quarta-feira, agosto 09, 2006

LIGAÇÕES: Foi com muita satisfação que li esta referência, no blog Da Literatura, a uma edição portuguesa das "Ligações Perigosas" com co-tradução do meu avô paterno, João Pedro de Andrade. As obras de João Pedro de Andrade têm vindo a ser reeditadas de forma sistemática pela editora Acontecimento.

terça-feira, agosto 08, 2006

PRISÃO PREVENTIVA: No romance "O Salteador", de Robert Walser, existe uma nota de rodapé na página 10 (presumo que da responsabilidade da tradutora, Leopoldina Almeida, que aliás fez um excelente trabalho), a respeito de uma "fortaleza" identificada como sendo o forte de Joux, no departamento do Doubs (França), perto do Jura. Nessa fortaleza ter-se-iam alojado "confortavelmente, por algum tempo, um poeta e um general negro". O general negro seria Toussaint Louverture, e o "poeta" não poderia deixar de ser Heinrich von Kleist. De facto, Kleist esteve detido no forte de Joux, no ano de 1807, numa altura em que tentava entrar numa Berlim ocupada pelos franceses. Consultando o calhamaço sobre a vida e obra de Kleist, da autoria de Roger Ayrault (edições Aubier-Montaigne, 1966), chego à conclusão de que todo o caso se resumiu a suspeitas infundadas e passaportes não reconhecidos. Mais fumo do que fogo, mas foi quanto bastou para que Kleist, assim como os seus dois companheiros de viagem, passassem alguns meses de cativeiro, em condições de conforto deploráveis, pelo menos no início. Kleist atravessava um período de grande criatividade literária, no qual redigiu "A Bilha Quebrada", recriou o "Anfitrião" de Molière, redigiu "O Terramoto no Chile" e o primeiro terço de "Michael Kohlhaas" e encetou a "Pentesileia". O forte de Joux tem uma página web, graças à qual ficamos a saber que Mirabeau se contou também entre o número dos seus hóspedes, muitos anos antes de proferir uma frase inflamada, sobre a vontade do povo e baionetas, que entrou para o folclore da Revolução Francesa.
UMA CIDADE, DOIS MOTIVOS DE INTERESSE: Foi em Biel, na Suíça, que veio ao mundo o escritor Robert Walser, no ano de 1878. É também em Biel, cidade bilingue igualmente conhecida por Bienne, que se realiza anualmente um torneio de xadrez com longa tradição. A edição deste ano foi ganha, pela terceira vez, pelo grande-mestre russo Aleksandr Morozevich, de 29 anos. Morozevich, o actual nº 9 do mundo, seria forte candidato ao título de jogador mais popular, se fosse organizado um plebiscito entre os aficionados de xadrez, devido ao seu estilo agressivo e original. Embora lhe falte ainda conquistar um dos quatro grandes torneios do calendário (Linares, Dortmund, Wijk aan Zee e Sófia) para demonstrar de uma vez por todas que o seu lugar é entre a crème de la crème, Morozevich é sem dúvida um dos mais excitantes jogadores do circuito, e a maneira como se impôs em Biel ajuda a explicar o entusiasmo que suscitam as suas actuações. Em 10 jogos, o grande-mestre russo ganhou 7, perdeu 2 (curiosamente contra o mesmo jogador, o jovem prodígio norueguês Magnus Carlsen), e apenas empatou um, na última ronda, quando estava tudo já decidido. 70% de vitórias num torneio deste nível, e apenas um empate, eis algo que diz muito sobre a maneira de ser de Morozevich, que tão marcadamente contrasta com a de alguns dos seus pares, reis do empate e do tédio. Ver reportagem aqui, e entrevista aqui.

