sexta-feira, julho 14, 2006
CINEMA: Do filme "Diários da Bósnia", afirma Eurico de Barros, no "DN" de hoje, que o realizador, Joaquim Sapinho, "não optou por tomar partidos nem pregar aos espectadores".
O leitor atento recorda-se da primeira vez em que Eurico de Barros empregou estes termos, ou outros aproximadamente equivalentes, para exprimir a sua aprovação crítica? E será afoito o bastante para estimar quantas vezes reincidiu neste tipo de apreciação?
Que Eurico de Barros desconfia de ideologias e vomita todo o cinema militante, é algo impossível de ignorar. Que se sirva da maior ou menor tendência de um filme para tomar partido ou defender uma tese como factor de valorização crítica, parece-me aceitável. Que eleve esse vector a critério principal, e muitas vezes único, das suas recensões, eis o que se torna francamente empobrecedor, para não dizer obsessivo.
Num meio mais dado a exercícios meritocratas, já há muito alguém se teria aproximado de Eurico de Barros, com a piedosa missão de lhe dar a entender que, como dizer?, aquilo que ele faz não chega. Reacções viscerais, ódios de estimação e recusa sistemática de tudo o que remotamente cheire a "politicamente correcto" não fazem uma crítica, por mais vivaça que seja a prosa. Analisar e aprofundar também podem fazer parte do trabalho do crítico.
14 DE JULHO É REVOLUÇÃO: Num símbolo, cabe aquilo que cada um quiser. A tomada da Bastilha não foi um momento absolutamente determinante no desenrolar da Revolução Francesa. Outras datas, como o juramento do Jeu de Paume, ou a instauração da Primeira República, vêm à ideia quando se procuram acontecimentos fulcrais deste período. Mas talvez a sua relativa (sublinho o "relativa") irrelevância histórica tenha contribuído para reforçar a sua carga simbólica. Num símbolo, cabe aquilo que cada um quiser. Assim, aqueles que viram (apetecia-me usar o presente em vez do pretérito) na Revolução a fonte de todos os horrores da modernidade, associam ao 14 de Julho tudo aquilo que a França conheceu de atroz durante esses anos: os sangrentos excessos do Terror, a tirania, o caos institucional. Eu prefiro recordar que esta data, e a bandeira tricolor, e mais uns quantos símbolos, poderosos pela sua simplicidade, serviram de inspiração a muitos homens e muitas mulheres que ajudaram a libertar a Europa de tiranias e prepotências, e que contribuíram para a conquista de liberdades que todos nós, hoje, encaramos com tanta naturalidade como se fossem acidentes da paisagem.
Em tempos, estranhei que a Revolução Francesa fosse tomada como a baliza que marcava o início da história contemporânea. Hoje, essa convenção parece-me auto-evidente. Quase tudo começou aqui. Os conceitos fundamentais da política moderna, da cidadania, dos direitos humanos, nasceram aqui, ou daqui retiraram impulso decisivo. E isto já não tem a ver com símbolos.
terça-feira, julho 11, 2006
DOIS LAPSOS DE LINGUAGEM, DOIS:
- Em mais uma reportagem de um canal televisivo sobre o Mundial, o locutor, arfando improvisados lugares-comuns, declarou a páginas tantas que "Portugal tinha ganho respeito pelos alemães", querendo dizer (mas isto sou eu a supor, claro) que "Portugal tinha ganho o respeito dos alemães".
- Numa entrevista ao grande-mestre de xadrez norte-americano Maurice Ashley, menciona-se o Aikido como sendo uma "marital art".
sexta-feira, julho 07, 2006
JARDIM PONGE: À míngua de tempo para tratar do meu Jardim Ponge, agora transformado em selva, recorro à sub-contratação:
«Disso é exemplo a poética de Francis Ponge: ao propor-se tomar o partido das coisas, que é também ter em conta a linguagem, ela responde à exigência de interromper a relação sujeito-objecto e desse modo abandonar a doxa, os valores que a constituem, e que são já uma significação imposta a partir daquele tipo de polaridade, um modo de parar a relação com o exterior. Pretender "tomar o partido das coisas" é antes de mais conceber o valor da decisão fora de qualquer arrogância subjectiva (individual ou colectiva). A poesia vale, testemunha o que vale, porque, diz Ponge, "há no homem uma faculdade (não reconhecida precisamente como tal) de perceber que uma coisa existe justamente porque ela será sempre incompletamente redutível ao seu espírito".»
(Silvina Rodrigues Lopes, revista "Intervalo", nº 1)
OS ROUBADORES DE ÁGUA: Este post não é sobre João Miguel Fernandes Jorge, mas sim sobre o número 9 da revista "Aguasfurtadas", cuja data de lançamento estava marcada para ontem, dia 6. Não estive presente, espero que tenha sido de arromba. Penitenciando-me pelo atraso, não me parece que seja inoportuno recordar que este número 9, disponível nas livrarias e através de pedidos directos para jup@jup.pt, é um número que promete, e senão vejamos: inclui textos de Inês Lourenço, Tiago Gomes, Rui Lage, Pedro Ribeiro, Marcelo Rizzi, Adrienne Rich, Virginia Woolf, Filipe Guerra, entre muitos outros, para além de trabalhos inéditos de vários fotógrafos e artistas plásticos, e ainda um CD com obras de Alexandre Delgado, Ruben Andrade, Dimitris Andrikopoulos e do grupo de jazz Espécie de Trio.
O Leitor pode (e deve) roubar 35 segundos à sua frenética agenda para assistir ao primeiro vídeo de promoção deste número nove, aqui:http://www.youtube.com/watch?v=MZ4rtoXgMfw.
Durante anos fui obcecado pelo número 9, por causa da "Vida Nova" do Dante, esse Guelfo Branco no meio de Guelfos Negros.
segunda-feira, julho 03, 2006
CINEMA:
Revisitando "Eyes Wide Shut":
Tornou-se um lugar-comum afirmar dos grandes filmes que permitem ao espectador descobrir coisas novas a cada visionamento. "Eyes Wide Shut" é candidato a excepção. Ao revê-lo, instala-se em mim a convicção de que o último filme de Kubrick nada mais tem para revelar. Não existem nuances por explorar, nem detalhes ocultos que apenas a atenção do espectador avisado permitisse isolar. Tudo funciona como se o filme tivesse feito o seu trabalho, e, nos visionamentos subsequentes, actuasse como um memento de si mesmo, uma máquina evocadora dos sórdidos fantasmas que são a sua própria substância. Na sua lisura, na sua glacial opacidade, "Eyes Wide Shut" devolve ao espectador a missão de enfrentar as suas inquietações, e de, por sua conta e risco, esboçar uma tentativa de fazer sentido daquilo a que assistiu.
Repare-se no olhar apreensivo de Tom Cruise. Ele teme pelo seu casamento, pela sua integridade física, e talvez pela sua sanidade mental. A aventura nocturna do Dr. Harford foi mais do que uma fantasia: aconteceu realmente, como o demonstram a máscara, o envelope que lhe é entregue através das grades do portão da mansão, e outros elementos. E, contudo, somos levados a pensar que aquela sucessão de peripécias grotescas e fantásticas (o encontro com a prostituta, a palavra de passe, a orgia mascarada) são demasiado típicas da imaginação perversa de um homem atormentado pelo ciúme e pela tentação do adultério para que possamos acreditar nelas. Com sobriedade, Kubrick coloca-nos num plano infinitamente mais subtil do que a simples dicotomia sonho/realidade. Talvez a angústia do Dr. Harford seja suficientemente potente para transtornar a narrativa que ele habita. Ao transformar uma simples visita à casa de um doente, acabado de falecer, numa rocambolesca e perigosa odisseia, a personagem subverte de dentro para fora a própria ficção que o envolve.
E o filme "mais não é" do que a crónica passiva dessa suprema subversão. Mas também pode ser muito mais do que isso. Não vale a pena é contar com indícios, dicas ou degraus. O que houver para descobrir não se encontra nas ruas daquela Greenwich Village de pacotilha, nem no semi-luxo doméstico da casa dos Harfords. Cabe ao espectador fazer a sua própria viagem até ao fim de alguma coisa. Ou então (sem dúvida mais cómodo), lembrar-se de que se trata "apenas de um filme" e regressar ao que interessa realmente (refiro-me à vida).
Repare-se no olhar apreensivo de Tom Cruise. Ele teme pelo seu casamento, pela sua integridade física, e talvez pela sua sanidade mental. A aventura nocturna do Dr. Harford foi mais do que uma fantasia: aconteceu realmente, como o demonstram a máscara, o envelope que lhe é entregue através das grades do portão da mansão, e outros elementos. E, contudo, somos levados a pensar que aquela sucessão de peripécias grotescas e fantásticas (o encontro com a prostituta, a palavra de passe, a orgia mascarada) são demasiado típicas da imaginação perversa de um homem atormentado pelo ciúme e pela tentação do adultério para que possamos acreditar nelas. Com sobriedade, Kubrick coloca-nos num plano infinitamente mais subtil do que a simples dicotomia sonho/realidade. Talvez a angústia do Dr. Harford seja suficientemente potente para transtornar a narrativa que ele habita. Ao transformar uma simples visita à casa de um doente, acabado de falecer, numa rocambolesca e perigosa odisseia, a personagem subverte de dentro para fora a própria ficção que o envolve.
E o filme "mais não é" do que a crónica passiva dessa suprema subversão. Mas também pode ser muito mais do que isso. Não vale a pena é contar com indícios, dicas ou degraus. O que houver para descobrir não se encontra nas ruas daquela Greenwich Village de pacotilha, nem no semi-luxo doméstico da casa dos Harfords. Cabe ao espectador fazer a sua própria viagem até ao fim de alguma coisa. Ou então (sem dúvida mais cómodo), lembrar-se de que se trata "apenas de um filme" e regressar ao que interessa realmente (refiro-me à vida).
O VEREDICTO: Por norma, falta-me a paciência para estes testes, que fazem as delícias dos meus colegas bloggers. Mas a este não resisti:
Você é A Cabana.
Você é o típico melancólico, que gosta de pensar e repensar na vida. Romântico, adora cenários intimistas e pela-se pela doce amargura de um coração partido.
Na cabana
Junto à praia
Entre as dunas e os canaviais
Só o vento
E o mar
E as gaivotas
Falam desse amor
(Via "Simples Sopros".)
E, a propósito, terei sido eu o único a reparar que os assobios larocas da canção "Love Generation" de Bob Sinclar apresentam semelhanças suspeitas com o "Como o Macaco Gosta de Banana"?
Até quando permitiremos que os estrangeiros pilhem impunemente aquilo que é nosso?
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LONGE DA VISTA: No "Metro" de hoje, chamou-me a atenção um anúncio de recrutamento de operadores de call-center em que um dos requisitos é "imagem cuidada".
