderes presidenciais, e de um semi-presidencialismo com tendência para largar o "semi", como se de um atavio incómo se tratasse, demasiado abafado para os tempos de tórrida crise que se avizinham. Com o aproximar do momento em que o povo soberano, nos moldes consagrados pela Constituição, elegerá o magistrado supremo da República, por sufrágio directo e universal, existe como que um entusiasmo renovado em torno da figura do presidente, e um vivo e são desejo de consolidar as suas competências. E não me venham agora uns quantos maledicentes insinuar que este afã, consubstanciado em numerosos artigos de opinião recentes, se deve unicamente ao calculismo interesseiro e oportunista de quem já antecipa um resultado favorável para as eleições, e que, deste modo, cederia ao pecadilho de preconizar soluções concretas e ad hominem sem parecer deixar o plano abstracto. Não! Nós acreditamos que este frémito traduz um sentimento genuíno, expresso de maneira espontânea, longinquamente apadrinhado por Gambetta, Afonso Costa, e, porque não, Montesquieu!

quarta-feira, outubro 19, 2005

A (MAGRA) COLHEITA DA FESTA DO CINEMA FRANCÊS: Este ano não vi mais do que três filmes... Este ano vi apenas três filmes... Não vi mais do que... Foram apenas três os filmes que... Não foram mais de três... Na Festa do Cinema Francês deste ano... Foram apenas em número de três... Fiquei-me por três filmes... A minha contabilidade pessoal... Ficou-se pelos três filmes... Fiquei-me por apenas três filmes, na Festa do Cinema Francês deste ano. Tão somítica colheita ter-se-á devido ao menor interesse (na minha humilde opinião) da selecção deste ano, quando comparada com anos passados, mas também, inevitavelmente, aos habituais constrangimentos de tempo e ânimo. Um factor adicional de desencorajamento foi a marcação de grande parte das sessões do programa lisboeta para o Instituto Franco-Português, cujo auditório, de dimensões reduzidas, não me parece minimamente capacitado para receber este tipo de iniciativa; acrescente-se ainda a isto tudo um horário absurdo (a última sessão, das 21h30, começava apenas duas horas após o início da anterior, fomentando a confusão e aglomerações entre um filme e o seguinte, e inviabilizando as pausas prandiais que não são despiciendas para a fruição cinéfila). Falando dos filmes que vi, o balanço pode fazer-se recorrendo somente a três substantivos: revelação, desilusão e confirmação. Pela revelação foi responsável Lucile Hadzihalilovic, ex-assistente de Gaspar Noé (o realizador de "Irréversible"), que assina com "Innocence", inspirado numa obra de Wedekind, uma intrigante primeira longa-metragem. Passado quase integralmente numa misteriosa escola de meninas, pautada por complexos rituais e por uma autarcia quase absoluta, este filme impressiona pela maneira como manipula uma simbologia directa e forte, assumindo-se deliberadamente como metáfora, mas sem se deixar cristalizar nesse estatuto, antes mantendo a porta aberta a uma multiplicidade de leituras. Uma realizadora a seguir. Com "Les Mots Bleus", Alain Corneau demonstra eloquentemente os riscos a que se expõe um realizador cujo principal talento se resume a adaptar, com a inspiração do momento, e um quanto baste de sensibilidade e bom gosto, obras literárias pré-existentes. Depois de um magnífico "Tous les Matins du Monde" e de um muito conseguido "Stupeur et Tremblements", Corneau assinou agora uma obra medíocre, sem o respaldo literário de Pascal Quignard ou Amélie Nothomb (desconheço por completo Dominique Mainard, em cujo livro de baseou o argumento de "Les Mots Bleus"). Esquemas psicologistas estafados, com desfecho previsível e pleno de pathos pré-fabricado, são, aqui, o prato forte, e o cabotinismo de Sergi Lopez ajuda sobremaneira à indigestão. Nem Sylvie Testud (uma das minhas actrizes francesas favoritas, pelo menos desde "La Captive" de Chantal Akerman) salva este filme, que parece querer demonstrar que a exibição das fragilidades humanas, devidamente lastradas pelos inevitáveis traumatismos de infância, chegam para compor uma obra artística válida. Sem o conseguir minimamente. Sobre o sumptuoso "Rois et Reine", de Arnaud Desplechin, pouco escreverei agora, por duas razões: porque se trata de um filme que não se presta a que sobre ele se escreva em cima do acontecimento (demasiado complexo, demasiado original, demasiado desconcertante), e porque a sua estreia está anunciada para breve pela Atalanta, o que me permitirá a ele voltar numa ocasião oportuna, quando mais pessoas o tiverem apreciado. Limito-me a dizer que Arnaud Desplechin reafirma, de forma inequívoca, o seu estatuto de cineasta mais empolgante e inventivo da sua geração. É sempre algo de maravilhoso, quando um criador cuja obra amamos atravessa uma fase em que ao talento se vem juntar a consciência plena desse mesmo talento, e a vontade de o explorar, sem excluir nem o virtuosismo celebratório nem o sentido da responsabilidade perante a arte que pratica. Creio que é precisamente nesse ponto que se encontra Desplechin.

terça-feira, outubro 18, 2005

PERGUNTAS SOBRE VIENA À ESPERA DE RESPOSTA (9/10): Na loja do museu Albertina, estava à venda uma caneca com uma imagem representando um famoso auto-retrato de Vincent van Gogh. A caneca possuía a particularidade de a orelha do artista desaparecer quando nela se vertia um líquido quente. Ora bem, a minha pergunta à espera de resposta é a seguinte: Has the world changed or have I changed? (The Smiths) (Nesta mesma linha, aqui, podem igualmente adquirir o St. Sebastian Pin Cushion - "for your favorite martyr".)
POPULISMOS: No seu espaço do jornal "Público" do passado dia 13, Pacheco Pereira enumera os três candidatos às autárquicas que, no seu entender, «fundaram a sua campanha quase exclusivamente num apelo populista sem freios». Os fautores de tamanho despautério são: Fátima Felgueiras, Valentim Loureiro e... Francisco Louçã. O mais decepcionante aqui nem é a falta de discernimento com que este comentador coloca tudo no mesmo saco, aparentemente apostado em testar os limites da credulidade dos seus leitores. Consternante mesmo é verificar que, um pouco mais adiante, PP menciona um "sistema" que teria sido responsável por uma campanha de ataque, dirigida contra Rui Rio, vinda de jornalistas do Porto. Tal "sistema" agregaria «todos os agentes comunicacionais, jornalistas, "artistas", meios da cultura subsidiada, intelectuais, instituições.» Sublinho, nesta curta citação: por um lado a palavra "todos", cujo emprego tem o mérito de deixar bem vincado que ninguém pode reivindicar estar fora deste tenebroso "sistema"; por outro lado, o preciosismo das aspas que envolvem a palavra "artistas", deixando pairar a dúvida sobre quais as individualidades da cultura tripeira (inevitavelmente fervorosos apoiantes de Rio) a quem o qualificativo seria aplicável com uma legitimidade que dispensasse esse sinal de pontuação. Ou seja: poucas linhas depois de condenar os populismos de toda a espécie, PP cede a uma das mais serôdias e repisadas formas desse mesmo populismo, ao evocar o fantasma de uma minoria elitista, composta por intelectuais, pela comunicação social e por asquerosos "artistas" enriquecidos à custa dos ovos de ouro do erário público, todos em flagrante delito de conspiração contra o esforçado candidato (inequivocamente apoiado, depreende-se facilmente, pela "maioria silenciosa", pelo "bom povo" decente e trabalhador, que não pode deixar de nutrir justo rancor e ressentimento pela tribo de bem pensantes que povoa as redacções dos jornais). Por momentos, julguei escutar ecos da diatribe inflamada de Fátima Felgueiras, na noite da vitória eleitoral, contra os comentadores e jornalistas que ousaram opinar contra ela ao arrepio da vontade maciça dos honestos felgueirenses.
LEITURAS: "Le Cousin Pons", de Honoré de Balzac. «Le moment exige que je fasse deux ou trois œuvres capitales qui renversent les faux dieux de cette littérature bâtarde, et qui prouveront que je suis plus jeune, plus frais, et plus grand que jamais» escreveu Balzac, numa carta a Madame Hanska. O momento é 1847, e os "falsos deuses" são, verosimilmente, os autores de folhetins de sucesso como Eugène Sue ("Les Mystères de Paris"). E uma das obras capitais que Balzac se sente compelido a escrever, neste seu crepúsculo de carreira, será "Le Cousin Pons". Poucas terão sido as novidades, de conteúdo ou de forma, que este romance trouxe à "Comédia Humana". Pode-se dizer que "Le Cousin Pons" é a obra de um homem tocado pelo despeito, movido pela urgência de mostrar aos outros e a si mesmo que ainda é capaz das mesmas proezas de antigamente, e de pôr cobro a um período de esterilidade (coincidente com os seus trajectos pela Europa em busca da felicidade conjugal) de uma forma categórica, de preferência não isenta de estrondo e sensação. As traves-mestras de "Le Cousin Pons" tinham já ajudado a sustentar porções importantes do edifício da "Comédia": o arrivismo, a cupidez como sentimento transversal a todos os estratos da sociedade, o coleccionismo, o amor pela Arte como indutor de comportamentos bizarros e potenciadores da desgraça, a linguagem da Lei como armadilha e arma retórica à disposição dos perversos. Balzac actua, sem pudor, como um mestre de cerimónias, que faz intervir os diferentes elementos e personagens com um sentido de oportunidade que, ao mesmo tempo, lhes pertence e serve a narrativa. Como se o próprio autor se perfilasse lado a lado com os facínoras que arquitectam a perdição de Pons e a usurpação da sua herança de quadros valiosos. Pons, velho músico solteirão de fealdade inaudita, doentiamente apaixonado pela sua pinacoteca pessoal, viciado nos prazeres da gastronomia, é uma das mais ricas criações da derradeira fase do período de Balzac. Alma sensível entre empedernidos, o seu trágico fim, neste romance negro em que o Mal triunfa em toda a linha, assemelha-se demasiado a um sacrifício no altar do talento do autor. Raras vezes Balzac terá ido tão longe na sondagem do cinismo humano. A três anos da morte do romancista, a corrupção do seu semelhante afirma-se, em definitivo, como fulcro da sua diabólica máquina romanesca.

