segunda-feira, maio 22, 2006
XADREZ: Adoro as Olimpíadas de xadrez! É a minha competição preferida. Neste torneio, cuja 37ª edição se está a realizar em Turim, as maiores estrelas do firmamento xadrezístico acotovelam-se com anónimos representantes de países como Honduras ou Etiópia, e o espírito de equipa, num desporto que é eminentemente individual, ganha relevo.
Há dois anos, a Ucrânia conquistou o primeiro lugar, rompendo a quase absoluta hegemonia que a Rússia (e, antes disso, a U.R.S.S.) vinha mantendo. Este ano, será difícil alguém opor-se ao poderio da equipa russa, que se apresenta na máxima força, e é favorita em toda a linha.
Também na máxima força (ou perto disso), apresenta-se a equipa masculina de Portugal, que começou de maneira pouco convincente (vitória tangencial sobre a fraca formação cipriota), mas que obteve hoje um retumbante êxito (3,5-0,5) contra o Azerbeijão, que, se bem que desfalcado da sua grande estrela (Teimur Radjabov), possui ainda um nível consideravelmente mais forte do que a equipa lusa.
(Sinto mais vontade de pôr uma bandeira à janela em homenagem a Luís Galego, Rui Dâmaso e companheiros, do que a Cristiano Ronaldo, Luís "Agarrem-me Senão Eu Vou-Me Embora" Figo e seus partenaires. Adiante.)
No que toca à equipa feminina de Portugal, após a esperada derrota (0-3) com a Rússia na primeira ronda, venceu hoje Malta pelo mesmo resultado: 3-0. A presença de uma equipa feminina portuguesa, só por si, é facto assinalável, face a ausências registadas em edições anteriores.
Continuarei a tentar acompanhar o percurso das selecções portuguesas neste espaço.
Esqueçam Évora! Esqueçam a Alemanha! Olhos postos em Turim!
(Informações estatísticas muito detalhadas sobre as Olimpíadas aqui.)
domingo, maio 21, 2006
quinta-feira, maio 18, 2006
REVOLTA: O reatamento das corridas de touros em Lisboa é uma ignomínia revoltante. Se, como eu, acredita que enterrar ferros na carne de um animal, para gáudio de uma audiência alarve, não é actividade tolerável nem numa capital europeia nem em qualquer outra parte do mundo, evite frequentar as lojas que se abrigaram à sombra do renovado (mas ainda hediondo) torturódromo do Campo Pequeno.
(O meu aplauso por este post no Aspirina B.)
TECLA: Declarações de Brian Eno a propósito das sessões de gravação do álbum "Low", de David Bowie:
«He's very fast when he gets going, really a brilliant singer -I don't think people realise how finely he can tune his singing, in terms of picking a particular emotional pitch: it's really scientific, the way he does it. He'll say, 'I think that's slightly too theatrical there, it should be more withdrawn and introspective,' and he'll go in and sing it again, and you'll hear this point four of a degree shift which makes all the diference.»
E eu acho que isto se assemelha a uma ambição para a vida: mecânica e espontaneidade, emoção e disciplina fundidos numa só postura; contrários que coexistem sem colidir, para lá da antonímia.
Isto tem a ver com a tecla de Esther Kahn, a tal que, no fim do filme, ela descobre (para sua raiva e alívio) ser capaz de tocar a qualquer instante para suscitar em si mesma uma resposta emocional. (Não tenho o livro comigo, pelo que poupo o leitor à citação.)
quarta-feira, maio 17, 2006
terça-feira, maio 16, 2006
A LER: Uma interessante digressão psicanalítica pelos meandros da mente carrilhiana, por alguém que, para além da Ópera, nos brinda volta e meia com os seus Demais Interesses.
NO SEU MELHOR: Luís Delgado no seu melhor: uma visão apocalíptica de um Irão apostado em desenvolver armamento nuclear para subjugar o mundo não islâmico, e "erradicar do mapa alguns países democráticos, como Israel e os EUA". Os ocidentais condenados a submeter-se ao fanatismo dos ayatollahs de Teerão à força de bombas antónias. Numa mão o Corão, na outra o míssil com ogiva.
Luís Delgado parece alardear uma espontaneidade do disparate que, a meu ver, tem de ser enganadora. Parágrafos tão asininos não podem deixar de ser fruto de prolongado e meticuloso esforço. "Take pains; be perfect", diz Bottom em "A Midsummer-Night's Dream" (só me lembrei desta citação porque represento na peça, ah ah).
Acho graça àqueles que nos massacram os tímpanos com alusões alvoroçadas à jihad e ao califado, sem serem capazes de indicar um único exemplo de acção militar expansionista de um país muçulmano contra um país dito "ocidental" nas últimas décadas.
Não digo que o programa nuclear iraniano não seja um problema sério, mas há que encará-lo nas suas reais proporções.
O QUE HÁ NUM NOME?: Benoni é o nome da cidade sul-africana onde nasceu a famosa actriz Charlize Theron. É também o nome de uma conhecida (embora pouco praticada ao nível magistral) abertura de xadrez. Como se isso não bastasse, é ainda um dos nomes próprios do tristemente célebre marechal Pétain, e o título de uma obra do romancista norueguês Knut Hamsun.
(Ver aqui.)
FELIZ ACASO NA REDE: Durante uma partida de xadrez online no Yahoo!, eis que o meu adversário francófono, ao aperceber-se do meu pseudónimo internáutico (que faz alusão ao mestre renascentista Lorenzo Lotto), comenta: "Grand peintre".
Minutos depois, o amante de arte bate-me com serena facilidade. Mas creio que nunca na vida me senti tão bem depois de uma derrota em xadrez.
domingo, maio 14, 2006
PURPURINAS? QUE MÁXIMO! VOU JÁ CONTAR À XANA!: Ao fim de três representações do "Sonho", o palco do auditório da Biblioteca Municipal Orlando Ribeiro assemelha-se a um oceano de purpurinas, tombadas do rosto das fadas e dos espíritos da floresta.
Fico a saber que, na manhã seguinte, o mesmo auditório vai acolher a missa dominical (numa graciosa demonstração de compatibilidade entre poder autárquico e paróquia). Por momentos, imagino o rosto do sacerdote cintilante de purpurinas extraviadas, em plena homilia. Vozes clamando milagre. Um ressurgir de fé em toda a freguesia do Lumiar, quiçá em Portugal. Peregrinações. Fátima às moscas. Preços do comércio local incrementados por um factor de três. Mercearias reconvertidas em lojas de círios.
(Não falemos sequer da possibilidade de algum adereço pouco solene, como as orelhas de burro de Bottom, ter ficado esquecido num local inoportuno.)
IF WE SHADOWS HAVE OFFENDED: O grupo de teatro amador "Teatro à Parte" produz neste momento a peça de Shakespeare "Sonho de Uma Noite de Verão", com encenação de Jorge Parente. As representações têm lugar no auditório da Biblioteca Municipal Orlando Ribeiro, em Telheiras, Lisboa. Três delas já lá vão; as restantes ocorrerão no próximo fim-de-semana.
O autor destas linhas faz parte do elenco, mas apressa-se a esclarecer, para alívio geral, que o seu papel é demasiado pequeno para que as probabilidades de arruinar por completo a peça sejam significativas.
O autor destas linhas faz parte do elenco, mas apressa-se a esclarecer, para alívio geral, que o seu papel é demasiado pequeno para que as probabilidades de arruinar por completo a peça sejam significativas.
A COR DA SOMBRA: Na linha que este blog tem vindo a cultivar desde o início, de concisão elíptica proporcional à magnitude íntima dos acontecimentos que a vida (essa mesma) acha por bem resgatar à improbabilidade, marco o fim deste período de silêncio com mais um quadro de Barnett Newman!
(Barnett Newman, "Canto II", 1963)
sábado, abril 22, 2006
Cansado de forjar alusões oblíquas, tangentes e assimptóticas às razões por detrás da sua escassa produção, o escrivão contenta-se com recomendar que não contem demasiado com ele nas próximas semanas. E deixa um quadro de Correggio, para deleite visual dos leitores frustrados.
Correggio, "O Rapto de Ganimedes", c.1531-1532.
Melhores dias virão!
segunda-feira, abril 17, 2006
BECKETT: Acreditem, dedicados leitores, que só algo de sério e poderoso me poderia ter impedido de assinalar o centenário do nascimento de Samuel Beckett na data devida, 13 de Abril. Aqui fica, com quatro vergonhosos dias de atraso, a menção, à falta de mais, ou de melhor, ou pelo menos de mais esforçado. Durante alguns tempos, o lema deste blog passará a ser "No symbols where none intended", que é a última frase do romance "Watt".
HISTÓRIA ALTERNATIVA: Luís Delgado é um reconhecido perito em história alternativa, com a particularidade picante de confundir com a realidade as alternativas engendradas pela sua fértil mente. Desta vez, LD vem-nos dizer que «Já todos percebemos que quem "ganhou" as eleições italianas, na verdade, e para todos os efeitos mediáticos, foi Berlusconi». É particularmente de apreciar a generosidade com que LD nos abrange na sua clarividência: não só ele, mas todos nós, teremos percebido que quem "ganhou" foi Berlusconi. Deve ter a ver com as aspas.
Na realidade, a leitura de LD não é de todo ilegítima. Partindo do princípio que, ao seu modo, ele pretende transmitir a ideia de que a vitória de Prodi, escassíssima e apoiada numa coligação volátil, foi uma vitória de Pirro, não se pode dizer que se trate de uma visão totalmente descabida. Porém, daí a metamorfosear a derrota de Berlusconi numa vitória, com ou sem aspas, vai um passo que só os afoitos se atrevem a dar; e LD é-o (afoito). Aliás, duvido que algum membro do estado-maior da Forza Italia ou de outra das agremiações do aglomerado "Casa das Liberdades" hesitasse um segundo em trocar esta "vitória" de que fala LD por uma vitória sem aspas, traduzida singelamente por uma maioria de votos expressos.
Quer-me parecer que, em todo o mundo, só duas pessoas acreditam que as eleições de 9 e 10 de Abril tiveram como resultado uma vitória de Berlusconi: o próprio Berlusconi e Luís Delgado. O primeiro na realidade, o segundo em metáfora. Um pouco à maneira do conto de Kafka sobre as parábolas, neste caso nenhum deles tem razão. Nem na vida nem na metáfora.
quinta-feira, abril 13, 2006
COMO SE A PRESTÁVEL SARAH NÃO SOUBESSE...: ...que o supremo prazer consiste em açucarar os iogurtes naturais açucarados.
terça-feira, abril 11, 2006
ABBIAMO VINTO!:
- Durante anos, senti relutância em visitar a Itália, país que muito amo, e onde tive o privilégio de passar alguns meses da minha vida. E essa relutância devia-se a um único homem: Silvio Berlusconi, uma das mais repugnantes figuras da política europeia.
