terça-feira, março 07, 2006

I WISH I KNEW HOW TO QUIT YOU: Às vezes, é isto mesmo que me apetecia dizer ao meu blog: quem me dera deixar-te e ir viver a minha vida, de preferência numa paisagem montanhosa de parque natural, fotografada por um profissional de Hollywood. Os meus leitores parecem-me mais fiéis ao blog do que o seu próprio autor, e continuam a perder tempo por aqui, em vez de irem ao teatro, à discoteca, ou à Worten comprar electrodomésticos com aquele cartão que permite pagar em 3 meses sem juros. Talvez nutram a secreta esperança de encontrar dono para os gatinhos perdidos que vão recolhendo nas ruas da cidade. Queria deixar um grande agradecimento e um abraço XXL àqueles de entre os fiéis que assinalaram o 3º aniversário do 1bsk: o Aba de Heisenberg, o Almocreve das Petas, o Dias Felizes, o Linha dos Nodos, o Memória Inventada, o Ópera e Demais Interesses, o Seta Despedida, o Welcome to Elsinore, e o Yesterday Man. Se omiti alguém, as minhas desculpas (também XXL).
VOCÊ SABE QUE ALGUMA COISA VAI MAL QUANDO...: ...Eurico de Barros em pessoa lamenta a inexistência da «menor sombra de agitação contestatária à la Michael Moore» na cerimónia dos Óscares.
DEUS QUER, O HOMEM SONHA...: Já tardava o momento da primeira menção neste blog à escala Scoville, que mede o grau de pungência das malaguetas. Desde os primórdios da história que o Homem se esforça por medir e quantificar todos os fenómenos que presencia, desde os mais óbvios até aos mais subtis e, na aparência, incomensuráveis. Parece-me, manifestamente, ser este o caso das malaguetas. Assim se conclui que a escala de Scoville representa uma das realizações mais supremamente gloriosas do Génio Humano! Na escala de Scoville, as malaguetas mais picantes, as "Habenero" e as "Scotch Bonnet", atingem um valor que pode chegar aos 300 000. Para um palato europeu, porém, presumo que exista um fenómeno de compressão de escala para lá de um certo limiar: a capacidade para distinguir entre, digamos, 10 000 e 20 000, deve depender menos da acuidade gustativa do que da intensidade da dor sentida nas mucosas bucais e na língua. (Estou disposto a assinar compromisso de honra em como este post e este enlace não são apenas débeis pretextos para empregar o vocábulo "pungência".)
CLARO QUE NADA DISTO EXPLICA...: ... como é que as pessoas têm tempo para escrever nos blogs. Eu não tenho.
CURSO DE CHURRASCO: Chegou à minha caixa de correio uma mensagem de uma certa Luciana Souza, cujo assunto era "Curso de churrasco", e que o obtuso filtro do Yahoo! classificou levianamente como "Spam". Um curso de churrasco era talvez aquilo de que eu necessitava para colorir a minha vida. Zeus é grande, este blog é pequenino, o Jardim Ponge definha por falta de cuidados do jardineiro que sou eu, e vai sair mais um livro do Walser muito em breve. E a primavera?

segunda-feira, março 06, 2006

NEM HOLLYWOOD NEM SUNDANCE: Nem Hollywood nem Sundance, esta poderia ser uma divisa de Paul Auster, que se prepara ("Público" de 25 de Fevereiro) para rodar, perto de Lisboa, a sua nova longa-metragem. Eis uma declaração de intenções com a qual não posso deixar de simpatizar. Hollywood não passa de uma máquina de sorver e distribuir dólares (nem sempre a contento de todos), que há muito deixou de ter seja o que for a ver com qualquer coisa aparentada à criatividade ou à integridade artística. Quanto ao festival independente de Sundance, quer-me parecer, por amostras que têm atravessado o meu caminho, e por opiniões alheias, que os filmes que por lá medram e recolhem graúda soma de galardões estão demasiado próximos da órbita hollywoodesca, das suas categorias e dos seus ditames, e acima de tudo dos seus espartilhos, para se afirmarem como reais alternativas. O cinema verdadeiramente estimulante e original que nos chega dos EUA (Hartley, Lynch, Jarmusch, Van Sant...) encontra-se não apenas (e necessariamente) nos antípodas de toda a lógica mercantilista de Hollywood, mas também razoavelmente alheado dessa noção de cinema "independente" formatada e bem comportada que enche de júbilo todos aqueles que aplaudem, embevecidos, sempre que os Óscares premeiam filmes como "American Beauty" e "Brokeback Mountain", como quem diz, «Vêem? Afinal a Indústria também sabem premiar a ousadia e a inteligência. Aqui está a riqueza e a força do cinema americano.». Houve um tempo em que eu seguia com entusiasmo as entregas dos Óscares, e houve um tempo em que as repudiava de forma quase, digamos, militante. Hoje em dia, a minha reacção é de indiferença total, e tão impenetrável como a convicção de que nada do que se passa naquele auditório, naquela noite, tem a ver com cinema. (Resta-me desejar que, das excelentes intenções de Auster, admirador de Satyajit Ray, Ozu, Bresson e Bergman, nasça algo menos auto-indulgente e formalmente mais vigoroso do que aquilo que ele teve oportunidade de produzir até hoje, em matéria de sétima arte.)

sexta-feira, março 03, 2006

ANNIE AIME LES SUCETTES/LES SUCETTES À L'ANIS: E já que estamos numa de pegar em deixas do eminentemente parabemizável Memória Inventada, que com raro brio entra também no seu 4º ano, não resisto a evocar outro exemplo do apetite insaciável do público francês pelos arquivos televisivos, também este envolvendo Serge Gainsbourg. Uma das mais celebradas anedotas da história da canção francesa envolve France Gall, cantora da minha predilecção, e para quem Serge, com quem esteve romanticamente envolvida, compôs o tema de sucesso "Les Sucettes" ("Os Chupa-chupas", em tradução literal, se bem que pouco elegante). Consta que France, com toda a incorrupta candura de que era capaz uma jovem francesa dos anos 60, só muito mais tarde atingiu o segundo sentido brejeiro da canção, onde a dada altura se diz: Lorsque le sucre d'orge Parfumé à l'anis Coule dans la gorge d'Annie, Elle est au paradis. Mais tarde, Michel Berger, cantor e compositor de nomeada (precocemente desaparecido) e ulterior parceiro romântico de France Gall, reprovou a Gainsbourg ter-se tão despudoradamente aproveitado da inocência da mocita; e fê-lo no decurso de uma dessas emissões de variedades condimentadas com (nem sempre amenas) cavaqueiras, tão ao gosto francês. E posso garantir que chega a ser embaraçoso assistir a uma tão leviana evocação titubeantemente plantada nos terrenos da ética, da biografia e do puro ajuste de contas. (Quanto à interpretação que o próprio Gainsbourg faz de "Les Sucettes", o mínimo que se pode dizer é que pouco é deixado à imaginação do ouvinte. Todo o cabotinismo de que ele era capaz posto ao serviço da personificação de um velho porco e vagamente safado.)
ATRACTOR SUBURBANO: É verdade, Vasco, que Massamá funciona como incontornável atractor para as minhas incursões sociológicas fictícias. Quem me dera que as coisas se ficassem por aí. Mas sucede também que ambiciono escrever um bildungsroman cuja acção terá centro de gravidade num bar karaoke da Ramada, Odivelas. E isso, convenha-se, ameaça os limites do socialmente aceite.

quarta-feira, março 01, 2006

JÁ RESISTIMOS MAIS TEMPO DO QUE MUITOS GOVERNOS CONSTITUCIONAIS: Cumprem-se hoje 3 anos sobre o primeiro post do 1bsk. Nesses tempos, eu era jovem e inconsciente, os meus cabelos ondulavam ao vento, e ouvia Jethro Tull pela noite dentro. Hoje, quer-me parecer que um dos pouquíssimos denominadores comuns que subsistem entre a minha vida de então e a de agora é esta coisa verde e exasperante, que consumiu mais da minha atenção e tempo do que seria sensato, mas muito menos do que eu desejaria. Por mais que a minha vida dê piruetas e mortais à retaguarda, espero que o futuro próximo me traga as migalhas de tempo e ânimo necessárias para, sob o alto patrocínio de Kleist, contnuar a defender as causas de sempre: Igualdade, Liberdade, Fraternidade, o pensamento crítico, o cinema sisudo e intelectualóide, bolos de arroz, a memória do Dr. Sousa Martins, o xadrez, e todos, todos, mas mesmo todos os gatinhos perdidos do mundo! (Obrigado, leitores.)

