quinta-feira, fevereiro 02, 2006
OS DEZ MELHORES FILMES DE 2005 (7 a 5):
nº 7: "Orlando Vargas", de Juan Pittaluga.
Um dos filmes mais singulares do ano. Exploração dos temas do medo, da opressão política, da desaparição, num registo complexo e alusivo, trabalhado até a um extremo de lisura e fluidez que contribui para o poder quase hipnótico do filme. Portentosa interpretação de Aurélien Recoing, e extraordinária presença de uma Elina Löwensohn resgatada ao nosso imaginário colectivo de admiradores de Hartley.
nº 6: "Good Bye Dragon Inn", de Tsai Ming-Liang.
Coreografia de desejos e nostalgias numa sala de cinema prestes a encerrar. A rarefacção brutal das palavras e a persistência tenaz do elemento humano, ainda que trémulo e vulnerável à fugacidade das coisas. "A poesia do tempo real", apetecia-me dizer, não fora o receio de ataviar com fórmulas um filme que as dispensa perfeitamente.
nº 5: "Les Temps Qui Changent", de André Téchiné.
Do escândalo à terna banalidade de um amor recomeçado. Escrevi sobre este soberbo filme aqui.
CAMPOS DE MORANGOS PARA SEMPRE: Estima-se que a população mundial atinja os 6 447 milhões de habitantes. Destes, apenas um ainda não tinha percebido que o Tó Pê, dos "Morangos", estava apaixonado pela professora de Inglês. Infelizmente, o néscio em questão era a própria professora, a quem foi revelada hoje a tremenda verdade, pela boca do principal interessado. Da forma mais denotativa possível, e não daquele modo oblíquo e prenhe em conteúdo metafórico que a situação pedia.
DOIS PESOS E DUAS MEDIDAS: Por menos do que isto, o nosso Cristianinho Ronaldinho foi crucificado em praça pública e alvo de aleivosa saraivada de sanções!!!
(Boris Gelfand, Israel, grande-mestre de xadrez, nº 9 do mundo, sem cadastro conhecido)
(Foto de Fred Lucas)
LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Um cavalheiro, instalado numa carruagem de metropolitano, na linha verde, dedicava a sua atenção ao romance de Fernanda Botelho "Lourenço é Nome de Jogral", um livro muito bom que não é lido em público com a assiduidade que mereceria.
Havia, nos modos do cavalheiro em questão, um quê de fleuma e apaziguada compostura que contrastava flagrantemente com a de outros leitores em lugares públicos. Para citar apenas um exemplo: um leitor de "O Estrangeiro", há dias, na linha vermelha, a quem não parecia faltar mais do que um quase nada para emular o próprio Meursault.
terça-feira, janeiro 31, 2006
LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Um jovem utente da linha verde do metropolitano lia "O Inominável", de Samuel Beckett, que sublinhava conscienciosamente com uma lapiseira.
Neste ano do seu centenário, se a comunicação social dedicasse a Beckett 1 % do espaço que dedica a Mozart, então dedicaria a Mozart 10 000 % do espaço que dedica a Beckett.
A minha busca de leitores em lugares públicos é incompatível com qualquer veleidade de discrição. Ambiciono a exaustividade. Sonho em fazer como a personagem principal do filme "Alice" que, na esperança de vislumbrar a filha desaparecida, visionava cassetes de vigilância de aeroportos obtidas por especial favor.
Quem sabe quantas leituras inverosímeis, pequenos e quotidianos atentados às probabilidades, ocorrerão em lugares públicos enquanto me dedico a actividades privadas?
XADREZ: Terminou o torneio de Wijk aan Zee, que serviu para confirmar aquilo de que poucos duvidavam: a supremacia no xadrez mundial é neste momento disputada por apenas dois homens, o búlgaro Vesselin Topalov (campeão do mundo) e o indiano Viswanathan Anand, que partilharam o primeiro lugar na classificação final.
Têm razões para estar satisfeitos o inglês Michael Adams e o ucraniano Vassily Ivanchuk, meu ídolo, que partilharam o 3º lugar. Adams vinha de uma série de más prestações, e é de augurar que este bom resultado represente uma inversão dessa tendência negativa.
O jovem Sergey Karjakin (Ucrânia, 16 anos, 5º posto ex aequo) confirmou o enormíssimo potencial que lhe é reconhecido desde que se tornou o grande-mestre mais novo de sempre. Já Péter Lékó, da Hungria (que esteve a um passo de roubar o título de campeão do mundo oficioso ao russo Vladimir Kramnik, ausente de Wijk por doença), obteve mais um resultado decepcionante.
Um motivo de curiosidade deste torneio era o regresso de Gata Kamsky, dos EUA, a um supertorneio, após uma suspensão de carreira que durou quase uma década. Kamsky, que chegou a ser um dos 3 ou 4 melhores jogadores do mundo, mostrou uma deficiente preparação nas aberturas, natural depois de uma paragem tão prolongada, mas as 4 vitórias (contra 8 derrotas...) que protagonizou sugerem que tem potencial para regressar aos seus melhores tempos.
No forte torneio B, registou-se outro empate na liderança, entre o russo Aleksandr Motylev e o norueguês Magnus Carlsen (outro menino prodígio, com 15 anos). Ambos deverão ser convidados para o torneio A, para o ano.
De resto, este torneio voltou a mostrar por que razão é, cada vez mais, o preferido dos aficionados do mundo inteiro: numerosas manifestações paralelas, partidas combativas e espectaculares, e uma estimulante mistura de vedetas confirmadas e jovens talentos em ascensão.
Dentro de poucas semanas, disputar-se-á o mítico torneio de Linares, este ano partilhado entre México e Espanha. Infelizmente, Anand não estará presente, pelo que não se assistirá a mais um capítulo do duelo que trava com Topalov, desde já favoritíssimo.
sexta-feira, janeiro 27, 2006
OS DEZ MELHORES FILMES DE 2005 (10 a 8): Foi demorado, este parto da lista dos 10 melhores de 2005. As delongas são, creio, desculpáveis pelas circunstâncias e pelo risco em que a precipitação faria incorrer: haverá algo de mais trágico do que colocar na sexta posição um filme de que, dias depois (e com fulgurante evidência!), nos apercebemos não merecer mais do que a sétima, num elenco por ordem de mérito?
A lista será apresentada por prestações, e acompanhada por rufar de tambores, que eu não disponibilizo, mas que sugiro que invoquem ao vosso banco de memórias sonoras.
nº 10: "O Fatalista", de João Botelho, e "5x2", de François Ozon.
"O Fatalista" foi, para mim, o melhor filme português do ano. Falei sobre ele aqui. Quanto a "5x2", decidi incluí-lo por se tratar de uma obra que, embora estreada ainda em finais de 2004, foi crescendo paulatinamente na minha estima, também (mas não apenas) graças à brilhante banda sonora. Esta conta com temas italianos dos anos 50/60, e um outro, mais recente e fabuloso, de Paolo Conte. Tive a felicidade de descobrir o CD em Viena (ou melhor, alguém mais atento do que eu descobriu-o por mim). Estou a divagar, não estou?
nº 9: "La Niña Santa", de Lucrecia Martel.
Mais uma demonstração da espantosa vitalidade do cinema argentino. Um filme que me surpreendeu pela maneira como combina atmosfera e subtileza narrativa. Demasiado amiúde, os filmes que apostam na exploração dos espaços, dos corpos e dos elementos sensoriais abdicam do argumento e da exploração da riqueza dos relacionamentos humanos. Este é um notável contra-exemplo, conduzido com mão de mestre por Lucrecia Martel.
nº 8: "Broken Flowers", de Jim Jarmusch.
Os Portugueses conhecem-me, e sabem o que eu escrevi sobre este filme. Um belo filme de um dos poucos espíritos verdadeiramente independentes do cinema norte-americano actual. Livre, formalmente elegante, e supremamente moderno pela maneira como aborda o tema do esvaziamento dos indícios e da ilegibilidade do mundo.
LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Na linha verde do metropolitano, uma jovem, de pé, jogava xadrez no seu telemóvel.
Agradeço a todas divindades de todas as mitologias e religiões passadas, presentes e por vir, o terem-me concedido anos de vida suficientes para contemplar tão esplendorosa visão.
(Bem sei que isto não é uma leitura em lugar público. Contudo, inaugurar uma rubrica chamada "Xadrez em lugares públicos" pecaria por um optimismo a confinar com o delírio.)
quarta-feira, janeiro 25, 2006
terça-feira, janeiro 24, 2006
ENQUANTO ISSO, NAS PRAIAS BRUMOSAS DE WIJK AAN ZEE: No supertorneio de xadrez "Corus", a liderança é partilhada pelo indiano Viswanathan Anand e pelo búlgaro (e campeão do mundo) Vesselin Topalov, os dois jogadores que disputam a supremacia mundial nos dias de hoje. A apenas meio ponto, encontra-se a grande sensação deste torneio: o ucraniano Sergey Karjakin, que cumpriu 16 anos há poucos dias.
O meu ídolo Vassily Ivanchuk, depois de um começo fulgurante, tem sido vítima da irregularidade que tanto exaspera os seus fãs, e encontra-se a 1 ponto do duo da frente.
No também muito forte torneio B, outro jovem prodígio (Magnus Carlsen, Noruega, 15 anos) comanda com autoridade.
Hoje (segunda) foi dia de descanso. Terça e quarta, mais xadrez. Quinta, descanso outra vez. Depois, xadrez até domingo. Quel métier!
ONDE É QUE PÁRA A REVISTA?: Já repararam que os portugueses andam mais macambúzios? Não é tarefa árdua lobrigar a razão: a revista "Aguasfurtadas", que já vai no seu número 8, torna-se difícil de encontrar devido a problemas de distribuição. Mesmo os mais tenazes acabam por se resignar a um fado mais negro que o negrume: privar-se dos poemas de Affonso Romano de Sant'Anna, Margarida Ferra e João Luís Barreto Guimarães, da tradução inédita de "The Book of Ahania", de William Blake, da responsabilidade de Manuel Portela, e das primeiras traduções para português da poeta iraniana Forugh Farrokhzad e do poeta de língua ladina Moshe Ha-Elion, assim como dos contos de Paulinho Assunção, Valério Romão, António Tavares Lopes e da estreia de Lourenço Bray, já para não falar da peça de teatro inédita de Regina Guimarães e Saguenail e de um extraordinário ensaio de Jorge Mantas sobre Marcel Proust, ou dos múltiplos trabalhos em diferentes áreas das artes visuais e ainda de um CD com obras de compositores portugueses contemporâneos, que acolhe as primeiras gravações da rubrica "Ostra" (Antena 2), de Pedro Coelho.
Porém, existe uma nesga de esperança nesta muralha de desânimo! É possível endereçar os pedidos directamente para
jup@jup.pt
ou"aguasfurtadas" Rua Miguel Bombarda, 187
4050-381 Porto
onde nenhum pedido ficará por atender.
E eis que os sorrisos voltam a brotar, resplandecentes, nos rosados semblantes lusos.
domingo, janeiro 22, 2006
K A PROPÓSITO DE K:
«I was impressed by the Expressionists of the eighteenth century, Büchner's "Wozzeck", Heinrich von Kleist's "Penthesilea", Ferdinand Raimund's moralistic plays, Nestroy's satirical works.»
(Oskar Kokoschka, citado em "Kokoschka: Life and Work", de Edith Hoffman.)