- Por um feliz acaso, Berlusconi perde as eleições legislativas algumas semanas antes de eu voltar a Itália, por motivos profissionais. Dificilmente eu poderia pedir uma situação mais saborosa.
- A meu ver, o repúdio que merece Berlusconi deveria transcender ideologias e clivagens esquerda-direita: é uma questão de mera decência rejeitar a sua herança de incompetência, prepotência, vulgaridade e arrogância, assim como a dos tristes figurões que o acompanharam nesta desventura.
- Berlusconi parece incapaz de reconhecer a derrota, e menciona o exemplo da Alemanha para sugerir uma grande coligação. Talvez, com efeito, a situação alemã seja um bom termo de comparação: se Berlusconi quer imitar Schröder, e, como ele, agarrar-se ao poder a todo o custo, e até aos limites da humilhação, que lhe faça bom proveito.
- Pelos vistos, a Itália está cheia de coglioni. Suficientes, embora à tangente, para dar maioria à coligação de Prodi no parlamento. Quanto ao Senado, acreditou-se durante muito tempo que nele ficariam em maioria os aplicados discípulos de "Sua Emittenza", mas eis que os votos dos italianos no estrangeiro fizeram pender a balança para o outro lado. Pelos vistos, os italianos que emigram são mais coglioni do que os ficam.
- Regozijo-me mais com a derrota de Berlusconi do que com a vitória de Prodi. Porém, acredito que Prodi, graças à sua experiência e prestígio, poderá reunir as melhores condições para congregar esforços e unir interesses diversos de modo a chefiar um governo durável e forte.
- E agora, deseja-se que não se faça esperar em demasia a estreia do último filme de Moretti!
ALFARROBA 1, MORANGOS 0: Num restaurante, durante a refeição, eu distraía-me com um episódio dos "Morangos com Açúcar" transmitido por um aparelho de televisão com o som no mínimo. A dada altura, aparecem três personagens que eu não conhecia. Três, de uma assentada. Calmamente sentados num esplanada. Como se nenhum problema do mundo os atormentasse. Como se fossem inocentes de violação de um espaço ficcional que eu julgava auto-suficiente.
A consternação durou até à surpreendente fatia de tarte de alfarroba.
É A TAXONOMIA, ESTÚPIDO!: Na parede do bar da Faculdade de Ciências, alguém colou um cromo do Bollycao, representando, alegadamente, um "Tubarão Branco". Mas eis que uma alma caridosa (membro, quiçá, do departamento de Biologia Animal), corrigiu a legenda para "Tubarão de Pontas Brancas do Recife".
E você, quantos cromos do Bollycao corrigiu hoje?
terça-feira, abril 04, 2006
PERCUSSÃO NA BARATA SALGUEIRO: No filme "Out 1", a música ritmada de que se serve o grupo de Lili para o aquecimento antes dos ensaios dos "Sete Contra Tebas" resulta da percussão de um zarb, um tipo de tambor persa também chamado tonbak. Li isto algures, e tentarei confirmar.
LIVROS DE AUTORES ITALIANOS DO SÉCULO XX VERTIDOS PARA LÍNGUA ESLAVA EM LUGARES PÚBLICOS: Na livraria Escolar Editora, único foco civilizacional do moribundo centro comercial Caleidoscópio (ao Campo Grande), existe uma surpreendentemente vasta colecção de livros em russo, incluindo um de Alberto Moravia!
ALIÁS: De resto, perante garotices tão nauseabundas como esta, a minha vontade de chapinhar na vasta e azul-topázio piscina da blogosfera não é desmesurada.
quinta-feira, março 30, 2006
CINEMA E OBSESSÃO: Não concebo a cinefilia sem uma componente obsessiva. Ao longo dos anos, têm sido em número considerável os filmes com os quais entabulo uma relação que pula alegremente para lá das fronteiras da paixão e da afinidade, para se instalar nos terrenos da obsessão.
De entre os mais recentes, poderia citar "Pulp Fiction", "Mulholland Drive" e "Éloge de l'Amour". Durante anos, a minha mais cintilante obsessão tinha por nome "Rumble Fish", filme de Coppola que chegou a ser o meu filme da vida. E tenho sustentado igualmente obsessões de mais minúscula magnitude, por vezes só por uma cena (o beijo em "Shakespeare Wallah", de James Ivory, alguém se lembra?), ou por um filme visto a preto-e-branco nos gloriosos tempos das noites cinéfilas frente ao minúsculo televisor do quarto (dois exemplos entre vários, "Palermo oder Wolfsbourg", de Schroeter, e "Jonas qui aura 25 ans en l'an 2000", de Alain Tanner).
Quando vivi em França, compreendi que Jacques Rivette era o realizador cujas obras mais facilmente suscitavam obsessões no meu espírito influenciável. A larga distância dos adversários. Y' a pas photo.
Alguns dos seus filmes, como "Céline et Julie Vont en Bateau" e "La Bande des Quatre", extravasaram do domínio cinematográfico, a ponto de hoje os ver como parte integrante do meu processo de assimilação da cidade de Paris e da minha vida na altura.
Porém, nenhum filme de Rivette me obcecou como "Out One", que tive a felicidade de ver quer na versão curta (de 4 horas e meia...), "Spectre", quer na versão longa, "Noli Me Tangere", de 12 horas e meia repartidas por 4 cassetes VHS, acessíveis, por um golpe de felicidade, na mediateca Jean-Pierre Melville, situada nas proximidades do meu bairro.
"Out One Spectre" vai ser exibido na Cinemateca, na próxima 2ª feira. Ao contrário do que sucedeu com "L'Amour Fou", tenciono estar presente.
O ócio é o mais eficaz caldo de cultura para as ambições desmedidas: tenho vindo a alimentar a ambição de criar um site dedicado apenas a este filme, e a todas as suas ramificações: a "Histoire des Treize" de Balzac, Lewis Carroll, os actores, o "Prometeu Agrilhoado", e Paris, Paris, sempre Paris...
Provavelmente, nunca o farei, mas a vontade é muita, e agudiza-se quando constato o pouco que existe na Internet sobre Rivette, e, em particular, sobre este filme.
Tentarei, em ocasiões próximas, espremer ao máximo o Google e outros motores de busca, e prometo partilhar algumas das minhas descobertas.
ANÚNCIOS DE GATO PERDIDO INVENTADOS (15):
Perdeu-se lindo gato,
em boa verdade por razões que pouco devem ao mistério;
chama-se Cambremer (nome que os rústicos achavam pretensioso,
e os pretensiosos, rústico), tem espírito livre e alma de filósofo;
pinta branca solitária na nuca felpuda.
Fugiu do lar (dá para crer?) em protesto
contra a prevalência de gatos no imaginário icónico ocidental
no papel de encarnações mefistofélicas!
De que serviriam os meus apelos ao bom-senso?
Desapareceu, devorou-o um lusco-fusco húmido e
desde então dias ingratos sucedem-se a dias
vazios.
(Conservas de cavala picante são engodo eficaz.)
Julguei vê-lo há dias,
numa foto incompetente de jornal de bairro
numa cerimónia de inauguração de centro de dia.
Juraria que era ele, roçando a calça do presidente
da Junta!
Mas não acreditei em tamanha sorte,
porque a sorte nunca me ofereceu
alguma coisa que se visse.
E agora a minha vida é como um mau poema
em verso branco,
sem o meu inacreditavelmente belo e
teimoso gato.
quarta-feira, março 29, 2006
O PRÍNCIPE DE HOMBURGO: Ou de como até o preto e branco pode ser verde. Obrigado, Cristina!
(Gérard Philipe tomou parte numa famosa encenação do "Príncipe", no Festival de Avignon, em 1951, sob a direcção de Jean Vilar. Uma muito jovem Jeanne Moreau também fazia parte do elenco.)
LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS:
(1) Na linha verde do metropolitano, um cavalheiro folheava aquilo que me pareceu ser uma edição omnibus da "Recherche". Saiu em Telheiras. Proust em Telheiras... Porque não Walter Benjamin em Massamá?
(A propósito deste post: é certo que a estação de Telheiras fica bastante perto da do Campo Grande: não 300 metros, mas aí uns 700 ou 800. Porém, é de ter em conta que a presença obstrutiva da 2ª Circular, e da Avenida Padre Cruz transformam esses 700-800 metros numa missão quase impossível para o pedestre, o que pode ajudar a subtrair esta extensão da linha verde à categoria de aberração.)
(2) Também na linha verde, um jovem, envergando óculos escuros (pormenor irrelevante, mas que me pareceu adequado à situação) lia "Saturday", de Ian McEwan. Em versão original. De pé. 20 pontos de bónus.
segunda-feira, março 27, 2006
NA ROÇA COM EUSTACHE: Bem, na verdade não foi na roça, mas sim na Cinemateca Portuguesa (Av. Barata Salgueiro) que se exibiu hoje o emblemático "La Maman et la Putain", obra de referência da nouvelle vague tardia, da autoria de Jean Eustache.
Nunca o vi, e também não foi desta que o descobri, assim como amanhã, à mesma hora (19h30), não tenciono marcar encontro com "L'Amour Fou", um dos mais empolgantes Rivettes de sempre. O problema com este ciclo "Longuíssimas Metragens" tem precisamente a ver com o adjectivo e respectivo superlativo: quanto mais longa é a sessão, mais espinhoso se torna acomodá-la num emprego de tempo já de si saturado.
quinta-feira, março 23, 2006
O SOL TEM UM ENCONTRO COM A LUA: Perante a indiferença chocante das forças vivas bem pensantes deste país, Maria José Costa Félix, na sua página "Outra Porta" do suplemento "Xis" do "Público", continua a partilhar a sua sabedoria, e a recordar-nos verdades simples que, se fôssemos capazes de as escutar, talvez tornassem as nossas vidas um bocadinho melhores.
Na semana passada, por exemplo, ficámos a saber que todos temos um Sol e uma Lua interiores.
Esta afirmação ficará, quiçá, mais bem contextualizada, se nos recordarmos que, algumas semanas atrás, Maria José Costa Félix nos anunciara a realização de um workshop de xamanismo.
