segunda-feira, setembro 25, 2006

XADREZ: Está a decorrer em Elista, capital da república autónoma russa da Calmíquia (será assim que se escreve em português?), o match para atribuição do título de campeão do mundo de xadrez. Trata-se de um encontro com características especiais, uma vez que representa a reunificação dos dois títulos que têm existido em paralelo desde que, em 1993, Garry Kasparov e Nigel Short provocaram um cisma com a Federação Mundial de Xadrez (FIDE). De então para cá, têm abundado as discussões, tão acaloradas quanto estéreis, sobre quem é o campeão do mundo legítimo. Por mais tortuoso e insatisfatório que tenha sido o caminho que conduziu a esta reunificação tão aguardada, os fãs de xadrez do mundo inteiro têm pelo menos a garantia de que, dentro de poucos dias, existirá finalmente um campeão mundial único e inconstestado. Os dois contendores são o búlgaro Veselin Topalov (campeão do mundo FIDE) e o russo Vladimir Kramnik (campeão do mundo oficioso, dito "clássico"). Dificilmente Kramnik poderia ter começado melhor, uma vez que ganhou as duas primeiras partidas, liderando portanto por 2-0. No entanto, um olhar atento sobre essas duas partidas mostra que o resultado é enganador. Na primeira, Topalov recusou um empate por repetição de lances, vindo a perder após algumas imprecisões. Na segunda partida (ontem), o búlgaro, após erro grave de Kramnik ao 31º lance, não viu uma continuação que lhe daria uma vitória rápida, tendo acabado por sair derrotado após um final em que o seu adversário evidenciou a sua famigerada precisão. A partir de agora, tratando-se de um match a 12 partidas, a missão de Topalov pode parecer impossível. Kramnik é um exímio defensor, e o búlgaro, ao ser obrigado a procurar o ataque a todo o custo, arrisca-se a sofrer supresas desagradáveis. Porém, se existe jogador no mundo capaz de desequilibrar posições aparentemente neutralizadas, e de encontrar recursos ofensivos mesmo contra os opositores mais coriáceos, esse jogador é Veselin Topalov. Nada está decidido. Não tenho nenhum favorito pessoal claro, mas ficaria mais satisfeito se o triunfo final pendesse para o lado de Topalov. Não tanto por uma questão de estilo (o de Kramnik, essencialmente posicional, agrada-me mais), mas por achar que o seu título de campeão possui maior legitimidade. Em rigor, penso até que ele não se deveria ter sentido obrigado a aceitar colocar o seu título em jogo desta maneira. Mas seja tudo pela reunificação. O lema da FIDE é Gens Una Sumus ("somos uma só gente", ou algo que o valha). Alguns dos sites onde este acontecimento é seguido de perto: Chessbase Échiquier Niçois The Week in Chess Susan Polgar Chess Blog The Daily Dirt Chess Blog Há ainda o site oficial, com transmissão gratuita em directo.
MÁQUINA DO TEMPO: Pode parecer incrível, mas é autêntico. No Abrupto, existe um post datado de 16 de Maio de 1990. Existem mais mistérios no bojo da blogosfera do que nos livros dos "Cinco" da Enid Blyton.
TRÊS VELINHAS: Seta Despedida: há 3 anos a negar o complexo de Zenão. Para gáudio de todos nós.

sábado, setembro 23, 2006

24 VEZES POR SEGUNDO: Em matéria de directores de fotografia, receio bem que, para não variar, a minha francofilia inveterada governe as minhas preferências. Os meus eleitos são William Lubtchansky ("Les Amants Réguliers", vários filmes de Rivette, Iosseliani, Doillon...), Sacha Vierny (vários filmes de Greenaway, "Hiroshima Mon Amour" e "L'Année Dernière à Marienbad" entre outros filmes de Resnais, "Belle de Jour" de Buñuel...) e Raoul Coutard, figura indissociável da Nouvelle Vague (Truffaut, Chabrol, e muitos filmes de Godard, entre os quais "À Bout de Souffle", "Bande à Part" e "Passion", tendo em anos mais recentes trabalhado quase exclusivamente com Philippe Garrel).
SVEN NYKVIST (1922-2006): Foram escassas as menções na comunicação social dita "de referência", demasiadamente ocupada com os beijinhos da Floribella, com golos marcados com a mão e outros penosos cortejos de nulidades. Também não vi nada nos blogs (mas pode ter sido por falta de atenção), com a inevitável excepção do Paulo, a quem estas coisas não costumam escapar. Morreu Sven Nykvist, um dos grandes directores de fotografia da história do cinema. Trabalhou pela primeira vez com Ingmar Bergman em 1953, no filme "Gycklarnas Afton/La Nuit des Forains" (ignoro o título em português), e, do ano de 1960 em diante, participou em praticamente todas as obras do realizador sueco. Entre os realizadores com quem trabalhou contam-se nomes como Louis Malle, Volker Schlöndorff, Andrei Tarkovsky ("O Sacrifício"), Roman Polanski e Woody Allen ("Another Woman", um episódio de "New York Stories", "Crimes and Misdemeanors" e "Celebrity"), mas será pela sua longuíssima parceria com Bergman que Nykvist será provavelmente recordado. Torna-se espinhoso tentar encontrar um outro exemplo de uma tão rica e significativa colaboração entre um realizador de cinema e um técnico, e parece-me impossível discutir filmes como "Persona", "O Silêncio" ou "A Hora do Lobo" sem mencionar a excelência das poderosas imagens de Nykvist.

Max von Sydow e Ingrid Thulin no filme "A Hora do Lobo" (1968).

Bibi Andersson, Liv Ullmann, Sven Nykvist e Ingmar Bergman durante as filmagens de "Persona" (1966). Esta imagem e a anterior foram retiradas do excelente site "Bergmanorama".

Uma cena de "O Sacrifício", de Andrei Tarkovsky (1986).

terça-feira, setembro 19, 2006

O HOMEM QUE CITAVA VALÉRY NO PARLAMENTO: O mais puro acaso googleano conduziu-me à descoberta de que o deputado socialista Jean Le Garrec citou Paul Valéry na sessão da assembleia francesa de 8 de Fevereiro de 2005, durante um debate sobre direitos e condições laborais. Evocando o paradoxo de Zenão de Eleia, o deputado falou num "Achille immobile à grand pas" (do poema "Le Cimetière Marin"). Desabafo de um deputado da maioria UMP (Patrick Ollier) «On a fait le tour des grands poètes français dans ce débat !» (Ver aqui, e fazer busca com palavra chave "zénon".) O mundo passava sem ficar a saber isto, mas eu não passava sem dizer isto ao mundo.

quinta-feira, setembro 14, 2006

SAI UMA MORANGADA PARA A MESA DO CANTO: Num dos últimos episódios dos "Morangos com Açúcar", o Cristiano aceitou a encomenda de um cliente que pedia quatro (4) bolos para uma festa no dia seguinte, e isto para grande consternação da Bia, que achava o prazo demasiado curto. O Cristiano argumentou com a relutância em recusar uma primeira encomenda, algo de pouco aconselhável para um pequeno e médio negócio em plena fase de lançamento. A Bia, para além da falta de antecedência, protestava devido ao risco de perder um festival de música no qual depositava grandes expectativas. Os argumentos da Bia e do Cristiano são igualmente bons. Não se pode dizer que a razão tenha tendência a pender decisivamente para um lado ou para outro. Quanto ao facto de os bolos (torta de laranja, bolo de chocolate, bolo de bolacha, e um outro que não retive) terem saído na perfeição, apesar do estatuto de principiante absoluto destes improváveis pasteleiros, isso não me incomoda nem um pouco. Porque não haveriam os "Morangos" de ter direito ao seu quinhão de suspensão de incredulidade?
E PORQUE NÃO UMA TANGENTE OU UMA SECANTE?: O 1bsk também reclama pertencer ao arco da governabilidade. Não porque o poder nos tente, mas porque a expressão tem um não-sei-quê de castiço que a torna irresistível. (Esta justa ambição passa a ocupar o lugar por baixo do título do blog.)
CINEMA: "Ferro 3", de Kim Ki-duk. Visto na Cinemateca, 2ª feira passada. Neste filme (o quarto a estrear entre nós deste cineasta, algo de inaudito para um realizador coreano), a personagem principal parece ter ido buscar inspiração ao famoso texto de Kafka sobre as parábolas. Derrotado na parábola, resolve-se a ganhar na realidade. O seu principal passatempo (e única ocupação, ao que parece) consiste em visitar apartamentos na ausência dos seus donos. Mais do que isso, encontra prazer em fundir-se com a intimidade familiar revelada pelos quartos, objectos e imagens. Ao ceder a este desejo de partilhar um quotidiano sem ser visto, aproxima-se simbolicamente da invisibilidade. Mais tarde, depois de se envolver com uma mulher amargurada por um matrimónio infeliz, e de o desenrolar dos acontecimentos o conduzir à prisão, decide concretizar na realidade o projecto gorado no domínio simbólico. Gradualmente, desmaterializa-se diante dos nossos olhos (e que belas e fortes são as imagens do protagonista na sua minúscula cela, entregue ao seu duelo com o guarda). Não são precisos efeitos especiais. A invisibilidade é uma condição, um mero atributo. E ei-lo agora fantasma, fruto de um milagre que não o é. O único milagre é a ausência de solução de continuidade. O dilema do filme, que se confunde com o próprio filme, é resolvido com um desplante tão natural e poderoso como o sorriso malicioso que se desenha nos lábios deste arrombador educado. Haveria muito a dizer ainda sobre "Ferro 3". Os jogos entre diferentes planos reflectores, a profundidade de campo explorada com destreza e elegância, a maneira como vingança, redenção e dádiva se intercalam para compor uma complexa dimensão moral, típica dos filmes deste realizador. Contento-me em dizer que foi agradável confirmar a minha apetência por filmes que se reinventam a meio caminho, a partir de uma ruptura voluntária: "The Crying Game" (Neil Jordan), "Choses Secrètes" (Jean-Claude Brisseau), "Lost Highway" (David Lynch) e "Éloge de l'Amour" (Jean-Luc Godard) são outros notáveis exemplos. Talvez se possa argumentar que "Ferro 3", afinal de contas, vai menos longe do que qualquer um destes, em termos de cesura auto-imposta. É possível. Tudo depende de estarmos a falar da realidade ou da metáfora.

