segunda-feira, janeiro 09, 2006

LEITURAS: Estou a ler uma recolha de contos de Luigi Pirandello. Acho desconcertante verificar até que ponto a faceta de ficcionista de Pirandello é tão menosprezada em Portugal. Em Itália, romances como "Uno, Nessuno e Centomila" ou "Il Fu Mattia Pascal" são considerados clássicos absolutos. Nos contos de Pirandello, identificam-se com facilidade temas e obsessões presentes igualmente na sua dramaturgia: a clivagem entre o ideal e a imagem projectada para o exterior, a exposição de mundividências particulares em conflito (por vezes em paradoxal harmonia) com o mundo exterior, a infidelidade conjugal, o suicídio, as minúsculas epifanias da condição humana capazes de fazer coabitar o trágico, o cómico e uma forma mordaz de estoicismo perante a adversidade. Do prefácio, de Lucio Lugnani, retive dois pontos que me interessaram:
  • a ideia da obra de Pirandello como um todo, indivisível, concretizado e ilustrado pelas instâncias (romances, contos e peças) que o servem; cada texto individual como uma janela que oferece ao leitor uma nova perspectiva sobre um imago mundi englobante que coincide com a própria razão de ser do artista Pirandello
  • a elaboração da grande recolha "Novelle per un anno" (1922). No prefácio a esta magna antologia da sua ficção curta, o próprio Pirandello dá a entender que o seu propósito original era (respeitando o título escolhido) o de coligir 365 contos, repartidos em 12 volumes, e que só a obstinação em contrário do seu editor disso o teria demovido. Tal propósito colide frontalmente com este simples facto: até à data, Pirandello tinha escrito pouco mais de 200 contos. Parece haver, portanto, uma tentativa tongue in cheek de edificar uma micro-ficção pessoal, na qual o autor se encena como autor incompreendido. Como se o seu apetite pelo fingimento e a sua voracidade ficcional exigissem vários níveis concêntricos para se espraiar.
LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Na Sala Doutor Félix Ribeiro da Cinemateca Portuguesa, à Barata Salgueiro (pois claro), um jovem lia, absorto comme il se doit, "El Laberinto de la Soledad", de Octavio Paz. Octavio Paz em versão original! Antes do "Couraçado Potemkin"! Quarenta pontos de bónus. Podem algumas vozitas da reacção argumentar que visitar a Cinemateca para descobrir leitores em lugar público não passa de voyeurismo intelectual, e, em todo o caso, constitui violação do espírito eminentemente aleatório que sempre presidiu a esta rubrica, cujo centro de gravidade se tem situado nos transportes em comum desde a primeira hora. A esses amigos da insinuação eu limito-me a responder que, primo, eu queria mesmo ir ver o Eisenstein. Secundo, a vida de um coleccionador de ensimesmamentos bibliófilos alheios não está, na Cinemateca, tão facilitada como se poderia esperar. A ausência de bancos decentes, a débil iluminação, e outrossim a concorrência do bar/restaurante convidam, com perene convicção, o visitante a actividades extraliterárias. Entre Octavio Paz e os peixinhos da horta, ou os espinafres "39 degraus", nem sempre a escolha recairá sobre o primeiro! (Havia um gato no "Couraçado", aspecto negligenciado por décadas de exegese.)

sexta-feira, janeiro 06, 2006

E A CADA MOMENTO...: ...cresce o motor da juventude alemã pela aviação sem amor.
VENHAM MAIS CINCO: A variedade "5 Bagas" da Margão tem cinco tipos de pimenta diferentes: pimenta preta, pimenta rosa, pimenta branca, pimenta da Jamaica e pimenta verde desidratada. Podem tirar-me muita coisa, mas não me podem tirar a portentosa antecipação desta sápida experiência. "Sápida" é uma bonita palavra. Fim do post.

