terça-feira, dezembro 06, 2005

FOI HÁ 100 ANOS: Para além do sorteio do Mundial de futebol, e de uma outra efeméride, o próximo dia 9 ficará marcado pela comemoração do centenário da lei que, em França, instaurou a separação entre Igreja e Estado. Esta data, que, já de si, mereceria ser celebrada como marco na história da liberdade e emancipação política dos estados, ganha renovada ressonância (pelo menos aqui em Portugal)graças à recente "gue-guerra" dos crucifixos: refiro-me, obviamente, à decisão (em perfeita harmonia com a Constituição) de retirar os crucifixos das salas de aula deste país. A respeito desta medida, não têm faltado as previsíveis reacções dos previsíveis sectores, parafraseáveis do seguinte modo: «A laicidade é muito bonita, mas não havia necessidade de ir tão longe.» A maioria dessas reacções não deixou de glosar bafientos e desesperados chavões como o "fanatismo laicista" e o "ataque à religião". Como seria de esperar, João César das Neves (que nós aqui no 1bsk adoptámos como mascote) meteu a sua colherada, na sua última crónica do "DN". Por absoluta falta de tempo, escuso-me a comentar a prosa nevesiana com o detalhe que desejaria, limitando-me a deixar-vos com um demasiado breve florilégio. «As pequenas coisas revelam mais que as grandes. Os jornais estão a tentar criar uma zanga à volta da retirada dos crucifixos das escolas públicas. Os jornais? Ou certos fanáticos que sentem a maré a virar contra as suas convicções? A falta de liberdade religiosa tem gerado a perda da liberdade e até da vida. Plenamente de acordo. Nunca se deve esquecer que, dada a impossibilidade lógica de demonstrar a inexistência de Deus, o ateísmo é apenas a crença de que Deus não existe. Isto é subverter completamente a questão. Eu diria que cabe aos crentes o ónus da prova, na medida em que são eles que defendem certas coisas (parte integrante da doutrina) verdadeiramente inconcebíveis: ressurreição, concepção de uma virgem, transsubstanciação, milagres... O ateísmo não é uma crença. Só defende que o ateísmo é uma crença aquele que vê na fé um estado natural ao ser humano, e no cepticismo uma bizarria que requer justificação. Contudo, se eu acreditar que a lua é feita de queijo da serra, é a mim que cabe demonstrar tão ousada asserção, e não àquele que nela não acredita (com alguma razão, acrescente-se). A recusa da divindade é uma fé, tal como o negro está na pintura e a pausa faz parte da música. Esta analogia está trôpega à partida, mas eu diria que o ateísmo está para a fé, não como o negro para a pintura, mas como as paredes do museu (e a bilheteira, as escadarias, o bar, os telefones públicos...) para os quadros. Aliás, constitui uma seita das mais pequenas, que, por isso mesmo, costuma ser extremista e fanática. Em matéria de fanatismo, o mínimo que se pode dizer é que a Igreja Católica tem (e sempre teve) lições para dar. O Estado laico deve assumir uma posição neutra perante as religiões, tal como deve assumir uma posição neutra perante as candidaturas presidenciais. Outra analogia infeliz. O Estado não tem nada a ver com a religião: cabe-lhe apenas assegurar a liberdade de culto aos cidadãos. Em contrapartida, embora o Estado deva assegurar igual tratamento aos candidatos presidenciais, a Presidência da República não se trata de um assunto a ele alheio, por nítida maioria de razão! Deus está na escola, tal como a cultura está na escola, a política, a arte, o futebol e a amizade estão na escola. (E a sexualidade também, apetece-me dizer... JCN oferece argumentos a quem defende a educação sexual nas escolas. Mas não entremos por aí.) JCN mete demasiadas coisas no mesmo alforge. Sucede que a Igreja Católica possui uma longa história de interferência com os poderes públicos, e de reivindicação de um papel privilegiado na transmissão de valores e saberes. Foi a própria atitude da Igreja, ao longo dos séculos, que a transformou em natural alvo de desconfiança por parte dos promotores de uma escola livre, e que fez do crucifixo um símbolo que, neste contexto, é tudo menos inócuo. O que os poderes públicos devem garantir é a autonomia para cada escola fazer o que os seus professores, pais e alunos decidam. Livra! Podem imaginar o que resultaria de uma autonomia total, por parte das escolas e dos encarregados de educação, para decidir sobre conteúdos, modos de leccionamento, etc.? Seria uma porta aberta ao sectarismo e ao comunitarismo. É normal e desejável que matérias sensíveis para o funcionamento das escolas sejam decididas de forma centralizada, de forma a assegurar o cumprimento dos programas tal como estipulados. Sobretudo, não são activistas ou burocratas a centenas de quilómetros que têm o direito de definir a decoração das paredes, em vez dos alunos, famílias, professores e funcionários. Precisamente. São. E assim é que deve ser. Num país livre pode ser-se ateu ou religioso. Mas, em nome da liberdade, os laicistas arrogam-se o direito de obrigar as escolas a seguir os seus gostos e irritações pessoais. Ai ai, faltava ainda o lugar comum do azedume laicista. Mas JCN não nos desilude. Um pequeno grupo arma-se em juiz de todos os cultos, só porque não segue nenhum e os considera horríveis a todos. Como odeia a religião diz-se neutro perante ela. (Isto merecia acompanhamento musical.) Os crucifixos na sala de aula são apenas um pequeno detalhe. Mas um detalhe revelador de uma luta crucial da Humanidade, a luta em prol da liberdade. Ora não podia estar eu mais de acordo! O Ministério da Educação, em vez do esforço baldado para tirar Deus das escolas, devia antes procurar pôr algum bom senso nelas.» Cem anos depois, e ainda as mesmas falácias para aturar...
ROHMER MAS NÃO SÓ: Criei um blog chamado A Mulher do Aviador, onde tenho vindo a recolher (com exagerada lentidão...) os textos sobre cinema publicados no 1bsk ao longo dos seus já quase três anos de existência. A ideia é servir-me deste blog como estímulo para escrever mais amiúde sobre cinema. Nele não serão publicados textos originais, pelo menos numa primeira fase. Trata-se, pois, de uma ferramenta essencialmente pessoal, mas quem quiser passar por lá, e talvez deixar um comentário, será muito bem-vindo!

segunda-feira, dezembro 05, 2005

CAPACIDADE: Há poucas alegrias que ainda nos estão reservadas, nestes tempos bisonhos que atravessamos, e uma dessas alegrias é descobrir que uma garrafa contém meio litro de Coca-Cola Light, em vez de uns mesquinhos 33 centilitros.
MODO ACTIVO: Hoje, a impressora do meu local de trabalho mostrava no seu visor a mensagem "MODO ACTIVO INACTIVADO". Suponho que isso seja precisamente equivalente a "Modo Inactivo Activado". Mas quem sou eu, mero mortal analógico, para me alargar em conjecturas sobre aquilo que, em informática, é ou deixa de ser?
O TEMPO TRANSBORDA: Acabo de escutar parte de uma emissão na Antena 1, conduzida por José Nuno Martins. Quando penso em José Nuno Martins, recordo invariavelmente a resposta que ele deu, há já um ror de anos, a um inquérito efectuado por uma revista. A pergunta era "Qual era o filme da sua vida?". José Nuno Martins, fugindo às descoroçoantes mas previsíveis banalidades objecto da escolha dos demais entrevistados ("África Minha", "E Tudo o Vento Levou"...), mencionou... Jacques Rivette, "L'Amour Fou". Por isso, por este acto de coragem, José Nuno Martins passou a ter perante mim crédito infinito. Pode até suceder que ele venha a apresentar a "1ª Companhia" ao lado de um burro que fala. Para mim, isso nada pesará face ao facto de ter escolhido para filme da vida um filme como "L'Amour Fou", essa inquietante obra-prima em que os planos do teatro e da vida, talvez ainda mais do que em qualquer outra obra de Rivette, se dilaceram e potenciam mutuamente.

domingo, dezembro 04, 2005

ANÚNCIOS DE GATO PERDIDO INVENTADOS (14): Perdeu-se lindo gato, não hoje, nem ontem, mas há catorze anos, quando em tempos de exílio, dias insípidos de chuva sem trégua. Foi em Mannheim, cidade que faz parte do estado de Baden-Württemberg (superfície 35 750 quilómetros quadrados, capital Stuttgart). O gato era preto com focinho branco, o gato não era meu, mas apareceu na minha vida num dia que ficou também marcado por uma ferida, não uma ferida real, mas antes uma ferida metafórica. Paredes de chuva abatiam-se sobre as ruas de Mannheim, e o gato parecia conhecer os seus contornos movediços, e o seu corpo felpudo ocupava nesgas improváveis de quietude no seio dos excessos pluviométricos. Um dia perdi-o, a esse gato que era lindo e o único no mundo para mim. Esforçava-me para reter junto a mim fiapos do meu país deixado para trás, recitava expressões portuguesas em paragens de autocarro solitárias escolhidas para o efeito. Apreciava sobretudo aquelas que exibiam uma pátina absurda mas familiar. "Preso por arames", "Cair como sopa no mel", "Por dá cá aquela palha". Gato, a tua figura era mefistofélica, mas benigna porque esplendorosa e refractária à baça desolação que se confundia com o tempo. Passaram os anos, moro em Lisboa, ao Campo de Ourique, leio boa ficção portuguesa e tenho cuidado com a alimentação. Gato, pensei em escrever este anúncio que ninguém lerá, este anúncio-pedra-risco para assinalar uma desaparição com a qual fui cobarde em me conformar. Meu gato que eu prezo mais do que todos os anjos e demónios que a humanidade alguma vez foi capaz de convocar, sinto a tua falta.

quarta-feira, novembro 30, 2005

BREVIDADE: É possível que a verdade seja triste, como no filme de Godard. E é inevitável que a brevidade a que tudo me obriga seja frágil e desolada.

domingo, novembro 27, 2005

É SEMPRE A MESMA CANÇÃO: A Cinemateca irá apresentar, no próximo mês, um ciclo intitulado "Tema e Variações". Neste ciclo serão apresentados filmes relacionados entre si pela história que desenvolvem, pela obra em que se baseiam ou por um outro aspecto menos óbvio. (Exemplos: "Tempest", de Paul Mazursky e "Prospero's Books", de Peter Greenaway; "Die Marquise von O...", de Éric Rohmer e "Benilde ou a Virgem Mãe", de Manoel de Oliveira; "India Song" e "Son Nom de Venise Dans Calcutta Désert", de Marguerite Duras.) Curiosamente, tal como é observado no programa, outros dois filmes deste mês poderiam também ter entrado neste jogo de correspondências: "Breakfast at Tiffany's" (apresentado na rubrica "O Que Quero Ver"), de Blake Edwards, e o novo filme de João Pedro Rodrigues apresentado em ante-estreia, "Odete". Ponto em comum: "Moon River", a canção que Henry Mancini compôs para o filme de Edwards. Aliás, esta canção parece exercer um fascínio cinéfilo duradouro sobre as gerações recentes de realizadores. Em "La Mala Educación", de Pedro Almodóvar, era uma versão de "Moon River", cantada pelo pequeno Ignacio, que comovia até às lágrimas o padre Manolo. E, no novo filme de Arnaud Desplechin, existe um tema musical recorrente baseado na mesma canção.