Talvez seja ingenuidade minha, mas alimento certas dúvidas sobre a necessidade de um operador de call-center ter "imagem cuidada".
Vem-me à memória uma cena desopilante de "Radio Days" (que, por sinal, está longe de ser dos meus Woodies preferidos), em que uma das personagens manifesta indignação por a mulher (?) admirar um ventríloquo que ela só conhece através da rádio.
SEM DESCULPA: Coloco fim a um hiato de mais de uma semana sem escrever, desta vez sem desculpa nem atenuante, a não ser a absoluta falta de assunto. O que nem é dos menos válidos motivos, convenhamos.
(Aos espíritos apressados, apelo a que não sejam tentados a deduzir que a presente retoma é sintoma de ter algo de inadiável para transmitir. Um blog que tem medrado sob o signo dos bolos de arroz e da estátua do Doutor Sousa Martins não se acanha em investir no supérfluo.)
domingo, junho 25, 2006
quarta-feira, junho 21, 2006
XADREZ: Conforme prometido (pelo menos acho que prometi), aqui fica um rescaldo das Olimpíadas de Xadrez de Turim.
Pódio (sector masculino): 1º Arménia, 2º China, 3º E.U.A..
Vitória convincente da Arménia, nação que deu ao mundo o antigo campeão mundial Tigran Petrossian (que jogava sob as cores da U.R.S.S.), e que nunca deixou de ser uma potência da modalidade. Liderada pelo nº 3 do mundo Levon Aronian, a Arménia mostrou ser uma selecção compacta e regular, com todos os seus jogadores em grande momento de forma.
Surpresas agradáveis: Hungria (com uma equipa muito desfalcada, conseguiu guindar-se à 5ª posição), República Checa (terminou em 11º, mas chegou a ameaçar os lugares cimeiros) e Uzbequistão.
A principal desilusão foi, sem dúvida, a favoritíssima Rússia, que nunca convenceu, e que se afundou nas últimas rondas até uma impensável 6ª posição (e ex aequo com o 10º, a Espanha). A única boa notícia para os russos foi o regresso em bom nível de Vladimir Kramnik (campeão do mundo oficioso, afastado devido a doença nos últimos meses).
Outras desilusões: Índia (2ª do ranking e que acabou em 30º...), Inglaterra e Azerbeijão.
Pódio (sector feminino): 1º Ucrânia, 2º Rússia, 3º China.
Também aqui a Rússia era favorita, também aqui ficou arredada da medalha de ouro, se bem que neste caso tenha estado mais próxima da vitória. A aposta, por parte da Ucrânia, de colocar Natalia Zhukova no 1º tabuleiro, apesar de ser só a 3ª da equipa em termos de ranking, resultou em pleno.
Uma referência muito especial merece a equipa chinesa, medalhada de bronze. Este resultado é tanto mais espantoso quanto a China prescindiu das suas principais estrelas nesta competição.
Por fim, uma chapelada ao jornal austríaco Wiener Zeitung, que, tal como sucedera na edição anterior das Olimpíadas, apresentou informações estatísticas completíssimas e actualizadas diariamente sobre o evento. O ou os responsáveis por tão exaustiva compilação ocupam, estou certo, um cantinho muito especial no coração de muitos aficionados de xadrez por esse mundo fora.
(Em breve, o balanço da presença portuguesa nestas Olimpíadas.)
terça-feira, junho 20, 2006
MALHAS QUE O DUALISMO TECE: Feira do Livro do Porto, num domingo recente. A conversa entre José Saramago e Gonçalo M. Tavares inicia-se com 40 minutos de atraso, sem um único pedido de desculpas, e sem que da audiência expectante tenham surgido sinais de impaciência demasiado conspícuos. Mas adiante. Valeu a pena aguardar, quanto mais não fosse para presenciar a enérgica intervenção de uma participante, que, na sequência de uma intervenção de GMT sobre a impossibilidade de "desenhar a alma", afirmou que tal empreitada era escusada porque corpo e alma constituíam um só. Ou talvez fosse precisamente ao contrário. A interveniente não falou para o microfone, e as suas palavras perderam-se. Existe um conto de Barthelme no qual a nave Pioneer 10 fotografa duas almas humanas a caminho do Céu. As fotografias são pouco atraentes, ou mesmo vagamente repulsivas.
LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS:
- Um voyeur de leituras em lugares públicos é obrigado a apurar o seu sentido de observação, e não irá longe se não for capaz de reconhecer padrões e cores de capas e contracapas, fontes de letra, manchas gráficas, etc., e isto parecendo não querer a coisa, mas querendo a coisa (está bem de ver). Há dias, na linha amarela do metropolitano, o subtil verde das edições de bolso da Mondadori saltou-me à vista. Mal ousando crer na minha sorte, mantive a calma até estar em condições de identificar título e autor. Dino Buzzati, "Un Amore", precisamente o último romance deste autor, e em versão original! Se a isto juntarmos que a leitora estava de pé, e que, dentro de um saco de plástico transparente, guardava um livro de Montesquieu (que não pude identificar), ouso crer que 50 pontos de bónus são amplamente justificados.
- No aeroporto de Fiumicino, em Roma, um cavalheiro lia as "Pensées" de Pascal.
- Na linha verde do metropolitano, uma senhora lia a "Utopia", na edição de bolso da Europa-América.
ROLL OVER, JEAN COCTEAU!: Ontem, ao ligar a televisão, eis que me entra pela casa adentro o Prof. Marcelo Rebelo de Sousa discorrendo sobre as virtudes e limitações do meio-campo da selecção ucraniana, e assim dando novo significado ao termo touche-à-tout.
(E o "Xô Professor" fazia-o com a mesma convicção e loquacidade apaixonada com que opina sobre a separação de poderes e o congresso do CDS-PP.)
domingo, junho 18, 2006
REGRESSO: Regresso após uma semana passada em Florença. Sobre as virtudes e pontos débeis desta esplêndida cidade espero poder escrever nos próximos dias. De momento, limito-me a elencar uns quantos fenómenos que nem ao mais desatento visitante poderiam ter escapado:
- Um enorme enxame de abelhas que, em plena Piazza della Signoria, obrigou à intervenção da polícia e de um apicultor nessa zona de intensa concentração de turistas. De acordo com a minuciosa crónica de um periódico local, o enxame começou por se concentrar na base da estátua de Judite e Holofernes, tendo-se mais tarde deslocado para junto de uma das ninfas da fonte de Neptuno, antes de ser capturado.
- Uma pizzeria sem pizzas na ementa (mas com um excelente polvo salteado em vinho branco e tomate).
- Livrarias de fazer explodir de inveja qualquer português dado aos delicados prazeres da leitura.
- Insuportáveis bandos de estorninhos produzindo estridente algazarra.
- Uma partida de calcio storico que terminou em zaragata generalizada. O calcio storico é um antepassado do futebol, ressuscitado todos os anos sob a forma de um torneio quadrangular entre bairros florentinos, na praça junto à igreja de Santa Croce. A reputação de violência desta modalidade foi, este ano, confirmada para lá de todos os limites do razoável, obrigando à intervenção da polícia (mas não de um apicultor, ver ponto 1) e à suspensão da partida e do torneio. Foi para mim, de certa forma, um alívio saber que aquilo que se passou (e a que assisti parcialmente através da televisão) não era uma partida normal. Por momentos, cheguei a recear que o calcio storico fosse aquilo: uma refrega entre rufiões.
sexta-feira, junho 09, 2006
DESENHAR A ALMA: Nos últimos dois dias, as arreliadoras intermitências do Blogger impediram-me de escrever. Amanhã, partirei para a cidade de Dante Alighieri, pelo que o rescaldo final das Olimpíadas de xadrez (ganhas pela equipa masculina da Arménia e pela equipa feminina da Ucrânia) terá de esperar, assim como o apaixonante relato de uma intervenção sobre a possibilidade de desenhar a alma, em plena conversa entre Saramago e Gonçalo M. Tavares, na Feira do Livro da Invicta.
segunda-feira, junho 05, 2006
AS PALAVRAS E AS COISAS: Para uma pessoa que nunca saboreou a iguaria, é natural que a frase "plumas de porco preto" evoque fantásticas visões de suínos alados, e que a Odisseia e a sinistra Circe acorram ao seu espírito.
E se, para cúmulo, o conviva à sua frente, depois de ter anunciado que vai pedir o prato em questão, acabe (sub-repticiamente) por mandar vir um maciço e imponente naco de picanha, não é de admirar que a reacção dela seja de choque, devidamente complementado pela convicção de que tão colossal pluma desafia a lei da gravidade.
(Baseado numa história verídica.)
O ESTADO-ABERRAÇÃO: Na sua crónica de 6ª feira passada, José Miguel Júdice partilha os frutos da sua reflexão sobre "microestados inviáveis", "sem as mínimas condições para [serem] país[es] soberano[s]", sem "escala nem dimensão suficientes", e que, por isso, são "palco de lutas fratricidas".
Curiosamente, em todo o artigo não há uma única referência ao Vaticano, a quem estas considerações se aplicam que nem luva de pelica.
quinta-feira, junho 01, 2006
XADREZ: Custou muito a engolir, ao nosso enviado especial às Olimpíadas de Xadrez em Turim, a derrota da formação masculina portuguesa face ao Peru. Entretanto, a equipa feminina empatava com o Bangladesh. O dia de hoje foi de descanso, e de preparação para as três rondas seguintes, que vão decidir tudo o que há para decidir. Os clientes seguintes são a Síria (homens) e a Venezuela (senhoras). Força, Portugal! Mesmo sem recepção no palácio de Belém, sem ocas palavras de circunstância do primeiro-ministro, e mau grado a indiferença da imprensa, vocês estão a dar o vosso melhor, e é isso que conta.
quarta-feira, maio 31, 2006
TUDO ISTO É TELHEIRAS: A Escola Alemã encontra-se, a partir de agora, totalmente abastecida por energia fotovoltaica.
Numa nota bem diferente, mas igualmente venturosa, o café "Lapinha" (sito junto ao jardim da PSP) cumpre 20 anos de existência. Reclama-se o mais antigo de Telheiras. Às quintas-feiras, há leitão de Negrais.
(Fonte: "ART Informação", da Associação de Residentes de Telheiras.)
XADREZ: É refrescante constatar o apoio que os portugueses têm oferecido aos membros da selecção portuguesa, enfeitando com garridos estandartes as varandas e janelas deste país, de Norte a Sul, sem esquecer as ilhas. Nada é demais quando se trata de encorajar os representantes de Portugal nas Olimpíadas de xadrez, em Turim!
O nosso enviado especial a Turim não pode ser acusado de excesso de zelo. Nos últimos dias, quiçá desencorajado pelas prestações mornas dos xadrezistas lusos, permitiu-se mesmo umas pequenas férias, que aproveitou para visitar alguns dos expoentes mais reputados do estilo barroco piemontês.