sexta-feira, fevereiro 24, 2006

XADREZ: O mítico torneio de Linares, por vezes apodado de "Wimbledon do xadrez" por jornalistas sem imaginação, reparte-se, este ano, entre dois continentes: apenas a segunda metade decorrerá na vila espanhola que lhe deu o nome, ao passo que a primeira metade, que já se iniciou, está a ter lugar em Morelia, México. (Na era da deslocalização, tais tropelias já não são de molde a surpreender. Porém, todos esperamos que estas derivas geográficas não saiam dos limites do razoável. Nos dias que correm, os torneios até que poderiam decorrer via Internet, sem que cada jogador fosse obrigado a abandonar a sua cidade de residência. Transformar os grandes-mestres em trotamundos, para benefício de patrocinadores e edilidades, pode ter o seu encanto, e agradar aos fãs, mas corre-se o risco de transformar um torneio de xadrez numa manifestação circense.) Para já, o líder isolado é o húngaro Péter Lékó. O campeão do mundo Veselin Topalov está a realizar um torneio com mais baixos do que altos. Infelizmente, o meu ídolo Vassily Ivanchuk acaba de averbar duas derrotas consecutivas. E isto apesar do cuidado que coloca em limpar escrupulosamente o tabuleiro e as peças... ...chegando ao ponto de falar com elas, baixinho, talvez para lhes dar coragem, ou para as reconfortar antes da dura batalha que se avizinha. «Vá lá, querido peão, sê bonzinho... Sê ajuizado. Vai até à 8ª fila, promove-te, transforma-te em Dama para me fazeres ganhar este jogo tão importante...» (Fotos de Nadja Woisin.) (Podem ver aqui esta extraordinária performance, em vídeo.)
TOP 25 DO CINEMA PORTUGUÊS (1): No "JL" dos passados dias 1 a 14 de Fevereiro, foi publicada uma lista dos melhores filmes portugueses dos últimos 25 anos, resultante da votação de um painel composto por 19 críticos. Os resultados, a meu ver, forneceram uma proporção apreciável de surpresas. Mas vamos por partes. Antes de mais, para quem não teve acesso à lista, aqui ficam os 10 filmes mais votados: 1. Noite Escura (João Canijo) 2. Francisca (Manoel de Oliveira) 2. Recordações da Casa Amarela (João César Monteiro) 4. Os Mutantes (Teresa Villaverde) 4. Um Adeus Português (João Botelho) 4. Vale Abraão (Manoel de Oliveira) 7. A Comédia de Deus (João César Monteiro) 7. O Delfim (Fernando Lopes) 7. Ossos (Pedro Costa) 7. Vai e Vem (João César Monteiro). Da lista dos 25 melhores (na realidade são 28, devido aos empates) constam ainda os seguintes realizadores: Marco Martins, António Pedro Vasconcelos, Mário Barroso, Paulo Rocha, Margarida Cardoso, José Miguel Ribeiro, Manuel Mozos, António Reis e Margarida Cordeiro, João Pedro Rodrigues, João Mário Grilo, José Fonseca e Costa e José Nascimento. De entre as ausências mais notórias, permito-me salientar duas: Jorge Silva Melo e José Álvaro Morais. E se do primeiro ainda se pode dizer que tal se terá devido a uma obra relativamente esparsa, sem que nenhum filme se destaque marcadamente dos demais (mas nem "Ninguém Duas Vezes" nem "António, Um Rapaz de Lisboa" desmereceriam deste elenco), o caso de José Álvaro Morais assume, a meu ver, foros de escândalo. Como é possível que "O Bobo", esse filme imenso, não figure entre os maiores do cinema português, de todos os tempos? Isto sem menosprezo para com "Peixe Lua" e "Quaresma", bem entendido. (A Rodagem de "O Bobo" teve o seu início em 1979, embora o lançamento tenha ocorrido apenas em 1987. Espero não ter sido este um critério de exclusão, numa lista confinada aos últimos 25 anos.) (continua...)
CHOQUE E ESPANTO: Aqui há dias, na Antena 1, um repórter fez uma coisa extraordinária: não sei se por desleixo, se por falta de experiência, pediu desculpa ao entrevistado por o interromper. Está, nitidamente, a pedir um processo disciplinar.
PARA UMA ÉTICA E UMA ESTÉTICA DO GATO PERDIDO (2): (entrevistas de rua) «Gatos perdidos? Bem, eu tive um gato que era perdido antes de o ser. Mesmo dentro de casa, perdia-se com muita frequência. Era vê-lo, no corredor, de focinho alçado, com o ar mais compenetrado do mundo, incerto do caminho. Causava um certo dó vê-lo tão à míngua de olfacto, de instinto, e de outras coisas que os gatos costumam possuir em enorme abundância. E nem é que o apartamento fosse grande, não passava de um T2 nas Avenidas Novas. Bem, na realidade, estou a faltar à verdade. Não era um T2 nem era nas Avenidas Novas, era uma mansão colonial no Estado da Virgínia. E não era um gato, mas sim um porquinho da Índia. E nada disto se passou na realidade, trata-se de uma história curta da Carson McCullers, ou de um seu seguidor, dos mais talentosos. Carson parece nome de homem mas ela era uma mulher. Ah ah. Passe um bom dia.» (U.M., treinador de salto em altura, Vialonga.) «O que é um gato perdido? É um gato que não consegue encontrar o caminho de volta. Mas o caminho de volta, essa entidade ectoplásmica que tanta gente supostamente douta teima em reificar, exige alguém que o percorra, que o individualize de entre a miríade de caminhos que se abrem ao livre arbítrio humano, neste caso felino. Sem sujeito, não há caminho. Daqui decorre que um gato apenas se pode considerar perdido quando deixa de o ser, quando desbrava o espaço virgem que o separa do lar e do pirezinho de leite, conquistando o direito ao seu estatuto e ao mimo dos donos, que, por sinal, nunca é em quantidade suficiente.» (A. S., estenodactilógrafa, Dafundo.) «É interessante que me tenha colocado essa pergunta, pois encontro-me precisamente a redigir uma tese sobre a omissão de figuras felinas na história da arte ocidental. Ocupo-me sobretudo do período impressionista. Nem todos os amadores se dão conta da subtileza de que um Monet deu mostras ao evitar inserir gatos na sua série dos Nenúfares. Cada quadro traz consigo uma nova e original aproximação ao tema, uma nova forma de declinar o leitmotiv da ausência de corpo peludo e rechonchudo, vagamente entediado.» (R.C., funcionário dos serviços postais, Massamá.)

Claude Monet, "Nymphéas", 1916-1919.

quarta-feira, fevereiro 22, 2006

JARDIM PONGE(2): É de bom tom desconfiar sempre que algo, seja poeta ou perfume de gelado, aparece definido pela negativa. Mas há casos que manifestamente a tal se prestam. Ponge é um deles. Ponge desconfiava da famosa afirmação de Rimbaud «je travaille à me rendre voyant» (de uma carta a Georges Izambard de 1871, datada dois dias antes de uma outra, a Paul Demeny, onde esta ideia é explorada com maior profundidade). Ponge era um poeta da materialidade, um cultor da expressão enquanto labor, radical e programaticamente alheio a qualquer forma de vidência. «Cela dit, il fallut attendre plusieurs siècles (Pour que l'on rebaisse les yeux Et regarde à nouveau par terre.)» (escreveu ele no seu poema em movimento "La Figue"). E agora, como a intempérie deixou marcas neste pequeno jardim, vou muito ladinamente dedicar-me a apanhar alguns ramitos caídos.
...é que é uma emoção tão difícil, a alegria. (Diz uma personagem de um romance de Maria Velho da Costa.)

quarta-feira, fevereiro 15, 2006

O VOS OMNES QUI TRANSITIS: Hoje li uma frase que, por razões difíceis de compreender, me prendeu a atenção. Vem no "Penguin Guide to Compact Discs". Reza assim: «Alessandro Stradella wrote church music which combined drama with remarkable serenity and expressive beauty.» Quem dera a muitos escritores portugueses (pertencente a uma das famigeradas capelinhas ou melancolicamente fora delas) esta desempoeirada concisão formal e este poder expressivo sereno e discreto. Stradella (1644-1682) foi um compositor italiano, morto barbaramente em Génova a golpes de punhal, por um assassino contratado ou (segundo as fontes) por uma amante ciumenta.
A PROPÓSITO DE UM SUECO SISUDO: Há um site sobre Bergman que é uma descoberta recente, e que promete muito.
OS DEZ MELHORES FILMES DE 2005: O meu filme preferido do ano que há pouco findou foi "Saraband", de Ingmar Bergman. Regra geral, alusões a uma hipotética "idade de ouro" do cinema provocam-me urticária. Após assistir a "Saraband", porém, senti que tinha estado perante um objecto vindo de longe, de tempos distantes em que o cinema era ainda uma aventura intelectual constante, e em que a ousadia artística ganhava uma relevância vital na opinião pública. Talvez esteja a romantizar uma época que não vivi. Se assim for, seja: os despojos que deles me chegaram parecem autorizar todos os devaneios sobre os anos em que Fellini, Buñuel, Antonioni, Bresson, o próprio Bergman, povoavam os ecrãs da Europa com estimulante regularidade. "Saraband", para além desse filme assombroso que é, surge também como exaltante nota de continuidade numa carreira assombrada por uma questão que parece, por vezes, capaz de aglutinar todas as demais: Como fazer coabitar, numa só vida, os tormentos existenciais e as emoções humanas?

domingo, fevereiro 12, 2006

BOICOTES E CONTRA-BOICOTES: O escritor egípcio Naguib Mahfouz, prémio Nobel da literatura, declarou apoiar o boicote aos produtos dinamarqueses, afirmando, entre outras coisas, que "o mundo só compreende a linguagem da força", e que "há que fazer a distinção entre liberdade de expressão e o desrespeito pelos símbolos religiosos". Pelo que me toca, vou boicotar os livros de Naguib Mahfouz. Tenho dois romances seus na minha estante, e vou abster-me de os reler. Não haverá por aí ninguém que me queira boicotar a mim?

sexta-feira, fevereiro 10, 2006

NOCTURNO: A meio da noite, confundi (não pela primeira vez) o distante rumor do tráfego na 2ª Circular com uma qualquer obra de música erudita contemporânea, proveniente do apartamento de um hipotético vizinho melómano e insone. Todos temos um Arvo Pärt dentro de nós, ou, à falta disso, dentro do motor das nossas viaturas.
PROMESSAS: O 1bsk nunca foi parco em promessas. E porquê abandonar tão amável via? Dentro em breve, conte o estimado leitor com a divulgação integral da ementa do jantar de homenagem oferecido pela classe médica ao Dr. Sousa Martins, em 1897, após a Conferência Sanitária de Veneza em que este participou. Não sei se tal divulgação será oportuna, nem se o Dr. Marques Mendes a consideraria prioritária, em vista do periclitante estado da economia nacional. Mas há ocasiões na vida em que o bom senso cede perante o poder evocativo de uma Suprême de Volaille à la Maréchale.

quinta-feira, fevereiro 09, 2006

JARDIM PONGE (1): A delicada natureza de um jardim não se compadece com o desleixo que se tem instalado como modo de ser deste blog. A falta de chuva não vem senão agravar as coisas. Por hoje, limito-me a semear algumas palavras que, espero, acabarão por germinar no tempo certo, e nunca antes nem depois, não sei se ao sabor do acaso ou da necessidade. (Abstenhamo-nos de meter foice em seara alheia; e, já agora, abstenhamo-nos igualmente do recurso a metáforas agrícolas.) Paganismo. Materialismo. Objecto. Paciência. Resistência. Linguagem. Expressão. Montpellier. Natureza. Lucrécio. Busca.

quarta-feira, fevereiro 08, 2006

CHAMADA DE ATENÇÃO...: ...para mais um artigo a não perder, como aliás se vem tornando um hábito no Esquerda Republicana.
SALVAR AS APARÊNCIAS: Segundo Maurice Blanchot, Kafka estava interessado em saber em que momentos e com que frequência, numa conversa com oito pessoas, uma pessoa teria de falar para não ser considerada taciturna. Eis o que me faz gostar ainda mais tanto de Kafka, pela legítima preocupação, como de Blanchot, por ter achado oportuno mencioná-la.
OS DEZ MELHORES FILMES DE 2005 (4 a 2): nº 4: "Last Days", de Gus Van Sant. Cinema, nada mais que cinema (e, crucialmente, nada menos do que cinema). Poucos, como Van Sant, sabem trazer ao de cima o que há de mais impenetrável, e simultaneamente mais luminoso, nas personagens que povoam os seus filmes. Escrevi sobre este filme aqui. nº 3: "Rois et Reine", de Arnaud Desplechin. A maior revelação do cinema francês dos últimos dez ou vinte anos. Para lá dos géneros, mas acenando ao melodrama, ao burlesco e à tradição do cinema naturalista francês, este ciclone de exuberância criativa é também um enorme filme de enormes actores. Emmanuelle Devos e Mathieu Amalric, claro está, mas também um assombroso Maurice Garrel. Escrevi sobre este filme em várias ocasiões, a primeira das quais foi aqui. nº 2: "Pas de Repos Pour les Braves", de Alain Guiraudie. À preguiçosa pergunta "Ainda é possível a originalidade no cinema?", Guiraudie responde de forma gloriosa e maliciosa, num filme que faz da reinvenção perpétua das formas e dos modos o seu modo de ser. Também sobre este filme escrevinhei com alguma prolixidade, proporcional ao meu entusiasmo. O primeiro artigo foi este. Falta o meu preferido de 2005. A revelar em breve. Mas não esperem surpresas.

terça-feira, fevereiro 07, 2006

DESVARIOS DA DEMOCRACIA:
DIZER SEM DIZER: Em declarações recentes, Marques Mendes afirmou que, perante a complicada situação económica do país, e o aumento do desmprego, era absurdo atribuir prioridade a assuntos como o casamento homossexual. É em ocasiões como esta que Marques Mendes revela a sua falta de espinha dorsal e deplorável tibieza política. Quem não quer parecer pusilânime, não alinha em argumentações pusilânimes. Pessoalmente, já deito pelos olhos a mais-que-saloia esperteza daqueles que, por não "parecer bem" estar frontalmente contra o casamento homossexual ou a descriminalização do aborto, se refugiam no transparente subterfúgio da falta de oportunidade ou ausência de cariz prioritário. Meus senhores, assumam aquilo que pensam! Quem se obstina em ficar com a manteiga e o dinheiro da manteiga acaba, mais tarde ou mais cedo, por ficar sem nada, de mãos vazias, e com um sorriso idiota na fotografia. (Acho repugnantes as tentativas de fazer espírito, ou de atingir alguém, por meio de alusões a defeitos ou insuficiências físicas. No caso de Marques Mendes, tais deslizes tornam-se tanto mais condenáveis quanto a adequação entre a reduzida estatura física e a pequenez política é forte a ponto de constituir tentação.)
LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: No Alfa Pendular, um jovem lia as memórias da Marquesa de La Tour du Pin. Depois, tal como sucede, as mais das vezes, aos fenómenos improváveis, ele desapareceu subitamente.

