quarta-feira, setembro 06, 2006

PODEM SALTAR ESTE, POR FAVOR: Eu queria manifestar a minha perplexidade pela maneira como a Susana está a ser intrujada por esse falso do Guga, mas também queria sublimar a indignação (porque tantos posts sobre os "Morangos com Açúcar" já aborrece, até a mim) com umas frases, digamos, sobre poemas de Montale. Tudo no mesmo post. E saiu isto.
FOI VOCÊ QUE PEDIU UM EXCELENTE BLOG SOBRE CIÊNCIA?: «Evolution, development, and random biological ejaculations from a godless liberal.» O Pharyngula é um grande, grande e justamente célebre blog. O seu autor, o biólogo PZ Myers, com humor cortante e raro virtuosismo, zurze a superstição, a falsa ciência e obscurantismo. Para além destes méritos, ainda nos oferece epifanias tão intensas como este polvo esculpido em manteiga.

segunda-feira, setembro 04, 2006

DIZ-ME O QUE OUVES: No filme "American Psycho", que vi anteontem na TVI, a personagem Patrick Bateman tem gostos musicais que não fogem ao convencional: Whitney Houston, Phil Collins... Menos comum é a sua mania de, antes de cometer os seus atrozes crimes, brindar a perplexa futura vítima com discursos, extremamente articulados e repletos de clichés jornalísticos, sobre a banda ou cantor em questão. Mal pude reprimir um gemido de revolta ao verificar que um dos eleitos de Bateman é Huey Lewis and the News. Se o objectivo de Bret Easton Ellis era satirizar as preferências musicais, insípidas e formatadas, dos yuppies de Wall Street, penso que a menção a Huey Lewis foi um tiro no próprio pé. O som de Huey e dos seus News era poderoso, bem-humorado e genuíno. O seu sentido de humor auto-paródico e a riqueza das suas harmonias, a capacidade de oferecer irresistíveis melodias feel good sem resvalar para a irrelevância, colocam-nos a muitas milhas náuticas (lembram-se de "Stuck With You"?) da lamechice empacotada e liofilizada de Whitney Houston e Phil Collins. (Mais preocupante foi ficar a saber que a banda preferida de Bateman são os fabulosos Talking Heads, o que é ainda mais difícil de justificar. Espero que se deva exclusivamente ao brilhante tema "Psycho Killer", onde David Byrne canta em francês com forte sotaque.)
BEAM ME UP, JOÃO CÉSAR: As crónicas de João César das Neves ganharam justa fama pelo teor de ousados saltos quânticos argumentativos, capazes de levar o leitor mais plácido ao desespero completo. É tal a catadupa de falácias, alegações inconsistentes, abusos de linguagem e generalizações inconcebíveis que a reacção mais normal é um pasmo prolongado e profundo, de que só se recupera a custo. A contestação dos periclitantes edifícios retóricos de JCN é tarefa ingrata: as enormidades são às mancheias, o tempo e a paciência para as tratar uma a uma não existe. Perante este panorama, qualquer veleidade de contraditório vacila. Fino estratega, este nosso celebrado cronista das segundas-feiras! Desta vez, JCN brinda-nos com um dos seus melhores textos dos últimos meses. O argumento central (se é que me atrevo a condensar pensamentos tão ricos, tão regurgitantes de significado) parece ser o seguinte: o ser humano possui uma tendência natural para a transcendência, para a procura de sentido, e a civilização materialista contemporânea, ao substituir um mundo centrado em Deus por um mundo centrado no Homem, desvia essa sede de absoluto para objectos irrisórios, como seja a série televisiva "Star Trek". Admita-se que este argumento não é totalmente descabido. Não seria eu quem se admiraria se, por hipótese, surgisse amanhã um artigo científico que provasse que os substratos neurológicos por detrás da crença religiosa e da adesão a séries, filmes, bandas desenhadas, cultos satanistas ou paixões clubísticas são os mesmos. Porém, se me parece plausível que a ideia fundamental possua um fundo de verdade, há que frisar que a interpretação que a partir dela deriva JCN é francamente discutível. Na opinião de JCN, uma tendência intrínseca ao Homem para aspirar a significados últimos e a um consolo espiritual que só a religião lhe pode dar foi traída por uma modernidade grosseira que apenas lhe oferece tristes sucedâneos. Na minha perspectiva, a coisa passa-se assim: as religiões organizadas servem-se, hoje como ontem, da (demasiado) humana propensão a procurar respostas fora da razão e do bom-senso. Durante séculos, essas religiões revelaram-se devastadoramente eficazes em co-optar, para seu benefício, as dúvidas, fraquezas e ingenuidade dos crentes, para além do seu sentido gregário e apego a ritos ordenadores do quotidiano. Hoje em dia, quando as brechas no seu monopólio são cada vez mais difíceis de esconder (em particular no caso da Igreja católica), fica mal aos seus dignatários e defensores queixar-se. A sociedade de consumo, os gurus, as seitas, mais não fazem do que lutar com as mesmas armas que as religiões aperfeiçoaram ao longo da sua história. JCN encontra ainda espaço para aludir a alguns dos seus fantasmas predilectos, desses que, pouco ou nada devendo à veracidade ou à realidade histórica, são imprescindíveis para conferir às suas crónicas aquele paladar inconfundível. O "deísmo iluminista" e o "ateísmo positivista" são os maus da fita, os responsáveis por associar o culto à superstição e pela recusa do absoluto e do transcendente. Logo, é neles que radica o actual e deprimente estado das coisas. Estranhamente, JCN abstém-se de explicar qual terá sido o papel do modelo de sociedade (bem distante das ferozes derivas jacobinas que assombram os seus escritos) para o qual se tem vindo, felizmente, a caminhar na Europa ocidental, embora com fortes nuances de país para país. Falo da democracia laica, assumidamente incompetente em matéria religiosa, promotora tanto da liberdade de culto como da separação entre Igreja e Estado. É inútil culpar uma sociedade onde todos têm a possibilidade de adorar a divindade que muito bem lhes apetecer. Se cada vez mais pessoas trocam a fé pela nave Enterprise, talvez isso tenha menos a ver com o cepticismo perverso dos nossos dias, e mais com a colossal inadequação de uma Igreja que ainda teima em ver-se como pilar da sociedade e referência moral.

