quinta-feira, maio 18, 2006
TECLA: Declarações de Brian Eno a propósito das sessões de gravação do álbum "Low", de David Bowie:
«He's very fast when he gets going, really a brilliant singer -I don't think people realise how finely he can tune his singing, in terms of picking a particular emotional pitch: it's really scientific, the way he does it. He'll say, 'I think that's slightly too theatrical there, it should be more withdrawn and introspective,' and he'll go in and sing it again, and you'll hear this point four of a degree shift which makes all the diference.»
E eu acho que isto se assemelha a uma ambição para a vida: mecânica e espontaneidade, emoção e disciplina fundidos numa só postura; contrários que coexistem sem colidir, para lá da antonímia.
Isto tem a ver com a tecla de Esther Kahn, a tal que, no fim do filme, ela descobre (para sua raiva e alívio) ser capaz de tocar a qualquer instante para suscitar em si mesma uma resposta emocional. (Não tenho o livro comigo, pelo que poupo o leitor à citação.)
quarta-feira, maio 17, 2006
terça-feira, maio 16, 2006
A LER: Uma interessante digressão psicanalítica pelos meandros da mente carrilhiana, por alguém que, para além da Ópera, nos brinda volta e meia com os seus Demais Interesses.
NO SEU MELHOR: Luís Delgado no seu melhor: uma visão apocalíptica de um Irão apostado em desenvolver armamento nuclear para subjugar o mundo não islâmico, e "erradicar do mapa alguns países democráticos, como Israel e os EUA". Os ocidentais condenados a submeter-se ao fanatismo dos ayatollahs de Teerão à força de bombas antónias. Numa mão o Corão, na outra o míssil com ogiva.
Luís Delgado parece alardear uma espontaneidade do disparate que, a meu ver, tem de ser enganadora. Parágrafos tão asininos não podem deixar de ser fruto de prolongado e meticuloso esforço. "Take pains; be perfect", diz Bottom em "A Midsummer-Night's Dream" (só me lembrei desta citação porque represento na peça, ah ah).
Acho graça àqueles que nos massacram os tímpanos com alusões alvoroçadas à jihad e ao califado, sem serem capazes de indicar um único exemplo de acção militar expansionista de um país muçulmano contra um país dito "ocidental" nas últimas décadas.
Não digo que o programa nuclear iraniano não seja um problema sério, mas há que encará-lo nas suas reais proporções.
O QUE HÁ NUM NOME?: Benoni é o nome da cidade sul-africana onde nasceu a famosa actriz Charlize Theron. É também o nome de uma conhecida (embora pouco praticada ao nível magistral) abertura de xadrez. Como se isso não bastasse, é ainda um dos nomes próprios do tristemente célebre marechal Pétain, e o título de uma obra do romancista norueguês Knut Hamsun.
(Ver aqui.)
FELIZ ACASO NA REDE: Durante uma partida de xadrez online no Yahoo!, eis que o meu adversário francófono, ao aperceber-se do meu pseudónimo internáutico (que faz alusão ao mestre renascentista Lorenzo Lotto), comenta: "Grand peintre".
Minutos depois, o amante de arte bate-me com serena facilidade. Mas creio que nunca na vida me senti tão bem depois de uma derrota em xadrez.
domingo, maio 14, 2006
PURPURINAS? QUE MÁXIMO! VOU JÁ CONTAR À XANA!: Ao fim de três representações do "Sonho", o palco do auditório da Biblioteca Municipal Orlando Ribeiro assemelha-se a um oceano de purpurinas, tombadas do rosto das fadas e dos espíritos da floresta.
Fico a saber que, na manhã seguinte, o mesmo auditório vai acolher a missa dominical (numa graciosa demonstração de compatibilidade entre poder autárquico e paróquia). Por momentos, imagino o rosto do sacerdote cintilante de purpurinas extraviadas, em plena homilia. Vozes clamando milagre. Um ressurgir de fé em toda a freguesia do Lumiar, quiçá em Portugal. Peregrinações. Fátima às moscas. Preços do comércio local incrementados por um factor de três. Mercearias reconvertidas em lojas de círios.
