domingo, dezembro 25, 2005

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: No comboio Alfa Pendular, uma senhora de idade, viajando a meu lado, lia um livrinho de orações ao Doutor Sousa Martins. Jamais me senti a tal ponto irmanado com um companheiro de viagem desconhecido. Não ousava admitir que pessoas que liam orações ao Divino Doutor em público existissem fora das minhas fantasias mais desvairadas. E, porém, aquela senhora estava ali. A meu lado. Reflectia luz e emitia som. Até falou comigo. Não repliquei. Pretenderia converter-me? Inútil. Não existe discípulo mais fervoroso do ilustre médico de Alhandra do que este vosso criado.
SEGUNDA REPÚBLICA: Tal como o autor deste post no blog Ponte Europa, também sou da opinião de que devemos designar o regime em que vivemos actualmente por "Segunda República", e não "Terceira República". Não basta que seja eleito um Presidente de tantos e tantos anos, não basta que a palavra "República" apareça em moedas e papel de carta dirigido a potências estrangeiras para que um regime possa ser considerado republicano. O corporativismo, o conúbio com a Igreja e os atropelos constantes às liberdades democráticas que caracterizaram o Estado Novo são incompatíveis com a noção de "República". Os regimes genuinamente republicanos que brotaram, desde as Revoluções Americana e Francesa, mas essencialmente a partir do século XX, caracterizaram-se por ser fortemente teorizados, lançados em bases doutrinárias sólidas. Muitas das mais brilhantes mentes políticas dos últimos dois ou três séculos estiveram implicadas na sua formulação. Essa foi uma condição necessária à sua sobrevivência num ambiente hostil, sob a permanente ameaça de correntes legitimistas e ultramontanistas que esmagariam sem piedade uma República deficientemente consolidada. Não façamos a todos aqueles que participaram dessa continuada aventura intelectual a desfeita de tomar a nuvem por Juno, chamando "República" a um regime que não passou de uma sórdida caricatura disso mesmo.
UM, DOIS, ESQUERDO, DIREITO: Ribeiro e Castro, esse eminente benfiquista, afirmou recentemente ser o terrorismo essencialmente (ou exclusivamente) uma tara cuja origem está na esquerda. Tal asserção é tão válida ou absurda como defender que toda a xenofobia é de direita. Igualmente absurdo, mas também ocioso, mas também perfeitamente dentro da mesma lógica de irresponsabilidade demagógica, seria cotejar o número de vítimas do terrorismo com o número de vítimas da xenofobia e anti-semitismo. Nestas coisas da retórica, nem sempre o contexto é devidamente tido em conta, e, no presente caso, o contexto era um encontro da Juventude Popular. Entende-se, assim, o excesso de zelo de Ribeiro e Castro. Quando se trata de incutir em mentes frescas e jovens a solene urgência do combate político, não convém ser nem demasiado moderado nem demasido subtil. Nesse mesmo encontro, João Almeida afirmou querer conquistar a geração «que vê o 'Morangos com Açúcar' [série televisiva], que saca mais músicas da Internet do que os CD que compra, do messenger e do HI5», tarefa que se me afigura espinhosa se ele não adoptar um penteado semelhante ao do Tó Pê dos D'ZRT.
IMPERDÍVEL: Os Blogues Imaginários n'"A Invenção de Morel" e a série São Sebastião Revisitado no "Welcome to Elsinore".
SEASON'S GREETINGS: Desejo um Bom Natal a todos aqueles que continuam a visitar este espaço, ignorando decerto a existência de carradas de outros blogs muito mais interessantes, e nos quais é bem menos insensato perder o seu tempo (o tempo que Santo Agostinho não sabia o que era, quando lho perguntavam).

quinta-feira, dezembro 22, 2005

AH, SILOGISTA!: Tento falar o menos possível de futebol, mas desta vez não resisti. O virtuoso presidente da agremiação portista, de sua graça Jorge Nuno, protagonizou recentemente um episódio em que a sua celebrada lábia se voltou contra ele, com uma elegância lógica tão impressionante que levanta suspeitas de premeditação. 1) (A propósito das declarações de Luiz Felipe Scolari acerca das razões que o terão levado a nunca convocar Vítor Baía e João Pinto.) «Não vou responder às últimas polémicas, porque, por princípio, não respondo a cobardes. Considero cobarde todo aquele que lança suspeitas, diz coisas e depois diz que não disse.» 2) (A respeito da arbitragem no jogo Benfica-Nacional.) «Não sei se isso pode ser considerado uma fraude ou se alguém tem necessidade de ir ao oftalmologista. Não sei... Estou só a referir o que toda a gente viu.» (Tudo isto no mesmo artigo de jornal.) 3) A conclusão, parece-me, decorre de 1) e 2) com uma naturalidade que dispensa conhecimentos aprofundados sobre lógica silogística.
MEMÓRIA DILETANTE E NÃO DE ELEFANTE: Existe um livro (Miguel Delibes, "Os Santos Inocentes", Teorema, 1991), que li há uma porção de anos, e de que só me recordo de um pormenor: uma das personagens costumava urinar nas mãos para as aquecer. Já ouvi falar em memória selectiva, mas isto é ridículo.
«Mais, par rapport aux autres pays du même type, l'Angleterre, l'Amérique et l'Allemagne essentiellement, l'idéologie républicaine, on l'a vu, apporte quelque chose de plus: le sentiment affirmé d'être une forme d'organisation politique qui non seulement favorise la science, mais, en grande partie, dépend d'elle. Elle en dépend pour achever d'abord de se libérer des dernières prétentions du dogmatisme religieux à régler la vie civile et intelectuelle des citoyens.» (in "L'Idée Républicaine en France (1789-1924)", de Claude Nicolet, Gallimard)