Oskar Kokoschka, "Montana Landschaft" (1947).
quinta-feira, janeiro 19, 2006
PARA UMA ÉTICA E UMA ESTÉTICA DO GATO PERDIDO (1):
(entrevistas de rua)
«É de um paradigma que se trata, mas de um paradigma dotado de corpo fofo e flexível, com um tufo de pêlos brancos no ventre.» (D.H., delegado de propaganda médica, Santo Amaro de Oeiras.)
«Quem disse que o utilitarismo transcende a categoria das coisas ronronantes, que procuram a sua felicidade nas sarjetas e nos algerozes?» (A.T., assistente social, Campolide.)
«A harmonia não entra aqui. É precisamente no limiar onde a harmonia claudica, e cede a seu pesar a preponderância a algo que, à falta de melhor, eu designo como a "esplendorosa rugosidade da contingência", que o gato perdido encontra o seu nicho. O seu fulgor é o fulgor da alteridade. Disfarça-se de inócuo facto da existência para esconder uma natureza que se compraz na alteridade e numa, como direi, diluição dos conceitos.» (F.B., inspectora das Finanças, Rio de Mouro.)
«O meu chamava-se Pimpão, e gostava de brincar com a minha Parker 51, não gostava de mais nenhuma caneta, só da Parker.» (R.S. juiz-desembargador, Bobadela.)
«Não tenho absolutamente nada a acrescentar àquilo que Adorno escreveu em "Minima Moralia". Nem uma vírgula.» (H. C., profissional de show-cooking, Samora Correia.)
THANK YOU FOR THE MUZAK: No filme "Odete", a música que se escuta na loja de artigos para bebé não passa de uma versão easy da ária "Erbarme dich, mein Gott", do "Evangelho Segundo São Mateus".
É um tributo à grandeza de Bach reconhecer que, estropiada e apoucada, a sua música guarda ainda um poderoso travo de genialidade.
DO SOM: Que mais, senão trombetas soando, fariam justiça ao regresso da Seta Despedida? (De preferência, trombetas sem o mute do símbolo do romance de Pynchon.)
LUGARES DE PARIS: No filme "Caché" de Michael Haneke, o casal Daniel Auteuil/Juliette Binoche vive na rue Vulpian, no meu adorado 13ème arrondissement. Contudo, uma aura de mistério rodeia a localização exacta do lar conjugal. De facto, pareceu-me ler, na tabuleta da rua que faz entroncamento com a dita rue Vulpian, o nome "rue des Iris". Sucede, todavia, que esta artéria se situa a considerável distância da rue Vulpian, se bem que também no 13ème (e a um vigoroso arremesso de pedra do aprazível parque Montsouris).
Este enigma, para mim, é mais importante do que saber quem enviava as cassetes de vídeo que atormentam a existência das personagens principais do filme.
Sinto-me tentado a adquirir o DVD (assim que estiver disponível), e a emular a personagem de Daniel Auteuil, quando este imobiliza a imagem da cassete até descobrir o nome da rua que a câmara mostra: uma avenue Lénine em Romainville.
A Z O QUE É DE Z: Por lapso imperdoável, esqueci-me neste post de referir outra razão para gostar de Zapatero, e que não é certamente das menos dignas de nota: a legalização dos casamentos homossexuais. Mais uma medida justa e moderna; mais uma medida que atraiu animosidade por parte dos sectores costumeiros, que se acreditam mandatados para controlar a moralidade dos povos; mais uma medida que estava na altura de aplicar também aquém-fronteira.
quarta-feira, janeiro 18, 2006
EAVESDROPPERS OF THE WORLD, UNITE!: Num restaurante de um centro comercial do Porto, os convivas escutavam, entre a incredulidade e o riso mal reprimido, uma conversa que ocorria numa mesa ao lado, entre dois cavalheiros que aproveitavam o pós-prândio para discorrer sobre a vida, a política e a podridão dos agentes culturais.
Da música («esse Mozart... grande homem!... isso é que era um artista! E levava pontapés no cu de um bispo... Escreveu o "Don Giovanni", essa coisa fabulosa, e acabou como acabou.»)...
...à literatura (elenco, próximo da exaustividade, de nomes que, imerecidamente, constam dos suplementos literários dos jornais portugueses)...
...à performance e às artes plásticas («Aquela gaja, a Vera Mantero... Aquilo que ela levou a São Paulo... Toda nua, com umas tatuagens... Entre dois andaimes... E ficava lá em cima durante duas horas...»).
Chegada a hora da sobremesa, tendo os dois vencidos da vida já partido para novas aventuras, ocorreram-me duas coisas: primeiro, que se escancarara ali uma fresta na verosimilhança quotidiana, quem sabe se fruto da acção de um qualquer génio travesso; segundo, que tem o seu quê de estranho ouvir pronunciar o nome de Armando da Silva Carvalho em pleno centro comercial.
terça-feira, janeiro 17, 2006
A MARCA DO Z: Cada vez admiro mais o senhor José Luis Rodríguez Zapatero.
Tudo começou com a composição do seu executivo. Não sou adepto incondicional de quotas, mas formar um governo com igual representação de ambos os sexos, num país latino, tem algo de revolução tranquila que nunca é de mais saudar.
Cresceu a minha admiração com as numerosas medidas destinadas a contrariar a absurda posição dominante da igreja católica em Espanha, nomeadamente a abolição do carácter obrigatório da disciplina de Religião e Moral. Tais medidas, como seria de prever, levantaram ondas de indignação por parte da corporação em questão, mais um sintoma de que o premier espanhol se encontra no bom caminho. Conheço poucas credenciais mais abonatórias para um político do que ser alvo de manifestações de rua por parte dos sectores mais pacoviamente beatos e ultramontanos do país que dirige.
Surge agora a legislação contra o consumo de tabaco em locais públicos, que entrou recentemente em vigor no país vizinho. Também aqui, era inevitável um movimento de crispação por parte daqueles que, cronicamente dados à vitimização, se julgaram visados por aquilo que, no fundo, não passa de um conjunto de medidas impregnadas de bom senso, cujo fim principal é o de proteger os cidadãos da exposição à prepotência do fumo alheio.
A reacção de Francisco José Viegas é, deste ponto de, vista típica: mau grado o tom de conscienciosa moderação («Só fumo nos locais permitidos. Não violo a lei.», como se isso fosse proeza digna de louvor, e não o mais elementar dos deveres), consegue encapsular em poucas linhas os três principais lugares-comuns da contra-argumentação canónica dos tabagistas descontentes:
Tudo começou com a composição do seu executivo. Não sou adepto incondicional de quotas, mas formar um governo com igual representação de ambos os sexos, num país latino, tem algo de revolução tranquila que nunca é de mais saudar.
Cresceu a minha admiração com as numerosas medidas destinadas a contrariar a absurda posição dominante da igreja católica em Espanha, nomeadamente a abolição do carácter obrigatório da disciplina de Religião e Moral. Tais medidas, como seria de prever, levantaram ondas de indignação por parte da corporação em questão, mais um sintoma de que o premier espanhol se encontra no bom caminho. Conheço poucas credenciais mais abonatórias para um político do que ser alvo de manifestações de rua por parte dos sectores mais pacoviamente beatos e ultramontanos do país que dirige.
Surge agora a legislação contra o consumo de tabaco em locais públicos, que entrou recentemente em vigor no país vizinho. Também aqui, era inevitável um movimento de crispação por parte daqueles que, cronicamente dados à vitimização, se julgaram visados por aquilo que, no fundo, não passa de um conjunto de medidas impregnadas de bom senso, cujo fim principal é o de proteger os cidadãos da exposição à prepotência do fumo alheio.
A reacção de Francisco José Viegas é, deste ponto de, vista típica: mau grado o tom de conscienciosa moderação («Só fumo nos locais permitidos. Não violo a lei.», como se isso fosse proeza digna de louvor, e não o mais elementar dos deveres), consegue encapsular em poucas linhas os três principais lugares-comuns da contra-argumentação canónica dos tabagistas descontentes:
- o mito da "perseguição" (como se o maior prazer de um governo fosse, sadicamente, perseguir os fumadores)
- o espantalho do "moralismo" (como se a moral fosse tida ou achada para esta questão, que não sai do foro da saúde pública)
- a alusão a práticas fascistas (que eu me recuso a qualificar)
Senhor Rodríguez Zapatero, sugiro-lhe humildemente que traga à conversa estes assuntos aquando da próxima cimeira ibérica. Entre uma tapa e um pastel de bacalhau talvez consiga fazer do seu homólogo português um seu émulo, pelo menos no que as estas sadias e corajosas medidas diz respeito.
SUGESTÃO PARA OS TEMPOS LIVRES: Pediram-nos que divulgássemos o seguinte presse-rilize, que, por não conter nada de contrário à moral vigente nem aos brandos costumes nacionais, passamos a transcrever:
A 9ª edição da International Conference of the Short Story in English vai decorrer, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, entre os dias 21 e 25 de Junho de 2006. Trata-se de um evento que tem por objectivo pôr em contacto escritores, críticos e apreciadores de conto. Este encontro apresenta a característica de associar os escritores de língua inglesa aos do país onde se realiza, promovendo, ainda, o diálogo entre autores em início de carreira e outros já consagrados. Assim sendo, contaremos, em Portugal, com a presença de Amy Tan, Bharati Mukherjee, James Alan MacPherson, Minoli Salgado, Cynthia Ozick e muitos outros, bem como de [sobre este nome caiu uma gota de chá vermelho baunilhado], Catarina Fonseca, Gonçalo M. Tavares, Hélia Correia, Jacinto Lucas Pires, João Aguiar, João de Mancelos, Jorge Vaz de Carvalho, Luísa Costa Gomes, Onésimo Teotónio de Almeida, Rui Zink, Teolinda Gersão e Urbano Tavares Rodrigues, e de críticos como Charles May, George Monteiro, Susan Lohaffer ou Rolf Lunden.
Haverá sessões de leitura por todos os escritores e cinco workshops de escrita criativa sob orientação de Amiri Baraka, Francine Prose, John Edgar Wildeman, Katherine Vaz e Rui Zink.
Lista completa de autores e mais informações em www.fl.ul.pt/eventos/short_story, onde se podem fazer as inscrições e propor comunicações, debates ou painéis sobre o tema (data limite das propostas até final de Janeiro)
quinta-feira, janeiro 12, 2006
LEVAR AO LUME DURANTE MEIA HORA, MEXER BEM: Isto é assim, como tenho andado com pouco tempo, decidi coligir num só post uma mancheia de tópicos breves que espero desenvolver em ocasiões próximas.
- Vai começar amanhã o torneio de xadrez "Corus", em Wijk aan Zee, na Holanda.
- "Broken Flowers" (filme sobre a desagregação do sentido) e "Rois et Reine" (elogio oblíquo mas categórico da procura de um "sentido" na vida) não tão contraditórios como isso?
- Para uma ética e uma estética do gato perdido (entrevistas de rua na Grande Lisboa).
- Momentos kleistianos em "Jakob von Gunten", de Walser.
- Abertura ao público do Jardim Ponge.
- Citações republicanas.
- Bombons Mozart da Mirabell à venda no Continente do Colombo! Choque! Espanto!
- A francofobia é a doença do espírito mais disseminada do mundo hoje em dia.
- Novo CD da Fiona Apple é um portento.
- Quem anda com quem nos "Morangos": abordagem baseada na teoria dos grafos.
- Como criar um mito urbano, de uma semana para a outra, a partir de uma oficina de sapateiro no Bairro dos Actores.
- Momentos kleistianos em Stendhal.
