ROIS ET REINE: Depois de "Pas de Repos pour les Braves", eis que estreou entre nós "Rois et Reine", de Arnaud Desplechin, mais um argumento para o arsenal daqueles, entre os quais me conto, que defendem ser o cinema francês o mais interessante da actualidade.
Existe um aspecto curioso nas reacções da crítica (mais ou menos especializada) a este filme. Poucas foram, de entre aquelas que li, as que omitiram essa coexistência entre registos antagónicos: o burlesco (de que o desventurado Mathieu Amalric assume a parte leonina) e o extremamente trágico.
Poucos são, no entanto, aqueles que aprofundam esta (inegável) natureza híbrida. Será que, só por si, fazer caber tanto o cómico como o pungente na mesma longa-metragem é façanha digna de encómio? Parece-me que não. O valor de um cineasta não se mede em função de acrobacias a que se entregue, nem meramente em função da amplitude da paleta de emoções que emprega.
Desplechin está longe de ser um vão malabarista de imagens e argumentos. E o registo heterogéneo e inconstante que adopta em "Rois et Reine" é perfeitamente coerente com a sua riquíssima obra passada, que lhe grangeou a aura de seguidor de um cineasta popular-inteligente como Truffaut, ou de um subtil agente subversor de géneros, como Resnais. Para Desplechin, categorias e géneros não são espartilhos nem cadernos de encargos, mas sim plataformas de apoio, dotadas de memória cinéfila que urge respeitar sem subserviência.
Defendo que a componente mais fascinante do cinema de Desplechin passa precisamente por uma ancoragem num cinema clássico, devedor da narrativa e da definição de personagens com espessura psicológica, uma ancoragem flexível quanto baste para permitir vastas latitudes de exploração celebratória das possibilidades do cinema. Sem vanguardismo explícito, Desplechin distingue-se da quase totalidade dos seus pares pela vontade (e talento) de tratar cada cena como um problema de cinema, equacionável e solúvel por meio de imagens em movimento, parte de um todo mas também dotada de uma energia própria.
"Rois et Reine" é um filme deslumbrante acima de tudo devido à reverberação de inventividade cinematográfica que acompanha o desenrolar da lógica do enredo, como se todo ele estivesse banhado numa vontade de expressão, transbordante mas disciplinada. Algumas das cenas mais belas são-no muito graças a esse "algo-mais" formal, que se assume quase como um segundo filme, ou como um making of em tempo real, comentário permanente aos próprios desafios que cada cena, cada nodo do enredo, foram colocando. Nesses momentos (estou a pensar na dança de Mathieu Amalric perante os outros internados, no sonho em que Emmanuelle Devos reencontra o seu falecido primeiro marido, ou na extraordinária sequência final no Museu do Homem), é a própria presença do cinema que (dir-se-ia) irradia, de onde não se esperaria que houvesse mais do que corpos, rostos e cenários, isentos de luz própria.
quarta-feira, dezembro 14, 2005
ROIS ET REINE: Depois de "Pas de Repos pour les Braves", eis que estreou entre nós "Rois et Reine", de Arnaud Desplechin, mais um argumento para o arsenal daqueles, entre os quais me conto, que defendem ser o cinema francês o mais interessante da actualidade.
Existe um aspecto curioso nas reacções da crítica (mais ou menos especializada) a este filme. Poucas foram, de entre aquelas que li, as que omitiram essa coexistência entre registos antagónicos: o burlesco (de que o desventurado Mathieu Amalric assume a parte leonina) e o extremamente trágico.
Poucos são, no entanto, aqueles que aprofundam esta (inegável) natureza híbrida. Será que, só por si, fazer caber tanto o cómico como o pungente na mesma longa-metragem é façanha digna de encómio? Parece-me que não. O valor de um cineasta não se mede em função de acrobacias a que se entregue, nem meramente em função da amplitude da paleta de emoções que emprega.