quarta-feira, dezembro 21, 2005

SURPRESAS POSTAIS: Nas séries e nos filmes, sempre que uma personagem, ao vasculhar distraidamente o correio recém-chegado, diz que "devem ser só contas para pagar", é certo e sabido que vai topar com uma carta ou postal inesperado, capaz de mudar a sua vida (ou, em todo o caso, de fornecer matéria para mais uma vintena de episódios).
DE ACORDO: Eu até estou de acordo com muitas das coisas que se dizem por aí.

sexta-feira, dezembro 16, 2005

ROIS ET REINE (2): O título do filme foi, segundo as palavras do próprio Desplechin, inspirado nos seguintes versos de Michel Leiris: Rois sans arroi, Reine sans arène, Tour trouée, Fou à lier, Cavalier seul. Trata-se, obviamente, de uma sequência de imagens xadrezísticas. As menções a "rois" e "reine" explicam-se a si próprias (se bem que, em francês como em português, "rainha" seja um termo familiar e informal para designar a "dama", esta sim a designação correcta da peça). "Cavalier" é o termo francês com que se designa a peça "cavalo"; "Cavalier seul" (título do último livro do pai de Emmanuelle Devos, interpretado com uma sublime e austera contenção por Maurice Garrel) é uma locução que se aplica àqueles que escolhem uma atitude de contestação, ou que enveredam por caminhos ou opiniões pouco batidas. A "tour" é a "torre". Resta-nos o "fou", que mais não é do que o nosso "bispo". Na jacobina França, esta peça perde as suas conotações clericais, e assume os atavios de um "louco", ou talvez, mais exactamente, de um bobo da corte. A deliciosa expressão "fou à lier" equivale ao nosso "doido varrido". Traduzida a letra, sugere que o indivíduo em questão, de tão louco, precisa de ser amarrado. No filme de Rohmer "Conte d'Hiver" existe um memorável diálogo onde intervém esta expressão: FÉLICIE: J'ai été conne, conne. Conne à lier. MAXENCE: «Folle à lier». On ne dit pas «conne à lier». On dit «Folle à lier». FÉLICIE: Tu vois, je ne sais même pas parler français.

quarta-feira, dezembro 14, 2005

NÃO É ESSE AMARANTE: Certas fontes dignas de crédito garantem-me que, para minha desilusão, o novo CD da cantora Enya intitulado "Amarantine" não é uma homenagem a Agustina Bessa-Luís.
ROIS ET REINE: Depois de "Pas de Repos pour les Braves", eis que estreou entre nós "Rois et Reine", de Arnaud Desplechin, mais um argumento para o arsenal daqueles, entre os quais me conto, que defendem ser o cinema francês o mais interessante da actualidade. Existe um aspecto curioso nas reacções da crítica (mais ou menos especializada) a este filme. Poucas foram, de entre aquelas que li, as que omitiram essa coexistência entre registos antagónicos: o burlesco (de que o desventurado Mathieu Amalric assume a parte leonina) e o extremamente trágico. Poucos são, no entanto, aqueles que aprofundam esta (inegável) natureza híbrida. Será que, só por si, fazer caber tanto o cómico como o pungente na mesma longa-metragem é façanha digna de encómio? Parece-me que não. O valor de um cineasta não se mede em função de acrobacias a que se entregue, nem meramente em função da amplitude da paleta de emoções que emprega. Desplechin está longe de ser um vão malabarista de imagens e argumentos. E o registo heterogéneo e inconstante que adopta em "Rois et Reine" é perfeitamente coerente com a sua riquíssima obra passada, que lhe grangeou a aura de seguidor de um cineasta popular-inteligente como Truffaut, ou de um subtil agente subversor de géneros, como Resnais. Para Desplechin, categorias e géneros não são espartilhos nem cadernos de encargos, mas sim plataformas de apoio, dotadas de memória cinéfila que urge respeitar sem subserviência. Defendo que a componente mais fascinante do cinema de Desplechin passa precisamente por uma ancoragem num cinema clássico, devedor da narrativa e da definição de personagens com espessura psicológica, uma ancoragem flexível quanto baste para permitir vastas latitudes de exploração celebratória das possibilidades do cinema. Sem vanguardismo explícito, Desplechin distingue-se da quase totalidade dos seus pares pela vontade (e talento) de tratar cada cena como um problema de cinema, equacionável e solúvel por meio de imagens em movimento, parte de um todo mas também dotada de uma energia própria. "Rois et Reine" é um filme deslumbrante acima de tudo devido à reverberação de inventividade cinematográfica que acompanha o desenrolar da lógica do enredo, como se todo ele estivesse banhado numa vontade de expressão, transbordante mas disciplinada. Algumas das cenas mais belas são-no muito graças a esse "algo-mais" formal, que se assume quase como um segundo filme, ou como um making of em tempo real, comentário permanente aos próprios desafios que cada cena, cada nodo do enredo, foram colocando. Nesses momentos (estou a pensar na dança de Mathieu Amalric perante os outros internados, no sonho em que Emmanuelle Devos reencontra o seu falecido primeiro marido, ou na extraordinária sequência final no Museu do Homem), é a própria presença do cinema que (dir-se-ia) irradia, de onde não se esperaria que houvesse mais do que corpos, rostos e cenários, isentos de luz própria.