sábado, outubro 15, 2005

LEITURAS: No romance "Le Cousin Pons", de Balzac, Schmucke, músico alemão residente em Paris, sofre um cruel desgosto com o falecimento do seu amigo Pons. A única personagem que não alberga dúvidas sobre a sinceridade da dor de Schmucke (designado herdeiro universal por Pons, que era possuidor de uma colecção de arte de valor incalculável) é o mestre de cerimónias das pompas fúnebres: «Le maître des cérémonies regarda Schmucke d'un air de pitié, car cet expert en douleur distinguait bien le vrai du faux(...)»
XADREZ: Tal como se esperava, Veselin Topalov, da Bulgária, sagrou-se campeão do mundo da Federação Internacional de Xadrez (FIDE), ao terminar com um ponto e meio de vantagem sobre os mais directos perseguidores, no torneio realizado em San Luis, Argentina. (Ver aqui, o relato relativo à última jornada, e, aqui, a página oficial do campeonato do mundo.) Topalov culmina assim um ciclo fabuloso de grandes resultados, sagrando-se campeão com todo o merecimento. O seu início foi fulgurante (seis vitórias e um empate). A meio do torneio, a sua performance era sobre-humana. Na segunda metade, Topalov geriu a sua vantagem com inteligência, acumulando os empates. No entanto, é de salientar que Topalov só esporadicamente se permitiu daqueles empates curtos e sensaborões de que abusam tantos grandes-mestres. O seu espírito combativo raramente o abandonou. Acompanharam Topalov no pódio o indiano Vyswanathan Anand e o russo Peter Svidler. Para além destes, o russo Aleksandr Morozevich e o uzbeque Rustam Kasimdzhanov (o ex-campeão agora destronado) podem estar relativamente satisfeitos com a sua actuação. Em contrapartida, o torneio foi um rotundo fracasso para o húngaro Péter Lékó (apontado como um dos grandes favoritos, e que não passou de quinto), para o inglês Michael Adams, e para a húngara Judit Polgár, única mulher presente. A FIDE dispõe agora de um campeão inequívoco e incontestável, que não deixará de apresentar como trunfo em eventuais negociações com o campeão do mundo oficioso (o russo Vladimir Kramnik), com vista a uma reunificação dos títulos. Estou curioso em acompanhar a evolução dos acontecimentos. (Para aqueles que se interessam por estas coisas, ou que sentem nem que seja um grãozinho de curiosidade para saber os extremos de paixão e de retórica que se atingem quando se discute "quem é o verdadeiro campeão do mundo de xadrez", aconselho esta longa linha de comentários no blog de Mig Greengard.)

quinta-feira, outubro 13, 2005

MISSÃO: RECUPERAÇÃO DO TEMPO PERDIDO (2): Goradas que foram as boas intenções de apresentar, um a um, os candidatos ao título de campeão do mundo de xadrez, resta-me anunciar que o búlgaro Veselin Topalov está prestes a levar a melhor sobre os seus adversários, no torneio que decorre em San Luis, Argentina. A duas rondas do final, Topalov dispõe de 1,5 pontos de avanço sobre os perseguidores mais próximos (relembro que, em xadrez, uma vitória vale um ponto, e o empate meio ponto). Tudo ficará decidido nos próximos dois dias. Se Topalov triunfar, como tudo parece indicar, verificar-se-á uma situação curiosa: a Bulgária deterá o monopólio sobre os títulos mundiais de xadrez masculino, feminino e de veteranos.
MISSÃO: RECUPERAÇÃO DO TEMPO PERDIDO (1): O blog Seta Despedida cumpriu 2 anos no passado dia 25. Quanto representam 2 anos em anos de blog? Pelo menos uns 100 ou 200, estimo eu, atendendo à enorme quantidade daqueles que entregaram a virtual alma ao criador em menos de um périplo terrestre. E, com efeito, estes últimos 2 anos parecem-me ter contido várias vidas.
MISSÃO: RECUPERAÇÃO DO TEMPO PERDIDO (0): No decurso desta paragem, que motivos imprevistos prolongaram para lá do inicialmente esperado, houve vários acontecimentos que foram passados em claro. Tentaremos repescar alguns daqueles a que o colectivo, na sua imensa sabedoria (aqui no 1bsk pratica-se a democracia directa), atribuiu pertinência e importância mais graúdas. É forte a tentação de parafrasear Yourcenar: O Tempo, esse grande Estafermo.
GENEALOGIA: Este blog equivale a um (desnecessário) cruzamento entre o (meio) minuto de silêncio de Anna Karina, Sami Frey e Claude Brasseur em "Bande à Part", de Godard, e o grito de Michael Lonsdale em "India Song", de Duras.

quinta-feira, setembro 15, 2005

MEDO DO ESCURO: Não daquilo que se esconde no escuro. Do escuro.
NEM MENSAGEM NEM GARRAFA: Este blog aproxima-se cada vez mais do seu espírito original: absolutamente nada para dizer, e a embaraçosa necessidade de reunir um punhado de testemunhas para constatar isso mesmo.
IDEIA PARA UM CONTO: Lançar para o mundo personagens que, para além do T2 partilhado em Queluz e do apetite fortuito pelo teatro amador, sejam prodigiosos produtores de literatura, por vezes fantástica, por vezes virtual, quase sempre supérflua. (Dotá-los de meios de locomoção, de sentido gregário e de um pudor que ninguém acredite não ser simulado.)

quarta-feira, setembro 14, 2005

XADREZ: Vai ter lugar, entre os dias 27 de Setembro e 16 de Outubro, o campeonato mundial de xadrez, em San Luis, na Argentina. Espero, ao longo dos próximos dias, ir fazendo apresentações dos 8 grandes-mestres que disputarão a coroa mundial neste torneio. Para já, impõe-se uma breve contextualização do panorama actual do xadrez mundial, sem o qual o leitor menos informado não terá possibilidades de compreender a relevância deste acontecimento. Desde 1993 que o título mundial de xadrez se encontra cindido em dois. Nessa data, Garry Kasparov e Nigel Short optaram por romper com a FIDE (Federação Internacional de Xadrez, que atribuía o título desde os anos 40), e por disputar o seu encontro relativo à final do campeonato do mundo sob a égide de uma outra organização criada para o efeito. A partir de então, têm coexistido dois títulos mundiais: o oficial, sob a responsabilidade da FIDE, e o oficioso, que tem vindo a ser organizado por diversas entidades, e é directamente herdeiro desse encontro Kasparov-Short. A comunidade escaquística tem sido terreno fértil para debates (geralmente tão estéreis quanto repetitivos) sobre quem é o "verdadeiro" campeão do mundo. Os "legitimistas" afirmam que só a FIDE tem o direito de outorgar um título mundial, à falta de outra organização com um mínimo de solidez; aceitar o contrário seria regressar aos tempos da arbitrariedade total, em que o campeão do mundo era o proprietário do título, e, basicamente, só o punha em jogo quando e nas condições que lhe apetecesse. Do outro lado da barricada estão aqueles que defendem ser o título oficioso (ou "clássico") aquele que melhor respeita a tradição e a verdade desportiva, porque representa a continuidade relativamente ao historial de campeões que teve início com Wilhelm Steinitz, em 1886; afirmam também que a FIDE, ao mudar por completo os moldes em que o campeonato do mundo é disputado, lhe retirou credibilidade. Como se compreenderá, esta situação lamentável tem contribuído para transmitir uma imagem pouco lisonjeira da modalidade, o que, segundo muitos comentadores, tem dificultado a sua evolução enquanto actividade profissional, nomeadamente ao nível da obtenção de patrocínios. A primeira tentativa consistente de reunificação, o chamado "acordo de Praga", abortou quando o encontro previsto entre Garry Kasparov e Rustan Kasimdzhanov (actual campeão FIDE), após vários adiamentos, foi finalmente cancelado. (A integração de Kasparov neste processo, diga-se a talhe de foice, tinha representado uma profunda injustiça e um grosseiro privilégio, justificável apenas pelo prestígio, peso mediático e influência negocial da personagem. Kasparov, entretanto, anunciou o abandono completo da modalidade, no princípio deste ano.) Decidida a retomar o domínio da situação, a FIDE anunciou um torneio para a atribuição do título mundial, integrando o actual campeão e 7 outros jogadores. Tanto Kasparov como Vladimir Kramnik (actual campeão do mundo oficioso) declinaram o convite, sendo substituídos por outros dois grandes-mestres. Ao contrário do que sucedeu com outros anúncios da FIDE, tudo indica que este se irá concretizar. O vencedor do torneio de San Luis não será o campeão unificado. Porém, é de prever que Kramnik, sem o peso nem a fama de Kasparov, e fragilizado por uma série de fracas actuações em torneios recentes, verá a credibilidade do seu título muito afectada. Tudo dependerá, a meu ver, da prontidão com que colocar o seu próprio título em jogo, e da capacidade demonstrada pela Association of Chess Professionals, que o apoia. Mas chega de política. Esperemos pelo xadrez, e que este seja de puríssimo quilate, capaz de planar bem acima do nível rasteiro das querelas humanas.

segunda-feira, setembro 12, 2005

O SEU A SEU DONO: Celebrar-se-á, dentro de poucos meses, o centenário da lei que, em França, determinou a separação entre Igreja e Estado. Neste blog, daremos o devido destaque a este momento decisivo da história contemporânea. Em 2 de Dezembro de 1905, lia-se, no jornal católico "La Croix": «La loi veut faire de notre pays une exception unique et monstrueuse, inconnue de l'histoire, inconnue de la géographie: un pays sans Dieu.» Paradoxalmente (desde que se substitua "país" por "Estado"), até subscrevo estas palavras, a cem anos de distância. Mas em tom de exaltação, e não de consternação. É por estas e outras excepcionalidades que sou francófilo, e que o sou também retroactivamente.
ANÚNCIOS DE GATO PERDIDO INVENTADOS (12):
Perdeu-se lindo gato,
ó passantes,
ficai sabendo que esse lindo gato sou eu que vos escrevo
em rectângulos A4, à míngua de arauto garboso
que proclamasse o meu sonoro drama
!
Perdi-me do meu dono,
esse que uma espiritualidade mal dirigida
e o consumo compulsivo de Xanax transformaram
numa sombra daquilo que foi.
Os nossos afectos eram como laços,
como laços levou-os um zéfiro falso e cálido,
assistido por esse escultor cego, o
tempo.
Erro por travessas indiferentes
à minha dor.
Perdi-me do meu dono, mas apenas
simbolicamente, pois conheço o caminho para casa,
aliás estou agora junto à soleira,
saciado com o conteúdo de uma lata de sardinhas,
por sinal com molho de tomate picante.
Perdi-o enquanto bússola moral,
dedicado titilador da minha vaidade felina,
intermediário entre a minha insignificância
e o Mundo maiúsculo, bojudo,
pejado de leis e de ícones.
Bocejo, faz-se tarde.
Onde ia eu?
Bem, é um drama, aquilo que eu vivo.
Sem uma figura de dono, um bichano
não passa de um farrapo.
Gato por conta própria: eis coisa que não se admite!
Tende, pois, piedade de mim, passantes!
Dedicai a este felino albípede pelo menos um
dos vossos milhentos pensamentos
efémeros.
Apoiai o meu dono nesta hora ingrata.
À falta do que, definharei.
KAK-40: Leia o 1bsk, um blog que nunca será apanhado em contraciclo com as principais praças financeiras europeias!
LATIN'AMÉRICA: A Mostra de Cinema da América Latina já tem um site. Ainda não me debrucei com um pouco de calma sobre a programação. Entre os realizadores, não há nenhum nome que eu conheça. Espero vir a falar novamente sobre esta iniciativa. As hostilidades abrem na próxima quinta-feira.