segunda-feira, agosto 07, 2006

DUAS NOTAS RÁPIDAS...: ...sobre as crónicas de hoje dos meus dois cronistas favoritos, Luís Delgado e João César das Neves, essas torres gémeas de lucidez e erudição que partilham os seus ensinamentos com os leitores do "Diário de Notícias" às segundas-feiras. Escreve Luís Delgado: «Também parece claro, e indiscutível, desta vez, que há países que continuam a apostar na destruição da nossa civilização e religião, por todos os meios, mesmo que interpostos.» (Esclareça-se que LD fala da Síria e do Irão.) Quer dizer que a nossa religião é a judaica? Escreve João César das Neves: «Aqui reside o maior mal-entendido da História. O mundo não entende que a grandeza da Igreja, a sua beleza incompreensível, reside precisamente em ser a fonte da misericórdia de Cristo.» Se a beleza é incompreensível, como poderia o mundo entendê-la? Estes folguedos são supremamente agradáveis, mas o tempo é um mestre implacável e duro. E é por isso que tenho o maior prazer em dar por terminado este post, esperando regressar ao vosso convívio amanhã, dia em que falarei do cantão que viu nascer Robert Walser, e da fortaleza onde esteve aprisionado Kleist, durante cerca de um semestre.
DO I CONTRADICT MYSELF?: Este blog, para não ir mais longe, é um autêntico viveiro de contradições, a começar pelo facto de se proclamar francófilo, mau grado ter sido baptizado em honra de um autor (Kleist) que escreveu, após a batalha de Jena: «Precipitai-vos como as vagas de um oceano sobre esses Franceses. Vingai-vos, vingai-vos. Cubram com as suas ossadas as estradas e os caminhos. Dai a sua carne aos animais ferozes, as suas entranhas aos peixes, ou então, com os seus cadáveres amontoados, edificai um dique ao longo do Reno.»
DE DIVINA PROPORTIONE (2): Não era necessário elaborar. O argumento tinha sido percebido à primeira. E o que nele mais estranho é essa noção de que a guerra é "em si desproporcionada". Não é. Há muito tempo que se percebeu que não tinha de ser. Já durante a guerra do Peloponeso se decretavam tréguas para recolher os cadáveres de ambas as partes em conflito. E o nascimento da jus in bello, ou seja o corpo de leis que regulam as práticas aceitáveis no decurso de uma guerra, nem teve de esperar pelas convenções de Genebra. A noção de proporcionalidade na guerra não é mera "poeira hipócrita": existe, tanto no senso comum como nas leis. (Relevante para a questão actual é, por exemplo, a frase seguinte da convenção de Genebra: "Civilians are not to be subject to attack. This includes direct attacks on civilians and indiscriminate attacks against areas in which civilians are present." Claro que o conceito de ataque indiscriminado daria matéria para um nunca-acabar de argumentos e contra-argumentos, nesta era de bombardeamentos cirúrgicos ou quase cirúrgicos.) Sem esta noção, seria considerado legítimo responder a uma escaramuça de fronteira (acto de guerra) com um bombardeamento nuclear maciço das principais cidades inimigas (outro acto de guerra), sugestão que nem os mais falconídeos de entre os falcões ousariam avançar. Acrescente-se que a noção das proporções e a moderação podem ser do máximo interesse da nação agredida, sobretudo numa época, como a nossa, em que qualquer acção militar está sob cerrada observação de uma míriade de organizações e instituições que, ao sabor da complexa teia de interesses diplomáticos, mais rapidamente deixarão o contendor manobrar como entender se este se abstiver de pisar o risco. A ligação com o "turragate" Zidane/Materazzi foi, obviamente, pouco mais do que uma facécia. A integridade do esterno de Marco Materazzi é coisa de ínfima importância perante o drama humano que ocorre no Médio Oriente e perante as vidas libanesas, israelitas e palestinianas perdidas. E um blog não é um corpo axiomático. Não me choca que nele existam afirmações contraditórias, ainda que gritantes e próximas no tempo. Quanto à referência à "extrema-esquerda", não vejo outra maneira de a interpretar senão como um lampejo de clarividência: mesmo depois de um convívio de anos, as minhas tendências cripto-maoístas passam despercebidas a muitos. Topar com elas em tão pouco tempo, e a partir de tão escassos elementos, é obra.
AS MADALENAS ESTÃO NA MODA: Há quem considere que o célebre questionário de Proust não passa de um frívolo entretenimento de salão. Eu próprio, para falar com franqueza, penso assim. Mas não quer isso dizer que não sinta um deleite muito particular em coscuvilhar as inclinações e as pequenas confissões dos grandes e famosos que, de quando em vez (e quem sabe se a contragosto), se submetem a tão inocente exercício. Daí que reserve nos meus Favoritos um lugar de honra para esta página do semanário "L'Express", onde estão arquivadas as respostas ao questionário de muitas personalidades, quase todas francesas, provenientes de variados sectores de actividade. Nos dias que se seguem, vogando no macio remanso da estação pateta, mas com infalível determinação, tratarei de dar destaque a algumas das escolhas aí mencionadas, começando pela pintura.
MAIS WALSER: «Às pessoas saudáveis faço o seguinte apelo: não teimem em ler apenas esses livros saudáveis, , travem um conhecimento mais estreito, também, com a literatura dita doentia, que vos transmitirá, decerto, uma cultura edificante. As pessoas saudáveis deveriam sempre expor-se um pouco ao perigo. Senão, com mil raios, para que serve ser saudável?» (Robert Walser, "O Salteador", p. 81, Relógio d'Água, 2003, trad. de Leopoldina Almeida)