Mas ei-lo que regressa.
Nas últimas quatro rondas, Portugal começou por perder (1-3) com a França, um resultado normal. Saliente-se, contudo, a excelente vitória de Diogo Fernando sobre Andrei Sokolov, antigo candidato (entretanto naturalizado francês) ao título mundial (perdeu, face a Karpov, em 1986, o match que lhe daria o direito de defrontar Garry Kasparov).
Seguiu-se uma derrota tangencial com a equipa A da Itália, em que o único ponto positivo foi o triunfo de Paulo Dias sobre o mestre internacional Ennio Arlandi.
Na 8ª ronda, tal como sucedera com a França, Portugal teve o azar de se ver emparelhado com uma selecção (Letónia) claramente superior, desejosa de recuperar na classificação. Jogando sem o seu elemento mais cotado (o grande-mestre Luís Galego), Portugal perdeu novamente por 1-3.
Finalmente, na 9ª ronda, Portugal mediu forças com uma equipa claramente inferior, o Nepal, e fez aquilo que lhe competia: vitória em todos os tabuleiros (4-0), e o consequente pulo na classificação. Amanhã será a vez do Peru, que, excepção feita ao grande-mestre Julio Granda, é uma equipa perfeitamente acessível.
No sector feminino, a equipa portuguesa segue um percurso regular, ao seu nível, sem sobressaltos de maior. Nas últimas quatro rondas, defrontou sucessivamente o Luxemburgo (empate), a Itália B (vitória 2,5-0,5), a Colômbia e a Noruega (duas derrotas 1-2). O cliente seguinte é o Bangladesh, uma equipa de nível semelhante ao de Portugal.
Na classificação geral, a grande notícia é a surpreendente má forma da equipa masculina da Rússia, que perdeu hoje novamente, com a França, e que está na 4ª posição. Porém, falta ainda jogar muito xadrez, e o sistema suíço de emparelhamento presta-se a grandes reviravoltas nas últimas rondas. Continua a liderar a Arménia, seguida da China (sensacionais 4-0 hoje face à Geórgia) e da França. Em senhoras, o pódio está distribuído da seguinte forma: Ucrânia, Rússia e Geórgia.
segunda-feira, maio 29, 2006
BRINCANDO AOS CLÁSSICOS: Uma das obras que adquiri na Feira do Livro do Porto intitula-se "Receitas de Saladas com Massa".
No dia seguinte a esta compra (de que estou longe de me arrepender), eis que, no Café Literário da mesmíssima Feira do Livro, avisto uma senhora que folheia um outro exemplar desse livro.
Minutos depois, o Café Literário acolhia uma sessão que decorreu sob o signo das traduções de clássicos, e na qual tomaram parte Daniel Jonas, Frederico Lourenço, Gomes da Torre e Carlos Ascenso André.
Mui secretamente, eu acalentava a esperança de que, entre fascinantes e densos discursos sobre Milton e Ovídio, algum dos oradores inserisse uma fugaz alusão à salada de aletria ramen com amêijoas e lulas.
Porque há clássicos e clássicos.
quinta-feira, maio 25, 2006
XADREZ: Enquanto, no Europeu sub-21, os mediáticos "tuguinhas" se arrastam penosamente, em Turim as selecções masculina e feminina defendem as cores lusas, longe dos holofotes, longe do festival de papalvice que mais uma vez se arma em torno da bola redonda.
Hoje, os xadrezistas portugueses enfrentaram selecções ao seu nível. Empate da formação feminina frente à Islândia, e uma boa vitória (2,5-1,5) dos homens face ao Canadá, com derrota de Diogo Fernando, empate de Luís Galego, e vitórias de António Fernandes e de Sérgio Rocha.
Na frente, quase nada de novo. Rússia e Arménia mantêm liderança no sector masculino, com a Holanda a meio ponto. Nas senhoras, A Ucrânia bateu a Rússia, que agora lidera por apenas meio ponto.
O OUTRO LADO EXISTE: Qualificar a 1ª República de "regime terrorista" é situar-se para lá do exagero, para lá da atoarda, para lá da inverdade, para lá da provocação. É transpor com alacridade a fronteira da sanidade, e penetrar num terreno de delírio verborreico reservado a muitos poucos. Luciano Amaral ascende assim, com inegável brio, a um patamar até agora reservado a espécimes como Luís Delgado, João César das Neves e Helena Matos.
quarta-feira, maio 24, 2006
XADREZ: Na terceira ronda das Olimpíadas, a equipa masculina de Portugal sofreu uma derrota lógica (1-3) contra a Hungria; na quarta ronda, realizada hoje, registou-se uma vitória tangencial (2,5-1,5) sobre a Nova Zelândia, com Luís Galego a fornecer o ponto decisivo.
No que toca à equipa feminina, a uma boa vitória (2,5-0,5) sobre o Sri Lanka, seguiu-se um contundente malogro (0-3) contra a Mongólia. Se bem que a selecção mongol fosse mais forte teoricamente, seria de esperar um pouco mais de resistência por parte das xadrezistas lusas.
A Rússia lidera tanto em masculinos (neste caso em igualdade com a Arménia) como em femininos. Mais xadrez amanhã, sexta é dia de repouso. Continuem a contar com os relatos do nosso enviado especial a Turim. De momento, gatinhos perdidos e o jardim Ponge (agora coberto de ervas daninhas) perdem prioridade em favor das Olimpíadas.
(No blog de Mig Greengard houve uma referência à notável vitória de Portugal sobre o Azerbeijão, na segunda ronda. «Other notable results include Azerbaijan getting spanked 3.5-0.5 by Portugal. Quick, name a player from Portugal. Exactly.» Apetece-me responder assim: "diga-me o nome de um grande-mestre norte-americano nascido nos EUA", já que a quase totalidade da equipa norte-americana é composta por expatriados.)
segunda-feira, maio 22, 2006
XADREZ: Adoro as Olimpíadas de xadrez! É a minha competição preferida. Neste torneio, cuja 37ª edição se está a realizar em Turim, as maiores estrelas do firmamento xadrezístico acotovelam-se com anónimos representantes de países como Honduras ou Etiópia, e o espírito de equipa, num desporto que é eminentemente individual, ganha relevo.
Há dois anos, a Ucrânia conquistou o primeiro lugar, rompendo a quase absoluta hegemonia que a Rússia (e, antes disso, a U.R.S.S.) vinha mantendo. Este ano, será difícil alguém opor-se ao poderio da equipa russa, que se apresenta na máxima força, e é favorita em toda a linha.
Também na máxima força (ou perto disso), apresenta-se a equipa masculina de Portugal, que começou de maneira pouco convincente (vitória tangencial sobre a fraca formação cipriota), mas que obteve hoje um retumbante êxito (3,5-0,5) contra o Azerbeijão, que, se bem que desfalcado da sua grande estrela (Teimur Radjabov), possui ainda um nível consideravelmente mais forte do que a equipa lusa.
(Sinto mais vontade de pôr uma bandeira à janela em homenagem a Luís Galego, Rui Dâmaso e companheiros, do que a Cristiano Ronaldo, Luís "Agarrem-me Senão Eu Vou-Me Embora" Figo e seus partenaires. Adiante.)
No que toca à equipa feminina de Portugal, após a esperada derrota (0-3) com a Rússia na primeira ronda, venceu hoje Malta pelo mesmo resultado: 3-0. A presença de uma equipa feminina portuguesa, só por si, é facto assinalável, face a ausências registadas em edições anteriores.
Continuarei a tentar acompanhar o percurso das selecções portuguesas neste espaço.
Esqueçam Évora! Esqueçam a Alemanha! Olhos postos em Turim!
(Informações estatísticas muito detalhadas sobre as Olimpíadas aqui.)
domingo, maio 21, 2006
quinta-feira, maio 18, 2006
REVOLTA: O reatamento das corridas de touros em Lisboa é uma ignomínia revoltante. Se, como eu, acredita que enterrar ferros na carne de um animal, para gáudio de uma audiência alarve, não é actividade tolerável nem numa capital europeia nem em qualquer outra parte do mundo, evite frequentar as lojas que se abrigaram à sombra do renovado (mas ainda hediondo) torturódromo do Campo Pequeno.
(O meu aplauso por este post no Aspirina B.)
TECLA: Declarações de Brian Eno a propósito das sessões de gravação do álbum "Low", de David Bowie:
«He's very fast when he gets going, really a brilliant singer -I don't think people realise how finely he can tune his singing, in terms of picking a particular emotional pitch: it's really scientific, the way he does it. He'll say, 'I think that's slightly too theatrical there, it should be more withdrawn and introspective,' and he'll go in and sing it again, and you'll hear this point four of a degree shift which makes all the diference.»
E eu acho que isto se assemelha a uma ambição para a vida: mecânica e espontaneidade, emoção e disciplina fundidos numa só postura; contrários que coexistem sem colidir, para lá da antonímia.
Isto tem a ver com a tecla de Esther Kahn, a tal que, no fim do filme, ela descobre (para sua raiva e alívio) ser capaz de tocar a qualquer instante para suscitar em si mesma uma resposta emocional. (Não tenho o livro comigo, pelo que poupo o leitor à citação.)
quarta-feira, maio 17, 2006
terça-feira, maio 16, 2006
A LER: Uma interessante digressão psicanalítica pelos meandros da mente carrilhiana, por alguém que, para além da Ópera, nos brinda volta e meia com os seus Demais Interesses.
NO SEU MELHOR: Luís Delgado no seu melhor: uma visão apocalíptica de um Irão apostado em desenvolver armamento nuclear para subjugar o mundo não islâmico, e "erradicar do mapa alguns países democráticos, como Israel e os EUA". Os ocidentais condenados a submeter-se ao fanatismo dos ayatollahs de Teerão à força de bombas antónias. Numa mão o Corão, na outra o míssil com ogiva.
Luís Delgado parece alardear uma espontaneidade do disparate que, a meu ver, tem de ser enganadora. Parágrafos tão asininos não podem deixar de ser fruto de prolongado e meticuloso esforço. "Take pains; be perfect", diz Bottom em "A Midsummer-Night's Dream" (só me lembrei desta citação porque represento na peça, ah ah).
Acho graça àqueles que nos massacram os tímpanos com alusões alvoroçadas à jihad e ao califado, sem serem capazes de indicar um único exemplo de acção militar expansionista de um país muçulmano contra um país dito "ocidental" nas últimas décadas.
Não digo que o programa nuclear iraniano não seja um problema sério, mas há que encará-lo nas suas reais proporções.
O QUE HÁ NUM NOME?: Benoni é o nome da cidade sul-africana onde nasceu a famosa actriz Charlize Theron. É também o nome de uma conhecida (embora pouco praticada ao nível magistral) abertura de xadrez. Como se isso não bastasse, é ainda um dos nomes próprios do tristemente célebre marechal Pétain, e o título de uma obra do romancista norueguês Knut Hamsun.