domingo, setembro 10, 2006

DARWIN É EVOLUÇÃO: Não se confirmaram os piores receios: do simpósio à porta fechada que Bento XVI ( Ratzinger) organizou, não saiu uma declaração de apoio a teorias anti-científicas como o criacionismo, ou ao "Intelligent Design", sua versão cool e pós-moderna. Num mundo regido pela sanidade, as decisões de um grupo de cavalheiros no Vaticano, acerca de um assunto relativamente ao qual carecem de competência e de autoridade para opinar, não deveria merecer mais do que indiferença. No entanto, o realismo obriga-nos a admitir que o beneplácito de Roma poderia constituir perigoso encorajamento para aqueles que fizeram da introdução de absurdas teorias anti-darwinistas no sistema escolar norte-americano a batalha das suas vidas. É por isso, e apenas por isso, que hesito em fazer minhas estas palavras de PZ Myers no Pharyngula: «While we can be pleased that the Vatican hasn't found common cause with another institutional enemy of good science, ultimately their decision is irrelevant. "Eppur si muove," and all that—the world keeps spinning, the alleles keep changing, biological history has happened, and all the dogma of old men in funny hats won't change that.» Lamentavelmente, os dogmas que emanam das cabeças ornadas com chapéus ridículos têm um impacto real (quanto mais não seja por culpa de uma comunicação social acrítica e demasiado acomodada aos rapapés e à complacência com as enormidades da Igreja católica). Ainda a este propósito, também não me escapou esta patética carta aberta. Nem vale a pena comentar o miserável nível científico. O texto deste ilustre criacionista é a sua própria caricatura, e todo ele, caro Vasco, mereceria sublinhado. Sendo ingrata a escolha, acho ainda assim que o meu naco preferido é o referente às leis das probabilidades e da causalidade corroborarem a criação, e não a evolução. Paira a dúvida sobre se o autor do livro é ignorante em probabilidades, em biologia, ou em ambas. Se eu enviar uma carta aberta ao "Público" será que ma publicam?

sexta-feira, setembro 08, 2006

DE TRINCHEIRAS E DOS SEUS LADOS (3): Caro Rui, compreendo o seu ponto de vista. Vejamos, contudo, para que serve uma manifestação. Serve, na grande maioria dos casos, para dar voz a uma reivindicação. Quando se trata de fanáticos, parece-me difícil justificar o propósito de uma manifestação. Qual seria a sua finalidade? Pedir aos fanáticos que se abstenham de matar e de semear o terror? Em certos casos, reagir nas ruas ao fanatismo criminoso parece-me algo de compreensível, e talvez não completamente destituído de eficácia. Penso, por exemplo, no movimento "Basta Ya!", como resposta aos assassinatos da ETA. Porém, aquilo que pode fazer algum sentido no contexto de uma comunidade pequena, e perante um movimento terrorista de alcance local que necessita de um mínimo de apoio da população para sobreviver, carece de pertinência face ao terrorismo hiper-globalizado e hiper-mediatizado. Solicitar aos senhores da Al-Qaida, de megafone em punho, o favor de não fazerem mal às pessoas honestas, assemelhar-se-ia a uma farsa grotesca. Pior ainda: estaria demasiado próximo de um abjecto pedido de clemência. E valerá a pena fazer manifestações contra o terrorismo apenas para "equilibrar" as manifestações dirigidas a líderes democráticos? (O tal princípio de vaiar também a equipa visitante.) As primeiras seriam, forçosamente, eventos catárticos, desabafos incapazes de anular as segundas, eminentemente reivindicativas. Poderiam funcionar como factor de coesão de uma comunidade que se sente ameaçada, e assim exercer um efeito positivo. Porém, o meu cepticismo mantém-se. Uma manifestação implica um interlocutor, e os facínoras não se prestam a esse papel.
DE TRINCHEIRAS E DOS SEUS LADOS (2): Adenda a um post de ontem. O título, percebo-o agora, foi pessimamente escolhido. Falar em "lados" e "trincheiras" remete para a retórica daqueles que, sob pretexto da putativa "guerra de civilizações" que atravessamos, afirmam ser preciso escolher um lado, e vêem como traição abominável qualquer veleidade de encontrar nuances na situação, procurar causas, ou, pior ainda, parar para pensar. E eu rejeito esta retórica. Não me revejo nesta lógica maniqueísta. Quando escrevi que Bush "está do meu lado", colocava-me numa situação de hipotética escolha compulsiva. Porém, creio que a realidade presente não pede tomadas de posição absolutas. Fronteiras mentais traçadas à pressa entre "democracia" e "barbárie" contribuem para o problema, não ajudam a resolvê-lo. (Bem sei que o relativismo tem, nos dias que correm, muito má imagem. Mas não foi o relativismo o maior assassino de homens dos últimos séculos. Foi a ilusão demente de estar do lado da Razão.)
LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Na estação de metro de Telheiras, um jovem lia "O Conceito de Natureza", de Alfred North Whitehead, enquanto caminhava. De tão absorto na leitura, nem sequer reparou no cadáver de insecto que jazia sobre um dos degraus da escadaria de acesso ao cais. O insecto, de corpo enorme e lustroso, ostentando pequenas asas de cor azul, parecia saído de um documentário sobre a fauna do Madagáscar.

quinta-feira, setembro 07, 2006

«An astronomically overwhelming majority of the people who could be born never will be. You are one of the tiny minority whose number came up. Be thankful that you have a life, and forsake your vain and presumptuous desire for a second one. The world would be a better place if we all had this positive attitude to life. It would also be a better place if morality was all about doing good to others and refraining from hurting them, rather than religion's morbid obsession with private sin and the evils of sexual enjoyment.» (Richard Dawkins)
DE TRINCHEIRAS E DOS SEUS LADOS: Não é recente a minha convicção de que Richard Dawkins representa uma das vozes mais lúcidas e importantes dos nossos tempos. É uma das personalidades que mais admiro, de todas as nações e de todos os domínios. Para além de excelente autor de divulgação científica, Dawkins é um incansável lutador por causas que eu apoio, e cuja importância julgo ser das maiores: falo do combate contra a falsa ciência, contra a intromissão da superstição e da religião no domínio científico e contra os fanatismos de toda a espécie. Um aspecto que me agrada particularmente em Dawkins é a sua falta de tacto. Talvez por impaciência para com os adeptos da contemporização e dos paninhos quentes, Dawkins nunca hesita em chamar "charlatão" aos charlatães e "ignorante" aos ignorantes. E está-se positivamente nas tintas para quem nisso veja uma intolerável manifestação de arrogância moral. Esta entrevista, embora já tenha um ano e tal, mostra Dawkins em plena forma, e tem a virtude de tocar na grande maioria dos temas que constituem os seus principais cavalos de batalha. A sua leitura é altamente recomendável. No entanto, nesta frase que dela foi retirada, Dawkins não me parece ter sido feliz. Bush e Bin Laden podem estar igualmente convencidos de estar do lado da Verdade, mas tal não quer dizer que se encontrem "do mesmo lado". Quaisquer que sejam as objecções que se possam apresentar contra Bush, as suas políticas e as suas mundividências (e, no meu caso, não são poucas), trata-se do presidente democraticamente eleito de um estado dotado de mecanismos protectores das liberdades individuais, ao passo que Bin Laden é um líder rebelde cuja única lei é a do fanatismo religioso, em nome da qual planeia a morte deliberada de inocentes sem o menor escrúpulo. Qualquer que seja a nossa opinião sobre Bush (e, repito-o, a minha é francamente negativa) ele é o representante máximo de uma nação que se baseia em princípios e ideais nos quais me revejo. Se me impusessem a escolha entre Bush e Bin Laden, entre viver sob a alçada dos falcões do partido Republicano ou dos sicários do homem que orquestrou o 11 de Setembro, não hesitaria um nanossegundo. Bush, por mais que me custe dizê-lo, está "do meu lado". Acessoriamente, é precisamente por isso que acho patéticos argumentos deste jaez: «Por que razão se manifestam contra a invasão do Iraque e não contra os atentados da Al-Qaida?» (Ou contra Fidel Castro, o regime coreano, etc.) Haja paciência. Manifestações contra Bush fazem sentido precisamente por se tratar de um líder democrático, responsável perante os seus eleitores, e do qual há que esperar bom senso, justiça e clarividência. Uma manifestação contra o modus operandi do senhor Bin Laden não passaria de um exercício ocioso, porque de fanáticos não há nada a esperar. Ao dizer que Bush e Bin Laden estão do mesmo lado, Dawkins arrisca-se a confundir-se com aqueles cujo passatempo preferido é ulular slogans acéfalos e estafados do tipo "Bush=Hitler" ou outras pérolas clássicas do mesmo género. (É minha firme opinião que comparações com Hitler ou o Holocausto deviam ser taxadas pela medida grande.)
HÁ CAIXAS BERGMAN A 29,50 EUROS NO FEIRA NOVA: O título diz tudo.