sábado, fevereiro 04, 2006

MUITO MENOS ESTE: Por uns quantos bonecos, não vale decerto a pena boicotar os produtos dinamarqueses. Muito menos este:

("Gertrud", de Carl Theodor Dreyer, 1964.)

sexta-feira, fevereiro 03, 2006

JARDIM PONGE: Na sequência de veementes apelos oriundos de variados sectores e numerosos blogs (em boa verdade, foi só este), é com indisfarçado prazer que inauguro o Jardim Ponge. E o que vem a ser o Jardim Ponge? Este projecto, que eu desejo a uma escala modesta, e nada megalómana, nasceu do meu fascínio pelo escritor francês Francis Ponge (1899-1988), esse cultor da língua que recusava o estatuto de poeta, e que protagonizou um dos percursos mais fascinantes das letras do século XX. Sucede que, avisado juiz de mim mesmo, sei que as minhas veleidades de escrever sobre a personalidade X ou Y se desagregam, mais vezes do que não, por obra de uma inércia comodista directamente imputável à efemeridade da minha motivação. Foi daí que surgiu a ideia de dar ao meu entusiasmo por Ponge a forma de um jardim, de forma a que a natureza perecível das espécies vegetais que nele serão cultivadas me incentivem a cuidá-lo com esmero e regularidade. Haverá um canteiro para as notas biográficas, uma alameda para os comentários e citações e uma pequena estufa para os meus devaneios pessoais mais dispensáveis. (Espero que esta inauguração não se assemelhe às que certos autarcas fazem em piscinas ou outros equipamentos ainda em obras, apenas com intuitos propagandísticos, meses ou anos antes da sua abertura ao público.) Para começar, planto esta citação, retirada de uma entrevista a Philippe Sollers, e que reflecte uma das facetas mais fundamentais de Ponge: o amor pela língua francesa, e o vivo entusiasmo que revelava pela exploração desta: «Mon père avait, dans sa bibliothèque, le Littré, qui a une si grande importance pour moi, où j’ai trouvé un autre monde, celui des vocables, des mots, mots français bien sûr, un monde aussi réel pour moi, aussi faisant partie du monde extérieur, du monde sensible, aussi physique pour moi que la nature, [...]. C’est-à-dire que me plongeant dans le dictionnaire français, dans le dictionnaire Littré, parce que ce dictionnaire comporte de longs développements sur l’histoire des mots, la sémantique, et aussi sur l’étymologie, remontant fort souvent même plus haut que le latin, vers les racines védiques, eh bien, il est certain que là se trouve une des plus fortes imprégnations de mon enfance, et si l’on veut bien examiner mes textes de ce point de vue [...] eh bien, on verra que je n’ai jamais cherché qu’à redonner à la langue française cette densité, cette matérialité, cette épaisseur (mystérieuse, bien sûr) qui lui vient de ses origines les plus anciennes. Que j’ai voulu en quelque façon [...] regarder en face non seulement la langue maternelle, mais aussi bien la langue grand-maternelle ou des aïeules encore plus anciennes, et entrer profondément dans ce monde, aussi concret, je le répète, aussi sensible pour moi que pouvaient l’être les paysages, les architectures, les événements, les personnes, les choses du monde dit physique. »
FAÇA VOCÊ MESMO: Nos últimos tempos, o blogonauta médio tem sido estragado com mimos. É possível, nos dias que correm, ter um acesso fácil, rápido e quotidiano a imbecilidades sobre assuntos como os motins em França, a candidatura de Manuel Alegre e os casamentos homossexuais. Nos tempos proto-históricos, estas imbecilidades só podiam ser lidas na imprensa escrita. O ciberespaço rasgou horizontes, e significou o fim da penúria de um bem que se conta entre os mais apreciados.

quinta-feira, fevereiro 02, 2006

OS DEZ MELHORES FILMES DE 2005 (7 a 5): nº 7: "Orlando Vargas", de Juan Pittaluga. Um dos filmes mais singulares do ano. Exploração dos temas do medo, da opressão política, da desaparição, num registo complexo e alusivo, trabalhado até a um extremo de lisura e fluidez que contribui para o poder quase hipnótico do filme. Portentosa interpretação de Aurélien Recoing, e extraordinária presença de uma Elina Löwensohn resgatada ao nosso imaginário colectivo de admiradores de Hartley. nº 6: "Good Bye Dragon Inn", de Tsai Ming-Liang. Coreografia de desejos e nostalgias numa sala de cinema prestes a encerrar. A rarefacção brutal das palavras e a persistência tenaz do elemento humano, ainda que trémulo e vulnerável à fugacidade das coisas. "A poesia do tempo real", apetecia-me dizer, não fora o receio de ataviar com fórmulas um filme que as dispensa perfeitamente. nº 5: "Les Temps Qui Changent", de André Téchiné. Do escândalo à terna banalidade de um amor recomeçado. Escrevi sobre este soberbo filme aqui.
CAMPOS DE MORANGOS PARA SEMPRE: Estima-se que a população mundial atinja os 6 447 milhões de habitantes. Destes, apenas um ainda não tinha percebido que o Tó Pê, dos "Morangos", estava apaixonado pela professora de Inglês. Infelizmente, o néscio em questão era a própria professora, a quem foi revelada hoje a tremenda verdade, pela boca do principal interessado. Da forma mais denotativa possível, e não daquele modo oblíquo e prenhe em conteúdo metafórico que a situação pedia.
DOIS PESOS E DUAS MEDIDAS: Por menos do que isto, o nosso Cristianinho Ronaldinho foi crucificado em praça pública e alvo de aleivosa saraivada de sanções!!!

(Boris Gelfand, Israel, grande-mestre de xadrez, nº 9 do mundo, sem cadastro conhecido)

(Foto de Fred Lucas)

IL FALLAIT Y PENSER: Por vezes, fico preocupado porque a bateria do meu telemóvel está quase a descarregar-se. Porém , como tenho sempre comigo o carregador do telemóvel, posso recarregar a bateria assim que ela se esgota, e o problema fica resolvido. Por isso, não há motivo para preocupação.
LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Um cavalheiro, instalado numa carruagem de metropolitano, na linha verde, dedicava a sua atenção ao romance de Fernanda Botelho "Lourenço é Nome de Jogral", um livro muito bom que não é lido em público com a assiduidade que mereceria. Havia, nos modos do cavalheiro em questão, um quê de fleuma e apaziguada compostura que contrastava flagrantemente com a de outros leitores em lugares públicos. Para citar apenas um exemplo: um leitor de "O Estrangeiro", há dias, na linha vermelha, a quem não parecia faltar mais do que um quase nada para emular o próprio Meursault.

terça-feira, janeiro 31, 2006

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Um jovem utente da linha verde do metropolitano lia "O Inominável", de Samuel Beckett, que sublinhava conscienciosamente com uma lapiseira. Neste ano do seu centenário, se a comunicação social dedicasse a Beckett 1 % do espaço que dedica a Mozart, então dedicaria a Mozart 10 000 % do espaço que dedica a Beckett. A minha busca de leitores em lugares públicos é incompatível com qualquer veleidade de discrição. Ambiciono a exaustividade. Sonho em fazer como a personagem principal do filme "Alice" que, na esperança de vislumbrar a filha desaparecida, visionava cassetes de vigilância de aeroportos obtidas por especial favor. Quem sabe quantas leituras inverosímeis, pequenos e quotidianos atentados às probabilidades, ocorrerão em lugares públicos enquanto me dedico a actividades privadas?
XADREZ: Terminou o torneio de Wijk aan Zee, que serviu para confirmar aquilo de que poucos duvidavam: a supremacia no xadrez mundial é neste momento disputada por apenas dois homens, o búlgaro Vesselin Topalov (campeão do mundo) e o indiano Viswanathan Anand, que partilharam o primeiro lugar na classificação final. Têm razões para estar satisfeitos o inglês Michael Adams e o ucraniano Vassily Ivanchuk, meu ídolo, que partilharam o 3º lugar. Adams vinha de uma série de más prestações, e é de augurar que este bom resultado represente uma inversão dessa tendência negativa. O jovem Sergey Karjakin (Ucrânia, 16 anos, 5º posto ex aequo) confirmou o enormíssimo potencial que lhe é reconhecido desde que se tornou o grande-mestre mais novo de sempre. Já Péter Lékó, da Hungria (que esteve a um passo de roubar o título de campeão do mundo oficioso ao russo Vladimir Kramnik, ausente de Wijk por doença), obteve mais um resultado decepcionante. Um motivo de curiosidade deste torneio era o regresso de Gata Kamsky, dos EUA, a um supertorneio, após uma suspensão de carreira que durou quase uma década. Kamsky, que chegou a ser um dos 3 ou 4 melhores jogadores do mundo, mostrou uma deficiente preparação nas aberturas, natural depois de uma paragem tão prolongada, mas as 4 vitórias (contra 8 derrotas...) que protagonizou sugerem que tem potencial para regressar aos seus melhores tempos. No forte torneio B, registou-se outro empate na liderança, entre o russo Aleksandr Motylev e o norueguês Magnus Carlsen (outro menino prodígio, com 15 anos). Ambos deverão ser convidados para o torneio A, para o ano. De resto, este torneio voltou a mostrar por que razão é, cada vez mais, o preferido dos aficionados do mundo inteiro: numerosas manifestações paralelas, partidas combativas e espectaculares, e uma estimulante mistura de vedetas confirmadas e jovens talentos em ascensão. Dentro de poucas semanas, disputar-se-á o mítico torneio de Linares, este ano partilhado entre México e Espanha. Infelizmente, Anand não estará presente, pelo que não se assistirá a mais um capítulo do duelo que trava com Topalov, desde já favoritíssimo.

sexta-feira, janeiro 27, 2006

OS DEZ MELHORES FILMES DE 2005 (10 a 8): Foi demorado, este parto da lista dos 10 melhores de 2005. As delongas são, creio, desculpáveis pelas circunstâncias e pelo risco em que a precipitação faria incorrer: haverá algo de mais trágico do que colocar na sexta posição um filme de que, dias depois (e com fulgurante evidência!), nos apercebemos não merecer mais do que a sétima, num elenco por ordem de mérito? A lista será apresentada por prestações, e acompanhada por rufar de tambores, que eu não disponibilizo, mas que sugiro que invoquem ao vosso banco de memórias sonoras. nº 10: "O Fatalista", de João Botelho, e "5x2", de François Ozon. "O Fatalista" foi, para mim, o melhor filme português do ano. Falei sobre ele aqui. Quanto a "5x2", decidi incluí-lo por se tratar de uma obra que, embora estreada ainda em finais de 2004, foi crescendo paulatinamente na minha estima, também (mas não apenas) graças à brilhante banda sonora. Esta conta com temas italianos dos anos 50/60, e um outro, mais recente e fabuloso, de Paolo Conte. Tive a felicidade de descobrir o CD em Viena (ou melhor, alguém mais atento do que eu descobriu-o por mim). Estou a divagar, não estou? nº 9: "La Niña Santa", de Lucrecia Martel. Mais uma demonstração da espantosa vitalidade do cinema argentino. Um filme que me surpreendeu pela maneira como combina atmosfera e subtileza narrativa. Demasiado amiúde, os filmes que apostam na exploração dos espaços, dos corpos e dos elementos sensoriais abdicam do argumento e da exploração da riqueza dos relacionamentos humanos. Este é um notável contra-exemplo, conduzido com mão de mestre por Lucrecia Martel. nº 8: "Broken Flowers", de Jim Jarmusch. Os Portugueses conhecem-me, e sabem o que eu escrevi sobre este filme. Um belo filme de um dos poucos espíritos verdadeiramente independentes do cinema norte-americano actual. Livre, formalmente elegante, e supremamente moderno pela maneira como aborda o tema do esvaziamento dos indícios e da ilegibilidade do mundo.
LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Na linha verde do metropolitano, uma jovem, de pé, jogava xadrez no seu telemóvel. Agradeço a todas divindades de todas as mitologias e religiões passadas, presentes e por vir, o terem-me concedido anos de vida suficientes para contemplar tão esplendorosa visão. (Bem sei que isto não é uma leitura em lugar público. Contudo, inaugurar uma rubrica chamada "Xadrez em lugares públicos" pecaria por um optimismo a confinar com o delírio.)

quarta-feira, janeiro 25, 2006

OS TEMPOS QUE MUDAM: A primeira dúvida ociosa do ano é a seguinte: será que a felicidade priva quem dela frui do direito a conviver com os seus fantasmas muito lá de casa?