EPÓNIMOS: Parece-me ter escapado às Forças Vivas da nação que este ano de 2005 viu estrear nada menos de três filmes portugueses cujos títulos consistiam singelamente em nomes próprios, por acaso todos eles femininos: "Adriana" (Margarida Gil), "Alice" (Marco Martins) e "Odete" (João Pedro Rodrigues).
Trata-se, no fundo, de mais uma confirmação de uma tendência muito arreigada no cinema luso, e que não é de hoje. Basta recordar obras como "Francisca" (Manoel de Oliveira), "Silvestre" (João César Monteiro), "Ana" (António Reis e Margarida Cordeiro), "Glória" (Manuela Viegas) e "Jaime", que é nome de não um mas dois filmes portugueses (outra vez António Reis, o primeiro, António Pedro Vasconcelos o mais recente). Em "Benilde ou a Virgem Mãe", Manoel de Oliveira é salvo pelo gong do título alternativo.
terça-feira, janeiro 10, 2006
AS MINHAS GANDAS CENAS: Na sequência deste desafio, não resisto a meter a minha colherada.
Três cenas cuja cotação no meu imaginário cinéfilo nunca deixaram de estar em alta, indiferentes ao tempo, a ventos, marés e a quaisquer sextas-feiras negras.
1) A cura do rapaz gago no prológo de "O Espelho", de Tarkovsky.
2) A cena final de "Miller's Crossing", dos irmãos Coen (Gabriel Byrne e o seu chapéu, o mais improvável dos fetiches, dupla de sonho).
3) A visita ao Louvre, em tempo recorde, de Sami Frey, Anna Karina e Claude Brasseur, em "Bande à Part" de Godard.
Uma busca muito rápida não chegou para encontrar as imagens respectivas. Tentarei voltar a tentar (tentativamente).
segunda-feira, janeiro 09, 2006
LEITURAS: Estou a ler uma recolha de contos de Luigi Pirandello. Acho desconcertante verificar até que ponto a faceta de ficcionista de Pirandello é tão menosprezada em Portugal. Em Itália, romances como "Uno, Nessuno e Centomila" ou "Il Fu Mattia Pascal" são considerados clássicos absolutos.
Nos contos de Pirandello, identificam-se com facilidade temas e obsessões presentes igualmente na sua dramaturgia: a clivagem entre o ideal e a imagem projectada para o exterior, a exposição de mundividências particulares em conflito (por vezes em paradoxal harmonia) com o mundo exterior, a infidelidade conjugal, o suicídio, as minúsculas epifanias da condição humana capazes de fazer coabitar o trágico, o cómico e uma forma mordaz de estoicismo perante a adversidade.
Do prefácio, de Lucio Lugnani, retive dois pontos que me interessaram:
- a ideia da obra de Pirandello como um todo, indivisível, concretizado e ilustrado pelas instâncias (romances, contos e peças) que o servem; cada texto individual como uma janela que oferece ao leitor uma nova perspectiva sobre um imago mundi englobante que coincide com a própria razão de ser do artista Pirandello
- a elaboração da grande recolha "Novelle per un anno" (1922). No prefácio a esta magna antologia da sua ficção curta, o próprio Pirandello dá a entender que o seu propósito original era (respeitando o título escolhido) o de coligir 365 contos, repartidos em 12 volumes, e que só a obstinação em contrário do seu editor disso o teria demovido. Tal propósito colide frontalmente com este simples facto: até à data, Pirandello tinha escrito pouco mais de 200 contos. Parece haver, portanto, uma tentativa tongue in cheek de edificar uma micro-ficção pessoal, na qual o autor se encena como autor incompreendido. Como se o seu apetite pelo fingimento e a sua voracidade ficcional exigissem vários níveis concêntricos para se espraiar.
LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Na Sala Doutor Félix Ribeiro da Cinemateca Portuguesa, à Barata Salgueiro (pois claro), um jovem lia, absorto comme il se doit, "El Laberinto de la Soledad", de Octavio Paz.
Octavio Paz em versão original! Antes do "Couraçado Potemkin"! Quarenta pontos de bónus.
Podem algumas vozitas da reacção argumentar que visitar a Cinemateca para descobrir leitores em lugar público não passa de voyeurismo intelectual, e, em todo o caso, constitui violação do espírito eminentemente aleatório que sempre presidiu a esta rubrica, cujo centro de gravidade se tem situado nos transportes em comum desde a primeira hora.
A esses amigos da insinuação eu limito-me a responder que, primo, eu queria mesmo ir ver o Eisenstein. Secundo, a vida de um coleccionador de ensimesmamentos bibliófilos alheios não está, na Cinemateca, tão facilitada como se poderia esperar. A ausência de bancos decentes, a débil iluminação, e outrossim a concorrência do bar/restaurante convidam, com perene convicção, o visitante a actividades extraliterárias.
Entre Octavio Paz e os peixinhos da horta, ou os espinafres "39 degraus", nem sempre a escolha recairá sobre o primeiro!
(Havia um gato no "Couraçado", aspecto negligenciado por décadas de exegese.)
sexta-feira, janeiro 06, 2006
VENHAM MAIS CINCO: A variedade "5 Bagas" da Margão tem cinco tipos de pimenta diferentes: pimenta preta, pimenta rosa, pimenta branca, pimenta da Jamaica e pimenta verde desidratada.
Podem tirar-me muita coisa, mas não me podem tirar a portentosa antecipação desta sápida experiência.
"Sápida" é uma bonita palavra. Fim do post.
quinta-feira, janeiro 05, 2006
CINEMA: "O Fatalista", de João Botelho. Por culpa do acaso, e não por qualquer predisposição negativa, desconheço quase por completo a obra de João Botelho, esse grande benfiquista. (Paulo Rocha é outro realizador ao qual se aplica exactamente o mesmo.) Ao sair da sala onde era exibido este "O Fatalista", senti bastas razões para me recriminar por tamanha negligência. Esta adaptação de Diderot resultou num filme que consegue combinar densidade com uma ligeireza de métodos e soluções que, aqui e além, se converte em puro estado de graça.
O feito mais notável de Botelho, a meu ver, é o de ter equilibrado as componentes de sátira social e de fábula filosófica, sem abdicar de uma aposta num cómico abrejeirado que, neste caso, resulta plenamente (se bem que com excessos ocasionais). Formalmente, constata-se uma interessante e maliciosa exploração de diferentes dispositivos narrativos: contar uma peripécia, vivê-la ou reencená-la equivalem-se, nesse nenhures linear que é a estrada percorrida por Tiago e pelo seu patrão, espaço desancorado de qualquer referência, onde memórias, ilustrações de teses e a urgência do momento presente se justapõem. Notas de rodapé narrativas e longas digressões (o suculento episódio protagonizado por Rita Blanco e José Wallenstein) coexistem amigavelmente, sem prestar vassalagem nem à cronologia nem à verosimilhança, mas sim à reiterada confirmação de que "tudo está escrito". Nunca uma refutação do livre arbítrio terá sido tão jubilosa... Se tudo está escrito, pouco importa que o escritor seja um Deus que joga distraidamente aos dados ou um argumentista de cinema. O fatalista é o mais feliz e despreocupado dos homens, ainda que a vida não lhe traga nem sorte aos amores nem libertação da sua condição servil, ainda que a sua vulnerabilidade ao arbítrio alheio lhe retire qualquer ilusão sobre a possibilidade de alterar o seu destino, até à perversidade suprema: os três finais alternativos para a sua aventura amorosa, mutuamente incompatíveis - ou talvez não - e apresentados por um argumentista e por um realizador tornados personagem, demiurgos à paisana que protagonizam uma derradeira cabriola formal, perfeitamente coerente com o espírito do filme.
O cinema passa por isto: explorar ideias sem as tornar visíveis, transpô-las para imagens e palavras nem vãs nem denotativas, ter atenção aos corpos, aos rostos e à luz, ocupar o tempo do filme sem essa obsessão pela eficácia narrativa que demasiadas vezes surge como o mais potente inibidor da criatividade no cinema. E lutar por se manter fiel às suas ideias, que é a única maneira de respeitar o espectador.
quarta-feira, janeiro 04, 2006
AVISO ÀS FAMÍLIAS PORTUGUESAS: Há mais fotografias de gatos no blog de xadrez "Daily Dirt"!!!
(Incluindo um gato a tentar beber água de um copo, com óbvias dificuldades. Nem maiores nem menores do que as que um ser humano sentiria para lamber leite do fundo de um pires.)
Felizmente, este excelente blog, apesar de ser subordinado ao xadrez, não fala só de xadrez, mas também de outros temas, como gatos.
INQUALIFICÁVEIS QUALIFICATIVOS: Num poema de Jorge de Sena, que li recentemente, Paul Valéry é chamado de "cretino":
(...)
Filho de Pasifaë, foi irmão de um verso de Racine,
que Valéry, o cretino, achava um dos mais belos da «langue».
(...)
("Em Creta, Com o Minotauro", in "Peregrinatio Ad Loca Infecta".)
E isto poucos dias depois de ter visto Afonso Costa, outro dos meus ídolos absolutos, apodado de "facínora"! (Gostaria deveras de ficar a saber as circunstâncias em que Afonso Costa terá apelado ao assassinato do rei D. Carlos, e de que fontes consta uma referência a esse apelo.)
O que se seguirá? Escutar ou ler que Heinrich von Kleist era um violador, um ladrão de cavalos e um destruidor de casamentos, e que se inspirava no seu próprio exemplo para redigir as suas obras literárias?
RÁDIO NOSTALGIA: Do "Contra-Informação" de hoje constava um sketch envolvendo Marques Mendes, com acompanhamento musical de um fabuloso tema que, só por si, teria bastado para assegurar a imortalidade dos Talking Heads: "Once In a Lifetime".
Achei a ideia arrojada, largamente digna do aplauso deste que, para além do seu day job de humilde apóstolo da causa kleistiana, é também fervoroso vassalo da banda lendária de David Byrne, a maior de todos os tempos de entre todas aquelas que não vieram de Liverpool.
KINDNESS OF STRANGERS: O 2+2=5 achou por bem eleger-nos entre os 10 melhores blogs de 2005. Trata-se, notoriamente, de um erro de procedimento, visto que o único galardão a que o 1bsk poderia aspirar seria o de "blog mais negligenciado pelos seus donos e autores, de sempre e de todo o sistema solar".
Ainda que imerecida, agradeço a distinção à rapaziada do 2+2=5.
terça-feira, janeiro 03, 2006
sexta-feira, dezembro 30, 2005
CINEMA: Não tenciono fechar a minha lista dos melhores de 2005 antes de ver "Odete", que acaba de estrear. Gostei muito da entrevista que João Pedro Rodrigues deu ao "DN". Dela destaco esta passagem:
«Depois de Parabéns e Fantasma, este filme começa a revelar claras marcas autorais. O rigor na imagem, nas formas, luz, enquadramentos, o gosto pela cor... Exigências técnicas...
Isso vem do cinema de que gosto. É claro que fiz a escola de cinema, mas aprendi a fazer filmes a ver filmes. Acredito que uma imagem não é indiferente. O que se escolhe enquadrar, e o que se deixa de fora, faz sentido. E acredito que os filmes só podem ser assim.»
Uma imagem não é indiferente.