Em Aveiro, Covilhã, Fundão, Lisboa (Bela Vista), Lisboa (Telheiras), Loures, Póvoa de Varzim, Póvoa de Santo Adrião e Seia. Só até 13 de Setembro.

quarta-feira, setembro 06, 2006

PODEM SALTAR ESTE, POR FAVOR: Eu queria manifestar a minha perplexidade pela maneira como a Susana está a ser intrujada por esse falso do Guga, mas também queria sublimar a indignação (porque tantos posts sobre os "Morangos com Açúcar" já aborrece, até a mim) com umas frases, digamos, sobre poemas de Montale. Tudo no mesmo post. E saiu isto.
FOI VOCÊ QUE PEDIU UM EXCELENTE BLOG SOBRE CIÊNCIA?: «Evolution, development, and random biological ejaculations from a godless liberal.» O Pharyngula é um grande, grande e justamente célebre blog. O seu autor, o biólogo PZ Myers, com humor cortante e raro virtuosismo, zurze a superstição, a falsa ciência e obscurantismo. Para além destes méritos, ainda nos oferece epifanias tão intensas como este polvo esculpido em manteiga.

segunda-feira, setembro 04, 2006

DIZ-ME O QUE OUVES: No filme "American Psycho", que vi anteontem na TVI, a personagem Patrick Bateman tem gostos musicais que não fogem ao convencional: Whitney Houston, Phil Collins... Menos comum é a sua mania de, antes de cometer os seus atrozes crimes, brindar a perplexa futura vítima com discursos, extremamente articulados e repletos de clichés jornalísticos, sobre a banda ou cantor em questão. Mal pude reprimir um gemido de revolta ao verificar que um dos eleitos de Bateman é Huey Lewis and the News. Se o objectivo de Bret Easton Ellis era satirizar as preferências musicais, insípidas e formatadas, dos yuppies de Wall Street, penso que a menção a Huey Lewis foi um tiro no próprio pé. O som de Huey e dos seus News era poderoso, bem-humorado e genuíno. O seu sentido de humor auto-paródico e a riqueza das suas harmonias, a capacidade de oferecer irresistíveis melodias feel good sem resvalar para a irrelevância, colocam-nos a muitas milhas náuticas (lembram-se de "Stuck With You"?) da lamechice empacotada e liofilizada de Whitney Houston e Phil Collins. (Mais preocupante foi ficar a saber que a banda preferida de Bateman são os fabulosos Talking Heads, o que é ainda mais difícil de justificar. Espero que se deva exclusivamente ao brilhante tema "Psycho Killer", onde David Byrne canta em francês com forte sotaque.)
BEAM ME UP, JOÃO CÉSAR: As crónicas de João César das Neves ganharam justa fama pelo teor de ousados saltos quânticos argumentativos, capazes de levar o leitor mais plácido ao desespero completo. É tal a catadupa de falácias, alegações inconsistentes, abusos de linguagem e generalizações inconcebíveis que a reacção mais normal é um pasmo prolongado e profundo, de que só se recupera a custo. A contestação dos periclitantes edifícios retóricos de JCN é tarefa ingrata: as enormidades são às mancheias, o tempo e a paciência para as tratar uma a uma não existe. Perante este panorama, qualquer veleidade de contraditório vacila. Fino estratega, este nosso celebrado cronista das segundas-feiras! Desta vez, JCN brinda-nos com um dos seus melhores textos dos últimos meses. O argumento central (se é que me atrevo a condensar pensamentos tão ricos, tão regurgitantes de significado) parece ser o seguinte: o ser humano possui uma tendência natural para a transcendência, para a procura de sentido, e a civilização materialista contemporânea, ao substituir um mundo centrado em Deus por um mundo centrado no Homem, desvia essa sede de absoluto para objectos irrisórios, como seja a série televisiva "Star Trek". Admita-se que este argumento não é totalmente descabido. Não seria eu quem se admiraria se, por hipótese, surgisse amanhã um artigo científico que provasse que os substratos neurológicos por detrás da crença religiosa e da adesão a séries, filmes, bandas desenhadas, cultos satanistas ou paixões clubísticas são os mesmos. Porém, se me parece plausível que a ideia fundamental possua um fundo de verdade, há que frisar que a interpretação que a partir dela deriva JCN é francamente discutível. Na opinião de JCN, uma tendência intrínseca ao Homem para aspirar a significados últimos e a um consolo espiritual que só a religião lhe pode dar foi traída por uma modernidade grosseira que apenas lhe oferece tristes sucedâneos. Na minha perspectiva, a coisa passa-se assim: as religiões organizadas servem-se, hoje como ontem, da (demasiado) humana propensão a procurar respostas fora da razão e do bom-senso. Durante séculos, essas religiões revelaram-se devastadoramente eficazes em co-optar, para seu benefício, as dúvidas, fraquezas e ingenuidade dos crentes, para além do seu sentido gregário e apego a ritos ordenadores do quotidiano. Hoje em dia, quando as brechas no seu monopólio são cada vez mais difíceis de esconder (em particular no caso da Igreja católica), fica mal aos seus dignatários e defensores queixar-se. A sociedade de consumo, os gurus, as seitas, mais não fazem do que lutar com as mesmas armas que as religiões aperfeiçoaram ao longo da sua história. JCN encontra ainda espaço para aludir a alguns dos seus fantasmas predilectos, desses que, pouco ou nada devendo à veracidade ou à realidade histórica, são imprescindíveis para conferir às suas crónicas aquele paladar inconfundível. O "deísmo iluminista" e o "ateísmo positivista" são os maus da fita, os responsáveis por associar o culto à superstição e pela recusa do absoluto e do transcendente. Logo, é neles que radica o actual e deprimente estado das coisas. Estranhamente, JCN abstém-se de explicar qual terá sido o papel do modelo de sociedade (bem distante das ferozes derivas jacobinas que assombram os seus escritos) para o qual se tem vindo, felizmente, a caminhar na Europa ocidental, embora com fortes nuances de país para país. Falo da democracia laica, assumidamente incompetente em matéria religiosa, promotora tanto da liberdade de culto como da separação entre Igreja e Estado. É inútil culpar uma sociedade onde todos têm a possibilidade de adorar a divindade que muito bem lhes apetecer. Se cada vez mais pessoas trocam a fé pela nave Enterprise, talvez isso tenha menos a ver com o cepticismo perverso dos nossos dias, e mais com a colossal inadequação de uma Igreja que ainda teima em ver-se como pilar da sociedade e referência moral.