Desplechin está longe de ser um vão malabarista de imagens e argumentos. E o registo heterogéneo e inconstante que adopta em "Rois et Reine" é perfeitamente coerente com a sua riquíssima obra passada, que lhe grangeou a aura de seguidor de um cineasta popular-inteligente como Truffaut, ou de um subtil agente subversor de géneros, como Resnais. Para Desplechin, categorias e géneros não são espartilhos nem cadernos de encargos, mas sim plataformas de apoio, dotadas de memória cinéfila que urge respeitar sem subserviência.
Defendo que a componente mais fascinante do cinema de Desplechin passa precisamente por uma ancoragem num cinema clássico, devedor da narrativa e da definição de personagens com espessura psicológica, uma ancoragem flexível quanto baste para permitir vastas latitudes de exploração celebratória das possibilidades do cinema. Sem vanguardismo explícito, Desplechin distingue-se da quase totalidade dos seus pares pela vontade (e talento) de tratar cada cena como um problema de cinema, equacionável e solúvel por meio de imagens em movimento, parte de um todo mas também dotada de uma energia própria.
"Rois et Reine" é um filme deslumbrante acima de tudo devido à reverberação de inventividade cinematográfica que acompanha o desenrolar da lógica do enredo, como se todo ele estivesse banhado numa vontade de expressão, transbordante mas disciplinada. Algumas das cenas mais belas são-no muito graças a esse "algo-mais" formal, que se assume quase como um segundo filme, ou como um making of em tempo real, comentário permanente aos próprios desafios que cada cena, cada nodo do enredo, foram colocando. Nesses momentos (estou a pensar na dança de Mathieu Amalric perante os outros internados, no sonho em que Emmanuelle Devos reencontra o seu falecido primeiro marido, ou na extraordinária sequência final no Museu do Homem), é a própria presença do cinema que (dir-se-ia) irradia, de onde não se esperaria que houvesse mais do que corpos, rostos e cenários, isentos de luz própria.
terça-feira, dezembro 13, 2005
(Via "The Daily Dirt Chess Blog", de Mig Greengard.)
terça-feira, dezembro 06, 2005
segunda-feira, dezembro 05, 2005
Por isso, por este acto de coragem, José Nuno Martins passou a ter perante mim crédito infinito. Pode até suceder que ele venha a apresentar a "1ª Companhia" ao lado de um burro que fala. Para mim, isso nada pesará face ao facto de ter escolhido para filme da vida um filme como "L'Amour Fou", essa inquietante obra-prima em que os planos do teatro e da vida, talvez ainda mais do que em qualquer outra obra de Rivette, se dilaceram e potenciam mutuamente.
domingo, dezembro 04, 2005
quarta-feira, novembro 30, 2005
domingo, novembro 27, 2005
sexta-feira, novembro 25, 2005
quinta-feira, novembro 24, 2005
O filme de Desplechin suscitou uma rara quase-unanimidade entusiasta por parte da crítica especializada francesa. Isto, só por sim, nada quer dizer, e poderia até ser sinal preocupante. Neste caso, porém, julgo tratar-se do simples reflexo do modo como o autor do também genial "Esther Kahn" conjuga uma componente popular com um apelo cúmplice à inteligência e à ousadia do espectador.
Espero voltar a falar deste filme.
terça-feira, novembro 22, 2005
quinta-feira, novembro 17, 2005
terça-feira, novembro 15, 2005
sexta-feira, novembro 11, 2005
On a bed where the moon has been sweating,
in a cry filled with footsteps and sand
(Leonard Cohen)
quinta-feira, novembro 10, 2005
terça-feira, novembro 08, 2005
segunda-feira, novembro 07, 2005
quarta-feira, novembro 02, 2005
Para servir de comparação, eis agora um outro tabuleiro, numa posição errada. (Ignorem, por favor, o insólito tolkieniano das figuras.)
terça-feira, novembro 01, 2005

(Do filme "Passion", de Jean-Luc Godard, que foi visível na Cinemateca na passada segunda-feira. Frase proferida por Hanna Schygulla.)
(Fragmentos da "Virgem da Imaculada Conceição", de El Greco, e "3 de Maio de 1808. Execução dos Defensores de Madrid", de Goya.)
quinta-feira, outubro 27, 2005
terça-feira, outubro 25, 2005
Frans Hals, "Young Man Holding a Skull (Vanitas), 1626-8Escreveu Vincent van Gogh a propósito de Hals: «(...)heads too - eyes, nose, mouth done with a single stroke of the brush without any retouching whatever... To paint in one rush, as much as possible in one rush... I think a great lesson taught by the old Dutch masters is the following: to consider drawing and colour one.»
