(Boris Gelfand, Israel, grande-mestre de xadrez, nº 9 do mundo, sem cadastro conhecido)
(Foto de Fred Lucas)
(Boris Gelfand, Israel, grande-mestre de xadrez, nº 9 do mundo, sem cadastro conhecido)
(Foto de Fred Lucas)
Oskar Kokoschka, "Montana Landschaft" (1947).
Tudo começou com a composição do seu executivo. Não sou adepto incondicional de quotas, mas formar um governo com igual representação de ambos os sexos, num país latino, tem algo de revolução tranquila que nunca é de mais saudar.
Cresceu a minha admiração com as numerosas medidas destinadas a contrariar a absurda posição dominante da igreja católica em Espanha, nomeadamente a abolição do carácter obrigatório da disciplina de Religião e Moral. Tais medidas, como seria de prever, levantaram ondas de indignação por parte da corporação em questão, mais um sintoma de que o premier espanhol se encontra no bom caminho. Conheço poucas credenciais mais abonatórias para um político do que ser alvo de manifestações de rua por parte dos sectores mais pacoviamente beatos e ultramontanos do país que dirige.
Surge agora a legislação contra o consumo de tabaco em locais públicos, que entrou recentemente em vigor no país vizinho. Também aqui, era inevitável um movimento de crispação por parte daqueles que, cronicamente dados à vitimização, se julgaram visados por aquilo que, no fundo, não passa de um conjunto de medidas impregnadas de bom senso, cujo fim principal é o de proteger os cidadãos da exposição à prepotência do fumo alheio.
A reacção de Francisco José Viegas é, deste ponto de, vista típica: mau grado o tom de conscienciosa moderação («Só fumo nos locais permitidos. Não violo a lei.», como se isso fosse proeza digna de louvor, e não o mais elementar dos deveres), consegue encapsular em poucas linhas os três principais lugares-comuns da contra-argumentação canónica dos tabagistas descontentes:
Senhor Rodríguez Zapatero, sugiro-lhe humildemente que traga à conversa estes assuntos aquando da próxima cimeira ibérica. Entre uma tapa e um pastel de bacalhau talvez consiga fazer do seu homólogo português um seu émulo, pelo menos no que as estas sadias e corajosas medidas diz respeito.
ROIS ET REINE: Depois de "Pas de Repos pour les Braves", eis que estreou entre nós "Rois et Reine", de Arnaud Desplechin, mais um argumento para o arsenal daqueles, entre os quais me conto, que defendem ser o cinema francês o mais interessante da actualidade.
Existe um aspecto curioso nas reacções da crítica (mais ou menos especializada) a este filme. Poucas foram, de entre aquelas que li, as que omitiram essa coexistência entre registos antagónicos: o burlesco (de que o desventurado Mathieu Amalric assume a parte leonina) e o extremamente trágico.
Poucos são, no entanto, aqueles que aprofundam esta (inegável) natureza híbrida. Será que, só por si, fazer caber tanto o cómico como o pungente na mesma longa-metragem é façanha digna de encómio? Parece-me que não. O valor de um cineasta não se mede em função de acrobacias a que se entregue, nem meramente em função da amplitude da paleta de emoções que emprega.
Desplechin está longe de ser um vão malabarista de imagens e argumentos. E o registo heterogéneo e inconstante que adopta em "Rois et Reine" é perfeitamente coerente com a sua riquíssima obra passada, que lhe grangeou a aura de seguidor de um cineasta popular-inteligente como Truffaut, ou de um subtil agente subversor de géneros, como Resnais. Para Desplechin, categorias e géneros não são espartilhos nem cadernos de encargos, mas sim plataformas de apoio, dotadas de memória cinéfila que urge respeitar sem subserviência.
Defendo que a componente mais fascinante do cinema de Desplechin passa precisamente por uma ancoragem num cinema clássico, devedor da narrativa e da definição de personagens com espessura psicológica, uma ancoragem flexível quanto baste para permitir vastas latitudes de exploração celebratória das possibilidades do cinema. Sem vanguardismo explícito, Desplechin distingue-se da quase totalidade dos seus pares pela vontade (e talento) de tratar cada cena como um problema de cinema, equacionável e solúvel por meio de imagens em movimento, parte de um todo mas também dotada de uma energia própria.
"Rois et Reine" é um filme deslumbrante acima de tudo devido à reverberação de inventividade cinematográfica que acompanha o desenrolar da lógica do enredo, como se todo ele estivesse banhado numa vontade de expressão, transbordante mas disciplinada. Algumas das cenas mais belas são-no muito graças a esse "algo-mais" formal, que se assume quase como um segundo filme, ou como um making of em tempo real, comentário permanente aos próprios desafios que cada cena, cada nodo do enredo, foram colocando. Nesses momentos (estou a pensar na dança de Mathieu Amalric perante os outros internados, no sonho em que Emmanuelle Devos reencontra o seu falecido primeiro marido, ou na extraordinária sequência final no Museu do Homem), é a própria presença do cinema que (dir-se-ia) irradia, de onde não se esperaria que houvesse mais do que corpos, rostos e cenários, isentos de luz própria.
(Via "The Daily Dirt Chess Blog", de Mig Greengard.)
Por isso, por este acto de coragem, José Nuno Martins passou a ter perante mim crédito infinito. Pode até suceder que ele venha a apresentar a "1ª Companhia" ao lado de um burro que fala. Para mim, isso nada pesará face ao facto de ter escolhido para filme da vida um filme como "L'Amour Fou", essa inquietante obra-prima em que os planos do teatro e da vida, talvez ainda mais do que em qualquer outra obra de Rivette, se dilaceram e potenciam mutuamente.
O filme de Desplechin suscitou uma rara quase-unanimidade entusiasta por parte da crítica especializada francesa. Isto, só por sim, nada quer dizer, e poderia até ser sinal preocupante. Neste caso, porém, julgo tratar-se do simples reflexo do modo como o autor do também genial "Esther Kahn" conjuga uma componente popular com um apelo cúmplice à inteligência e à ousadia do espectador.
Espero voltar a falar deste filme.
On a bed where the moon has been sweating,
in a cry filled with footsteps and sand
(Leonard Cohen)
Para servir de comparação, eis agora um outro tabuleiro, numa posição errada. (Ignorem, por favor, o insólito tolkieniano das figuras.)

(Do filme "Passion", de Jean-Luc Godard, que foi visível na Cinemateca na passada segunda-feira. Frase proferida por Hanna Schygulla.)
(Fragmentos da "Virgem da Imaculada Conceição", de El Greco, e "3 de Maio de 1808. Execução dos Defensores de Madrid", de Goya.)