sábado, setembro 02, 2006

SERÁ QUE OCTAVIO PAZ ANDOU A LER KLEIST?: «La tentativa revolucionaria se presenta como una recuperación de la conciencia enajenada y, asimismo, como la conquista que hace esa conciencia recobrada del mundo histórico y de la naturaleza. Dueña de las leyes históricas y sociales, la conciencia determinaría la existencia. La especie habría dado entonces su segundo salto mortal. Gracias al primero, abandonó el mundo natural, dejó de ser animal y se puso en pie: contempló la naturaleza y se contempló. Al dar el segundo, regresaría a la unidad original, pero sin perder la conciencia sino haciendo de ésta el fundamento real de la naturaleza.» (Octavio Paz, "El Arco y la Lira") «(...)também assim a graça ressurge depois do conhecimento atravessar, digamos, um infinito; e da mais pura forma ela se mostra, quer no corpo humano desprovido de consciência, quer no corpo que tenha uma, infinita, querendo eu dizer no fantoche articulado ou em Deus.» (Heinrich von Kleist, "As Marionetas", trad. de Luís Bruhein e Aníbal Fernandes)
CONSERVADORISMO: Li algumas referências (por exemplo esta, esta) a crónicas recentes de João Carlos Espada onde este dá largas ao seu fascínio pelos tiques vestimentares vigentes em certos círculos conservadores de aquém e além-Atlântico. Deixando de parte o exagero próprio da personagem, penso ser apropriado fazer notar quão dependente está de pormenores igualmente frívolos o conservadorismo de certos assumidos conservadores da nossa freguesia. Tweed e chá das cinco; romances de Trollope e stiff upper lip; campos verdejantes de Oxford e Cambridge e poemas de Larkin; é o quanto basta para fazer brotar vocações conservadoras. Instados a aprofundar a razão de ser da sua veia, alguns desses conservadores de-trazer-pelas-colunas-de-opinião poderão evocar, com a condescendência de quem acha tudo demasiado óbvio para ser explicado, que o seu ideário deriva da desconfiança perante evoluções (com ou sem "r" prefixado) que desvirtuem a sociedade ou que façam perigar as instituições. Mas dificilmente irão além da enunciação mole e auto-satisfeita do princípio segundo o qual "mais vale não mudar nada do que mudar para pior". E dificilmente o farão porque o conservadorismo é, na sua essência, uma questão de temperamento, sem cheiro de conteúdo político. Não há rigorosamente nada de mal em ser-se, ou afirmar-se ser, conservador. Mais delicado é quando se deixa que um traço de temperamento extravase para a política. Deixemos aos ingleses o privilégio da anacrónica câmara dos lordes e da inadequação anedótica dos tories.

quinta-feira, agosto 31, 2006

EU GOSTO É DO VERÃO: A escuta de conversas alheias, a conspiração com o fim de incriminar alguém, o coma clínico (quando atinge uma personagem na posse de informação importante), são esquemas velhos como o mundo de fazer avançar uma narrativa. Nos "Morangos com Açúcar" todos eles são usados, por vezes abusados até à saciedade (e para lá dela). É espantoso constatar até que ponto esta telenovela assenta nos meandros, desvios, transvios, bifurcações e interrupções do fluxo de informação. Quase toda a acção é consequência de falta de informação (por exemplo, a Matilde só voltou a andar com o Tiago quando soube, ao fim de muito tempo, que ele lhe tinha feito companhia no hospital), informação mal interpretada, omissões, ou informação maliciosamente transmitida e deturpada. Cheguei a ambicionar redigir uma análise global dos "Morangos com Açúcar" que se cingisse a estas relações de emissão, transmissão e recepção de informação (com alguns elementos de teoria de grafos pescados aqui e ali para dar seriedade à coisa), e que fizesse jus a uma verdade que me parece inegável: nos "Morangos", nenhuma personagem existe por si só. O estatuto de personagem depende do estabelecimento de relações, e este absorve a totalidade da energia narrativa da telenovela (com excepção de alguns episódios irrelevantes do foro criminal, como o incêndio do colégio). Claro que se pode argumentar que isto é válido para todas as telenovelas. Ainda assim, penso que esta tendência é (e não sem uma certa honestidade e limpeza de meios) levada a um extremo raro nos "Morangos". No entanto, cedo percebi que esta tarefa excedia as minhas capacidades e o tempo que eu para ela poderia disponibilizar. A propósito, no site da Fnac grafam o título do CD "Moranguice". Está mal. Deve ser "MorangIce", com o "Ice" pronunciado à inglesa.
BIODIVERSIDADE E POESIA: O que faz com que um animal seja considerado "nobre" e outro "menos nobre", "vil" ou "risível"? Ou, para colocar a questão num contexto literário: o que faz com que certos membros de pleno direito do reino animal sejam toleráveis no título de um livro de poesia, ao passo que outros levariam ao descrédito ou à chacota? "Águia", "tigre", "cavalo", são nomes que não destoariam na capa de uma recolha de poeta consagrado. "Cão", "urso" ou "mosca" dariam azo a algum erguer de sobrancelhas, mas pouco mais do que isso. Nada que conspurcasse uma reputação. "Peixe" seria aceitável, enquanto designação genérica, mas não uma espécie em particular ("robalo", "taínha", "goraz"). Nas aves, a situação permite certamente mais ampla margem de manobra: "tordo", "pombo", ou até um castiço "tetraz" teriam certamente o seu lugar nesse hipotético título de hipotético autor. "Pardal" ficaria a matar num volume de poesia urbana ligeira, sem pretensões a uma mais profunda penetração artística. Não há, porém, que ocultar a verdade: "canguru", "alforreca", "piolho", "hipopótamo" ou "ouriço-cacheiro" não têm direito de cidade no nome de uma obra literária em verso de grande fôlego. E seria ingénuo pensar que se trata de uma simples questão de cacofonia. Existe algo de mais profundo, de inexpelivelmente arreigado, que nega a certas espécies o direito a uma nobreza compatível com as belas letras. E eu julgo que ficamos todos a perder com isso.

segunda-feira, agosto 28, 2006

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Hoje, na Patagónia, linha verde do metropolitano, um jovem sacou de um exemplar do livro de Bruce Chatwin, "Em Telheiras", e começou a ler com expressão atentíssima.
TRADUÇÃO: Na antologia de Montale da Assírio & Alvim, José Manuel de Vasconcelos traduz «non sapevi un'acca/di portoghese» por «não sabia patavina/de português». "Sapevi" é a segunda pessoa do singular. Custa-me a perceber de onde vem este "sabia". No poema também se fala de um cálice de Madeira com acompanhamento de lagostins.

sábado, agosto 26, 2006

MAIS TÍTULOS: Agora sim, com reticências. "Cry-Baby", filme de John Waters (1990), em português ficou "Quem não chora, não... ama". Valha-nos o Dr. Sousa Martins.
A VINGANÇA DE PLUTÃO: Eurico de Barros igual a si próprio, mesmo quando discorre sobre temas periféricos ("DN", 25/8): «Tirando os desenhos animados de Pluto propriamente dito, e uma monumentalmente má comédia de ficção científica com Eddie Murphy chamada Pluto Nash (que ainda por cima se passa na Lua), o nome do ex-planeta de primeira categoria figura no título de um recente filme de Neil Jordan, Breakfast on Pluto, que conta a história de um travesti irlandês cantor de cabaré. Desculpem-me lá ser politicamente incorrecto, mas é só um degrau abaixo de planeta-anão.» Proponho que, aproveitando o balanço, se despromova Eurico de Barros de crítico de cinema para "escriba especializado na indústria do audiovisual e pródigo em larachas".
GARREL: Não diria que gosto de tudo o que Philippe Garrel faz. Mas nunca me sucedeu sair decepcionado de um filme deste realizador. E acho-o um soberbo exemplo de um dos aspectos mais notáveis do cinema francês: a possibilidade de um autor que cultiva uma estética marginal seguir o seu percurso pessoalíssimo, ao longo das décadas, sem perder o contacto com a distribuição no circuito de salas nem com a imprensa convencional. (Não é fácil eleger o meu filme preferido de Garrel, mas é bem possível que a escolha recaísse sobre um dos mais recentes: "Le Vent de la Nuit". Escolha para a qual a assombrosa banda sonora de John Cale não é factor inócuo.) E a propósito: "enorme democratização do gosto e do acesso aos bens culturais"? Pode ser. Nalguns casos, a democratização do acesso (deixando de lado a do gosto, cuja natureza se me afigura bem mais discutível) é uma realidade positiva e indesmentível. No caso do cinema, a oferta em salas é o que se sabe (muito restrita em Lisboa e Porto, quase nula no resto do país), e, mesmo tendo em conta a expansão do DVD, a fracção de obras da cinematografia mundial acessível ao consumidor médio é ínfima e pouco representativa.
COLUNA SOCIAL: Os gatos Jasmim e Goneril declaram-se encantados. Tanto mais que a Cleópatra apresenta semelhanças fisionómicas extraordinárias com a Goneril, incluindo a manchita na pata, cinzento malhado sobre branco-branco.