quinta-feira, janeiro 05, 2006

CINEMA: "O Fatalista", de João Botelho. Por culpa do acaso, e não por qualquer predisposição negativa, desconheço quase por completo a obra de João Botelho, esse grande benfiquista. (Paulo Rocha é outro realizador ao qual se aplica exactamente o mesmo.) Ao sair da sala onde era exibido este "O Fatalista", senti bastas razões para me recriminar por tamanha negligência. Esta adaptação de Diderot resultou num filme que consegue combinar densidade com uma ligeireza de métodos e soluções que, aqui e além, se converte em puro estado de graça. O feito mais notável de Botelho, a meu ver, é o de ter equilibrado as componentes de sátira social e de fábula filosófica, sem abdicar de uma aposta num cómico abrejeirado que, neste caso, resulta plenamente (se bem que com excessos ocasionais). Formalmente, constata-se uma interessante e maliciosa exploração de diferentes dispositivos narrativos: contar uma peripécia, vivê-la ou reencená-la equivalem-se, nesse nenhures linear que é a estrada percorrida por Tiago e pelo seu patrão, espaço desancorado de qualquer referência, onde memórias, ilustrações de teses e a urgência do momento presente se justapõem. Notas de rodapé narrativas e longas digressões (o suculento episódio protagonizado por Rita Blanco e José Wallenstein) coexistem amigavelmente, sem prestar vassalagem nem à cronologia nem à verosimilhança, mas sim à reiterada confirmação de que "tudo está escrito". Nunca uma refutação do livre arbítrio terá sido tão jubilosa... Se tudo está escrito, pouco importa que o escritor seja um Deus que joga distraidamente aos dados ou um argumentista de cinema. O fatalista é o mais feliz e despreocupado dos homens, ainda que a vida não lhe traga nem sorte aos amores nem libertação da sua condição servil, ainda que a sua vulnerabilidade ao arbítrio alheio lhe retire qualquer ilusão sobre a possibilidade de alterar o seu destino, até à perversidade suprema: os três finais alternativos para a sua aventura amorosa, mutuamente incompatíveis - ou talvez não - e apresentados por um argumentista e por um realizador tornados personagem, demiurgos à paisana que protagonizam uma derradeira cabriola formal, perfeitamente coerente com o espírito do filme. O cinema passa por isto: explorar ideias sem as tornar visíveis, transpô-las para imagens e palavras nem vãs nem denotativas, ter atenção aos corpos, aos rostos e à luz, ocupar o tempo do filme sem essa obsessão pela eficácia narrativa que demasiadas vezes surge como o mais potente inibidor da criatividade no cinema. E lutar por se manter fiel às suas ideias, que é a única maneira de respeitar o espectador.

quarta-feira, janeiro 04, 2006

AVISO ÀS FAMÍLIAS PORTUGUESAS: Há mais fotografias de gatos no blog de xadrez "Daily Dirt"!!! (Incluindo um gato a tentar beber água de um copo, com óbvias dificuldades. Nem maiores nem menores do que as que um ser humano sentiria para lamber leite do fundo de um pires.) Felizmente, este excelente blog, apesar de ser subordinado ao xadrez, não fala só de xadrez, mas também de outros temas, como gatos.
INQUALIFICÁVEIS QUALIFICATIVOS: Num poema de Jorge de Sena, que li recentemente, Paul Valéry é chamado de "cretino": (...) Filho de Pasifaë, foi irmão de um verso de Racine, que Valéry, o cretino, achava um dos mais belos da «langue». (...) ("Em Creta, Com o Minotauro", in "Peregrinatio Ad Loca Infecta".) E isto poucos dias depois de ter visto Afonso Costa, outro dos meus ídolos absolutos, apodado de "facínora"! (Gostaria deveras de ficar a saber as circunstâncias em que Afonso Costa terá apelado ao assassinato do rei D. Carlos, e de que fontes consta uma referência a esse apelo.) O que se seguirá? Escutar ou ler que Heinrich von Kleist era um violador, um ladrão de cavalos e um destruidor de casamentos, e que se inspirava no seu próprio exemplo para redigir as suas obras literárias?
RÁDIO NOSTALGIA: Do "Contra-Informação" de hoje constava um sketch envolvendo Marques Mendes, com acompanhamento musical de um fabuloso tema que, só por si, teria bastado para assegurar a imortalidade dos Talking Heads: "Once In a Lifetime". Achei a ideia arrojada, largamente digna do aplauso deste que, para além do seu day job de humilde apóstolo da causa kleistiana, é também fervoroso vassalo da banda lendária de David Byrne, a maior de todos os tempos de entre todas aquelas que não vieram de Liverpool.
KINDNESS OF STRANGERS: O 2+2=5 achou por bem eleger-nos entre os 10 melhores blogs de 2005. Trata-se, notoriamente, de um erro de procedimento, visto que o único galardão a que o 1bsk poderia aspirar seria o de "blog mais negligenciado pelos seus donos e autores, de sempre e de todo o sistema solar". Ainda que imerecida, agradeço a distinção à rapaziada do 2+2=5.