sexta-feira, novembro 25, 2005

ÁGUAS DE MARÇO: Desde as suas primeiras palavras (em Março e à chuva) que este blog, parece-me, tem vivido assombrado pelo desejo de exprimir num só troço de frase, agudo e elíptico, uma melancolia gélida que fosse ao mesmo tempo sentimento pessoal e latejante de universalidade. Não se trata de reconhecer o falhanço. Trata-se de ponderar quantas vezes a decência tolera a repetição de um tal falhanço.
DUAS PALAVRITAS APENAS: Duas palavritas apenas sobre o fim anunciado do Blogue de Esquerda (porque o meu estado de espírito presente não é compatível com epitáfios efusivos). O Blogue de Esquerda nunca deixou de ser um dos mais bem escritos e interessantes de Portugal. Contudo, e porque me parece supérfluo estar a cobrir de elogios um espaço que mereceu reconhecimento tão amplo e generalizado, por parte de tantos quadrantes diferentes, limito-me a esboçar uma nota pessoal. Foi o Blogue de Esquerda que me trouxe para a blogosfera. (Não directamente, é certo. Mas é como se o fosse.) E isso, que podia ser um quase nada, representou e representa muita coisa. Pelo menos para mim. Mas eu avisei de que isto era uma nota pessoal. Adeus e obrigado.
QUANTUM: A Quantum é uma revista on-line criada por alunos do Departamento de Física da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Iniciativas como esta são extremamente louváveis, sobretudo numa altura em que parece estar cada vez mais na moda insistir no estereótipo do estudante universitário irresponsável e mimado, mais amigo dos shots do que dos livros. E mais não digo, por receio de cair num paternalismo tão detestável como os mais detestáveis lugares comuns. Dêem uma olhada na Quantum. Vale a pena.
SUMIÇO: A não perder, este elegante lipograma do Luís.

quinta-feira, novembro 24, 2005

SURSUM CORDA: O meu coração rejubila, e se o meu coração rejubila é porque está anunciada, já para a próxima quinta-feira, a estreia em Lisboa do filme "Rois et Reine" (Arnaud Desplechin). Tenho muita vontade de o rever, depois de uma sessão memorável na última Festa do Cinema Francês, e posso já garantir que ele saltará dos alforges da Atalanta para a minha lista dos melhores do ano. O filme de Desplechin suscitou uma rara quase-unanimidade entusiasta por parte da crítica especializada francesa. Isto, só por sim, nada quer dizer, e poderia até ser sinal preocupante. Neste caso, porém, julgo tratar-se do simples reflexo do modo como o autor do também genial "Esther Kahn" conjuga uma componente popular com um apelo cúmplice à inteligência e à ousadia do espectador. Espero voltar a falar deste filme.

terça-feira, novembro 22, 2005

MORE REPÚBLICA BLOGOSFÉRICA: O Boina Frígia é um muito interessante blog onde os temas republicanos merecem lugar de destaque. Parabéns aos autores!
IDEIA PARA UM CONTO: Eu tinha uma ideia para um conto baseado num poema de António Franco Alexandre, aquele poema dos "Quatro Caprichos" em que há uma pessoa que está a dirigir a equipa de basquetebol do liceu e o grupo de teatro do mesmo liceu. Mas o livro está numa estante demasiado alta para lá chegar sem me levantar, por isso fica para outro dia.

quinta-feira, novembro 17, 2005

Estou farto de não ter tempo para escrever no blog. Estou farto de não poder fazer deste blog mais do que uma ridícula sombra daquilo que eu gostaria que ele fosse. Estou farto.
PARIS E O SOBRESSALTO (4): Nestes tempos em que uma constelação inteira de fazedores de opinião é, a propósito dos motins em França, apanhada todos os dias em flagrante delito de superficialidade e má fé, não se deve deixar de exaltar os oásis de lucidez que subsistem, e a Esquerda Republicana é um deles. Isto é válido tanto para os artigos que aí são enlaçados como para aquilo que o próprio Ricardo vai escrevendo. O nível intelectual (e o estilo, já agora) dos artigos de Olivier Roy e Jason Burke nada tem a ver com aquilo que o leitor português se arrisca a ler quando folheia um qualquer órgão da imprensa escrita portuguesa. Não me falta vontade para rebater os trôpegos argumentos que tenho lido em jornais e blogs, os raciocínios adulterados e as generalizações abusivas, assim como as desavergonhadas tiradas francófobas. O que me falta é o tempo.
SAÚDE PÚBLICA: Não alimente os pombos, nem dê dinheiro aos músicos ambulantes do metropolitano! Desencorajar a cacofonia nossa de cada dia é tão importante como prevenir a gripe das aves.

terça-feira, novembro 15, 2005

CINEMA: "Last Days", de Gus Van Sant. Este filme partilha com o anterior de Van Sant (o magnífico "Elephant") uma recusa de qualquer reflexo interpretativo, mas também uma fé, quase absurda mas desprovida de qualquer ingenuidade, no poder da imagem para superar e dominar o desejo de explicar, possivelmente o mais humano de todos. Os últimos dias de Blake, estrela rock implodida no seu autismo lunático, decalcado de forma óbvia (e assumida) em Kurt Cobain, são-nos dados por meio de vinhetas, episódios aleatórios, encontros, comentários de terceiros. Van Sant situa qualquer nexo causal que pudesse ter existido num passado que é deixado resolutamente hors-champ. Aquilo a que nos é dado assistir é um lento, quase sonâmbulo, desfilar de uma personagem em direcção ao seu fim. Sobre os corpos em movimento (admiravelmente filmados, com uma franqueza quase incómoda), sobre os eventos, sobre o simples e inócuo correr do tempo, recai a reponsabilidade de ocupar o tempo que a verosimilhança, a psicologia, ou o pathos mais ou menos tradicional deixaram vago. Um teledisco dos Boyz II Men (transmitido por uma televisão e prolongado para lá de tudo o que pareceria razoável), um périplo pelos bosques, uma refeição ou uma canção assumem igual importância. Não existem cenas cruciais, é inútil procurar um fulcro. Gus Van Sant é, indubitavelmente, um dos mais interessantes realizadores americanos contemporâneos. Mas esta é uma constatação que não faz jus à verdadeira singularidade deste realizador. Coloquemos as coisas de outra maneira. Gus Van Sant é dos poucos criadores de cinema que tem vindo, de maneira continuada, a investir numa linguagem própria, pouco dada a rupturas ou subversões espectaculares, mas especificamente cinematográfica. Tanto em "Elephant" como em "Last Days" abundam os exemplos de soluções que passam por uma agudíssima perspicácia na composição do plano, e que transmitem algo que nos leva muito além da função narrativa ou da estética pictórica: aquilo que se presencia é uma inteligência da imagem em movimento, fecunda e aliciante. (Não resisto a contrastar a secura explícita e literal do título deste filme com a aforismo oblíquo que levou Van Sant a chamar ao seu filme anterior "Elephant". Mas não quero ver nisto mais do que uma curiosidade, vagamente intrigante.)
RATOS COM ASAS: Ninguém é perfeito, eu também não, e para a minha imperfeição contribui sobremaneira o facto de receber na minha caixa de correio o "Jornal da Região". (De Lisboa, no caso vertente.) Numa das suas últimas edições, este valoroso órgão da comunicação social informava-nos de que Romana "ficou satisfeita com o quartel", acrescentando, para nosso gáudio, uma declaração bombástica em discurso directo: "FIZ TUDO DIANTE DAS CÂMARAS". Esta frontalidade desarmante é desenvolvida logo na página 3: «Tudo o que fiz foi diante das câmaras, não desliguei microfones, nem me escondi na casa de banho para conversar fora das câmaras, como a Diana, a Vânia e a Valentina, e depois dizem que é por causa de um penso higiénico mas, 30 minutos? Isso é uma falta de respeito» Haverá limites para a perfídia? O habitante da região, depois disto, passa a ter razões concretas para duvidar. Logo na página 4, um naco de castiça antropologia alfacinha poderá (ou não) contribuir para desanuviar a má impressão deixada pelas ignomínias clandestinas da Diana, da Vânia e da Valentina. Directamente do jardim do Campo Santana (pelo qual vela, nunca é de mais relembrar, o divino Doutor Sousa Martins), relata-se que «o gesto de alimentar os pombos parece estar agora a ser mais condenado socialmente», por via, bem entendido, da ameaça da gripe das aves. Dois octogenários, JM e JS (os nomes por extenso são devidamente indicados no artigo, pois o "Jornal da Região" não brinca em serviço quando se trata de informar os seus leitores), insurgiram-se quando a senhora ML, de 70 anos, fez menção de distribuir milho às muitas aves ali existentes. «São ratos com asas, só trazem doenças e agora, com essa gripe à solta, ainda pior». Às almas sensíveis será grato ficar a saber que a senhora ML levou a sua avante, tendo esvaziado o seu saco depois de "invectivar" os contestatários. Dá prazer viver numa região na qual as pessoas se invectivam por causa de assuntos de saúde pública, a um lançamento de pedra da efígie de um antigo médico com fama de milagreiro.
ELE ESTÁ NO MEIO DE NÓS: A revista "Ficções" publicou um conto de Kleist, "O Órfão", numa tradução de José Maria Vieira Mendes.

sexta-feira, novembro 11, 2005

PERGUNTAS SOBRE VIENA À ESPERA DE RESPOSTA (10/10): E isto leva-nos à última pergunta sobre Viena à espera de resposta, desta vez formulada por outra pessoa. Viena será mesmo a cidade mais melancólica do mundo?

On a bed where the moon has been sweating, in a cry filled with footsteps and sand

(Leonard Cohen)