quarta-feira, agosto 23, 2006

JUSTE UNE IMAGE: No suplemento "6ª" do "DN" de dia 18/8, João Lopes, a propósito de Godard, fala da crença ingénua de que a imagem possa funcionar «como revelação aberta, transparente e incontestável de um mundo que, por definição, se exporia de modo igualmente aberto, sem resistências figurativas ou simbólicas». E ainda: «Será que nos servem uma visão do mundo sem nunca, nem por um instante, terem pensado que o estão a fazer?». Se bem que a observação de João Lopes (com a qual estou integralmente de acordo) se dirija mais explicitamente aos telejornais, não me parece inoportuno estendê-la ao domínio do cinema e da crítica cinematográfica. Com efeito, se eu tivesse de apontar um único pecado mortal à crítica de cinema em Portugal (e só me refiro a esta, em particular, por ser a que conheço melhor), seria este: falar dos filmes parecendo incapaz de perceber que está a lidar com objectos cinematográficos, com especificidades próprias. Na grande maioria dos casos, o crítico fala de um filme como se falasse de um livro, e a crítica concentra-se no enredo ou no assunto do filme, e em ilações sobre esse enredo ou assunto, complementadas por referências ao desempenho dos actores, notas enciclopédicas sobre a filmografia precedente do realizador, etc. Raras vezes nos é dado ler uma apreciação que diga explicitamente respeito à natureza cinematográfica da obra, e ao modo como o realizador se serviu dos meios e técnicas ao seu dispor para dar corpo à sua intenção artística. Não acredito que se trate de mera incompetência ou desleixo. Quer-me parecer, isso sim, que existe um défice de consciência do modo como a captação de uma imagem, a sua planificação e o seu registo, constituem um gesto artístico, com implicações a variadíssimos níveis, incluindo o ético; um gesto que nunca será inocente, e que só o seria se se pudesse admitir a tal transparência, a possibilidade de trazer ao espectador o mundo exterior de forma totalmente neutra e fiel. Porém, reconheço que certos filmes tornam difícil ao crítico proceder de outro modo. Por serem realizados de forma tão mecânica, estandardizada e/ou desleixada, muitos dos filmes que estreiam entre nós pouco mais justificam ou merecem do que uma referência apressada à "história" (a sacrossanta história...), aos actores, e a uma qualquer anedota de produção. Mas não é desses filmes que falo. "Les Amants Réguliers", de Philippe Garrel, é um excelente exemplo de um filme para o qual toda e qualquer leitura que menospreze a sua natureza última (uma sucessão de imagens em movimento, afinal é isso um filme) será uma leitura traidora e inútil. (E repare-se que isto não significa apoucar a importância do argumento desta ou de outras obras.) Vê-lo reduzido a um "filme sobre o Maio de 68" entristece-me ainda mais do que sucederia no caso de um filme menor. São inúmeros os exemplos de cenas deste filme que seriam irredutíveis a qualquer outro meio que não fosse a imagem em movimento, cenas cujo enquadramento rigoroso (esplendidamente servido pela fotografia do grande William Lubtchansky) não obstam a um empolgante sentido de liberdade. Por vezes, às críticas "chapa 3" dos profissionais do ofício, quase prefiro as que, como esta, pelo menos oferecem uma perspectiva marcadamente pessoal, e até se referem a cenas específicas do filme, com explicação das razões que levaram o autor a gostar, ou não. Claro que discordo de tudo o que nela leio: as estafadíssimas referências à lentidão, não faltando a previsível comparação com Oliveira (como se a lentidão, a demora, a exploração da evolução de uma situação no tempo, não fossem dispositivos tão cheios de virtualidades com quaisquer outros), a acusação de que nada acontece durante a longa cena das barricadas (e como é densa em acontecimentos essa cena!, e fascinante por isso mesmo, desde que se preste um mínimo de atenção, e não se espere que as peripécias saltem do ecrã para cair no colo do espectador, com efeitos sonoros a acompanhar), a alusão a "maneirismos/erros cinematográficos" (quais?), e a suposta banalidade dos amores e dos artistas que povoam o filme (como se a banalidade, e mesmo a mediocridade, não estivessem na origem de grandes obras da literatura e do cinema, como se só o excepcional fosse digno de ser retratado). Termino com uma mensagem subliminar: ide todos ao King ver o filme de Garrel! (E depois ao Porto, quando ele estrear lá.) (Ver ainda este artigo de João Lopes sobre a exposição Godard no Centro Pompidou.)
ADENDA AOS TÍTULOS: Um leitor atento e prezado fez-me notar que cometi uma injustiça para com a classe dos tradutores, pela qual peço desculpa. Ao que parece, a tradução do título original de um filme é uma decisão das distribuidoras, e, regra geral, integra-se numa campanha de marketing destinada a vender o produto (daí, suponho, o uso e abuso de termos como "fatal", "mortal", "diabólico" e "paixão"). Os tradutores profissionais não são tidos nem achados. Colocados os pontos nos is, deixo mais dois exemplos de versões portuguesas delirantes de títulos originais. "The Odd Couple", filme de 1968 com Jack Lemmon e Walter Matthau, chamou-se entre nós "Mal por mal, antes com elas" (desconheço se com ou sem reticências, essa muleta predilecta da brejeirice). Quanto ao título português da primeira longa-metragem de Claude Chabrol, sempre foi um mistério para mim. Entre "Le Beau Serge" e "Um Vinho Difícil" a distância não é curta, convenha-se. Tentativa canhestra de contribuir para uma maior consciencialização dos perigos do alcoolismo?
SERIALISMO ONOMÁSTICO: Pela terceira vez consecutiva, nestas férias, tenho entre mãos um livro de um autor cujo apelido é "Carvalho". Depois de Mário de Carvalho ("Era bom que trocássemos umas ideias sobre o assunto") e Maria Judite de Carvalho ("Seta Despedida"), é a vez de Bernardo Carvalho ("Teatro"). Não foi de propósito, embora seja o tipo de coisa que eu poderia sentir vontade de fazer de maneira deliberada. (O livro de Bernardo Carvalho não é uma recolha de peças. É um romance que se chama "Teatro".)

segunda-feira, agosto 21, 2006

ANTI-DEMOCRATAS PARA TODOS OS GOSTOS: Na sua última crónica do "Público" (19/8), Helena Matos dá-nos conta da sua incompreensão face a todos aqueles que, ainda que vivendo num regime democrático, se obstinam em tomar "posições contra a democracia", e oferece-nos em seguida uma instrutiva escolha de exemplos. Provavelmente por falta de espaço, Helena Matos não se refere àqueles que têm sido entre nós os paladinos do branqueamento de alguns dos piores atentados contra democracia do último século. Refiro-me por exemplo àqueles que, com Luciano Amaral à cabeça, minimizaram o cariz antidemocrático do 28 de Maio e da sublevação franquista. Ou àqueles que, mais recentemente, apresentaram um retrato retocado e pasteurizado de Marcello Caetano, com profusos elogios ao Homem, ao Pedagogo, ao Jurista, e silêncio oportuno quanto ao detalhe de ele ter sido primeiro-ministro de uma ditadura repressiva. Todas estas posições me parecem compatíveis com o oportuno diagnóstico de Helena Matos. (NOTA da redacção: as maiúsculas em "Homem", "Pedagogo" e "Jurista" são escolhas deliberadas do autor, visando um efeito de ironia. Não entram em conflito com o livro de estilo oficial do 1bsk.)
CORES: «A magenta não é tão hedionda como isso e há outras cores que ligam pior com o verde-alface.» (Mário de Carvalho, "Era bom que trocássemos umas ideias sobre o assunto", Caminho, 1995, p.16) Nesta frase, Mário de Carvalho referia-se a um edifício. Sem o saber, logrou inserir numa só frase menção às duas cores fundamentais deste blog: verde-alface e magenta. A primeira acompanha-nos desde sempre. A segunda foi resultado de um acidente de percurso que envolveu um certo filme de Marguerite Duras.

sábado, agosto 19, 2006

DE DIVINA PROPORTIONE (4): Com efeito, eu detectara uma postura, como direi?, um pouquinho lackadaisical, aliás perfeitamente adequada à estação, no seu penúltimo post. Mas não se apoquente: também me parece que este debate (se é que alguma vez chegou a sê-lo) já deu o que tinha a dar. E a sua última intervenção cobre adequadamente os dois aspectos da questão: o pessoal e o colectivo/jurídico.
  1. À minha pergunta ("seria legítimo/aceitável que uma nação respondesse a uma escaramuça de fronteira (acto de guerra) com um bombardeamento maciço (outro acto de guerra) que dizimasse, digamos, 10 % da população da nação agressora?"), respondeu que sim. Registo. Eu acho que não. Tenho para mim que uma discussão entre duas pessoas razoáveis deve idealmente conduzir ou a uma convergência de pontos de vista ou a uma incompatibilidade de princípios insanável. Parece-me verificar-se este último caso. (Quanto ao resto, nomeadamente esse tremendo disparate de eu ver o Hezbollah como "uma organização preocupadíssima com os libaneses, com as mulheres e as crianças", sugiro-lhe que tenha mais cuidado antes de desvirtuar as palavras alheias. A ligeireza estival não justifica tudo.)
  2. Diz que "os crimes de guerra são julgados sempre pelos vencedores e têm muito que se lhe diga". É um argumento que tem pernas para andar. Mas que está longe de ter alcance universal. Para citar apenas um exemplo: antes de morrer, Slobodan Milosevic estava a ser julgado pelo Tribunal Internacional para a Antiga Jugoslávia, um organismo da ONU independente, como é óbvio, de qualquer um dos contendores da guerra dos Balcãs. O que me parece indiscutível é que, contrariando a tese da arbitrariedade e desproporcionalidade intrínsecas da guerra (que repete, como credo pessoal, em vez de a fundamentar), o conceito de crime de guerra tem ganho raízes, nas altas instâncias internacionais assim como na opinião pública. E se isso sucede, é porque há muita gente que não pensa como você (ver ponto 1, supra). E ainda bem, acrescento eu.