Seria talvez esta a frase que eu colocaria à cabeça de um eventual credo pessoal enquanto espectador de cinema.
quinta-feira, dezembro 29, 2005
CINEMA: "Broken Flowers", de Jim Jarmusch. Há um momento de transição em "Broken Flowers" cuja localização exacta depende mais da atenção e das expectativas do espectador do que de qualquer dinâmica intrínseca do filme. Falo do momento em que, independentemente da personagem principal (mas com plena consciência da parte desta), as pistas em que a lógica do filme parecia repousar (o papel de carta cor-de rosa, a máquina de escrever...) passam da parcimónia a uma inquietante superabundância. Durante um lapso de tempo considerável, mesmo sem se deixar conquistar pelo enlevo detectivesco do filme, o espectador é tentado a não abandonar a sua fé naqueles indícios que revelarão a Don (Bill Murray) a identidade da antiga amante que lhe escreveu a anunciar que teve um filho dele, dezanove anos atrás. Mas que fazer de sinais que, em lugar de se assumirem como ajuizados aglutinadores da tensão narrativa, assumem uma cadência própria, ocupando o espaço e tempo como que sobrepondo-se a qualquer coerência? Desinvestidos da sua carga, abdicando alegremente da sua capacidade de significar, precipitam um enorme absurdo, que a câmara de Jarmusch tem a arte de transformar em algo de terno e tranquilo.
"Broken Flowers" é um filme sobre a perda da fé numa legibilidade do mundo que o redima da sua implacável contingência. Não sabemos ao certo até que ponto Don chega a albergar essa fé, ou de quão alto cai aquando do desenlace. Mas a viagem que com ele empreendemos emula o trajecto que todos os seres humanos parecem condenados a cumprir, alguns mais do que uma vez. Felizmente, o humanismo que perpassa por "Broken Flowers" nunca roça a grandiloquência (e haverá cineasta menos grandiloquente do que Jarmusch?).
O resto é um road-movie que adopta um registo deliberadamente disfórico, em completa oposição de fase com a aura libertadora que esse sub-género se habituou a adoptar. O resto são as aparições meteóricas de tantas grandes actrizes, que dispensam os ademanes pueris frequentemente exigidos pela lógica do cameo. O resto, claro, é também Bill Murray. Não pretendo destoar do coro laudatório com que foi mais uma vez brindado este seu desempenho. Permito-me, somente, manifestar algum receio perante a perspectiva de acabar por ver Bill Murray encurralado nesse papel de palhaço triste fleumático e minimalista. Por mais que esse papel sirva o seu estilo e o seu corpo, deixá-lo petrificar-se nesse registo seria uma afronta à sua versatilidade.
quarta-feira, dezembro 28, 2005
UN CERTAIN AR DE FAMILLE ou ROIS ET REINE (5): Em "Rois et Reine" (não sei se já terá dado para perceber que este filme não me desagradou completamente!) são abundantes as ramificações e alusões a genealogias reais e cinéfilas. Lista não exaustiva:
- Mathieu Amalric e Emmanuelle Devos formavam já o par central de "Comment Je Me Suis Disputé... (Ma Vie Sexuelle)", film-fleuve que revelou em definitivo o talento e a originalidade de Arnaud Desplechin.
- Joachim Salinger, que desempenha o papel de Pierre em "Rois et Reine" (marido e pai depois de morto), é irmão de Emmanuel Salinger, que fazia parte do núcleo inicial de actores próximos de Desplechin, tendo assumido o papel principal em "La Sentinelle" e feito parte do elenco de "Comment Je Me Suis Disputé...". Os espectadores portugueses viram recentemente Emmanuel Salinger em "Triple Agent" de Rohmer (ele era o jovem comunista vizinho do "triplo agente" Fiodor).
- Noémie Lvovsky, que desempenha o papel da irmã de Mathieu Amalric (a que acaba por ser responsável pelo seu internamento) foi colega de curso de cinema de Arnaud Desplechin, tendo sido argumentista dos dois primeiros filmes deste: "La Vie des Morts" e "La Sentinelle". Tem conduzido uma carreira paralela como actriz e realizadora.
- Magali Woch, a Arielle ("chinesinha") de "Rois et Reine", protagonizou dois filmes de Noémie Lvovsky: "Petites" e "La Vie Ne Me Fait Pas Peur" (o primeiro para TV). Ambos notáveis, diga-se de passagem. Este papel no filme de Desplechin pode representar uma transição coroada de sucesso de curiosidade adolescente para jovem esperança do cinema francês, e, aliás, valeu-lhe uma nomeação para o César de melhor revelação.
- Por fim, Maurice Garrel é o pai de Emmanuelle Devos no filme, e o pai do realizador Philippe Garrel na vida real. (Deste último, aguardo ansiosamente "Les Amants Réguliers", que tem sido coberto de elogios por onde passa.)
«Pourtant il faut insister sur la démarche initiale et fondamentale: la République, en fin de compte, repose sur le refus conscient de toute forme de transcendance. En tant que régime politique, sans doute; mais elle n'est pas seulement un régime, puisqu'elle construit et détermine elle-même l'individu comme la société. Ce refus de la transcendance sera donc aussi large et aussi complet que possible, et débordera la politique au sens étroit do mot. (...) Il ne s'agit pas, bien entendu, de prendre parti autoritairement sur les problèmes religieux, sur l'existence ou la nature de Dieu: des républicains ont le droit de croire ou de ne pas croire. Il s'agit de définir une démarche mentale et politique qui rende inutiles ou inadéquates les questions de ce genre, de trouver un terrain nouveau sur lequel elles n'ont pas de compétence.»
(Claude Nicolet, "L'idée républicaine en France (1789-1924)".)
MENSAGEM: O que pode justificar a transmissão televisiva da tradicional mensagem natalícia do cardeal-patriarca de Lisboa?
Ou bem que a mensagem se destina aos católicos; e, nesse caso, por mais louvável e compreensível que seja José Policarpo dirigir-se às consciências dos membros do seu rebanho, compreende-se mal o que pode levar uma estação de televisão pública a dar o seu beneplácito hertziano a uma comunicação pastoral exclusivamente dedicada a uma comunidade religiosa.
Ou bem que a mensagem se destina aos portugueses em geral; e, nesse caso, existe legitimidade para perguntar ao senhor cardeal que tipo de mandato ou autoridade possui para dirigir exortações ao povo de um país soberano, que possui os seus magistrados eleitos democraticamente.
A situação seria menos abusiva se o senhor cardeal se confinasse à esfera espiritual; mas só os cândidos podem esperar de um alto membro do clero católico, se lhe for dada a oportunidade, que este enjeite a ocasião de plantar foice em seara alheia, e de dar largas a essa antiga propensão para traçar as fronteiras da conveniência e da integridade moral de todos aqueles que julga abarcados pela sua alçada.
terça-feira, dezembro 27, 2005
ROIS ET REINE (4): Há uma entrada relativa à expressão "fou à lier" (que consta do poema de Michel Leiris de onde deriva o título do filme) no "Dictionnaire des Expressions et Locutions", de Alain Rey e Sophie Chantreau, da colecção "Les Usuels du Robert" (um dos mais úteis e preciosos livros que adquiri durante a minha estadia em terras parisienses). Segue um extracto:
«Dans l'usage courant, la valeur coercitive de l'expression n'est plus sentie avec son intensité première: elle a été en grande partie démotivée, à lier ne conservant que la notion superlative de "complètement, totalement". En effet l'idée de violence attachée à fou s'est effacée devant celle d'extravagance (cf. les locutions voisines, courantes au XVIIIe s.: fou à courir dans les rues ou les champs).»
segunda-feira, dezembro 26, 2005
ROIS ET REINE(3): Escreve Jorge Mourinha, no "Público", a propósito do último filme de Arnaud Desplechin:
«(...)é nesse metódica acumulação de pormenores ao longo de uma narrativa toda construída em tangentes, bem como nas irrepreensíveis interpretações, que o filme justifica o interesse, sem nunca conseguir erguer-se acima de um certo cinema francês palavroso, literário, teatral, incapaz de conquistar do espectador envolvimento emocional.»
Não espero que todos alinhem no mesmo entusiástico diapasão com que me tenho vindo a referir a "Rois et Reine", para mim um dos filmes maiores do ano que agora acaba. Mas julgava-me no direito de contar com um pouco mais de penetração crítica da parte de alguém que escreve para um jornal com uma curta, mas sólida, tradição de tratamento da coisa cinematográfica.
Com efeito, afirmar deste filme que ele é incapaz de se erguer "acima de um certo cinema francês" é incompatível com a tensão, que a ele preside, entre ruptura formal com tendências contemporâneas e um desejo de continuidade e manifesto respeito por antecessores. É esta coexistência entre o pendor classicista e um apetite pela invenção que é responsável por uma larga parte do fascínio que emana de "Rois et Reine".
É, pois, decepcionante que um filme que tão exuberantemente exibe a sua vontade (conseguida) de fazer diferente acabe remetido ao tristonho estatuto de "mais do mesmo".
É caso também para perguntar a que "certo cinema francês" se refere Jorge Mourinha. "Palavroso"? Nem todos os cineastas franceses são Rohmer. A suposta preponderância do diálogo no cinema francês parece-me ser da ordem do mito ou do lugar-comum. "Literário"? Em nenhuma outra cinematografia se tem sentido com tanta intensidade a urgência da busca de uma linguagem própria para o cinema, independente de modelos literários ou outros. Não é preciso procurar muito longe para se encontrar um cinema onde as preocupações com a caução literária se sentem com muito maior premência - basta cruzar o canal da Mancha. "Teatral"? Desde a Nouvelle Vague que o cinema francês é predominantemente anti-teatral, com predominância de um naturalismo radical pouco devedor das artes cénicas. Quando o teatro é abordado (por exemplo pelo próprio Desplechin na sua anterior longa-metragem, "Léo, en Jouant Dans la Compagnie des Hommes", infelizmente inédito entre nós), é-o quase sempre de forma explícita e crítica.
Quanto à incapacidade de "conquistar do espectador envolvimento emocional", candidato-me a contra-exemplo vivo disto mesmo. Mas fico-me por aqui. Ça me regarde. E, em todo o caso, já saímos do domínio dos argumentos críticos.
domingo, dezembro 25, 2005
LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: No comboio Alfa Pendular, uma senhora de idade, viajando a meu lado, lia um livrinho de orações ao Doutor Sousa Martins.
Jamais me senti a tal ponto irmanado com um companheiro de viagem desconhecido.
Não ousava admitir que pessoas que liam orações ao Divino Doutor em público existissem fora das minhas fantasias mais desvairadas. E, porém, aquela senhora estava ali. A meu lado. Reflectia luz e emitia som. Até falou comigo. Não repliquei. Pretenderia converter-me? Inútil. Não existe discípulo mais fervoroso do ilustre médico de Alhandra do que este vosso criado.
SEGUNDA REPÚBLICA: Tal como o autor deste post no blog Ponte Europa, também sou da opinião de que devemos designar o regime em que vivemos actualmente por "Segunda República", e não "Terceira República".
Não basta que seja eleito um Presidente de tantos e tantos anos, não basta que a palavra "República" apareça em moedas e papel de carta dirigido a potências estrangeiras para que um regime possa ser considerado republicano.
O corporativismo, o conúbio com a Igreja e os atropelos constantes às liberdades democráticas que caracterizaram o Estado Novo são incompatíveis com a noção de "República".
Os regimes genuinamente republicanos que brotaram, desde as Revoluções Americana e Francesa, mas essencialmente a partir do século XX, caracterizaram-se por ser fortemente teorizados, lançados em bases doutrinárias sólidas. Muitas das mais brilhantes mentes políticas dos últimos dois ou três séculos estiveram implicadas na sua formulação. Essa foi uma condição necessária à sua sobrevivência num ambiente hostil, sob a permanente ameaça de correntes legitimistas e ultramontanistas que esmagariam sem piedade uma República deficientemente consolidada.
