terça-feira, janeiro 24, 2006
ENQUANTO ISSO, NAS PRAIAS BRUMOSAS DE WIJK AAN ZEE: No supertorneio de xadrez "Corus", a liderança é partilhada pelo indiano Viswanathan Anand e pelo búlgaro (e campeão do mundo) Vesselin Topalov, os dois jogadores que disputam a supremacia mundial nos dias de hoje. A apenas meio ponto, encontra-se a grande sensação deste torneio: o ucraniano Sergey Karjakin, que cumpriu 16 anos há poucos dias.
O meu ídolo Vassily Ivanchuk, depois de um começo fulgurante, tem sido vítima da irregularidade que tanto exaspera os seus fãs, e encontra-se a 1 ponto do duo da frente.
No também muito forte torneio B, outro jovem prodígio (Magnus Carlsen, Noruega, 15 anos) comanda com autoridade.
Hoje (segunda) foi dia de descanso. Terça e quarta, mais xadrez. Quinta, descanso outra vez. Depois, xadrez até domingo. Quel métier!
ONDE É QUE PÁRA A REVISTA?: Já repararam que os portugueses andam mais macambúzios? Não é tarefa árdua lobrigar a razão: a revista "Aguasfurtadas", que já vai no seu número 8, torna-se difícil de encontrar devido a problemas de distribuição. Mesmo os mais tenazes acabam por se resignar a um fado mais negro que o negrume: privar-se dos poemas de Affonso Romano de Sant'Anna, Margarida Ferra e João Luís Barreto Guimarães, da tradução inédita de "The Book of Ahania", de William Blake, da responsabilidade de Manuel Portela, e das primeiras traduções para português da poeta iraniana Forugh Farrokhzad e do poeta de língua ladina Moshe Ha-Elion, assim como dos contos de Paulinho Assunção, Valério Romão, António Tavares Lopes e da estreia de Lourenço Bray, já para não falar da peça de teatro inédita de Regina Guimarães e Saguenail e de um extraordinário ensaio de Jorge Mantas sobre Marcel Proust, ou dos múltiplos trabalhos em diferentes áreas das artes visuais e ainda de um CD com obras de compositores portugueses contemporâneos, que acolhe as primeiras gravações da rubrica "Ostra" (Antena 2), de Pedro Coelho.
Porém, existe uma nesga de esperança nesta muralha de desânimo! É possível endereçar os pedidos directamente para
jup@jup.pt
ou"aguasfurtadas" Rua Miguel Bombarda, 187
4050-381 Porto
onde nenhum pedido ficará por atender.
E eis que os sorrisos voltam a brotar, resplandecentes, nos rosados semblantes lusos.
domingo, janeiro 22, 2006
K A PROPÓSITO DE K:
«I was impressed by the Expressionists of the eighteenth century, Büchner's "Wozzeck", Heinrich von Kleist's "Penthesilea", Ferdinand Raimund's moralistic plays, Nestroy's satirical works.»
(Oskar Kokoschka, citado em "Kokoschka: Life and Work", de Edith Hoffman.)
Oskar Kokoschka, "Montana Landschaft" (1947).
quinta-feira, janeiro 19, 2006
PARA UMA ÉTICA E UMA ESTÉTICA DO GATO PERDIDO (1):
(entrevistas de rua)
«É de um paradigma que se trata, mas de um paradigma dotado de corpo fofo e flexível, com um tufo de pêlos brancos no ventre.» (D.H., delegado de propaganda médica, Santo Amaro de Oeiras.)
«Quem disse que o utilitarismo transcende a categoria das coisas ronronantes, que procuram a sua felicidade nas sarjetas e nos algerozes?» (A.T., assistente social, Campolide.)
«A harmonia não entra aqui. É precisamente no limiar onde a harmonia claudica, e cede a seu pesar a preponderância a algo que, à falta de melhor, eu designo como a "esplendorosa rugosidade da contingência", que o gato perdido encontra o seu nicho. O seu fulgor é o fulgor da alteridade. Disfarça-se de inócuo facto da existência para esconder uma natureza que se compraz na alteridade e numa, como direi, diluição dos conceitos.» (F.B., inspectora das Finanças, Rio de Mouro.)