terça-feira, dezembro 13, 2005

DOIS DO MELHORIO: Ainda não tinha falado neles, até porque duvido que a minha modesta acção possa fazer algo de muito significativo pela sua merecida divulgação. Mas eles aí estão. Coincidiram temporalmente com o fim do BdE, o que prova que o fim de uma boa coisa pode dar origem a duas boas coisas, por mais que isto pareça violar um qualquer princípio físico de conservação da excelência. São dois blogs, um com nome de livro, o outro com nome de medicamento seguido de consoante oclusiva labial. Merecem ser lidos todos os dias, e não apenas dia sim dia não.
ASSUNTOS: Há muitos assuntos de que normalmente não se fala, o que é uma pena, porque são assuntos que merecem ser discutidos. E agora, uma fotografia de um gato no lavatório!

(Via "The Daily Dirt Chess Blog", de Mig Greengard.)

A SITUAÇÃO: A Situação é grave, e penso que estaria na altura de tomar medidas para a resolver.

terça-feira, dezembro 06, 2005

FOI HÁ 100 ANOS: Para além do sorteio do Mundial de futebol, e de uma outra efeméride, o próximo dia 9 ficará marcado pela comemoração do centenário da lei que, em França, instaurou a separação entre Igreja e Estado. Esta data, que, já de si, mereceria ser celebrada como marco na história da liberdade e emancipação política dos estados, ganha renovada ressonância (pelo menos aqui em Portugal)graças à recente "gue-guerra" dos crucifixos: refiro-me, obviamente, à decisão (em perfeita harmonia com a Constituição) de retirar os crucifixos das salas de aula deste país. A respeito desta medida, não têm faltado as previsíveis reacções dos previsíveis sectores, parafraseáveis do seguinte modo: «A laicidade é muito bonita, mas não havia necessidade de ir tão longe.» A maioria dessas reacções não deixou de glosar bafientos e desesperados chavões como o "fanatismo laicista" e o "ataque à religião". Como seria de esperar, João César das Neves (que nós aqui no 1bsk adoptámos como mascote) meteu a sua colherada, na sua última crónica do "DN". Por absoluta falta de tempo, escuso-me a comentar a prosa nevesiana com o detalhe que desejaria, limitando-me a deixar-vos com um demasiado breve florilégio. «As pequenas coisas revelam mais que as grandes. Os jornais estão a tentar criar uma zanga à volta da retirada dos crucifixos das escolas públicas. Os jornais? Ou certos fanáticos que sentem a maré a virar contra as suas convicções? A falta de liberdade religiosa tem gerado a perda da liberdade e até da vida. Plenamente de acordo. Nunca se deve esquecer que, dada a impossibilidade lógica de demonstrar a inexistência de Deus, o ateísmo é apenas a crença de que Deus não existe. Isto é subverter completamente a questão. Eu diria que cabe aos crentes o ónus da prova, na medida em que são eles que defendem certas coisas (parte integrante da doutrina) verdadeiramente inconcebíveis: ressurreição, concepção de uma virgem, transsubstanciação, milagres... O ateísmo não é uma crença. Só defende que o ateísmo é uma crença aquele que vê na fé um estado natural ao ser humano, e no cepticismo uma bizarria que requer justificação. Contudo, se eu acreditar que a lua é feita de queijo da serra, é a mim que cabe demonstrar tão ousada asserção, e não àquele que nela não acredita (com alguma razão, acrescente-se). A recusa da divindade é uma fé, tal como o negro está na pintura e a pausa faz parte da música. Esta analogia está trôpega à partida, mas eu diria que o ateísmo está para a fé, não como o negro para a pintura, mas como as paredes do museu (e a bilheteira, as escadarias, o bar, os telefones públicos...) para os quadros. Aliás, constitui uma seita das mais pequenas, que, por isso mesmo, costuma ser extremista e fanática. Em matéria de fanatismo, o mínimo que se pode dizer é que a Igreja Católica tem (e sempre teve) lições para dar. O Estado laico deve assumir uma posição