(Ver aqui.)
FELIZ ACASO NA REDE: Durante uma partida de xadrez online no Yahoo!, eis que o meu adversário francófono, ao aperceber-se do meu pseudónimo internáutico (que faz alusão ao mestre renascentista Lorenzo Lotto), comenta: "Grand peintre".
Minutos depois, o amante de arte bate-me com serena facilidade. Mas creio que nunca na vida me senti tão bem depois de uma derrota em xadrez.
domingo, maio 14, 2006
PURPURINAS? QUE MÁXIMO! VOU JÁ CONTAR À XANA!: Ao fim de três representações do "Sonho", o palco do auditório da Biblioteca Municipal Orlando Ribeiro assemelha-se a um oceano de purpurinas, tombadas do rosto das fadas e dos espíritos da floresta.
Fico a saber que, na manhã seguinte, o mesmo auditório vai acolher a missa dominical (numa graciosa demonstração de compatibilidade entre poder autárquico e paróquia). Por momentos, imagino o rosto do sacerdote cintilante de purpurinas extraviadas, em plena homilia. Vozes clamando milagre. Um ressurgir de fé em toda a freguesia do Lumiar, quiçá em Portugal. Peregrinações. Fátima às moscas. Preços do comércio local incrementados por um factor de três. Mercearias reconvertidas em lojas de círios.
(Não falemos sequer da possibilidade de algum adereço pouco solene, como as orelhas de burro de Bottom, ter ficado esquecido num local inoportuno.)
IF WE SHADOWS HAVE OFFENDED: O grupo de teatro amador "Teatro à Parte" produz neste momento a peça de Shakespeare "Sonho de Uma Noite de Verão", com encenação de Jorge Parente. As representações têm lugar no auditório da Biblioteca Municipal Orlando Ribeiro, em Telheiras, Lisboa. Três delas já lá vão; as restantes ocorrerão no próximo fim-de-semana.
O autor destas linhas faz parte do elenco, mas apressa-se a esclarecer, para alívio geral, que o seu papel é demasiado pequeno para que as probabilidades de arruinar por completo a peça sejam significativas.
O autor destas linhas faz parte do elenco, mas apressa-se a esclarecer, para alívio geral, que o seu papel é demasiado pequeno para que as probabilidades de arruinar por completo a peça sejam significativas.
A COR DA SOMBRA: Na linha que este blog tem vindo a cultivar desde o início, de concisão elíptica proporcional à magnitude íntima dos acontecimentos que a vida (essa mesma) acha por bem resgatar à improbabilidade, marco o fim deste período de silêncio com mais um quadro de Barnett Newman!
(Barnett Newman, "Canto II", 1963)
sábado, abril 22, 2006
Cansado de forjar alusões oblíquas, tangentes e assimptóticas às razões por detrás da sua escassa produção, o escrivão contenta-se com recomendar que não contem demasiado com ele nas próximas semanas. E deixa um quadro de Correggio, para deleite visual dos leitores frustrados.
Correggio, "O Rapto de Ganimedes", c.1531-1532.
Melhores dias virão!
segunda-feira, abril 17, 2006
BECKETT: Acreditem, dedicados leitores, que só algo de sério e poderoso me poderia ter impedido de assinalar o centenário do nascimento de Samuel Beckett na data devida, 13 de Abril. Aqui fica, com quatro vergonhosos dias de atraso, a menção, à falta de mais, ou de melhor, ou pelo menos de mais esforçado. Durante alguns tempos, o lema deste blog passará a ser "No symbols where none intended", que é a última frase do romance "Watt".
HISTÓRIA ALTERNATIVA: Luís Delgado é um reconhecido perito em história alternativa, com a particularidade picante de confundir com a realidade as alternativas engendradas pela sua fértil mente. Desta vez, LD vem-nos dizer que «Já todos percebemos que quem "ganhou" as eleições italianas, na verdade, e para todos os efeitos mediáticos, foi Berlusconi». É particularmente de apreciar a generosidade com que LD nos abrange na sua clarividência: não só ele, mas todos nós, teremos percebido que quem "ganhou" foi Berlusconi. Deve ter a ver com as aspas.
Na realidade, a leitura de LD não é de todo ilegítima. Partindo do princípio que, ao seu modo, ele pretende transmitir a ideia de que a vitória de Prodi, escassíssima e apoiada numa coligação volátil, foi uma vitória de Pirro, não se pode dizer que se trate de uma visão totalmente descabida. Porém, daí a metamorfosear a derrota de Berlusconi numa vitória, com ou sem aspas, vai um passo que só os afoitos se atrevem a dar; e LD é-o (afoito). Aliás, duvido que algum membro do estado-maior da Forza Italia ou de outra das agremiações do aglomerado "Casa das Liberdades" hesitasse um segundo em trocar esta "vitória" de que fala LD por uma vitória sem aspas, traduzida singelamente por uma maioria de votos expressos.
Quer-me parecer que, em todo o mundo, só duas pessoas acreditam que as eleições de 9 e 10 de Abril tiveram como resultado uma vitória de Berlusconi: o próprio Berlusconi e Luís Delgado. O primeiro na realidade, o segundo em metáfora. Um pouco à maneira do conto de Kafka sobre as parábolas, neste caso nenhum deles tem razão. Nem na vida nem na metáfora.
quinta-feira, abril 13, 2006
COMO SE A PRESTÁVEL SARAH NÃO SOUBESSE...: ...que o supremo prazer consiste em açucarar os iogurtes naturais açucarados.
terça-feira, abril 11, 2006
ABBIAMO VINTO!:
- Durante anos, senti relutância em visitar a Itália, país que muito amo, e onde tive o privilégio de passar alguns meses da minha vida. E essa relutância devia-se a um único homem: Silvio Berlusconi, uma das mais repugnantes figuras da política europeia.
- Por um feliz acaso, Berlusconi perde as eleições legislativas algumas semanas antes de eu voltar a Itália, por motivos profissionais. Dificilmente eu poderia pedir uma situação mais saborosa.
- A meu ver, o repúdio que merece Berlusconi deveria transcender ideologias e clivagens esquerda-direita: é uma questão de mera decência rejeitar a sua herança de incompetência, prepotência, vulgaridade e arrogância, assim como a dos tristes figurões que o acompanharam nesta desventura.
- Berlusconi parece incapaz de reconhecer a derrota, e menciona o exemplo da Alemanha para sugerir uma grande coligação. Talvez, com efeito, a situação alemã seja um bom termo de comparação: se Berlusconi quer imitar Schröder, e, como ele, agarrar-se ao poder a todo o custo, e até aos limites da humilhação, que lhe faça bom proveito.
- Pelos vistos, a Itália está cheia de coglioni. Suficientes, embora à tangente, para dar maioria à coligação de Prodi no parlamento. Quanto ao Senado, acreditou-se durante muito tempo que nele ficariam em maioria os aplicados discípulos de "Sua Emittenza", mas eis que os votos dos italianos no estrangeiro fizeram pender a balança para o outro lado. Pelos vistos, os italianos que emigram são mais coglioni do que os ficam.
- Regozijo-me mais com a derrota de Berlusconi do que com a vitória de Prodi. Porém, acredito que Prodi, graças à sua experiência e prestígio, poderá reunir as melhores condições para congregar esforços e unir interesses diversos de modo a chefiar um governo durável e forte.
- E agora, deseja-se que não se faça esperar em demasia a estreia do último filme de Moretti!
ALFARROBA 1, MORANGOS 0: Num restaurante, durante a refeição, eu distraía-me com um episódio dos "Morangos com Açúcar" transmitido por um aparelho de televisão com o som no mínimo. A dada altura, aparecem três personagens que eu não conhecia. Três, de uma assentada. Calmamente sentados num esplanada. Como se nenhum problema do mundo os atormentasse. Como se fossem inocentes de violação de um espaço ficcional que eu julgava auto-suficiente.
A consternação durou até à surpreendente fatia de tarte de alfarroba.
É A TAXONOMIA, ESTÚPIDO!: Na parede do bar da Faculdade de Ciências, alguém colou um cromo do Bollycao, representando, alegadamente, um "Tubarão Branco". Mas eis que uma alma caridosa (membro, quiçá, do departamento de Biologia Animal), corrigiu a legenda para "Tubarão de Pontas Brancas do Recife".
E você, quantos cromos do Bollycao corrigiu hoje?
terça-feira, abril 04, 2006
PERCUSSÃO NA BARATA SALGUEIRO: No filme "Out 1", a música ritmada de que se serve o grupo de Lili para o aquecimento antes dos ensaios dos "Sete Contra Tebas" resulta da percussão de um zarb, um tipo de tambor persa também chamado tonbak. Li isto algures, e tentarei confirmar.
LIVROS DE AUTORES ITALIANOS DO SÉCULO XX VERTIDOS PARA LÍNGUA ESLAVA EM LUGARES PÚBLICOS: Na livraria Escolar Editora, único foco civilizacional do moribundo centro comercial Caleidoscópio (ao Campo Grande), existe uma surpreendentemente vasta colecção de livros em russo, incluindo um de Alberto Moravia!
ALIÁS: De resto, perante garotices tão nauseabundas como esta, a minha vontade de chapinhar na vasta e azul-topázio piscina da blogosfera não é desmesurada.
quinta-feira, março 30, 2006
CINEMA E OBSESSÃO: Não concebo a cinefilia sem uma componente obsessiva. Ao longo dos anos, têm sido em número considerável os filmes com os quais entabulo uma relação que pula alegremente para lá das fronteiras da paixão e da afinidade, para se instalar nos terrenos da obsessão.
De entre os mais recentes, poderia citar "Pulp Fiction", "Mulholland Drive" e "Éloge de l'Amour". Durante anos, a minha mais cintilante obsessão tinha por nome "Rumble Fish", filme de Coppola que chegou a ser o meu filme da vida. E tenho sustentado igualmente obsessões de mais minúscula magnitude, por vezes só por uma cena (o beijo em "Shakespeare Wallah", de James Ivory, alguém se lembra?), ou por um filme visto a preto-e-branco nos gloriosos tempos das noites cinéfilas frente ao minúsculo televisor do quarto (dois exemplos entre vários, "Palermo oder Wolfsbourg", de Schroeter, e "Jonas qui aura 25 ans en l'an 2000", de Alain Tanner).
Quando vivi em França, compreendi que Jacques Rivette era o realizador cujas obras mais facilmente suscitavam obsessões no meu espírito influenciável. A larga distância dos adversários. Y' a pas photo.
Alguns dos seus filmes, como "Céline et Julie Vont en Bateau" e "La Bande des Quatre", extravasaram do domínio cinematográfico, a ponto de hoje os ver como parte integrante do meu processo de assimilação da cidade de Paris e da minha vida na altura.