«O meu chamava-se Pimpão, e gostava de brincar com a minha Parker 51, não gostava de mais nenhuma caneta, só da Parker.» (R.S. juiz-desembargador, Bobadela.)
«Não tenho absolutamente nada a acrescentar àquilo que Adorno escreveu em "Minima Moralia". Nem uma vírgula.» (H. C., profissional de show-cooking, Samora Correia.)
THANK YOU FOR THE MUZAK: No filme "Odete", a música que se escuta na loja de artigos para bebé não passa de uma versão easy da ária "Erbarme dich, mein Gott", do "Evangelho Segundo São Mateus".
É um tributo à grandeza de Bach reconhecer que, estropiada e apoucada, a sua música guarda ainda um poderoso travo de genialidade.
DO SOM: Que mais, senão trombetas soando, fariam justiça ao regresso da Seta Despedida? (De preferência, trombetas sem o mute do símbolo do romance de Pynchon.)
LUGARES DE PARIS: No filme "Caché" de Michael Haneke, o casal Daniel Auteuil/Juliette Binoche vive na rue Vulpian, no meu adorado 13ème arrondissement. Contudo, uma aura de mistério rodeia a localização exacta do lar conjugal. De facto, pareceu-me ler, na tabuleta da rua que faz entroncamento com a dita rue Vulpian, o nome "rue des Iris". Sucede, todavia, que esta artéria se situa a considerável distância da rue Vulpian, se bem que também no 13ème (e a um vigoroso arremesso de pedra do aprazível parque Montsouris).
Este enigma, para mim, é mais importante do que saber quem enviava as cassetes de vídeo que atormentam a existência das personagens principais do filme.
Sinto-me tentado a adquirir o DVD (assim que estiver disponível), e a emular a personagem de Daniel Auteuil, quando este imobiliza a imagem da cassete até descobrir o nome da rua que a câmara mostra: uma avenue Lénine em Romainville.
A Z O QUE É DE Z: Por lapso imperdoável, esqueci-me neste post de referir outra razão para gostar de Zapatero, e que não é certamente das menos dignas de nota: a legalização dos casamentos homossexuais. Mais uma medida justa e moderna; mais uma medida que atraiu animosidade por parte dos sectores costumeiros, que se acreditam mandatados para controlar a moralidade dos povos; mais uma medida que estava na altura de aplicar também aquém-fronteira.
quarta-feira, janeiro 18, 2006
EAVESDROPPERS OF THE WORLD, UNITE!: Num restaurante de um centro comercial do Porto, os convivas escutavam, entre a incredulidade e o riso mal reprimido, uma conversa que ocorria numa mesa ao lado, entre dois cavalheiros que aproveitavam o pós-prândio para discorrer sobre a vida, a política e a podridão dos agentes culturais.
Da música («esse Mozart... grande homem!... isso é que era um artista! E levava pontapés no cu de um bispo... Escreveu o "Don Giovanni", essa coisa fabulosa, e acabou como acabou.»)...
...à literatura (elenco, próximo da exaustividade, de nomes que, imerecidamente, constam dos suplementos literários dos jornais portugueses)...
...à performance e às artes plásticas («Aquela gaja, a Vera Mantero... Aquilo que ela levou a São Paulo... Toda nua, com umas tatuagens... Entre dois andaimes... E ficava lá em cima durante duas horas...»).
Chegada a hora da sobremesa, tendo os dois vencidos da vida já partido para novas aventuras, ocorreram-me duas coisas: primeiro, que se escancarara ali uma fresta na verosimilhança quotidiana, quem sabe se fruto da acção de um qualquer génio travesso; segundo, que tem o seu quê de estranho ouvir pronunciar o nome de Armando da Silva Carvalho em pleno centro comercial.
terça-feira, janeiro 17, 2006
A MARCA DO Z: Cada vez admiro mais o senhor José Luis Rodríguez Zapatero.