Quem de entre nós será capaz de dizer, sem desviar os olhos, que nunca se sentiu tentado a frequentar um workshop de xamanismo?
terça-feira, março 21, 2006
CESARIANA: A última crónica do Prof. João César das Neves parecia, pelo seu começo cordato, ser uma daquelas em que são evitados os temas fracturantes, e em que predomina uma visão plena de bom senso sobre a economia e temáticas anexas. Sucede-me, com embaraçante frequência, concordar parcialmente com o Prof. Neves, quando ele se remete aos assuntos que conhece bem e evita incursões trapalhonas nos terrenos da moral, da sociedade e da iniquidade dos tempos que vivemos.
Porém, qual diabrete ejectado de caixinha, eis que as reflexões do Prof. nos conduzem para um terreno da sua predilecção, a saber a interrupção voluntária da gravidez, questão sobre a qual ele possui opiniões que, como dizer?, não deixam demasiada margem para cambiantes de qualquer espécie.
Procedendo como geralmente procedem todos aqueles que sentem como inevitável a concretização dos seus mais sombrios pesadelos, o Prof. Neves navega alegremente numa espiral de exagero e enormidade linguística, e permite-se dislates de um calibre que mais não reflecte do que o seu desespero face a um mundo que deixou de obedecer aos ditames da única moral admissível: a sua.
«Aí [José Sócrates, em entrevista ao "Expresso"] afirmou: "A nossa agenda em matéria de alargamento de direitos vai começar pelo aborto." Aqui temos um homem, governante de um país moderno e civilizado, que pretende usar a melhor máquina jamais montada de criação de bem-estar, o Sistema Nacional de Saúde, para arrancar bebés do seio de suas mães.»
Há muito para admirar, nesta última frase (e no resto do artigo):
- o aborto reduzido a corolário huxleyano e distópico da busca desenfreada do prazer e da técnica da sociedade contemporânea, como se não se tratasse de um drama duradouro ao longo dos séculos;
- a mais que fantasista sugestão de que a interrupção voluntária da gravidez é algo que não existe, que ninguém no Continente e Ilhas pratica, e que o Governo pretende aplicar por decreto, tal como o cartão único de cidadão ou o fim das progressões nas carreiras;
- a ideia de que o Sistema Nacional de Saúde, esse ninho de sádicos e pervertidos, tem como um dos seus objectivos máximos "arrancar bebés do seio de suas mães";
- a suposição implícita de que o aborto, caso avance o projecto de legalização, passará a ser imposto a mães desprevenidas que, caso contrário, não hesitariam um segundo em levar a gravidez ao seu termo.
É descoroçoante constatar que, poucas linhas abaixo deste sonoro arrufo de originalidade, o Prof. Neves cai na banalidade desnecessária da comparação com Hitler. Meus senhores: estaria na hora, parece-me, de escolher espantalho menos datado.
Porque perco eu tempo com tamanhos desastres de argumentação? Chamaram-me a atenção estas palavras do Vasco: «As obsessões quase sempre revelam fraquezas, desejos, temores e, por arrastamento, falta de originalidade.» Talvez a explicação se resuma a isto: uma singela obsessão pessoal. Não ouso proclamar-me excepção.
UM FILME DA VIDA:
(Nota: uma versão mais curta deste texto foi publicada no "Semanário" do passado dia 17 de Março.)
Gosto muito da expressão “filme da vida”. Acho atraente a noção de um filme fazer parte da vida de alguém, de se transformar num pequeno novelo de afinidades e reminiscências que por vezes, e de súbito, adquire o estatuto de condição necessária para a felicidade.
Não sei dizer a quantos filmes poderei aplicar estas palavras, no meu caso pessoal. Menos de cem, diria. Certamente mais de uma dezena. De entre estes, sinto-me mais compelido a falar dos menos visíveis, dos menos assíduos em ecrãs pequenos ou grandes. Não se trata de perversidade. Trata-se de apego à diversidade cinéfila, de desejo de suscitar curiosidade.
“Un Étrange Voyage” é um filme realizado por Alain Cavalier em 1980. O percurso deste realizador tem também algo de estranho e raro: após um punhado de filmes num registo de thriller político, nos anos 60, entrou numa fase de maior depuração, a partir dos anos 70. A uma inesperada consagração pública com o celebrado “Thérèse” (1986) seguiu-se uma deriva cada vez mais radical na direcção de obras pessoalíssimas, no limite do solipsismo, entre o documentário e o diário íntimo.
Não aprecio a expressão “este filme conta a história de...”. Direi, pois, que “Un Étrange Voyage” se constrói em torno da viagem, em jeito de busca, de uma filha e de um pai (o admirável Jean Rochefort) cuja mãe terá sofrido um acidente durante um trajecto de comboio.
As razões que me levaram a aderir de forma tão intensa a este filme são diáfanas, impalpáveis. Há a luz, a maneira de filmar o pudor e a solidão, a contenção. E há essa noção de estarmos a meio caminho entre o cinema narrativo, em moldes clássicos, que era o de Cavalier no início da carreira, e esse vertiginoso ponto de fuga estético que já se vislumbrava então.
Sucede-me esquecer de um filme, que não revisito há muito, as imagens, o enredo, os sons, os momentos marcantes. Mas isso não é grave. Pedura a impressão que na altura me causou: o gosto no seu estado puro, quase desmaterializado; uma cumplicidade imperecível e só nossa.
segunda-feira, março 20, 2006
ACÇÃO DE GRAÇAS: O Legendas & Etcaetera também achou por bem mencionar o aniversário deste blog sobre Kleist, e pelo facto sejam-lhe dadas graças, e que o deus dos blogs lhe dê alento, e tudo aquilo que se encontre na entrada "alento" de um bom dicionário de sinónimos.
ZEN: Declaro solenemente, com a mão sobre a Constituição, os contos de Kafka e o livro de Pantagruel, que oferecerei um milhão de euros a quem encontrar um título de autobiografia mais brilhante do que este: "What's Welsh For Zen" (John Cale).
PLAYLIST MENTAL: Por nenhuma razão aparente, não consigo libertar-me do refrão de "Elle A les Yeux Revolver", canção honestamente pirosa de Marc Lavoine (1985).
Elle a les yeux revolver, elle a le regard qui tue
Elle a tiré la première, m'a touché, c'est foutu.
Ao frio, ao sol, à chuva, ao vento, ao granizo (deu para tudo, este fim-de-semana).
quinta-feira, março 16, 2006
MAS O PROBLEMA NÃO ESTÁ NA LITERATURA: Não devia angustiar-me, mas angustia-me a certeza de que, mesmo que todos os (colossais e medonhos) problemas da literatura fossem resolvidos, os verdadeiros problemas da vida não teriam sido sequer aflorados.
Quando resvalo para paráfrases pouco imaginativas de Wittgenstein, sei que é chegada a altura de ir dormir.
EXTENSÃO DO DOMÍNIO DO AGRADECIMENTO: Estendo os meus agradecimentos ao Alfinete d'Ama e ao Digitalis, por amáveis referências ao terceiro aniversário deste espaço.
Aproveito para referir que este blog é um blog sem tabus, eterna vítima do politicamente correcto, e que não recebe lições de moral de ninguém. (Contudo, se se tratar de lições de sapateado, a preço moderado, je suis preneur.)
Havia uns tabus no princípio, mas agora já não há.
EURICO, O SEMPRE FIEL: Ser igual a si mesmo é uma guapa virtude, e, neste capítulo, Eurico de Barros galga fasquias de fulgurância estética com que os meros mortais apenas podem sonhar.
Recentemente, o sr. Barros adjectivou de "feministóide" o filme "North Country", de Niki Caro. Não fosse a prolongada penúria de tempo livre, e este comentário bastaria para me propulsionar para a sala de cinema mais próxima que exibisse este filme.
Os tempos mudam, as vontades idem-aspas, mas certas coisas permanecem inalteráveis. A desaprovação chocarreira do sr. Barros continua a ser um dos mais fiáveis selos de qualidade.
segunda-feira, março 13, 2006
O QUE FAZ FALTA É LINKAR A MALTA: E eis que surgem do nada dois novos enlaces para a minha coluna de favoritos: o Cine-Australopitecus e o Um Amigo Pop. O primeiro é cinefilia em estado puro, e tem a suprema virtude de não confundir amor pelo cinema com vassalagem ao calendários das estreias, e submissão à voracidade dos assuntos e filmes que estão "a dar" (ou, mais exactamente, a vender). Quanto ao segundo, protagoniza um milagre ao alcance de poucos: ser heterodoxo sem procurar ser original a todo o custo. São blogs cuja leitura me dá muito prazer, e que recomendo vivamente.
LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Um cavalheiro lia o "Crátilo" de Platão na zona de restauração do centro comercial Acqua, na avenida de Roma.
Tão súbita foi a minha euforia perante este avistamento que pouco faltou para que eu derrubasse o meu tabuleiro, onde se equilibravam precariamente, entre outros, um bacalhau com natas muito satisfatório e um copo a sério, daqueles de vidro.
O que pensaria Platão se viesse a saber que, dois milénios e meio após o seu falecimento, uma obra sua guardaria no seu bojo o poder de provocar uma quase-catástrofe burlesca?
sexta-feira, março 10, 2006
JAM2: José Álvaro Morais ambicionava realizar uma adaptação de "A Corte do Norte", de Agustina Bessa-Luís. Essa ideia nunca avançou para lá da fase de projecto. Contudo, o filme existe no IMDB! Nada como o IMDB para realizar os sonhos frustrados dos cineastas por esse mundo fora.
(Apetece-me deixar um comentário extravagantemente elogioso sobre esse filme inexistente.)
quinta-feira, março 09, 2006
JAM1: No livro sobre José Álvaro Morais, editado pela Faro 2005 Capital Nacional da Cultura, a dada altura descreve-se como parte da atribuladíssima rodagem de "O Bobo" ocorreu nos estúdios da Tóbis, numa altura em que, no mesmo local, também se desenrolavam as rodagens de "Silvestre" e "Francisca".
Essa simultaneidade espacial e temporal na génese de três monumentos absolutos do cinema português é algo que, convenhamos, provoca titilações na medula.
«no som original está praticamente toda a história da produção do cinema português daqueles anos: estão os carpinteiros do Oliveira; estão os gritos do Paulo Branco durante o 'Silvestre'. O Vasco Pimentel teve de refazer toda a banda sonora depois.» (Entrevista a M.S. Fonseca, "Expresso", 1991.)
