sexta-feira, outubro 13, 2006
segunda-feira, outubro 09, 2006
OPORTUNIDADE MALBARATADA:
Há dois anos estive em Budapeste. Certo dia, resolvi fazer uma incursão à Hungria profunda. Sem motivos concretos que me levassem a preferir este destino ou aquele, optei por Vác, cidadezinha nas margens do Danúbio, pouco distante da fronteira eslovaca. Naquela tarde amena, sem recear a improbabilíssima aparição de um turista lusófono, gozei de uma impunidade linguística de que hoje lamento não ter desfrutado devidamente. Nenhum sobrolho magiar se teria erguido um milímetro que fosse se eu, na avenida principal de Vác, tivesse proferido os mais crus impropérios, ou entoado os mais delirantes disparates no meu idioma natal.
Em retrospectiva, recrimino-me com especial amargura por não ter agarrado com unhas e dentes a oportunidade de cantarolar em público um tema de Paco Bandeira, plenamente seguro de ser o único consciente dos seus gloriosos cambiantes. A "Quinta Sinfonia", ou "Ó Elvas ó Elvas" teriam sido escolhas plenas de pertinência. Paco Bandeira na província húngara: não me peçam para explicar porquê, mas estou certo de que esse teria sido, mais do que o ponto alto de um dia, algo digno do zénite de uma vida!
("Vác" pronuncia-se "váts". A cidade orgulha-se de uma catedral cuja arquitectura se inspira na basílica de São Pedro, em Roma.)
Há dois anos estive em Budapeste. Certo dia, resolvi fazer uma incursão à Hungria profunda. Sem motivos concretos que me levassem a preferir este destino ou aquele, optei por Vác, cidadezinha nas margens do Danúbio, pouco distante da fronteira eslovaca. Naquela tarde amena, sem recear a improbabilíssima aparição de um turista lusófono, gozei de uma impunidade linguística de que hoje lamento não ter desfrutado devidamente. Nenhum sobrolho magiar se teria erguido um milímetro que fosse se eu, na avenida principal de Vác, tivesse proferido os mais crus impropérios, ou entoado os mais delirantes disparates no meu idioma natal.
Em retrospectiva, recrimino-me com especial amargura por não ter agarrado com unhas e dentes a oportunidade de cantarolar em público um tema de Paco Bandeira, plenamente seguro de ser o único consciente dos seus gloriosos cambiantes. A "Quinta Sinfonia", ou "Ó Elvas ó Elvas" teriam sido escolhas plenas de pertinência. Paco Bandeira na província húngara: não me peçam para explicar porquê, mas estou certo de que esse teria sido, mais do que o ponto alto de um dia, algo digno do zénite de uma vida!
("Vác" pronuncia-se "váts". A cidade orgulha-se de uma catedral cuja arquitectura se inspira na basílica de São Pedro, em Roma.)
domingo, outubro 08, 2006
quinta-feira, outubro 05, 2006
NÃO HÁ FESTA COMO ESTA: O melhor cinema do mundo tem a sua festa anual em Portugal. Este ano na sua sétima edição, a Festa do Cinema Francês arrancou ontem, e as diversas iniciativas que se desenrolarão no seu âmbito prolongam-se até 21 de Novembro, em sete cidades.
Espero comentar o programa para Lisboa nos próximos dias.
XADREZ: Resumo relâmpago dos últimos dias em Elista, palco do agitadíssimo match para a unificação do campeonato do mundo de xadrez.
- O presidente da Federação Internacional de Xadrez (FIDE), Kirsan Ilyumzhinov, regressou a Elista para pôr cobro a esta situação, a meio caminho entre o desporto, a diplomacia e o saneamento básico, que descrevi neste post. A grande questão girava em torno do resultado com que se reataria a disputa, uma vez que Vladimir Kramnik perdera um encontro por falta de comparência. Decidiu-se que esse ponto, ganho por Veselin Topalov sem jogar, seria mantido, tendo sido determinado que o sexto jogo começaria com o resultado em 3-2 (a favor de Kramnik).
- Contrariamente ao que muitos comentadores esperavam, Kramnik aceitou jogar o sexto jogo nestas condições, embora sob protesto.
- O sexto e sétimo jogos terminaram empatados, tendo Kramnik conseguido conter os ímpetos de Topalov sem excessivas dificuldades.