Tudo começou com a composição do seu executivo. Não sou adepto incondicional de quotas, mas formar um governo com igual representação de ambos os sexos, num país latino, tem algo de revolução tranquila que nunca é de mais saudar.
Cresceu a minha admiração com as numerosas medidas destinadas a contrariar a absurda posição dominante da igreja católica em Espanha, nomeadamente a abolição do carácter obrigatório da disciplina de Religião e Moral. Tais medidas, como seria de prever, levantaram ondas de indignação por parte da corporação em questão, mais um sintoma de que o premier espanhol se encontra no bom caminho. Conheço poucas credenciais mais abonatórias para um político do que ser alvo de manifestações de rua por parte dos sectores mais pacoviamente beatos e ultramontanos do país que dirige.
Surge agora a legislação contra o consumo de tabaco em locais públicos, que entrou recentemente em vigor no país vizinho. Também aqui, era inevitável um movimento de crispação por parte daqueles que, cronicamente dados à vitimização, se julgaram visados por aquilo que, no fundo, não passa de um conjunto de medidas impregnadas de bom senso, cujo fim principal é o de proteger os cidadãos da exposição à prepotência do fumo alheio.
A reacção de Francisco José Viegas é, deste ponto de, vista típica: mau grado o tom de conscienciosa moderação («Só fumo nos locais permitidos. Não violo a lei.», como se isso fosse proeza digna de louvor, e não o mais elementar dos deveres), consegue encapsular em poucas linhas os três principais lugares-comuns da contra-argumentação canónica dos tabagistas descontentes:
Tudo começou com a composição do seu executivo. Não sou adepto incondicional de quotas, mas formar um governo com igual representação de ambos os sexos, num país latino, tem algo de revolução tranquila que nunca é de mais saudar.
Cresceu a minha admiração com as numerosas medidas destinadas a contrariar a absurda posição dominante da igreja católica em Espanha, nomeadamente a abolição do carácter obrigatório da disciplina de Religião e Moral. Tais medidas, como seria de prever, levantaram ondas de indignação por parte da corporação em questão, mais um sintoma de que o premier espanhol se encontra no bom caminho. Conheço poucas credenciais mais abonatórias para um político do que ser alvo de manifestações de rua por parte dos sectores mais pacoviamente beatos e ultramontanos do país que dirige.
Surge agora a legislação contra o consumo de tabaco em locais públicos, que entrou recentemente em vigor no país vizinho. Também aqui, era inevitável um movimento de crispação por parte daqueles que, cronicamente dados à vitimização, se julgaram visados por aquilo que, no fundo, não passa de um conjunto de medidas impregnadas de bom senso, cujo fim principal é o de proteger os cidadãos da exposição à prepotência do fumo alheio.
A reacção de Francisco José Viegas é, deste ponto de, vista típica: mau grado o tom de conscienciosa moderação («Só fumo nos locais permitidos. Não violo a lei.», como se isso fosse proeza digna de louvor, e não o mais elementar dos deveres), consegue encapsular em poucas linhas os três principais lugares-comuns da contra-argumentação canónica dos tabagistas descontentes:
- o mito da "perseguição" (como se o maior prazer de um governo fosse, sadicamente, perseguir os fumadores)
- o espantalho do "moralismo" (como se a moral fosse tida ou achada para esta questão, que não sai do foro da saúde pública)
- a alusão a práticas fascistas (que eu me recuso a qualificar)
Senhor Rodríguez Zapatero, sugiro-lhe humildemente que traga à conversa estes assuntos aquando da próxima cimeira ibérica. Entre uma tapa e um pastel de bacalhau talvez consiga fazer do seu homólogo português um seu émulo, pelo menos no que as estas sadias e corajosas medidas diz respeito.