Não façamos a todos aqueles que participaram dessa continuada aventura intelectual a desfeita de tomar a nuvem por Juno, chamando "República" a um regime que não passou de uma sórdida caricatura disso mesmo.
UM, DOIS, ESQUERDO, DIREITO: Ribeiro e Castro, esse eminente benfiquista, afirmou recentemente ser o terrorismo essencialmente (ou exclusivamente) uma tara cuja origem está na esquerda.
Tal asserção é tão válida ou absurda como defender que toda a xenofobia é de direita.
Igualmente absurdo, mas também ocioso, mas também perfeitamente dentro da mesma lógica de irresponsabilidade demagógica, seria cotejar o número de vítimas do terrorismo com o número de vítimas da xenofobia e anti-semitismo.
Nestas coisas da retórica, nem sempre o contexto é devidamente tido em conta, e, no presente caso, o contexto era um encontro da Juventude Popular. Entende-se, assim, o excesso de zelo de Ribeiro e Castro. Quando se trata de incutir em mentes frescas e jovens a solene urgência do combate político, não convém ser nem demasiado moderado nem demasido subtil.
Nesse mesmo encontro, João Almeida afirmou querer conquistar a geração «que vê o 'Morangos com Açúcar' [série televisiva], que saca mais músicas da Internet do que os CD que compra, do messenger e do HI5», tarefa que se me afigura espinhosa se ele não adoptar um penteado semelhante ao do Tó Pê dos D'ZRT.
IMPERDÍVEL: Os Blogues Imaginários n'"A Invenção de Morel" e a série São Sebastião Revisitado no "Welcome to Elsinore".
SEASON'S GREETINGS: Desejo um Bom Natal a todos aqueles que continuam a visitar este espaço, ignorando decerto a existência de carradas de outros blogs muito mais interessantes, e nos quais é bem menos insensato perder o seu tempo (o tempo que Santo Agostinho não sabia o que era, quando lho perguntavam).
quinta-feira, dezembro 22, 2005
AH, SILOGISTA!: Tento falar o menos possível de futebol, mas desta vez não resisti.
O virtuoso presidente da agremiação portista, de sua graça Jorge Nuno, protagonizou recentemente um episódio em que a sua celebrada lábia se voltou contra ele, com uma elegância lógica tão impressionante que levanta suspeitas de premeditação.
1) (A propósito das declarações de Luiz Felipe Scolari acerca das razões que o terão levado a nunca convocar Vítor Baía e João Pinto.) «Não vou responder às últimas polémicas, porque, por princípio, não respondo a cobardes. Considero cobarde todo aquele que lança suspeitas, diz coisas e depois diz que não disse.»
2) (A respeito da arbitragem no jogo Benfica-Nacional.) «Não sei se isso pode ser considerado uma fraude ou se alguém tem necessidade de ir ao oftalmologista. Não sei... Estou só a referir o que toda a gente viu.»
(Tudo isto no mesmo artigo de jornal.)
3) A conclusão, parece-me, decorre de 1) e 2) com uma naturalidade que dispensa conhecimentos aprofundados sobre lógica silogística.
MEMÓRIA DILETANTE E NÃO DE ELEFANTE: Existe um livro (Miguel Delibes, "Os Santos Inocentes", Teorema, 1991), que li há uma porção de anos, e de que só me recordo de um pormenor: uma das personagens costumava urinar nas mãos para as aquecer.
Já ouvi falar em memória selectiva, mas isto é ridículo.
«Mais, par rapport aux autres pays du même type, l'Angleterre, l'Amérique et l'Allemagne essentiellement, l'idéologie républicaine, on l'a vu, apporte quelque chose de plus: le sentiment affirmé d'être une forme d'organisation politique qui non seulement favorise la science, mais, en grande partie, dépend d'elle. Elle en dépend pour achever d'abord de se libérer des dernières prétentions du dogmatisme religieux à régler la vie civile et intelectuelle des citoyens.»
(in "L'Idée Républicaine en France (1789-1924)", de Claude Nicolet, Gallimard)
quarta-feira, dezembro 21, 2005
SURPRESAS POSTAIS: Nas séries e nos filmes, sempre que uma personagem, ao vasculhar distraidamente o correio recém-chegado, diz que "devem ser só contas para pagar", é certo e sabido que vai topar com uma carta ou postal inesperado, capaz de mudar a sua vida (ou, em todo o caso, de fornecer matéria para mais uma vintena de episódios).
sexta-feira, dezembro 16, 2005
ROIS ET REINE (2): O título do filme foi, segundo as palavras do próprio Desplechin, inspirado nos seguintes versos de Michel Leiris:
Rois sans arroi,
Reine sans arène,
Tour trouée,
Fou à lier,
Cavalier seul.
Trata-se, obviamente, de uma sequência de imagens xadrezísticas. As menções a "rois" e "reine" explicam-se a si próprias (se bem que, em francês como em português, "rainha" seja um termo familiar e informal para designar a "dama", esta sim a designação correcta da peça). "Cavalier" é o termo francês com que se designa a peça "cavalo"; "Cavalier seul" (título do último livro do pai de Emmanuelle Devos, interpretado com uma sublime e austera contenção por Maurice Garrel) é uma locução que se aplica àqueles que escolhem uma atitude de contestação, ou que enveredam por caminhos ou opiniões pouco batidas. A "tour" é a "torre".
Resta-nos o "fou", que mais não é do que o nosso "bispo". Na jacobina França, esta peça perde as suas conotações clericais, e assume os atavios de um "louco", ou talvez, mais exactamente, de um bobo da corte. A deliciosa expressão "fou à lier" equivale ao nosso "doido varrido". Traduzida a letra, sugere que o indivíduo em questão, de tão louco, precisa de ser amarrado.
No filme de Rohmer "Conte d'Hiver" existe um memorável diálogo onde intervém esta expressão:
FÉLICIE: J'ai été conne, conne. Conne à lier.
MAXENCE: «Folle à lier». On ne dit pas «conne à lier». On dit «Folle à lier».
FÉLICIE: Tu vois, je ne sais même pas parler français.
quarta-feira, dezembro 14, 2005
NÃO É ESSE AMARANTE: Certas fontes dignas de crédito garantem-me que, para minha desilusão, o novo CD da cantora Enya intitulado "Amarantine" não é uma homenagem a Agustina Bessa-Luís.
ROIS ET REINE: Depois de "Pas de Repos pour les Braves", eis que estreou entre nós "Rois et Reine", de Arnaud Desplechin, mais um argumento para o arsenal daqueles, entre os quais me conto, que defendem ser o cinema francês o mais interessante da actualidade.
Existe um aspecto curioso nas reacções da crítica (mais ou menos especializada) a este filme. Poucas foram, de entre aquelas que li, as que omitiram essa coexistência entre registos antagónicos: o burlesco (de que o desventurado Mathieu Amalric assume a parte leonina) e o extremamente trágico.
Poucos são, no entanto, aqueles que aprofundam esta (inegável) natureza híbrida. Será que, só por si, fazer caber tanto o cómico como o pungente na mesma longa-metragem é façanha digna de encómio? Parece-me que não. O valor de um cineasta não se mede em função de acrobacias a que se entregue, nem meramente em função da amplitude da paleta de emoções que emprega.
Desplechin está longe de ser um vão malabarista de imagens e argumentos. E o registo heterogéneo e inconstante que adopta em "Rois et Reine" é perfeitamente coerente com a sua riquíssima obra passada, que lhe grangeou a aura de seguidor de um cineasta popular-inteligente como Truffaut, ou de um subtil agente subversor de géneros, como Resnais. Para Desplechin, categorias e géneros não são espartilhos nem cadernos de encargos, mas sim plataformas de apoio, dotadas de memória cinéfila que urge respeitar sem subserviência.
Defendo que a componente mais fascinante do cinema de Desplechin passa precisamente por uma ancoragem num cinema clássico, devedor da narrativa e da definição de personagens com espessura psicológica, uma ancoragem flexível quanto baste para permitir vastas latitudes de exploração celebratória das possibilidades do cinema. Sem vanguardismo explícito, Desplechin distingue-se da quase totalidade dos seus pares pela vontade (e talento) de tratar cada cena como um problema de cinema, equacionável e solúvel por meio de imagens em movimento, parte de um todo mas também dotada de uma energia própria.
"Rois et Reine" é um filme deslumbrante acima de tudo devido à reverberação de inventividade cinematográfica que acompanha o desenrolar da lógica do enredo, como se todo ele estivesse banhado numa vontade de expressão, transbordante mas disciplinada. Algumas das cenas mais belas são-no muito graças a esse "algo-mais" formal, que se assume quase como um segundo filme, ou como um making of em tempo real, comentário permanente aos próprios desafios que cada cena, cada nodo do enredo, foram colocando. Nesses momentos (estou a pensar na dança de Mathieu Amalric perante os outros internados, no sonho em que Emmanuelle Devos reencontra o seu falecido primeiro marido, ou na extraordinária sequência final no Museu do Homem), é a própria presença do cinema que (dir-se-ia) irradia, de onde não se esperaria que houvesse mais do que corpos, rostos e cenários, isentos de luz própria.
terça-feira, dezembro 13, 2005
DOIS DO MELHORIO: Ainda não tinha falado neles, até porque duvido que a minha modesta acção possa fazer algo de muito significativo pela sua merecida divulgação. Mas eles aí estão. Coincidiram temporalmente com o fim do BdE, o que prova que o fim de uma boa coisa pode dar origem a duas boas coisas, por mais que isto pareça violar um qualquer princípio físico de conservação da excelência. São dois blogs, um com nome de livro, o outro com nome de medicamento seguido de consoante oclusiva labial. Merecem ser lidos todos os dias, e não apenas dia sim dia não.
ASSUNTOS: Há muitos assuntos de que normalmente não se fala, o que é uma pena, porque são assuntos que merecem ser discutidos.
E agora, uma fotografia de um gato no lavatório!
(Via "The Daily Dirt Chess Blog", de Mig Greengard.)
terça-feira, dezembro 06, 2005
FOI HÁ 100 ANOS: Para além do sorteio do Mundial de futebol, e de uma outra efeméride, o próximo dia 9 ficará marcado pela comemoração do centenário da lei que, em França, instaurou a separação entre Igreja e Estado.
Esta data, que, já de si, mereceria ser celebrada como marco na história da liberdade e emancipação política dos estados, ganha renovada ressonância (pelo menos aqui em Portugal)graças à recente "gue-guerra" dos crucifixos: refiro-me, obviamente, à decisão (em perfeita harmonia com a Constituição) de retirar os crucifixos das salas de aula deste país.
A respeito desta medida, não têm faltado as previsíveis reacções dos previsíveis sectores, parafraseáveis do seguinte modo: «A laicidade é muito bonita, mas não havia necessidade de ir tão longe.»
A maioria dessas reacções não deixou de glosar bafientos e desesperados chavões como o "fanatismo laicista" e o "ataque à religião".
Como seria de esperar, João César das Neves (que nós aqui no 1bsk adoptámos como mascote) meteu a sua colherada, na sua última crónica do "DN".
Por absoluta falta de tempo, escuso-me a comentar a prosa nevesiana com o detalhe que desejaria, limitando-me a deixar-vos com um demasiado breve florilégio.
