CINEMA E OBSESSÃO: Não concebo a cinefilia sem uma componente obsessiva. Ao longo dos anos, têm sido em número considerável os filmes com os quais entabulo uma relação que pula alegremente para lá das fronteiras da paixão e da afinidade, para se instalar nos terrenos da obsessão.
De entre os mais recentes, poderia citar "Pulp Fiction", "Mulholland Drive" e "Éloge de l'Amour". Durante anos, a minha mais cintilante obsessão tinha por nome "Rumble Fish", filme de Coppola que chegou a ser o meu filme da vida. E tenho sustentado igualmente obsessões de mais minúscula magnitude, por vezes só por uma cena (o beijo em "Shakespeare Wallah", de James Ivory, alguém se lembra?), ou por um filme visto a preto-e-branco nos gloriosos tempos das noites cinéfilas frente ao minúsculo televisor do quarto (dois exemplos entre vários, "Palermo oder Wolfsbourg", de Schroeter, e "Jonas qui aura 25 ans en l'an 2000", de Alain Tanner).
Quando vivi em França, compreendi que Jacques Rivette era o realizador cujas obras mais facilmente suscitavam obsessões no meu espírito influenciável. A larga distância dos adversários.
Y' a pas photo.
Alguns dos seus filmes, como "Céline et Julie Vont en Bateau" e "La Bande des Quatre", extravasaram do domínio cinematográfico, a ponto de hoje os ver como parte integrante do meu processo de assimilação da cidade de Paris e da minha vida na altura.
Porém, nenhum filme de Rivette me obcecou como "Out One", que tive a felicidade de ver quer na versão curta (de 4 horas e meia...), "Spectre", quer na versão longa, "Noli Me Tangere", de 12 horas e meia repartidas por 4 cassetes VHS, acessíveis, por um golpe de felicidade, na mediateca Jean-Pierre Melville, situada nas proximidades do meu bairro.
"Out One Spectre" vai ser exibido na
Cinemateca, na próxima 2ª feira. Ao contrário do que sucedeu com "L'Amour Fou", tenciono estar presente.
O ócio é o mais eficaz caldo de cultura para as ambições desmedidas: tenho vindo a alimentar a ambição de criar um site dedicado apenas a este filme, e a todas as suas ramificações: a "Histoire des Treize" de Balzac, Lewis Carroll, os actores, o "Prometeu Agrilhoado", e Paris, Paris, sempre Paris...
Provavelmente, nunca o farei, mas a vontade é muita, e agudiza-se quando constato o pouco que existe na Internet sobre Rivette, e, em particular, sobre este filme.
Tentarei, em ocasiões próximas, espremer ao máximo o Google e outros motores de busca, e prometo partilhar algumas das minhas descobertas.