quinta-feira, setembro 08, 2005

UM ENIGMA EM CAMADAS: Acalorados protestos de honestos pasteleiros indignados por verem reprimida a sua veia de críticos musicais... Uma prestigiada empresa de confeitaria em profunda crise... Manifestações de consumidores frustrados dispostos a tudo... E se a verdade por detrás deste caso tão delicado fosse muito mais profunda e sinistra do que parecem sugerir as aparências? A quem aproveita a instabilidade social? E se... (Atenção, trata-se apenas de suposições, meros feixes de conjecturas lançados à atmosfera ventosa de um fim de verão.) E se tamanho rebuliço se destinasse a esconder uma situação cem vezes mais embaraçosa? Terão algum fundo de verdade os rumores segundo os quais a fábrica de chocolates Mirabell encerra o segredo mais bem guardado da história da música ocidental? Poucos eruditos o admitem, com medo de serem ridicularizados pelos seus pares... Porém, à boca fechada, reconhece-se serem cada vez mais sólidos os indícios segundo os quais a grande maioria das obras atribuídas a Wolfgang Amadeus Mozart terão sido compostas pela irmã, Nannerl. Para citar apenas um exemplo, a ópera "Così Fan Tutte" chamava-se originalmente "Così Fan Tutti" (o que vem na linha, aliás, desta sugestão do Dissoluto Punito). A esse libelo dirigido por Nannerl contra a inconstância masculina, contudo, Wolfgang, com a cumplicidade do amigalhaço Lorenzo Da Ponte, aplicou uma simples mudança de género, tendo-a apresentado como obra sua, valendo-se da credibilidade que lhe grangeara a sua reputação de criança-prodígio. No seu leito de morte, instigado pelo remorso, e pelo inevitável visitante misterioso, Wolfgang acabou por redigir uma confissão. Guardada num baú pertencente ao seu último senhorio, e esquecido durante décadas, este documento foi encontrado por fim por Paul Fürst, um modesto confeiteiro de Salzburgo. Reconhecendo imediatamente a importância e gravidade da sua descoberta, Fürst dispôs-se a revelá-la, mas as reacções de choque e indignação persuadiram-no a adoptar um perfil mais discreto. Para financiar as suas investigações (com o fim de dar mais solidez aos argumentos favoráveis à sua tese), fundou a sua casa de chocolates, a Mirabell, e inventou a especialidade que lhe trouxe fama: uma bola de maçapão envolvida numa camada de praline e numa camada exterior de chocolate. O sucesso extraordinário desta guloseima subverteu as prioridades de Fürst: de melómano com uma missão, transformou-se num industrial preocupado apenas com a expansão do seu negócio. O segredo foi sendo transmitido através das gerações, e transformando-se num risco para a prosperidade de um negócio sólido e dinâmico. Por mais ciosos que fossem da inviolabilidade do segredo, os proprietários da Mirabell não conseguiram impedir por completo as fugas (que, diga-se o que disser, não são exclusivas da Procuradoria Geral da República Portuguesa). O segredo da autoria das obras de Mozart é, cada vez mais, um segredo de polichinelo. Mas os últimos a admiti-lo serão os que se recusam a admitir que fundaram um império chocolateiro sobre a supressão da verdade histórica. Será que esta instabilidade social súbita não passa de poeira para os olhos, tentativa de adiar o momento em que toda a verdade virá à superfície? Mas tudo isto, como eu digo, não passam de conjecturas... Assim como não passa de um rumor, isso que se diz por aí, de que, por detrás desta onda de revisionismo na história da música, se encontram grupos económicos poderosos, cuja face visível ao grande público são os licores Nannerl... Disponíveis em todas as lojas de recordações de Viena.
UM ESTUDO EM PÚRPURA: Nunca fui tão sincero neste blog como quando omiti a adjectivação associável à voz de Michael Lonsdale no filme "India Song".
PERGUNTAS SOBRE VIENA À ESPERA DE RESPOSTA (8/10): Uma sex-shop num aeroporto e uma montra com propaganda anti-aborto extremamente gráfica chegam para que se possa empregar a expressão "cidade de contradições"?
AGENDA: Os cinéfilos, nomeadamente os da região de Lisboa, não terão mãos a medir nos próximos tempos! Se não, vejamos.
  • De 15 a 24 de Setembro, Mostra de Cinema da América Latina, no Fórum Lisboa.

  • De 24 a 27 de Setembro, o Programa Designmatography IV, na Culturgest, com selecções das obras de quatro realizadores de cinema experimental norte-americanos: Morgan Fisher, Thom Andersen, Bruce Conner e Owen Land.
  • De 6 a 16 de Outubro, a sempre muito esperada Festa do Cinema Francês, no Fórum Lisboa (com extensões a outras cidades do país).
  • De 15 a 23 de Outubro, o festival DocLisboa, na Culturgest.

Tanto quanto pude descobrir, nem a Mostra de Cinema da América Latina nem a Festa do Cinema Francês têm programa ou site disponível na Internet, pelo menos para já. Limito-me, assim, a remeter para a página da EGEAC, que geria o Fórum Lisboa até à pouco. A propósito, espero ardentemente que os recentes quiproquós em torno desta empresa municipal não ponham em causa a realização destas (e de outras) iniciativas! Cruzemos os nossos dedos cinéfilos, e invoquemos São Carl Theodor, Santo Andrei...

ISTO ANDA TUDO LIGADO: Esta era a divisa dos tempos idos do 1bsk. E continua a sê-lo, embora de maneira latente. A falha transversal que recorta Lisboa, do zénite às catacumbas, dá-se bem com uma condição de semi-clandestinidade. Adoptamos a famosa táctica do grande republicano Léon Gambetta: Y penser toujours, n'en parler jamais! Acreditar nas causas e consequências que ligam as coisas, as pessoas, os factos, as leis, as paixões. Flutuar nas torrentes de ternura e desespero que essa crença segrega.

terça-feira, setembro 06, 2005

CINEMA: "De Battre Mon Cœur S'Est Arrêté", de Jacques Audiard. Atendendo à sua delicada premissa nuclear (um semi-rufia amoral, com apetite pelas conquistas amorosas, que decide reinvestir tempo na sua antiga paixão pelo piano), não mais do que duas bóias de salvação se ofereciam a este filme: ou glosar com derisão e distância o tema do "duro com talento", que aflora as teclas com mãos feridas por lacerações de refregas várias, ou então elevá-lo a um expoente máximo de violência expressionista, dinamitando, ao mesmo tempo, a verosimilhança e o sentimentalismo. Audiard, assim como o co-argumentista Tonino Benacquista, evitam ambas estas alternativas. Ao longo de todo o filme, parecem hesitar entre uma compaixão pudica pela personagem de Thomas e uma dimensão trágica que, francamente, nunca logra deixar para trás o seu lastro de lugares comuns. Pior ainda: com demasiada frequência, todo o esforço criativo que subjaz ao filme parece subordinado ao mero conflito entre as realidades imiscíveis da brutalidade física e da sensibilidade artística; e a abdicação que isto representa (como se um filme se movesse apenas à força de sucessivos e abruptos conflitos entre naturezas contrárias) é tanto mais frustrante quanto deixa por explorar numerosíssimas ocasiões potencialmente propiciadoras de intensidade dramática. O que de melhor tem "De Battre Mon Cœur S'Est Arrêté", para além do confronto entre filho e pai (espantoso, subtil Niels Arestrup), dessa cumplicidade ressentida, entre ternura e feroz indiferença, é, sem dúvida, o magnetismo que se desprende da personagem principal: Thomas Seyr, ex-virtuoso, convertido em elemento de um triúnviro de agentes imobiliários despidos de escrúpulos. A interpretação de Romain Duris (um actor ao qual, até ao momento, eu estaria longe de atribuir talento ao nível dos melhores da sua geração) é, a todos os títulos, notável. Dei por mim a desejar que o filme tivesse sabido acompanhar aquele histrionismo controlado, todo ele impulsos e arestas, aquela inconstante mistura de extroversão e de recalcamento; numa palavra, aquele corpo. Corpo ora falho de jeito, ríspido e incongruente, ora milimetricamente controlado. Na linha de Belmondo ou de Delon, Duris supera a dicotomia superficialidade/profundidade, compondo um "duro" cujo impacto visual imediato e insolente (eficazmente suscitado pela câmara de Audiard) sugere oceanos de conflito íntimo. Pudesse o filme ter feito jus a esta sublime dimensão corpórea da personagem, poupando-nos a certas desastradas guinadas do argumento e às "histoires de cul" enfadonhas, e teríamos algo um pouco mais próximo de uma obra-prima do que de um "polar" medíocre e rotineiro. (Evitei, propositadamente, falar sobre a maravilhosa Emmanuelle Devos, que tem um papel menor, e a quem espero dedicar post separado.)

domingo, setembro 04, 2005

BLOGAVANTE, MARCHE!: O Rui, que co-protagonizou uma aventura mineralógica ainda de fresca e grata memória, entrou como novo inquilino neste espaço, de onde nos passará a enviar notícias sobre fundo negro e sob título beckettiano. Nestes trilhos, já conhecidos, as bermas passam a conter novos motivos de interesse para encher as medidas ao peregrino. Se isto não é uma esplêndida notícia, então façam o favor de me mostrar uma esplêndida notícia, para eu aprender o que é.
PERGUNTAS SOBRE VIENA À ESPERA DE RESPOSTA (7/10): Como explicar a extraordinária profusão de cadernos Moleskine nas montras dos estabelecimentos de papelaria (e não só) vienenses? Admiração ou afinidade de todo um povo para com o escritor Bruce Chatwin, frenético consumidor destes blocos de notas (a acreditar na lenda que se apregoa)? Necessidade, partilhada por um generoso quinhão dos cidadãos, de apontar por escrito factos do quotidiano, pensamentos, inspirações fugidias, etc., para os quais a memória de curto prazo não se afigura suficiente? Política comercial agressiva da empresa fabricante? Ou uma quarta razão, ainda mais inverosímil, menos vulnerável às especulações do turista ocasional?
"JOURS LE JOUR" (5 E FIM): São estas as palavras finais do livro de Michelle Grangaud: «Le temps qui passe, le tank y passe, le sang qui tape, que sent-il passe, le temps qui sape, le tas qui pense, lent petit sac, que scie la tempe, lente qui passe, pâle temps kiss, kiss tend le pas. Car aujourd'hui n'est pas fini. Demain, après-demain, l'année prochaine ou dans mille ans, il y aura quelqu'un, ou du moins quelque chose, pour être encore aujourd'hui.
FOR USE AND DOSAGE IN THE ABSENCE OF DATA»
Este tributo final ao deíctico "hoje" encapsula a essência da obra: uma manifestação de discreta euforia pela capacidade indestrutível de se referir a um "agora", a um "este dia" que pressupõe a existência de um referencial temporal. Como se triunfar sobre a tirania do tempo passasse, não por projectar a soma dos anseios humanos num limbo intemporal, mas sim, bem pelo contrário, por abraçar com sofreguidão o decurso do tempo, conviver com a finitude e com ela dialogar por meio dos gestos e frases do quotidiano; ou seja, inscrever a vida, com deliberação, paixão e lucidez, no sulco moroso da cronologia. Contando sempre com o mais precioso garante da existência, e do devir de onde brotam tanto o amor como o desgosto: o poder de dizer "HOJE". A morte da eternidade. Parece ser isto que prefigura "Jours les Jour".