«As pequenas coisas revelam mais que as grandes. Os jornais estão a tentar criar uma zanga à volta da retirada dos crucifixos das escolas públicas.
Os jornais? Ou certos fanáticos que sentem a maré a virar contra as suas convicções?
A falta de liberdade religiosa tem gerado a perda da liberdade e até da vida.
Plenamente de acordo.
Nunca se deve esquecer que, dada a impossibilidade lógica de demonstrar a inexistência de Deus, o ateísmo é apenas a crença de que Deus não existe.
Isto é subverter completamente a questão. Eu diria que cabe aos crentes o ónus da prova, na medida em que são eles que defendem certas coisas (parte integrante da doutrina) verdadeiramente inconcebíveis: ressurreição, concepção de uma virgem, transsubstanciação, milagres... O ateísmo não é uma crença. Só defende que o ateísmo é uma crença aquele que vê na fé um estado natural ao ser humano, e no cepticismo uma bizarria que requer justificação. Contudo, se eu acreditar que a lua é feita de queijo da serra, é a mim que cabe demonstrar tão ousada asserção, e não àquele que nela não acredita (com alguma razão, acrescente-se).
A recusa da divindade é uma fé, tal como o negro está na pintura e a pausa faz parte da música.
Esta analogia está trôpega à partida, mas eu diria que o ateísmo está para a fé, não como o negro para a pintura, mas como as paredes do museu (e a bilheteira, as escadarias, o bar, os telefones públicos...) para os quadros.
Aliás, constitui uma seita das mais pequenas, que, por isso mesmo, costuma ser extremista e fanática.
Em matéria de fanatismo, o mínimo que se pode dizer é que a Igreja Católica tem (e sempre teve) lições para dar.
O Estado laico deve assumir uma posição neutra perante as religiões, tal como deve assumir uma posição neutra perante as candidaturas presidenciais.
Outra analogia infeliz. O Estado não tem nada a ver com a religião: cabe-lhe apenas assegurar a liberdade de culto aos cidadãos. Em contrapartida, embora o Estado deva assegurar igual tratamento aos candidatos presidenciais, a Presidência da República não se trata de um assunto a ele alheio, por nítida maioria de razão!
Deus está na escola, tal como a cultura está na escola, a política, a arte, o futebol e a amizade estão na escola.
(E a sexualidade também, apetece-me dizer... JCN oferece argumentos a quem defende a educação sexual nas escolas. Mas não entremos por aí.)
JCN mete demasiadas coisas no mesmo alforge. Sucede que a Igreja Católica possui uma longa história de interferência com os poderes públicos, e de reivindicação de um papel privilegiado na transmissão de valores e saberes. Foi a própria atitude da Igreja, ao longo dos séculos, que a transformou em natural alvo de desconfiança por parte dos promotores de uma escola livre, e que fez do crucifixo um símbolo que, neste contexto, é tudo menos inócuo.
O que os poderes públicos devem garantir é a autonomia para cada escola fazer o que os seus professores, pais e alunos decidam.
Livra! Podem imaginar o que resultaria de uma autonomia total, por parte das escolas e dos encarregados de educação, para decidir sobre conteúdos, modos de leccionamento, etc.? Seria uma porta aberta ao sectarismo e ao comunitarismo. É normal e desejável que matérias sensíveis para o funcionamento das escolas sejam decididas de forma centralizada, de forma a assegurar o cumprimento dos programas tal como estipulados.
Sobretudo, não são activistas ou burocratas a centenas de quilómetros que têm o direito de definir a decoração das paredes, em vez dos alunos, famílias, professores e funcionários.
Precisamente. São. E assim é que deve ser.
Num país livre pode ser-se ateu ou religioso. Mas, em nome da liberdade, os laicistas arrogam-se o direito de obrigar as escolas a seguir os seus gostos e irritações pessoais.
Ai ai, faltava ainda o lugar comum do azedume laicista. Mas JCN não nos desilude.
Um pequeno grupo arma-se em juiz de todos os cultos, só porque não segue nenhum e os considera horríveis a todos. Como odeia a religião diz-se neutro perante ela.
(Isto merecia acompanhamento musical.)
Os crucifixos na sala de aula são apenas um pequeno detalhe. Mas um detalhe revelador de uma luta crucial da Humanidade, a luta em prol da liberdade.
Ora não podia estar eu mais de acordo!
O Ministério da Educação, em vez do esforço baldado para tirar Deus das escolas, devia antes procurar pôr algum bom senso nelas.»
Cem anos depois, e ainda as mesmas falácias para aturar...
ROHMER MAS NÃO SÓ: Criei um blog chamado A Mulher do Aviador, onde tenho vindo a recolher (com exagerada lentidão...) os textos sobre cinema publicados no 1bsk ao longo dos seus já quase três anos de existência.
A ideia é servir-me deste blog como estímulo para escrever mais amiúde sobre cinema. Nele não serão publicados textos originais, pelo menos numa primeira fase. Trata-se, pois, de uma ferramenta essencialmente pessoal, mas quem quiser passar por lá, e talvez deixar um comentário, será muito bem-vindo!
segunda-feira, dezembro 05, 2005
MODO ACTIVO: Hoje, a impressora do meu local de trabalho mostrava no seu visor a mensagem "MODO ACTIVO INACTIVADO".
Suponho que isso seja precisamente equivalente a "Modo Inactivo Activado".
Mas quem sou eu, mero mortal analógico, para me alargar em conjecturas sobre aquilo que, em informática, é ou deixa de ser?
O TEMPO TRANSBORDA: Acabo de escutar parte de uma emissão na Antena 1, conduzida por José Nuno Martins. Quando penso em José Nuno Martins, recordo invariavelmente a resposta que ele deu, há já um ror de anos, a um inquérito efectuado por uma revista. A pergunta era "Qual era o filme da sua vida?". José Nuno Martins, fugindo às descoroçoantes mas previsíveis banalidades objecto da escolha dos demais entrevistados ("África Minha", "E Tudo o Vento Levou"...), mencionou... Jacques Rivette, "L'Amour Fou".
Por isso, por este acto de coragem, José Nuno Martins passou a ter perante mim crédito infinito. Pode até suceder que ele venha a apresentar a "1ª Companhia" ao lado de um burro que fala. Para mim, isso nada pesará face ao facto de ter escolhido para filme da vida um filme como "L'Amour Fou", essa inquietante obra-prima em que os planos do teatro e da vida, talvez ainda mais do que em qualquer outra obra de Rivette, se dilaceram e potenciam mutuamente.
Por isso, por este acto de coragem, José Nuno Martins passou a ter perante mim crédito infinito. Pode até suceder que ele venha a apresentar a "1ª Companhia" ao lado de um burro que fala. Para mim, isso nada pesará face ao facto de ter escolhido para filme da vida um filme como "L'Amour Fou", essa inquietante obra-prima em que os planos do teatro e da vida, talvez ainda mais do que em qualquer outra obra de Rivette, se dilaceram e potenciam mutuamente.
domingo, dezembro 04, 2005
ANÚNCIOS DE GATO PERDIDO INVENTADOS (14):
Perdeu-se lindo gato, não hoje, nem ontem, mas há catorze anos, quando em tempos de exílio, dias insípidos de chuva sem trégua. Foi em Mannheim, cidade que faz parte do estado de Baden-Württemberg (superfície 35 750 quilómetros quadrados, capital Stuttgart). O gato era preto com focinho branco, o gato não era meu, mas apareceu na minha vida num dia que ficou também marcado por uma ferida, não uma ferida real, mas antes uma ferida metafórica. Paredes de chuva abatiam-se sobre as ruas de Mannheim, e o gato parecia conhecer os seus contornos movediços, e o seu corpo felpudo ocupava nesgas improváveis de quietude no seio dos excessos pluviométricos. Um dia perdi-o, a esse gato que era lindo e o único no mundo para mim. Esforçava-me para reter junto a mim fiapos do meu país deixado para trás, recitava expressões portuguesas em paragens de autocarro solitárias escolhidas para o efeito. Apreciava sobretudo aquelas que exibiam uma pátina absurda mas familiar. "Preso por arames", "Cair como sopa no mel", "Por dá cá aquela palha". Gato, a tua figura era mefistofélica, mas benigna porque esplendorosa e refractária à baça desolação que se confundia com o tempo. Passaram os anos, moro em Lisboa, ao Campo de Ourique, leio boa ficção portuguesa e tenho cuidado com a alimentação. Gato, pensei em escrever este anúncio que ninguém lerá, este anúncio-pedra-risco para assinalar uma desaparição com a qual fui cobarde em me conformar. Meu gato que eu prezo mais do que todos os anjos e demónios que a humanidade alguma vez foi capaz de convocar, sinto a tua falta.
quarta-feira, novembro 30, 2005
domingo, novembro 27, 2005
É SEMPRE A MESMA CANÇÃO: A Cinemateca irá apresentar, no próximo mês, um ciclo intitulado "Tema e Variações". Neste ciclo serão apresentados filmes relacionados entre si pela história que desenvolvem, pela obra em que se baseiam ou por um outro aspecto menos óbvio. (Exemplos: "Tempest", de Paul Mazursky e "Prospero's Books", de Peter Greenaway; "Die Marquise von O...", de Éric Rohmer e "Benilde ou a Virgem Mãe", de Manoel de Oliveira; "India Song" e "Son Nom de Venise Dans Calcutta Désert", de Marguerite Duras.)
Curiosamente, tal como é observado no programa, outros dois filmes deste mês poderiam também ter entrado neste jogo de correspondências: "Breakfast at Tiffany's" (apresentado na rubrica "O Que Quero Ver"), de Blake Edwards, e o novo filme de João Pedro Rodrigues apresentado em ante-estreia, "Odete". Ponto em comum: "Moon River", a canção que Henry Mancini compôs para o filme de Edwards.
Aliás, esta canção parece exercer um fascínio cinéfilo duradouro sobre as gerações recentes de realizadores. Em "La Mala Educación", de Pedro Almodóvar, era uma versão de "Moon River", cantada pelo pequeno Ignacio, que comovia até às lágrimas o padre Manolo. E, no novo filme de Arnaud Desplechin, existe um tema musical recorrente baseado na mesma canção.
sexta-feira, novembro 25, 2005
ÁGUAS DE MARÇO: Desde as suas primeiras palavras (em Março e à chuva) que este blog, parece-me, tem vivido assombrado pelo desejo de exprimir num só troço de frase, agudo e elíptico, uma melancolia gélida que fosse ao mesmo tempo sentimento pessoal e latejante de universalidade.
Não se trata de reconhecer o falhanço. Trata-se de ponderar quantas vezes a decência tolera a repetição de um tal falhanço.
DUAS PALAVRITAS APENAS: Duas palavritas apenas sobre o fim anunciado do Blogue de Esquerda (porque o meu estado de espírito presente não é compatível com epitáfios efusivos).
O Blogue de Esquerda nunca deixou de ser um dos mais bem escritos e interessantes de Portugal. Contudo, e porque me parece supérfluo estar a cobrir de elogios um espaço que mereceu reconhecimento tão amplo e generalizado, por parte de tantos quadrantes diferentes, limito-me a esboçar uma nota pessoal. Foi o Blogue de Esquerda que me trouxe para a blogosfera. (Não directamente, é certo. Mas é como se o fosse.) E isso, que podia ser um quase nada, representou e representa muita coisa. Pelo menos para mim. Mas eu avisei de que isto era uma nota pessoal.
Adeus e obrigado.
QUANTUM: A Quantum é uma revista on-line criada por alunos do Departamento de Física da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.