E eu sonho com essa versão de "O Bobo" contaminada por tão glorioso palimpsesto sonoro.
terça-feira, março 07, 2006
I WISH I KNEW HOW TO QUIT YOU:
Às vezes, é isto mesmo que me apetecia dizer ao meu blog: quem me dera deixar-te e ir viver a minha vida, de preferência numa paisagem montanhosa de parque natural, fotografada por um profissional de Hollywood.
Os meus leitores parecem-me mais fiéis ao blog do que o seu próprio autor, e continuam a perder tempo por aqui, em vez de irem ao teatro, à discoteca, ou à Worten comprar electrodomésticos com aquele cartão que permite pagar em 3 meses sem juros.
Talvez nutram a secreta esperança de encontrar dono para os gatinhos perdidos que vão recolhendo nas ruas da cidade.
Queria deixar um grande agradecimento e um abraço XXL àqueles de entre os fiéis que assinalaram o 3º aniversário do 1bsk: o Aba de Heisenberg, o Almocreve das Petas, o Dias Felizes, o Linha dos Nodos, o Memória Inventada, o Ópera e Demais Interesses, o Seta Despedida, o Welcome to Elsinore, e o Yesterday Man.
Se omiti alguém, as minhas desculpas (também XXL).
VOCÊ SABE QUE ALGUMA COISA VAI MAL QUANDO...: ...Eurico de Barros em pessoa lamenta a inexistência da «menor sombra de agitação contestatária à la Michael Moore» na cerimónia dos Óscares.
DEUS QUER, O HOMEM SONHA...: Já tardava o momento da primeira menção neste blog à escala Scoville, que mede o grau de pungência das malaguetas.
Desde os primórdios da história que o Homem se esforça por medir e quantificar todos os fenómenos que presencia, desde os mais óbvios até aos mais subtis e, na aparência, incomensuráveis. Parece-me, manifestamente, ser este o caso das malaguetas.
Assim se conclui que a escala de Scoville representa uma das realizações mais supremamente gloriosas do Génio Humano!
Na escala de Scoville, as malaguetas mais picantes, as "Habenero" e as "Scotch Bonnet", atingem um valor que pode chegar aos 300 000.
Para um palato europeu, porém, presumo que exista um fenómeno de compressão de escala para lá de um certo limiar: a capacidade para distinguir entre, digamos, 10 000 e 20 000, deve depender menos da acuidade gustativa do que da intensidade da dor sentida nas mucosas bucais e na língua.
(Estou disposto a assinar compromisso de honra em como este post e este enlace não são apenas débeis pretextos para empregar o vocábulo "pungência".)
CURSO DE CHURRASCO: Chegou à minha caixa de correio uma mensagem de uma certa Luciana Souza, cujo assunto era "Curso de churrasco", e que o obtuso filtro do Yahoo! classificou levianamente como "Spam". Um curso de churrasco era talvez aquilo de que eu necessitava para colorir a minha vida. Zeus é grande, este blog é pequenino, o Jardim Ponge definha por falta de cuidados do jardineiro que sou eu, e vai sair mais um livro do Walser muito em breve. E a primavera?
segunda-feira, março 06, 2006
NEM HOLLYWOOD NEM SUNDANCE: Nem Hollywood nem Sundance, esta poderia ser uma divisa de Paul Auster, que se prepara ("Público" de 25 de Fevereiro) para rodar, perto de Lisboa, a sua nova longa-metragem. Eis uma declaração de intenções com a qual não posso deixar de simpatizar. Hollywood não passa de uma máquina de sorver e distribuir dólares (nem sempre a contento de todos), que há muito deixou de ter seja o que for a ver com qualquer coisa aparentada à criatividade ou à integridade artística. Quanto ao festival independente de Sundance, quer-me parecer, por amostras que têm atravessado o meu caminho, e por opiniões alheias, que os filmes que por lá medram e recolhem graúda soma de galardões estão demasiado próximos da órbita hollywoodesca, das suas categorias e dos seus ditames, e acima de tudo dos seus espartilhos, para se afirmarem como reais alternativas.
O cinema verdadeiramente estimulante e original que nos chega dos EUA (Hartley, Lynch, Jarmusch, Van Sant...) encontra-se não apenas (e necessariamente) nos antípodas de toda a lógica mercantilista de Hollywood, mas também razoavelmente alheado dessa noção de cinema "independente" formatada e bem comportada que enche de júbilo todos aqueles que aplaudem, embevecidos, sempre que os Óscares premeiam filmes como "American Beauty" e "Brokeback Mountain", como quem diz, «Vêem? Afinal a Indústria também sabem premiar a ousadia e a inteligência. Aqui está a riqueza e a força do cinema americano.».
Houve um tempo em que eu seguia com entusiasmo as entregas dos Óscares, e houve um tempo em que as repudiava de forma quase, digamos, militante. Hoje em dia, a minha reacção é de indiferença total, e tão impenetrável como a convicção de que nada do que se passa naquele auditório, naquela noite, tem a ver com cinema.
(Resta-me desejar que, das excelentes intenções de Auster, admirador de Satyajit Ray, Ozu, Bresson e Bergman, nasça algo menos auto-indulgente e formalmente mais vigoroso do que aquilo que ele teve oportunidade de produzir até hoje, em matéria de sétima arte.)
sexta-feira, março 03, 2006
ANNIE AIME LES SUCETTES/LES SUCETTES À L'ANIS: E já que estamos numa de pegar em deixas do eminentemente parabemizável Memória Inventada, que com raro brio entra também no seu 4º ano, não resisto a evocar outro exemplo do apetite insaciável do público francês pelos arquivos televisivos, também este envolvendo Serge Gainsbourg. Uma das mais celebradas anedotas da história da canção francesa envolve France Gall, cantora da minha predilecção, e para quem Serge, com quem esteve romanticamente envolvida, compôs o tema de sucesso "Les Sucettes" ("Os Chupa-chupas", em tradução literal, se bem que pouco elegante). Consta que France, com toda a incorrupta candura de que era capaz uma jovem francesa dos anos 60, só muito mais tarde atingiu o segundo sentido brejeiro da canção, onde a dada altura se diz:
Lorsque le sucre d'orge
Parfumé à l'anis
Coule dans la gorge d'Annie,
Elle est au paradis.
Mais tarde, Michel Berger, cantor e compositor de nomeada (precocemente desaparecido) e ulterior parceiro romântico de France Gall, reprovou a Gainsbourg ter-se tão despudoradamente aproveitado da inocência da mocita; e fê-lo no decurso de uma dessas emissões de variedades condimentadas com (nem sempre amenas) cavaqueiras, tão ao gosto francês. E posso garantir que chega a ser embaraçoso assistir a uma tão leviana evocação titubeantemente plantada nos terrenos da ética, da biografia e do puro ajuste de contas.
(Quanto à interpretação que o próprio Gainsbourg faz de "Les Sucettes", o mínimo que se pode dizer é que pouco é deixado à imaginação do ouvinte. Todo o cabotinismo de que ele era capaz posto ao serviço da personificação de um velho porco e vagamente safado.)
ATRACTOR SUBURBANO: É verdade, Vasco, que Massamá funciona como incontornável atractor para as minhas incursões sociológicas fictícias. Quem me dera que as coisas se ficassem por aí. Mas sucede também que ambiciono escrever um bildungsroman cuja acção terá centro de gravidade num bar karaoke da Ramada, Odivelas. E isso, convenha-se, ameaça os limites do socialmente aceite.
quarta-feira, março 01, 2006
JÁ RESISTIMOS MAIS TEMPO DO QUE MUITOS GOVERNOS CONSTITUCIONAIS: Cumprem-se hoje 3 anos sobre o primeiro post do 1bsk. Nesses tempos, eu era jovem e inconsciente, os meus cabelos ondulavam ao vento, e ouvia Jethro Tull pela noite dentro. Hoje, quer-me parecer que um dos pouquíssimos denominadores comuns que subsistem entre a minha vida de então e a de agora é esta coisa verde e exasperante, que consumiu mais da minha atenção e tempo do que seria sensato, mas muito menos do que eu desejaria.
Por mais que a minha vida dê piruetas e mortais à retaguarda, espero que o futuro próximo me traga as migalhas de tempo e ânimo necessárias para, sob o alto patrocínio de Kleist, contnuar a defender as causas de sempre: Igualdade, Liberdade, Fraternidade, o pensamento crítico, o cinema sisudo e intelectualóide, bolos de arroz, a memória do Dr. Sousa Martins, o xadrez, e todos, todos, mas mesmo todos os gatinhos perdidos do mundo!
(Obrigado, leitores.)
sexta-feira, fevereiro 24, 2006
XADREZ: O mítico torneio de Linares, por vezes apodado de "Wimbledon do xadrez" por jornalistas sem imaginação, reparte-se, este ano, entre dois continentes: apenas a segunda metade decorrerá na vila espanhola que lhe deu o nome, ao passo que a primeira metade, que já se iniciou, está a ter lugar em Morelia, México.
(Na era da deslocalização, tais tropelias já não são de molde a surpreender. Porém, todos esperamos que estas derivas geográficas não saiam dos limites do razoável. Nos dias que correm, os torneios até que poderiam decorrer via Internet, sem que cada jogador fosse obrigado a abandonar a sua cidade de residência. Transformar os grandes-mestres em trotamundos, para benefício de patrocinadores e edilidades, pode ter o seu encanto, e agradar aos fãs, mas corre-se o risco de transformar um torneio de xadrez numa manifestação circense.)
Para já, o líder isolado é o húngaro Péter Lékó. O campeão do mundo Veselin Topalov está a realizar um torneio com mais baixos do que altos.
Infelizmente, o meu ídolo Vassily Ivanchuk acaba de averbar duas derrotas consecutivas. E isto apesar do cuidado que coloca em limpar escrupulosamente o tabuleiro e as peças...
...chegando ao ponto de falar com elas, baixinho, talvez para lhes dar coragem, ou para as reconfortar antes da dura batalha que se avizinha.
«Vá lá, querido peão, sê bonzinho... Sê ajuizado. Vai até à 8ª fila, promove-te, transforma-te em Dama para me fazeres ganhar este jogo tão importante...» (Fotos de Nadja Woisin.)
(Podem ver aqui esta extraordinária performance, em vídeo.)
...chegando ao ponto de falar com elas, baixinho, talvez para lhes dar coragem, ou para as reconfortar antes da dura batalha que se avizinha.