- Ontem, pouco antes do início do sétimo jogo, o inenarrável manager de Topalov, Silvio Danailov, emitiu um comunicado insinuando (sem formular acusações explícitas) que Kramnik estaria a recorrer a auxiliares informáticos ilegais, com base nas estatísticas da concordância entre os lances jogados pelo russo e os lances sugeridos pelo programa Fritz, um dos mais populares do mercado. Não tenho conhecimentos suficientes para me pronunciar sobre o assunto, mas a opinião da maior parte dos especialistas parece ser a de que as insinuações carecem de fundamento, e de que esta terá sido apenas mais uma tentativa para desestabilizar Kramnik.
- Hoje, o oitavo jogo terminou com a primeira vitória "real" de Topalov. Jogando com negras, o búlgaro saiu-se melhor numa complexa posição em que dispunha de torre e dois cavalos contra duas torres.
- O resultado está agora em 4-4 (contando com a derrota de Kramnik por falta de comparência).
Na opinião de muitos fãs e comentadores, depois de todos estes episódios lamentáveis Topalov só será considerado um campeão legítimo se triunfar de maneira extremamente categórica. O objectivo principal deste evento, que era a consagração de um campeão único e aceite por todos, parece seriamente em risco.
Amanhã é dia de descanso. O jogo 9 disputa-se no sábado.
REPÚBLICA: O 5 de Outubro sempre foi uma data com um significado muito especial aqui no 1bsk. A recente tendência para apoucar aquilo que a 1ª República significou em termos de emancipação política e cultural, e de resgate à tutela monárquica/ultramontana pré-1910, só contribui para reforçar a convicção com que assinalo esta efeméride.
Gosto de viver numa República. Se faltassem argumentos a favor desta forma de governo, os deploráveis exemplos da Espanha e do Japão (intrincados debates sucessórios ao sabor dos cromossomas X ou Y dos infantes vindos ao mundo) deveriam bastar para demonstrar o carácter anacrónico da chefia de Estado hereditária. A monarquia é uma espécie em vias de extinção, que sobrevive em nichos dispersos procurando adiar o descalabro.
Viva a República!!!
sexta-feira, setembro 29, 2006
(Imagem retirada daqui. Fotografia de Misha Savinov.) quarta-feira, setembro 27, 2006
A CADA UM A SUA EUROPA: Mas o que esperava Luís Delgado? Que, a cada argolada do cidadão Ratzinger, a "Europa democrática, cristã e humanista" saísse às ruas em defesa da liberdade de expressão? Cordões humanos? Vigílias com velas raquíticas em copos de plástico e música sacra saindo de aparelhagens portáteis Panasonic? Haja bom senso. Por virtude da sua condição de regente-mor do bairro do Vaticano, Bento XVI (né Ratzinger) dispõe de uma atenção mediática clamorosamente desproporcionada face à sua real relevância. Grande exposição mediática implica cuidadinho com a língua. Mesmo tratando-se de uma citação histórica, juízos de valor negativos sobre uma outra religião seriam a última coisa que um líder religioso deveria deixar escapar de entre os seus lábios. A única dúvida que subsiste aqui é saber se se tratou de simples falta de tacto ou se Ratzinger utilizou deliberadamente o seu discurso para denegrir o islamismo, aproveitando en passant para lançar mais uma acha na sua fogueira predilecta: o argumento da superioridade do cristianismo, e a necessidade de o Ocidente reencontrar as suas raízes cristãs como único remédio para a putativa crise de valores que por aí grassa. Existem argumentos fortes em favor desta segunda hipótese. (Ver aqui, aqui, aqui e aqui.)
O que nos traz de novo à "Europa democrática, cristã e humanista" de Luís Delgado. Não me revejo nessa Europa. A minha Europa é democrática e humanista, sem dúvida ("two out of three ain't bad"), porém laica e secular, pouco dada a ofender-se por suposto vilipêndio dirigido contra um ancião paramentado de branco e escarlate, que julga que existe compatibilidade entre a Religião e a Razão.