Concluído este refrescante intercâmbio de opiniões, despeço-me. Faz-se tarde, e gostaria de acresecentar algumas estrofes à minha cantata em louvor a Che Guevara, antes da hora de jantar.

O SEU A SEU DONO: Anunciam-nos que esta série dos "Morangos com Açúcar" está prestes a acabar. Mas são ainda legião as situações por resolver! A entropia morangal terá ainda de sofrer drástica redução, antes do grande final, sob pena de os fãs ficarem desapontados. Supondo que o expectável se verificará, temos que: o Tiago e a Matilde se reconciliarão, assim como a Susana e o Afonso; o perverso Guga e a sua maquiavélica irmã (cujo nome esqueci) terão de ser punidos; o Crómio e a Daniela voltarão a juntar-se, assim como a Vera e o professor de ginástica (nome?); o Lourenço ficará com uma das gémeas, sendo que a outra está destinada ao rapaz louro cuja graça também não me ocorre; o culpado do incêndio no Colégio será encontrado e punido; no departamento infantil, o Gil ficará com a Diana; e a Catarina levará a melhor sobre a anorexia. Existem, é certo, algumas incógnitas neste cenário. A Becas ficará com o rapaz do cabelo curto que enganou o amigo, ou com o verdadeiro autor dos poemas? E o "Pedro", revelará o terrível segredo do seu sexo (segredo de polichinelo para todos os espíritos razoáveis, mas não para o principal interessado)? Para desatar todos estes nós, cada um mais górdio do que o outro, proponho humildemente um deus ex machina bronzeado, em fato-de-banho Speedo, que desça sobre o areal da praia de Cascais, e ofereça a esta série o desenlace de proporções grandiosas que ela merece!

sexta-feira, agosto 18, 2006

AS MADALENAS ESTÃO NA MODA (2): Aqui vai o primeiro e modesto sobrevoo sobre as escolhas de personalidades famosas em resposta ao famigerado questionário de Proust. Para já, a pintura. Algumas dessas escolhas revelam escassa originalidade. Van Gogh é um dos mais citados (por Claude Allègre, Monica Bellucci, Jean-Claude Brialy, Juliette Gréco e Marina Vlady), assim como Picasso (Claude Allègre, Monica Bellucci, Jean-Claude Brialy, Petula Clark, André Glucksmann e Philippe Sollers). Menos previsíveis são as escolhas de Anouk Aimée (Piero Della Francesca), Yann Arthus-Bertrand (Klein, Kandinsky e Freud, suponho que Lucian, e não Sigmund) Michel Bouquet (Böcklin), Julie Delpy (Francis Bacon e Moreau), Arielle Dombasle (Memling,...

(Nossa Senhora e o menino com dois anjos)

...Cranach, não sei se o velho ou o jovem, Waterhouse e novamente Freud), Dan Franck (Soutine), Bernard Kouchner (Uccello e Cézanne), Eddy Mitchell (Norman Rockwell e um certo "Remington" que presumo tratar-se de Frederic Sackrider Remington). A escolha de Emir Kusturica é, no mínimo, óbvia: Marc Chagall. André Glucksmann e Jean-Claude Carrière denunciam tendências primitivistas, ao citar os pintores das cavernas (Glucksmann especifica "os de Lascaux"). Sylvie Testud, sem particularizar, demonstra preferência pelos fauvistas. Aprecio sobremaneira a referência a Vuillard feita por Philippe Noiret.

(L'Armoire à Linge, c. 1894-95)

A resposta mais desconcertante é a de Petula Clark. A cançonetista, para além do Picasso "de início de carreira", menciona Kandinsky "a meio da carreira" e a sua segunda filha Kate Wolf, que eu não faço a mínima ideia de quem seja. Custou-me verificar que, das respostas que consultei (não foram todas), apenas a actriz Elsa Zylberstein e a cantora lírica Barbara Hendricks referiram Edgar Degas, talvez o meu pintor preferido de todos os tempos.

quinta-feira, agosto 17, 2006

O GATO NA SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA: Há que juntar o autor Carlos de Oliveira ao extenso rol de ódios pessoais da gatinha Goneril. Hoje, ela entrou em querela com as obras completas deste autor, manifestando incompreensão por eu preferir um livro à companhia de um felino obviamente adorável e belo. Quanto ao gatinho Jasmim, percebeu o quanto a sétima arte pode ser desconcertante. Perturbado com o som surround do filme de Peter Greenaway "The Belly of an Architect", optou por uma retirada estratégica (e plena de dignidade, reconheça-se) ao fim de 10 minutos. Estes gatos viveriam muito mais felizes na era pré-Gutenberg e pré-Lumière.

quarta-feira, agosto 16, 2006

SINTONIA: Agradeço a demasiado gentil referência que foi feita, no blog O Franco Atirador, ao meu pequeno artigo sobre a exposição de João Queiroz. A maneira como o autor dessa referência transcreve, quase textualmente, as minhas palavras leva-me a concluir que partilha dos pontos de vista que exprimi, o que é encorajador. (Isto embora algo, quiçá um temperamento reservado, o tenha impedido de expor as suas próprias opiniões.)

terça-feira, agosto 15, 2006

TÍTULOS (2): Achei oportuna esta referência à inanidade de muitos títulos portugueses de filmes estrangeiros. Um dos meus exemplos preferidos da leviandade com que muitos tradutores distorcem, estropiam, subvertem, conspurcam e ofendem os títulos das obras originais é "Innocent Blood", filme de vampiros de John Landis, que, em Portugal, foi mimoseado com o inverosímil título "Não Há Pescoço que Aguente". Já "Drowning By Numbers", longa-metragem de Peter Greenaway foi transformado num brejeiro "Maridos à Água", que poderia passar por nome de revista no parque Mayer. Outro dos meus favoritos pessoais é "The Sure Thing", comédia que Rob Reiner realizou antes de alcançar fama com "When Harry Met Sally..." e "Misery". Num rasgo de criatividade a que a História não fez justiça, o tradutor deste filme para a língua do Padre António Vieira saiu-se com o fabuloso "Borracho Choque para Menina Chique". A lista podia prolongar-se indefinidamente. Com o tempo, passei a ligar cada vez menos aos títulos em português, desde que domine minimamente a língua original. Parece-me absurdo que o título que acompanhará para sempre um filme esteja dependente dos caprichos ou do défice de inspiração de um tradutor. Deveria ser designada uma comissão de sábios que, periodicamente, reunisse para corrigir estes dislates.
TÍTULOS (1): Pode-se ou não aderir ao pessoalíssimo universo artístico do realizador Philippe Garrel. Mas desafio seja quem for a apontar uma filmografia com títulos mais belos. Por exemplo:
  • La Cicatrice Intérieure (1970)
  • Les Hautes Solitudes (1974)
  • Un Ange Passe (1975)
  • Le Bleu des Origines (1978)
  • Liberté la Nuit (1983)
  • Elle A Passé Tant d'Heures Sous les Sunlights (1984)
  • Les Baisers de Secours (1989)
  • J'Entends Plus la Guitare (1991)
  • Sauvage Innocence (2001)
LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Na linha amarela do metropolitano, um jovem lia "Watt", de Samuel Beckett, na edição portuguesa da Assírio & Alvim. Reza a lenda que Beckett escreveu "Watt" para evitar ficar louco, durante os anos em que, no Roussillon, participou nas actividades da Resistência. O lema deste blog consiste, neste momento, numa citação de "Watt", precisamente a sua última frase: "no symbols where none intended". Estaria na altura de o mudar. Mas não há urgência.

sábado, agosto 12, 2006

EURICO, O PRESBITA: Que Eurico de Barros espalhe quotidianamente a vulgaridade da sua prosa e a indigência das suas opiniões pelas páginas de um diário de expansão nacional (falo, obviamente, do "Diário de Notícias"), eis algo a que todos, mal ou bem, nos fomos habituando, ano após ano. Que ele saque do revólver perante qualquer filme que lhe cheire a "autorista", esquerdista, feminista, de alcance sociológico, ou vagamente aparentado com uma qualquer agenda liberal, sem qualquer consideração por critérios cinematográficos, é uma coisa que, embora irritante, faz parte da personagem. Desejar que fosse de outra maneira seria como desejar que o verão não trouxesse consigo os mosquitos. Quando, porém, Eurico de Barros se serve, para descrever o recém-estreado "Les Amants Réguliers", de Philippe Garrel, de termos como "trombudo", "múmia paralítica" e "velharia instantânea", o cidadão honesto não pode deixar de se interrogar sobre a eventual existência de leis contra tão gritante falta de tino e tão clamoroso défice de competência. Como bom presbita que é, Eurico de Barros é incapaz de reconhecer uma obra-prima mesmo que esta lhe passe a vinte centímetros dos olhos. "Les Amants Réguliers" é um grande filme, um drama intimista com uma envergadura emocional empolgante. A meu ver, ninguém como Garrel possui a arte de capturar o instante em que as suas personagens expõem o seu âmago de solidão e fragilidade, numa qualquer encruzilhada do seu destino pessoal. Neste filme, a revolução (Maio de 68) não é um mero pano de fundo ou caução histórica, tão pouco um sorvedouro absoluto de vidas e conversas; é uma matriz que activamente acolhe e segrega as movimentações das personagens, e de que Garrel se serve para explorar aquilo que realmente lhe interessa: o indivíduo, a sua imensa capacidade para sofrer, os seus abismos, aquilo de que ele é capaz para os sobrevoar ou neles se perder.