Barnett Newman, "Yellow Painting" (1949).

terça-feira, janeiro 24, 2006

ENQUANTO ISSO, NAS PRAIAS BRUMOSAS DE WIJK AAN ZEE: No supertorneio de xadrez "Corus", a liderança é partilhada pelo indiano Viswanathan Anand e pelo búlgaro (e campeão do mundo) Vesselin Topalov, os dois jogadores que disputam a supremacia mundial nos dias de hoje. A apenas meio ponto, encontra-se a grande sensação deste torneio: o ucraniano Sergey Karjakin, que cumpriu 16 anos há poucos dias. O meu ídolo Vassily Ivanchuk, depois de um começo fulgurante, tem sido vítima da irregularidade que tanto exaspera os seus fãs, e encontra-se a 1 ponto do duo da frente. No também muito forte torneio B, outro jovem prodígio (Magnus Carlsen, Noruega, 15 anos) comanda com autoridade. Hoje (segunda) foi dia de descanso. Terça e quarta, mais xadrez. Quinta, descanso outra vez. Depois, xadrez até domingo. Quel métier!
OS MEUS COMENTÁRIOS SOBRE AS ELEIÇÕES: Gosto muito de bombons de três chocolates. Também os há de dois chocolates, que não são tão bons. Bons mesmo seriam os de quatro chocolates, mas três chocolates já é muito bom.
ONDE É QUE PÁRA A REVISTA?: Já repararam que os portugueses andam mais macambúzios? Não é tarefa árdua lobrigar a razão: a revista "Aguasfurtadas", que já vai no seu número 8, torna-se difícil de encontrar devido a problemas de distribuição. Mesmo os mais tenazes acabam por se resignar a um fado mais negro que o negrume: privar-se dos poemas de Affonso Romano de Sant'Anna, Margarida Ferra e João Luís Barreto Guimarães, da tradução inédita de "The Book of Ahania", de William Blake, da responsabilidade de Manuel Portela, e das primeiras traduções para português da poeta iraniana Forugh Farrokhzad e do poeta de língua ladina Moshe Ha-Elion, assim como dos contos de Paulinho Assunção, Valério Romão, António Tavares Lopes e da estreia de Lourenço Bray, já para não falar da peça de teatro inédita de Regina Guimarães e Saguenail e de um extraordinário ensaio de Jorge Mantas sobre Marcel Proust, ou dos múltiplos trabalhos em diferentes áreas das artes visuais e ainda de um CD com obras de compositores portugueses contemporâneos, que acolhe as primeiras gravações da rubrica "Ostra" (Antena 2), de Pedro Coelho. Porém, existe uma nesga de esperança nesta muralha de desânimo! É possível endereçar os pedidos directamente para jup@jup.pt ou"aguasfurtadas" Rua Miguel Bombarda, 187 4050-381 Porto onde nenhum pedido ficará por atender. E eis que os sorrisos voltam a brotar, resplandecentes, nos rosados semblantes lusos.

domingo, janeiro 22, 2006

K A PROPÓSITO DE K: «I was impressed by the Expressionists of the eighteenth century, Büchner's "Wozzeck", Heinrich von Kleist's "Penthesilea", Ferdinand Raimund's moralistic plays, Nestroy's satirical works.» (Oskar Kokoschka, citado em "Kokoschka: Life and Work", de Edith Hoffman.)

Oskar Kokoschka, "Montana Landschaft" (1947).

quinta-feira, janeiro 19, 2006

PARA UMA ÉTICA E UMA ESTÉTICA DO GATO PERDIDO (1): (entrevistas de rua) «É de um paradigma que se trata, mas de um paradigma dotado de corpo fofo e flexível, com um tufo de pêlos brancos no ventre.» (D.H., delegado de propaganda médica, Santo Amaro de Oeiras.) «Quem disse que o utilitarismo transcende a categoria das coisas ronronantes, que procuram a sua felicidade nas sarjetas e nos algerozes?» (A.T., assistente social, Campolide.) «A harmonia não entra aqui. É precisamente no limiar onde a harmonia claudica, e cede a seu pesar a preponderância a algo que, à falta de melhor, eu designo como a "esplendorosa rugosidade da contingência", que o gato perdido encontra o seu nicho. O seu fulgor é o fulgor da alteridade. Disfarça-se de inócuo facto da existência para esconder uma natureza que se compraz na alteridade e numa, como direi, diluição dos conceitos.» (F.B., inspectora das Finanças, Rio de Mouro.) «O meu chamava-se Pimpão, e gostava de brincar com a minha Parker 51, não gostava de mais nenhuma caneta, só da Parker.» (R.S. juiz-desembargador, Bobadela.) «Não tenho absolutamente nada a acrescentar àquilo que Adorno escreveu em "Minima Moralia". Nem uma vírgula.» (H. C., profissional de show-cooking, Samora Correia.)
THANK YOU FOR THE MUZAK: No filme "Odete", a música que se escuta na loja de artigos para bebé não passa de uma versão easy da ária "Erbarme dich, mein Gott", do "Evangelho Segundo São Mateus". É um tributo à grandeza de Bach reconhecer que, estropiada e apoucada, a sua música guarda ainda um poderoso travo de genialidade.
DO SOM: Que mais, senão trombetas soando, fariam justiça ao regresso da Seta Despedida? (De preferência, trombetas sem o mute do símbolo do romance de Pynchon.)
LUGARES DE PARIS: No filme "Caché" de Michael Haneke, o casal Daniel Auteuil/Juliette Binoche vive na rue Vulpian, no meu adorado 13ème arrondissement. Contudo, uma aura de mistério rodeia a localização exacta do lar conjugal. De facto, pareceu-me ler, na tabuleta da rua que faz entroncamento com a dita rue Vulpian, o nome "rue des Iris". Sucede, todavia, que esta artéria se situa a considerável distância da rue Vulpian, se bem que também no 13ème (e a um vigoroso arremesso de pedra do aprazível parque Montsouris). Este enigma, para mim, é mais importante do que saber quem enviava as cassetes de vídeo que atormentam a existência das personagens principais do filme. Sinto-me tentado a adquirir o DVD (assim que estiver disponível), e a emular a personagem de Daniel Auteuil, quando este imobiliza a imagem da cassete até descobrir o nome da rua que a câmara mostra: uma avenue Lénine em Romainville.
A Z O QUE É DE Z: Por lapso imperdoável, esqueci-me neste post de referir outra razão para gostar de Zapatero, e que não é certamente das menos dignas de nota: a legalização dos casamentos homossexuais. Mais uma medida justa e moderna; mais uma medida que atraiu animosidade por parte dos sectores costumeiros, que se acreditam mandatados para controlar a moralidade dos povos; mais uma medida que estava na altura de aplicar também aquém-fronteira.

quarta-feira, janeiro 18, 2006

EAVESDROPPERS OF THE WORLD, UNITE!: Num restaurante de um centro comercial do Porto, os convivas escutavam, entre a incredulidade e o riso mal reprimido, uma conversa que ocorria numa mesa ao lado, entre dois cavalheiros que aproveitavam o pós-prândio para discorrer sobre a vida, a política e a podridão dos agentes culturais. Da música («esse Mozart... grande homem!... isso é que era um artista! E levava pontapés no cu de um bispo... Escreveu o "Don Giovanni", essa coisa fabulosa, e acabou como acabou.»)... ...à literatura (elenco, próximo da exaustividade, de nomes que, imerecidamente, constam dos suplementos literários dos jornais portugueses)... ...à performance e às artes plásticas («Aquela gaja, a Vera Mantero... Aquilo que ela levou a São Paulo... Toda nua, com umas tatuagens... Entre dois andaimes... E ficava lá em cima durante duas horas...»). Chegada a hora da sobremesa, tendo os dois vencidos da vida já partido para novas aventuras, ocorreram-me duas coisas: primeiro, que se escancarara ali uma fresta na verosimilhança quotidiana, quem sabe se fruto da acção de um qualquer génio travesso; segundo, que tem o seu quê de estranho ouvir pronunciar o nome de Armando da Silva Carvalho em pleno centro comercial.

terça-feira, janeiro 17, 2006

A MARCA DO Z: Cada vez admiro mais o senhor José Luis Rodríguez Zapatero. Tudo começou com a composição do seu executivo. Não sou adepto incondicional de quotas, mas formar um governo com igual representação de ambos os sexos, num país latino, tem algo de revolução tranquila que nunca é de mais saudar. Cresceu a minha admiração com as numerosas medidas destinadas a contrariar a absurda posição dominante da igreja católica em Espanha, nomeadamente a abolição do carácter obrigatório da disciplina de Religião e Moral. Tais medidas, como seria de prever, levantaram ondas de indignação por parte da corporação em questão, mais um sintoma de que o premier espanhol se encontra no bom caminho. Conheço poucas credenciais mais abonatórias para um político do que ser alvo de manifestações de rua por parte dos sectores mais pacoviamente beatos e ultramontanos do país que dirige. Surge agora a legislação contra o consumo de tabaco em locais públicos, que entrou recentemente em vigor no país vizinho. Também aqui, era inevitável um movimento de crispação por parte daqueles que, cronicamente dados à vitimização, se julgaram visados por aquilo que, no fundo, não passa de um conjunto de medidas impregnadas de bom senso, cujo fim principal é o de proteger os cidadãos da exposição à prepotência do fumo alheio. A reacção de Francisco José Viegas é, deste ponto de, vista típica: mau grado o tom de conscienciosa moderação («Só fumo nos locais permitidos. Não violo a lei.», como se isso fosse proeza digna de louvor, e não o mais elementar dos deveres), consegue encapsular em poucas linhas os três principais lugares-comuns da contra-argumentação canónica dos tabagistas descontentes:
  • o mito da "perseguição" (como se o maior prazer de um governo fosse, sadicamente, perseguir os fumadores)
  • o espantalho do "moralismo" (como se a moral fosse tida ou achada para esta questão, que não sai do foro da saúde pública)
  • a alusão a práticas fascistas (que eu me recuso a qualificar)

Senhor Rodríguez Zapatero, sugiro-lhe humildemente que traga à conversa estes assuntos aquando da próxima cimeira ibérica. Entre uma tapa e um pastel de bacalhau talvez consiga fazer do seu homólogo português um seu émulo, pelo menos no que as estas sadias e corajosas medidas diz respeito.