neutra perante as religiões, tal como deve assumir uma posição neutra perante as candidaturas presidenciais. Outra analogia infeliz. O Estado não tem nada a ver com a religião: cabe-lhe apenas assegurar a liberdade de culto aos cidadãos. Em contrapartida, embora o Estado deva assegurar igual tratamento aos candidatos presidenciais, a Presidência da República não se trata de um assunto a ele alheio, por nítida maioria de razão! Deus está na escola, tal como a cultura está na escola, a política, a arte, o futebol e a amizade estão na escola. (E a sexualidade também, apetece-me dizer... JCN oferece argumentos a quem defende a educação sexual nas escolas. Mas não entremos por aí.) JCN mete demasiadas coisas no mesmo alforge. Sucede que a Igreja Católica possui uma longa história de interferência com os poderes públicos, e de reivindicação de um papel privilegiado na transmissão de valores e saberes. Foi a própria atitude da Igreja, ao longo dos séculos, que a transformou em natural alvo de desconfiança por parte dos promotores de uma escola livre, e que fez do crucifixo um símbolo que, neste contexto, é tudo menos inócuo. O que os poderes públicos devem garantir é a autonomia para cada escola fazer o que os seus professores, pais e alunos decidam. Livra! Podem imaginar o que resultaria de uma autonomia total, por parte das escolas e dos encarregados de educação, para decidir sobre conteúdos, modos de leccionamento, etc.? Seria uma porta aberta ao sectarismo e ao comunitarismo. É normal e desejável que matérias sensíveis para o funcionamento das escolas sejam decididas de forma centralizada, de forma a assegurar o cumprimento dos programas tal como estipulados. Sobretudo, não são activistas ou burocratas a centenas de quilómetros que têm o direito de definir a decoração das paredes, em vez dos alunos, famílias, professores e funcionários. Precisamente. São. E assim é que deve ser. Num país livre pode ser-se ateu ou religioso. Mas, em nome da liberdade, os laicistas arrogam-se o direito de obrigar as escolas a seguir os seus gostos e irritações pessoais. Ai ai, faltava ainda o lugar comum do azedume laicista. Mas JCN não nos desilude. Um pequeno grupo arma-se em juiz de todos os cultos, só porque não segue nenhum e os considera horríveis a todos. Como odeia a religião diz-se neutro perante ela. (Isto merecia acompanhamento musical.) Os crucifixos na sala de aula são apenas um pequeno detalhe. Mas um detalhe revelador de uma luta crucial da Humanidade, a luta em prol da liberdade. Ora não podia estar eu mais de acordo! O Ministério da Educação, em vez do esforço baldado para tirar Deus das escolas, devia antes procurar pôr algum bom senso nelas.» Cem anos depois, e ainda as mesmas falácias para aturar...
ROHMER MAS NÃO SÓ: Criei um blog chamado A Mulher do Aviador, onde tenho vindo a recolher (com exagerada lentidão...) os textos sobre cinema publicados no 1bsk ao longo dos seus já quase três anos de existência. A ideia é servir-me deste blog como estímulo para escrever mais amiúde sobre cinema. Nele não serão publicados textos originais, pelo menos numa primeira fase. Trata-se, pois, de uma ferramenta essencialmente pessoal, mas quem quiser passar por lá, e talvez deixar um comentário, será muito bem-vindo!

segunda-feira, dezembro 05, 2005

CAPACIDADE: Há poucas alegrias que ainda nos estão reservadas, nestes tempos bisonhos que atravessamos, e uma dessas alegrias é descobrir que uma garrafa contém meio litro de Coca-Cola Light, em vez de uns mesquinhos 33 centilitros.
MODO ACTIVO: Hoje, a impressora do meu local de trabalho mostrava no seu visor a mensagem "MODO ACTIVO INACTIVADO". Suponho que isso seja precisamente equivalente a "Modo Inactivo Activado". Mas quem sou eu, mero mortal analógico, para me alargar em conjecturas sobre aquilo que, em informática, é ou deixa de ser?