quinta-feira, novembro 10, 2005

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: A carreira de observador de leituras em lugares públicos é um longo e árido deserto, interrompido por raros oásis repletos de árvores e de suculentas tâmaras. Hoje, na linha vermelha do metropolitano, e para meu pasmo e deleite, sentou-se a meu lado um cavalheiro que lia a revista "Magazine Littéraire", número especial sobre a melancolia. A revista estava aberta numa entrevista de Pierre Assouline a Jean Clair, na qual, a dada altura, se pergunta se Viena é a cidade mais melancólica do mundo.
DA PÚBLICA À PRIVADA, ELES TÊM A ESCOLA TODA: Hoje, em pleno zapping rumo aos "Morangos com Açúcar", sofri um encontro imediato com o tal segundo canal aberto à sociedade civil coiso e tal, sob a forma de um programa de sua graça "Causas Comuns". A emissão era, hoje, patrocinada por uma tal Associação Cristã de Empresários e Gestores, e o seu tema era qualquer coisa como "a espiritualidade no meio laboral". Um dos convidados era o inefável João César das Neves, sem o qual, provavelmente, eu teria prosseguido o meu caminho alegre e célere através dos canais hertzianos. Em dois ou três minutos de discursata, JCN logrou debitar duas inverdades flagrantes, coisa que, para ele, é proeza corriqueira (dir-se-ia até que fica aquém da sua performance habitual): 1) JCN afirmou que todas as pessoas se questionam sobre o sentido da vida. Eu não me questiono sobre o sentido da vida. O "sentido" é uma construção cognitiva humana, cuja extensão ao mundo natural me parece falaciosa. Não é mais do que um recurso a que a cognição do ser humano lançou mão, na sua história evolutiva, no âmbito do seu esforço para assimilar os dados do Mundo exterior. Extrapolar esse conceito para um domínio transcendental é um logro pernicioso. 2) JCN afirmou que até as pessoas que dizem não ter religião têm uma: a religião da democracia ou da ciência, por exemplo. Eu não tenho qualquer religião. Admiro e defendo a democracia e a ciência especulativa, enquanto soluções para a organização das sociedades e para a aquisição e ordenamento de conhecimentos sobre o Mundo. Mas nem uma nem outra são uma religião. Bem pelo contrário: tanto uma como a outra se situam nos antípodas do dogma e da verdade revelada, que são coisas que eu repudio veementemente. Com tudo isto, já não fui a tempo de perceber se o Zé Milho e o Tó Pê se reconciliaram, e se os D'ZRT têm algum futuro.
AGUASFURTADAS: O número 8 da revista "Aguasfurtadas" estará em breve disponível. Este número inclui textos de Affonso Romano de Sant’anna, Margarida Ferra, João Luís Barreto Guimarães, William Blake (com tradução de Manuel Portela), Forugh Farrokhzad, Moshe Ha-Elion (com tradução de M.V. Andrade), Lourenço Bray, Paulinho Assunção, Valério Romão, António Tavares Lopes, Regina Guimarães, Saguenail e Jorge Mantas, para além de inúmeros trabalhos de artes visuais e o habitual CD Audio com obras de autores contemporâneos, que, neste número, inclui ainda uma verdadeira preciosidade: duas "Ostras", de Pedro Coelho. (Do "presse-rilize" que o Rui Amaral nos facultou.) Esteja atento às bancas e quiosques! Exija a "Aguasfurtadas"! Escarneça dos estabeleciementos que ignorem a sua existência!
PARIS E O SOBRESSALTO (3): Numa crónica recente do jornal "Público", Vasco Pulido Valente referiu-se aos distúrbios em França (que nessa altura ainda se confinavam à região parisiense) como sendo originados por bandos de "muçulmanos". Pelos vistos, VPV possui um conhecimento privilegiado relativamente à confissão religiosa dos fautores dos desacatos. O que tem transparecido, até ao momento, é que se trata de jovens maioritariamente oriundos de bairros desfavorecidos dos subúrbios. Mesmo o facto de serem, na sua maioria, provenientes de famílias com origem no maghreb ou África sub-sahariana não deveria ser tomado como indício certo e seguro da sua religião. Mas, para alguém como VPV, este tipo de extrapolações abusivas é o tipo de coisa nas quais já nem se repara. Brotam espontaneamente, a qualquer hora do dia. Não duvido de que VPV só por modéstia não revelou tudo aquilo que sabe sobre os energúmenos incendiários, incluindo nomes, moradas, idades, preferências musicais e habilitações literárias. VPV seria ofensivo se não fosse tão irrelevante.

terça-feira, novembro 08, 2005

CAUÇÃO LITERÁRIA: Depois da caução científica, eis uma caução literária para os meus gatinhos perdidos: «Mas depois existem estas raparigas desbotadas e envelhecidas que se vão incessantemente abandonando sem resistência, raparigas fortes, cujo íntimo nunca foi usado, que nunca foram amadas. (...) Nunca caíram de muito alto de uma esperança, por isso não se quebraram; mas estão amachucadas e já demasiado estragadas para a vida. Apenas gatos perdidos vêm ter com elas à noite ao seu quarto e secretamente as arranham e dormem sobre elas.» (Rainer Maria Rilke, "As Anotações de Malte Laurids Brigge", 60. Tradução de Maria Teresa Dias Furtado.) (A propósito, Cristina, resta saber se o teu método é invariante relativamente ao número de lados do polígono, distância em relação ao centro, altura a que o cartaz é afixado, condições meteorológicas, altura do mês e orientação relativamente ao campo magnético terrestre. Ah, e o verdadeiro Bergotte é aquele que ostenta no interior da orelha esquerda uma zona mais clara, que faz lembrar uma folha de tília.)

segunda-feira, novembro 07, 2005

ENTRETANTO, NO MUNDO DA FANTASIA...: A cidadã Leonor, o pequeno bocadinho de gente que vai obrigar à revisão da constituição de um país com mais de 40 milhões de habitantes (mais uma das risíveis aberrações em que as monarquias são pródigas), foi apresentada à imprensa, que inundou o seu rostozito com as primeiras de muitas dezenas de milhares de rajadas de luz flash. Numa nota um pouco mais séria, no episódio de hoje dos "Morangos", a directora da escola (superiormente interpretada por Ana Zanatti) descobriu finalmente que o Cristiano anda a dormir na Associação de Estudantes.
PARIS E O SOBRESSALTO (2): Há uma pergunta que me assalta a mente. Se as políticas musculadas de Nicolas Sarkozy tivessem tido sucesso, se a sua aposta na repressão em detrimento da prevenção e da mediação tivessem reduzido significativamente a criminalidade violenta nas "banlieues", alguma vez os suspeitos do costume (José Manuel Fernandes, Helena Matos...) se coibiriam de brandir bem alto este sucesso da "tolerância zero"? É claro que não. Mais tarde ou mais cedo, lá saltaria a exaltação desta "lufada de ar fresco" numa França demasiado tempo conivente com a marginalidade de cariz mais ou menos étnico. Seria (parece que estou a adivinhar os títulos) uma vitória do bom senso contra os desmandos do politicamente correcto, uma lição para a Europa, et caetera. Perante esta explosão de violência, algum dos suspeitos do costume se atreveu sequer a sugerir que Sarkozy e a sua atitude podem ter tido o seu quinhão de responsabilidade? Não estou sequer a afirmar que seja uma explicação legítima. Mas seria, parece-me, uma hipótese natural. Haverá maior demonstração de incompetência do que um ministro do interior se ver confrontado com uma situação de motins urbanos incontroláveis a nível nacional? Mas nada disto deve surpreender quem percebeu já quão longe são capazes de ir certas pessoas para moldar os factos do Mundo às suas mundividências tortuosas, dia após dia, semana após semana, em letra de imprensa.
PARIS E O SOBRESSALTO (1): Os tumultos na região parisiense, que recentemente alastraram a outras cidades francesas, prestam-se a uma leitura muito óbvia, que consistiria em culpar a inépcia dos sucessivos governos franceses, e a esterilidade do modelo republicano francês caracterizado pela ênfase na ideia de integração e de assimilação. Infelizmente, uma tal leitura deriva inevitavelmente para linhas de argumentação "desculpabilizadoras" e "sociológicas", a que muitos (precisamente os que mais prontos se costumam mostrar para criticar a França) opõem um anátema feroz e inflexível. De facto, se a culpa é do estado francês, da sua incapacidade para assimilar as minorias étnicas e resolver o problema do desemprego, isso fornece um esboço de explicação causal para os comportamentos violentos dos jovens vândalos. E, como sabemos, para 50 % (estimativa por baixo) dos cronistas da imprensa portuguesa, EXPLICAR (a violência, o terrorismo) equivale a JUSTIFICAR e LEGITIMAR. E contudo, com comovente desenvoltura, artigos de opinião recentes, vindos a lume recentemente na imprensa, logram, no seu conjunto, a proeza de zurzir na nação francesa E no politicamente correcto! Sem complexos nem meias medidas! Uma coisa é bem certa: todos parecem ter uma opinião bem fundada sobre o assunto. Todos se descobrem especialistas instantâneos nas problemáticas das "banlieues". Não duvido, nem por um segundo, que o presidente francês, o primeiro-ministro, o ministro do interior, quiçá o comando central da polícia da região da Île-de-France, esperam ansiosamente, todas as manhãs, pela remessa de jornais portugueses, que, devidamente traduzidos por funcionários do Instituto Camões a quem foi imposta a requisição civil, lhes proporcionam a chave para descodificar a situação.
SOBRE OS OMBROS DE GIGANTES: Mais algumas sugestões para quem nutra fantasias envolvendo imitação de hábitos de grandes homens de letras do passado: - Recusar a entrada nos seus aposentos a todo aquele que tenha socializado com uma dama que tivesse tocado numa rosa, com medo de uma crise de asma (Proust) - Percorrer meia Europa para se encontrar com uma dama ucraniana e persuadi-la a contrair matrimónio (Balzac) - Beijar um cavalo encontrado na rua (Nietzsche) - Divorciar-se ao fim de dia e meio de casamento (Katherine Mansfield) - Desaparecer (Pynchon, Salinger, Herberto Helder...)
ONDE VAIS RIO QUE EU CANTO: Rui Rio, presidente da Câmara Municipal do Porto, e frequentador da mítica cervejaria Cufra, decidiu passar a dar entrevistas apenas por escrito, emulando (deliberadamente, não o duvido) Vladimir Nabokov em pessoa! Pergunto-me se Rio levará a sua admiração mimética por esse grande homem de letras russo ao ponto de apreciar borboletas, detestar Camus e escrever com lápis que duram mais do que as borrachinhas no seu topo.

quarta-feira, novembro 02, 2005

SÃO FRAGMENTOS, SENHOR...: «(...)admettant alors que, de la naissance à la mort, un grand poème s'élaborait dans le subconscient du poète qui ne pouvait en révéler que des fragments arbitraires.» Robert Desnos escreveu isto no posfácio à sua recolha de poemas "Fortunes", renegando uma posição dos seus tempos do surrealismo. A ideia, contudo, seduz-me, sobretudo quando transposta para o domínio da ficção. A escrita de romances como revelação, mais ou menos parcimoniosa, mais ou menos prolixa, de facetas isoladas de um único e tremendo edifício ficcional. Instantâneos oblíquos de uma máquina pletórica, com ambições a Mundo.
SUSPENDAM AS ROTATIVAS!: Anuncia-se que a Polícia Judiciária procedeu recentemente a uma busca na residência de Jorge Coelho, aparentemente no intuito de deitar mão a um tabuleiro de xadrez precioso que lhe teria sido oferecido por um empresário! Ficou, naturalmente, desperta a minha curiosidade sobre uma eventual paixão do dirigente socialista pelo "jogo real", e sobre as suas opiniões acerca das variantes Najdorf e Scheveningen da defesa siciliana. E espero que o assentar da poeira não traga consigo a revelação de que a eventual posse do referido tabuleiro se deveu unicamente ao valor venal deste. Aproveito a ocasião para fazer referência a um aspecto cuja aparente irrelevância esconde insondáveis abismos de insalubridade social da sociedade em que vivemos. É frequente, em lojas de artigos decorativos e outras, vermos expostos belíssimos tabuleiros de xadrez. No entanto, com frequência, esses tabuleiros estão rodados de 90 graus relativamente à posição correcta. Para que não subsistam enganos, aqui está um exemplo de tabuleiro de xadrez na posição correcta.

Para servir de comparação, eis agora um outro tabuleiro, numa posição errada. (Ignorem, por favor, o insólito tolkieniano das figuras.)