Porém, nenhum filme de Rivette me obcecou como "Out One", que tive a felicidade de ver quer na versão curta (de 4 horas e meia...), "Spectre", quer na versão longa, "Noli Me Tangere", de 12 horas e meia repartidas por 4 cassetes VHS, acessíveis, por um golpe de felicidade, na mediateca Jean-Pierre Melville, situada nas proximidades do meu bairro.
"Out One Spectre" vai ser exibido na Cinemateca, na próxima 2ª feira. Ao contrário do que sucedeu com "L'Amour Fou", tenciono estar presente.
O ócio é o mais eficaz caldo de cultura para as ambições desmedidas: tenho vindo a alimentar a ambição de criar um site dedicado apenas a este filme, e a todas as suas ramificações: a "Histoire des Treize" de Balzac, Lewis Carroll, os actores, o "Prometeu Agrilhoado", e Paris, Paris, sempre Paris...
Provavelmente, nunca o farei, mas a vontade é muita, e agudiza-se quando constato o pouco que existe na Internet sobre Rivette, e, em particular, sobre este filme.
Tentarei, em ocasiões próximas, espremer ao máximo o Google e outros motores de busca, e prometo partilhar algumas das minhas descobertas.
ANÚNCIOS DE GATO PERDIDO INVENTADOS (15):
Perdeu-se lindo gato,
em boa verdade por razões que pouco devem ao mistério;
chama-se Cambremer (nome que os rústicos achavam pretensioso,
e os pretensiosos, rústico), tem espírito livre e alma de filósofo;
pinta branca solitária na nuca felpuda.
Fugiu do lar (dá para crer?) em protesto
contra a prevalência de gatos no imaginário icónico ocidental
no papel de encarnações mefistofélicas!
De que serviriam os meus apelos ao bom-senso?
Desapareceu, devorou-o um lusco-fusco húmido e
desde então dias ingratos sucedem-se a dias
vazios.
(Conservas de cavala picante são engodo eficaz.)
Julguei vê-lo há dias,
numa foto incompetente de jornal de bairro
numa cerimónia de inauguração de centro de dia.
Juraria que era ele, roçando a calça do presidente
da Junta!
Mas não acreditei em tamanha sorte,
porque a sorte nunca me ofereceu
alguma coisa que se visse.
E agora a minha vida é como um mau poema
em verso branco,
sem o meu inacreditavelmente belo e
teimoso gato.
quarta-feira, março 29, 2006
O PRÍNCIPE DE HOMBURGO: Ou de como até o preto e branco pode ser verde. Obrigado, Cristina!
(Gérard Philipe tomou parte numa famosa encenação do "Príncipe", no Festival de Avignon, em 1951, sob a direcção de Jean Vilar. Uma muito jovem Jeanne Moreau também fazia parte do elenco.)
LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS:
(1) Na linha verde do metropolitano, um cavalheiro folheava aquilo que me pareceu ser uma edição omnibus da "Recherche". Saiu em Telheiras. Proust em Telheiras... Porque não Walter Benjamin em Massamá?
(A propósito deste post: é certo que a estação de Telheiras fica bastante perto da do Campo Grande: não 300 metros, mas aí uns 700 ou 800. Porém, é de ter em conta que a presença obstrutiva da 2ª Circular, e da Avenida Padre Cruz transformam esses 700-800 metros numa missão quase impossível para o pedestre, o que pode ajudar a subtrair esta extensão da linha verde à categoria de aberração.)
(2) Também na linha verde, um jovem, envergando óculos escuros (pormenor irrelevante, mas que me pareceu adequado à situação) lia "Saturday", de Ian McEwan. Em versão original. De pé. 20 pontos de bónus.
segunda-feira, março 27, 2006
NA ROÇA COM EUSTACHE: Bem, na verdade não foi na roça, mas sim na Cinemateca Portuguesa (Av. Barata Salgueiro) que se exibiu hoje o emblemático "La Maman et la Putain", obra de referência da nouvelle vague tardia, da autoria de Jean Eustache.
Nunca o vi, e também não foi desta que o descobri, assim como amanhã, à mesma hora (19h30), não tenciono marcar encontro com "L'Amour Fou", um dos mais empolgantes Rivettes de sempre. O problema com este ciclo "Longuíssimas Metragens" tem precisamente a ver com o adjectivo e respectivo superlativo: quanto mais longa é a sessão, mais espinhoso se torna acomodá-la num emprego de tempo já de si saturado.
quinta-feira, março 23, 2006
O SOL TEM UM ENCONTRO COM A LUA: Perante a indiferença chocante das forças vivas bem pensantes deste país, Maria José Costa Félix, na sua página "Outra Porta" do suplemento "Xis" do "Público", continua a partilhar a sua sabedoria, e a recordar-nos verdades simples que, se fôssemos capazes de as escutar, talvez tornassem as nossas vidas um bocadinho melhores.
Na semana passada, por exemplo, ficámos a saber que todos temos um Sol e uma Lua interiores.
Esta afirmação ficará, quiçá, mais bem contextualizada, se nos recordarmos que, algumas semanas atrás, Maria José Costa Félix nos anunciara a realização de um workshop de xamanismo.
Quem de entre nós será capaz de dizer, sem desviar os olhos, que nunca se sentiu tentado a frequentar um workshop de xamanismo?
terça-feira, março 21, 2006
CESARIANA: A última crónica do Prof. João César das Neves parecia, pelo seu começo cordato, ser uma daquelas em que são evitados os temas fracturantes, e em que predomina uma visão plena de bom senso sobre a economia e temáticas anexas. Sucede-me, com embaraçante frequência, concordar parcialmente com o Prof. Neves, quando ele se remete aos assuntos que conhece bem e evita incursões trapalhonas nos terrenos da moral, da sociedade e da iniquidade dos tempos que vivemos.
Porém, qual diabrete ejectado de caixinha, eis que as reflexões do Prof. nos conduzem para um terreno da sua predilecção, a saber a interrupção voluntária da gravidez, questão sobre a qual ele possui opiniões que, como dizer?, não deixam demasiada margem para cambiantes de qualquer espécie.
Procedendo como geralmente procedem todos aqueles que sentem como inevitável a concretização dos seus mais sombrios pesadelos, o Prof. Neves navega alegremente numa espiral de exagero e enormidade linguística, e permite-se dislates de um calibre que mais não reflecte do que o seu desespero face a um mundo que deixou de obedecer aos ditames da única moral admissível: a sua.
«Aí [José Sócrates, em entrevista ao "Expresso"] afirmou: "A nossa agenda em matéria de alargamento de direitos vai começar pelo aborto." Aqui temos um homem, governante de um país moderno e civilizado, que pretende usar a melhor máquina jamais montada de criação de bem-estar, o Sistema Nacional de Saúde, para arrancar bebés do seio de suas mães.»
Há muito para admirar, nesta última frase (e no resto do artigo):
- o aborto reduzido a corolário huxleyano e distópico da busca desenfreada do prazer e da técnica da sociedade contemporânea, como se não se tratasse de um drama duradouro ao longo dos séculos;
- a mais que fantasista sugestão de que a interrupção voluntária da gravidez é algo que não existe, que ninguém no Continente e Ilhas pratica, e que o Governo pretende aplicar por decreto, tal como o cartão único de cidadão ou o fim das progressões nas carreiras;
- a ideia de que o Sistema Nacional de Saúde, esse ninho de sádicos e pervertidos, tem como um dos seus objectivos máximos "arrancar bebés do seio de suas mães";
- a suposição implícita de que o aborto, caso avance o projecto de legalização, passará a ser imposto a mães desprevenidas que, caso contrário, não hesitariam um segundo em levar a gravidez ao seu termo.
É descoroçoante constatar que, poucas linhas abaixo deste sonoro arrufo de originalidade, o Prof. Neves cai na banalidade desnecessária da comparação com Hitler. Meus senhores: estaria na hora, parece-me, de escolher espantalho menos datado.
Porque perco eu tempo com tamanhos desastres de argumentação? Chamaram-me a atenção estas palavras do Vasco: «As obsessões quase sempre revelam fraquezas, desejos, temores e, por arrastamento, falta de originalidade.» Talvez a explicação se resuma a isto: uma singela obsessão pessoal. Não ouso proclamar-me excepção.
UM FILME DA VIDA:
(Nota: uma versão mais curta deste texto foi publicada no "Semanário" do passado dia 17 de Março.)
Gosto muito da expressão “filme da vida”. Acho atraente a noção de um filme fazer parte da vida de alguém, de se transformar num pequeno novelo de afinidades e reminiscências que por vezes, e de súbito, adquire o estatuto de condição necessária para a felicidade.
Não sei dizer a quantos filmes poderei aplicar estas palavras, no meu caso pessoal. Menos de cem, diria. Certamente mais de uma dezena. De entre estes, sinto-me mais compelido a falar dos menos visíveis, dos menos assíduos em ecrãs pequenos ou grandes. Não se trata de perversidade. Trata-se de apego à diversidade cinéfila, de desejo de suscitar curiosidade.
“Un Étrange Voyage” é um filme realizado por Alain Cavalier em 1980. O percurso deste realizador tem também algo de estranho e raro: após um punhado de filmes num registo de thriller político, nos anos 60, entrou numa fase de maior depuração, a partir dos anos 70. A uma inesperada consagração pública com o celebrado “Thérèse” (1986) seguiu-se uma deriva cada vez mais radical na direcção de obras pessoalíssimas, no limite do solipsismo, entre o documentário e o diário íntimo.
Não aprecio a expressão “este filme conta a história de...”. Direi, pois, que “Un Étrange Voyage” se constrói em torno da viagem, em jeito de busca, de uma filha e de um pai (o admirável Jean Rochefort) cuja mãe terá sofrido um acidente durante um trajecto de comboio.
As razões que me levaram a aderir de forma tão intensa a este filme são diáfanas, impalpáveis. Há a luz, a maneira de filmar o pudor e a solidão, a contenção. E há essa noção de estarmos a meio caminho entre o cinema narrativo, em moldes clássicos, que era o de Cavalier no início da carreira, e esse vertiginoso ponto de fuga estético que já se vislumbrava então.
Sucede-me esquecer de um filme, que não revisito há muito, as imagens, o enredo, os sons, os momentos marcantes. Mas isso não é grave. Pedura a impressão que na altura me causou: o gosto no seu estado puro, quase desmaterializado; uma cumplicidade imperecível e só nossa.
segunda-feira, março 20, 2006
ACÇÃO DE GRAÇAS: O Legendas & Etcaetera também achou por bem mencionar o aniversário deste blog sobre Kleist, e pelo facto sejam-lhe dadas graças, e que o deus dos blogs lhe dê alento, e tudo aquilo que se encontre na entrada "alento" de um bom dicionário de sinónimos.