(Não falemos sequer da possibilidade de algum adereço pouco solene, como as orelhas de burro de Bottom, ter ficado esquecido num local inoportuno.)
IF WE SHADOWS HAVE OFFENDED: O grupo de teatro amador "Teatro à Parte" produz neste momento a peça de Shakespeare "Sonho de Uma Noite de Verão", com encenação de Jorge Parente. As representações têm lugar no auditório da Biblioteca Municipal Orlando Ribeiro, em Telheiras, Lisboa. Três delas já lá vão; as restantes ocorrerão no próximo fim-de-semana.
O autor destas linhas faz parte do elenco, mas apressa-se a esclarecer, para alívio geral, que o seu papel é demasiado pequeno para que as probabilidades de arruinar por completo a peça sejam significativas.
O autor destas linhas faz parte do elenco, mas apressa-se a esclarecer, para alívio geral, que o seu papel é demasiado pequeno para que as probabilidades de arruinar por completo a peça sejam significativas.
A COR DA SOMBRA: Na linha que este blog tem vindo a cultivar desde o início, de concisão elíptica proporcional à magnitude íntima dos acontecimentos que a vida (essa mesma) acha por bem resgatar à improbabilidade, marco o fim deste período de silêncio com mais um quadro de Barnett Newman!
(Barnett Newman, "Canto II", 1963)
sábado, abril 22, 2006
Cansado de forjar alusões oblíquas, tangentes e assimptóticas às razões por detrás da sua escassa produção, o escrivão contenta-se com recomendar que não contem demasiado com ele nas próximas semanas. E deixa um quadro de Correggio, para deleite visual dos leitores frustrados.
Correggio, "O Rapto de Ganimedes", c.1531-1532.
Melhores dias virão!
segunda-feira, abril 17, 2006
BECKETT: Acreditem, dedicados leitores, que só algo de sério e poderoso me poderia ter impedido de assinalar o centenário do nascimento de Samuel Beckett na data devida, 13 de Abril. Aqui fica, com quatro vergonhosos dias de atraso, a menção, à falta de mais, ou de melhor, ou pelo menos de mais esforçado. Durante alguns tempos, o lema deste blog passará a ser "No symbols where none intended", que é a última frase do romance "Watt".
HISTÓRIA ALTERNATIVA: Luís Delgado é um reconhecido perito em história alternativa, com a particularidade picante de confundir com a realidade as alternativas engendradas pela sua fértil mente. Desta vez, LD vem-nos dizer que «Já todos percebemos que quem "ganhou" as eleições italianas, na verdade, e para todos os efeitos mediáticos, foi Berlusconi». É particularmente de apreciar a generosidade com que LD nos abrange na sua clarividência: não só ele, mas todos nós, teremos percebido que quem "ganhou" foi Berlusconi. Deve ter a ver com as aspas.
Na realidade, a leitura de LD não é de todo ilegítima. Partindo do princípio que, ao seu modo, ele pretende transmitir a ideia de que a vitória de Prodi, escassíssima e apoiada numa coligação volátil, foi uma vitória de Pirro, não se pode dizer que se trate de uma visão totalmente descabida. Porém, daí a metamorfosear a derrota de Berlusconi numa vitória, com ou sem aspas, vai um passo que só os afoitos se atrevem a dar; e LD é-o (afoito). Aliás, duvido que algum membro do estado-maior da Forza Italia ou de outra das agremiações do aglomerado "Casa das Liberdades" hesitasse um segundo em trocar esta "vitória" de que fala LD por uma vitória sem aspas, traduzida singelamente por uma maioria de votos expressos.