A diferença, parece-me, salta à vista. Os quadrados brancos (ou de cor clara) devem situar-se no canto inferior direito e superior esquerdo, do ponto de vista dos jogadores. Não seria, de todo, inoportuna, uma série de rusgas dirigidas aos estabelecimentos comerciais que expusessem tabuleiros de xadrez sem se dar ao trabalho de consultar previamente um qualquer "Xadrez para principiantes".

terça-feira, novembro 01, 2005

ANÚNCIOS DE GATO PERDIDO INVENTADOS (13): (dedicado à Cristina, com vénia para os seus esforços de legitimação científica destas fantasias anunciadoras felinófilas)
perdeu-se lindo gato, numa rua soalheira e ingrata vizinha desta
numa rua ingrata e com nome de homem santo, perdeu-se ele
e o seu nome era Bergotte, que é nome estranho mas bem soante
e as suas manias eram as de um gato, e eis-me triste oh tão triste
aguçar garras em sofá e espreitar ciclistas através da janela
praticar acrobacias em muro de quintal, implorando atenção
cobiçar plumas de pombo tombadas no fundo de urbanas sarjetas
o homem santo da rua era, parece, um fervoroso estilita
de cuja garganta vociferante partiam apelos à penitência
parece, porque eu só tinha olhos e atenções para o meu Bergotte
perdido agora, e agora mal evocado neste anúncio trôpego
que aos cânones diz nada, por incompetência de quem redige
neste anúncio que eu espalho por ruas menos ingratas
menos aziagas para a população felina, assim o espero
ruas desta cidade conquistada aos mouros com derrame de sangue
hoje em dia com aspirações a sólida projecção europeia
neste ano da graça radiante e dotado de abismos, como um rosto
VOILÀ:
«Tiens, voilà pour l'usine, voilà pour l'amour,...
voilà pour l'argent, et voilà pour les souvenirs!»
(Do filme "Passion", de Jean-Luc Godard, que foi visível na Cinemateca na passada segunda-feira. Frase proferida por Hanna Schygulla.) (Fragmentos da "Virgem da Imaculada Conceição", de El Greco, e "3 de Maio de 1808. Execução dos Defensores de Madrid", de Goya.)

quinta-feira, outubro 27, 2005

SUPÉRFLUO MAS NÃO ISENTO DE LIRISMO: Consultando uma enciclopédia da vida animal, inteiro-me da existência de três espécies de gansos-patolas: o ganso-patola-de-patas-azuis, o ganso-patola-pardo e o ganso-patola-comum. Destes, só o último se encontra nas costas portuguesas, tendo saído recentemente de um injusto anonimato por mor da ameaça do vírus H5N1.
SMELLS LIKE TEEN SPIRIT: Graças ao IMDB, fico a saber que o filme "Last Days", de Gus Van Sant, recebeu classificação etária de Maiores de 16 na Suíça, tanto no cantão de Genève como no cantão de Vaud. O meu sentimento de alívio foi indescritível, pois parecer-me-ia difícil de admitir e atentatório à unidade nacional que este tipo de classificações variasse de cantão para cantão.
A BALADA DA BARATA SALGUEIRO: Amanhã (ou melhor, hoje), quinta-feira, às 22h, passa na Cinemateca "O Bobo", fabulosa obra-prima de José Álvaro Morais. A Cinemateca nem fica longe da Rua Alexandre Herculano, e que agradável que é quando a toponímia e a cinefilia andam de braço dado.
TEORIA E PRÁTICA: Um lema deste blog é o seguinte: um por cento de inspiração, um por cento de transpiração, e noventa e oito por cento de conspiração.
STRAWBERRY FIELDS FOREVER: No episódio de hoje dos "Morangos com Açúcar", fez-se história quando a Matilde recorreu ao seu blog para se defender perante a irmã (Beatriz) da acusação de lhe ter roubado o namorado. Sou forçado a concluir que tenho menosprezado injustamente esta série. A única coisa que posso provar aos incrédulos com recurso ao meu blog é que perco o meu tempo a redigir anúncios de gato perdido inventados, em vez de me lançar em empreitadas proveitosas para o país e a humanidade em geral.

terça-feira, outubro 25, 2005

EXCURSIONISMO PICTÓRICO (0)*:

Frans Hals, "Young Man Holding a Skull (Vanitas), 1626-8

Escreveu Vincent van Gogh a propósito de Hals: «(...)heads too - eyes, nose, mouth done with a single stroke of the brush without any retouching whatever... To paint in one rush, as much as possible in one rush... I think a great lesson taught by the old Dutch masters is the following: to consider drawing and colour one.»

Não só concordo, não só aprovo, como considero que Van Gogh colocou aqui o dedo na ferida com uma típica acuidade. (Continua.)

*Título provisório.

MISSÃO: RECUPERAÇÃO DO TEMPO PERDIDO (3): Neste espaço, já tive o prazer de anunciar o nascimento de muitos blogs, de diversíssimas naturezas. É, julgo-o, compreensível que o prazer seja redobrado quando se trata de anunciar o nascimento recente dos blogs do meu pai e do meu irmão. É bem certo que isto pode ser considerado nepotismo, mas espero que, a haver uma Alta Autoridade contra estas coisas, Ela feche os olhitos por uma vez.
LEITURAS: Nas "Metamorfoses" (livro XIV), Ovídio conta a história da Sibila, que, por ter prestado serviço inestimável a Eneias (ao indicar-lhe a maneira de visitar o reino dos mortos), recebe deste a promessa de um templo e de um tributo de incenso. A Sibila recusa tal oferta, por não possuir estatuto divino. Mas acrescenta (em tom de desabafo amargurado demasiadas vezes reprimido) que poderia ter-se tornado uma deusa, se tivesse feito a Apolo, que outrora a amou, o dom da sua virgindade. Como Apolo lhe concedera qualquer desejo que a Sibila formulasse, ela pediu-lhe que a deixasse viver tantos anos quantos os graus de poeira contidos numa mão cheia. Porém, esqueceu-se de pedir também a eterna juventude, o que a levou a definhar, ao longo dos setecentos anos seguintes, até a um estado de decrepitude humanamente inimaginável. Ainda assim, Apolo ter-lhe-ia concedido que conservasse o viço da juventude, se a Sibila lhe oferecesse o seu amor. Mas esta recusou. Perante Eneias, queixa-se de que virá o tempo em que o seu corpo acabará reduzido a um peso insignificante. O próprio Apolo não mais a reconhecerá, ou então negará alguma vez tê-la amado. Porém, mesmo quando mais ninguém a puder ver, de tão minguada, os destinos deixar-lhe-ão a voz, pela qual continuará a ser recordada. E é este último desejo que me faz acrescentar a Sibila ao meu rol de vozes descorporizadas. (Curiosamente, este episódio não consta da Eneida, se bem que Ovídio seguisse a tradição Virgiliana de forma bastante próxima.)
LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Um jovem lia "A Mãe", de Gorky, enquanto caminhava, absorto, junto ao muro do Museu da Cidade, ao Campo Grande, expondo-se ao risco de tropeçar na cauda multicor de um pavão, também ele multicor. A quem deverei telefonar, caso me cruze com um pavão engripado? Ao Ministério da Saúde? E se for fora do horário de expediente? Nada disto, bem entendido, tem a mais leve relação com Gorky, romancista russo (1868-1936) que é considerado um dos fundadores do realismo soviético.

quinta-feira, outubro 20, 2005

SANTOS E PROSADORES: Graças ao Diário Ateísta, fico a saber que o cardeal Newman vai ser elevado a santo. Associo esta personalidade, antes de tudo o mais, a James Joyce, que tinha em altíssima conta a prosa deste inglês convertido ao catolicismo. Joyce escreveu: «I have read him a great deal... [in 'Oxen'] where all the other authors are parodied, Newman alone is rendered pure, in the grave beauty of his style. Besides, I needed that fulcrum to hold up the rest... The Church will surely decide to make a saint of him, if only for the numerous conversions that have followed in the wake of his own. At least a Blessed, if they don't succeed in finding a miracle.» ("Oxen" refere-se a um dos capítulos de "Ulysses", em que a história da prosa em língua inglesa é percorrida por meio de pastiches, num assombroso tour-de-force.) Assim se vê que, para além de génio, Joyce tinha um pouco de profeta, o que se coaduna com o seu estatuto de exilado crónico. Recomendo vivamente a consulta desta página, onde estão recenseadas algumas das preferências e aversões literárias de Joyce. Há também uma passagem de "A Portrait of the Artist as a Young Man" em que o jovem Stephen Dedalus é forçado a revelar que Newman e Byron são os seus prosadores e poetas favoritos, o que atrai a animosidade de dois colegas seus, admiradores de Tennyson.
A SUA ZONA JÁ TEM UM INTELECTUAL?: Chegou-me às mãos o primeiro número de uma revistazita de divulgação da actividade cultural e comercial da área das Avenidas Novas (Lisboa). Logo na página 4, anuncia-se um Ciclo de Cinema e Cultura ao Pequeno-Almoço, com arranque previsto para dia 15 de Outubro. Nesse dia, de acordo com o programa, "Intelectual da zona faz um comentário sobre cinema". Ignoro o que seja um intelectual da zona, mas a expressão sugere-me algo de manhoso e mais do que vagamente ilícito, a meio caminho entre "dealer" e simples pária tolerado. Declaro que valeu a pena ter folheado esta publicação, quanto mais não seja pela entrevista a Gérard Castello Lopes, a propósito da tertúlia do "Vá-Vá" (Fernando Lopes, Paulo Rocha, José Fonseca e Costa, João César Monteiro, Seixas Santos...). Morei, durante dois anos e meio, a cerca de três minutos a pé do "Vá-Vá" (sem contar os tempos de espera nos semáforos), sem nunca lá ter posto os pés. É por estas e por outras que sinto por vezes vontade de escrever "Cinéfilo preguiçoso" nos meus cartões de visita.
O REPUBLICANO QUE HÁ DENTRO DE CADA UM NÓS ÀS VEZES PÕE-SE A ESPERNEAR!: É algo que faz bem ao coração, constatar como é o dilatado o número de personalidades, de tão notável gabarito, que, de repente, se descobriram convictos adeptos do reforço dos poderes presidenciais, e de um semi-presidencialismo com tendência para largar o "semi", como se de um atavio incómo se tratasse, demasiado abafado para os tempos de tórrida crise que se avizinham. Com o aproximar do momento em que o povo soberano, nos moldes consagrados pela Constituição, elegerá o magistrado supremo da República, por sufrágio directo e universal, existe como que um entusiasmo renovado em torno da figura do presidente, e um vivo e são desejo de consolidar as suas competências. E não me venham agora uns quantos maledicentes insinuar que este afã, consubstanciado em numerosos artigos de opinião recentes, se deve unicamente ao calculismo interesseiro e oportunista de quem já antecipa um resultado favorável para as eleições, e que, deste modo, cederia ao pecadilho de preconizar soluções concretas e ad hominem sem parecer deixar o plano abstracto. Não! Nós acreditamos que este frémito traduz um sentimento genuíno, expresso de maneira espontânea, longinquamente apadrinhado por Gambetta, Afonso Costa, e, porque não, Montesquieu!