Iniciativas como esta são extremamente louváveis, sobretudo numa altura em que parece estar cada vez mais na moda insistir no estereótipo do estudante universitário irresponsável e mimado, mais amigo dos shots do que dos livros.
E mais não digo, por receio de cair num paternalismo tão detestável como os mais detestáveis lugares comuns. Dêem uma olhada na Quantum. Vale a pena.
quinta-feira, novembro 24, 2005
SURSUM CORDA: O meu coração rejubila, e se o meu coração rejubila é porque está anunciada, já para a próxima quinta-feira, a estreia em Lisboa do filme "Rois et Reine" (Arnaud Desplechin). Tenho muita vontade de o rever, depois de uma sessão memorável na última Festa do Cinema Francês, e posso já garantir que ele saltará dos alforges da Atalanta para a minha lista dos melhores do ano.
O filme de Desplechin suscitou uma rara quase-unanimidade entusiasta por parte da crítica especializada francesa. Isto, só por sim, nada quer dizer, e poderia até ser sinal preocupante. Neste caso, porém, julgo tratar-se do simples reflexo do modo como o autor do também genial "Esther Kahn" conjuga uma componente popular com um apelo cúmplice à inteligência e à ousadia do espectador.
Espero voltar a falar deste filme.
O filme de Desplechin suscitou uma rara quase-unanimidade entusiasta por parte da crítica especializada francesa. Isto, só por sim, nada quer dizer, e poderia até ser sinal preocupante. Neste caso, porém, julgo tratar-se do simples reflexo do modo como o autor do também genial "Esther Kahn" conjuga uma componente popular com um apelo cúmplice à inteligência e à ousadia do espectador.
Espero voltar a falar deste filme.
terça-feira, novembro 22, 2005
MORE REPÚBLICA BLOGOSFÉRICA: O Boina Frígia é um muito interessante blog onde os temas republicanos merecem lugar de destaque. Parabéns aos autores!
IDEIA PARA UM CONTO: Eu tinha uma ideia para um conto baseado num poema de António Franco Alexandre, aquele poema dos "Quatro Caprichos" em que há uma pessoa que está a dirigir a equipa de basquetebol do liceu e o grupo de teatro do mesmo liceu. Mas o livro está numa estante demasiado alta para lá chegar sem me levantar, por isso fica para outro dia.
quinta-feira, novembro 17, 2005
PARIS E O SOBRESSALTO (4): Nestes tempos em que uma constelação inteira de fazedores de opinião é, a propósito dos motins em França, apanhada todos os dias em flagrante delito de superficialidade e má fé, não se deve deixar de exaltar os oásis de lucidez que subsistem, e a Esquerda Republicana é um deles. Isto é válido tanto para os artigos que aí são enlaçados como para aquilo que o próprio Ricardo vai escrevendo.
O nível intelectual (e o estilo, já agora) dos artigos de Olivier Roy e Jason Burke nada tem a ver com aquilo que o leitor português se arrisca a ler quando folheia um qualquer órgão da imprensa escrita portuguesa.
Não me falta vontade para rebater os trôpegos argumentos que tenho lido em jornais e blogs, os raciocínios adulterados e as generalizações abusivas, assim como as desavergonhadas tiradas francófobas. O que me falta é o tempo.
terça-feira, novembro 15, 2005
CINEMA: "Last Days", de Gus Van Sant. Este filme partilha com o anterior de Van Sant (o magnífico "Elephant") uma recusa de qualquer reflexo interpretativo, mas também uma fé, quase absurda mas desprovida de qualquer ingenuidade, no poder da imagem para superar e dominar o desejo de explicar, possivelmente o mais humano de todos.
Os últimos dias de Blake, estrela rock implodida no seu autismo lunático, decalcado de forma óbvia (e assumida) em Kurt Cobain, são-nos dados por meio de vinhetas, episódios aleatórios, encontros, comentários de terceiros. Van Sant situa qualquer nexo causal que pudesse ter existido num passado que é deixado resolutamente hors-champ. Aquilo a que nos é dado assistir é um lento, quase sonâmbulo, desfilar de uma personagem em direcção ao seu fim. Sobre os corpos em movimento (admiravelmente filmados, com uma franqueza quase incómoda), sobre os eventos, sobre o simples e inócuo correr do tempo, recai a reponsabilidade de ocupar o tempo que a verosimilhança, a psicologia, ou o pathos mais ou menos tradicional deixaram vago. Um teledisco dos Boyz II Men (transmitido por uma televisão e prolongado para lá de tudo o que pareceria razoável), um périplo pelos bosques, uma refeição ou uma canção assumem igual importância. Não existem cenas cruciais, é inútil procurar um fulcro.
Gus Van Sant é, indubitavelmente, um dos mais interessantes realizadores americanos contemporâneos. Mas esta é uma constatação que não faz jus à verdadeira singularidade deste realizador. Coloquemos as coisas de outra maneira. Gus Van Sant é dos poucos criadores de cinema que tem vindo, de maneira continuada, a investir numa linguagem própria, pouco dada a rupturas ou subversões espectaculares, mas especificamente cinematográfica. Tanto em "Elephant" como em "Last Days" abundam os exemplos de soluções que passam por uma agudíssima perspicácia na composição do plano, e que transmitem algo que nos leva muito além da função narrativa ou da estética pictórica: aquilo que se presencia é uma inteligência da imagem em movimento, fecunda e aliciante.
(Não resisto a contrastar a secura explícita e literal do título deste filme com a aforismo oblíquo que levou Van Sant a chamar ao seu filme anterior "Elephant". Mas não quero ver nisto mais do que uma curiosidade, vagamente intrigante.)
RATOS COM ASAS: Ninguém é perfeito, eu também não, e para a minha imperfeição contribui sobremaneira o facto de receber na minha caixa de correio o "Jornal da Região". (De Lisboa, no caso vertente.)
Numa das suas últimas edições, este valoroso órgão da comunicação social informava-nos de que Romana "ficou satisfeita com o quartel", acrescentando, para nosso gáudio, uma declaração bombástica em discurso directo: "FIZ TUDO DIANTE DAS CÂMARAS".
Esta frontalidade desarmante é desenvolvida logo na página 3: «Tudo o que fiz foi diante das câmaras, não desliguei microfones, nem me escondi na casa de banho para conversar fora das câmaras, como a Diana, a Vânia e a Valentina, e depois dizem que é por causa de um penso higiénico mas, 30 minutos? Isso é uma falta de respeito»
Haverá limites para a perfídia? O habitante da região, depois disto, passa a ter razões concretas para duvidar.
Logo na página 4, um naco de castiça antropologia alfacinha poderá (ou não) contribuir para desanuviar a má impressão deixada pelas ignomínias clandestinas da Diana, da Vânia e da Valentina. Directamente do jardim do Campo Santana (pelo qual vela, nunca é de mais relembrar, o divino Doutor Sousa Martins), relata-se que «o gesto de alimentar os pombos parece estar agora a ser mais condenado socialmente», por via, bem entendido, da ameaça da gripe das aves. Dois octogenários, JM e JS (os nomes por extenso são devidamente indicados no artigo, pois o "Jornal da Região" não brinca em serviço quando se trata de informar os seus leitores), insurgiram-se quando a senhora ML, de 70 anos, fez menção de distribuir milho às muitas aves ali existentes. «São ratos com asas, só trazem doenças e agora, com essa gripe à solta, ainda pior».
Às almas sensíveis será grato ficar a saber que a senhora ML levou a sua avante, tendo esvaziado o seu saco depois de "invectivar" os contestatários.
Dá prazer viver numa região na qual as pessoas se invectivam por causa de assuntos de saúde pública, a um lançamento de pedra da efígie de um antigo médico com fama de milagreiro.
ELE ESTÁ NO MEIO DE NÓS: A revista "Ficções" publicou um conto de Kleist, "O Órfão", numa tradução de José Maria Vieira Mendes.
sexta-feira, novembro 11, 2005
PERGUNTAS SOBRE VIENA À ESPERA DE RESPOSTA (10/10): E isto leva-nos à última pergunta sobre Viena à espera de resposta, desta vez formulada por outra pessoa.
Viena será mesmo a cidade mais melancólica do mundo?
On a bed where the moon has been sweating,
in a cry filled with footsteps and sand
(Leonard Cohen)
quinta-feira, novembro 10, 2005
LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: A carreira de observador de leituras em lugares públicos é um longo e árido deserto, interrompido por raros oásis repletos de árvores e de suculentas tâmaras.
Hoje, na linha vermelha do metropolitano, e para meu pasmo e deleite, sentou-se a meu lado um cavalheiro que lia a revista "Magazine Littéraire", número especial sobre a melancolia.
A revista estava aberta numa entrevista de Pierre Assouline a Jean Clair, na qual, a dada altura, se pergunta se Viena é a cidade mais melancólica do mundo.
DA PÚBLICA À PRIVADA, ELES TÊM A ESCOLA TODA: Hoje, em pleno zapping rumo aos "Morangos com Açúcar", sofri um encontro imediato com o tal segundo canal aberto à sociedade civil coiso e tal, sob a forma de um programa de sua graça "Causas Comuns". A emissão era, hoje, patrocinada por uma tal Associação Cristã de Empresários e Gestores, e o seu tema era qualquer coisa como "a espiritualidade no meio laboral".
Um dos convidados era o inefável João César das Neves, sem o qual, provavelmente, eu teria prosseguido o meu caminho alegre e célere através dos canais hertzianos. Em dois ou três minutos de discursata, JCN logrou debitar duas inverdades flagrantes, coisa que, para ele, é proeza corriqueira (dir-se-ia até que fica aquém da sua performance habitual):
1) JCN afirmou que todas as pessoas se questionam sobre o sentido da vida. Eu não me questiono sobre o sentido da vida. O "sentido" é uma construção cognitiva humana, cuja extensão ao mundo natural me parece falaciosa. Não é mais do que um recurso a que a cognição do ser humano lançou mão, na sua história evolutiva, no âmbito do seu esforço para assimilar os dados do Mundo exterior. Extrapolar esse conceito para um domínio transcendental é um logro pernicioso.
2) JCN afirmou que até as pessoas que dizem não ter religião têm uma: a religião da democracia ou da ciência, por exemplo. Eu não tenho qualquer religião. Admiro e defendo a democracia e a ciência especulativa, enquanto soluções para a organização das sociedades e para a aquisição e ordenamento de conhecimentos sobre o Mundo. Mas nem uma nem outra são uma religião. Bem pelo contrário: tanto uma como a outra se situam nos antípodas do dogma e da verdade revelada, que são coisas que eu repudio veementemente.
Com tudo isto, já não fui a tempo de perceber se o Zé Milho e o Tó Pê se reconciliaram, e se os D'ZRT têm algum futuro.
AGUASFURTADAS: O número 8 da revista "Aguasfurtadas" estará em breve disponível. Este número inclui textos de Affonso Romano de Sant’anna, Margarida Ferra, João Luís Barreto Guimarães, William Blake (com tradução de Manuel Portela), Forugh Farrokhzad, Moshe Ha-Elion (com tradução de M.V. Andrade), Lourenço Bray, Paulinho Assunção, Valério Romão, António Tavares Lopes, Regina Guimarães, Saguenail e Jorge Mantas, para além de inúmeros trabalhos de artes visuais e o habitual CD Audio com obras de autores contemporâneos, que, neste número, inclui ainda uma verdadeira preciosidade: duas "Ostras", de Pedro Coelho. (Do "presse-rilize" que o Rui Amaral nos facultou.)