SUGESTÃO PARA OS TEMPOS LIVRES: Pediram-nos que divulgássemos o seguinte presse-rilize, que, por não conter nada de contrário à moral vigente nem aos brandos costumes nacionais, passamos a transcrever:
A 9ª edição da International Conference of the Short Story in English vai decorrer, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, entre os dias 21 e 25 de Junho de 2006. Trata-se de um evento que tem por objectivo pôr em contacto escritores, críticos e apreciadores de conto. Este encontro apresenta a característica de associar os escritores de língua inglesa aos do país onde se realiza, promovendo, ainda, o diálogo entre autores em início de carreira e outros já consagrados. Assim sendo, contaremos, em Portugal, com a presença de Amy Tan, Bharati Mukherjee, James Alan MacPherson, Minoli Salgado, Cynthia Ozick e muitos outros, bem como de [sobre este nome caiu uma gota de chá vermelho baunilhado], Catarina Fonseca, Gonçalo M. Tavares, Hélia Correia, Jacinto Lucas Pires, João Aguiar, João de Mancelos, Jorge Vaz de Carvalho, Luísa Costa Gomes, Onésimo Teotónio de Almeida, Rui Zink, Teolinda Gersão e Urbano Tavares Rodrigues, e de críticos como Charles May, George Monteiro, Susan Lohaffer ou Rolf Lunden.
Haverá sessões de leitura por todos os escritores e cinco workshops de escrita criativa sob orientação de Amiri Baraka, Francine Prose, John Edgar Wildeman, Katherine Vaz e Rui Zink.
Lista completa de autores e mais informações em www.fl.ul.pt/eventos/short_story, onde se podem fazer as inscrições e propor comunicações, debates ou painéis sobre o tema (data limite das propostas até final de Janeiro)
quinta-feira, janeiro 12, 2006
LEVAR AO LUME DURANTE MEIA HORA, MEXER BEM: Isto é assim, como tenho andado com pouco tempo, decidi coligir num só post uma mancheia de tópicos breves que espero desenvolver em ocasiões próximas.
- Vai começar amanhã o torneio de xadrez "Corus", em Wijk aan Zee, na Holanda.
- "Broken Flowers" (filme sobre a desagregação do sentido) e "Rois et Reine" (elogio oblíquo mas categórico da procura de um "sentido" na vida) não tão contraditórios como isso?
- Para uma ética e uma estética do gato perdido (entrevistas de rua na Grande Lisboa).
- Momentos kleistianos em "Jakob von Gunten", de Walser.
- Abertura ao público do Jardim Ponge.
- Citações republicanas.
- Bombons Mozart da Mirabell à venda no Continente do Colombo! Choque! Espanto!
- A francofobia é a doença do espírito mais disseminada do mundo hoje em dia.
- Novo CD da Fiona Apple é um portento.
- Quem anda com quem nos "Morangos": abordagem baseada na teoria dos grafos.
- Como criar um mito urbano, de uma semana para a outra, a partir de uma oficina de sapateiro no Bairro dos Actores.
- Momentos kleistianos em Stendhal.
EPÓNIMOS: Parece-me ter escapado às Forças Vivas da nação que este ano de 2005 viu estrear nada menos de três filmes portugueses cujos títulos consistiam singelamente em nomes próprios, por acaso todos eles femininos: "Adriana" (Margarida Gil), "Alice" (Marco Martins) e "Odete" (João Pedro Rodrigues).
Trata-se, no fundo, de mais uma confirmação de uma tendência muito arreigada no cinema luso, e que não é de hoje. Basta recordar obras como "Francisca" (Manoel de Oliveira), "Silvestre" (João César Monteiro), "Ana" (António Reis e Margarida Cordeiro), "Glória" (Manuela Viegas) e "Jaime", que é nome de não um mas dois filmes portugueses (outra vez António Reis, o primeiro, António Pedro Vasconcelos o mais recente). Em "Benilde ou a Virgem Mãe", Manoel de Oliveira é salvo pelo gong do título alternativo.
terça-feira, janeiro 10, 2006
AS MINHAS GANDAS CENAS: Na sequência deste desafio, não resisto a meter a minha colherada.