«Vá lá, querido peão, sê bonzinho... Sê ajuizado. Vai até à 8ª fila, promove-te, transforma-te em Dama para me fazeres ganhar este jogo tão importante...» (Fotos de Nadja Woisin.)
(Podem ver aqui esta extraordinária performance, em vídeo.)
TOP 25 DO CINEMA PORTUGUÊS (1): No "JL" dos passados dias 1 a 14 de Fevereiro, foi publicada uma lista dos melhores filmes portugueses dos últimos 25 anos, resultante da votação de um painel composto por 19 críticos.
Os resultados, a meu ver, forneceram uma proporção apreciável de surpresas. Mas vamos por partes. Antes de mais, para quem não teve acesso à lista, aqui ficam os 10 filmes mais votados:
1. Noite Escura (João Canijo)
2. Francisca (Manoel de Oliveira)
2. Recordações da Casa Amarela (João César Monteiro)
4. Os Mutantes (Teresa Villaverde)
4. Um Adeus Português (João Botelho)
4. Vale Abraão (Manoel de Oliveira)
7. A Comédia de Deus (João César Monteiro)
7. O Delfim (Fernando Lopes)
7. Ossos (Pedro Costa)
7. Vai e Vem (João César Monteiro).
Da lista dos 25 melhores (na realidade são 28, devido aos empates) constam ainda os seguintes realizadores: Marco Martins, António Pedro Vasconcelos, Mário Barroso, Paulo Rocha, Margarida Cardoso, José Miguel Ribeiro, Manuel Mozos, António Reis e Margarida Cordeiro, João Pedro Rodrigues, João Mário Grilo, José Fonseca e Costa e José Nascimento.
De entre as ausências mais notórias, permito-me salientar duas: Jorge Silva Melo e José Álvaro Morais. E se do primeiro ainda se pode dizer que tal se terá devido a uma obra relativamente esparsa, sem que nenhum filme se destaque marcadamente dos demais (mas nem "Ninguém Duas Vezes" nem "António, Um Rapaz de Lisboa" desmereceriam deste elenco), o caso de José Álvaro Morais assume, a meu ver, foros de escândalo. Como é possível que "O Bobo", esse filme imenso, não figure entre os maiores do cinema português, de todos os tempos? Isto sem menosprezo para com "Peixe Lua" e "Quaresma", bem entendido.
(A Rodagem de "O Bobo" teve o seu início em 1979, embora o lançamento tenha ocorrido apenas em 1987. Espero não ter sido este um critério de exclusão, numa lista confinada aos últimos 25 anos.)
(continua...)
PARA UMA ÉTICA E UMA ESTÉTICA DO GATO PERDIDO (2):
(entrevistas de rua)
«Gatos perdidos? Bem, eu tive um gato que era perdido antes de o ser. Mesmo dentro de casa, perdia-se com muita frequência. Era vê-lo, no corredor, de focinho alçado, com o ar mais compenetrado do mundo, incerto do caminho. Causava um certo dó vê-lo tão à míngua de olfacto, de instinto, e de outras coisas que os gatos costumam possuir em enorme abundância. E nem é que o apartamento fosse grande, não passava de um T2 nas Avenidas Novas. Bem, na realidade, estou a faltar à verdade. Não era um T2 nem era nas Avenidas Novas, era uma mansão colonial no Estado da Virgínia. E não era um gato, mas sim um porquinho da Índia. E nada disto se passou na realidade, trata-se de uma história curta da Carson McCullers, ou de um seu seguidor, dos mais talentosos. Carson parece nome de homem mas ela era uma mulher. Ah ah. Passe um bom dia.» (U.M., treinador de salto em altura, Vialonga.)
«O que é um gato perdido? É um gato que não consegue encontrar o caminho de volta. Mas o caminho de volta, essa entidade ectoplásmica que tanta gente supostamente douta teima em reificar, exige alguém que o percorra, que o individualize de entre a miríade de caminhos que se abrem ao livre arbítrio humano, neste caso felino. Sem sujeito, não há caminho. Daqui decorre que um gato apenas se pode considerar perdido quando deixa de o ser, quando desbrava o espaço virgem que o separa do lar e do pirezinho de leite, conquistando o direito ao seu estatuto e ao mimo dos donos, que, por sinal, nunca é em quantidade suficiente.» (A. S., estenodactilógrafa, Dafundo.)
«É interessante que me tenha colocado essa pergunta, pois encontro-me precisamente a redigir uma tese sobre a omissão de figuras felinas na história da arte ocidental. Ocupo-me sobretudo do período impressionista. Nem todos os amadores se dão conta da subtileza de que um Monet deu mostras ao evitar inserir gatos na sua série dos Nenúfares. Cada quadro traz consigo uma nova e original aproximação ao tema, uma nova forma de declinar o leitmotiv da ausência de corpo peludo e rechonchudo, vagamente entediado.» (R.C., funcionário dos serviços postais, Massamá.)
Claude Monet, "Nymphéas", 1916-1919.
quarta-feira, fevereiro 22, 2006
JARDIM PONGE(2):
É de bom tom desconfiar sempre que algo, seja poeta ou perfume de gelado, aparece definido pela negativa. Mas há casos que manifestamente a tal se prestam. Ponge é um deles. Ponge desconfiava da famosa afirmação de Rimbaud
«je travaille à me rendre voyant»
(de uma carta a Georges Izambard de 1871, datada dois dias antes de uma outra, a Paul Demeny, onde esta ideia é explorada com maior profundidade).
Ponge era um poeta da materialidade, um cultor da expressão enquanto labor, radical e programaticamente alheio a qualquer forma de vidência.
«Cela dit, il fallut attendre plusieurs siècles
(Pour que l'on rebaisse les yeux
Et regarde à nouveau par terre.)»
(escreveu ele no seu poema em movimento "La Figue").
E agora, como a intempérie deixou marcas neste pequeno jardim, vou muito ladinamente dedicar-me a apanhar alguns ramitos caídos.
quarta-feira, fevereiro 15, 2006
O VOS OMNES QUI TRANSITIS: Hoje li uma frase que, por razões difíceis de compreender, me prendeu a atenção. Vem no "Penguin Guide to Compact Discs". Reza assim: «Alessandro Stradella wrote church music which combined drama with remarkable serenity and expressive beauty.»
Quem dera a muitos escritores portugueses (pertencente a uma das famigeradas capelinhas ou melancolicamente fora delas) esta desempoeirada concisão formal e este poder expressivo sereno e discreto. Stradella (1644-1682) foi um compositor italiano, morto barbaramente em Génova a golpes de punhal, por um assassino contratado ou (segundo as fontes) por uma amante ciumenta.
A PROPÓSITO DE UM SUECO SISUDO: Há um site sobre Bergman que é uma descoberta recente, e que promete muito.
OS DEZ MELHORES FILMES DE 2005: O meu filme preferido do ano que há pouco findou foi "Saraband", de Ingmar Bergman.
Regra geral, alusões a uma hipotética "idade de ouro" do cinema provocam-me urticária.
Após assistir a "Saraband", porém, senti que tinha estado perante um objecto vindo de longe, de tempos distantes em que o cinema era ainda uma aventura intelectual constante, e em que a ousadia artística ganhava uma relevância vital na opinião pública.
Talvez esteja a romantizar uma época que não vivi. Se assim for, seja: os despojos que deles me chegaram parecem autorizar todos os devaneios sobre os anos em que Fellini, Buñuel, Antonioni, Bresson, o próprio Bergman, povoavam os ecrãs da Europa com estimulante regularidade.
"Saraband", para além desse filme assombroso que é, surge também como exaltante nota de continuidade numa carreira assombrada por uma questão que parece, por vezes, capaz de aglutinar todas as demais:
Como fazer coabitar, numa só vida, os tormentos existenciais e as emoções humanas?
Regra geral, alusões a uma hipotética "idade de ouro" do cinema provocam-me urticária.
Após assistir a "Saraband", porém, senti que tinha estado perante um objecto vindo de longe, de tempos distantes em que o cinema era ainda uma aventura intelectual constante, e em que a ousadia artística ganhava uma relevância vital na opinião pública.
Talvez esteja a romantizar uma época que não vivi. Se assim for, seja: os despojos que deles me chegaram parecem autorizar todos os devaneios sobre os anos em que Fellini, Buñuel, Antonioni, Bresson, o próprio Bergman, povoavam os ecrãs da Europa com estimulante regularidade.
"Saraband", para além desse filme assombroso que é, surge também como exaltante nota de continuidade numa carreira assombrada por uma questão que parece, por vezes, capaz de aglutinar todas as demais:
Como fazer coabitar, numa só vida, os tormentos existenciais e as emoções humanas?
domingo, fevereiro 12, 2006
BOICOTES E CONTRA-BOICOTES: O escritor egípcio Naguib Mahfouz, prémio Nobel da literatura, declarou apoiar o boicote aos produtos dinamarqueses, afirmando, entre outras coisas, que "o mundo só compreende a linguagem da força", e que "há que fazer a distinção entre liberdade de expressão e o desrespeito pelos símbolos religiosos".
Pelo que me toca, vou boicotar os livros de Naguib Mahfouz. Tenho dois romances seus na minha estante, e vou abster-me de os reler.
Não haverá por aí ninguém que me queira boicotar a mim?
sexta-feira, fevereiro 10, 2006
NOCTURNO: A meio da noite, confundi (não pela primeira vez) o distante rumor do tráfego na 2ª Circular com uma qualquer obra de música erudita contemporânea, proveniente do apartamento de um hipotético vizinho melómano e insone.
Todos temos um Arvo Pärt dentro de nós, ou, à falta disso, dentro do motor das nossas viaturas.
PROMESSAS: O 1bsk nunca foi parco em promessas. E porquê abandonar tão amável via?
Dentro em breve, conte o estimado leitor com a divulgação integral da ementa do jantar de homenagem oferecido pela classe médica ao Dr. Sousa Martins, em 1897, após a Conferência Sanitária de Veneza em que este participou.
Não sei se tal divulgação será oportuna, nem se o Dr. Marques Mendes a consideraria prioritária, em vista do periclitante estado da economia nacional. Mas há ocasiões na vida em que o bom senso cede perante o poder evocativo de uma Suprême de Volaille à la Maréchale.
quinta-feira, fevereiro 09, 2006
JARDIM PONGE (1): A delicada natureza de um jardim não se compadece com o desleixo que se tem instalado como modo de ser deste blog. A falta de chuva não vem senão agravar as coisas.