quinta-feira, agosto 03, 2006

COMPORTAMENTO FELINO: A juntar ao rol de aversões pessoais da gatinha Goneril: o poeta António Ramos Rosa. Com efeito, eficazmente secundada pelo gatinho Jasmim, ela dedicou-se com aplicação a estraçalhar a badana que acompanhava a antologia deste poeta publicada pela Dom Quixote. Depois de Kofi Annan, Ramos Rosa. Começará a emergir algum padrão? Não vislumbro. Que denominador comum existirá entre o diplomata ganês, sétimo secretário-geral das Nações Unidas, e o poeta algarvio, autor do "Ciclo do Cavalo"?

terça-feira, agosto 01, 2006

E AGORA, WALSER: «Há, de facto, pessoas que pretendem retirar dos livros pontos de referência para a sua vida. Lamento muito ter de dizer aos meus leitores que não é para esse género de pessoas muito respeitáveis que eu escrevo. Será uma pena? Oh! Sem dúvida!» (Robert Walser, "O Salteador", p. 12, Relógio d'Água, 2003, trad. de Leopoldina Almeida)
DE DIVINA PROPORTIONE: A autora do blog Bomba Inteligente chama "bronco" e "animal" a Zinédine Zidane por este ter respondido com uma agressão física aos insultos de Marco Materazzi. Alguns posts mais tarde, indigna-se contra aqueles que falam em proporcionalidade para pôr em causa a amplitude da resposta israelita às provocações do Hezbollah, e que se sentem chocados por o rapto de dois soldados ter suscitado uma ofensiva que já causou centenas de mortos civis e muitas dezenas de milhares de deslocados. Assinalo, e deixo ao soberano critério do leitor decidir se tal é relevante ou não. Dir-se-ia que a proporcionalidade é válida quando se trata de zaragatas num recinto desportivo, mas deixa de o ser quando vidas humanas estão envolvidas.
OAKESHOTT VAI AO BAR DO FRED: A revista "Atlântico" debruça-se sobre os "Morangos com Açúcar", e isto pouco tempo depois de o grande sucesso da TVI ter sido paragonado, por Eduardo Pitta, à obra-prima de Guimarães Rosa. Como caução, seria ingrato pedir melhor. Cada vez mais, o debate político e sociológico em Portugal gira em torno do bar do Fred, mesmo sem o Fred, mas com os míticos "morang'ices" sempre à mão de semear!