Três cenas cuja cotação no meu imaginário cinéfilo nunca deixaram de estar em alta, indiferentes ao tempo, a ventos, marés e a quaisquer sextas-feiras negras.
1) A cura do rapaz gago no prológo de "O Espelho", de Tarkovsky.
2) A cena final de "Miller's Crossing", dos irmãos Coen (Gabriel Byrne e o seu chapéu, o mais improvável dos fetiches, dupla de sonho).
3) A visita ao Louvre, em tempo recorde, de Sami Frey, Anna Karina e Claude Brasseur, em "Bande à Part" de Godard.
Uma busca muito rápida não chegou para encontrar as imagens respectivas. Tentarei voltar a tentar (tentativamente).
segunda-feira, janeiro 09, 2006
LEITURAS: Estou a ler uma recolha de contos de Luigi Pirandello. Acho desconcertante verificar até que ponto a faceta de ficcionista de Pirandello é tão menosprezada em Portugal. Em Itália, romances como "Uno, Nessuno e Centomila" ou "Il Fu Mattia Pascal" são considerados clássicos absolutos.
Nos contos de Pirandello, identificam-se com facilidade temas e obsessões presentes igualmente na sua dramaturgia: a clivagem entre o ideal e a imagem projectada para o exterior, a exposição de mundividências particulares em conflito (por vezes em paradoxal harmonia) com o mundo exterior, a infidelidade conjugal, o suicídio, as minúsculas epifanias da condição humana capazes de fazer coabitar o trágico, o cómico e uma forma mordaz de estoicismo perante a adversidade.
Do prefácio, de Lucio Lugnani, retive dois pontos que me interessaram:
- a ideia da obra de Pirandello como um todo, indivisível, concretizado e ilustrado pelas instâncias (romances, contos e peças) que o servem; cada texto individual como uma janela que oferece ao leitor uma nova perspectiva sobre um imago mundi englobante que coincide com a própria razão de ser do artista Pirandello
- a elaboração da grande recolha "Novelle per un anno" (1922). No prefácio a esta magna antologia da sua ficção curta, o próprio Pirandello dá a entender que o seu propósito original era (respeitando o título escolhido) o de coligir 365 contos, repartidos em 12 volumes, e que só a obstinação em contrário do seu editor disso o teria demovido. Tal propósito colide frontalmente com este simples facto: até à data, Pirandello tinha escrito pouco mais de 200 contos. Parece haver, portanto, uma tentativa tongue in cheek de edificar uma micro-ficção pessoal, na qual o autor se encena como autor incompreendido. Como se o seu apetite pelo fingimento e a sua voracidade ficcional exigissem vários níveis concêntricos para se espraiar.
LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Na Sala Doutor Félix Ribeiro da Cinemateca Portuguesa, à Barata Salgueiro (pois claro), um jovem lia, absorto comme il se doit, "El Laberinto de la Soledad", de Octavio Paz.
Octavio Paz em versão original! Antes do "Couraçado Potemkin"! Quarenta pontos de bónus.
Podem algumas vozitas da reacção argumentar que visitar a Cinemateca para descobrir leitores em lugar público não passa de voyeurismo intelectual, e, em todo o caso, constitui violação do espírito eminentemente aleatório que sempre presidiu a esta rubrica, cujo centro de gravidade se tem situado nos transportes em comum desde a primeira hora.
A esses amigos da insinuação eu limito-me a responder que, primo, eu queria mesmo ir ver o Eisenstein. Secundo, a vida de um coleccionador de ensimesmamentos bibliófilos alheios não está, na Cinemateca, tão facilitada como se poderia esperar. A ausência de bancos decentes, a débil iluminação, e outrossim a concorrência do bar/restaurante convidam, com perene convicção, o visitante a actividades extraliterárias.
Entre Octavio Paz e os peixinhos da horta, ou os espinafres "39 degraus", nem sempre a escolha recairá sobre o primeiro!
(Havia um gato no "Couraçado", aspecto negligenciado por décadas de exegese.)
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