terça-feira, janeiro 03, 2006

OUVIDO NUM CAFÉ AO PÉ DA CAMPANHÃ: «Ano novo, vida nova, a mesma treta de sempre.»
Um excelente ano de 2006 é o que eu desejo a todos, aos visitantes deste blog como aos outros, que nunca lerão esta mensagem!
...
E sejam bem-vindos ao ANO BECKETT!

sexta-feira, dezembro 30, 2005

CINEMA: Não tenciono fechar a minha lista dos melhores de 2005 antes de ver "Odete", que acaba de estrear. Gostei muito da entrevista que João Pedro Rodrigues deu ao "DN". Dela destaco esta passagem: «Depois de Parabéns e Fantasma, este filme começa a revelar claras marcas autorais. O rigor na imagem, nas formas, luz, enquadramentos, o gosto pela cor... Exigências técnicas... Isso vem do cinema de que gosto. É claro que fiz a escola de cinema, mas aprendi a fazer filmes a ver filmes. Acredito que uma imagem não é indiferente. O que se escolhe enquadrar, e o que se deixa de fora, faz sentido. E acredito que os filmes só podem ser assim.» Uma imagem não é indiferente. Seria talvez esta a frase que eu colocaria à cabeça de um eventual credo pessoal enquanto espectador de cinema.

quinta-feira, dezembro 29, 2005

CINEMA: "Broken Flowers", de Jim Jarmusch. Há um momento de transição em "Broken Flowers" cuja localização exacta depende mais da atenção e das expectativas do espectador do que de qualquer dinâmica intrínseca do filme. Falo do momento em que, independentemente da personagem principal (mas com plena consciência da parte desta), as pistas em que a lógica do filme parecia repousar (o papel de carta cor-de rosa, a máquina de escrever...) passam da parcimónia a uma inquietante superabundância. Durante um lapso de tempo considerável, mesmo sem se deixar conquistar pelo enlevo detectivesco do filme, o espectador é tentado a não abandonar a sua fé naqueles indícios que revelarão a Don (Bill Murray) a identidade da antiga amante que lhe escreveu a anunciar que teve um filho dele, dezanove anos atrás. Mas que fazer de sinais que, em lugar de se assumirem como ajuizados aglutinadores da tensão narrativa, assumem uma cadência própria, ocupando o espaço e tempo como que sobrepondo-se a qualquer coerência? Desinvestidos da sua carga, abdicando alegremente da sua capacidade de significar, precipitam um enorme absurdo, que a câmara de Jarmusch tem a arte de transformar em algo de terno e tranquilo. "Broken Flowers" é um filme sobre a perda da fé numa legibilidade do mundo que o redima da sua implacável contingência. Não sabemos ao certo até que ponto Don chega a albergar essa fé, ou de quão alto cai aquando do desenlace. Mas a viagem que com ele empreendemos emula o trajecto que todos os seres humanos parecem condenados a cumprir, alguns mais do que uma vez. Felizmente, o humanismo que perpassa por "Broken Flowers" nunca roça a grandiloquência (e haverá cineasta menos grandiloquente do que Jarmusch?). O resto é um road-movie que adopta um registo deliberadamente disfórico, em completa oposição de fase com a aura libertadora que esse sub-género se habituou a adoptar. O resto são as aparições meteóricas de tantas grandes actrizes, que dispensam os ademanes pueris frequentemente exigidos pela lógica do cameo. O resto, claro, é também Bill Murray. Não pretendo destoar do coro laudatório com que foi mais uma vez brindado este seu desempenho. Permito-me, somente, manifestar algum receio perante a perspectiva de acabar por ver Bill Murray encurralado nesse papel de palhaço triste fleumático e minimalista. Por mais que esse papel sirva o seu estilo e o seu corpo, deixá-lo petrificar-se nesse registo seria uma afronta à sua versatilidade.