domingo, julho 30, 2006

XADREZ: Foi prometido, e é cumprido, se bem que com o atraso normal neste blog. Aqui está o rescaldo final da participação portuguesa nas Olimpíadas de xadrez de Turim. Jornada a jornada, foram os seguintes os resultados da selecção portuguesa no torneio absoluto (também dito "masculino", erradamente, pois nele se registaram pelo menos cinco presenças femininas): Chipre-Portugal 1,5-2,5 Portugal-Azerbeijão 3,5-0,5 Portugal-Hungria 1-3 Nova Zelândia-Portugal 1,5-2,5 Portugal-Canadá 2,5-1,5 França-Portugal 3-1 Itália A-Portugal 2,5-1,5 Portugal-Letónia 1-3 Portugal-Nepal 4-0 Peru-Portugal 3-1 Síria-Portugal 0-4 Portugal-Sérvia e Montenegro 1-3 Portugal-República Dominicana 2,5-1,5 Portugal esteve aproximadamente ao nível esperado, tendo terminado a prova em 50º lugar (era 48º no ranking das selecções participantes), entre 150 equipas. No "sobe e desce" habitual em torneios disputados no sistema suíço, Portugal mostrou-se incapaz de surpreender as selecções mais cotadas (França, Hungria...), mas raramente deixou de se impor às equipas mais débeis. Quanto a actuações individuais, o equilíbrio foi a nota dominante. Nenhum dos xadrezistas portugueses se destacou pela positiva, e só o mestre internacional Sérgio Rocha esteve bastante abaixo do seu nível. (No entanto, refira-se que o seu fraco resultado se deveu fundamentalmente à derrota, logo na primeira jornada, com um cipriota muito menos cotado.) Melhor resultado colectivo: vitória 3,5-0,5 sobre o Azerbeijão, uma equipa poderosa mesmo sem os seus tenores Radjabov e Mamedyarov. Piores resultados colectivos: vitória tangencial sobre a paupérrima equipa de Chipre, e derrota face ao Peru. Melhores resultados individuais: vitórias do mestre internacional Diogo Fernando sobre os grandes-mestres Guseinov (Azerbeijão) e Sokolov (França). No que toca à competição feminina, os resultados das portuguesas foram os seguintes: Rússia-Portugal 3-0 Malta-Portugal 0-3 Portugal-Sri Lanka 2,5-1,5 Mongólia-Portugal 3-0 Portugal-Islândia 1,5-1,5 Portugal-Luxemburgo 1,5-1,5 Itália B-Portugal 0,5-2,5 Portugal-Colômbia 1-2 Noruega-Portugal 2-1 Bangladesh-Portugal 1,5-1,5 Portugal-Venezuela 2-1 Portugal-Uzbequistão 1-2 Macedónia-Portugal 0,5-2,5 Graças a esta bela vitória final sobre a Macedónia, Portugal concluiu o torneio na 47ª posição (era 53º no ranking), entre 108 selecções. Os resultados da equipa portuguesa feminina, que raramente fugiram ao esperado, foram relativamente homogéneos, não havendo lugar a destaques individuais. Uma nota para a baixa média de idades desta equipa (o que contrasta com o sector masculino, onde a renovação tem sido lenta): Catarina Leite nasceu em 1983, Margarida Coimbra também em 1983, Ariana Pintor em 1988 e Ana Filipa Baptista em 1990. Segui este torneio com muito prazer, e só lamento que os inevitáveis afazeres extra-blog não me permitam repetir a graça com maior frequência. Não deixei na altura, nem deixo agora, de acompanhar esta pequena promoção ao xadrez com um grito de revolta pela absurda desproporcionalidade de cobertura mediática entre o omnipresente futebol e outras modalidades. Para terminar, duas fotografias: a primeira do confronto entre Portugal e França, na sexta ronda:

(fotografia de Gabriele Grasso, retirada daqui)

Do lado português, à esquerda, vêem-se Luís Galego (em primeiro plano), Diogo Fernando e Sérgio Rocha (Rui Dâmaso está oculto ou ausente). Do lado francês, Étienne Bacrot, Andrei Sokolov, Laurent Fressinet e Maxime Vachier-Lagrave.

A segunda mostra Margarida Coimbra, segundo tabuleiro da formação portuguesa:

(foto de Pufichek; mais imagens de participantes nas Olimpíadas aqui).
PLAYLIST MENTAL: Gosto muito do tema "Being Tyler", um instrumental dos Lambchop que abre o álbum "Awcmon". "Gostar", pensando bem, peca por inadequação. Muito mais do que "gostar", deixei-me (sem me rebelar) obcecar por este tema. Que é portador de significados pessoais, sem dúvida, mas que nunca se esquece de ladinamente brilhar com fulgor próprio, independente de circunstâncias do domínio privado.
REVISÕES DO REVISIONISMO: Foi gratificante percorrer alguns dos posts recentes que versaram sobre o tema da Guerra Civil Espanhola, que eu abordei há coisa de uma semana e picos. Se não servirem para mais nada, ao menos que as efemérides sirvam para atiçar o debate. Ver aqui, aqui, aqui, aqui, e aqui, com as minhas desculpas pelas eventuais omissões. Vasco Pulido Valente dedicou uma crónica ao assunto (mais concretamente, à lei das vítimas da guerra civil), e a resposta de João Paulo Sousa surgiu pronta e em cheio no alvo.