quarta-feira, outubro 19, 2005

A (MAGRA) COLHEITA DA FESTA DO CINEMA FRANCÊS: Este ano não vi mais do que três filmes... Este ano vi apenas três filmes... Não vi mais do que... Foram apenas três os filmes que... Não foram mais de três... Na Festa do Cinema Francês deste ano... Foram apenas em número de três... Fiquei-me por três filmes... A minha contabilidade pessoal... Ficou-se pelos três filmes... Fiquei-me por apenas três filmes, na Festa do Cinema Francês deste ano. Tão somítica colheita ter-se-á devido ao menor interesse (na minha humilde opinião) da selecção deste ano, quando comparada com anos passados, mas também, inevitavelmente, aos habituais constrangimentos de tempo e ânimo. Um factor adicional de desencorajamento foi a marcação de grande parte das sessões do programa lisboeta para o Instituto Franco-Português, cujo auditório, de dimensões reduzidas, não me parece minimamente capacitado para receber este tipo de iniciativa; acrescente-se ainda a isto tudo um horário absurdo (a última sessão, das 21h30, começava apenas duas horas após o início da anterior, fomentando a confusão e aglomerações entre um filme e o seguinte, e inviabilizando as pausas prandiais que não são despiciendas para a fruição cinéfila). Falando dos filmes que vi, o balanço pode fazer-se recorrendo somente a três substantivos: revelação, desilusão e confirmação. Pela revelação foi responsável Lucile Hadzihalilovic, ex-assistente de Gaspar Noé (o realizador de "Irréversible"), que assina com "Innocence", inspirado numa obra de Wedekind, uma intrigante primeira longa-metragem. Passado quase integralmente numa misteriosa escola de meninas, pautada por complexos rituais e por uma autarcia quase absoluta, este filme impressiona pela maneira como manipula uma simbologia directa e forte, assumindo-se deliberadamente como metáfora, mas sem se deixar cristalizar nesse estatuto, antes mantendo a porta aberta a uma multiplicidade de leituras. Uma realizadora a seguir. Com "Les Mots Bleus", Alain Corneau demonstra eloquentemente os riscos a que se expõe um realizador cujo principal talento se resume a adaptar, com a inspiração do momento, e um quanto baste de sensibilidade e bom gosto, obras literárias pré-existentes. Depois de um magnífico "Tous les Matins du Monde" e de um muito conseguido "Stupeur et Tremblements", Corneau assinou agora uma obra medíocre, sem o respaldo literário de Pascal Quignard ou Amélie Nothomb (desconheço por completo Dominique Mainard, em cujo livro de baseou o argumento de "Les Mots Bleus"). Esquemas psicologistas estafados, com desfecho previsível e pleno de pathos pré-fabricado, são, aqui, o prato forte, e o cabotinismo de Sergi Lopez ajuda sobremaneira à indigestão. Nem Sylvie Testud (uma das minhas actrizes francesas favoritas, pelo menos desde "La Captive" de Chantal Akerman) salva este filme, que parece querer demonstrar que a exibição das fragilidades humanas, devidamente lastradas pelos inevitáveis traumatismos de infância, chegam para compor uma obra artística válida. Sem o conseguir minimamente. Sobre o sumptuoso "Rois et Reine", de Arnaud Desplechin, pouco escreverei agora, por duas razões: porque se trata de um filme que não se presta a que sobre ele se escreva em cima do acontecimento (demasiado complexo, demasiado original, demasiado desconcertante), e porque a sua estreia está anunciada para breve pela Atalanta, o que me permitirá a ele voltar numa ocasião oportuna, quando mais pessoas o tiverem apreciado. Limito-me a dizer que Arnaud Desplechin reafirma, de forma inequívoca, o seu estatuto de cineasta mais empolgante e inventivo da sua geração. É sempre algo de maravilhoso, quando um criador cuja obra amamos atravessa uma fase em que ao talento se vem juntar a consciência plena desse mesmo talento, e a vontade de o explorar, sem excluir nem o virtuosismo celebratório nem o sentido da responsabilidade perante a arte que pratica. Creio que é precisamente nesse ponto que se encontra Desplechin.

terça-feira, outubro 18, 2005

PERGUNTAS SOBRE VIENA À ESPERA DE RESPOSTA (9/10): Na loja do museu Albertina, estava à venda uma caneca com uma imagem representando um famoso auto-retrato de Vincent van Gogh. A caneca possuía a particularidade de a orelha do artista desaparecer quando nela se vertia um líquido quente. Ora bem, a minha pergunta à espera de resposta é a seguinte: Has the world changed or have I changed? (The Smiths) (Nesta mesma linha, aqui, podem igualmente adquirir o St. Sebastian Pin Cushion - "for your favorite martyr".)
POPULISMOS: No seu espaço do jornal "Público" do passado dia 13, Pacheco Pereira enumera os três candidatos às autárquicas que, no seu entender, «fundaram a sua campanha quase exclusivamente num apelo populista sem freios». Os fautores de tamanho despautério são: Fátima Felgueiras, Valentim Loureiro e... Francisco Louçã. O mais decepcionante aqui nem é a falta de discernimento com que este comentador coloca tudo no mesmo saco, aparentemente apostado em testar os limites da credulidade dos seus leitores. Consternante mesmo é verificar que, um pouco mais adiante, PP menciona um "sistema" que teria sido responsável por uma campanha de ataque, dirigida contra Rui Rio, vinda de jornalistas do Porto. Tal "sistema" agregaria «todos os agentes comunicacionais, jornalistas, "artistas", meios da cultura subsidiada, intelectuais, instituições.» Sublinho, nesta curta citação: por um lado a palavra "todos", cujo emprego tem o mérito de deixar bem vincado que ninguém pode reivindicar estar fora deste tenebroso "sistema"; por outro lado, o preciosismo das aspas que envolvem a palavra "artistas", deixando pairar a dúvida sobre quais as individualidades da cultura tripeira (inevitavelmente fervorosos apoiantes de Rio) a quem o qualificativo seria aplicável com uma legitimidade que dispensasse esse sinal de pontuação. Ou seja: poucas linhas depois de condenar os populismos de toda a espécie, PP cede a uma das mais serôdias e repisadas formas desse mesmo populismo, ao evocar o fantasma de uma minoria elitista, composta por intelectuais, pela comunicação social e por asquerosos "artistas" enriquecidos à custa dos ovos de ouro do erário público, todos em flagrante delito de conspiração contra o esforçado candidato (inequivocamente apoiado, depreende-se facilmente, pela "maioria silenciosa", pelo "bom povo" decente e trabalhador, que não pode deixar de nutrir justo rancor e ressentimento pela tribo de bem pensantes que povoa as redacções dos jornais). Por momentos, julguei escutar ecos da diatribe inflamada de Fátima Felgueiras, na noite da vitória eleitoral, contra os comentadores e jornalistas que ousaram opinar contra ela ao arrepio da vontade maciça dos honestos felgueirenses.
LEITURAS: "Le Cousin Pons", de Honoré de Balzac. «Le moment exige que je fasse deux ou trois œuvres capitales qui renversent les faux dieux de cette littérature bâtarde, et qui prouveront que je suis plus jeune, plus frais, et plus grand que jamais» escreveu Balzac, numa carta a Madame Hanska. O momento é 1847, e os "falsos deuses" são, verosimilmente, os autores de folhetins de sucesso como Eugène Sue ("Les Mystères de Paris"). E uma das obras capitais que Balzac se sente compelido a escrever, neste seu crepúsculo de carreira, será "Le Cousin Pons". Poucas terão sido as novidades, de conteúdo ou de forma, que este romance trouxe à "Comédia Humana". Pode-se dizer que "Le Cousin Pons" é a obra de um homem tocado pelo despeito, movido pela urgência de mostrar aos outros e a si mesmo que ainda é capaz das mesmas proezas de antigamente, e de pôr cobro a um período de esterilidade (coincidente com os seus trajectos pela Europa em busca da felicidade conjugal) de uma forma categórica, de preferência não isenta de estrondo e sensação. As traves-mestras de "Le Cousin Pons" tinham já ajudado a sustentar porções importantes do edifício da "Comédia": o arrivismo, a cupidez como sentimento transversal a todos os estratos da sociedade, o coleccionismo, o amor pela Arte como indutor de comportamentos bizarros e potenciadores da desgraça, a linguagem da Lei como armadilha e arma retórica à disposição dos perversos. Balzac actua, sem pudor, como um mestre de cerimónias, que faz intervir os diferentes elementos e personagens com um sentido de oportunidade que, ao mesmo tempo, lhes pertence e serve a narrativa. Como se o próprio autor se perfilasse lado a lado com os facínoras que arquitectam a perdição de Pons e a usurpação da sua herança de quadros valiosos. Pons, velho músico solteirão de fealdade inaudita, doentiamente apaixonado pela sua pinacoteca pessoal, viciado nos prazeres da gastronomia, é uma das mais ricas criações da derradeira fase do período de Balzac. Alma sensível entre empedernidos, o seu trágico fim, neste romance negro em que o Mal triunfa em toda a linha, assemelha-se demasiado a um sacrifício no altar do talento do autor. Raras vezes Balzac terá ido tão longe na sondagem do cinismo humano. A três anos da morte do romancista, a corrupção do seu semelhante afirma-se, em definitivo, como fulcro da sua diabólica máquina romanesca.

sábado, outubro 15, 2005

LEITURAS: No romance "Le Cousin Pons", de Balzac, Schmucke, músico alemão residente em Paris, sofre um cruel desgosto com o falecimento do seu amigo Pons. A única personagem que não alberga dúvidas sobre a sinceridade da dor de Schmucke (designado herdeiro universal por Pons, que era possuidor de uma colecção de arte de valor incalculável) é o mestre de cerimónias das pompas fúnebres: «Le maître des cérémonies regarda Schmucke d'un air de pitié, car cet expert en douleur distinguait bien le vrai du faux(...)»
XADREZ: Tal como se esperava, Veselin Topalov, da Bulgária, sagrou-se campeão do mundo da Federação Internacional de Xadrez (FIDE), ao terminar com um ponto e meio de vantagem sobre os mais directos perseguidores, no torneio realizado em San Luis, Argentina. (Ver aqui, o relato relativo à última jornada, e, aqui, a página oficial do campeonato do mundo.) Topalov culmina assim um ciclo fabuloso de grandes resultados, sagrando-se campeão com todo o merecimento. O seu início foi fulgurante (seis vitórias e um empate). A meio do torneio, a sua performance era sobre-humana. Na segunda metade, Topalov geriu a sua vantagem com inteligência, acumulando os empates. No entanto, é de salientar que Topalov só esporadicamente se permitiu daqueles empates curtos e sensaborões de que abusam tantos grandes-mestres. O seu espírito combativo raramente o abandonou. Acompanharam Topalov no pódio o indiano Vyswanathan Anand e o russo Peter Svidler. Para além destes, o russo Aleksandr Morozevich e o uzbeque Rustam Kasimdzhanov (o ex-campeão agora destronado) podem estar relativamente satisfeitos com a sua actuação. Em contrapartida, o torneio foi um rotundo fracasso para o húngaro Péter Lékó (apontado como um dos grandes favoritos, e que não passou de quinto), para o inglês Michael Adams, e para a húngara Judit Polgár, única mulher presente. A FIDE dispõe agora de um campeão inequívoco e incontestável, que não deixará de apresentar como trunfo em eventuais negociações com o campeão do mundo oficioso (o russo Vladimir Kramnik), com vista a uma reunificação dos títulos. Estou curioso em acompanhar a evolução dos acontecimentos. (Para aqueles que se interessam por estas coisas, ou que sentem nem que seja um grãozinho de curiosidade para saber os extremos de paixão e de retórica que se atingem quando se discute "quem é o verdadeiro campeão do mundo de xadrez", aconselho esta longa linha de comentários no blog de Mig Greengard.)