PARA LÁ DO BEM E DO MAL: Nesta vida há coisas boas e coisas más, e também algumas coisas (o colesterol é disso eficaz exemplo) que podem ser boas ou más. Desta dualidade maniqueísta, e de uma citação de Bellow, retirou um português expatriado em Edimburgo o título original do seu blog, entretanto mudado em "Pastoral Portuguesa". Muita literatura (sobretudo anglófona), alguma música, frequentes observações de índole diversa estão na ordem do dia. Há também um começo de polémica sobre um romance de DeLillo, na qual espero também vir a molhar a sopa. Fortemente aconselhável a miúdos e graúdos.
MESMO SEM SABER: Na letra da canção "Cinderela", de Carlos Paião (canção que cala fundíssimo no imaginário luso, a julgar por uma recente emissão da RTP apresentada por uma imitação em plástico da Isabel Angelino), há um verso que é mais ou menos assim:
«Uns olhares envergonhados, e são namorados, mesmo sem saber.»
A inadvertência pareceria excluída da ideia de namoro, para o qual a volição mútua se me afiguraria condição necessária. Mas a tenra ingenuidade do conceito resgata-o à condição de paradoxo canhestro a que estaria porventura condenado. Fez-me lembrar o conto "The Beast in the Jungle", de Henry James, em que um evento extraordinário, e de relevância máxima para duas pessoas, acaba por ser sentido apenas por uma, e não por aquela que mais o antecipara ao longo de toda uma vida. "The strangeness in the strangeness..."
"Ah your not being aware of it"-and she seemed to hesitate an instant to deal with this
-"your not being aware of it is the strangeness in the strangeness. It's the wonder of the wonder." She spoke as with the softness almost of a sick child, yet now at last, at the end of all, with the perfect straightness of a sibyl. She visibly knew that she knew, and the effect on him was of something co-ordinate, in its high character, with the law that had ruled him. It was the true voice of the law; so on her lips would the law itself have sounded. "It has touched you," she went on. "It has done its office. It has made you all its own.""So utterly without my knowing it?""So utterly without your knowing it." His hand, as he leaned to her, was on the arm of her chair, and, dimly smiling always now, she placed her own on it. "It's enough if I know it."
Se os "Morangos com Açúcar" emulam, quiçá inadvertidamente, o épico de Guimarães Rosa, que atire a primeira pedra aquele que recusaria a Carlos Paião a legitimidade de se inspirar em Henry James. (A propósito, acabaram-se os posts sobre os "Morangos". Não tenciono ver a nova série, pois acho inconcebível que não saia a perder na comparação com a anterior.)
segunda-feira, setembro 25, 2006
XADREZ: Está a decorrer em Elista, capital da república autónoma russa da Calmíquia (será assim que se escreve em português?), o match para atribuição do título de campeão do mundo de xadrez. Trata-se de um encontro com características especiais, uma vez que representa a reunificação dos dois títulos que têm existido em paralelo desde que, em 1993, Garry Kasparov e Nigel Short provocaram um cisma com a Federação Mundial de Xadrez (FIDE). De então para cá, têm abundado as discussões, tão acaloradas quanto estéreis, sobre quem é o campeão do mundo legítimo. Por mais tortuoso e insatisfatório que tenha sido o caminho que conduziu a esta reunificação tão aguardada, os fãs de xadrez do mundo inteiro têm pelo menos a garantia de que, dentro de poucos dias, existirá finalmente um campeão mundial único e inconstestado.
Os dois contendores são o búlgaro Veselin Topalov (campeão do mundo FIDE) e o russo Vladimir Kramnik (campeão do mundo oficioso, dito "clássico"). Dificilmente Kramnik poderia ter começado melhor, uma vez que ganhou as duas primeiras partidas, liderando portanto por 2-0. No entanto, um olhar atento sobre essas duas partidas mostra que o resultado é enganador. Na primeira, Topalov recusou um empate por repetição de lances, vindo a perder após algumas imprecisões. Na segunda partida (ontem), o búlgaro, após erro grave de Kramnik ao 31º lance, não viu uma continuação que lhe daria uma vitória rápida, tendo acabado por sair derrotado após um final em que o seu adversário evidenciou a sua famigerada precisão.
A partir de agora, tratando-se de um match a 12 partidas, a missão de Topalov pode parecer impossível. Kramnik é um exímio defensor, e o búlgaro, ao ser obrigado a procurar o ataque a todo o custo, arrisca-se a sofrer supresas desagradáveis. Porém, se existe jogador no mundo capaz de desequilibrar posições aparentemente neutralizadas, e de encontrar recursos ofensivos mesmo contra os opositores mais coriáceos, esse jogador é Veselin Topalov. Nada está decidido.