ZEN: Declaro solenemente, com a mão sobre a Constituição, os contos de Kafka e o livro de Pantagruel, que oferecerei um milhão de euros a quem encontrar um título de autobiografia mais brilhante do que este: "What's Welsh For Zen" (John Cale).
PLAYLIST MENTAL: Por nenhuma razão aparente, não consigo libertar-me do refrão de "Elle A les Yeux Revolver", canção honestamente pirosa de Marc Lavoine (1985).
Elle a les yeux revolver, elle a le regard qui tue
Elle a tiré la première, m'a touché, c'est foutu.
Ao frio, ao sol, à chuva, ao vento, ao granizo (deu para tudo, este fim-de-semana).
quinta-feira, março 16, 2006
MAS O PROBLEMA NÃO ESTÁ NA LITERATURA: Não devia angustiar-me, mas angustia-me a certeza de que, mesmo que todos os (colossais e medonhos) problemas da literatura fossem resolvidos, os verdadeiros problemas da vida não teriam sido sequer aflorados.
Quando resvalo para paráfrases pouco imaginativas de Wittgenstein, sei que é chegada a altura de ir dormir.
EXTENSÃO DO DOMÍNIO DO AGRADECIMENTO: Estendo os meus agradecimentos ao Alfinete d'Ama e ao Digitalis, por amáveis referências ao terceiro aniversário deste espaço.
Aproveito para referir que este blog é um blog sem tabus, eterna vítima do politicamente correcto, e que não recebe lições de moral de ninguém. (Contudo, se se tratar de lições de sapateado, a preço moderado, je suis preneur.)
Havia uns tabus no princípio, mas agora já não há.
EURICO, O SEMPRE FIEL: Ser igual a si mesmo é uma guapa virtude, e, neste capítulo, Eurico de Barros galga fasquias de fulgurância estética com que os meros mortais apenas podem sonhar.
Recentemente, o sr. Barros adjectivou de "feministóide" o filme "North Country", de Niki Caro. Não fosse a prolongada penúria de tempo livre, e este comentário bastaria para me propulsionar para a sala de cinema mais próxima que exibisse este filme.
Os tempos mudam, as vontades idem-aspas, mas certas coisas permanecem inalteráveis. A desaprovação chocarreira do sr. Barros continua a ser um dos mais fiáveis selos de qualidade.
segunda-feira, março 13, 2006
O QUE FAZ FALTA É LINKAR A MALTA: E eis que surgem do nada dois novos enlaces para a minha coluna de favoritos: o Cine-Australopitecus e o Um Amigo Pop. O primeiro é cinefilia em estado puro, e tem a suprema virtude de não confundir amor pelo cinema com vassalagem ao calendários das estreias, e submissão à voracidade dos assuntos e filmes que estão "a dar" (ou, mais exactamente, a vender). Quanto ao segundo, protagoniza um milagre ao alcance de poucos: ser heterodoxo sem procurar ser original a todo o custo. São blogs cuja leitura me dá muito prazer, e que recomendo vivamente.
LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Um cavalheiro lia o "Crátilo" de Platão na zona de restauração do centro comercial Acqua, na avenida de Roma.
Tão súbita foi a minha euforia perante este avistamento que pouco faltou para que eu derrubasse o meu tabuleiro, onde se equilibravam precariamente, entre outros, um bacalhau com natas muito satisfatório e um copo a sério, daqueles de vidro.
O que pensaria Platão se viesse a saber que, dois milénios e meio após o seu falecimento, uma obra sua guardaria no seu bojo o poder de provocar uma quase-catástrofe burlesca?
sexta-feira, março 10, 2006
JAM2: José Álvaro Morais ambicionava realizar uma adaptação de "A Corte do Norte", de Agustina Bessa-Luís. Essa ideia nunca avançou para lá da fase de projecto. Contudo, o filme existe no IMDB! Nada como o IMDB para realizar os sonhos frustrados dos cineastas por esse mundo fora.
(Apetece-me deixar um comentário extravagantemente elogioso sobre esse filme inexistente.)
quinta-feira, março 09, 2006
JAM1: No livro sobre José Álvaro Morais, editado pela Faro 2005 Capital Nacional da Cultura, a dada altura descreve-se como parte da atribuladíssima rodagem de "O Bobo" ocorreu nos estúdios da Tóbis, numa altura em que, no mesmo local, também se desenrolavam as rodagens de "Silvestre" e "Francisca".
Essa simultaneidade espacial e temporal na génese de três monumentos absolutos do cinema português é algo que, convenhamos, provoca titilações na medula.
«no som original está praticamente toda a história da produção do cinema português daqueles anos: estão os carpinteiros do Oliveira; estão os gritos do Paulo Branco durante o 'Silvestre'. O Vasco Pimentel teve de refazer toda a banda sonora depois.» (Entrevista a M.S. Fonseca, "Expresso", 1991.)
E eu sonho com essa versão de "O Bobo" contaminada por tão glorioso palimpsesto sonoro.
terça-feira, março 07, 2006
I WISH I KNEW HOW TO QUIT YOU:
Às vezes, é isto mesmo que me apetecia dizer ao meu blog: quem me dera deixar-te e ir viver a minha vida, de preferência numa paisagem montanhosa de parque natural, fotografada por um profissional de Hollywood.
Os meus leitores parecem-me mais fiéis ao blog do que o seu próprio autor, e continuam a perder tempo por aqui, em vez de irem ao teatro, à discoteca, ou à Worten comprar electrodomésticos com aquele cartão que permite pagar em 3 meses sem juros.
Talvez nutram a secreta esperança de encontrar dono para os gatinhos perdidos que vão recolhendo nas ruas da cidade.
Queria deixar um grande agradecimento e um abraço XXL àqueles de entre os fiéis que assinalaram o 3º aniversário do 1bsk: o Aba de Heisenberg, o Almocreve das Petas, o Dias Felizes, o Linha dos Nodos, o Memória Inventada, o Ópera e Demais Interesses, o Seta Despedida, o Welcome to Elsinore, e o Yesterday Man.
Se omiti alguém, as minhas desculpas (também XXL).
VOCÊ SABE QUE ALGUMA COISA VAI MAL QUANDO...: ...Eurico de Barros em pessoa lamenta a inexistência da «menor sombra de agitação contestatária à la Michael Moore» na cerimónia dos Óscares.
DEUS QUER, O HOMEM SONHA...: Já tardava o momento da primeira menção neste blog à escala Scoville, que mede o grau de pungência das malaguetas.
Desde os primórdios da história que o Homem se esforça por medir e quantificar todos os fenómenos que presencia, desde os mais óbvios até aos mais subtis e, na aparência, incomensuráveis. Parece-me, manifestamente, ser este o caso das malaguetas.
Assim se conclui que a escala de Scoville representa uma das realizações mais supremamente gloriosas do Génio Humano!
Na escala de Scoville, as malaguetas mais picantes, as "Habenero" e as "Scotch Bonnet", atingem um valor que pode chegar aos 300 000.
Para um palato europeu, porém, presumo que exista um fenómeno de compressão de escala para lá de um certo limiar: a capacidade para distinguir entre, digamos, 10 000 e 20 000, deve depender menos da acuidade gustativa do que da intensidade da dor sentida nas mucosas bucais e na língua.
(Estou disposto a assinar compromisso de honra em como este post e este enlace não são apenas débeis pretextos para empregar o vocábulo "pungência".)
CURSO DE CHURRASCO: Chegou à minha caixa de correio uma mensagem de uma certa Luciana Souza, cujo assunto era "Curso de churrasco", e que o obtuso filtro do Yahoo! classificou levianamente como "Spam". Um curso de churrasco era talvez aquilo de que eu necessitava para colorir a minha vida. Zeus é grande, este blog é pequenino, o Jardim Ponge definha por falta de cuidados do jardineiro que sou eu, e vai sair mais um livro do Walser muito em breve. E a primavera?
segunda-feira, março 06, 2006
NEM HOLLYWOOD NEM SUNDANCE: Nem Hollywood nem Sundance, esta poderia ser uma divisa de Paul Auster, que se prepara ("Público" de 25 de Fevereiro) para rodar, perto de Lisboa, a sua nova longa-metragem. Eis uma declaração de intenções com a qual não posso deixar de simpatizar. Hollywood não passa de uma máquina de sorver e distribuir dólares (nem sempre a contento de todos), que há muito deixou de ter seja o que for a ver com qualquer coisa aparentada à criatividade ou à integridade artística. Quanto ao festival independente de Sundance, quer-me parecer, por amostras que têm atravessado o meu caminho, e por opiniões alheias, que os filmes que por lá medram e recolhem graúda soma de galardões estão demasiado próximos da órbita hollywoodesca, das suas categorias e dos seus ditames, e acima de tudo dos seus espartilhos, para se afirmarem como reais alternativas.
O cinema verdadeiramente estimulante e original que nos chega dos EUA (Hartley, Lynch, Jarmusch, Van Sant...) encontra-se não apenas (e necessariamente) nos antípodas de toda a lógica mercantilista de Hollywood, mas também razoavelmente alheado dessa noção de cinema "independente" formatada e bem comportada que enche de júbilo todos aqueles que aplaudem, embevecidos, sempre que os Óscares premeiam filmes como "American Beauty" e "Brokeback Mountain", como quem diz, «Vêem? Afinal a Indústria também sabem premiar a ousadia e a inteligência. Aqui está a riqueza e a força do cinema americano.».
Houve um tempo em que eu seguia com entusiasmo as entregas dos Óscares, e houve um tempo em que as repudiava de forma quase, digamos, militante. Hoje em dia, a minha reacção é de indiferença total, e tão impenetrável como a convicção de que nada do que se passa naquele auditório, naquela noite, tem a ver com cinema.
(Resta-me desejar que, das excelentes intenções de Auster, admirador de Satyajit Ray, Ozu, Bresson e Bergman, nasça algo menos auto-indulgente e formalmente mais vigoroso do que aquilo que ele teve oportunidade de produzir até hoje, em matéria de sétima arte.)
sexta-feira, março 03, 2006
ANNIE AIME LES SUCETTES/LES SUCETTES À L'ANIS: E já que estamos numa de pegar em deixas do eminentemente parabemizável Memória Inventada, que com raro brio entra também no seu 4º ano, não resisto a evocar outro exemplo do apetite insaciável do público francês pelos arquivos televisivos, também este envolvendo Serge Gainsbourg. Uma das mais celebradas anedotas da história da canção francesa envolve France Gall, cantora da minha predilecção, e para quem Serge, com quem esteve romanticamente envolvida, compôs o tema de sucesso "Les Sucettes" ("Os Chupa-chupas", em tradução literal, se bem que pouco elegante). Consta que France, com toda a incorrupta candura de que era capaz uma jovem francesa dos anos 60, só muito mais tarde atingiu o segundo sentido brejeiro da canção, onde a dada altura se diz:
Lorsque le sucre d'orge
Parfumé à l'anis
Coule dans la gorge d'Annie,
Elle est au paradis.