quinta-feira, outubro 13, 2005

MISSÃO: RECUPERAÇÃO DO TEMPO PERDIDO (2): Goradas que foram as boas intenções de apresentar, um a um, os candidatos ao título de campeão do mundo de xadrez, resta-me anunciar que o búlgaro Veselin Topalov está prestes a levar a melhor sobre os seus adversários, no torneio que decorre em San Luis, Argentina. A duas rondas do final, Topalov dispõe de 1,5 pontos de avanço sobre os perseguidores mais próximos (relembro que, em xadrez, uma vitória vale um ponto, e o empate meio ponto). Tudo ficará decidido nos próximos dois dias. Se Topalov triunfar, como tudo parece indicar, verificar-se-á uma situação curiosa: a Bulgária deterá o monopólio sobre os títulos mundiais de xadrez masculino, feminino e de veteranos.
MISSÃO: RECUPERAÇÃO DO TEMPO PERDIDO (1): O blog Seta Despedida cumpriu 2 anos no passado dia 25. Quanto representam 2 anos em anos de blog? Pelo menos uns 100 ou 200, estimo eu, atendendo à enorme quantidade daqueles que entregaram a virtual alma ao criador em menos de um périplo terrestre. E, com efeito, estes últimos 2 anos parecem-me ter contido várias vidas.
MISSÃO: RECUPERAÇÃO DO TEMPO PERDIDO (0): No decurso desta paragem, que motivos imprevistos prolongaram para lá do inicialmente esperado, houve vários acontecimentos que foram passados em claro. Tentaremos repescar alguns daqueles a que o colectivo, na sua imensa sabedoria (aqui no 1bsk pratica-se a democracia directa), atribuiu pertinência e importância mais graúdas. É forte a tentação de parafrasear Yourcenar: O Tempo, esse grande Estafermo.
GENEALOGIA: Este blog equivale a um (desnecessário) cruzamento entre o (meio) minuto de silêncio de Anna Karina, Sami Frey e Claude Brasseur em "Bande à Part", de Godard, e o grito de Michael Lonsdale em "India Song", de Duras.

quinta-feira, setembro 15, 2005

MEDO DO ESCURO: Não daquilo que se esconde no escuro. Do escuro.
NEM MENSAGEM NEM GARRAFA: Este blog aproxima-se cada vez mais do seu espírito original: absolutamente nada para dizer, e a embaraçosa necessidade de reunir um punhado de testemunhas para constatar isso mesmo.
IDEIA PARA UM CONTO: Lançar para o mundo personagens que, para além do T2 partilhado em Queluz e do apetite fortuito pelo teatro amador, sejam prodigiosos produtores de literatura, por vezes fantástica, por vezes virtual, quase sempre supérflua. (Dotá-los de meios de locomoção, de sentido gregário e de um pudor que ninguém acredite não ser simulado.)

quarta-feira, setembro 14, 2005

XADREZ: Vai ter lugar, entre os dias 27 de Setembro e 16 de Outubro, o campeonato mundial de xadrez, em San Luis, na Argentina. Espero, ao longo dos próximos dias, ir fazendo apresentações dos 8 grandes-mestres que disputarão a coroa mundial neste torneio. Para já, impõe-se uma breve contextualização do panorama actual do xadrez mundial, sem o qual o leitor menos informado não terá possibilidades de compreender a relevância deste acontecimento. Desde 1993 que o título mundial de xadrez se encontra cindido em dois. Nessa data, Garry Kasparov e Nigel Short optaram por romper com a FIDE (Federação Internacional de Xadrez, que atribuía o título desde os anos 40), e por disputar o seu encontro relativo à final do campeonato do mundo sob a égide de uma outra organização criada para o efeito. A partir de então, têm coexistido dois títulos mundiais: o oficial, sob a responsabilidade da FIDE, e o oficioso, que tem vindo a ser organizado por diversas entidades, e é directamente herdeiro desse encontro Kasparov-Short. A comunidade escaquística tem sido terreno fértil para debates (geralmente tão estéreis quanto repetitivos) sobre quem é o "verdadeiro" campeão do mundo. Os "legitimistas" afirmam que só a FIDE tem o direito de outorgar um título mundial, à falta de outra organização com um mínimo de solidez; aceitar o contrário seria regressar aos tempos da arbitrariedade total, em que o campeão do mundo era o proprietário do título, e, basicamente, só o punha em jogo quando e nas condições que lhe apetecesse. Do outro lado da barricada estão aqueles que defendem ser o título oficioso (ou "clássico") aquele que melhor respeita a tradição e a verdade desportiva, porque representa a continuidade relativamente ao historial de campeões que teve início com Wilhelm Steinitz, em 1886; afirmam também que a FIDE, ao mudar por completo os moldes em que o campeonato do mundo é disputado, lhe retirou credibilidade. Como se compreenderá, esta situação lamentável tem contribuído para transmitir uma imagem pouco lisonjeira da modalidade, o que, segundo muitos comentadores, tem dificultado a sua evolução enquanto actividade profissional, nomeadamente ao nível da obtenção de patrocínios. A primeira tentativa consistente de reunificação, o chamado "acordo de Praga", abortou quando o encontro previsto entre Garry Kasparov e Rustan Kasimdzhanov (actual campeão FIDE), após vários adiamentos, foi finalmente cancelado. (A integração de Kasparov neste processo, diga-se a talhe de foice, tinha representado uma profunda injustiça e um grosseiro privilégio, justificável apenas pelo prestígio, peso mediático e influência negocial da personagem. Kasparov, entretanto, anunciou o abandono completo da modalidade, no princípio deste ano.) Decidida a retomar o domínio da situação, a FIDE anunciou um torneio para a atribuição do título mundial, integrando o actual campeão e 7 outros jogadores. Tanto Kasparov como Vladimir Kramnik (actual campeão do mundo oficioso) declinaram o convite, sendo substituídos por outros dois grandes-mestres. Ao contrário do que sucedeu com outros anúncios da FIDE, tudo indica que este se irá concretizar. O vencedor do torneio de San Luis não será o campeão unificado. Porém, é de prever que Kramnik, sem o peso nem a fama de Kasparov, e fragilizado por uma série de fracas actuações em torneios recentes, verá a credibilidade do seu título muito afectada. Tudo dependerá, a meu ver, da prontidão com que colocar o seu próprio título em jogo, e da capacidade demonstrada pela Association of Chess Professionals, que o apoia. Mas chega de política. Esperemos pelo xadrez, e que este seja de puríssimo quilate, capaz de planar bem acima do nível rasteiro das querelas humanas.

segunda-feira, setembro 12, 2005

O SEU A SEU DONO: Celebrar-se-á, dentro de poucos meses, o centenário da lei que, em França, determinou a separação entre Igreja e Estado. Neste blog, daremos o devido destaque a este momento decisivo da história contemporânea. Em 2 de Dezembro de 1905, lia-se, no jornal católico "La Croix": «La loi veut faire de notre pays une exception unique et monstrueuse, inconnue de l'histoire, inconnue de la géographie: un pays sans Dieu.» Paradoxalmente (desde que se substitua "país" por "Estado"), até subscrevo estas palavras, a cem anos de distância. Mas em tom de exaltação, e não de consternação. É por estas e outras excepcionalidades que sou francófilo, e que o sou também retroactivamente.
ANÚNCIOS DE GATO PERDIDO INVENTADOS (12):
Perdeu-se lindo gato,
ó passantes,
ficai sabendo que esse lindo gato sou eu que vos escrevo
em rectângulos A4, à míngua de arauto garboso
que proclamasse o meu sonoro drama
!
Perdi-me do meu dono,
esse que uma espiritualidade mal dirigida
e o consumo compulsivo de Xanax transformaram
numa sombra daquilo que foi.
Os nossos afectos eram como laços,
como laços levou-os um zéfiro falso e cálido,
assistido por esse escultor cego, o
tempo.
Erro por travessas indiferentes
à minha dor.
Perdi-me do meu dono, mas apenas
simbolicamente, pois conheço o caminho para casa,
aliás estou agora junto à soleira,
saciado com o conteúdo de uma lata de sardinhas,
por sinal com molho de tomate picante.
Perdi-o enquanto bússola moral,
dedicado titilador da minha vaidade felina,
intermediário entre a minha insignificância
e o Mundo maiúsculo, bojudo,
pejado de leis e de ícones.
Bocejo, faz-se tarde.
Onde ia eu?
Bem, é um drama, aquilo que eu vivo.
Sem uma figura de dono, um bichano
não passa de um farrapo.
Gato por conta própria: eis coisa que não se admite!
Tende, pois, piedade de mim, passantes!
Dedicai a este felino albípede pelo menos um
dos vossos milhentos pensamentos
efémeros.
Apoiai o meu dono nesta hora ingrata.
À falta do que, definharei.
KAK-40: Leia o 1bsk, um blog que nunca será apanhado em contraciclo com as principais praças financeiras europeias!
LATIN'AMÉRICA: A Mostra de Cinema da América Latina já tem um site. Ainda não me debrucei com um pouco de calma sobre a programação. Entre os realizadores, não há nenhum nome que eu conheça. Espero vir a falar novamente sobre esta iniciativa. As hostilidades abrem na próxima quinta-feira.