Esteja atento às bancas e quiosques! Exija a "Aguasfurtadas"! Escarneça dos estabeleciementos que ignorem a sua existência!
PARIS E O SOBRESSALTO (3): Numa crónica recente do jornal "Público", Vasco Pulido Valente referiu-se aos distúrbios em França (que nessa altura ainda se confinavam à região parisiense) como sendo originados por bandos de "muçulmanos".
Pelos vistos, VPV possui um conhecimento privilegiado relativamente à confissão religiosa dos fautores dos desacatos. O que tem transparecido, até ao momento, é que se trata de jovens maioritariamente oriundos de bairros desfavorecidos dos subúrbios. Mesmo o facto de serem, na sua maioria, provenientes de famílias com origem no maghreb ou África sub-sahariana não deveria ser tomado como indício certo e seguro da sua religião.
Mas, para alguém como VPV, este tipo de extrapolações abusivas é o tipo de coisa nas quais já nem se repara. Brotam espontaneamente, a qualquer hora do dia.
Não duvido de que VPV só por modéstia não revelou tudo aquilo que sabe sobre os energúmenos incendiários, incluindo nomes, moradas, idades, preferências musicais e habilitações literárias.
VPV seria ofensivo se não fosse tão irrelevante.
terça-feira, novembro 08, 2005
CAUÇÃO LITERÁRIA: Depois da caução científica, eis uma caução literária para os meus gatinhos perdidos:
«Mas depois existem estas raparigas desbotadas e envelhecidas que se vão incessantemente abandonando sem resistência, raparigas fortes, cujo íntimo nunca foi usado, que nunca foram amadas. (...) Nunca caíram de muito alto de uma esperança, por isso não se quebraram; mas estão amachucadas e já demasiado estragadas para a vida. Apenas gatos perdidos vêm ter com elas à noite ao seu quarto e secretamente as arranham e dormem sobre elas.»
(Rainer Maria Rilke, "As Anotações de Malte Laurids Brigge", 60. Tradução de Maria Teresa Dias Furtado.)
(A propósito, Cristina, resta saber se o teu método é invariante relativamente ao número de lados do polígono, distância em relação ao centro, altura a que o cartaz é afixado, condições meteorológicas, altura do mês e orientação relativamente ao campo magnético terrestre. Ah, e o verdadeiro Bergotte é aquele que ostenta no interior da orelha esquerda uma zona mais clara, que faz lembrar uma folha de tília.)
segunda-feira, novembro 07, 2005
ENTRETANTO, NO MUNDO DA FANTASIA...: A cidadã Leonor, o pequeno bocadinho de gente que vai obrigar à revisão da constituição de um país com mais de 40 milhões de habitantes (mais uma das risíveis aberrações em que as monarquias são pródigas), foi apresentada à imprensa, que inundou o seu rostozito com as primeiras de muitas dezenas de milhares de rajadas de luz flash.
Numa nota um pouco mais séria, no episódio de hoje dos "Morangos", a directora da escola (superiormente interpretada por Ana Zanatti) descobriu finalmente que o Cristiano anda a dormir na Associação de Estudantes.
PARIS E O SOBRESSALTO (2): Há uma pergunta que me assalta a mente.
Se as políticas musculadas de Nicolas Sarkozy tivessem tido sucesso, se a sua aposta na repressão em detrimento da prevenção e da mediação tivessem reduzido significativamente a criminalidade violenta nas "banlieues", alguma vez os suspeitos do costume (José Manuel Fernandes, Helena Matos...) se coibiriam de brandir bem alto este sucesso da "tolerância zero"?
É claro que não. Mais tarde ou mais cedo, lá saltaria a exaltação desta "lufada de ar fresco" numa França demasiado tempo conivente com a marginalidade de cariz mais ou menos étnico. Seria (parece que estou a adivinhar os títulos) uma vitória do bom senso contra os desmandos do politicamente correcto, uma lição para a Europa, et caetera.
Perante esta explosão de violência, algum dos suspeitos do costume se atreveu sequer a sugerir que Sarkozy e a sua atitude podem ter tido o seu quinhão de responsabilidade? Não estou sequer a afirmar que seja uma explicação legítima. Mas seria, parece-me, uma hipótese natural. Haverá maior demonstração de incompetência do que um ministro do interior se ver confrontado com uma situação de motins urbanos incontroláveis a nível nacional?
Mas nada disto deve surpreender quem percebeu já quão longe são capazes de ir certas pessoas para moldar os factos do Mundo às suas mundividências tortuosas, dia após dia, semana após semana, em letra de imprensa.
PARIS E O SOBRESSALTO (1): Os tumultos na região parisiense, que recentemente alastraram a outras cidades francesas, prestam-se a uma leitura muito óbvia, que consistiria em culpar a inépcia dos sucessivos governos franceses, e a esterilidade do modelo republicano francês caracterizado pela ênfase na ideia de integração e de assimilação.
Infelizmente, uma tal leitura deriva inevitavelmente para linhas de argumentação "desculpabilizadoras" e "sociológicas", a que muitos (precisamente os que mais prontos se costumam mostrar para criticar a França) opõem um anátema feroz e inflexível. De facto, se a culpa é do estado francês, da sua incapacidade para assimilar as minorias étnicas e resolver o problema do desemprego, isso fornece um esboço de explicação causal para os comportamentos violentos dos jovens vândalos.
E, como sabemos, para 50 % (estimativa por baixo) dos cronistas da imprensa portuguesa, EXPLICAR (a violência, o terrorismo) equivale a JUSTIFICAR e LEGITIMAR.
E contudo, com comovente desenvoltura, artigos de opinião recentes, vindos a lume recentemente na imprensa, logram, no seu conjunto, a proeza de zurzir na nação francesa E no politicamente correcto! Sem complexos nem meias medidas!
Uma coisa é bem certa: todos parecem ter uma opinião bem fundada sobre o assunto. Todos se descobrem especialistas instantâneos nas problemáticas das "banlieues".
Não duvido, nem por um segundo, que o presidente francês, o primeiro-ministro, o ministro do interior, quiçá o comando central da polícia da região da Île-de-France, esperam ansiosamente, todas as manhãs, pela remessa de jornais portugueses, que, devidamente traduzidos por funcionários do Instituto Camões a quem foi imposta a requisição civil, lhes proporcionam a chave para descodificar a situação.
SOBRE OS OMBROS DE GIGANTES: Mais algumas sugestões para quem nutra fantasias envolvendo imitação de hábitos de grandes homens de letras do passado:
- Recusar a entrada nos seus aposentos a todo aquele que tenha socializado com uma dama que tivesse tocado numa rosa, com medo de uma crise de asma (Proust)
- Percorrer meia Europa para se encontrar com uma dama ucraniana e persuadi-la a contrair matrimónio (Balzac)
- Beijar um cavalo encontrado na rua (Nietzsche)
- Divorciar-se ao fim de dia e meio de casamento (Katherine Mansfield)
- Desaparecer (Pynchon, Salinger, Herberto Helder...)
ONDE VAIS RIO QUE EU CANTO: Rui Rio, presidente da Câmara Municipal do Porto, e frequentador da mítica cervejaria Cufra, decidiu passar a dar entrevistas apenas por escrito, emulando (deliberadamente, não o duvido) Vladimir Nabokov em pessoa!
Pergunto-me se Rio levará a sua admiração mimética por esse grande homem de letras russo ao ponto de apreciar borboletas, detestar Camus e escrever com lápis que duram mais do que as borrachinhas no seu topo.
quarta-feira, novembro 02, 2005
SÃO FRAGMENTOS, SENHOR...:
«(...)admettant alors que, de la naissance à la mort, un grand poème s'élaborait dans le subconscient du poète qui ne pouvait en révéler que des fragments arbitraires.»
Robert Desnos escreveu isto no posfácio à sua recolha de poemas "Fortunes", renegando uma posição dos seus tempos do surrealismo. A ideia, contudo, seduz-me, sobretudo quando transposta para o domínio da ficção. A escrita de romances como revelação, mais ou menos parcimoniosa, mais ou menos prolixa, de facetas isoladas de um único e tremendo edifício ficcional.
Instantâneos oblíquos de uma máquina pletórica, com ambições a Mundo.
SUSPENDAM AS ROTATIVAS!: Anuncia-se que a Polícia Judiciária procedeu recentemente a uma busca na residência de Jorge Coelho, aparentemente no intuito de deitar mão a um tabuleiro de xadrez precioso que lhe teria sido oferecido por um empresário!
Ficou, naturalmente, desperta a minha curiosidade sobre uma eventual paixão do dirigente socialista pelo "jogo real", e sobre as suas opiniões acerca das variantes Najdorf e Scheveningen da defesa siciliana. E espero que o assentar da poeira não traga consigo a revelação de que a eventual posse do referido tabuleiro se deveu unicamente ao valor venal deste.
Aproveito a ocasião para fazer referência a um aspecto cuja aparente irrelevância esconde insondáveis abismos de insalubridade social da sociedade em que vivemos.
É frequente, em lojas de artigos decorativos e outras, vermos expostos belíssimos tabuleiros de xadrez. No entanto, com frequência, esses tabuleiros estão rodados de 90 graus relativamente à posição correcta.
Para que não subsistam enganos, aqui está um exemplo de tabuleiro de xadrez na posição correcta.
Para servir de comparação, eis agora um outro tabuleiro, numa posição errada. (Ignorem, por favor, o insólito tolkieniano das figuras.)
terça-feira, novembro 01, 2005
ANÚNCIOS DE GATO PERDIDO INVENTADOS (13):
(dedicado à Cristina, com vénia para os seus esforços de legitimação científica destas fantasias anunciadoras felinófilas)
perdeu-se lindo gato, numa rua soalheira e ingrata vizinha desta
numa rua ingrata e com nome de homem santo, perdeu-se ele
e o seu nome era Bergotte, que é nome estranho mas bem soante
e as suas manias eram as de um gato, e eis-me triste oh tão triste
aguçar garras em sofá e espreitar ciclistas através da janela
praticar acrobacias em muro de quintal, implorando atenção
cobiçar plumas de pombo tombadas no fundo de urbanas sarjetas
o homem santo da rua era, parece, um fervoroso estilita
de cuja garganta vociferante partiam apelos à penitência
parece, porque eu só tinha olhos e atenções para o meu Bergotte
perdido agora, e agora mal evocado neste anúncio trôpego
que aos cânones diz nada, por incompetência de quem redige
neste anúncio que eu espalho por ruas menos ingratas
menos aziagas para a população felina, assim o espero
ruas desta cidade conquistada aos mouros com derrame de sangue
hoje em dia com aspirações a sólida projecção europeia
neste ano da graça radiante e dotado de abismos, como um rosto
VOILÀ:

(Do filme "Passion", de Jean-Luc Godard, que foi visível na Cinemateca na passada segunda-feira. Frase proferida por Hanna Schygulla.)
(Fragmentos da "Virgem da Imaculada Conceição", de El Greco, e "3 de Maio de 1808. Execução dos Defensores de Madrid", de Goya.)
«Tiens, voilà pour l'usine, voilà pour l'amour,...

voilà pour l'argent, et voilà pour les souvenirs!»
(Do filme "Passion", de Jean-Luc Godard, que foi visível na Cinemateca na passada segunda-feira. Frase proferida por Hanna Schygulla.)
(Fragmentos da "Virgem da Imaculada Conceição", de El Greco, e "3 de Maio de 1808. Execução dos Defensores de Madrid", de Goya.)
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