Mais tarde, Michel Berger, cantor e compositor de nomeada (precocemente desaparecido) e ulterior parceiro romântico de France Gall, reprovou a Gainsbourg ter-se tão despudoradamente aproveitado da inocência da mocita; e fê-lo no decurso de uma dessas emissões de variedades condimentadas com (nem sempre amenas) cavaqueiras, tão ao gosto francês. E posso garantir que chega a ser embaraçoso assistir a uma tão leviana evocação titubeantemente plantada nos terrenos da ética, da biografia e do puro ajuste de contas.
(Quanto à interpretação que o próprio Gainsbourg faz de "Les Sucettes", o mínimo que se pode dizer é que pouco é deixado à imaginação do ouvinte. Todo o cabotinismo de que ele era capaz posto ao serviço da personificação de um velho porco e vagamente safado.)
ATRACTOR SUBURBANO: É verdade, Vasco, que Massamá funciona como incontornável atractor para as minhas incursões sociológicas fictícias. Quem me dera que as coisas se ficassem por aí. Mas sucede também que ambiciono escrever um bildungsroman cuja acção terá centro de gravidade num bar karaoke da Ramada, Odivelas. E isso, convenha-se, ameaça os limites do socialmente aceite.
quarta-feira, março 01, 2006
JÁ RESISTIMOS MAIS TEMPO DO QUE MUITOS GOVERNOS CONSTITUCIONAIS: Cumprem-se hoje 3 anos sobre o primeiro post do 1bsk. Nesses tempos, eu era jovem e inconsciente, os meus cabelos ondulavam ao vento, e ouvia Jethro Tull pela noite dentro. Hoje, quer-me parecer que um dos pouquíssimos denominadores comuns que subsistem entre a minha vida de então e a de agora é esta coisa verde e exasperante, que consumiu mais da minha atenção e tempo do que seria sensato, mas muito menos do que eu desejaria.
Por mais que a minha vida dê piruetas e mortais à retaguarda, espero que o futuro próximo me traga as migalhas de tempo e ânimo necessárias para, sob o alto patrocínio de Kleist, contnuar a defender as causas de sempre: Igualdade, Liberdade, Fraternidade, o pensamento crítico, o cinema sisudo e intelectualóide, bolos de arroz, a memória do Dr. Sousa Martins, o xadrez, e todos, todos, mas mesmo todos os gatinhos perdidos do mundo!
(Obrigado, leitores.)
sexta-feira, fevereiro 24, 2006
XADREZ: O mítico torneio de Linares, por vezes apodado de "Wimbledon do xadrez" por jornalistas sem imaginação, reparte-se, este ano, entre dois continentes: apenas a segunda metade decorrerá na vila espanhola que lhe deu o nome, ao passo que a primeira metade, que já se iniciou, está a ter lugar em Morelia, México.
(Na era da deslocalização, tais tropelias já não são de molde a surpreender. Porém, todos esperamos que estas derivas geográficas não saiam dos limites do razoável. Nos dias que correm, os torneios até que poderiam decorrer via Internet, sem que cada jogador fosse obrigado a abandonar a sua cidade de residência. Transformar os grandes-mestres em trotamundos, para benefício de patrocinadores e edilidades, pode ter o seu encanto, e agradar aos fãs, mas corre-se o risco de transformar um torneio de xadrez numa manifestação circense.)
Para já, o líder isolado é o húngaro Péter Lékó. O campeão do mundo Veselin Topalov está a realizar um torneio com mais baixos do que altos.
Infelizmente, o meu ídolo Vassily Ivanchuk acaba de averbar duas derrotas consecutivas. E isto apesar do cuidado que coloca em limpar escrupulosamente o tabuleiro e as peças...
...chegando ao ponto de falar com elas, baixinho, talvez para lhes dar coragem, ou para as reconfortar antes da dura batalha que se avizinha.
«Vá lá, querido peão, sê bonzinho... Sê ajuizado. Vai até à 8ª fila, promove-te, transforma-te em Dama para me fazeres ganhar este jogo tão importante...» (Fotos de Nadja Woisin.)
(Podem ver aqui esta extraordinária performance, em vídeo.)
...chegando ao ponto de falar com elas, baixinho, talvez para lhes dar coragem, ou para as reconfortar antes da dura batalha que se avizinha.
«Vá lá, querido peão, sê bonzinho... Sê ajuizado. Vai até à 8ª fila, promove-te, transforma-te em Dama para me fazeres ganhar este jogo tão importante...» (Fotos de Nadja Woisin.)
(Podem ver aqui esta extraordinária performance, em vídeo.)
TOP 25 DO CINEMA PORTUGUÊS (1): No "JL" dos passados dias 1 a 14 de Fevereiro, foi publicada uma lista dos melhores filmes portugueses dos últimos 25 anos, resultante da votação de um painel composto por 19 críticos.
Os resultados, a meu ver, forneceram uma proporção apreciável de surpresas. Mas vamos por partes. Antes de mais, para quem não teve acesso à lista, aqui ficam os 10 filmes mais votados:
1. Noite Escura (João Canijo)
2. Francisca (Manoel de Oliveira)
2. Recordações da Casa Amarela (João César Monteiro)
4. Os Mutantes (Teresa Villaverde)
4. Um Adeus Português (João Botelho)
4. Vale Abraão (Manoel de Oliveira)
7. A Comédia de Deus (João César Monteiro)
7. O Delfim (Fernando Lopes)
7. Ossos (Pedro Costa)
7. Vai e Vem (João César Monteiro).
Da lista dos 25 melhores (na realidade são 28, devido aos empates) constam ainda os seguintes realizadores: Marco Martins, António Pedro Vasconcelos, Mário Barroso, Paulo Rocha, Margarida Cardoso, José Miguel Ribeiro, Manuel Mozos, António Reis e Margarida Cordeiro, João Pedro Rodrigues, João Mário Grilo, José Fonseca e Costa e José Nascimento.
De entre as ausências mais notórias, permito-me salientar duas: Jorge Silva Melo e José Álvaro Morais. E se do primeiro ainda se pode dizer que tal se terá devido a uma obra relativamente esparsa, sem que nenhum filme se destaque marcadamente dos demais (mas nem "Ninguém Duas Vezes" nem "António, Um Rapaz de Lisboa" desmereceriam deste elenco), o caso de José Álvaro Morais assume, a meu ver, foros de escândalo. Como é possível que "O Bobo", esse filme imenso, não figure entre os maiores do cinema português, de todos os tempos? Isto sem menosprezo para com "Peixe Lua" e "Quaresma", bem entendido.
(A Rodagem de "O Bobo" teve o seu início em 1979, embora o lançamento tenha ocorrido apenas em 1987. Espero não ter sido este um critério de exclusão, numa lista confinada aos últimos 25 anos.)
(continua...)
PARA UMA ÉTICA E UMA ESTÉTICA DO GATO PERDIDO (2):
(entrevistas de rua)
«Gatos perdidos? Bem, eu tive um gato que era perdido antes de o ser. Mesmo dentro de casa, perdia-se com muita frequência. Era vê-lo, no corredor, de focinho alçado, com o ar mais compenetrado do mundo, incerto do caminho. Causava um certo dó vê-lo tão à míngua de olfacto, de instinto, e de outras coisas que os gatos costumam possuir em enorme abundância. E nem é que o apartamento fosse grande, não passava de um T2 nas Avenidas Novas. Bem, na realidade, estou a faltar à verdade. Não era um T2 nem era nas Avenidas Novas, era uma mansão colonial no Estado da Virgínia. E não era um gato, mas sim um porquinho da Índia. E nada disto se passou na realidade, trata-se de uma história curta da Carson McCullers, ou de um seu seguidor, dos mais talentosos. Carson parece nome de homem mas ela era uma mulher. Ah ah. Passe um bom dia.» (U.M., treinador de salto em altura, Vialonga.)
«O que é um gato perdido? É um gato que não consegue encontrar o caminho de volta. Mas o caminho de volta, essa entidade ectoplásmica que tanta gente supostamente douta teima em reificar, exige alguém que o percorra, que o individualize de entre a miríade de caminhos que se abrem ao livre arbítrio humano, neste caso felino. Sem sujeito, não há caminho. Daqui decorre que um gato apenas se pode considerar perdido quando deixa de o ser, quando desbrava o espaço virgem que o separa do lar e do pirezinho de leite, conquistando o direito ao seu estatuto e ao mimo dos donos, que, por sinal, nunca é em quantidade suficiente.» (A. S., estenodactilógrafa, Dafundo.)
«É interessante que me tenha colocado essa pergunta, pois encontro-me precisamente a redigir uma tese sobre a omissão de figuras felinas na história da arte ocidental. Ocupo-me sobretudo do período impressionista. Nem todos os amadores se dão conta da subtileza de que um Monet deu mostras ao evitar inserir gatos na sua série dos Nenúfares. Cada quadro traz consigo uma nova e original aproximação ao tema, uma nova forma de declinar o leitmotiv da ausência de corpo peludo e rechonchudo, vagamente entediado.» (R.C., funcionário dos serviços postais, Massamá.)
Claude Monet, "Nymphéas", 1916-1919.
quarta-feira, fevereiro 22, 2006
JARDIM PONGE(2):
É de bom tom desconfiar sempre que algo, seja poeta ou perfume de gelado, aparece definido pela negativa. Mas há casos que manifestamente a tal se prestam. Ponge é um deles. Ponge desconfiava da famosa afirmação de Rimbaud
«je travaille à me rendre voyant»
(de uma carta a Georges Izambard de 1871, datada dois dias antes de uma outra, a Paul Demeny, onde esta ideia é explorada com maior profundidade).
Ponge era um poeta da materialidade, um cultor da expressão enquanto labor, radical e programaticamente alheio a qualquer forma de vidência.
«Cela dit, il fallut attendre plusieurs siècles
(Pour que l'on rebaisse les yeux
Et regarde à nouveau par terre.)»
(escreveu ele no seu poema em movimento "La Figue").
E agora, como a intempérie deixou marcas neste pequeno jardim, vou muito ladinamente dedicar-me a apanhar alguns ramitos caídos.
quarta-feira, fevereiro 15, 2006
O VOS OMNES QUI TRANSITIS: Hoje li uma frase que, por razões difíceis de compreender, me prendeu a atenção. Vem no "Penguin Guide to Compact Discs". Reza assim: «Alessandro Stradella wrote church music which combined drama with remarkable serenity and expressive beauty.»
Quem dera a muitos escritores portugueses (pertencente a uma das famigeradas capelinhas ou melancolicamente fora delas) esta desempoeirada concisão formal e este poder expressivo sereno e discreto. Stradella (1644-1682) foi um compositor italiano, morto barbaramente em Génova a golpes de punhal, por um assassino contratado ou (segundo as fontes) por uma amante ciumenta.