quinta-feira, setembro 08, 2005

UM ENIGMA EM CAMADAS: Acalorados protestos de honestos pasteleiros indignados por verem reprimida a sua veia de críticos musicais... Uma prestigiada empresa de confeitaria em profunda crise... Manifestações de consumidores frustrados dispostos a tudo... E se a verdade por detrás deste caso tão delicado fosse muito mais profunda e sinistra do que parecem sugerir as aparências? A quem aproveita a instabilidade social? E se... (Atenção, trata-se apenas de suposições, meros feixes de conjecturas lançados à atmosfera ventosa de um fim de verão.) E se tamanho rebuliço se destinasse a esconder uma situação cem vezes mais embaraçosa? Terão algum fundo de verdade os rumores segundo os quais a fábrica de chocolates Mirabell encerra o segredo mais bem guardado da história da música ocidental? Poucos eruditos o admitem, com medo de serem ridicularizados pelos seus pares... Porém, à boca fechada, reconhece-se serem cada vez mais sólidos os indícios segundo os quais a grande maioria das obras atribuídas a Wolfgang Amadeus Mozart terão sido compostas pela irmã, Nannerl. Para citar apenas um exemplo, a ópera "Così Fan Tutte" chamava-se originalmente "Così Fan Tutti" (o que vem na linha, aliás, desta sugestão do Dissoluto Punito). A esse libelo dirigido por Nannerl contra a inconstância masculina, contudo, Wolfgang, com a cumplicidade do amigalhaço Lorenzo Da Ponte, aplicou uma simples mudança de género, tendo-a apresentado como obra sua, valendo-se da credibilidade que lhe grangeara a sua reputação de criança-prodígio. No seu leito de morte, instigado pelo remorso, e pelo inevitável visitante misterioso, Wolfgang acabou por redigir uma confissão. Guardada num baú pertencente ao seu último senhorio, e esquecido durante décadas, este documento foi encontrado por fim por Paul Fürst, um modesto confeiteiro de Salzburgo. Reconhecendo imediatamente a importância e gravidade da sua descoberta, Fürst dispôs-se a revelá-la, mas as reacções de choque e indignação persuadiram-no a adoptar um perfil mais discreto. Para financiar as suas investigações (com o fim de dar mais solidez aos argumentos favoráveis à sua tese), fundou a sua casa de chocolates, a Mirabell, e inventou a especialidade que lhe trouxe fama: uma bola de maçapão envolvida numa camada de praline e numa camada exterior de chocolate. O sucesso extraordinário desta guloseima subverteu as prioridades de Fürst: de melómano com uma missão, transformou-se num industrial preocupado apenas com a expansão do seu negócio. O segredo foi sendo transmitido através das gerações, e transformando-se num risco para a prosperidade de um negócio sólido e dinâmico. Por mais ciosos que fossem da inviolabilidade do segredo, os proprietários da Mirabell não conseguiram impedir por completo as fugas (que, diga-se o que disser, não são exclusivas da Procuradoria Geral da República Portuguesa). O segredo da autoria das obras de Mozart é, cada vez mais, um segredo de polichinelo. Mas os últimos a admiti-lo serão os que se recusam a admitir que fundaram um império chocolateiro sobre a supressão da verdade histórica. Será que esta instabilidade social súbita não passa de poeira para os olhos, tentativa de adiar o momento em que toda a verdade virá à superfície? Mas tudo isto, como eu digo, não passam de conjecturas... Assim como não passa de um rumor, isso que se diz por aí, de que, por detrás desta onda de revisionismo na história da música, se encontram grupos económicos poderosos, cuja face visível ao grande público são os licores Nannerl... Disponíveis em todas as lojas de recordações de Viena.
UM ESTUDO EM PÚRPURA: Nunca fui tão sincero neste blog como quando omiti a adjectivação associável à voz de Michael Lonsdale no filme "India Song".
PERGUNTAS SOBRE VIENA À ESPERA DE RESPOSTA (8/10): Uma sex-shop num aeroporto e uma montra com propaganda anti-aborto extremamente gráfica chegam para que se possa empregar a expressão "cidade de contradições"?
AGENDA: Os cinéfilos, nomeadamente os da região de Lisboa, não terão mãos a medir nos próximos tempos! Se não, vejamos.
  • De 15 a 24 de Setembro, Mostra de Cinema da América Latina, no Fórum Lisboa.

  • De 24 a 27 de Setembro, o Programa Designmatography IV, na Culturgest, com selecções das obras de quatro realizadores de cinema experimental norte-americanos: Morgan Fisher, Thom Andersen, Bruce Conner e Owen Land.
  • De 6 a 16 de Outubro, a sempre muito esperada Festa do Cinema Francês, no Fórum Lisboa (com extensões a outras cidades do país).
  • De 15 a 23 de Outubro, o festival DocLisboa, na Culturgest.

Tanto quanto pude descobrir, nem a Mostra de Cinema da América Latina nem a Festa do Cinema Francês têm programa ou site disponível na Internet, pelo menos para já. Limito-me, assim, a remeter para a página da EGEAC, que geria o Fórum Lisboa até à pouco. A propósito, espero ardentemente que os recentes quiproquós em torno desta empresa municipal não ponham em causa a realização destas (e de outras) iniciativas! Cruzemos os nossos dedos cinéfilos, e invoquemos São Carl Theodor, Santo Andrei...

ISTO ANDA TUDO LIGADO: Esta era a divisa dos tempos idos do 1bsk. E continua a sê-lo, embora de maneira latente. A falha transversal que recorta Lisboa, do zénite às catacumbas, dá-se bem com uma condição de semi-clandestinidade. Adoptamos a famosa táctica do grande republicano Léon Gambetta: Y penser toujours, n'en parler jamais! Acreditar nas causas e consequências que ligam as coisas, as pessoas, os factos, as leis, as paixões. Flutuar nas torrentes de ternura e desespero que essa crença segrega.

terça-feira, setembro 06, 2005

CINEMA: "De Battre Mon Cœur S'Est Arrêté", de Jacques Audiard. Atendendo à sua delicada premissa nuclear (um semi-rufia amoral, com apetite pelas conquistas amorosas, que decide reinvestir tempo na sua antiga paixão pelo piano), não mais do que duas bóias de salvação se ofereciam a este filme: ou glosar com derisão e distância o tema do "duro com talento", que aflora as teclas com mãos feridas por lacerações de refregas várias, ou então elevá-lo a um expoente máximo de violência expressionista, dinamitando, ao mesmo tempo, a verosimilhança e o sentimentalismo. Audiard, assim como o co-argumentista Tonino Benacquista, evitam ambas estas alternativas. Ao longo de todo o filme, parecem hesitar entre uma compaixão pudica pela personagem de Thomas e uma dimensão trágica que, francamente, nunca logra deixar para trás o seu lastro de lugares comuns. Pior ainda: com demasiada frequência, todo o esforço criativo que subjaz ao filme parece subordinado ao mero conflito entre as realidades imiscíveis da brutalidade física e da sensibilidade artística; e a abdicação que isto representa (como se um filme se movesse apenas à força de sucessivos e abruptos conflitos entre naturezas contrárias) é tanto mais frustrante quanto deixa por explorar numerosíssimas ocasiões potencialmente propiciadoras de intensidade dramática. O que de melhor tem "De Battre Mon Cœur S'Est Arrêté", para além do confronto entre filho e pai (espantoso, subtil Niels Arestrup), dessa cumplicidade ressentida, entre ternura e feroz indiferença, é, sem dúvida, o magnetismo que se desprende da personagem principal: Thomas Seyr, ex-virtuoso, convertido em elemento de um triúnviro de agentes imobiliários despidos de escrúpulos. A interpretação de Romain Duris (um actor ao qual, até ao momento, eu estaria longe de atribuir talento ao nível dos melhores da sua geração) é, a todos os títulos, notável. Dei por mim a desejar que o filme tivesse sabido acompanhar aquele histrionismo controlado, todo ele impulsos e arestas, aquela inconstante mistura de extroversão e de recalcamento; numa palavra, aquele corpo. Corpo ora falho de jeito, ríspido e incongruente, ora milimetricamente controlado. Na linha de Belmondo ou de Delon, Duris supera a dicotomia superficialidade/profundidade, compondo um "duro" cujo impacto visual imediato e insolente (eficazmente suscitado pela câmara de Audiard) sugere oceanos de conflito íntimo. Pudesse o filme ter feito jus a esta sublime dimensão corpórea da personagem, poupando-nos a certas desastradas guinadas do argumento e às "histoires de cul" enfadonhas, e teríamos algo um pouco mais próximo de uma obra-prima do que de um "polar" medíocre e rotineiro. (Evitei, propositadamente, falar sobre a maravilhosa Emmanuelle Devos, que tem um papel menor, e a quem espero dedicar post separado.)

domingo, setembro 04, 2005

BLOGAVANTE, MARCHE!: O Rui, que co-protagonizou uma aventura mineralógica ainda de fresca e grata memória, entrou como novo inquilino neste espaço, de onde nos passará a enviar notícias sobre fundo negro e sob título beckettiano. Nestes trilhos, já conhecidos, as bermas passam a conter novos motivos de interesse para encher as medidas ao peregrino. Se isto não é uma esplêndida notícia, então façam o favor de me mostrar uma esplêndida notícia, para eu aprender o que é.
PERGUNTAS SOBRE VIENA À ESPERA DE RESPOSTA (7/10): Como explicar a extraordinária profusão de cadernos Moleskine nas montras dos estabelecimentos de papelaria (e não só) vienenses? Admiração ou afinidade de todo um povo para com o escritor Bruce Chatwin, frenético consumidor destes blocos de notas (a acreditar na lenda que se apregoa)? Necessidade, partilhada por um generoso quinhão dos cidadãos, de apontar por escrito factos do quotidiano, pensamentos, inspirações fugidias, etc., para os quais a memória de curto prazo não se afigura suficiente? Política comercial agressiva da empresa fabricante? Ou uma quarta razão, ainda mais inverosímil, menos vulnerável às especulações do turista ocasional?
"JOURS LE JOUR" (5 E FIM): São estas as palavras finais do livro de Michelle Grangaud: «Le temps qui passe, le tank y passe, le sang qui tape, que sent-il passe, le temps qui sape, le tas qui pense, lent petit sac, que scie la tempe, lente qui passe, pâle temps kiss, kiss tend le pas. Car aujourd'hui n'est pas fini. Demain, après-demain, l'année prochaine ou dans mille ans, il y aura quelqu'un, ou du moins quelque chose, pour être encore aujourd'hui.
FOR USE AND DOSAGE IN THE ABSENCE OF DATA»
Este tributo final ao deíctico "hoje" encapsula a essência da obra: uma manifestação de discreta euforia pela capacidade indestrutível de se referir a um "agora", a um "este dia" que pressupõe a existência de um referencial temporal. Como se triunfar sobre a tirania do tempo passasse, não por projectar a soma dos anseios humanos num limbo intemporal, mas sim, bem pelo contrário, por abraçar com sofreguidão o decurso do tempo, conviver com a finitude e com ela dialogar por meio dos gestos e frases do quotidiano; ou seja, inscrever a vida, com deliberação, paixão e lucidez, no sulco moroso da cronologia. Contando sempre com o mais precioso garante da existência, e do devir de onde brotam tanto o amor como o desgosto: o poder de dizer "HOJE". A morte da eternidade. Parece ser isto que prefigura "Jours les Jour".