quinta-feira, agosto 10, 2006

É OFICIAL!: O 1bsk não vai de férias.
DOS LÍQUIDOS: Nos noticiários de hoje, foi por várias vezes referido que os terroristas tencionavam fazer explodir os aviões por meio de "líquidos químicos". Senti vontade de pedir à pessoa de onde partiu a notícia, assim como aos jornalistas que a veicularam, um exemplo de líquido não químico. (Obrigado a Daniel Faria pelo título.)
JOÃO QUEIROZ: Chamo a atenção para a exposição de João Queiroz no Centro de Arte Moderna da Fundação Gulbenkian. A exposição consiste em seis telas de grande dimensão, que se apropriam e, ao mesmo tempo, interrogam o modelo clássico da paisagem. Não é claro se as telas de João Queiroz representam paisagens reais. O que é certo é que o observador não poderá deixar de nelas reconhecer arquétipos, facilmente identificáveis, de paisagens clássicas, directamente saídas da tradição ocidental. Contudo, esses "arquétipos", à base de pinceladas vigorosas e de superfícies claramente delimitadas, contêm detalhes, peculiaridades, acidentes (na dupla acepção que esta palavra admite). Estes pormenores individualizam cada tela, resgatam-na à condição de mero tributo ou evocação. Ao mesmo tempo, representam um pormenor plausível de uma paisagem (escarpa, tufo de vegetação, depressão...) e significam esse mesmo pormenor, conferindo à obra um aspecto duplo de figuração e conceptualização, que se potenciam mutuamente de forma subtil. Num ensaio notável que acompanha a exposição, Jorge Molder escreve: «Mas as paisagens de João Queiroz trazem consigo uma inegável fascinação, embora não saibamos de onde vêm ou mesmo se vêm de um sítio que de facto exista, embora desconheçamos a relação que o artista tem com a natureza e mesmo que a nossa relação com a natureza não seja um aspecto relevante para a visão do mundo com que aí nos deparamos. Elas irradiam esse poder atractivo, mesmo que todos os pressupostos e hipóteses atrás arrolados possam ou não verificar-se.» Chama-se isto pôr o dedo na ferida. Os quadros de João Queiroz provocam uma atracção e sedução poderosas, que não elidem, antes transmitem maior força e acutilância às questões que a abordagem do artista suscita. Dois ingredientes que não podem faltar à grande pintura são: um comprometimento artístico que se traduza num esforço consequente e sério, por um lado, e a exploração das ideias e aporias contemporâneas ao artista. O primeiro aspecto é frequentemente menosprezado por uma arte contemporânea demasiado intoxicada por inebriantes vapores conceptuais. João Queiroz demonstra aqui que a sua arte contém estas duas vertentes. (No Centro de Arte Moderna, até 30 de Setembro.)
DE DIVINA PROPORTIONE (3): A confusão não está do meu lado. Quando o que está em causa é a (des)proporcionalidade no nível de intensidade de uma reacção militar, ou no seu impacto, fala de (des)proporcionalidade em termos do número de tropas. E o exemplo citado (empalação da cabeça de Leónidas), por mais radical e sanguinolento que seja, reflecte uma questão de ofensa à honra, de bravata com alcance psicológico, mas de escassa relevância militar no sentido estrito. Cinjamo-nos ao essencial. A menção ao exemplo das guerras do Peloponeso, que incluí na minha última declaração de amor, destinava-se a mostrar que, nesses tempos recuados, existia já um embrião de decência na guerra. Estou de acordo em que qualquer código de honra bélico que tenha existido foi perdendo significado com o tempo, e hoje em dia não passa de recordação de um tempo em que a guerra era mais uma questão de aristocracia do que de tecnocracia. Porém, esse aspecto é de nula relevância para a presente discussão. A "proporcionalidade" de que falo tem a ver com a codificação, na lei e nos espíritos, da noção, fruto essencialmente do século XX, de que mesmo em guerra, existem práticas aceitáveis e inaceitáveis. Defraudando as minhas esperanças, verifiquei que não esboçou sequer a resposta às duas questões que (julgava eu) resultavam claras do meu post anterior:
  1. Se, como insiste em dizer, a guerra é "em si desproporcionada", seria legítimo/aceitável que uma nação respondesse a uma escaramuça de fronteira (acto de guerra) com um bombardeamento maciço (outro acto de guerra) que dizimasse, digamos, 10 % da população da nação agressora?
  2. E se a guerra é "em si desproporcionada", como se explica que a noção de crime de guerra, em vez de ter caído na obsolescência, esteja hoje mais enraizada do que nunca na opinião pública e na legislação internacional?

Isto, claro, supondo que o objectivo aqui é a argumentação e a contra-argumentação. Caso contrário, sempre nos podemos rir um bocado com chistes sobre piscinas.

quarta-feira, agosto 09, 2006

BLOGS DE CELULÓIDE: Acrescentei dois blogs à coluna dos Favoritos. Dois blogs cinéfilos até à medula, dois blogs excelentes, embora com características bastante diferentes: mais pessoal "As Aranhas", mais à base de ensaios extensos e citações o "Ainda Não Começámos a Pensar". A consumir sem moderação alguma. Para que a estação pateta o seja um bocadinho menos.
LIGAÇÕES: Foi com muita satisfação que li esta referência, no blog Da Literatura, a uma edição portuguesa das "Ligações Perigosas" com co-tradução do meu avô paterno, João Pedro de Andrade. As obras de João Pedro de Andrade têm vindo a ser reeditadas de forma sistemática pela editora Acontecimento.

terça-feira, agosto 08, 2006

PRISÃO PREVENTIVA: No romance "O Salteador", de Robert Walser, existe uma nota de rodapé na página 10 (presumo que da responsabilidade da tradutora, Leopoldina Almeida, que aliás fez um excelente trabalho), a respeito de uma "fortaleza" identificada como sendo o forte de Joux, no departamento do Doubs (França), perto do Jura. Nessa fortaleza ter-se-iam alojado "confortavelmente, por algum tempo, um poeta e um general negro". O general negro seria Toussaint Louverture, e o "poeta" não poderia deixar de ser Heinrich von Kleist. De facto, Kleist esteve detido no forte de Joux, no ano de 1807, numa altura em que tentava entrar numa Berlim ocupada pelos franceses. Consultando o calhamaço sobre a vida e obra de Kleist, da autoria de Roger Ayrault (edições Aubier-Montaigne, 1966), chego à conclusão de que todo o caso se resumiu a suspeitas infundadas e passaportes não reconhecidos. Mais fumo do que fogo, mas foi quanto bastou para que Kleist, assim como os seus dois companheiros de viagem, passassem alguns meses de cativeiro, em condições de conforto deploráveis, pelo menos no início. Kleist atravessava um período de grande criatividade literária, no qual redigiu "A Bilha Quebrada", recriou o "Anfitrião" de Molière, redigiu "O Terramoto no Chile" e o primeiro terço de "Michael Kohlhaas" e encetou a "Pentesileia". O forte de Joux tem uma página web, graças à qual ficamos a saber que Mirabeau se contou também entre o número dos seus hóspedes, muitos anos antes de proferir uma frase inflamada, sobre a vontade do povo e baionetas, que entrou para o folclore da Revolução Francesa.
UMA CIDADE, DOIS MOTIVOS DE INTERESSE: Foi em Biel, na Suíça, que veio ao mundo o escritor Robert Walser, no ano de 1878. É também em Biel, cidade bilingue igualmente conhecida por Bienne, que se realiza anualmente um torneio de xadrez com longa tradição. A edição deste ano foi ganha, pela terceira vez, pelo grande-mestre russo Aleksandr Morozevich, de 29 anos. Morozevich, o actual nº 9 do mundo, seria forte candidato ao título de jogador mais popular, se fosse organizado um plebiscito entre os aficionados de xadrez, devido ao seu estilo agressivo e original. Embora lhe falte ainda conquistar um dos quatro grandes torneios do calendário (Linares, Dortmund, Wijk aan Zee e Sófia) para demonstrar de uma vez por todas que o seu lugar é entre a crème de la crème, Morozevich é sem dúvida um dos mais excitantes jogadores do circuito, e a maneira como se impôs em Biel ajuda a explicar o entusiasmo que suscitam as suas actuações. Em 10 jogos, o grande-mestre russo ganhou 7, perdeu 2 (curiosamente contra o mesmo jogador, o jovem prodígio norueguês Magnus Carlsen), e apenas empatou um, na última ronda, quando estava tudo já decidido. 70% de vitórias num torneio deste nível, e apenas um empate, eis algo que diz muito sobre a maneira de ser de Morozevich, que tão marcadamente contrasta com a de alguns dos seus pares, reis do empate e do tédio. Ver reportagem aqui, e entrevista aqui.