SUGESTÃO PARA OS TEMPOS LIVRES: Pediram-nos que divulgássemos o seguinte presse-rilize, que, por não conter nada de contrário à moral vigente nem aos brandos costumes nacionais, passamos a transcrever: A 9ª edição da International Conference of the Short Story in English vai decorrer, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, entre os dias 21 e 25 de Junho de 2006. Trata-se de um evento que tem por objectivo pôr em contacto escritores, críticos e apreciadores de conto. Este encontro apresenta a característica de associar os escritores de língua inglesa aos do país onde se realiza, promovendo, ainda, o diálogo entre autores em início de carreira e outros já consagrados. Assim sendo, contaremos, em Portugal, com a presença de Amy Tan, Bharati Mukherjee, James Alan MacPherson, Minoli Salgado, Cynthia Ozick e muitos outros, bem como de [sobre este nome caiu uma gota de chá vermelho baunilhado], Catarina Fonseca, Gonçalo M. Tavares, Hélia Correia, Jacinto Lucas Pires, João Aguiar, João de Mancelos, Jorge Vaz de Carvalho, Luísa Costa Gomes, Onésimo Teotónio de Almeida, Rui Zink, Teolinda Gersão e Urbano Tavares Rodrigues, e de críticos como Charles May, George Monteiro, Susan Lohaffer ou Rolf Lunden. Haverá sessões de leitura por todos os escritores e cinco workshops de escrita criativa sob orientação de Amiri Baraka, Francine Prose, John Edgar Wildeman, Katherine Vaz e Rui Zink. Lista completa de autores e mais informações em www.fl.ul.pt/eventos/short_story, onde se podem fazer as inscrições e propor comunicações, debates ou painéis sobre o tema (data limite das propostas até final de Janeiro)

quinta-feira, janeiro 12, 2006

LEVAR AO LUME DURANTE MEIA HORA, MEXER BEM: Isto é assim, como tenho andado com pouco tempo, decidi coligir num só post uma mancheia de tópicos breves que espero desenvolver em ocasiões próximas.
  • Vai começar amanhã o torneio de xadrez "Corus", em Wijk aan Zee, na Holanda.
  • "Broken Flowers" (filme sobre a desagregação do sentido) e "Rois et Reine" (elogio oblíquo mas categórico da procura de um "sentido" na vida) não tão contraditórios como isso?
  • Para uma ética e uma estética do gato perdido (entrevistas de rua na Grande Lisboa).
  • Momentos kleistianos em "Jakob von Gunten", de Walser.
  • Abertura ao público do Jardim Ponge.
  • Citações republicanas.
  • Bombons Mozart da Mirabell à venda no Continente do Colombo! Choque! Espanto!
  • A francofobia é a doença do espírito mais disseminada do mundo hoje em dia.
  • Novo CD da Fiona Apple é um portento.
  • Quem anda com quem nos "Morangos": abordagem baseada na teoria dos grafos.
  • Como criar um mito urbano, de uma semana para a outra, a partir de uma oficina de sapateiro no Bairro dos Actores.
  • Momentos kleistianos em Stendhal.
O CENTRO DA NOITE: Claro está que merecer, mas merecer mesmo, aquilo que se chama merecer, não apenas placidamente esgravatar migalhas de, mas merecer, o convívio com a humanidade não foi jamais algo reivindicado por aqui.
EPÓNIMOS: Parece-me ter escapado às Forças Vivas da nação que este ano de 2005 viu estrear nada menos de três filmes portugueses cujos títulos consistiam singelamente em nomes próprios, por acaso todos eles femininos: "Adriana" (Margarida Gil), "Alice" (Marco Martins) e "Odete" (João Pedro Rodrigues). Trata-se, no fundo, de mais uma confirmação de uma tendência muito arreigada no cinema luso, e que não é de hoje. Basta recordar obras como "Francisca" (Manoel de Oliveira), "Silvestre" (João César Monteiro), "Ana" (António Reis e Margarida Cordeiro), "Glória" (Manuela Viegas) e "Jaime", que é nome de não um mas dois filmes portugueses (outra vez António Reis, o primeiro, António Pedro Vasconcelos o mais recente). Em "Benilde ou a Virgem Mãe", Manoel de Oliveira é salvo pelo gong do título alternativo.

terça-feira, janeiro 10, 2006

ERRAR EM NOVO LAR: O excelente blog Errância tem nova casa, por cujas divisões ecoam os lamentos pelo fim dos postais da Atalanta, com os quais não hesito em solidarizar-me.
AS MINHAS GANDAS CENAS: Na sequência deste desafio, não resisto a meter a minha colherada. Três cenas cuja cotação no meu imaginário cinéfilo nunca deixaram de estar em alta, indiferentes ao tempo, a ventos, marés e a quaisquer sextas-feiras negras. 1) A cura do rapaz gago no prológo de "O Espelho", de Tarkovsky. 2) A cena final de "Miller's Crossing", dos irmãos Coen (Gabriel Byrne e o seu chapéu, o mais improvável dos fetiches, dupla de sonho). 3) A visita ao Louvre, em tempo recorde, de Sami Frey, Anna Karina e Claude Brasseur, em "Bande à Part" de Godard. Uma busca muito rápida não chegou para encontrar as imagens respectivas. Tentarei voltar a tentar (tentativamente).

segunda-feira, janeiro 09, 2006

LEITURAS: Estou a ler uma recolha de contos de Luigi Pirandello. Acho desconcertante verificar até que ponto a faceta de ficcionista de Pirandello é tão menosprezada em Portugal. Em Itália, romances como "Uno, Nessuno e Centomila" ou "Il Fu Mattia Pascal" são considerados clássicos absolutos. Nos contos de Pirandello, identificam-se com facilidade temas e obsessões presentes igualmente na sua dramaturgia: a clivagem entre o ideal e a imagem projectada para o exterior, a exposição de mundividências particulares em conflito (por vezes em paradoxal harmonia) com o mundo exterior, a infidelidade conjugal, o suicídio, as minúsculas epifanias da condição humana capazes de fazer coabitar o trágico, o cómico e uma forma mordaz de estoicismo perante a adversidade. Do prefácio, de Lucio Lugnani, retive dois pontos que me interessaram:
  • a ideia da obra de Pirandello como um todo, indivisível, concretizado e ilustrado pelas instâncias (romances, contos e peças) que o servem; cada texto individual como uma janela que oferece ao leitor uma nova perspectiva sobre um imago mundi englobante que coincide com a própria razão de ser do artista Pirandello
  • a elaboração da grande recolha "Novelle per un anno" (1922). No prefácio a esta magna antologia da sua ficção curta, o próprio Pirandello dá a entender que o seu propósito original era (respeitando o título escolhido) o de coligir 365 contos, repartidos em 12 volumes, e que só a obstinação em contrário do seu editor disso o teria demovido. Tal propósito colide frontalmente com este simples facto: até à data, Pirandello tinha escrito pouco mais de 200 contos. Parece haver, portanto, uma tentativa tongue in cheek de edificar uma micro-ficção pessoal, na qual o autor se encena como autor incompreendido. Como se o seu apetite pelo fingimento e a sua voracidade ficcional exigissem vários níveis concêntricos para se espraiar.
LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Na Sala Doutor Félix Ribeiro da Cinemateca Portuguesa, à Barata Salgueiro (pois claro), um jovem lia, absorto comme il se doit, "El Laberinto de la Soledad", de Octavio Paz. Octavio Paz em versão original! Antes do "Couraçado Potemkin"! Quarenta pontos de bónus. Podem algumas vozitas da reacção argumentar que visitar a Cinemateca para descobrir leitores em lugar público não passa de voyeurismo intelectual, e, em todo o caso, constitui violação do espírito eminentemente aleatório que sempre presidiu a esta rubrica, cujo centro de gravidade se tem situado nos transportes em comum desde a primeira hora. A esses amigos da insinuação eu limito-me a responder que, primo, eu queria mesmo ir ver o Eisenstein. Secundo, a vida de um coleccionador de ensimesmamentos bibliófilos alheios não está, na Cinemateca, tão facilitada como se poderia esperar. A ausência de bancos decentes, a débil iluminação, e outrossim a concorrência do bar/restaurante convidam, com perene convicção, o visitante a actividades extraliterárias. Entre Octavio Paz e os peixinhos da horta, ou os espinafres "39 degraus", nem sempre a escolha recairá sobre o primeiro! (Havia um gato no "Couraçado", aspecto negligenciado por décadas de exegese.)

sexta-feira, janeiro 06, 2006

E A CADA MOMENTO...: ...cresce o motor da juventude alemã pela aviação sem amor.
VENHAM MAIS CINCO: A variedade "5 Bagas" da Margão tem cinco tipos de pimenta diferentes: pimenta preta, pimenta rosa, pimenta branca, pimenta da Jamaica e pimenta verde desidratada. Podem tirar-me muita coisa, mas não me podem tirar a portentosa antecipação desta sápida experiência. "Sápida" é uma bonita palavra. Fim do post.

quinta-feira, janeiro 05, 2006

CINEMA: "O Fatalista", de João Botelho. Por culpa do acaso, e não por qualquer predisposição negativa, desconheço quase por completo a obra de João Botelho, esse grande benfiquista. (Paulo Rocha é outro realizador ao qual se aplica exactamente o mesmo.) Ao sair da sala onde era exibido este "O Fatalista", senti bastas razões para me recriminar por tamanha negligência. Esta adaptação de Diderot resultou num filme que consegue combinar densidade com uma ligeireza de métodos e soluções que, aqui e além, se converte em puro estado de graça. O feito mais notável de Botelho, a meu ver, é o de ter equilibrado as componentes de sátira social e de fábula filosófica, sem abdicar de uma aposta num cómico abrejeirado que, neste caso, resulta plenamente (se bem que com excessos ocasionais). Formalmente, constata-se uma interessante e maliciosa exploração de diferentes dispositivos narrativos: contar uma peripécia, vivê-la ou reencená-la equivalem-se, nesse nenhures linear que é a estrada percorrida por Tiago e pelo seu patrão, espaço desancorado de qualquer referência, onde memórias, ilustrações de teses e a urgência do momento presente se justapõem. Notas de rodapé narrativas e longas digressões (o suculento episódio protagonizado por Rita Blanco e José Wallenstein) coexistem amigavelmente, sem prestar vassalagem nem à cronologia nem à verosimilhança, mas sim à reiterada confirmação de que "tudo está escrito". Nunca uma refutação do livre arbítrio terá sido tão jubilosa... Se tudo está escrito, pouco importa que o escritor seja um Deus que joga distraidamente aos dados ou um argumentista de cinema. O fatalista é o mais feliz e despreocupado dos homens, ainda que a vida não lhe traga nem sorte aos amores nem libertação da sua condição servil, ainda que a sua vulnerabilidade ao arbítrio alheio lhe retire qualquer ilusão sobre a possibilidade de alterar o seu destino, até à perversidade suprema: os três finais alternativos para a sua aventura amorosa, mutuamente incompatíveis - ou talvez não - e apresentados por um argumentista e por um realizador tornados personagem, demiurgos à paisana que protagonizam uma derradeira cabriola formal, perfeitamente coerente com o espírito do filme. O cinema passa por isto: explorar ideias sem as tornar visíveis, transpô-las para imagens e palavras nem vãs nem denotativas, ter atenção aos corpos, aos rostos e à luz, ocupar o tempo do filme sem essa obsessão pela eficácia narrativa que demasiadas vezes surge como o mais potente inibidor da criatividade no cinema. E lutar por se manter fiel às suas ideias, que é a única maneira de respeitar o espectador.