Por hoje, limito-me a semear algumas palavras que, espero, acabarão por germinar no tempo certo, e nunca antes nem depois, não sei se ao sabor do acaso ou da necessidade. (Abstenhamo-nos de meter foice em seara alheia; e, já agora, abstenhamo-nos igualmente do recurso a metáforas agrícolas.)
Paganismo.
Materialismo.
Objecto.
Paciência.
Resistência.
Linguagem.
Expressão.
Montpellier.
Natureza.
Lucrécio.
Busca.
quarta-feira, fevereiro 08, 2006
CHAMADA DE ATENÇÃO...: ...para mais um artigo a não perder, como aliás se vem tornando um hábito no Esquerda Republicana.
SALVAR AS APARÊNCIAS: Segundo Maurice Blanchot, Kafka estava interessado em saber em que momentos e com que frequência, numa conversa com oito pessoas, uma pessoa teria de falar para não ser considerada taciturna.
Eis o que me faz gostar ainda mais tanto de Kafka, pela legítima preocupação, como de Blanchot, por ter achado oportuno mencioná-la.
OS DEZ MELHORES FILMES DE 2005 (4 a 2):
nº 4: "Last Days", de Gus Van Sant.
Cinema, nada mais que cinema (e, crucialmente, nada menos do que cinema). Poucos, como Van Sant, sabem trazer ao de cima o que há de mais impenetrável, e simultaneamente mais luminoso, nas personagens que povoam os seus filmes. Escrevi sobre este filme aqui.
nº 3: "Rois et Reine", de Arnaud Desplechin.
A maior revelação do cinema francês dos últimos dez ou vinte anos. Para lá dos géneros, mas acenando ao melodrama, ao burlesco e à tradição do cinema naturalista francês, este ciclone de exuberância criativa é também um enorme filme de enormes actores. Emmanuelle Devos e Mathieu Amalric, claro está, mas também um assombroso Maurice Garrel.
Escrevi sobre este filme em várias ocasiões, a primeira das quais foi aqui.
nº 2: "Pas de Repos Pour les Braves", de Alain Guiraudie.
À preguiçosa pergunta "Ainda é possível a originalidade no cinema?", Guiraudie responde de forma gloriosa e maliciosa, num filme que faz da reinvenção perpétua das formas e dos modos o seu modo de ser. Também sobre este filme escrevinhei com alguma prolixidade, proporcional ao meu entusiasmo. O primeiro artigo foi este.
Falta o meu preferido de 2005. A revelar em breve. Mas não esperem surpresas.
terça-feira, fevereiro 07, 2006
DIZER SEM DIZER: Em declarações recentes, Marques Mendes afirmou que, perante a complicada situação económica do país, e o aumento do desmprego, era absurdo atribuir prioridade a assuntos como o casamento homossexual.
É em ocasiões como esta que Marques Mendes revela a sua falta de espinha dorsal e deplorável tibieza política.
Quem não quer parecer pusilânime, não alinha em argumentações pusilânimes. Pessoalmente, já deito pelos olhos a mais-que-saloia esperteza daqueles que, por não "parecer bem" estar frontalmente contra o casamento homossexual ou a descriminalização do aborto, se refugiam no transparente subterfúgio da falta de oportunidade ou ausência de cariz prioritário.
Meus senhores, assumam aquilo que pensam! Quem se obstina em ficar com a manteiga e o dinheiro da manteiga acaba, mais tarde ou mais cedo, por ficar sem nada, de mãos vazias, e com um sorriso idiota na fotografia.
(Acho repugnantes as tentativas de fazer espírito, ou de atingir alguém, por meio de alusões a defeitos ou insuficiências físicas. No caso de Marques Mendes, tais deslizes tornam-se tanto mais condenáveis quanto a adequação entre a reduzida estatura física e a pequenez política é forte a ponto de constituir tentação.)
LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: No Alfa Pendular, um jovem lia as memórias da Marquesa de La Tour du Pin.
Depois, tal como sucede, as mais das vezes, aos fenómenos improváveis, ele desapareceu subitamente.
sábado, fevereiro 04, 2006
sexta-feira, fevereiro 03, 2006
JARDIM PONGE: Na sequência de veementes apelos oriundos de variados sectores e numerosos blogs (em boa verdade, foi só este), é com indisfarçado prazer que inauguro o Jardim Ponge.
E o que vem a ser o Jardim Ponge?
Este projecto, que eu desejo a uma escala modesta, e nada megalómana, nasceu do meu fascínio pelo escritor francês Francis Ponge (1899-1988), esse cultor da língua que recusava o estatuto de poeta, e que protagonizou um dos percursos mais fascinantes das letras do século XX.
Sucede que, avisado juiz de mim mesmo, sei que as minhas veleidades de escrever sobre a personalidade X ou Y se desagregam, mais vezes do que não, por obra de uma inércia comodista directamente imputável à efemeridade da minha motivação.
Foi daí que surgiu a ideia de dar ao meu entusiasmo por Ponge a forma de um jardim, de forma a que a natureza perecível das espécies vegetais que nele serão cultivadas me incentivem a cuidá-lo com esmero e regularidade.
Haverá um canteiro para as notas biográficas, uma alameda para os comentários e citações e uma pequena estufa para os meus devaneios pessoais mais dispensáveis.
(Espero que esta inauguração não se assemelhe às que certos autarcas fazem em piscinas ou outros equipamentos ainda em obras, apenas com intuitos propagandísticos, meses ou anos antes da sua abertura ao público.)
Para começar, planto esta citação, retirada de uma entrevista a Philippe Sollers, e que reflecte uma das facetas mais fundamentais de Ponge: o amor pela língua francesa, e o vivo entusiasmo que revelava pela exploração desta:
«Mon père avait, dans sa bibliothèque, le Littré, qui a une si grande importance pour moi, où j’ai trouvé un autre monde, celui des vocables, des mots, mots français bien sûr, un monde aussi réel pour moi, aussi faisant partie du monde extérieur, du monde sensible, aussi physique pour moi que la nature, [...]. C’est-à-dire que me plongeant dans le dictionnaire français, dans le dictionnaire Littré, parce que ce dictionnaire comporte de longs développements sur l’histoire des mots, la sémantique, et aussi sur l’étymologie, remontant fort souvent même plus haut que le latin, vers les racines védiques, eh bien, il est certain que là se trouve une des plus fortes imprégnations de mon enfance, et si l’on veut bien examiner mes textes de ce point de vue [...] eh bien, on verra que je n’ai jamais cherché qu’à redonner à la langue française cette densité, cette matérialité, cette épaisseur (mystérieuse, bien sûr) qui lui vient de ses origines les plus anciennes. Que j’ai voulu en quelque façon [...] regarder en face non seulement la langue maternelle, mais aussi bien la langue grand-maternelle ou des aïeules encore plus anciennes, et entrer profondément dans ce monde, aussi concret, je le répète, aussi sensible pour moi que pouvaient l’être les paysages, les architectures, les événements, les personnes, les choses du monde dit physique. »
FAÇA VOCÊ MESMO: Nos últimos tempos, o blogonauta médio tem sido estragado com mimos. É possível, nos dias que correm, ter um acesso fácil, rápido e quotidiano a imbecilidades sobre assuntos como os motins em França, a candidatura de Manuel Alegre e os casamentos homossexuais.
Nos tempos proto-históricos, estas imbecilidades só podiam ser lidas na imprensa escrita. O ciberespaço rasgou horizontes, e significou o fim da penúria de um bem que se conta entre os mais apreciados.
quinta-feira, fevereiro 02, 2006
OS DEZ MELHORES FILMES DE 2005 (7 a 5):
nº 7: "Orlando Vargas", de Juan Pittaluga.
Um dos filmes mais singulares do ano. Exploração dos temas do medo, da opressão política, da desaparição, num registo complexo e alusivo, trabalhado até a um extremo de lisura e fluidez que contribui para o poder quase hipnótico do filme. Portentosa interpretação de Aurélien Recoing, e extraordinária presença de uma Elina Löwensohn resgatada ao nosso imaginário colectivo de admiradores de Hartley.
nº 6: "Good Bye Dragon Inn", de Tsai Ming-Liang.
Coreografia de desejos e nostalgias numa sala de cinema prestes a encerrar. A rarefacção brutal das palavras e a persistência tenaz do elemento humano, ainda que trémulo e vulnerável à fugacidade das coisas. "A poesia do tempo real", apetecia-me dizer, não fora o receio de ataviar com fórmulas um filme que as dispensa perfeitamente.
nº 5: "Les Temps Qui Changent", de André Téchiné.
Do escândalo à terna banalidade de um amor recomeçado. Escrevi sobre este soberbo filme aqui.
CAMPOS DE MORANGOS PARA SEMPRE: Estima-se que a população mundial atinja os 6 447 milhões de habitantes. Destes, apenas um ainda não tinha percebido que o Tó Pê, dos "Morangos", estava apaixonado pela professora de Inglês. Infelizmente, o néscio em questão era a própria professora, a quem foi revelada hoje a tremenda verdade, pela boca do principal interessado. Da forma mais denotativa possível, e não daquele modo oblíquo e prenhe em conteúdo metafórico que a situação pedia.
DOIS PESOS E DUAS MEDIDAS: Por menos do que isto, o nosso Cristianinho Ronaldinho foi crucificado em praça pública e alvo de aleivosa saraivada de sanções!!!
(Boris Gelfand, Israel, grande-mestre de xadrez, nº 9 do mundo, sem cadastro conhecido)
(Foto de Fred Lucas)
LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Um cavalheiro, instalado numa carruagem de metropolitano, na linha verde, dedicava a sua atenção ao romance de Fernanda Botelho "Lourenço é Nome de Jogral", um livro muito bom que não é lido em público com a assiduidade que mereceria.
Havia, nos modos do cavalheiro em questão, um quê de fleuma e apaziguada compostura que contrastava flagrantemente com a de outros leitores em lugares públicos. Para citar apenas um exemplo: um leitor de "O Estrangeiro", há dias, na linha vermelha, a quem não parecia faltar mais do que um quase nada para emular o próprio Meursault.
terça-feira, janeiro 31, 2006
LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Um jovem utente da linha verde do metropolitano lia "O Inominável", de Samuel Beckett, que sublinhava conscienciosamente com uma lapiseira.
Neste ano do seu centenário, se a comunicação social dedicasse a Beckett 1 % do espaço que dedica a Mozart, então dedicaria a Mozart 10 000 % do espaço que dedica a Beckett.