Não só concordo, não só aprovo, como considero que Van Gogh colocou aqui o dedo na ferida com uma típica acuidade. (Continua.)
*Título provisório.
quinta-feira, outubro 20, 2005
quarta-feira, outubro 19, 2005
terça-feira, outubro 18, 2005
Ora bem, a minha pergunta à espera de resposta é a seguinte: Has the world changed or have I changed? (The Smiths)
(Nesta mesma linha, aqui, podem igualmente adquirir o St. Sebastian Pin Cushion - "for your favorite martyr".)
sábado, outubro 15, 2005
Topalov culmina assim um ciclo fabuloso de grandes resultados, sagrando-se campeão com todo o merecimento. O seu início foi fulgurante (seis vitórias e um empate). A meio do torneio, a sua performance era sobre-humana. Na segunda metade, Topalov geriu a sua vantagem com inteligência, acumulando os empates. No entanto, é de salientar que Topalov só esporadicamente se permitiu daqueles empates curtos e sensaborões de que abusam tantos grandes-mestres. O seu espírito combativo raramente o abandonou.
Acompanharam Topalov no pódio o indiano Vyswanathan Anand e o russo Peter Svidler. Para além destes, o russo Aleksandr Morozevich e o uzbeque Rustam Kasimdzhanov (o ex-campeão agora destronado) podem estar relativamente satisfeitos com a sua actuação. Em contrapartida, o torneio foi um rotundo fracasso para o húngaro Péter Lékó (apontado como um dos grandes favoritos, e que não passou de quinto), para o inglês Michael Adams, e para a húngara Judit Polgár, única mulher presente.
A FIDE dispõe agora de um campeão inequívoco e incontestável, que não deixará de apresentar como trunfo em eventuais negociações com o campeão do mundo oficioso (o russo Vladimir Kramnik), com vista a uma reunificação dos títulos. Estou curioso em acompanhar a evolução dos acontecimentos.
(Para aqueles que se interessam por estas coisas, ou que sentem nem que seja um grãozinho de curiosidade para saber os extremos de paixão e de retórica que se atingem quando se discute "quem é o verdadeiro campeão do mundo de xadrez", aconselho esta longa linha de comentários no blog de Mig Greengard.)
quinta-feira, outubro 13, 2005
quinta-feira, setembro 15, 2005
quarta-feira, setembro 14, 2005
segunda-feira, setembro 12, 2005
quinta-feira, setembro 08, 2005
- De 15 a 24 de Setembro, Mostra de Cinema da América Latina, no Fórum Lisboa.
- De 24 a 27 de Setembro, o Programa Designmatography IV, na Culturgest, com selecções das obras de quatro realizadores de cinema experimental norte-americanos: Morgan Fisher, Thom Andersen, Bruce Conner e Owen Land.
- De 6 a 16 de Outubro, a sempre muito esperada Festa do Cinema Francês, no Fórum Lisboa (com extensões a outras cidades do país).
- De 15 a 23 de Outubro, o festival DocLisboa, na Culturgest.
Tanto quanto pude descobrir, nem a Mostra de Cinema da América Latina nem a Festa do Cinema Francês têm programa ou site disponível na Internet, pelo menos para já. Limito-me, assim, a remeter para a página da EGEAC, que geria o Fórum Lisboa até à pouco. A propósito, espero ardentemente que os recentes quiproquós em torno desta empresa municipal não ponham em causa a realização destas (e de outras) iniciativas! Cruzemos os nossos dedos cinéfilos, e invoquemos São Carl Theodor, Santo Andrei...
terça-feira, setembro 06, 2005
domingo, setembro 04, 2005
quinta-feira, setembro 01, 2005
quarta-feira, agosto 31, 2005
segunda-feira, agosto 29, 2005
Hieronymus Bosch, Tríptico do Julgamento Final (painel central), 1504-1508