quarta-feira, janeiro 04, 2006

AVISO ÀS FAMÍLIAS PORTUGUESAS: Há mais fotografias de gatos no blog de xadrez "Daily Dirt"!!! (Incluindo um gato a tentar beber água de um copo, com óbvias dificuldades. Nem maiores nem menores do que as que um ser humano sentiria para lamber leite do fundo de um pires.) Felizmente, este excelente blog, apesar de ser subordinado ao xadrez, não fala só de xadrez, mas também de outros temas, como gatos.
INQUALIFICÁVEIS QUALIFICATIVOS: Num poema de Jorge de Sena, que li recentemente, Paul Valéry é chamado de "cretino": (...) Filho de Pasifaë, foi irmão de um verso de Racine, que Valéry, o cretino, achava um dos mais belos da «langue». (...) ("Em Creta, Com o Minotauro", in "Peregrinatio Ad Loca Infecta".) E isto poucos dias depois de ter visto Afonso Costa, outro dos meus ídolos absolutos, apodado de "facínora"! (Gostaria deveras de ficar a saber as circunstâncias em que Afonso Costa terá apelado ao assassinato do rei D. Carlos, e de que fontes consta uma referência a esse apelo.) O que se seguirá? Escutar ou ler que Heinrich von Kleist era um violador, um ladrão de cavalos e um destruidor de casamentos, e que se inspirava no seu próprio exemplo para redigir as suas obras literárias?
RÁDIO NOSTALGIA: Do "Contra-Informação" de hoje constava um sketch envolvendo Marques Mendes, com acompanhamento musical de um fabuloso tema que, só por si, teria bastado para assegurar a imortalidade dos Talking Heads: "Once In a Lifetime". Achei a ideia arrojada, largamente digna do aplauso deste que, para além do seu day job de humilde apóstolo da causa kleistiana, é também fervoroso vassalo da banda lendária de David Byrne, a maior de todos os tempos de entre todas aquelas que não vieram de Liverpool.
KINDNESS OF STRANGERS: O 2+2=5 achou por bem eleger-nos entre os 10 melhores blogs de 2005. Trata-se, notoriamente, de um erro de procedimento, visto que o único galardão a que o 1bsk poderia aspirar seria o de "blog mais negligenciado pelos seus donos e autores, de sempre e de todo o sistema solar". Ainda que imerecida, agradeço a distinção à rapaziada do 2+2=5.

terça-feira, janeiro 03, 2006

OUVIDO NUM CAFÉ AO PÉ DA CAMPANHÃ: «Ano novo, vida nova, a mesma treta de sempre.»
Um excelente ano de 2006 é o que eu desejo a todos, aos visitantes deste blog como aos outros, que nunca lerão esta mensagem!
...
E sejam bem-vindos ao ANO BECKETT!

sexta-feira, dezembro 30, 2005

CINEMA: Não tenciono fechar a minha lista dos melhores de 2005 antes de ver "Odete", que acaba de estrear. Gostei muito da entrevista que João Pedro Rodrigues deu ao "DN". Dela destaco esta passagem: «Depois de Parabéns e Fantasma, este filme começa a revelar claras marcas autorais. O rigor na imagem, nas formas, luz, enquadramentos, o gosto pela cor... Exigências técnicas... Isso vem do cinema de que gosto. É claro que fiz a escola de cinema, mas aprendi a fazer filmes a ver filmes. Acredito que uma imagem não é indiferente. O que se escolhe enquadrar, e o que se deixa de fora, faz sentido. E acredito que os filmes só podem ser assim.» Uma imagem não é indiferente. Seria talvez esta a frase que eu colocaria à cabeça de um eventual credo pessoal enquanto espectador de cinema.

quinta-feira, dezembro 29, 2005

CINEMA: "Broken Flowers", de Jim Jarmusch. Há um momento de transição em "Broken Flowers" cuja localização exacta depende mais da atenção e das expectativas do espectador do que de qualquer dinâmica intrínseca do filme. Falo do momento em que, independentemente da personagem principal (mas com plena consciência da parte desta), as pistas em que a lógica do filme parecia repousar (o papel de carta cor-de rosa, a máquina de escrever...) passam da parcimónia a uma inquietante superabundância. Durante um lapso de tempo considerável, mesmo sem se deixar conquistar pelo enlevo detectivesco do filme, o espectador é tentado a não abandonar a sua fé naqueles indícios que revelarão a Don (Bill Murray) a identidade da antiga amante que lhe escreveu a anunciar que teve um filho dele, dezanove anos atrás. Mas que fazer de sinais que, em lugar de se assumirem como ajuizados aglutinadores da tensão narrativa, assumem uma cadência própria, ocupando o espaço e tempo como que sobrepondo-se a qualquer coerência? Desinvestidos da sua carga, abdicando alegremente da sua capacidade de significar, precipitam um enorme absurdo, que a câmara de Jarmusch tem a arte de transformar em algo de terno e tranquilo. "Broken Flowers" é um filme sobre a perda da fé numa legibilidade do mundo que o redima da sua implacável contingência. Não sabemos ao certo até que ponto Don chega a albergar essa fé, ou de quão alto cai aquando do desenlace. Mas a viagem que com ele empreendemos emula o trajecto que todos os seres humanos parecem condenados a cumprir, alguns mais do que uma vez. Felizmente, o humanismo que perpassa por "Broken Flowers" nunca roça a grandiloquência (e haverá cineasta menos grandiloquente do que Jarmusch?). O resto é um road-movie que adopta um registo deliberadamente disfórico, em completa oposição de fase com a aura libertadora que esse sub-género se habituou a adoptar. O resto são as aparições meteóricas de tantas grandes actrizes, que dispensam os ademanes pueris frequentemente exigidos pela lógica do cameo. O resto, claro, é também Bill Murray. Não pretendo destoar do coro laudatório com que foi mais uma vez brindado este seu desempenho. Permito-me, somente, manifestar algum receio perante a perspectiva de acabar por ver Bill Murray encurralado nesse papel de palhaço triste fleumático e minimalista. Por mais que esse papel sirva o seu estilo e o seu corpo, deixá-lo petrificar-se nesse registo seria uma afronta à sua versatilidade.

quarta-feira, dezembro 28, 2005

UN CERTAIN AR DE FAMILLE ou ROIS ET REINE (5): Em "Rois et Reine" (não sei se já terá dado para perceber que este filme não me desagradou completamente!) são abundantes as ramificações e alusões a genealogias reais e cinéfilas. Lista não exaustiva: - Mathieu Amalric e Emmanuelle Devos formavam já o par central de "Comment Je Me Suis Disputé... (Ma Vie Sexuelle)", film-fleuve que revelou em definitivo o talento e a originalidade de Arnaud Desplechin. - Joachim Salinger, que desempenha o papel de Pierre em "Rois et Reine" (marido e pai depois de morto), é irmão de Emmanuel Salinger, que fazia parte do núcleo inicial de actores próximos de Desplechin, tendo assumido o papel principal em "La Sentinelle" e feito parte do elenco de "Comment Je Me Suis Disputé...". Os espectadores portugueses viram recentemente Emmanuel Salinger em "Triple Agent" de Rohmer (ele era o jovem comunista vizinho do "triplo agente" Fiodor). - Noémie Lvovsky, que desempenha o papel da irmã de Mathieu Amalric (a que acaba por ser responsável pelo seu internamento) foi colega de curso de cinema de Arnaud Desplechin, tendo sido argumentista dos dois primeiros filmes deste: "La Vie des Morts" e "La Sentinelle". Tem conduzido uma carreira paralela como actriz e realizadora. - Magali Woch, a Arielle ("chinesinha") de "Rois et Reine", protagonizou dois filmes de Noémie Lvovsky: "Petites" e "La Vie Ne Me Fait Pas Peur" (o primeiro para TV). Ambos notáveis, diga-se de passagem. Este papel no filme de Desplechin pode representar uma transição coroada de sucesso de curiosidade adolescente para jovem esperança do cinema francês, e, aliás, valeu-lhe uma nomeação para o César de melhor revelação. - Por fim, Maurice Garrel é o pai de Emmanuelle Devos no filme, e o pai do realizador Philippe Garrel na vida real. (Deste último, aguardo ansiosamente "Les Amants Réguliers", que tem sido coberto de elogios por onde passa.)
«Pourtant il faut insister sur la démarche initiale et fondamentale: la République, en fin de compte, repose sur le refus conscient de toute forme de transcendance. En tant que régime politique, sans doute; mais elle n'est pas seulement un régime, puisqu'elle construit et détermine elle-même l'individu comme la société. Ce refus de la transcendance sera donc aussi large et aussi complet que possible, et débordera la politique au sens étroit do mot. (...) Il ne s'agit pas, bien entendu, de prendre parti autoritairement sur les problèmes religieux, sur l'existence ou la nature de Dieu: des républicains ont le droit de croire ou de ne pas croire. Il s'agit de définir une démarche mentale et politique qui rende inutiles ou inadéquates les questions de ce genre, de trouver un terrain nouveau sur lequel elles n'ont pas de compétence.» (Claude Nicolet, "L'idée républicaine en France (1789-1924)".)
MENSAGEM: O que pode justificar a transmissão televisiva da tradicional mensagem natalícia do cardeal-patriarca de Lisboa? Ou bem que a mensagem se destina aos católicos; e, nesse caso, por mais louvável e compreensível que seja José Policarpo dirigir-se às consciências dos membros do seu rebanho, compreende-se mal o que pode levar uma estação de televisão pública a dar o seu beneplácito hertziano a uma comunicação pastoral exclusivamente dedicada a uma comunidade religiosa. Ou bem que a mensagem se destina aos portugueses em geral; e, nesse caso, existe legitimidade para perguntar ao senhor cardeal que tipo de mandato ou autoridade possui para dirigir exortações ao povo de um país soberano, que possui os seus magistrados eleitos democraticamente. A situação seria menos abusiva se o senhor cardeal se confinasse à esfera espiritual; mas só os cândidos podem esperar de um alto membro do clero católico, se lhe for dada a oportunidade, que este enjeite a ocasião de plantar foice em seara alheia, e de dar largas a essa antiga propensão para traçar as fronteiras da conveniência e da integridade moral de todos aqueles que julga abarcados pela sua alçada.

terça-feira, dezembro 27, 2005

ROIS ET REINE (4): Há uma entrada relativa à expressão "fou à lier" (que consta do poema de Michel Leiris de onde deriva o título do filme) no "Dictionnaire des Expressions et Locutions", de Alain Rey e Sophie Chantreau, da colecção "Les Usuels du Robert" (um dos mais úteis e preciosos livros que adquiri durante a minha estadia em terras parisienses). Segue um extracto: «Dans l'usage courant, la valeur coercitive de l'expression n'est plus sentie avec son intensité première: elle a été en grande partie démotivée, à lier ne conservant que la notion superlative de "complètement, totalement". En effet l'idée de violence attachée à fou s'est effacée devant celle d'extravagance (cf. les locutions voisines, courantes au XVIIIe s.: fou à courir dans les rues ou les champs).»