quinta-feira, setembro 01, 2005

"JOURS LE JOUR"(4): Ainda outro extracto do livro de Michelle Grangaud: «Il ne voulait pas me croire quand je lui ai dit qu'il existe à Paris une rue Lucien-Leuwen. Une rue qui porterait le nom d'un personnage de roman, impossible, dit-il. Je l'ai emmené, nous avions le temps.» Com efeito, existe em Paris (XXème arrondissement) uma rua baptizada em honra da personagem principal do romance de Stendhal. E, o que mais é, não é este um caso solitário em matéria de artérias parisienses com nomes de personagens ou títulos de romances, de peças de teatro ou de poemas. O precioso "Histoire et Mémoire du Nom des Rues de Paris", de Alfred Fierro, assinala: uma rue Monte Cristo (XXème arrondissement), uma villa Jocelyn (homenagem a um poema de Lamartine, XVIème arrondissement), uma rue d'Artagnan (XIIème arrondissement), e uma place de l'Assommoir (esta não consegui localizar na planta), próxima do local onde Émile Zola situa a acção do seu ciclo romanesco dos "Rougon-Macquart". Até onde o meu conhecimento alcança, não existe nenhuma rua de Lisboa que preste tributo explicitamente a uma personagem ou obra literária (com excepção da rua dos Lusíadas), o que é, deveras, uma lástima. À atenção das comissões de toponímia: uma Rua do Conselheiro Acácio, uma Praceta de Mofina Mendes, quiçá um Largo da Sibila, seriam como outras tantas luzidias cerejas no topo do bolo da urbe alfacinha!
TODO O MUNDO É COMPOSTO DE MUDANÇA, REMIX DO DJ DELGADO: Luís Delgado recalcou durante demasiado tempo a sua vocação de áugure: eis que ela ressurge com uma pujança que nos recorda os seus melhores dias! O DJ Delgado começa por nos revelar que «sendo o Poder efémero, passageiro, e inexistente, a nível de um Executivo, mesmo que apoiado numa maioria absoluta (que não é mais do que relativa...), como aliás se tem visto, aqui e noutros países, é sensato começar a olhar para as alternativas, construí-las, e fazer reaparecer os políticos que marcarão o nosso futuro.» Repare-se na delicada contenção com que as reticências encerram toda uma sabedoria inacessível ao não iniciado, perante a qual seria uma grotesca falta de sensatez e decoro ousar perguntar por que razão a maioria absoluta do governo PS não é mais do que relativa. O DJ Delgado prossegue o recital com a enumeração (que se pressupõe não exaustiva) de todos os temíveis escolhos que, inevitavelmente, farão soçobrar a caravela governativa, no decorrer de um ano de 2006 que se antevê "depressivo, tenso, irritante e inquietante". Sem desejar competir com Delgado no que toca à capacidade de síntese, contento-me em remeter para o texto original. À falta de clarividência, a prosa delgadiana possui sobre os oráculos délficos uma linearidade denotativa que a torna compreensível para a proverbial criança de cinco anos. Para rematar, para demonstrar que é mais do que um cronista "bota-abaixo", para provar que não é feito da mesma massa do que os demais artesãos da opinião que se limitam a maldizer sem apontar vias alternativas, o nosso esforçado DJ revela o nome do messias que está destinado a resgatar a nação ao mais tenebroso marasmo: «Querem um nome de futuro, credível, carismático e com capacidade de liderança? Nuno Morais Sarmento. E há mais, muitos mais, que já deram provas e reaparecerão, mais dia menos dia...» Delgado presta assim um inestimável serviço a todos os portugueses: ao sugerir que estamos reduzidos a esperar que alguém como Morais Sarmento ressurja, no esplendor do seu carisma, para assumir o leme da nação, mostra-nos a verdadeira profundidade do fosso em que nos encontramos. (Quanto aos "mais, muitos mais" que pedem meças a Sarmento em matéria de carisma e valor, a quem se poderá Delgado estar a referir? Eu aposto em Fernandes Thomaz e em Martins da Cruz.)

quarta-feira, agosto 31, 2005

VERSOS PORQUE EM FORMA DE LÁBIOS ABERTOS: Mais uma instância de boca descorporalizada, depois deste, e à espera de outros que, à maneira do gato da Alice, se dignem recortar o ar no futuro. Ternos amantes! Vós competis com o violino e com timbales competem os boçais. Mas como eu não podeis fazer? Ser todo lábios, sem pesado corpo? (Vladimir Mayakovsky, extraído do poema "A Nuvem de Calças". Tradução de Manuel de Seabra. Da antologia "Poetas Russos", Relógio d'Água, 1995.)
CASTANHO POR FORA, MAS NÃO VERDE POR DENTRO: Finalmente, uma das minhas perguntas sobre Viena à espera de resposta obteve resposta! A sugestão, avançada pelo Digitalis, de que a ausência do interior verde nos bombons Mozart se deveria à incúria dos confeiteiros, demasiado ávidos de delícias melómanas para se demorarem na escolha de pistáchios devidamente coloridos, parece-me perfeitamente plausível! E atrevo-me até a alvitrar uma variante: a falta de zelo na confecção dos fabulosos bombons teve como origem directa uma acalorada discussão sobre qual das versões do "Don Giovanni" leva a palma sobre todas as outras. Enquanto se discute música, as delicadas minudências da gastronomia passam para plano secundário.

segunda-feira, agosto 29, 2005

PERGUNTAS SOBRE VIENA À ESPERA DE RESPOSTA (6/10): Como é que possível que uma das obras-primas da pintura universal esteja exposta num museu instalado numa academia de Belas-Artes (a Akademie der Bildenden Künste), com um funcionário de bilheteira que se encarrega ao mesmo tempo da venda de postais e do bengaleiro, e com casas-de-banho decrépitas e pejadas de graffiti (alguns dos quais, e não dos menos ordinarões, redigidos em português)?

Hieronymus Bosch, Tríptico do Julgamento Final (painel central), 1504-1508

"JOURS LE JOUR"(3): Um dos aspectos que mais me impressiona no livro de Michelle Grangaud é a maneira como, em certas entradas, a autora sabota o assunto que parecia estar a esboçar, abandonando-o em favor de uma deriva, de natureza verbal, conceptual ou híbrida, tudo isto sem o mínimo rumor, sem sombra de fractura ou solução de continuidade. Não sei se terá sido essa a sua intenção, mas este procedimento parece-me emular os processos cognitivos de uma pessoa mergulhada no ruído branco do quotidiano, e de uma atenção solicitada por mensagens, notas mentais, estribilhos, signos e movimentos, numa catadupa incessante que esbate hierarquias e prioridades, oferece enlevos transitórios, prodigaliza sucessivos centros de gravidade para o pensamento. Estamos aqui igualmente longe do pathos de filiação trágica mais ou menos explícita, e desse lirismo quotidiano, que tão prontamente degenera em abjeccionismo ou em detestável irrelevância. Neste limbo, nesta estreita faixa neutra e pudica que "Jours le Jour" habita, forma e conteúdo são fantasmas diáfanos que se acariciam sem nunca romperem nem consumarem. E a melancolia que se desprende, longe de corresponder à nostalgia por uma época ou cidade gratificante e úbere de sentido, tem algo de resignação apaziguada, tem algo até de esperança. Dois extractos: «Petite flaque, cité Blanche. La jeune caissière qui a des lunettes et qui louche un peu (mais gentiment) me demande si c'est bon, le surgelé que j'ai pris. Je ne sais pas, c'est un essai. Elle commente d'un ton de reproche, tout le monde me répond la même chose. Pendant ce temps Couplan, Moudang et Louron forment la Neste d'Aure qui descend du mont Perdu pour se jeter dans la Garonne.» «Villa Brune. Allô, passez-moi la maternité. C'est toujours la même erreur. J'avais eu du mal à m'endormir. Le réveil lumineux affiche l'heure en rouge, un mauvais œil insomniaque, 3 h 55, et les secondes qui défilent, elles ne défilent pas, on dirait plutôt une espèce de palpitation comme si c'était toujours la même seconde qui simplement changeait de forme. Le rêve disait: succession d'instants ou succession d'instantanés? Cherchez la différence. J'espère pouvoir mourir avant d'être tout à fait vieille.»