quinta-feira, setembro 01, 2005

"JOURS LE JOUR"(4): Ainda outro extracto do livro de Michelle Grangaud: «Il ne voulait pas me croire quand je lui ai dit qu'il existe à Paris une rue Lucien-Leuwen. Une rue qui porterait le nom d'un personnage de roman, impossible, dit-il. Je l'ai emmené, nous avions le temps.» Com efeito, existe em Paris (XXème arrondissement) uma rua baptizada em honra da personagem principal do romance de Stendhal. E, o que mais é, não é este um caso solitário em matéria de artérias parisienses com nomes de personagens ou títulos de romances, de peças de teatro ou de poemas. O precioso "Histoire et Mémoire du Nom des Rues de Paris", de Alfred Fierro, assinala: uma rue Monte Cristo (XXème arrondissement), uma villa Jocelyn (homenagem a um poema de Lamartine, XVIème arrondissement), uma rue d'Artagnan (XIIème arrondissement), e uma place de l'Assommoir (esta não consegui localizar na planta), próxima do local onde Émile Zola situa a acção do seu ciclo romanesco dos "Rougon-Macquart". Até onde o meu conhecimento alcança, não existe nenhuma rua de Lisboa que preste tributo explicitamente a uma personagem ou obra literária (com excepção da rua dos Lusíadas), o que é, deveras, uma lástima. À atenção das comissões de toponímia: uma Rua do Conselheiro Acácio, uma Praceta de Mofina Mendes, quiçá um Largo da Sibila, seriam como outras tantas luzidias cerejas no topo do bolo da urbe alfacinha!
TODO O MUNDO É COMPOSTO DE MUDANÇA, REMIX DO DJ DELGADO: Luís Delgado recalcou durante demasiado tempo a sua vocação de áugure: eis que ela ressurge com uma pujança que nos recorda os seus melhores dias! O DJ Delgado começa por nos revelar que «sendo o Poder efémero, passageiro, e inexistente, a nível de um Executivo, mesmo que apoiado numa maioria absoluta (que não é mais do que relativa...), como aliás se tem visto, aqui e noutros países, é sensato começar a olhar para as alternativas, construí-las, e fazer reaparecer os políticos que marcarão o nosso futuro.» Repare-se na delicada contenção com que as reticências encerram toda uma sabedoria inacessível ao não iniciado, perante a qual seria uma grotesca falta de sensatez e decoro ousar perguntar por que razão a maioria absoluta do governo PS não é mais do que relativa. O DJ Delgado prossegue o recital com a enumeração (que se pressupõe não exaustiva) de todos os temíveis escolhos que, inevitavelmente, farão soçobrar a caravela governativa, no decorrer de um ano de 2006 que se antevê "depressivo, tenso, irritante e inquietante". Sem desejar competir com Delgado no que toca à capacidade de síntese, contento-me em remeter para o texto original. À falta de clarividência, a prosa delgadiana possui sobre os oráculos délficos uma linearidade denotativa que a torna compreensível para a proverbial criança de cinco anos. Para rematar, para demonstrar que é mais do que um cronista "bota-abaixo", para provar que não é feito da mesma massa do que os demais artesãos da opinião que se limitam a maldizer sem apontar vias alternativas, o nosso esforçado DJ revela o nome do messias que está destinado a resgatar a nação ao mais tenebroso marasmo: «Querem um nome de futuro, credível, carismático e com capacidade de liderança? Nuno Morais Sarmento. E há mais, muitos mais, que já deram provas e reaparecerão, mais dia menos dia...» Delgado presta assim um inestimável serviço a todos os portugueses: ao sugerir que estamos reduzidos a esperar que alguém como Morais Sarmento ressurja, no esplendor do seu carisma, para assumir o leme da nação, mostra-nos a verdadeira profundidade do fosso em que nos encontramos. (Quanto aos "mais, muitos mais" que pedem meças a Sarmento em matéria de carisma e valor, a quem se poderá Delgado estar a referir? Eu aposto em Fernandes Thomaz e em Martins da Cruz.)

quarta-feira, agosto 31, 2005

VERSOS PORQUE EM FORMA DE LÁBIOS ABERTOS: Mais uma instância de boca descorporalizada, depois deste, e à espera de outros que, à maneira do gato da Alice, se dignem recortar o ar no futuro. Ternos amantes! Vós competis com o violino e com timbales competem os boçais. Mas como eu não podeis fazer? Ser todo lábios, sem pesado corpo? (Vladimir Mayakovsky, extraído do poema "A Nuvem de Calças". Tradução de Manuel de Seabra. Da antologia "Poetas Russos", Relógio d'Água, 1995.)
CASTANHO POR FORA, MAS NÃO VERDE POR DENTRO: Finalmente, uma das minhas perguntas sobre Viena à espera de resposta obteve resposta! A sugestão, avançada pelo Digitalis, de que a ausência do interior verde nos bombons Mozart se deveria à incúria dos confeiteiros, demasiado ávidos de delícias melómanas para se demorarem na escolha de pistáchios devidamente coloridos, parece-me perfeitamente plausível! E atrevo-me até a alvitrar uma variante: a falta de zelo na confecção dos fabulosos bombons teve como origem directa uma acalorada discussão sobre qual das versões do "Don Giovanni" leva a palma sobre todas as outras. Enquanto se discute música, as delicadas minudências da gastronomia passam para plano secundário.

segunda-feira, agosto 29, 2005

PERGUNTAS SOBRE VIENA À ESPERA DE RESPOSTA (6/10): Como é que possível que uma das obras-primas da pintura universal esteja exposta num museu instalado numa academia de Belas-Artes (a Akademie der Bildenden Künste), com um funcionário de bilheteira que se encarrega ao mesmo tempo da venda de postais e do bengaleiro, e com casas-de-banho decrépitas e pejadas de graffiti (alguns dos quais, e não dos menos ordinarões, redigidos em português)?

Hieronymus Bosch, Tríptico do Julgamento Final (painel central), 1504-1508

"JOURS LE JOUR"(3): Um dos aspectos que mais me impressiona no livro de Michelle Grangaud é a maneira como, em certas entradas, a autora sabota o assunto que parecia estar a esboçar, abandonando-o em favor de uma deriva, de natureza verbal, conceptual ou híbrida, tudo isto sem o mínimo rumor, sem sombra de fractura ou solução de continuidade. Não sei se terá sido essa a sua intenção, mas este procedimento parece-me emular os processos cognitivos de uma pessoa mergulhada no ruído branco do quotidiano, e de uma atenção solicitada por mensagens, notas mentais, estribilhos, signos e movimentos, numa catadupa incessante que esbate hierarquias e prioridades, oferece enlevos transitórios, prodigaliza sucessivos centros de gravidade para o pensamento. Estamos aqui igualmente longe do pathos de filiação trágica mais ou menos explícita, e desse lirismo quotidiano, que tão prontamente degenera em abjeccionismo ou em detestável irrelevância. Neste limbo, nesta estreita faixa neutra e pudica que "Jours le Jour" habita, forma e conteúdo são fantasmas diáfanos que se acariciam sem nunca romperem nem consumarem. E a melancolia que se desprende, longe de corresponder à nostalgia por uma época ou cidade gratificante e úbere de sentido, tem algo de resignação apaziguada, tem algo até de esperança. Dois extractos: «Petite flaque, cité Blanche. La jeune caissière qui a des lunettes et qui louche un peu (mais gentiment) me demande si c'est bon, le surgelé que j'ai pris. Je ne sais pas, c'est un essai. Elle commente d'un ton de reproche, tout le monde me répond la même chose. Pendant ce temps Couplan, Moudang et Louron forment la Neste d'Aure qui descend du mont Perdu pour se jeter dans la Garonne.» «Villa Brune. Allô, passez-moi la maternité. C'est toujours la même erreur. J'avais eu du mal à m'endormir. Le réveil lumineux affiche l'heure en rouge, un mauvais œil insomniaque, 3 h 55, et les secondes qui défilent, elles ne défilent pas, on dirait plutôt une espèce de palpitation comme si c'était toujours la même seconde qui simplement changeait de forme. Le rêve disait: succession d'instants ou succession d'instantanés? Cherchez la différence. J'espère pouvoir mourir avant d'être tout à fait vieille.»

quinta-feira, agosto 25, 2005

PERGUNTAS SOBRE VIENA À ESPERA DE RESPOSTA (5/10): Os cavalicoques atrelados às caleches que efectuam os passeios turísticos pelas ruas de Viena têm um modo peculiar de repousar: assentam um (e apenas um) dos seus cascos sobre a aresta frontal, como que desejosos de esgravatar no asfalto, ao passo que os restantes cascos ficam assentes normalmente no solo. Posição natural, ou resultado de um treino exaustivo, num país com tradições na arte do ensino hípico? (Nem sequer sei se aquilo são caleches, mas não é essa a pergunta.)
"JOURS LE JOUR"(2): Seguem-se dois excertos do livro, retirados daqui (onde também podem encontrar a tradução para inglês): Tourbillon, passage de l’Aurès. Les bureaux de poste, fermés hier dans toute la France,rouvrent aujourd’hui. On distribue le courrier à La Tronche, La Pomme,La Table, La Chaise, La Flotte, La Châtelaine, La Fermeté, La Force,La Possession, La Veuve, La Morte, La Trinité, La Compote, on reçoit des lettres à Sarcelles Biches Agneaux Bourdon Ver Faucon Cigogne, Autruche Caille Colombes Merles Merle Canari Grives Chatte Mouches Mouettes Mouton Poisson, des cartes postales affluent d’Italie, d’Espagne,de Turquie, de Grèce, ils sont en Islande, en Écosse, en Autriche, au Portugal, au Mexique, en Hongrie, en Charente-Maritime, en Finlande,au Brésil, dans le Vaucluse, au Japon, d’où ils envoient leurs amitiés, combien d’amitiés se sont croisées en route sans se reconnaître, ils partent en Chine, ils partent en Floride, ils retournent en Afrique du Sud, ceux qui ne partent pas ne reçoivent que très peu de courrier, c’est la loi des vases communicants, biscotto salato tradizionale en polonais le déluge se dit potop et s’accommode à merveille avec du vin ou toute autre boisson apéritive. La nuit, Villa Brune. Écoute : triolet, strette, gruppetto, appoggiature, scherzo, arpège,capriccio, roulade, antienne, andante, pizzicato, crescendo, aforzando,staccato, trille, fugue, contrepoint, coda, comptine, blues, partita, cantilène, sérénade, écoute les bruissements du vent.
LEITURAS: Acabei de ler, há já uns mesitos, um livro de uma beleza e inteligência fulgurantes, de que não queria deixar de vos falar. Intitula-se "Jours le Jour", e tem como autora Michelle Grangaud. Grangaud é uma escritora dificilmente classificável, devido à natureza heterogénea da sua obra, mas é comum vê-la citada entre os representantes mais destacados da poesia contemporânea francesa. O seu gosto pelas experimentações linguísticas levou-a, com naturalidade, ao contacto com o grupo OuLiPo ("Ouvroir de Littérature Potentielle"), de que é membro desde 1995. (Sobre o OuLiPo, do qual fizeram parte Raymond Queneau, Georges Perec e Italo Calvino, entre outros, talvez chegue um dia o momento de discorrer com mais demora.) Como transmitir uma ideia da natureza de "Jours le Jour"? Servindo-me de uma metáfora que os quase três anos de blogosfera lusa desgastaram até à medula, poderia sugerir que se assemelha a um blog: textos soltos, entradas individualizadas, um registo diarístico não explicitado, trivialidade cortada por derivas na direcção de algo subitamente mais profundo ou penoso. Abundam as enumerações, as associações de ideias inesperadas, as aliterações, as descrições do quotidiano, os jogos de palavras gratuitos, tudo sobre um fundo de paisagem urbana parisiense, ao mesmo tempo inebriante e desconcertante. As vivências de um narrador (ou de vários, possivelmente) são-nos transmitidas numa primeira pessoa incapaz de polarizar numa identidade um qualquer esboço de enredo ou acção. Os pontos de referência temporais e geográficos aparecem-nos, na sua sistematicidade aparente, como esparsos e contraditórios. Mais do que qualquer experiência pessoal, o verdadeiro tema de "Jours le Jour" parece-me ser a cidade de Paris e a infinidade de encruzilhadas biográficas e mentais que ela propicia, assim como o conflito entre a esfera privada (os sentimentos, as relações, os objectos e preocupações do quotidiano) e a esfera pública (publicidade, transportes, notícias, mobiliário urbano), que engendra numerosas soluções de continuidade quase-narrativa exploradas com uma sobriedade que não exclui algo de afim ao fascínio.
SEMPRE COM O POVO: Ao contrário de certos políticos pusilânimes, que parecem ter medo de se aproximar do povo, e isso, o Umblogsobrekleist está pronto para visitar o Mercado do Bolhão! Não receamos escutar aquilo que a boa e generosa gente deste país tem para nos dizer! Não vivemos no alto de torres de marfim nem no interior de subtis redomas! (Aproveito para exprimir o meu desejo ardente de que as obras no túnel da Avenida de Ceuta respeitem os princípios elementares do Feng Shui. Isto não vem a propósito, mas não me pareceu que merecesse um post separado.)