sábado, setembro 02, 2006

SERÁ QUE OCTAVIO PAZ ANDOU A LER KLEIST?: «La tentativa revolucionaria se presenta como una recuperación de la conciencia enajenada y, asimismo, como la conquista que hace esa conciencia recobrada del mundo histórico y de la naturaleza. Dueña de las leyes históricas y sociales, la conciencia determinaría la existencia. La especie habría dado entonces su segundo salto mortal. Gracias al primero, abandonó el mundo natural, dejó de ser animal y se puso en pie: contempló la naturaleza y se contempló. Al dar el segundo, regresaría a la unidad original, pero sin perder la conciencia sino haciendo de ésta el fundamento real de la naturaleza.» (Octavio Paz, "El Arco y la Lira") «(...)também assim a graça ressurge depois do conhecimento atravessar, digamos, um infinito; e da mais pura forma ela se mostra, quer no corpo humano desprovido de consciência, quer no corpo que tenha uma, infinita, querendo eu dizer no fantoche articulado ou em Deus.» (Heinrich von Kleist, "As Marionetas", trad. de Luís Bruhein e Aníbal Fernandes)
CONSERVADORISMO: Li algumas referências (por exemplo esta, esta) a crónicas recentes de João Carlos Espada onde este dá largas ao seu fascínio pelos tiques vestimentares vigentes em certos círculos conservadores de aquém e além-Atlântico. Deixando de parte o exagero próprio da personagem, penso ser apropriado fazer notar quão dependente está de pormenores igualmente frívolos o conservadorismo de certos assumidos conservadores da nossa freguesia. Tweed e chá das cinco; romances de Trollope e stiff upper lip; campos verdejantes de Oxford e Cambridge e poemas de Larkin; é o quanto basta para fazer brotar vocações conservadoras. Instados a aprofundar a razão de ser da sua veia, alguns desses conservadores de-trazer-pelas-colunas-de-opinião poderão evocar, com a condescendência de quem acha tudo demasiado óbvio para ser explicado, que o seu ideário deriva da desconfiança perante evoluções (com ou sem "r" prefixado) que desvirtuem a sociedade ou que façam perigar as instituições. Mas dificilmente irão além da enunciação mole e auto-satisfeita do princípio segundo o qual "mais vale não mudar nada do que mudar para pior". E dificilmente o farão porque o conservadorismo é, na sua essência, uma questão de temperamento, sem cheiro de conteúdo político. Não há rigorosamente nada de mal em ser-se, ou afirmar-se ser, conservador. Mais delicado é quando se deixa que um traço de temperamento extravase para a política. Deixemos aos ingleses o privilégio da anacrónica câmara dos lordes e da inadequação anedótica dos tories.