quarta-feira, dezembro 28, 2005

UN CERTAIN AR DE FAMILLE ou ROIS ET REINE (5): Em "Rois et Reine" (não sei se já terá dado para perceber que este filme não me desagradou completamente!) são abundantes as ramificações e alusões a genealogias reais e cinéfilas. Lista não exaustiva: - Mathieu Amalric e Emmanuelle Devos formavam já o par central de "Comment Je Me Suis Disputé... (Ma Vie Sexuelle)", film-fleuve que revelou em definitivo o talento e a originalidade de Arnaud Desplechin. - Joachim Salinger, que desempenha o papel de Pierre em "Rois et Reine" (marido e pai depois de morto), é irmão de Emmanuel Salinger, que fazia parte do núcleo inicial de actores próximos de Desplechin, tendo assumido o papel principal em "La Sentinelle" e feito parte do elenco de "Comment Je Me Suis Disputé...". Os espectadores portugueses viram recentemente Emmanuel Salinger em "Triple Agent" de Rohmer (ele era o jovem comunista vizinho do "triplo agente" Fiodor). - Noémie Lvovsky, que desempenha o papel da irmã de Mathieu Amalric (a que acaba por ser responsável pelo seu internamento) foi colega de curso de cinema de Arnaud Desplechin, tendo sido argumentista dos dois primeiros filmes deste: "La Vie des Morts" e "La Sentinelle". Tem conduzido uma carreira paralela como actriz e realizadora. - Magali Woch, a Arielle ("chinesinha") de "Rois et Reine", protagonizou dois filmes de Noémie Lvovsky: "Petites" e "La Vie Ne Me Fait Pas Peur" (o primeiro para TV). Ambos notáveis, diga-se de passagem. Este papel no filme de Desplechin pode representar uma transição coroada de sucesso de curiosidade adolescente para jovem esperança do cinema francês, e, aliás, valeu-lhe uma nomeação para o César de melhor revelação. - Por fim, Maurice Garrel é o pai de Emmanuelle Devos no filme, e o pai do realizador Philippe Garrel na vida real. (Deste último, aguardo ansiosamente "Les Amants Réguliers", que tem sido coberto de elogios por onde passa.)
«Pourtant il faut insister sur la démarche initiale et fondamentale: la République, en fin de compte, repose sur le refus conscient de toute forme de transcendance. En tant que régime politique, sans doute; mais elle n'est pas seulement un régime, puisqu'elle construit et détermine elle-même l'individu comme la société. Ce refus de la transcendance sera donc aussi large et aussi complet que possible, et débordera la politique au sens étroit do mot. (...) Il ne s'agit pas, bien entendu, de prendre parti autoritairement sur les problèmes religieux, sur l'existence ou la nature de Dieu: des républicains ont le droit de croire ou de ne pas croire. Il s'agit de définir une démarche mentale et politique qui rende inutiles ou inadéquates les questions de ce genre, de trouver un terrain nouveau sur lequel elles n'ont pas de compétence.» (Claude Nicolet, "L'idée républicaine en France (1789-1924)".)
MENSAGEM: O que pode justificar a transmissão televisiva da tradicional mensagem natalícia do cardeal-patriarca de Lisboa? Ou bem que a mensagem se destina aos católicos; e, nesse caso, por mais louvável e compreensível que seja José Policarpo dirigir-se às consciências dos membros do seu rebanho, compreende-se mal o que pode levar uma estação de televisão pública a dar o seu beneplácito hertziano a uma comunicação pastoral exclusivamente dedicada a uma comunidade religiosa. Ou bem que a mensagem se destina aos portugueses em geral; e, nesse caso, existe legitimidade para perguntar ao senhor cardeal que tipo de mandato ou autoridade possui para dirigir exortações ao povo de um país soberano, que possui os seus magistrados eleitos democraticamente. A situação seria menos abusiva se o senhor cardeal se confinasse à esfera espiritual; mas só os cândidos podem esperar de um alto membro do clero católico, se lhe for dada a oportunidade, que este enjeite a ocasião de plantar foice em seara alheia, e de dar largas a essa antiga propensão para traçar as fronteiras da conveniência e da integridade moral de todos aqueles que julga abarcados pela sua alçada.

terça-feira, dezembro 27, 2005

ROIS ET REINE (4): Há uma entrada relativa à expressão "fou à lier" (que consta do poema de Michel Leiris de onde deriva o título do filme) no "Dictionnaire des Expressions et Locutions", de Alain Rey e Sophie Chantreau, da colecção "Les Usuels du Robert" (um dos mais úteis e preciosos livros que adquiri durante a minha estadia em terras parisienses). Segue um extracto: «Dans l'usage courant, la valeur coercitive de l'expression n'est plus sentie avec son intensité première: elle a été en grande partie démotivée, à lier ne conservant que la notion superlative de "complètement, totalement". En effet l'idée de violence attachée à fou s'est effacée devant celle d'extravagance (cf. les locutions voisines, courantes au XVIIIe s.: fou à courir dans les rues ou les champs).»