quinta-feira, agosto 25, 2005

PERGUNTAS SOBRE VIENA À ESPERA DE RESPOSTA (5/10): Os cavalicoques atrelados às caleches que efectuam os passeios turísticos pelas ruas de Viena têm um modo peculiar de repousar: assentam um (e apenas um) dos seus cascos sobre a aresta frontal, como que desejosos de esgravatar no asfalto, ao passo que os restantes cascos ficam assentes normalmente no solo. Posição natural, ou resultado de um treino exaustivo, num país com tradições na arte do ensino hípico? (Nem sequer sei se aquilo são caleches, mas não é essa a pergunta.)
"JOURS LE JOUR"(2): Seguem-se dois excertos do livro, retirados daqui (onde também podem encontrar a tradução para inglês): Tourbillon, passage de l’Aurès. Les bureaux de poste, fermés hier dans toute la France,rouvrent aujourd’hui. On distribue le courrier à La Tronche, La Pomme,La Table, La Chaise, La Flotte, La Châtelaine, La Fermeté, La Force,La Possession, La Veuve, La Morte, La Trinité, La Compote, on reçoit des lettres à Sarcelles Biches Agneaux Bourdon Ver Faucon Cigogne, Autruche Caille Colombes Merles Merle Canari Grives Chatte Mouches Mouettes Mouton Poisson, des cartes postales affluent d’Italie, d’Espagne,de Turquie, de Grèce, ils sont en Islande, en Écosse, en Autriche, au Portugal, au Mexique, en Hongrie, en Charente-Maritime, en Finlande,au Brésil, dans le Vaucluse, au Japon, d’où ils envoient leurs amitiés, combien d’amitiés se sont croisées en route sans se reconnaître, ils partent en Chine, ils partent en Floride, ils retournent en Afrique du Sud, ceux qui ne partent pas ne reçoivent que très peu de courrier, c’est la loi des vases communicants, biscotto salato tradizionale en polonais le déluge se dit potop et s’accommode à merveille avec du vin ou toute autre boisson apéritive. La nuit, Villa Brune. Écoute : triolet, strette, gruppetto, appoggiature, scherzo, arpège,capriccio, roulade, antienne, andante, pizzicato, crescendo, aforzando,staccato, trille, fugue, contrepoint, coda, comptine, blues, partita, cantilène, sérénade, écoute les bruissements du vent.
LEITURAS: Acabei de ler, há já uns mesitos, um livro de uma beleza e inteligência fulgurantes, de que não queria deixar de vos falar. Intitula-se "Jours le Jour", e tem como autora Michelle Grangaud. Grangaud é uma escritora dificilmente classificável, devido à natureza heterogénea da sua obra, mas é comum vê-la citada entre os representantes mais destacados da poesia contemporânea francesa. O seu gosto pelas experimentações linguísticas levou-a, com naturalidade, ao contacto com o grupo OuLiPo ("Ouvroir de Littérature Potentielle"), de que é membro desde 1995. (Sobre o OuLiPo, do qual fizeram parte Raymond Queneau, Georges Perec e Italo Calvino, entre outros, talvez chegue um dia o momento de discorrer com mais demora.) Como transmitir uma ideia da natureza de "Jours le Jour"? Servindo-me de uma metáfora que os quase três anos de blogosfera lusa desgastaram até à medula, poderia sugerir que se assemelha a um blog: textos soltos, entradas individualizadas, um registo diarístico não explicitado, trivialidade cortada por derivas na direcção de algo subitamente mais profundo ou penoso. Abundam as enumerações, as associações de ideias inesperadas, as aliterações, as descrições do quotidiano, os jogos de palavras gratuitos, tudo sobre um fundo de paisagem urbana parisiense, ao mesmo tempo inebriante e desconcertante. As vivências de um narrador (ou de vários, possivelmente) são-nos transmitidas numa primeira pessoa incapaz de polarizar numa identidade um qualquer esboço de enredo ou acção. Os pontos de referência temporais e geográficos aparecem-nos, na sua sistematicidade aparente, como esparsos e contraditórios. Mais do que qualquer experiência pessoal, o verdadeiro tema de "Jours le Jour" parece-me ser a cidade de Paris e a infinidade de encruzilhadas biográficas e mentais que ela propicia, assim como o conflito entre a esfera privada (os sentimentos, as relações, os objectos e preocupações do quotidiano) e a esfera pública (publicidade, transportes, notícias, mobiliário urbano), que engendra numerosas soluções de continuidade quase-narrativa exploradas com uma sobriedade que não exclui algo de afim ao fascínio.
SEMPRE COM O POVO: Ao contrário de certos políticos pusilânimes, que parecem ter medo de se aproximar do povo, e isso, o Umblogsobrekleist está pronto para visitar o Mercado do Bolhão! Não receamos escutar aquilo que a boa e generosa gente deste país tem para nos dizer! Não vivemos no alto de torres de marfim nem no interior de subtis redomas! (Aproveito para exprimir o meu desejo ardente de que as obras no túnel da Avenida de Ceuta respeitem os princípios elementares do Feng Shui. Isto não vem a propósito, mas não me pareceu que merecesse um post separado.)

quarta-feira, agosto 24, 2005

PERGUNTAS SOBRE VIENA À ESPERA DE RESPOSTA (4/10): Os famosos bombons "Mozart Kugeln", ao contrário do que sugere (deveria dizer "promete"?) a respectiva embalagem, não apresentam um recheio verde vivo, algures entre os tons #8CCCCA e #A7D6D5. A pergunta é esta: que é feito do recheio verde? Obstino-me em acreditar em que se trata de algo mais refinado e surpreendente do que um enfadonho caso de publicidade enganosa.
A RELIGIÃO DO LIVRO: Nos últimos tempos, as missas da paróquia de Telheiras têm vindo a ser celebradas no auditório da Biblioteca Municipal Orlando Ribeiro. Prevê-se que esta situação se prolongue até ao final do mês de Novembro, enquanto decorrem obras inadiáveis na igreja paroquial. Como laicista convicto, não posso deixar de torcer o apêndice nasal perante tal situação. Sem embargo, cumpre-me saudar este exemplo de boa vizinhança, e enaltecer a nobreza subjacente a esta disponibilidade, manifestada pelo pelouro da cultura da C.M.L., cuja pugna em prol da saúde espiritual dos seus munícipes, pela amostra junta, não conhece tréguas. Naturalmente, não duvido de que a paróquia de Telheiras saberá retribuir o favor quando a ocasião se apresentar, abrindo as portas da sua igreja para a realização se debates, comunidades de leitores, sessões de iniciação à Internet, ciclos de cinema e lançamentos de livros, sempre que as instalações da Biblioteca sofram um qualquer impedimento.

segunda-feira, agosto 22, 2005

COMO FAZER UM SINO: (A propósito do filme "Andrei Rubliov", de Andrei Tarkovsky.) Procurar um lugar para cavar o buraco para a fundição. Se o lugar não for bom, procurar até encontrar. Se mais ninguém se oferecer, pegar na pá e começar a cavar. É melhor se não se conhecer o segredo, transmitido de boca em boca através das gerações. Procurar argila para o molde. Comprimir a argila entre os dedos para averiguar da sua qualidade. Se a argila não for boa, procurar até encontrar. Sem conhecer o segredo, é melhor. Esperar que o príncipe forneça o cobre necessário, assim como a prata. Se a prata não for suficiente, reclamar mais. Mandar encetar a fundição. Sem conhecer o segredo, é melhor. Esperar que o molde seja quebrado, que o sino arrefeça e que seja erguido, com um difuso sentimento do dever cumprido e uma inquietude suspeita nas pernas. Recusar aparecer como um exemplo de fé. Apenas conta o som da primeira badalada, audível à distância percorrida por um balão artesanal, que se esmaga na planície russa.
O MENINO KLEIST DANÇA?: A minha playlist mental deste Verão:
  • "Sparring Partner", de Paolo Conte (brilhante canção que faz parte da banda sonora do filme "5x2", de François Ozon)
  • "Karma Police", dos Radiohead (do CD "OK Computer")
  • "Take this Waltz", de Leonard Cohen (do CD "I'm Your Man", esse mesmo, o da banana)
  • "The Man Who Sold the World", de David Bowie, mas na versão dos Nirvana ("MTV Unplugged")
  • "A Anita Não É Bonita", de Marco Paulo, em versão germanófona (não perguntem porquê, vá lá, sejam uns queridos, não perguntem...)
PERGUNTAS SOBRE VIENA À ESPERA DE RESPOSTA (3/10): Neste retrato de Lorenzo Lotto (um dos meus pintores preferidos da renascença), a lâmpada acesa (quase invisível, no canto superior direito) será redutível à categoria de efeito estético, ou constituirá um detalhe de alcance psicológico (e francamente dispensável, na opinião indignada de quem redigiu um dos guias do museu Kunsthistorisches)?

Lorenzo Lotto, "Retrato de Jovem sobre Cortina Branca", c. 1508

PERGUNTAS SOBRE VIENA À ESPERA DE RESPOSTA (2/10): Obrigar os visitantes de um museu (o Kunsthistorisches, no caso vertente) a depositar no bengaleiro os sacos e mochilas volumosos, mediante pagamento, mas subtraindo-se a qualquer responsabilidade legal por perdas e danos, será legal, ou mesmo constitucional?
PERGUNTAS SOBRE VIENA À ESPERA DE RESPOSTA (1/10): Que razões (culturais? históricas? sociológicas?) estarão na origem da extraordinária profusão de cães que desfilam pelas ruas de Viena, conduzidos por donos ciosos de proporcionar uma intensa e rica vida social aos seus fiéis companheiros quadrúpedes?

domingo, agosto 07, 2005

KLEIST, MODO HIBERNAÇÃO: Vamos de férias, o que implica alguns dias de silêncio, dias dedicados à meditação e à auto-descoberta, em paragens distantes, rodeado pela agreste natureza. São ocasiões como esta que pedem uma vistosa imagem deixada para fruição dos leitores. Uma paisagem marítima gloriosamente matizada de azuis, ou uma ave de rara plumagem, por exemplo. Mas não tive tempo. Boas férias a todos.

sexta-feira, agosto 05, 2005

A ANATOMIA DO TROCADILHO: Um blogger meu amigo confiou-me, há não muito tempo, uma assombrosa teoria pessoal, segundo a qual o nome do KingKard seria um trocadilho com "Kierkegaard". O nome desse blogger? Calo-o, de modo a não o prejudicar nos elevados círculos onde ele habitualmente se move. É destas iluminações que depende o progresso do Homem, da pedra lascada ao Yahoo! Messenger. Estamos a falar de uma linhagem onde moram Copérnico, Newton, Pasteur, Freud, Sousa Martins...

terça-feira, agosto 02, 2005

CRIATURAS MARINHAS 'R' US: Finou-se mais um blog, o Jaquinzinhos. Nunca fui cliente assíduo deste blog, mas recordá-lo-ei para sempre como aquele onde o enlace aqui para o 1bsk aparecia numa sub-lista intitulada "Golfinhos e toninhas". Eu mais depressa identificaria este nosso blog com um cachalote: antigo, pouco dado a minudências, monótono (praticamente só se fala aqui da vida e obra de Kleist), mas indestrutível.
A MOÇA MAILINDA: Num encontro/entrevista de Carlos Vaz Marques a Maria do Rosário Pedreira, que a SIC-Mulher emitiu recentemente, a conhecida autora e editora manifestou uma indignação e reprovação inesperadamente virulentas contra este verso de Florbela Espanca: «Ser a moça mais linda do povoado» Para MdRP, este verso conteria no seu bojo tudo o que de mau e vicioso a poesia pode reservar, e constituiria o exemplo vivo daquilo que não se pode escrever, por amor à decência. Discordo. Fraco conhecedor da obra espanciana, sempre gostei deste verso. Talvez pela candura ofuscante, que imagino (provavelmente sem razão) que nunca poderia ser em primeiro grau. Talvez pela simplicidade brutal da asserção, inclusivamente ao nível gramatical. Talvez, mais simplesmente, por uma questão de eufonia. A sonoridade deste verso parece-me, a todos os títulos, muito bem conseguida. E agrada-me a palavra "povoado": tem um não sei quê de redondo e cheio, e um travo vetusto que não chega para o banir do vocabulário corrente. (Não se veja neste post uma admissão implícita, por parte do seu autor, de ser espectador da SIC-Mulher. Nada disso! Completamente errado! Não é mesmo nada, nada, nada, nada disso! Com excepção do programa de Carlos Vaz Marques, e da série "Sex and the City", e de algumas outras séries, e de alguns telediscos, e de alguns minutos do programa da Oprah para acompanhar o pequeno-almoço, nunca sigo esse canal. Os meus propósitos na vida são outros, quase todos rectos, elevados e espirituais.)