quinta-feira, agosto 31, 2006

EU GOSTO É DO VERÃO: A escuta de conversas alheias, a conspiração com o fim de incriminar alguém, o coma clínico (quando atinge uma personagem na posse de informação importante), são esquemas velhos como o mundo de fazer avançar uma narrativa. Nos "Morangos com Açúcar" todos eles são usados, por vezes abusados até à saciedade (e para lá dela). É espantoso constatar até que ponto esta telenovela assenta nos meandros, desvios, transvios, bifurcações e interrupções do fluxo de informação. Quase toda a acção é consequência de falta de informação (por exemplo, a Matilde só voltou a andar com o Tiago quando soube, ao fim de muito tempo, que ele lhe tinha feito companhia no hospital), informação mal interpretada, omissões, ou informação maliciosamente transmitida e deturpada. Cheguei a ambicionar redigir uma análise global dos "Morangos com Açúcar" que se cingisse a estas relações de emissão, transmissão e recepção de informação (com alguns elementos de teoria de grafos pescados aqui e ali para dar seriedade à coisa), e que fizesse jus a uma verdade que me parece inegável: nos "Morangos", nenhuma personagem existe por si só. O estatuto de personagem depende do estabelecimento de relações, e este absorve a totalidade da energia narrativa da telenovela (com excepção de alguns episódios irrelevantes do foro criminal, como o incêndio do colégio). Claro que se pode argumentar que isto é válido para todas as telenovelas. Ainda assim, penso que esta tendência é (e não sem uma certa honestidade e limpeza de meios) levada a um extremo raro nos "Morangos". No entanto, cedo percebi que esta tarefa excedia as minhas capacidades e o tempo que eu para ela poderia disponibilizar. A propósito, no site da Fnac grafam o título do CD "Moranguice". Está mal. Deve ser "MorangIce", com o "Ice" pronunciado à inglesa.
BIODIVERSIDADE E POESIA: O que faz com que um animal seja considerado "nobre" e outro "menos nobre", "vil" ou "risível"? Ou, para colocar a questão num contexto literário: o que faz com que certos membros de pleno direito do reino animal sejam toleráveis no título de um livro de poesia, ao passo que outros levariam ao descrédito ou à chacota? "Águia", "tigre", "cavalo", são nomes que não destoariam na capa de uma recolha de poeta consagrado. "Cão", "urso" ou "mosca" dariam azo a algum erguer de sobrancelhas, mas pouco mais do que isso. Nada que conspurcasse uma reputação. "Peixe" seria aceitável, enquanto designação genérica, mas não uma espécie em particular ("robalo", "taínha", "goraz"). Nas aves, a situação permite certamente mais ampla margem de manobra: "tordo", "pombo", ou até um castiço "tetraz" teriam certamente o seu lugar nesse hipotético título de hipotético autor. "Pardal" ficaria a matar num volume de poesia urbana ligeira, sem pretensões a uma mais profunda penetração artística. Não há, porém, que ocultar a verdade: "canguru", "alforreca", "piolho", "hipopótamo" ou "ouriço-cacheiro" não têm direito de cidade no nome de uma obra literária em verso de grande fôlego. E seria ingénuo pensar que se trata de uma simples questão de cacofonia. Existe algo de mais profundo, de inexpelivelmente arreigado, que nega a certas espécies o direito a uma nobreza compatível com as belas letras. E eu julgo que ficamos todos a perder com isso.

segunda-feira, agosto 28, 2006

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Hoje, na Patagónia, linha verde do metropolitano, um jovem sacou de um exemplar do livro de Bruce Chatwin, "Em Telheiras", e começou a ler com expressão atentíssima.
TRADUÇÃO: Na antologia de Montale da Assírio & Alvim, José Manuel de Vasconcelos traduz «non sapevi un'acca/di portoghese» por «não sabia patavina/de português». "Sapevi" é a segunda pessoa do singular. Custa-me a perceber de onde vem este "sabia". No poema também se fala de um cálice de Madeira com acompanhamento de lagostins.