segunda-feira, dezembro 26, 2005

ROIS ET REINE(3): Escreve Jorge Mourinha, no "Público", a propósito do último filme de Arnaud Desplechin: «(...)é nesse metódica acumulação de pormenores ao longo de uma narrativa toda construída em tangentes, bem como nas irrepreensíveis interpretações, que o filme justifica o interesse, sem nunca conseguir erguer-se acima de um certo cinema francês palavroso, literário, teatral, incapaz de conquistar do espectador envolvimento emocional.» Não espero que todos alinhem no mesmo entusiástico diapasão com que me tenho vindo a referir a "Rois et Reine", para mim um dos filmes maiores do ano que agora acaba. Mas julgava-me no direito de contar com um pouco mais de penetração crítica da parte de alguém que escreve para um jornal com uma curta, mas sólida, tradição de tratamento da coisa cinematográfica. Com efeito, afirmar deste filme que ele é incapaz de se erguer "acima de um certo cinema francês" é incompatível com a tensão, que a ele preside, entre ruptura formal com tendências contemporâneas e um desejo de continuidade e manifesto respeito por antecessores. É esta coexistência entre o pendor classicista e um apetite pela invenção que é responsável por uma larga parte do fascínio que emana de "Rois et Reine". É, pois, decepcionante que um filme que tão exuberantemente exibe a sua vontade (conseguida) de fazer diferente acabe remetido ao tristonho estatuto de "mais do mesmo". É caso também para perguntar a que "certo cinema francês" se refere Jorge Mourinha. "Palavroso"? Nem todos os cineastas franceses são Rohmer. A suposta preponderância do diálogo no cinema francês parece-me ser da ordem do mito ou do lugar-comum. "Literário"? Em nenhuma outra cinematografia se tem sentido com tanta intensidade a urgência da busca de uma linguagem própria para o cinema, independente de modelos literários ou outros. Não é preciso procurar muito longe para se encontrar um cinema onde as preocupações com a caução literária se sentem com muito maior premência - basta cruzar o canal da Mancha. "Teatral"? Desde a Nouvelle Vague que o cinema francês é predominantemente anti-teatral, com predominância de um naturalismo radical pouco devedor das artes cénicas. Quando o teatro é abordado (por exemplo pelo próprio Desplechin na sua anterior longa-metragem, "Léo, en Jouant Dans la Compagnie des Hommes", infelizmente inédito entre nós), é-o quase sempre de forma explícita e crítica. Quanto à incapacidade de "conquistar do espectador envolvimento emocional", candidato-me a contra-exemplo vivo disto mesmo. Mas fico-me por aqui. Ça me regarde. E, em todo o caso, já saímos do domínio dos argumentos críticos.

domingo, dezembro 25, 2005

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: No comboio Alfa Pendular, uma senhora de idade, viajando a meu lado, lia um livrinho de orações ao Doutor Sousa Martins. Jamais me senti a tal ponto irmanado com um companheiro de viagem desconhecido. Não ousava admitir que pessoas que liam orações ao Divino Doutor em público existissem fora das minhas fantasias mais desvairadas. E, porém, aquela senhora estava ali. A meu lado. Reflectia luz e emitia som. Até falou comigo. Não repliquei. Pretenderia converter-me? Inútil. Não existe discípulo mais fervoroso do ilustre médico de Alhandra do que este vosso criado.
SEGUNDA REPÚBLICA: Tal como o autor deste post no blog Ponte Europa, também sou da opinião de que devemos designar o regime em que vivemos actualmente por "Segunda República", e não "Terceira República". Não basta que seja eleito um Presidente de tantos e tantos anos, não basta que a palavra "República" apareça em moedas e papel de carta dirigido a potências estrangeiras para que um regime possa ser considerado republicano. O corporativismo, o conúbio com a Igreja e os atropelos constantes às liberdades democráticas que caracterizaram o Estado Novo são incompatíveis com a noção de "República". Os regimes genuinamente republicanos que brotaram, desde as Revoluções Americana e Francesa, mas essencialmente a partir do século XX, caracterizaram-se por ser fortemente teorizados, lançados em bases doutrinárias sólidas. Muitas das mais brilhantes mentes políticas dos últimos dois ou três séculos estiveram implicadas na sua formulação. Essa foi uma condição necessária à sua sobrevivência num ambiente hostil, sob a permanente ameaça de correntes legitimistas e ultramontanistas que esmagariam sem piedade uma República deficientemente consolidada. Não façamos a todos aqueles que participaram dessa continuada aventura intelectual a desfeita de tomar a nuvem por Juno, chamando "República" a um regime que não passou de uma sórdida caricatura disso mesmo.
UM, DOIS, ESQUERDO, DIREITO: Ribeiro e Castro, esse eminente benfiquista, afirmou recentemente ser o terrorismo essencialmente (ou exclusivamente) uma tara cuja origem está na esquerda. Tal asserção é tão válida ou absurda como defender que toda a xenofobia é de direita. Igualmente absurdo, mas também ocioso, mas também perfeitamente dentro da mesma lógica de irresponsabilidade demagógica, seria cotejar o número de vítimas do terrorismo com o número de vítimas da xenofobia e anti-semitismo. Nestas coisas da retórica, nem sempre o contexto é devidamente tido em conta, e, no presente caso, o contexto era um encontro da Juventude Popular. Entende-se, assim, o excesso de zelo de Ribeiro e Castro. Quando se trata de incutir em mentes frescas e jovens a solene urgência do combate político, não convém ser nem demasiado moderado nem demasido subtil. Nesse mesmo encontro, João Almeida afirmou querer conquistar a geração «que vê o 'Morangos com Açúcar' [série televisiva], que saca mais músicas da Internet do que os CD que compra, do messenger e do HI5», tarefa que se me afigura espinhosa se ele não adoptar um penteado semelhante ao do Tó Pê dos D'ZRT.
IMPERDÍVEL: Os Blogues Imaginários n'"A Invenção de Morel" e a série São Sebastião Revisitado no "Welcome to Elsinore".
SEASON'S GREETINGS: Desejo um Bom Natal a todos aqueles que continuam a visitar este espaço, ignorando decerto a existência de carradas de outros blogs muito mais interessantes, e nos quais é bem menos insensato perder o seu tempo (o tempo que Santo Agostinho não sabia o que era, quando lho perguntavam).

quinta-feira, dezembro 22, 2005

AH, SILOGISTA!: Tento falar o menos possível de futebol, mas desta vez não resisti. O virtuoso presidente da agremiação portista, de sua graça Jorge Nuno, protagonizou recentemente um episódio em que a sua celebrada lábia se voltou contra ele, com uma elegância lógica tão impressionante que levanta suspeitas de premeditação. 1) (A propósito das declarações de Luiz Felipe Scolari acerca das razões que o terão levado a nunca convocar Vítor Baía e João Pinto.) «Não vou responder às últimas polémicas, porque, por princípio, não respondo a cobardes. Considero cobarde todo aquele que lança suspeitas, diz coisas e depois diz que não disse.» 2) (A respeito da arbitragem no jogo Benfica-Nacional.) «Não sei se isso pode ser considerado uma fraude ou se alguém tem necessidade de ir ao oftalmologista. Não sei... Estou só a referir o que toda a gente viu.» (Tudo isto no mesmo artigo de jornal.) 3) A conclusão, parece-me, decorre de 1) e 2) com uma naturalidade que dispensa conhecimentos aprofundados sobre lógica silogística.
MEMÓRIA DILETANTE E NÃO DE ELEFANTE: Existe um livro (Miguel Delibes, "Os Santos Inocentes", Teorema, 1991), que li há uma porção de anos, e de que só me recordo de um pormenor: uma das personagens costumava urinar nas mãos para as aquecer. Já ouvi falar em memória selectiva, mas isto é ridículo.
«Mais, par rapport aux autres pays du même type, l'Angleterre, l'Amérique et l'Allemagne essentiellement, l'idéologie républicaine, on l'a vu, apporte quelque chose de plus: le sentiment affirmé d'être une forme d'organisation politique qui non seulement favorise la science, mais, en grande partie, dépend d'elle. Elle en dépend pour achever d'abord de se libérer des dernières prétentions du dogmatisme religieux à régler la vie civile et intelectuelle des citoyens.» (in "L'Idée Républicaine en France (1789-1924)", de Claude Nicolet, Gallimard)

quarta-feira, dezembro 21, 2005

SURPRESAS POSTAIS: Nas séries e nos filmes, sempre que uma personagem, ao vasculhar distraidamente o correio recém-chegado, diz que "devem ser só contas para pagar", é certo e sabido que vai topar com uma carta ou postal inesperado, capaz de mudar a sua vida (ou, em todo o caso, de fornecer matéria para mais uma vintena de episódios).
DE ACORDO: Eu até estou de acordo com muitas das coisas que se dizem por aí.

sexta-feira, dezembro 16, 2005

ROIS ET REINE (2): O título do filme foi, segundo as palavras do próprio Desplechin, inspirado nos seguintes versos de Michel Leiris: Rois sans arroi, Reine sans arène, Tour trouée, Fou à lier, Cavalier seul. Trata-se, obviamente, de uma sequência de imagens xadrezísticas. As menções a "rois" e "reine" explicam-se a si próprias (se bem que, em francês como em português, "rainha" seja um termo familiar e informal para designar a "dama", esta sim a designação correcta da peça). "Cavalier" é o termo francês com que se designa a peça "cavalo"; "Cavalier seul" (título do último livro do pai de Emmanuelle Devos, interpretado com uma sublime e austera contenção por Maurice Garrel) é uma locução que se aplica àqueles que escolhem uma atitude de contestação, ou que enveredam por caminhos ou opiniões pouco batidas. A "tour" é a "torre". Resta-nos o "fou", que mais não é do que o nosso "bispo". Na jacobina França, esta peça perde as suas conotações clericais, e assume os atavios de um "louco", ou talvez, mais exactamente, de um bobo da corte. A deliciosa expressão "fou à lier" equivale ao nosso "doido varrido". Traduzida a letra, sugere que o indivíduo em questão, de tão louco, precisa de ser amarrado. No filme de Rohmer "Conte d'Hiver" existe um memorável diálogo onde intervém esta expressão: FÉLICIE: J'ai été conne, conne. Conne à lier. MAXENCE: «Folle à lier». On ne dit pas «conne à lier». On dit «Folle à lier». FÉLICIE: Tu vois, je ne sais même pas parler français.

quarta-feira, dezembro 14, 2005

NÃO É ESSE AMARANTE: Certas fontes dignas de crédito garantem-me que, para minha desilusão, o novo CD da cantora Enya intitulado "Amarantine" não é uma homenagem a Agustina Bessa-Luís.
ROIS ET REINE: Depois de "Pas de Repos pour les Braves", eis que estreou entre nós "Rois et Reine", de Arnaud Desplechin, mais um argumento para o arsenal daqueles, entre os quais me conto, que defendem ser o cinema francês o mais interessante da actualidade. Existe um aspecto curioso nas reacções da crítica (mais ou menos especializada) a este filme. Poucas foram, de entre aquelas que li, as que omitiram essa coexistência entre registos antagónicos: o burlesco (de que o desventurado Mathieu Amalric assume a parte leonina) e o extremamente trágico. Poucos são, no entanto, aqueles que aprofundam esta (inegável) natureza híbrida. Será que, só por si, fazer caber tanto o cómico como o pungente na mesma longa-metragem é façanha digna de encómio? Parece-me que não. O valor de um cineasta não se mede em função de acrobacias a que se entregue, nem meramente em função da amplitude da paleta de emoções que emprega. Desplechin está longe de ser um vão malabarista de imagens e argumentos. E o registo heterogéneo e inconstante que adopta em "Rois et Reine" é perfeitamente coerente com a sua riquíssima obra passada, que lhe grangeou a aura de seguidor de um cineasta popular-inteligente como Truffaut, ou de um subtil agente subversor de géneros, como Resnais. Para Desplechin, categorias e géneros não são espartilhos nem cadernos de encargos, mas sim plataformas de apoio, dotadas de memória cinéfila que urge respeitar sem subserviência. Defendo que a componente mais fascinante do cinema de Desplechin passa precisamente por uma ancoragem num cinema clássico, devedor da narrativa e da definição de personagens com espessura psicológica, uma ancoragem flexível quanto baste para permitir vastas latitudes de exploração celebratória das possibilidades do cinema. Sem vanguardismo explícito, Desplechin distingue-se da quase totalidade dos seus pares pela vontade (e talento) de tratar cada cena como um problema de cinema, equacionável e solúvel por meio de imagens em movimento, parte de um todo mas também dotada de uma energia própria. "Rois et Reine" é um filme deslumbrante acima de tudo devido à reverberação de inventividade cinematográfica que acompanha o desenrolar da lógica do enredo, como se todo ele estivesse banhado numa vontade de expressão, transbordante mas disciplinada. Algumas das cenas mais belas são-no muito graças a esse "algo-mais" formal, que se assume quase como um segundo filme, ou como um making of em tempo real, comentário permanente aos próprios desafios que cada cena, cada nodo do enredo, foram colocando. Nesses momentos (estou a pensar na dança de Mathieu Amalric perante os outros internados, no sonho em que Emmanuelle Devos reencontra o seu falecido primeiro marido, ou na extraordinária sequência final no Museu do Homem), é a própria presença do cinema que (dir-se-ia) irradia, de onde não se esperaria que houvesse mais do que corpos, rostos e cenários, isentos de luz própria.