Não tenho nenhum favorito pessoal claro, mas ficaria mais satisfeito se o triunfo final pendesse para o lado de Topalov. Não tanto por uma questão de estilo (o de Kramnik, essencialmente posicional, agrada-me mais), mas por achar que o seu título de campeão possui maior legitimidade. Em rigor, penso até que ele não se deveria ter sentido obrigado a aceitar colocar o seu título em jogo desta maneira. Mas seja tudo pela reunificação. O lema da FIDE é Gens Una Sumus ("somos uma só gente", ou algo que o valha).
Alguns dos sites onde este acontecimento é seguido de perto:
Chessbase
Échiquier Niçois
The Week in Chess
Susan Polgar Chess Blog
The Daily Dirt Chess Blog
Há ainda o site oficial, com transmissão gratuita em directo.
sábado, setembro 23, 2006
24 VEZES POR SEGUNDO: Em matéria de directores de fotografia, receio bem que, para não variar, a minha francofilia inveterada governe as minhas preferências. Os meus eleitos são William Lubtchansky ("Les Amants Réguliers", vários filmes de Rivette, Iosseliani, Doillon...), Sacha Vierny (vários filmes de Greenaway, "Hiroshima Mon Amour" e "L'Année Dernière à Marienbad" entre outros filmes de Resnais, "Belle de Jour" de Buñuel...) e Raoul Coutard, figura indissociável da Nouvelle Vague (Truffaut, Chabrol, e muitos filmes de Godard, entre os quais "À Bout de Souffle", "Bande à Part" e "Passion", tendo em anos mais recentes trabalhado quase exclusivamente com Philippe Garrel).
SVEN NYKVIST (1922-2006): Foram escassas as menções na comunicação social dita "de referência", demasiadamente ocupada com os beijinhos da Floribella, com golos marcados com a mão e outros penosos cortejos de nulidades. Também não vi nada nos blogs (mas pode ter sido por falta de atenção), com a inevitável excepção do Paulo, a quem estas coisas não costumam escapar. Morreu Sven Nykvist, um dos grandes directores de fotografia da história do cinema. Trabalhou pela primeira vez com Ingmar Bergman em 1953, no filme "Gycklarnas Afton/La Nuit des Forains" (ignoro o título em português), e, do ano de 1960 em diante, participou em praticamente todas as obras do realizador sueco. Entre os realizadores com quem trabalhou contam-se nomes como Louis Malle, Volker Schlöndorff, Andrei Tarkovsky ("O Sacrifício"), Roman Polanski e Woody Allen ("Another Woman", um episódio de "New York Stories", "Crimes and Misdemeanors" e "Celebrity"), mas será pela sua longuíssima parceria com Bergman que Nykvist será provavelmente recordado. Torna-se espinhoso tentar encontrar um outro exemplo de uma tão rica e significativa colaboração entre um realizador de cinema e um técnico, e parece-me impossível discutir filmes como "Persona", "O Silêncio" ou "A Hora do Lobo" sem mencionar a excelência das poderosas imagens de Nykvist.
Max von Sydow e Ingrid Thulin no filme "A Hora do Lobo" (1968).
Bibi Andersson, Liv Ullmann, Sven Nykvist e Ingmar Bergman durante as filmagens de "Persona" (1966). Esta imagem e a anterior foram retiradas do excelente site "Bergmanorama".
Uma cena de "O Sacrifício", de Andrei Tarkovsky (1986).
terça-feira, setembro 19, 2006
O HOMEM QUE CITAVA VALÉRY NO PARLAMENTO: O mais puro acaso googleano conduziu-me à descoberta de que o deputado socialista Jean Le Garrec citou Paul Valéry na sessão da assembleia francesa de 8 de Fevereiro de 2005, durante um debate sobre direitos e condições laborais. Evocando o paradoxo de Zenão de Eleia, o deputado falou num "Achille immobile à grand pas" (do poema "Le Cimetière Marin").
Desabafo de um deputado da maioria UMP (Patrick Ollier) «On a fait le tour des grands poètes français dans ce débat !»
(Ver aqui, e fazer busca com palavra chave "zénon".)
O mundo passava sem ficar a saber isto, mas eu não passava sem dizer isto ao mundo.
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