A minha busca de leitores em lugares públicos é incompatível com qualquer veleidade de discrição. Ambiciono a exaustividade. Sonho em fazer como a personagem principal do filme "Alice" que, na esperança de vislumbrar a filha desaparecida, visionava cassetes de vigilância de aeroportos obtidas por especial favor.
Quem sabe quantas leituras inverosímeis, pequenos e quotidianos atentados às probabilidades, ocorrerão em lugares públicos enquanto me dedico a actividades privadas?
XADREZ: Terminou o torneio de Wijk aan Zee, que serviu para confirmar aquilo de que poucos duvidavam: a supremacia no xadrez mundial é neste momento disputada por apenas dois homens, o búlgaro Vesselin Topalov (campeão do mundo) e o indiano Viswanathan Anand, que partilharam o primeiro lugar na classificação final.
Têm razões para estar satisfeitos o inglês Michael Adams e o ucraniano Vassily Ivanchuk, meu ídolo, que partilharam o 3º lugar. Adams vinha de uma série de más prestações, e é de augurar que este bom resultado represente uma inversão dessa tendência negativa.
O jovem Sergey Karjakin (Ucrânia, 16 anos, 5º posto ex aequo) confirmou o enormíssimo potencial que lhe é reconhecido desde que se tornou o grande-mestre mais novo de sempre. Já Péter Lékó, da Hungria (que esteve a um passo de roubar o título de campeão do mundo oficioso ao russo Vladimir Kramnik, ausente de Wijk por doença), obteve mais um resultado decepcionante.
Um motivo de curiosidade deste torneio era o regresso de Gata Kamsky, dos EUA, a um supertorneio, após uma suspensão de carreira que durou quase uma década. Kamsky, que chegou a ser um dos 3 ou 4 melhores jogadores do mundo, mostrou uma deficiente preparação nas aberturas, natural depois de uma paragem tão prolongada, mas as 4 vitórias (contra 8 derrotas...) que protagonizou sugerem que tem potencial para regressar aos seus melhores tempos.
No forte torneio B, registou-se outro empate na liderança, entre o russo Aleksandr Motylev e o norueguês Magnus Carlsen (outro menino prodígio, com 15 anos). Ambos deverão ser convidados para o torneio A, para o ano.
De resto, este torneio voltou a mostrar por que razão é, cada vez mais, o preferido dos aficionados do mundo inteiro: numerosas manifestações paralelas, partidas combativas e espectaculares, e uma estimulante mistura de vedetas confirmadas e jovens talentos em ascensão.
Dentro de poucas semanas, disputar-se-á o mítico torneio de Linares, este ano partilhado entre México e Espanha. Infelizmente, Anand não estará presente, pelo que não se assistirá a mais um capítulo do duelo que trava com Topalov, desde já favoritíssimo.
sexta-feira, janeiro 27, 2006
OS DEZ MELHORES FILMES DE 2005 (10 a 8): Foi demorado, este parto da lista dos 10 melhores de 2005. As delongas são, creio, desculpáveis pelas circunstâncias e pelo risco em que a precipitação faria incorrer: haverá algo de mais trágico do que colocar na sexta posição um filme de que, dias depois (e com fulgurante evidência!), nos apercebemos não merecer mais do que a sétima, num elenco por ordem de mérito?
A lista será apresentada por prestações, e acompanhada por rufar de tambores, que eu não disponibilizo, mas que sugiro que invoquem ao vosso banco de memórias sonoras.
nº 10: "O Fatalista", de João Botelho, e "5x2", de François Ozon.
"O Fatalista" foi, para mim, o melhor filme português do ano. Falei sobre ele aqui. Quanto a "5x2", decidi incluí-lo por se tratar de uma obra que, embora estreada ainda em finais de 2004, foi crescendo paulatinamente na minha estima, também (mas não apenas) graças à brilhante banda sonora. Esta conta com temas italianos dos anos 50/60, e um outro, mais recente e fabuloso, de Paolo Conte. Tive a felicidade de descobrir o CD em Viena (ou melhor, alguém mais atento do que eu descobriu-o por mim). Estou a divagar, não estou?
nº 9: "La Niña Santa", de Lucrecia Martel.
Mais uma demonstração da espantosa vitalidade do cinema argentino. Um filme que me surpreendeu pela maneira como combina atmosfera e subtileza narrativa. Demasiado amiúde, os filmes que apostam na exploração dos espaços, dos corpos e dos elementos sensoriais abdicam do argumento e da exploração da riqueza dos relacionamentos humanos. Este é um notável contra-exemplo, conduzido com mão de mestre por Lucrecia Martel.
nº 8: "Broken Flowers", de Jim Jarmusch.
Os Portugueses conhecem-me, e sabem o que eu escrevi sobre este filme. Um belo filme de um dos poucos espíritos verdadeiramente independentes do cinema norte-americano actual. Livre, formalmente elegante, e supremamente moderno pela maneira como aborda o tema do esvaziamento dos indícios e da ilegibilidade do mundo.
LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Na linha verde do metropolitano, uma jovem, de pé, jogava xadrez no seu telemóvel.
Agradeço a todas divindades de todas as mitologias e religiões passadas, presentes e por vir, o terem-me concedido anos de vida suficientes para contemplar tão esplendorosa visão.
(Bem sei que isto não é uma leitura em lugar público. Contudo, inaugurar uma rubrica chamada "Xadrez em lugares públicos" pecaria por um optimismo a confinar com o delírio.)
quarta-feira, janeiro 25, 2006
terça-feira, janeiro 24, 2006
ENQUANTO ISSO, NAS PRAIAS BRUMOSAS DE WIJK AAN ZEE: No supertorneio de xadrez "Corus", a liderança é partilhada pelo indiano Viswanathan Anand e pelo búlgaro (e campeão do mundo) Vesselin Topalov, os dois jogadores que disputam a supremacia mundial nos dias de hoje. A apenas meio ponto, encontra-se a grande sensação deste torneio: o ucraniano Sergey Karjakin, que cumpriu 16 anos há poucos dias.
O meu ídolo Vassily Ivanchuk, depois de um começo fulgurante, tem sido vítima da irregularidade que tanto exaspera os seus fãs, e encontra-se a 1 ponto do duo da frente.
No também muito forte torneio B, outro jovem prodígio (Magnus Carlsen, Noruega, 15 anos) comanda com autoridade.
Hoje (segunda) foi dia de descanso. Terça e quarta, mais xadrez. Quinta, descanso outra vez. Depois, xadrez até domingo. Quel métier!
ONDE É QUE PÁRA A REVISTA?: Já repararam que os portugueses andam mais macambúzios? Não é tarefa árdua lobrigar a razão: a revista "Aguasfurtadas", que já vai no seu número 8, torna-se difícil de encontrar devido a problemas de distribuição. Mesmo os mais tenazes acabam por se resignar a um fado mais negro que o negrume: privar-se dos poemas de Affonso Romano de Sant'Anna, Margarida Ferra e João Luís Barreto Guimarães, da tradução inédita de "The Book of Ahania", de William Blake, da responsabilidade de Manuel Portela, e das primeiras traduções para português da poeta iraniana Forugh Farrokhzad e do poeta de língua ladina Moshe Ha-Elion, assim como dos contos de Paulinho Assunção, Valério Romão, António Tavares Lopes e da estreia de Lourenço Bray, já para não falar da peça de teatro inédita de Regina Guimarães e Saguenail e de um extraordinário ensaio de Jorge Mantas sobre Marcel Proust, ou dos múltiplos trabalhos em diferentes áreas das artes visuais e ainda de um CD com obras de compositores portugueses contemporâneos, que acolhe as primeiras gravações da rubrica "Ostra" (Antena 2), de Pedro Coelho.
Porém, existe uma nesga de esperança nesta muralha de desânimo! É possível endereçar os pedidos directamente para
jup@jup.pt
ou"aguasfurtadas" Rua Miguel Bombarda, 187
4050-381 Porto
onde nenhum pedido ficará por atender.
E eis que os sorrisos voltam a brotar, resplandecentes, nos rosados semblantes lusos.
domingo, janeiro 22, 2006
K A PROPÓSITO DE K:
«I was impressed by the Expressionists of the eighteenth century, Büchner's "Wozzeck", Heinrich von Kleist's "Penthesilea", Ferdinand Raimund's moralistic plays, Nestroy's satirical works.»
(Oskar Kokoschka, citado em "Kokoschka: Life and Work", de Edith Hoffman.)
Oskar Kokoschka, "Montana Landschaft" (1947).
quinta-feira, janeiro 19, 2006
PARA UMA ÉTICA E UMA ESTÉTICA DO GATO PERDIDO (1):
(entrevistas de rua)
«É de um paradigma que se trata, mas de um paradigma dotado de corpo fofo e flexível, com um tufo de pêlos brancos no ventre.» (D.H., delegado de propaganda médica, Santo Amaro de Oeiras.)
«Quem disse que o utilitarismo transcende a categoria das coisas ronronantes, que procuram a sua felicidade nas sarjetas e nos algerozes?» (A.T., assistente social, Campolide.)
«A harmonia não entra aqui. É precisamente no limiar onde a harmonia claudica, e cede a seu pesar a preponderância a algo que, à falta de melhor, eu designo como a "esplendorosa rugosidade da contingência", que o gato perdido encontra o seu nicho. O seu fulgor é o fulgor da alteridade. Disfarça-se de inócuo facto da existência para esconder uma natureza que se compraz na alteridade e numa, como direi, diluição dos conceitos.» (F.B., inspectora das Finanças, Rio de Mouro.)
«O meu chamava-se Pimpão, e gostava de brincar com a minha Parker 51, não gostava de mais nenhuma caneta, só da Parker.» (R.S. juiz-desembargador, Bobadela.)
«Não tenho absolutamente nada a acrescentar àquilo que Adorno escreveu em "Minima Moralia". Nem uma vírgula.» (H. C., profissional de show-cooking, Samora Correia.)
THANK YOU FOR THE MUZAK: No filme "Odete", a música que se escuta na loja de artigos para bebé não passa de uma versão easy da ária "Erbarme dich, mein Gott", do "Evangelho Segundo São Mateus".
É um tributo à grandeza de Bach reconhecer que, estropiada e apoucada, a sua música guarda ainda um poderoso travo de genialidade.
DO SOM: Que mais, senão trombetas soando, fariam justiça ao regresso da Seta Despedida? (De preferência, trombetas sem o mute do símbolo do romance de Pynchon.)