sábado, agosto 26, 2006

MAIS TÍTULOS: Agora sim, com reticências. "Cry-Baby", filme de John Waters (1990), em português ficou "Quem não chora, não... ama". Valha-nos o Dr. Sousa Martins.
A VINGANÇA DE PLUTÃO: Eurico de Barros igual a si próprio, mesmo quando discorre sobre temas periféricos ("DN", 25/8): «Tirando os desenhos animados de Pluto propriamente dito, e uma monumentalmente má comédia de ficção científica com Eddie Murphy chamada Pluto Nash (que ainda por cima se passa na Lua), o nome do ex-planeta de primeira categoria figura no título de um recente filme de Neil Jordan, Breakfast on Pluto, que conta a história de um travesti irlandês cantor de cabaré. Desculpem-me lá ser politicamente incorrecto, mas é só um degrau abaixo de planeta-anão.» Proponho que, aproveitando o balanço, se despromova Eurico de Barros de crítico de cinema para "escriba especializado na indústria do audiovisual e pródigo em larachas".
GARREL: Não diria que gosto de tudo o que Philippe Garrel faz. Mas nunca me sucedeu sair decepcionado de um filme deste realizador. E acho-o um soberbo exemplo de um dos aspectos mais notáveis do cinema francês: a possibilidade de um autor que cultiva uma estética marginal seguir o seu percurso pessoalíssimo, ao longo das décadas, sem perder o contacto com a distribuição no circuito de salas nem com a imprensa convencional. (Não é fácil eleger o meu filme preferido de Garrel, mas é bem possível que a escolha recaísse sobre um dos mais recentes: "Le Vent de la Nuit". Escolha para a qual a assombrosa banda sonora de John Cale não é factor inócuo.) E a propósito: "enorme democratização do gosto e do acesso aos bens culturais"? Pode ser. Nalguns casos, a democratização do acesso (deixando de lado a do gosto, cuja natureza se me afigura bem mais discutível) é uma realidade positiva e indesmentível. No caso do cinema, a oferta em salas é o que se sabe (muito restrita em Lisboa e Porto, quase nula no resto do país), e, mesmo tendo em conta a expansão do DVD, a fracção de obras da cinematografia mundial acessível ao consumidor médio é ínfima e pouco representativa.
COLUNA SOCIAL: Os gatos Jasmim e Goneril declaram-se encantados. Tanto mais que a Cleópatra apresenta semelhanças fisionómicas extraordinárias com a Goneril, incluindo a manchita na pata, cinzento malhado sobre branco-branco.