A PROPÓSITO DE UM SUECO SISUDO: Há um site sobre Bergman que é uma descoberta recente, e que promete muito.
OS DEZ MELHORES FILMES DE 2005: O meu filme preferido do ano que há pouco findou foi "Saraband", de Ingmar Bergman.
Regra geral, alusões a uma hipotética "idade de ouro" do cinema provocam-me urticária.
Após assistir a "Saraband", porém, senti que tinha estado perante um objecto vindo de longe, de tempos distantes em que o cinema era ainda uma aventura intelectual constante, e em que a ousadia artística ganhava uma relevância vital na opinião pública.
Talvez esteja a romantizar uma época que não vivi. Se assim for, seja: os despojos que deles me chegaram parecem autorizar todos os devaneios sobre os anos em que Fellini, Buñuel, Antonioni, Bresson, o próprio Bergman, povoavam os ecrãs da Europa com estimulante regularidade.
"Saraband", para além desse filme assombroso que é, surge também como exaltante nota de continuidade numa carreira assombrada por uma questão que parece, por vezes, capaz de aglutinar todas as demais:
Como fazer coabitar, numa só vida, os tormentos existenciais e as emoções humanas?
Regra geral, alusões a uma hipotética "idade de ouro" do cinema provocam-me urticária.
Após assistir a "Saraband", porém, senti que tinha estado perante um objecto vindo de longe, de tempos distantes em que o cinema era ainda uma aventura intelectual constante, e em que a ousadia artística ganhava uma relevância vital na opinião pública.
Talvez esteja a romantizar uma época que não vivi. Se assim for, seja: os despojos que deles me chegaram parecem autorizar todos os devaneios sobre os anos em que Fellini, Buñuel, Antonioni, Bresson, o próprio Bergman, povoavam os ecrãs da Europa com estimulante regularidade.
"Saraband", para além desse filme assombroso que é, surge também como exaltante nota de continuidade numa carreira assombrada por uma questão que parece, por vezes, capaz de aglutinar todas as demais:
Como fazer coabitar, numa só vida, os tormentos existenciais e as emoções humanas?
domingo, fevereiro 12, 2006
BOICOTES E CONTRA-BOICOTES: O escritor egípcio Naguib Mahfouz, prémio Nobel da literatura, declarou apoiar o boicote aos produtos dinamarqueses, afirmando, entre outras coisas, que "o mundo só compreende a linguagem da força", e que "há que fazer a distinção entre liberdade de expressão e o desrespeito pelos símbolos religiosos".
Pelo que me toca, vou boicotar os livros de Naguib Mahfouz. Tenho dois romances seus na minha estante, e vou abster-me de os reler.
Não haverá por aí ninguém que me queira boicotar a mim?
sexta-feira, fevereiro 10, 2006
NOCTURNO: A meio da noite, confundi (não pela primeira vez) o distante rumor do tráfego na 2ª Circular com uma qualquer obra de música erudita contemporânea, proveniente do apartamento de um hipotético vizinho melómano e insone.
Todos temos um Arvo Pärt dentro de nós, ou, à falta disso, dentro do motor das nossas viaturas.
PROMESSAS: O 1bsk nunca foi parco em promessas. E porquê abandonar tão amável via?
Dentro em breve, conte o estimado leitor com a divulgação integral da ementa do jantar de homenagem oferecido pela classe médica ao Dr. Sousa Martins, em 1897, após a Conferência Sanitária de Veneza em que este participou.
Não sei se tal divulgação será oportuna, nem se o Dr. Marques Mendes a consideraria prioritária, em vista do periclitante estado da economia nacional. Mas há ocasiões na vida em que o bom senso cede perante o poder evocativo de uma Suprême de Volaille à la Maréchale.
quinta-feira, fevereiro 09, 2006
JARDIM PONGE (1): A delicada natureza de um jardim não se compadece com o desleixo que se tem instalado como modo de ser deste blog. A falta de chuva não vem senão agravar as coisas.
Por hoje, limito-me a semear algumas palavras que, espero, acabarão por germinar no tempo certo, e nunca antes nem depois, não sei se ao sabor do acaso ou da necessidade. (Abstenhamo-nos de meter foice em seara alheia; e, já agora, abstenhamo-nos igualmente do recurso a metáforas agrícolas.)
Paganismo.
Materialismo.
Objecto.
Paciência.
Resistência.
Linguagem.
Expressão.
Montpellier.
Natureza.
Lucrécio.
Busca.
quarta-feira, fevereiro 08, 2006
CHAMADA DE ATENÇÃO...: ...para mais um artigo a não perder, como aliás se vem tornando um hábito no Esquerda Republicana.
SALVAR AS APARÊNCIAS: Segundo Maurice Blanchot, Kafka estava interessado em saber em que momentos e com que frequência, numa conversa com oito pessoas, uma pessoa teria de falar para não ser considerada taciturna.
Eis o que me faz gostar ainda mais tanto de Kafka, pela legítima preocupação, como de Blanchot, por ter achado oportuno mencioná-la.
OS DEZ MELHORES FILMES DE 2005 (4 a 2):
nº 4: "Last Days", de Gus Van Sant.
Cinema, nada mais que cinema (e, crucialmente, nada menos do que cinema). Poucos, como Van Sant, sabem trazer ao de cima o que há de mais impenetrável, e simultaneamente mais luminoso, nas personagens que povoam os seus filmes. Escrevi sobre este filme aqui.
nº 3: "Rois et Reine", de Arnaud Desplechin.
A maior revelação do cinema francês dos últimos dez ou vinte anos. Para lá dos géneros, mas acenando ao melodrama, ao burlesco e à tradição do cinema naturalista francês, este ciclone de exuberância criativa é também um enorme filme de enormes actores. Emmanuelle Devos e Mathieu Amalric, claro está, mas também um assombroso Maurice Garrel.
Escrevi sobre este filme em várias ocasiões, a primeira das quais foi aqui.
nº 2: "Pas de Repos Pour les Braves", de Alain Guiraudie.
À preguiçosa pergunta "Ainda é possível a originalidade no cinema?", Guiraudie responde de forma gloriosa e maliciosa, num filme que faz da reinvenção perpétua das formas e dos modos o seu modo de ser. Também sobre este filme escrevinhei com alguma prolixidade, proporcional ao meu entusiasmo. O primeiro artigo foi este.
Falta o meu preferido de 2005. A revelar em breve. Mas não esperem surpresas.
terça-feira, fevereiro 07, 2006
DIZER SEM DIZER: Em declarações recentes, Marques Mendes afirmou que, perante a complicada situação económica do país, e o aumento do desmprego, era absurdo atribuir prioridade a assuntos como o casamento homossexual.
É em ocasiões como esta que Marques Mendes revela a sua falta de espinha dorsal e deplorável tibieza política.
Quem não quer parecer pusilânime, não alinha em argumentações pusilânimes. Pessoalmente, já deito pelos olhos a mais-que-saloia esperteza daqueles que, por não "parecer bem" estar frontalmente contra o casamento homossexual ou a descriminalização do aborto, se refugiam no transparente subterfúgio da falta de oportunidade ou ausência de cariz prioritário.
Meus senhores, assumam aquilo que pensam! Quem se obstina em ficar com a manteiga e o dinheiro da manteiga acaba, mais tarde ou mais cedo, por ficar sem nada, de mãos vazias, e com um sorriso idiota na fotografia.
(Acho repugnantes as tentativas de fazer espírito, ou de atingir alguém, por meio de alusões a defeitos ou insuficiências físicas. No caso de Marques Mendes, tais deslizes tornam-se tanto mais condenáveis quanto a adequação entre a reduzida estatura física e a pequenez política é forte a ponto de constituir tentação.)
LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: No Alfa Pendular, um jovem lia as memórias da Marquesa de La Tour du Pin.
Depois, tal como sucede, as mais das vezes, aos fenómenos improváveis, ele desapareceu subitamente.
sábado, fevereiro 04, 2006
sexta-feira, fevereiro 03, 2006
JARDIM PONGE: Na sequência de veementes apelos oriundos de variados sectores e numerosos blogs (em boa verdade, foi só este), é com indisfarçado prazer que inauguro o Jardim Ponge.
E o que vem a ser o Jardim Ponge?
Este projecto, que eu desejo a uma escala modesta, e nada megalómana, nasceu do meu fascínio pelo escritor francês Francis Ponge (1899-1988), esse cultor da língua que recusava o estatuto de poeta, e que protagonizou um dos percursos mais fascinantes das letras do século XX.
Sucede que, avisado juiz de mim mesmo, sei que as minhas veleidades de escrever sobre a personalidade X ou Y se desagregam, mais vezes do que não, por obra de uma inércia comodista directamente imputável à efemeridade da minha motivação.
Foi daí que surgiu a ideia de dar ao meu entusiasmo por Ponge a forma de um jardim, de forma a que a natureza perecível das espécies vegetais que nele serão cultivadas me incentivem a cuidá-lo com esmero e regularidade.
Haverá um canteiro para as notas biográficas, uma alameda para os comentários e citações e uma pequena estufa para os meus devaneios pessoais mais dispensáveis.
(Espero que esta inauguração não se assemelhe às que certos autarcas fazem em piscinas ou outros equipamentos ainda em obras, apenas com intuitos propagandísticos, meses ou anos antes da sua abertura ao público.)
Para começar, planto esta citação, retirada de uma entrevista a Philippe Sollers, e que reflecte uma das facetas mais fundamentais de Ponge: o amor pela língua francesa, e o vivo entusiasmo que revelava pela exploração desta:
«Mon père avait, dans sa bibliothèque, le Littré, qui a une si grande importance pour moi, où j’ai trouvé un autre monde, celui des vocables, des mots, mots français bien sûr, un monde aussi réel pour moi, aussi faisant partie du monde extérieur, du monde sensible, aussi physique pour moi que la nature, [...]. C’est-à-dire que me plongeant dans le dictionnaire français, dans le dictionnaire Littré, parce que ce dictionnaire comporte de longs développements sur l’histoire des mots, la sémantique, et aussi sur l’étymologie, remontant fort souvent même plus haut que le latin, vers les racines védiques, eh bien, il est certain que là se trouve une des plus fortes imprégnations de mon enfance, et si l’on veut bien examiner mes textes de ce point de vue [...] eh bien, on verra que je n’ai jamais cherché qu’à redonner à la langue française cette densité, cette matérialité, cette épaisseur (mystérieuse, bien sûr) qui lui vient de ses origines les plus anciennes. Que j’ai voulu en quelque façon [...] regarder en face non seulement la langue maternelle, mais aussi bien la langue grand-maternelle ou des aïeules encore plus anciennes, et entrer profondément dans ce monde, aussi concret, je le répète, aussi sensible pour moi que pouvaient l’être les paysages, les architectures, les événements, les personnes, les choses du monde dit physique. »
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