Quer-me parecer que, em todo o mundo, só duas pessoas acreditam que as eleições de 9 e 10 de Abril tiveram como resultado uma vitória de Berlusconi: o próprio Berlusconi e Luís Delgado. O primeiro na realidade, o segundo em metáfora. Um pouco à maneira do conto de Kafka sobre as parábolas, neste caso nenhum deles tem razão. Nem na vida nem na metáfora.
quinta-feira, abril 13, 2006
COMO SE A PRESTÁVEL SARAH NÃO SOUBESSE...: ...que o supremo prazer consiste em açucarar os iogurtes naturais açucarados.
terça-feira, abril 11, 2006
ABBIAMO VINTO!:
- Durante anos, senti relutância em visitar a Itália, país que muito amo, e onde tive o privilégio de passar alguns meses da minha vida. E essa relutância devia-se a um único homem: Silvio Berlusconi, uma das mais repugnantes figuras da política europeia.
- Por um feliz acaso, Berlusconi perde as eleições legislativas algumas semanas antes de eu voltar a Itália, por motivos profissionais. Dificilmente eu poderia pedir uma situação mais saborosa.
- A meu ver, o repúdio que merece Berlusconi deveria transcender ideologias e clivagens esquerda-direita: é uma questão de mera decência rejeitar a sua herança de incompetência, prepotência, vulgaridade e arrogância, assim como a dos tristes figurões que o acompanharam nesta desventura.
- Berlusconi parece incapaz de reconhecer a derrota, e menciona o exemplo da Alemanha para sugerir uma grande coligação. Talvez, com efeito, a situação alemã seja um bom termo de comparação: se Berlusconi quer imitar Schröder, e, como ele, agarrar-se ao poder a todo o custo, e até aos limites da humilhação, que lhe faça bom proveito.
- Pelos vistos, a Itália está cheia de coglioni. Suficientes, embora à tangente, para dar maioria à coligação de Prodi no parlamento. Quanto ao Senado, acreditou-se durante muito tempo que nele ficariam em maioria os aplicados discípulos de "Sua Emittenza", mas eis que os votos dos italianos no estrangeiro fizeram pender a balança para o outro lado. Pelos vistos, os italianos que emigram são mais coglioni do que os ficam.
- Regozijo-me mais com a derrota de Berlusconi do que com a vitória de Prodi. Porém, acredito que Prodi, graças à sua experiência e prestígio, poderá reunir as melhores condições para congregar esforços e unir interesses diversos de modo a chefiar um governo durável e forte.
- E agora, deseja-se que não se faça esperar em demasia a estreia do último filme de Moretti!
ALFARROBA 1, MORANGOS 0: Num restaurante, durante a refeição, eu distraía-me com um episódio dos "Morangos com Açúcar" transmitido por um aparelho de televisão com o som no mínimo. A dada altura, aparecem três personagens que eu não conhecia. Três, de uma assentada. Calmamente sentados num esplanada. Como se nenhum problema do mundo os atormentasse. Como se fossem inocentes de violação de um espaço ficcional que eu julgava auto-suficiente.
A consternação durou até à surpreendente fatia de tarte de alfarroba.
É A TAXONOMIA, ESTÚPIDO!: Na parede do bar da Faculdade de Ciências, alguém colou um cromo do Bollycao, representando, alegadamente, um "Tubarão Branco". Mas eis que uma alma caridosa (membro, quiçá, do departamento de Biologia Animal), corrigiu a legenda para "Tubarão de Pontas Brancas do Recife".
E você, quantos cromos do Bollycao corrigiu hoje?
terça-feira, abril 04, 2006
PERCUSSÃO NA BARATA SALGUEIRO: No filme "Out 1", a música ritmada de que se serve o grupo de Lili para o aquecimento antes dos ensaios dos "Sete Contra Tebas" resulta da percussão de um zarb, um tipo de tambor persa também chamado tonbak. Li isto algures, e tentarei confirmar.
LIVROS DE AUTORES ITALIANOS DO SÉCULO XX VERTIDOS PARA LÍNGUA ESLAVA EM LUGARES PÚBLICOS: Na livraria Escolar Editora, único foco civilizacional do moribundo centro comercial Caleidoscópio (ao Campo Grande), existe uma surpreendentemente vasta colecção de livros em russo, incluindo um de Alberto Moravia!
ALIÁS: De resto, perante garotices tão nauseabundas como esta, a minha vontade de chapinhar na vasta e azul-topázio piscina da blogosfera não é desmesurada.
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