terça-feira, dezembro 13, 2005

DOIS DO MELHORIO: Ainda não tinha falado neles, até porque duvido que a minha modesta acção possa fazer algo de muito significativo pela sua merecida divulgação. Mas eles aí estão. Coincidiram temporalmente com o fim do BdE, o que prova que o fim de uma boa coisa pode dar origem a duas boas coisas, por mais que isto pareça violar um qualquer princípio físico de conservação da excelência. São dois blogs, um com nome de livro, o outro com nome de medicamento seguido de consoante oclusiva labial. Merecem ser lidos todos os dias, e não apenas dia sim dia não.
ASSUNTOS: Há muitos assuntos de que normalmente não se fala, o que é uma pena, porque são assuntos que merecem ser discutidos. E agora, uma fotografia de um gato no lavatório!

(Via "The Daily Dirt Chess Blog", de Mig Greengard.)

A SITUAÇÃO: A Situação é grave, e penso que estaria na altura de tomar medidas para a resolver.

terça-feira, dezembro 06, 2005

FOI HÁ 100 ANOS: Para além do sorteio do Mundial de futebol, e de uma outra efeméride, o próximo dia 9 ficará marcado pela comemoração do centenário da lei que, em França, instaurou a separação entre Igreja e Estado. Esta data, que, já de si, mereceria ser celebrada como marco na história da liberdade e emancipação política dos estados, ganha renovada ressonância (pelo menos aqui em Portugal)graças à recente "gue-guerra" dos crucifixos: refiro-me, obviamente, à decisão (em perfeita harmonia com a Constituição) de retirar os crucifixos das salas de aula deste país. A respeito desta medida, não têm faltado as previsíveis reacções dos previsíveis sectores, parafraseáveis do seguinte modo: «A laicidade é muito bonita, mas não havia necessidade de ir tão longe.» A maioria dessas reacções não deixou de glosar bafientos e desesperados chavões como o "fanatismo laicista" e o "ataque à religião". Como seria de esperar, João César das Neves (que nós aqui no 1bsk adoptámos como mascote) meteu a sua colherada, na sua última crónica do "DN". Por absoluta falta de tempo, escuso-me a comentar a prosa nevesiana com o detalhe que desejaria, limitando-me a deixar-vos com um demasiado breve florilégio. «As pequenas coisas revelam mais que as grandes. Os jornais estão a tentar criar uma zanga à volta da retirada dos crucifixos das escolas públicas. Os jornais? Ou certos fanáticos que sentem a maré a virar contra as suas convicções? A falta de liberdade religiosa tem gerado a perda da liberdade e até da vida. Plenamente de acordo. Nunca se deve esquecer que, dada a impossibilidade lógica de demonstrar a inexistência de Deus, o ateísmo é apenas a crença de que Deus não existe. Isto é subverter completamente a questão. Eu diria que cabe aos crentes o ónus da prova, na medida em que são eles que defendem certas coisas (parte integrante da doutrina) verdadeiramente inconcebíveis: ressurreição, concepção de uma virgem, transsubstanciação, milagres... O ateísmo não é uma crença. Só defende que o ateísmo é uma crença aquele que vê na fé um estado natural ao ser humano, e no cepticismo uma bizarria que requer justificação. Contudo, se eu acreditar que a lua é feita de queijo da serra, é a mim que cabe demonstrar tão ousada asserção, e não àquele que nela não acredita (com alguma razão, acrescente-se). A recusa da divindade é uma fé, tal como o negro está na pintura e a pausa faz parte da música. Esta analogia está trôpega à partida, mas eu diria que o ateísmo está para a fé, não como o negro para a pintura, mas como as paredes do museu (e a bilheteira, as escadarias, o bar, os telefones públicos...) para os quadros. Aliás, constitui uma seita das mais pequenas, que, por isso mesmo, costuma ser extremista e fanática. Em matéria de fanatismo, o mínimo que se pode dizer é que a Igreja Católica tem (e sempre teve) lições para dar. O Estado laico deve assumir uma posição neutra perante as religiões, tal como deve assumir uma posição neutra perante as candidaturas presidenciais. Outra analogia infeliz. O Estado não tem nada a ver com a religião: cabe-lhe apenas assegurar a liberdade de culto aos cidadãos. Em contrapartida, embora o Estado deva assegurar igual tratamento aos candidatos presidenciais, a Presidência da República não se trata de um assunto a ele alheio, por nítida maioria de razão! Deus está na escola, tal como a cultura está na escola, a política, a arte, o futebol e a amizade estão na escola. (E a sexualidade também, apetece-me dizer... JCN oferece argumentos a quem defende a educação sexual nas escolas. Mas não entremos por aí.) JCN mete demasiadas coisas no mesmo alforge. Sucede que a Igreja Católica possui uma longa história de interferência com os poderes públicos, e de reivindicação de um papel privilegiado na transmissão de valores e saberes. Foi a própria atitude da Igreja, ao longo dos séculos, que a transformou em natural alvo de desconfiança por parte dos promotores de uma escola livre, e que fez do crucifixo um símbolo que, neste contexto, é tudo menos inócuo. O que os poderes públicos devem garantir é a autonomia para cada escola fazer o que os seus professores, pais e alunos decidam. Livra! Podem imaginar o que resultaria de uma autonomia total, por parte das escolas e dos encarregados de educação, para decidir sobre conteúdos, modos de leccionamento, etc.? Seria uma porta aberta ao sectarismo e ao comunitarismo. É normal e desejável que matérias sensíveis para o funcionamento das escolas sejam decididas de forma centralizada, de forma a assegurar o cumprimento dos programas tal como estipulados. Sobretudo, não são activistas ou burocratas a centenas de quilómetros que têm o direito de definir a decoração das paredes, em vez dos alunos, famílias, professores e funcionários. Precisamente. São. E assim é que deve ser. Num país livre pode ser-se ateu ou religioso. Mas, em nome da liberdade, os laicistas arrogam-se o direito de obrigar as escolas a seguir os seus gostos e irritações pessoais. Ai ai, faltava ainda o lugar comum do azedume laicista. Mas JCN não nos desilude. Um pequeno grupo arma-se em juiz de todos os cultos, só porque não segue nenhum e os considera horríveis a todos. Como odeia a religião diz-se neutro perante ela. (Isto merecia acompanhamento musical.) Os crucifixos na sala de aula são apenas um pequeno detalhe. Mas um detalhe revelador de uma luta crucial da Humanidade, a luta em prol da liberdade. Ora não podia estar eu mais de acordo! O Ministério da Educação, em vez do esforço baldado para tirar Deus das escolas, devia antes procurar pôr algum bom senso nelas.» Cem anos depois, e ainda as mesmas falácias para aturar...
ROHMER MAS NÃO SÓ: Criei um blog chamado A Mulher do Aviador, onde tenho vindo a recolher (com exagerada lentidão...) os textos sobre cinema publicados no 1bsk ao longo dos seus já quase três anos de existência. A ideia é servir-me deste blog como estímulo para escrever mais amiúde sobre cinema. Nele não serão publicados textos originais, pelo menos numa primeira fase. Trata-se, pois, de uma ferramenta essencialmente pessoal, mas quem quiser passar por lá, e talvez deixar um comentário, será muito bem-vindo!

segunda-feira, dezembro 05, 2005

CAPACIDADE: Há poucas alegrias que ainda nos estão reservadas, nestes tempos bisonhos que atravessamos, e uma dessas alegrias é descobrir que uma garrafa contém meio litro de Coca-Cola Light, em vez de uns mesquinhos 33 centilitros.
MODO ACTIVO: Hoje, a impressora do meu local de trabalho mostrava no seu visor a mensagem "MODO ACTIVO INACTIVADO". Suponho que isso seja precisamente equivalente a "Modo Inactivo Activado". Mas quem sou eu, mero mortal analógico, para me alargar em conjecturas sobre aquilo que, em informática, é ou deixa de ser?
O TEMPO TRANSBORDA: Acabo de escutar parte de uma emissão na Antena 1, conduzida por José Nuno Martins. Quando penso em José Nuno Martins, recordo invariavelmente a resposta que ele deu, há já um ror de anos, a um inquérito efectuado por uma revista. A pergunta era "Qual era o filme da sua vida?". José Nuno Martins, fugindo às descoroçoantes mas previsíveis banalidades objecto da escolha dos demais entrevistados ("África Minha", "E Tudo o Vento Levou"...), mencionou... Jacques Rivette, "L'Amour Fou". Por isso, por este acto de coragem, José Nuno Martins passou a ter perante mim crédito infinito. Pode até suceder que ele venha a apresentar a "1ª Companhia" ao lado de um burro que fala. Para mim, isso nada pesará face ao facto de ter escolhido para filme da vida um filme como "L'Amour Fou", essa inquietante obra-prima em que os planos do teatro e da vida, talvez ainda mais do que em qualquer outra obra de Rivette, se dilaceram e potenciam mutuamente.

domingo, dezembro 04, 2005

ANÚNCIOS DE GATO PERDIDO INVENTADOS (14): Perdeu-se lindo gato, não hoje, nem ontem, mas há catorze anos, quando em tempos de exílio, dias insípidos de chuva sem trégua. Foi em Mannheim, cidade que faz parte do estado de Baden-Württemberg (superfície 35 750 quilómetros quadrados, capital Stuttgart). O gato era preto com focinho branco, o gato não era meu, mas apareceu na minha vida num dia que ficou também marcado por uma ferida, não uma ferida real, mas antes uma ferida metafórica. Paredes de chuva abatiam-se sobre as ruas de Mannheim, e o gato parecia conhecer os seus contornos movediços, e o seu corpo felpudo ocupava nesgas improváveis de quietude no seio dos excessos pluviométricos. Um dia perdi-o, a esse gato que era lindo e o único no mundo para mim. Esforçava-me para reter junto a mim fiapos do meu país deixado para trás, recitava expressões portuguesas em paragens de autocarro solitárias escolhidas para o efeito. Apreciava sobretudo aquelas que exibiam uma pátina absurda mas familiar. "Preso por arames", "Cair como sopa no mel", "Por dá cá aquela palha". Gato, a tua figura era mefistofélica, mas benigna porque esplendorosa e refractária à baça desolação que se confundia com o tempo. Passaram os anos, moro em Lisboa, ao Campo de Ourique, leio boa ficção portuguesa e tenho cuidado com a alimentação. Gato, pensei em escrever este anúncio que ninguém lerá, este anúncio-pedra-risco para assinalar uma desaparição com a qual fui cobarde em me conformar. Meu gato que eu prezo mais do que todos os anjos e demónios que a humanidade alguma vez foi capaz de convocar, sinto a tua falta.