segunda-feira, agosto 01, 2005

DOS VENTOS TEMPESTUOSOS QUE SOPRAM SOBRE A IMPRENSA ESCRITA: Os diários "O Comércio do Porto" e "A Capital" suspenderam a sua publicação. Do primeiro, penso nunca ter comprado um único exemplar; mas entristece-me, ainda assim, a sua morte. Quanto à "Capital", a relação que com ela mantinha era bem diferente. Sem deixar de endereçar a minha solidariedade aos outros profissionais deste diário (por vezes criticado, quando não achincalhado, de uma maneira que sempre me pareceu exagerada e desproporcionada face aos seus defeitos e virtudes), era a página de xadrez semanal das terças-feiras, da autoria de Luís Santos, que me fazia leitor regular. Durante mais de vinte e cinco anos (julgo não estar a exagerar), Luís Santos manteve este espaço onde divulgava notícias da modalidade, a nível nacional e internacional, e transcrevia e comentava partidas. Esta longevidade, acrescida à elevada qualidade do trabalho produzido, e à fraca implantação da modalidade em Portugal, fizeram deste espaço um exemplo absolutamente notável. Nunca, nos meus contactos com imprensa escrita de outros países ocidentais, deparei com outra ocorrência de uma secção xadrezística regular, de página inteira. É provável que existam outros exemplos, mas não os conheço. (Por sinal, a coluna de xadrez do "Daily Telegraph" acaba de ser suprimida.) Os tempos mudaram. Hoje em dia, os jogos completos dos principais torneios de xadrez mundiais chegam-nos no próprio dia, via Internet, e isto quando não são transmitidos em directo, para gáudio dos fãs. Existem milhares de sites dedicados às notícias do mundo das 64 casas. A globalização também se estendeu aos domínios da deusa Caissa. Mas nada substituirá a sensação de abrir a secção de Desporto da "Capital" à procura do xadrez. E nada apagará as recordações do ano de 1991, desse inebriante torneio de Linares em que o meu ídolo Vassily Ivanchuk triunfou brilhantemente sobre Kasparov e Karpov, reavivando o interesse deste republicano empedernido pelo "jogo dos reis"; nem dos quartos-de-final do torneio de candidatos desse mesmo ano, em que "A Capital", comprada num quiosque de uma vila do litoral alentejano, era a minha única fonte de notícias sobre os desenvolvimentos desse quádruplo choque de titãs. Tenho esperança de que "A Capital" regresse em breve às bancas, e que a página de xadrez de Luís Santos não falte à chamada.
COMO ESCARPAS CONTUDO: Sem menosprezo algum pelos excelentes artistas nacionais representados na exposição "Entre Linhas" (Desenho na Colecção da Fundação Luso-Americana, Culturgest Lisboa, até 25/9), o que mais fortemente me chamou a atenção nela foram as obras do suíço (radicado em Portugal) Michael Biberstein. As suas "aguarelas metafísicas", que evocam aproximações miniaturais a improváveis penhascos, gargantas ou massas nebulosas, possuem um encantamento desolado feito de minúcia e de concisão. O pendor abstractizante que a elas parece presidir pode ser encarado como uma reinvenção, temporalmente remota, da tradição paisagística romântica de Friedrich. Um prolongamento supérfluo, mas também, à sua maneira, urgente. Infelizmente, não consegui aceder na Internet a obras desta série, mas escolhi uma outra que não é totalmente alheia ao espírito destas aguarelas.

(Grey accelerator, 1994)

Ao leitor que desejar conhecer um pouco mais da obra de Biberstein, recomendo que clique aqui ou aqui com o botão esquerdo do seu rato.

Da exposição "Entre Linhas", também apreciei as composições de Pedro Proença, jubilatórias justaposições de significado, conceito e travessura pictórica. Quanto a Helena Almeida e Lourdes Castro, duas artistas que admiro, os trabalhos expostos parecem-me escassamente representativos.

quarta-feira, julho 27, 2005

QUASE EM PORTUGUÊS (*): Há dias, na Antena 1, Carlos Magno disse, a propósito das (previsíveis) candidaturas de Cavaco Silva e Mário Soares às presidenciais, que "quase tudo já foi dito, mas está ainda quase tudo por dizer". Terá sido Carlos Magno quem escreveu, na contracapa do romance "Aparição" (editorial Verbo, colecção Livros RTP, 1971), que "(...)Vergílio Ferreira é um escritor possuído da mais funda problemática frente à existência"? Eu gostaria de ser um blogger possuído de uma funda problemática, ainda que essa problemática não fosse a mais funda. À falta de tão crucial requisito, restam-me os bolos de arroz, as conspirações urbanas e os gatos perdidos, ainda por cima fictícios. (*) Com piscadela de olho a este blog, e pedidos de desculpa pelo abuso.
LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Na linha verde do metropolitano, uma jovem lia "Murphy", a tradução portuguesa do romance de Samuel Beckett, editada pela Assírio & Alvim. Em tempos, desenvolvi uma obsessão duradoura por esta obra (como, aliás, por dois em cada três dos textos em prosa de Beckett). Oh, linha verde, linha verde, que nobilíssimas janelas sobre os hábitos de leitura quotidiana dos portugueses e portuguesas nos escancararás ainda?! Que formosos avistamentos, que empolgantes testemunhos de devoção e hábito literário nos desvendarás neste futuro próximo, ao longo do teu nada sinuoso percurso que liga Telheiras ao Cais do Sodré, com passagem por Campo Grande, Alvalade, Roma, Areeiro, Alameda, Arroios, Anjos, Intendente, Martim Moniz (ex-Socorro), Rossio e Baixa-Chiado?

segunda-feira, julho 25, 2005

...UMA COISA AZUL:

(Marc Chagall, "A Criação do Homem")

VERSOS PORQUE SIM: Anniversaries Day by nomadic day Our anniversaries go by, Dates anchored in an inner sky, To utmost ground, interior clay. It was September blue When I walked with you first, my love, In Roukenglen and Kelvingrove, Inchinnan's beech-wood avenue. That day will still exist Long after I have joined you where Rings radiate the dusty air And bangles bind each powdered wrist. Here comes that day again. What shall I do? Instruct me, dear, Longanimous encourager, Sweet soul in the athletic rain And wife now to the weather. (Douglas Dunn)

domingo, julho 24, 2005

PARA QUANDO UMA REPÚBLICA?: Espanha, Bélgica, Holanda, Massachusetts e Canadá (por ordem de proximidade geográfica) são os estados que já enquadraram legalmente as uniões entre indivíduos do mesmo sexo, e resta aguardar que o efeito dominó se estenda rapidamente às restantes sociedades democráticas (e às não democráticas também, obviamente, se bem que as esperanças sejam exíguas). Porém, surge uma questão: Espanha, Bélgica e Holanda são monarquias; o Massachusetts é um estado federado dos E.U.A.; o Canadá é uma monarquia constitucional, chefiada, no papel, e por uma dessas bizarrias que desafiam a compreensão, pela rainha de Inglaterra Isabel II, pela graça de Deus etcaetera e tal. Quanto mais será preciso esperar para que uma república soberana siga o bom exemplo destas nações, e adopte legislação no sentido de respeitar este imperativo social? De países como a Irlanda (onde a Igreja Católica assume, historicamente, um peso esmagador) e da Itália (dirigida por Berlusconi, que já de si não é flor que se cheire, e que se vê obrigado a pactuar com a xenófoba e ultramontana Liga Norte, de Bossi, Buttiglione e seus sequazes), pouco há a esperar. Mas a França, a Alemanha, ou as repúblicas progressistas do norte da Europa (Islândia e Finlândia) parecem-me candidatos mais naturais. Enquanto a História não segue o seu curso, para desgosto de muitos, deixo-vos com a bandeira do Massachusetts, castiça como poucas, à laia de ilustração. (Retirada daqui.)
TRIO DE COISAS BOAS: «Fomos até ao Conde Redondo, entrámos numa leitaria qualquer, e eu paguei-lhe um copo de cacau e um bolo de arroz.» (José Rodrigues Miguéis, in "Uma Carreira Cortada", extraído do livro "Léah e outras histórias", Editorial Estampa, 1997.) Três coisas boas numa só frase, a saber: 1) O Conde Redondo; 2) Um copo de cacau; 3) Um bolo de arroz. Os pontos 2) e 3) dispensam explicações, parece-me. A Rua do Conde Redondo é uma artéria lisboeta muito do meu grado, por diversas razões. Pela sua natureza íngreme (sem exageros à la Barata Salgueiro), pelo carácter nem excessivamente cosmopolita nem declaradamente popular, e por me parecer um cenário apropriado para instalar estabelecimentos de comércio e serviços cujos assalariados são aliciados por sinistros indivíduos, em nome de organizações clandestinas de poder desmedido, que laboram na sombra para minar a sociedade civil tal como a conhecemos.

quarta-feira, julho 20, 2005

TRÊS PALAVRINHAS APENAS: Adeus, Quartzo. Obrigado. (Resolvi passar a ser sintético aquando da morte dos blogs que eram importantes para mim. O risco de derramar as minhas reservas de cabotinismo sentimentalão justificaria um alerta vermelho.)
PICTÓRICO: Uma paisagem marítima de mestre holandês, de tons sombrios e vociferantes. Raiva por não existir um equivalente verbal para esse mar cor de cinza, gratuitamente feroz. (Angústia, se existisse.)
OS DIAMANTES SÃO ETERNOS: «(...)This Jack, joke, poor potsherd, patch, matchwood» (Gerard Manley Hopkins, "That Nature is a Heraclitean Fire and of the comfort of the Resurrection") Por vezes, aquilo que se resgata a uma vida que soçobrou, e que se julga digno de ser submetido ao escrutínio dos humanos, merece mais desprezo do que a sua própria caricatura, do que a sua eventual repetição em comédia buffa. Não escondas, aniquila; não cales, renega-te; não abdiques, muda-te em sombra.

segunda-feira, julho 18, 2005

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Aqui há dias, na linha verde do metropolitano, avistei uma jovem que lia uma biografia de Gamal Abdel Nasser, escrita em língua inglesa. Por vezes, os guardiões da verosimilhança descuram a sua vigilância por uns momentos, e o resultado está à vista.
BLOGS ON A HOT TIN ROOF: O Nocturno com Gatos é um blog sobre diversíssimas coisas, com epígrafe de Salvatore Quasimodo, e abundância de motivos de interesse. A Arca da Jade é um blog sobre gatos, como o nome não indica, como o denunciam as deliciosas imagens de homenagem à espécie felina. Confusos? Não há motivo para tal. Vão lá e leiam.
GANHE VOCÊ TAMBÉM: Eu vou mudar todas as minhas poupanças, aplicações financeiras e cabedais vários para o BPI. Um banco que logra convencer o Mourinho a barbear-se merece-me total e cega confiança. Pouco me interessam taxas de juro e demais detalhes mesquinhos. Os operadores de milagres estão acima de tais chafurdices. A fé não se explica.