segunda-feira, dezembro 26, 2005

ROIS ET REINE(3): Escreve Jorge Mourinha, no "Público", a propósito do último filme de Arnaud Desplechin: «(...)é nesse metódica acumulação de pormenores ao longo de uma narrativa toda construída em tangentes, bem como nas irrepreensíveis interpretações, que o filme justifica o interesse, sem nunca conseguir erguer-se acima de um certo cinema francês palavroso, literário, teatral, incapaz de conquistar do espectador envolvimento emocional.» Não espero que todos alinhem no mesmo entusiástico diapasão com que me tenho vindo a referir a "Rois et Reine", para mim um dos filmes maiores do ano que agora acaba. Mas julgava-me no direito de contar com um pouco mais de penetração crítica da parte de alguém que escreve para um jornal com uma curta, mas sólida, tradição de tratamento da coisa cinematográfica. Com efeito, afirmar deste filme que ele é incapaz de se erguer "acima de um certo cinema francês" é incompatível com a tensão, que a ele preside, entre ruptura formal com tendências contemporâneas e um desejo de continuidade e manifesto respeito por antecessores. É esta coexistência entre o pendor classicista e um apetite pela invenção que é responsável por uma larga parte do fascínio que emana de "Rois et Reine". É, pois, decepcionante que um filme que tão exuberantemente exibe a sua vontade (conseguida) de fazer diferente acabe remetido ao tristonho estatuto de "mais do mesmo". É caso também para perguntar a que "certo cinema francês" se refere Jorge Mourinha. "Palavroso"? Nem todos os cineastas franceses são Rohmer. A suposta preponderância do diálogo no cinema francês parece-me ser da ordem do mito ou do lugar-comum. "Literário"? Em nenhuma outra cinematografia se tem sentido com tanta intensidade a urgência da busca de uma linguagem própria para o cinema, independente de modelos literários ou outros. Não é preciso procurar muito longe para se encontrar um cinema onde as preocupações com a caução literária se sentem com muito maior premência - basta cruzar o canal da Mancha. "Teatral"? Desde a Nouvelle Vague que o cinema francês é predominantemente anti-teatral, com predominância de um naturalismo radical pouco devedor das artes cénicas. Quando o teatro é abordado (por exemplo pelo próprio Desplechin na sua anterior longa-metragem, "Léo, en Jouant Dans la Compagnie des Hommes", infelizmente inédito entre nós), é-o quase sempre de forma explícita e crítica. Quanto à incapacidade de "conquistar do espectador envolvimento emocional", candidato-me a contra-exemplo vivo disto mesmo. Mas fico-me por aqui. Ça me regarde. E, em todo o caso, já saímos do domínio dos argumentos críticos.

domingo, dezembro 25, 2005

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: No comboio Alfa Pendular, uma senhora de idade, viajando a meu lado, lia um livrinho de orações ao Doutor Sousa Martins. Jamais me senti a tal ponto irmanado com um companheiro de viagem desconhecido. Não ousava admitir que pessoas que liam orações ao Divino Doutor em público existissem fora das minhas fantasias mais desvairadas. E, porém, aquela senhora estava ali. A meu lado. Reflectia luz e emitia som. Até falou comigo. Não repliquei. Pretenderia converter-me? Inútil. Não existe discípulo mais fervoroso do ilustre médico de Alhandra do que este vosso criado.
SEGUNDA REPÚBLICA: Tal como o autor deste post no blog Ponte Europa, também sou da opinião de que devemos designar o regime em que vivemos actualmente por "Segunda República", e não "Terceira República". Não basta que seja eleito um Presidente de tantos e tantos anos, não basta que a palavra "República" apareça em moedas e papel de carta dirigido a potências estrangeiras para que um regime possa ser considerado republicano. O corporativismo, o conúbio com a Igreja e os atropelos constantes às liberdades democráticas que caracterizaram o Estado Novo são incompatíveis com a noção de "República". Os regimes genuinamente republicanos que brotaram, desde as Revoluções Americana e Francesa, mas essencialmente a partir do século XX, caracterizaram-se por ser fortemente teorizados, lançados em bases doutrinárias sólidas. Muitas das mais brilhantes mentes políticas dos últimos dois ou três séculos estiveram implicadas na sua formulação. Essa foi uma condição necessária à sua sobrevivência num ambiente hostil, sob a permanente ameaça de correntes legitimistas e ultramontanistas que esmagariam sem piedade uma República deficientemente consolidada. Não façamos a todos aqueles que participaram dessa continuada aventura intelectual a desfeita de tomar a nuvem por Juno, chamando "República" a um regime que não passou de uma sórdida caricatura disso mesmo.