quarta-feira, julho 26, 2006

AD HOMINEM: Pelos vistos, a gatinha Goneril faz parte daqueles que encaram com crescente cepticismo a actuação da Organização das Nações Unidas no conturbado mundo em que vivemos. Esta noite, atacou selvaticamente a imagem do secretário-geral Kofi Annan, na televisão da sala.
CONSTITUCIONALISTAS NAS HORAS VAGAS: O CDS-PP é atravessado por interessantes intermitências, no que toca à lei fundamental da República Portuguesa. Regra geral, denuncia a Constituição como um empecilho à modernização do país, um detestável resquício marxista, uma anacrónica camisa de forças de que urge libertarmo-nos. E contudo, não hesita em brandir essa mesma Constituição como uma referência moral e legal absoluta, quando se trata de investir contra leis como a da procriação medicamente assistida, que recentemente levantou alguma celeuma. Dá gosto ver um partido da nossa democracia dar mostras de tamanha maleabilidade, condição sine qua non para o sucesso num mundo em cada vez mais acelerada mutação.

quarta-feira, julho 19, 2006

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Na linha amarela do metropolitano, foi avistado um jovem que lia o 1º Volume dos Contos de Chekhov. Era só isto.

domingo, julho 16, 2006

ANÚNCIO DE GATO ENCONTRADO (AUTÊNTICO): Encontrados por mão amiga, num telhado de Alenquer. Instalados em Lisboa, chamam-se agora Goneril (em homenagem ao Rei Lear) e Jasmim (em homenagem ao chá, e, porque não, ao cenógrafo do filme "O Bobo"). A gatinha Goneril (em primeiro plano, na fotografia) demonstra grande interesse por televisão. O conteúdo moral das emissões é, para ela, motivo de preocupação. Durante o "Fiel ou Infiel", arranhava freneticamente o ecrã durante o flagrante delito de infidelidade. Menos dado ao fascínio do espectáculo mediático, o gatinho Jasmim (ao fundo) tem como principal ambição na vida penetrar em tudo o que é armário, despensa ou compartimento. Sarah Morton acha que ele é um lémur.
O INVERSO DA HISTÓRIA CONTEMPORÂNEA: Um regime democraticamente eleito, com instituições que funcionam, é derrubado por uma sublevação militar que, ao fim de uma guerra civil sangrenta, resulta numa ditadura que se prolonga durante décadas. Poderá isto não ser considerado uma derrota da democracia? Parece impossível, não é? Porém, nas mãos hábeis de Luciano Amaral, o difícil torna-se fácil. Na sua última e enérgica intervenção, publicada no "DN" da passada quinta-feira, Luciano Amaral debruça-se sobre a queda trágica da 2ª República Espanhola e sobre a Guerra Civil ganha por Franco. Agitando o espantalho histórico do radicalismo, evoca as revoltas de 1934 e a inflitração marxista-leninista para sustentar a tese de que uma ditadura de esquerda teria estado iminente. Nessas circunstâncias, compreende-se que o franquismo possa ter sido considerado um mal menor. Luciano Amaral limita-se veladamente a reciclar o clássico argumento de que uma ditadura pode ser preferível ao caos que a precedeu, argumento que, na prática, permite justificar todas as ditaduras. Não é a primeira vez que Luciano Amaral se dedica ao revisionismo histórico, com uma felicidade que, desgraçadamente, não está à altura das suas ambições. Há semanas, tinha-nos brindado com uma reapreciação do 28 de Maio, à luz do carácter "terrorista" da 1ª República. Pelo andar da carruagem, se Luciano Amaral prosseguir na veia das efemérides, lá para Setembro teremos direito à apologia de Pinochet à luz dos desmandos allendianos. Sem dúvida por desleixo, Luciano Amaral deixou passar o aniversário do armistício franco-alemão de 1940. Teria sido a ocasião certa para reavaliar o governo de Vichy (parece até que estou a ver o título, qualquer coisa como "A Frente Popular estava mesmo a pedi-las"). A prosa de Luciano Amaral insere-se naquela linha fundada pelo "Independente", e que se baseia fortemente na contestação àquilo que é visto como um sistema de valores vigente, um sistema inevitavelmente "bem pensante" e "politicamente correcto". É triste constatar, quando se percorre um artigo desta escola, que, por detrás das provocações mais ou menos adolescentes, e da auto-satisfação que decorre desse papel de paladinos da verdade doa-a-quem-doer, o que resta é uma argumentação frouxa, maliciosa, omissa e previsível.