quinta-feira, julho 14, 2005

Vermalung (Grau), 1975
«Também a cor, qualquer que tenha sido a escolha, é para Richter apenas um material, um tipo de ferramenta, que permite à realidade - e só a ela - tornar-se quadro. Não obstante, o cinzento tem um lugar especial no conjunto da sua obra; não só de uma perspectiva histórica, evolucionista, não só quantitativa, como também e especialmente qualitativa, porque já contém em si mesma, enquanto "cor" ou mesmo "não-cor", algo da indiferença que Richter pretende e espera alcançar.» (Johannes Cladders, a propósito de Gerhard Richter, 1975)
LEITURAS: Na página 84 do romance "Pode um desejo imenso", de Frederico Lourenço, lê-se o seguinte: «A quarta década da sua vida não estava a começar mal.» Como a personagem a que se refere a frase (Nuno Galvão, professor, especialista em Camões e melómano) acaba de cumprir 40 anos, existe aqui um erro óbvio: é a quinta década da sua vida que ele enceta, e não a quarta. Mas como criticar tais picuinhices num livro que, ao fim de uma mancheia de páginas, nos brindou com termos como "charlusianismo" e "itifálico"?
A LIBERDADE GUIANDO O POVO: Porque acredito convictamente em valores que a Revolução Francesa ajudou a veicular (Liberdade, Igualdade e Fraternidade, igualmente importantes, complementares entre si, valores basilares de qualquer sociedade decente, hoje como em 1789); porque este dia simboliza a França, o país com o qual sinto maiores afinidades (como alguns leitores já terão percebido); porque é precisa uma pantagruélica dose de fantasia e engenharia argumentativa para negar que, durante muitas décadas, nomeadamente no século XIX, a Revolução foi o farol de milhares de homens e mulheres que pugnaram pela liberdade contra a tirania, pela constituição contra a arbitrariedade dos estados, pela emancipação intelectual contra a censura; porque não partilho do cepticismo de um Georges Brassens ("Mourir pour des idées, l'idée est excellente/Moi j'ai failli mourir de ne l'avoir pas eu/Car tous ceux qui l'avaient, multitude accablante/En hurlant à la mort me sont tombés dessus"), uma vez que são as ideias, por vezes, que engendram a felicidade dos povos, se bem que nem sempre pelo caminho mais directo; o 14 de Julho será sempre um dia muito especial para mim.

terça-feira, julho 12, 2005

A MORTE DE UM ESCRITOR: Fiquei contente por deparar com esta evocação justíssima do romancista francês Claude Simon, recentemente falecido. Recordo, dos romances que dele li (há já um rorzito de anos), uma prosa complexa e densa, convoluída pelo peso da história, moderadamente obcecada pelo tempo mas não subjugada à ilusória linearidade deste. Estranhei sempre que o prémio Nobel lhe tivesse sido atribuído, em vez de, por exemplo, Alain Robbe-Grillet ou Nathalie Sarraute, escolhas que teriam sido mais óbvias e, atrevo-me a alvitrar, mais populares. Talvez isso se tenha devido ao facto de Simon introduzir de forma mais explícita o elemento humano na sua obra. Conto-me entre aqueles que pensam que a ficção contemporânea teria ainda muito a aprender com o nouveau roman. (NOTA: Stendhal era outro que se (auto?)definia como escritor sem imaginação. Os seus enredos eram, na maioria dos casos, decalcados de episódios verídicos e faits-divers. A fronteira entre a crónica e a ficção esbatida, e redesenhada com o ímpeto de quem ama e odeia com igual intensidade.)
SE SEI PORQUE É QUE PERGUNTO?: Há quem fantasie com a possibilidade de, um dia, dirigir uma pergunta a Deus. Que teria de ser uma Pergunta para acabar com todas as perguntas, pois a solenidade da situação não se compadeceria com interpelações mesquinhas. Mais modesto nos meus propósitos, escassamente interessado em tais banquetes de transcendência, eu contentar-me-ia em dirigir uma pergunta a Vasco Pulido Valente. E a pergunta seria a seguinte: «Existe debaixo do Sol, ou mesmo em paragens mais longínquas da galáxia, alguma coisa, seja personalidade pública, instituição, esforço ou ideia, que mereça um bocadinho mais do que o cepticismo agoirento, o descrédito e o azedume misantrópico que o Sr. imprime sistematicamente às suas crónicas?»
VERSOS PORQUE SIM: A TIGRE AUSÊNCIA pro patre et matre Ai que a Tigre a Tigre Ausência, ó amados, devorou tudo deste rosto voltado para vós! A boca apenas pura reza-vos ainda: para que rezeis ainda a fim que a Tigre a Tigre Ausência, ó amados, não devore boca e oração... (Cristina Campo, in "O Passo do Adeus", Tradução de José Tolentino Mendonça)
CONFESSIONALIDADE (2): Uma confissão encenada requer candeias, uma de cada lado da cabeça, e empunhadas pelo próprio. O âmago é descerrado durante um polido momento de silêncio. Como num poema de Cristina Campo, receia-se que a própria boca que revela seja devorada por uma temível ausência de felino selvagem.

segunda-feira, julho 11, 2005

OFERTA E PROCURA: Vi a edição holandesa da revista "Men's Health" à venda na Praça da Liberdade, Porto.

quinta-feira, julho 07, 2005

(Gerhard Richter, "Três irmãs", 1965) «A vida é-nos mediada como convenção, como jogo e norma social. As fotografias são representações breves desta mediação tal como os quadros que eu pinto com base nas fotografias. Por terem sido pintados, deixam de relatar determinada situação e a representação torna-se absurda. Enquanto imagem, têm outro significado, outras informações.» (G.R.)
VERSOS PORQUE, EM LONDRES...: Um poema sobre Londres. A arte, a decência e a dignidade contra o fanatismo obscurantista do terrorismo. Convido os outros bloggers a fazerem o mesmo. Composed upon Westminster Bridge Earth has not anything to show more fair: Dull would he be of soul who could pass by A sight so touching in its majesty: This City now doth like a garment wear The beauty of the morning: silent, bare, Ships, towers, domes, theatres, and temples lie Open unto the fields and to the sky; All bright and glittering in the smokeless air. Never did sun more beautifully steep In his first splendour valley, rock or hill; Ne'er saw I, never felt, a calm so deep! The river glideth at his own sweet will: Dear God! the very houses seem asleep; And all that mighty heart is lying still! (William Wordsworth, 1802)
A LER: O artigo do Ricardo sobre o "politicamente correcto".
QUE É FEITO DO MEU MOMENTO ZEN?: Passei sem momento zen na segunda-feira passada, pois a crónica do Prof. João César das Neves não foi colocada online no "DN" (ou, pelo menos, não no sítio habitual). Felizmente, tive acesso à edição em papel, e pude constatar que a produção nevesiana desta semana versou sobre economia, e não sobre os temas fracturantes da sociedade que tão caros são ao seu temperamento. Quando JCN discorre sobre economia, por vezes dou por mim a concordar com os seus pontos de vista. É em situações como esta que se perdoa a um homem um arrepiozito de inquietação.
LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Um cavalheiro lia "O Céu que Nos Protege", de Paul Bowles. Na linha verde do metropolitano. Uma senhora, esta na linha vermelha, lia "Abóboras em Flor", de Dragoslav Mihajlovic, na edição da Cavalo de Ferro. Ambos sentados. Nada de versão original. Nada de lágrimas de êxtase estético brotando dos respectivos ductos. Nenhum ponto de bónus. (NOTA: Não sei como se insere o c com acento em "Mihajlovic", paciência.)
A RAIVA DA EXPRESSÃO (*): Continua a ser verdade intocável que este blog está fundado no ódio e no ressentimento. Isto é o caso agora como o foi antes e o será. Também e sobretudo quando a prosa é feita de tépidas palavras-madrepérola. Tão bonitas! (*) Francis Ponge

quarta-feira, julho 06, 2005

CONFESSIONALIDADE: A ideia de uma confessionalidade assumidamente construída, ficcionalizada, devendo menos à experiência pessoal do que à idealização do modo como a esfera privada pode verter para a esfera pública, atrai-me sobremaneira. Mais do que atrair-me, sinto-a como fulcral, sem ser capaz de explicar qual o jogo de forças implicado por esse fulcro. Posso pensar nas coisas do seguinte modo: muitos dos meus blogs preferidos são caracterizados por uma componente ficcional muito marcada. Sucede-me não conseguir evitar (é humano) interrogar-me sobre a natureza verídica dos episódios relatados ou aludidos. O mais frequente, porém, é desvalorizar essa questão, admitindo, até ordem em contrário, estar perante uma ficção, ou um processo de ficcionalização da realidade, mais ou menos elaborado, e marcado pela perpétua obrigação de se reinventar quotidianamente. Mas, afinal de contas, quem será mais perverso: aquele que apregoa aos quatro ventos as misérias da sua existência, ou aquele que, avançando mascarado, encena os mecanismos da confissão, como um médico legista que fizesse a autópsia simultânea de todos os episódios de infelicidade na história do Mundo, passados e por ocorrer? Estas questões são pertinentes e dignas de atenção, mas provavelmente acessórias para a felicidade humana. Ninguém pode ser recriminado por deixá-las de lado, quando as preocupações diárias, o corpo ou o clima fornecem chamamentos mais urgentes. Triste folhita seca do Parc Monceau, o teu destino é voltejar sem interrupção, desfasada do ciclo das estações, assim como o meu é o de olhar nos olhos a pessoa que copia quadros de mestres quinhentistas no Louvre, antes que o museu feche. Mas não para lhe dizer alguma coisa, não para lhe falar. Traços insubmissos no papel, garrafa de água dentro da mochila de pano.

terça-feira, julho 05, 2005

SEPARADOS À NASCENÇA?: Têm surgido numerosas especulações sobre a possibilidade de Mahmoud Ahmanidejad, recentemente eleito presidente do Irão, ter tomado parte activa no episódio dos reféns da embaixada dos EUA em Teerão, em 1979. Pessoalmente, as minhas suspeitas são outras. Desconfio que Ahmanidejad se fez passar, algures no fim dos anos 80, pelo realizador Mohsen Makhmalbaf, um embuste que foi imortalizado graças ao filme "Close Up", de Abbas Kiarostami: Verifique o leitor as incontestáveis semelhanças fisionómicas. Depois de ter enganado uma respeitável família, estará o senhor Sabzian agora a enganar toda uma nação?