quarta-feira, agosto 23, 2006

JUSTE UNE IMAGE: No suplemento "6ª" do "DN" de dia 18/8, João Lopes, a propósito de Godard, fala da crença ingénua de que a imagem possa funcionar «como revelação aberta, transparente e incontestável de um mundo que, por definição, se exporia de modo igualmente aberto, sem resistências figurativas ou simbólicas». E ainda: «Será que nos servem uma visão do mundo sem nunca, nem por um instante, terem pensado que o estão a fazer?». Se bem que a observação de João Lopes (com a qual estou integralmente de acordo) se dirija mais explicitamente aos telejornais, não me parece inoportuno estendê-la ao domínio do cinema e da crítica cinematográfica. Com efeito, se eu tivesse de apontar um único pecado mortal à crítica de cinema em Portugal (e só me refiro a esta, em particular, por ser a que conheço melhor), seria este: falar dos filmes parecendo incapaz de perceber que está a lidar com objectos cinematográficos, com especificidades próprias. Na grande maioria dos casos, o crítico fala de um filme como se falasse de um livro, e a crítica concentra-se no enredo ou no assunto do filme, e em ilações sobre esse enredo ou assunto, complementadas por referências ao desempenho dos actores, notas enciclopédicas sobre a filmografia precedente do realizador, etc. Raras vezes nos é dado ler uma apreciação que diga explicitamente respeito à natureza cinematográfica da obra, e ao modo como o realizador se serviu dos meios e técnicas ao seu dispor para dar corpo à sua intenção artística. Não acredito que se trate de mera incompetência ou desleixo. Quer-me parecer, isso sim, que existe um défice de consciência do modo como a captação de uma imagem, a sua planificação e o seu registo, constituem um gesto artístico, com implicações a variadíssimos níveis, incluindo o ético; um gesto que nunca será inocente, e que só o seria se se pudesse admitir a tal transparência, a possibilidade de trazer ao espectador o mundo exterior de forma totalmente neutra e fiel. Porém, reconheço que certos filmes tornam difícil ao crítico proceder de outro modo. Por serem realizados de forma tão mecânica, estandardizada e/ou desleixada, muitos dos filmes que estreiam entre nós pouco mais justificam ou merecem do que uma referência apressada à "história" (a sacrossanta história...), aos actores, e a uma qualquer anedota de produção. Mas não é desses filmes que falo. "Les Amants Réguliers", de Philippe Garrel, é um excelente exemplo de um filme para o qual toda e qualquer leitura que menospreze a sua natureza última (uma sucessão de imagens em movimento, afinal é isso um filme) será uma leitura traidora e inútil. (E repare-se que isto não significa apoucar a importância do argumento desta ou de outras obras.) Vê-lo reduzido a um "filme sobre o Maio de 68" entristece-me ainda mais do que sucederia no caso de um filme menor. São inúmeros os exemplos de cenas deste filme que seriam irredutíveis a qualquer outro meio que não fosse a imagem em movimento, cenas cujo enquadramento rigoroso (esplendidamente servido pela fotografia do grande William Lubtchansky) não obstam a um empolgante sentido de liberdade. Por vezes, às críticas "chapa 3" dos profissionais do ofício, quase prefiro as que, como esta, pelo menos oferecem uma perspectiva marcadamente pessoal, e até se referem a cenas específicas do filme, com explicação das razões que levaram o autor a gostar, ou não. Claro que discordo de tudo o que nela leio: as estafadíssimas referências à lentidão, não faltando a previsível comparação com Oliveira (como se a lentidão, a demora, a exploração da evolução de uma situação no tempo, não fossem dispositivos tão cheios de virtualidades com quaisquer outros), a acusação de que nada acontece durante a longa cena das barricadas (e como é densa em acontecimentos essa cena!, e fascinante por isso mesmo, desde que se preste um mínimo de atenção, e não se espere que as peripécias saltem do ecrã para cair no colo do espectador, com efeitos sonoros a acompanhar), a alusão a "maneirismos/erros cinematográficos" (quais?), e a suposta banalidade dos amores e dos artistas que povoam o filme (como se a banalidade, e mesmo a mediocridade, não estivessem na origem de grandes obras da literatura e do cinema, como se só o excepcional fosse digno de ser retratado). Termino com uma mensagem subliminar: ide todos ao King ver o filme de Garrel! (E depois ao Porto, quando ele estrear lá.) (Ver ainda este artigo de João Lopes sobre a exposição Godard no Centro Pompidou.)
ADENDA AOS TÍTULOS: Um leitor atento e prezado fez-me notar que cometi uma injustiça para com a classe dos tradutores, pela qual peço desculpa. Ao que parece, a tradução do título original de um filme é uma decisão das distribuidoras, e, regra geral, integra-se numa campanha de marketing destinada a vender o produto (daí, suponho, o uso e abuso de termos como "fatal", "mortal", "diabólico" e "paixão"). Os tradutores profissionais não são tidos nem achados. Colocados os pontos nos is, deixo mais dois exemplos de versões portuguesas delirantes de títulos originais. "The Odd Couple", filme de 1968 com Jack Lemmon e Walter Matthau, chamou-se entre nós "Mal por mal, antes com elas" (desconheço se com ou sem reticências, essa muleta predilecta da brejeirice). Quanto ao título português da primeira longa-metragem de Claude Chabrol, sempre foi um mistério para mim. Entre "Le Beau Serge" e "Um Vinho Difícil" a distância não é curta, convenha-se. Tentativa canhestra de contribuir para uma maior consciencialização dos perigos do alcoolismo?
SERIALISMO ONOMÁSTICO: Pela terceira vez consecutiva, nestas férias, tenho entre mãos um livro de um autor cujo apelido é "Carvalho". Depois de Mário de Carvalho ("Era bom que trocássemos umas ideias sobre o assunto") e Maria Judite de Carvalho ("Seta Despedida"), é a vez de Bernardo Carvalho ("Teatro"). Não foi de propósito, embora seja o tipo de coisa que eu poderia sentir vontade de fazer de maneira deliberada. (O livro de Bernardo Carvalho não é uma recolha de peças. É um romance que se chama "Teatro".)