LUGARES DE PARIS: No filme "Caché" de Michael Haneke, o casal Daniel Auteuil/Juliette Binoche vive na rue Vulpian, no meu adorado 13ème arrondissement. Contudo, uma aura de mistério rodeia a localização exacta do lar conjugal. De facto, pareceu-me ler, na tabuleta da rua que faz entroncamento com a dita rue Vulpian, o nome "rue des Iris". Sucede, todavia, que esta artéria se situa a considerável distância da rue Vulpian, se bem que também no 13ème (e a um vigoroso arremesso de pedra do aprazível parque Montsouris).
Este enigma, para mim, é mais importante do que saber quem enviava as cassetes de vídeo que atormentam a existência das personagens principais do filme.
Sinto-me tentado a adquirir o DVD (assim que estiver disponível), e a emular a personagem de Daniel Auteuil, quando este imobiliza a imagem da cassete até descobrir o nome da rua que a câmara mostra: uma avenue Lénine em Romainville.
A Z O QUE É DE Z: Por lapso imperdoável, esqueci-me neste post de referir outra razão para gostar de Zapatero, e que não é certamente das menos dignas de nota: a legalização dos casamentos homossexuais. Mais uma medida justa e moderna; mais uma medida que atraiu animosidade por parte dos sectores costumeiros, que se acreditam mandatados para controlar a moralidade dos povos; mais uma medida que estava na altura de aplicar também aquém-fronteira.
quarta-feira, janeiro 18, 2006
EAVESDROPPERS OF THE WORLD, UNITE!: Num restaurante de um centro comercial do Porto, os convivas escutavam, entre a incredulidade e o riso mal reprimido, uma conversa que ocorria numa mesa ao lado, entre dois cavalheiros que aproveitavam o pós-prândio para discorrer sobre a vida, a política e a podridão dos agentes culturais.
Da música («esse Mozart... grande homem!... isso é que era um artista! E levava pontapés no cu de um bispo... Escreveu o "Don Giovanni", essa coisa fabulosa, e acabou como acabou.»)...
...à literatura (elenco, próximo da exaustividade, de nomes que, imerecidamente, constam dos suplementos literários dos jornais portugueses)...
...à performance e às artes plásticas («Aquela gaja, a Vera Mantero... Aquilo que ela levou a São Paulo... Toda nua, com umas tatuagens... Entre dois andaimes... E ficava lá em cima durante duas horas...»).
Chegada a hora da sobremesa, tendo os dois vencidos da vida já partido para novas aventuras, ocorreram-me duas coisas: primeiro, que se escancarara ali uma fresta na verosimilhança quotidiana, quem sabe se fruto da acção de um qualquer génio travesso; segundo, que tem o seu quê de estranho ouvir pronunciar o nome de Armando da Silva Carvalho em pleno centro comercial.
terça-feira, janeiro 17, 2006
A MARCA DO Z: Cada vez admiro mais o senhor José Luis Rodríguez Zapatero.
Tudo começou com a composição do seu executivo. Não sou adepto incondicional de quotas, mas formar um governo com igual representação de ambos os sexos, num país latino, tem algo de revolução tranquila que nunca é de mais saudar.
Cresceu a minha admiração com as numerosas medidas destinadas a contrariar a absurda posição dominante da igreja católica em Espanha, nomeadamente a abolição do carácter obrigatório da disciplina de Religião e Moral. Tais medidas, como seria de prever, levantaram ondas de indignação por parte da corporação em questão, mais um sintoma de que o premier espanhol se encontra no bom caminho. Conheço poucas credenciais mais abonatórias para um político do que ser alvo de manifestações de rua por parte dos sectores mais pacoviamente beatos e ultramontanos do país que dirige.
Surge agora a legislação contra o consumo de tabaco em locais públicos, que entrou recentemente em vigor no país vizinho. Também aqui, era inevitável um movimento de crispação por parte daqueles que, cronicamente dados à vitimização, se julgaram visados por aquilo que, no fundo, não passa de um conjunto de medidas impregnadas de bom senso, cujo fim principal é o de proteger os cidadãos da exposição à prepotência do fumo alheio.
A reacção de Francisco José Viegas é, deste ponto de, vista típica: mau grado o tom de conscienciosa moderação («Só fumo nos locais permitidos. Não violo a lei.», como se isso fosse proeza digna de louvor, e não o mais elementar dos deveres), consegue encapsular em poucas linhas os três principais lugares-comuns da contra-argumentação canónica dos tabagistas descontentes:
Tudo começou com a composição do seu executivo. Não sou adepto incondicional de quotas, mas formar um governo com igual representação de ambos os sexos, num país latino, tem algo de revolução tranquila que nunca é de mais saudar.
Cresceu a minha admiração com as numerosas medidas destinadas a contrariar a absurda posição dominante da igreja católica em Espanha, nomeadamente a abolição do carácter obrigatório da disciplina de Religião e Moral. Tais medidas, como seria de prever, levantaram ondas de indignação por parte da corporação em questão, mais um sintoma de que o premier espanhol se encontra no bom caminho. Conheço poucas credenciais mais abonatórias para um político do que ser alvo de manifestações de rua por parte dos sectores mais pacoviamente beatos e ultramontanos do país que dirige.
Surge agora a legislação contra o consumo de tabaco em locais públicos, que entrou recentemente em vigor no país vizinho. Também aqui, era inevitável um movimento de crispação por parte daqueles que, cronicamente dados à vitimização, se julgaram visados por aquilo que, no fundo, não passa de um conjunto de medidas impregnadas de bom senso, cujo fim principal é o de proteger os cidadãos da exposição à prepotência do fumo alheio.
A reacção de Francisco José Viegas é, deste ponto de, vista típica: mau grado o tom de conscienciosa moderação («Só fumo nos locais permitidos. Não violo a lei.», como se isso fosse proeza digna de louvor, e não o mais elementar dos deveres), consegue encapsular em poucas linhas os três principais lugares-comuns da contra-argumentação canónica dos tabagistas descontentes:
- o mito da "perseguição" (como se o maior prazer de um governo fosse, sadicamente, perseguir os fumadores)
- o espantalho do "moralismo" (como se a moral fosse tida ou achada para esta questão, que não sai do foro da saúde pública)
- a alusão a práticas fascistas (que eu me recuso a qualificar)
Senhor Rodríguez Zapatero, sugiro-lhe humildemente que traga à conversa estes assuntos aquando da próxima cimeira ibérica. Entre uma tapa e um pastel de bacalhau talvez consiga fazer do seu homólogo português um seu émulo, pelo menos no que as estas sadias e corajosas medidas diz respeito.
SUGESTÃO PARA OS TEMPOS LIVRES: Pediram-nos que divulgássemos o seguinte presse-rilize, que, por não conter nada de contrário à moral vigente nem aos brandos costumes nacionais, passamos a transcrever:
A 9ª edição da International Conference of the Short Story in English vai decorrer, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, entre os dias 21 e 25 de Junho de 2006. Trata-se de um evento que tem por objectivo pôr em contacto escritores, críticos e apreciadores de conto. Este encontro apresenta a característica de associar os escritores de língua inglesa aos do país onde se realiza, promovendo, ainda, o diálogo entre autores em início de carreira e outros já consagrados. Assim sendo, contaremos, em Portugal, com a presença de Amy Tan, Bharati Mukherjee, James Alan MacPherson, Minoli Salgado, Cynthia Ozick e muitos outros, bem como de [sobre este nome caiu uma gota de chá vermelho baunilhado], Catarina Fonseca, Gonçalo M. Tavares, Hélia Correia, Jacinto Lucas Pires, João Aguiar, João de Mancelos, Jorge Vaz de Carvalho, Luísa Costa Gomes, Onésimo Teotónio de Almeida, Rui Zink, Teolinda Gersão e Urbano Tavares Rodrigues, e de críticos como Charles May, George Monteiro, Susan Lohaffer ou Rolf Lunden.
Haverá sessões de leitura por todos os escritores e cinco workshops de escrita criativa sob orientação de Amiri Baraka, Francine Prose, John Edgar Wildeman, Katherine Vaz e Rui Zink.
Lista completa de autores e mais informações em www.fl.ul.pt/eventos/short_story, onde se podem fazer as inscrições e propor comunicações, debates ou painéis sobre o tema (data limite das propostas até final de Janeiro)
quinta-feira, janeiro 12, 2006
LEVAR AO LUME DURANTE MEIA HORA, MEXER BEM: Isto é assim, como tenho andado com pouco tempo, decidi coligir num só post uma mancheia de tópicos breves que espero desenvolver em ocasiões próximas.
- Vai começar amanhã o torneio de xadrez "Corus", em Wijk aan Zee, na Holanda.
- "Broken Flowers" (filme sobre a desagregação do sentido) e "Rois et Reine" (elogio oblíquo mas categórico da procura de um "sentido" na vida) não tão contraditórios como isso?
- Para uma ética e uma estética do gato perdido (entrevistas de rua na Grande Lisboa).
- Momentos kleistianos em "Jakob von Gunten", de Walser.
- Abertura ao público do Jardim Ponge.
- Citações republicanas.
- Bombons Mozart da Mirabell à venda no Continente do Colombo! Choque! Espanto!
- A francofobia é a doença do espírito mais disseminada do mundo hoje em dia.
- Novo CD da Fiona Apple é um portento.
- Quem anda com quem nos "Morangos": abordagem baseada na teoria dos grafos.
- Como criar um mito urbano, de uma semana para a outra, a partir de uma oficina de sapateiro no Bairro dos Actores.
- Momentos kleistianos em Stendhal.
EPÓNIMOS: Parece-me ter escapado às Forças Vivas da nação que este ano de 2005 viu estrear nada menos de três filmes portugueses cujos títulos consistiam singelamente em nomes próprios, por acaso todos eles femininos: "Adriana" (Margarida Gil), "Alice" (Marco Martins) e "Odete" (João Pedro Rodrigues).
Trata-se, no fundo, de mais uma confirmação de uma tendência muito arreigada no cinema luso, e que não é de hoje. Basta recordar obras como "Francisca" (Manoel de Oliveira), "Silvestre" (João César Monteiro), "Ana" (António Reis e Margarida Cordeiro), "Glória" (Manuela Viegas) e "Jaime", que é nome de não um mas dois filmes portugueses (outra vez António Reis, o primeiro, António Pedro Vasconcelos o mais recente). Em "Benilde ou a Virgem Mãe", Manoel de Oliveira é salvo pelo gong do título alternativo.
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