segunda-feira, julho 04, 2005

CINEMA: "Adriana", de Margarida Gil. As minhas expectativas para este filme não eram muito favoráveis, tendo em conta o único filme da autora que eu conhecia ("Rosa Negra"), que me parecera, na altura, uma obra algo desequilibrada, e um exemplo eloquente de uma realização incapaz de gerir todos os temas que a ambição do argumento fazia irromper em cena. Algumas críticas, lidas a propósito deste seu novo filme, tinham-me levado a recear que Margarida Gil tivesse reincidido nessa falta. Porém, acabei sendo agradavelmente surpreendido. "Adriana" parte de um pressuposto cuja inverosimilhança gritante não deixou de ser apontada por todas as críticas negativas: o patriarca de uma ilha açoriana que, desesperado pela morte da mulher, decreta o fim das fornicações e nascimentos no território. É nesta fase inicial que o filme ameaça seriamente soçobrar sob o peso de uma grotesca improbabilidade que se pressente deliberada, mas cujo freio chega a parecer estar irremediavelmente preso aos dentes de um ridículo galopante. A chegada da jovem Adriana a Lisboa (em busca de "constituir família por métodos naturais") faz, por seu lado, temer um clima de romance de iniciação aos vícios e iniquidades da Grande Cidade (o roubo no aeroporto, o deambular nocturno pelas ruas hostis...) Contudo, rapidamente o filme encontra o seu registo, que não mais abandona. Descrever esse mesmo registo não é tarefa das mais simples. Dir-se-ia um bildungsroman em que as diferentes etapas tivessem sido baralhadas aleatoriamente, em vez de seguir a linearidade consagrada pelos cânones: é inegável que Adriana se encontra mais experiente no fim da sua odisseia por terras do continente, mas o "drôle de chemin" que a conduziu a esse estado é tortuoso, demasiado tortuoso. E para isso muito contribuem as personagens que se vão atravessando no seu caminho: nenhuma delas contraria abertamente a ideia fixa da rapariga insular, mas tão pouco alguma delas se esforça demasiado para a colocar no bom caminho. Em vez disso, arrastam-na para situações de um absurdo vagamente surrealista (a actuação do imitador de Amália Rodrigues, o ferimento provocado pela seta da estátua de São Sebastião). Tais derivas podem aparecer como entraves ao ritmo natural da narrativa, mas fazem parte da própria respiração do filme. Criticá-las como inconsequentes é tanto menos razoável quanto Margarida Gil revela notável talento para transformar essas ramificações colaterais da narrativa em gloriosas vinhetas, plenas de humor e candura visual, para o que muito contribui a presença, frágil mas voluntariosa, de Ana Moreira. Uma das coisas que mais aprecio quando vou ao cinema é o momento (raro, e por isso mais digno de apreço) em que um filme, que parecia destinado a ser alguma coisa de identificável, cotejável, classificável, se revela subitamente como ele próprio, único e serenamente orgulhoso disso. "Adriana" respeita suficientemente os seus espectadores para lhes reclamar tempo para criar o seu próprio espaço, o seu ritmo e a sua maneira, por vezes algo bizarra ou improvável. E, se o faz com sucesso, deve-o em muito aos diálogos (tanto mais conseguidos, parece-me, quanto menos "cinematográficos" são), onde se detecta a mão de Maria Velho da Costa. Mas o principal mérito deve recair inteirinho em Margarida Gil, que nos oferece razões para desejarmos que as oportunidades para levar avante os seus projectos continuem a surgir-lhe.
GRAVIDEZ MISTERIOSA NA BARATA SALGUEIRO: 1) Kleist. 2) Rohmer. 3) Um dos filmes preferidos de Peter Greenaway. Sobejam as razões para ir ver o filme "A Marquesa de O...", amanhã, terça-feira, às 19h, na Cinemateca. Na avenida Barata Salgueiro, onde os sonhos se transformam em realidade. Estações de metro mais próximas: Marquês de Pombal e Avenida. Este filme está integrado no ciclo "Ficções de Filmes", em colaboração com a revista "Ficções", e repete no próximo dia 12.
Gerhard Richter, "Pintura Abstracta" (1990)
«Existe a fotografia, capaz de representar tudo melhor, existe a história da arte, que já há muito revelou tudo, e existem os novos media, o vídeo, a performance, etc., capazes de exprimir tudo de um modo muito mais actual. Por outro lado, existe a vontade - em si mesma uma prova da necessidade da pintura. Todas as crianças pintam de livre vontade. A pintura tem um futuro radioso pela frente. Não acha?» (G.R.)

domingo, julho 03, 2005

DA INDIGNAÇÃO: Não tenho por hábito insultar pessoas que não conheço, mas, por vezes, perante certas cretinices de calibre invulgarmente graúdo, é a custo que mantenho fechados os cordões do meu saco dos impropérios. No "Público" de sábado, o crítico David Lopes Ramos escreve, num artigo relativo a uma viagem à região vinícola de Bordéus: «Como se sabe, e se comprova a cada passo, a simpatia é uma qualidade pouco francesa.». "Como se sabe"? Quem é que sabe? A humanidade em geral? O leitor médio do "Público"? Ou todos aqueles cuja experiência em primeira mão da suposta antipatia francesa se limitou a um empregado de café contrariado por ter de trocar uma nota de 50 euros para pagar uma água Perrier, ou a um polícia interrogado em mau francês ou inglês sofrível sobre o caminho para a Notre-Dame? Vivi durante mais de 3 anos em Paris. Não reivindico, por isso, autoridade especial para me pronunciar sobre o carácter mais ou menos rebarbativo do povo francês. Mas talvez ouse pensar que o meu parecer, nesta matéria, não seja completamente destituído de relevância ou fundamento. Só raramente passei por experiências de acentuada falta de simpatia ou polidez por parte dos nativos. E não só discordo de que a simpatia seja uma qualidade pouco francesa, como me parece estar o forasteiro menos exposto a uma resposta desabrida ou a uma manifestação de rudeza em Paris do que em Londres ou Nova York, por exemplo. (Ou Lisboa, bem entendido.) O que me revolta é a ligeireza de caganita de pombo com que certos plumitivos debitam e ajudam a consolidar estes horrendos memes, com a negligente convicção de estarem a fazer eco de verdades tão universalmente reconhecidas como o carácter elíptico da órbita terrestre. A história da discórdia e da desconfiança mútua entre povos também é feita disto: preconceitos mesquinhos, que reflectem muito mais a pequenez e imbecilidade daqueles que lhes dão periodicamente alento do que qualquer remoto fundo de verdade.
NOVE OU DEZ?: No "Público" do passado sábado, um dos artigos tem por título "10 números para explicar porque é preciso ajudar África". Contudo, os números apresentados são apenas nove. A não ser que o próprio número "10" faça parte da conta dos números que explicam porque é preciso ajudar África. O raciocínio seguido pode ter sido este: o facto de bastarem 10 números para explicar porque é preciso ajudar África é também, por si só, uma justificação para a necessidade de ajudar África. Mas nem por isso os números deixam de ser apenas nove...
ADDING INSULT TO INJURY: Maria José Costa Félix reincide na sua coluna "Outra Porta", na "Xis" desta semana. Mostrando-se briosa adepta daquele princípio que, em inglês, se enuncia como "to add insult to injury" (juntar ao dano o insulto, neste caso insulto à inteligência do leitor), MJCF volta a falar das essências florais de Bach, e de outras charlatanices envolvendo gemas, cristais e cogumelos. MJCF tem razão: uma só crónica não esgota este assunto. A quantidade de resmas A4 que se podem cobrir com este assunto é à medida da credulidade humana, que, como sabemos, é imensa e desprovida de limites. «As doenças físicas reflectem falhas ou alterações ao nível do nosso corpo anímico, através do qual estamos ligados ao cosmos. E é a esse nível que as essências florais actuam. Não o fazem directamente ao nível do físico, mas transmitem-nos uma vibração que, sendo harmoniosa, tem capacidade para corrigir algo que, em nós, esteja perturbado.» Assim começa o artigo desta semana. Mais grave e nefasto do que afirmações manifestamente falsas ou absurdas, só asserções deste jaez, que, devido à indefinição e carácter vago dos conceitos empregues, se esquivam a qualquer tentativa de lhes atribuir valor lógico ou plausibilidade. Mais condenáveis ainda são quando, como é o caso, tanto pelo vocabulário como pelo assunto tratado, se tentam revestir de uma aparência de respeitabilidade científica, que o seu autor não hesita em usurpar. Lendo a badana de um livro recentemente publicado, da autoria de MJCF, fiquei a saber duas coisas: que a senhora foi astróloga, e que foi por duas vezes secretária de estado. Duas condições que - assim o imporiam o bom senso e a ordem natural das coisas - deveriam ser rigorosamente incompatíveis. Neste seu avatar de propagandista das curas naturais e da auto-ajuda "new age", MJCF tem menos possibilidades de causar dano do que num governo constitucional. Valha-nos ao menos isso.

sexta-feira, julho 01, 2005

ANÚNCIOS DE GATO PERDIDO INVENTADOS (11):
Perdeu-se lindo gato,
ou, melhor dizendo,
perdeu-se (o autor destas linhas)
da própria essência de gato que prevalecia para além
da felpuda diversidade de raças,
temperamentos
e fisionomias felinas.
Perdeu-se (perdi)
aquela consciência universal do que é
"UM GATO",
o animal que Adão nomeou com sagacidade
inspirada por Javé,
aquilo, enfim,
que nos une na inamovível certeza
de que um gato é bicho meigo e mamífero,
e que um gato não acasala com okapis nem
pesca à linha.
Perdeu-se o conceito de gato que me prestava
serena e fiel companhia em húmidas tardes
de Novembro com migalhas de biscoito de canela
presas ao pêlo.
Resta-nos a tirania do acidente felino, do bravio e
indomável gato individual.
Esgueira-se por becos, prefere a sombra à luz.
Acaba neste momento de evitar uma motorizada que galgou
o passeio,
na zona das Janelas Verdes.
VERSOS PORQUE SIM: CAFÉ DO MOLHE Perguntavas-me (ou talvez não tenhas sido tu, mas só a ti naquele tempo eu ouvia) porquê a poesia, e não outra coisa qualquer: a filosofia, o futebol, alguma mulher? Eu não sabia que a resposta estava numa certa estrofe de um certo poema de Frei Luis de Léon que Poe (acho que era Poe) conhecia de cor, em castelhano e tudo. Porém se o soubesse de pouco me teria então servido, ou de nada. Porque estavas inclinada de um modo tão perfeito sobre a mesa e o meu coração batia tão infundadamente no teu peito sob a tua blusa acesa que tudo o que soubesse não o saberia. Hoje sei: escrevo contra aquilo de que me lembro, essa tarde parada, por exemplo. (Manuel António Pina, in "Nenhuma Palavra e Nenhuma Lembrança", Assírio & Alvim, 1999)