segunda-feira, agosto 21, 2006

ANTI-DEMOCRATAS PARA TODOS OS GOSTOS: Na sua última crónica do "Público" (19/8), Helena Matos dá-nos conta da sua incompreensão face a todos aqueles que, ainda que vivendo num regime democrático, se obstinam em tomar "posições contra a democracia", e oferece-nos em seguida uma instrutiva escolha de exemplos. Provavelmente por falta de espaço, Helena Matos não se refere àqueles que têm sido entre nós os paladinos do branqueamento de alguns dos piores atentados contra democracia do último século. Refiro-me por exemplo àqueles que, com Luciano Amaral à cabeça, minimizaram o cariz antidemocrático do 28 de Maio e da sublevação franquista. Ou àqueles que, mais recentemente, apresentaram um retrato retocado e pasteurizado de Marcello Caetano, com profusos elogios ao Homem, ao Pedagogo, ao Jurista, e silêncio oportuno quanto ao detalhe de ele ter sido primeiro-ministro de uma ditadura repressiva. Todas estas posições me parecem compatíveis com o oportuno diagnóstico de Helena Matos. (NOTA da redacção: as maiúsculas em "Homem", "Pedagogo" e "Jurista" são escolhas deliberadas do autor, visando um efeito de ironia. Não entram em conflito com o livro de estilo oficial do 1bsk.)
CORES: «A magenta não é tão hedionda como isso e há outras cores que ligam pior com o verde-alface.» (Mário de Carvalho, "Era bom que trocássemos umas ideias sobre o assunto", Caminho, 1995, p.16) Nesta frase, Mário de Carvalho referia-se a um edifício. Sem o saber, logrou inserir numa só frase menção às duas cores fundamentais deste blog: verde-alface e magenta. A primeira acompanha-nos desde sempre. A segunda foi resultado de um acidente de percurso que envolveu um certo filme de Marguerite Duras.

sábado, agosto 19, 2006

DE DIVINA PROPORTIONE (4): Com efeito, eu detectara uma postura, como direi?, um pouquinho lackadaisical, aliás perfeitamente adequada à estação, no seu penúltimo post. Mas não se apoquente: também me parece que este debate (se é que alguma vez chegou a sê-lo) já deu o que tinha a dar. E a sua última intervenção cobre adequadamente os dois aspectos da questão: o pessoal e o colectivo/jurídico.
  1. À minha pergunta ("seria legítimo/aceitável que uma nação respondesse a uma escaramuça de fronteira (acto de guerra) com um bombardeamento maciço (outro acto de guerra) que dizimasse, digamos, 10 % da população da nação agressora?"), respondeu que sim. Registo. Eu acho que não. Tenho para mim que uma discussão entre duas pessoas razoáveis deve idealmente conduzir ou a uma convergência de pontos de vista ou a uma incompatibilidade de princípios insanável. Parece-me verificar-se este último caso. (Quanto ao resto, nomeadamente esse tremendo disparate de eu ver o Hezbollah como "uma organização preocupadíssima com os libaneses, com as mulheres e as crianças", sugiro-lhe que tenha mais cuidado antes de desvirtuar as palavras alheias. A ligeireza estival não justifica tudo.)
  2. Diz que "os crimes de guerra são julgados sempre pelos vencedores e têm muito que se lhe diga". É um argumento que tem pernas para andar. Mas que está longe de ter alcance universal. Para citar apenas um exemplo: antes de morrer, Slobodan Milosevic estava a ser julgado pelo Tribunal Internacional para a Antiga Jugoslávia, um organismo da ONU independente, como é óbvio, de qualquer um dos contendores da guerra dos Balcãs. O que me parece indiscutível é que, contrariando a tese da arbitrariedade e desproporcionalidade intrínsecas da guerra (que repete, como credo pessoal, em vez de a fundamentar), o conceito de crime de guerra tem ganho raízes, nas altas instâncias internacionais assim como na opinião pública. E se isso sucede, é porque há muita gente que não pensa como você (ver ponto 1, supra). E ainda bem, acrescento eu.

Concluído este refrescante intercâmbio de opiniões, despeço-me. Faz-se tarde, e gostaria de acresecentar algumas estrofes à minha cantata em louvor a Che Guevara, antes da hora de jantar.