segunda-feira, agosto 07, 2006

DUAS NOTAS RÁPIDAS...: ...sobre as crónicas de hoje dos meus dois cronistas favoritos, Luís Delgado e João César das Neves, essas torres gémeas de lucidez e erudição que partilham os seus ensinamentos com os leitores do "Diário de Notícias" às segundas-feiras. Escreve Luís Delgado: «Também parece claro, e indiscutível, desta vez, que há países que continuam a apostar na destruição da nossa civilização e religião, por todos os meios, mesmo que interpostos.» (Esclareça-se que LD fala da Síria e do Irão.) Quer dizer que a nossa religião é a judaica? Escreve João César das Neves: «Aqui reside o maior mal-entendido da História. O mundo não entende que a grandeza da Igreja, a sua beleza incompreensível, reside precisamente em ser a fonte da misericórdia de Cristo.» Se a beleza é incompreensível, como poderia o mundo entendê-la? Estes folguedos são supremamente agradáveis, mas o tempo é um mestre implacável e duro. E é por isso que tenho o maior prazer em dar por terminado este post, esperando regressar ao vosso convívio amanhã, dia em que falarei do cantão que viu nascer Robert Walser, e da fortaleza onde esteve aprisionado Kleist, durante cerca de um semestre.
DO I CONTRADICT MYSELF?: Este blog, para não ir mais longe, é um autêntico viveiro de contradições, a começar pelo facto de se proclamar francófilo, mau grado ter sido baptizado em honra de um autor (Kleist) que escreveu, após a batalha de Jena: «Precipitai-vos como as vagas de um oceano sobre esses Franceses. Vingai-vos, vingai-vos. Cubram com as suas ossadas as estradas e os caminhos. Dai a sua carne aos animais ferozes, as suas entranhas aos peixes, ou então, com os seus cadáveres amontoados, edificai um dique ao longo do Reno.»
DE DIVINA PROPORTIONE (2): Não era necessário elaborar. O argumento tinha sido percebido à primeira. E o que nele mais estranho é essa noção de que a guerra é "em si desproporcionada". Não é. Há muito tempo que se percebeu que não tinha de ser. Já durante a guerra do Peloponeso se decretavam tréguas para recolher os cadáveres de ambas as partes em conflito. E o nascimento da jus in bello, ou seja o corpo de leis que regulam as práticas aceitáveis no decurso de uma guerra, nem teve de esperar pelas convenções de Genebra. A noção de proporcionalidade na guerra não é mera "poeira hipócrita": existe, tanto no senso comum como nas leis. (Relevante para a questão actual é, por exemplo, a frase seguinte da convenção de Genebra: "Civilians are not to be subject to attack. This includes direct attacks on civilians and indiscriminate attacks against areas in which civilians are present." Claro que o conceito de ataque indiscriminado daria matéria para um nunca-acabar de argumentos e contra-argumentos, nesta era de bombardeamentos cirúrgicos ou quase cirúrgicos.) Sem esta noção, seria considerado legítimo responder a uma escaramuça de fronteira (acto de guerra) com um bombardeamento nuclear maciço das principais cidades inimigas (outro acto de guerra), sugestão que nem os mais falconídeos de entre os falcões ousariam avançar. Acrescente-se que a noção das proporções e a moderação podem ser do máximo interesse da nação agredida, sobretudo numa época, como a nossa, em que qualquer acção militar está sob cerrada observação de uma míriade de organizações e instituições que, ao sabor da complexa teia de interesses diplomáticos, mais rapidamente deixarão o contendor manobrar como entender se este se abstiver de pisar o risco. A ligação com o "turragate" Zidane/Materazzi foi, obviamente, pouco mais do que uma facécia. A integridade do esterno de Marco Materazzi é coisa de ínfima importância perante o drama humano que ocorre no Médio Oriente e perante as vidas libanesas, israelitas e palestinianas perdidas. E um blog não é um corpo axiomático. Não me choca que nele existam afirmações contraditórias, ainda que gritantes e próximas no tempo. Quanto à referência à "extrema-esquerda", não vejo outra maneira de a interpretar senão como um lampejo de clarividência: mesmo depois de um convívio de anos, as minhas tendências cripto-maoístas passam despercebidas a muitos. Topar com elas em tão pouco tempo, e a partir de tão escassos elementos, é obra.
AS MADALENAS ESTÃO NA MODA: Há quem considere que o célebre questionário de Proust não passa de um frívolo entretenimento de salão. Eu próprio, para falar com franqueza, penso assim. Mas não quer isso dizer que não sinta um deleite muito particular em coscuvilhar as inclinações e as pequenas confissões dos grandes e famosos que, de quando em vez (e quem sabe se a contragosto), se submetem a tão inocente exercício. Daí que reserve nos meus Favoritos um lugar de honra para esta página do semanário "L'Express", onde estão arquivadas as respostas ao questionário de muitas personalidades, quase todas francesas, provenientes de variados sectores de actividade. Nos dias que se seguem, vogando no macio remanso da estação pateta, mas com infalível determinação, tratarei de dar destaque a algumas das escolhas aí mencionadas, começando pela pintura.
MAIS WALSER: «Às pessoas saudáveis faço o seguinte apelo: não teimem em ler apenas esses livros saudáveis, , travem um conhecimento mais estreito, também, com a literatura dita doentia, que vos transmitirá, decerto, uma cultura edificante. As pessoas saudáveis deveriam sempre expor-se um pouco ao perigo. Senão, com mil raios, para que serve ser saudável?» (Robert Walser, "O Salteador", p. 81, Relógio d'Água, 2003, trad. de Leopoldina Almeida)

quinta-feira, agosto 03, 2006

COMPORTAMENTO FELINO: A juntar ao rol de aversões pessoais da gatinha Goneril: o poeta António Ramos Rosa. Com efeito, eficazmente secundada pelo gatinho Jasmim, ela dedicou-se com aplicação a estraçalhar a badana que acompanhava a antologia deste poeta publicada pela Dom Quixote. Depois de Kofi Annan, Ramos Rosa. Começará a emergir algum padrão? Não vislumbro. Que denominador comum existirá entre o diplomata ganês, sétimo secretário-geral das Nações Unidas, e o poeta algarvio, autor do "Ciclo do Cavalo"?

terça-feira, agosto 01, 2006

E AGORA, WALSER: «Há, de facto, pessoas que pretendem retirar dos livros pontos de referência para a sua vida. Lamento muito ter de dizer aos meus leitores que não é para esse género de pessoas muito respeitáveis que eu escrevo. Será uma pena? Oh! Sem dúvida!» (Robert Walser, "O Salteador", p. 12, Relógio d'Água, 2003, trad. de Leopoldina Almeida)
DE DIVINA PROPORTIONE: A autora do blog Bomba Inteligente chama "bronco" e "animal" a Zinédine Zidane por este ter respondido com uma agressão física aos insultos de Marco Materazzi. Alguns posts mais tarde, indigna-se contra aqueles que falam em proporcionalidade para pôr em causa a amplitude da resposta israelita às provocações do Hezbollah, e que se sentem chocados por o rapto de dois soldados ter suscitado uma ofensiva que já causou centenas de mortos civis e muitas dezenas de milhares de deslocados. Assinalo, e deixo ao soberano critério do leitor decidir se tal é relevante ou não. Dir-se-ia que a proporcionalidade é válida quando se trata de zaragatas num recinto desportivo, mas deixa de o ser quando vidas humanas estão envolvidas.
OAKESHOTT VAI AO BAR DO FRED: A revista "Atlântico" debruça-se sobre os "Morangos com Açúcar", e isto pouco tempo depois de o grande sucesso da TVI ter sido paragonado, por Eduardo Pitta, à obra-prima de Guimarães Rosa. Como caução, seria ingrato pedir melhor. Cada vez mais, o debate político e sociológico em Portugal gira em torno do bar do Fred, mesmo sem o Fred, mas com os míticos "morang'ices" sempre à mão de semear!

domingo, julho 30, 2006

XADREZ: Foi prometido, e é cumprido, se bem que com o atraso normal neste blog. Aqui está o rescaldo final da participação portuguesa nas Olimpíadas de xadrez de Turim. Jornada a jornada, foram os seguintes os resultados da selecção portuguesa no torneio absoluto (também dito "masculino", erradamente, pois nele se registaram pelo menos cinco presenças femininas): Chipre-Portugal 1,5-2,5 Portugal-Azerbeijão 3,5-0,5 Portugal-Hungria 1-3 Nova Zelândia-Portugal 1,5-2,5 Portugal-Canadá 2,5-1,5 França-Portugal 3-1 Itália A-Portugal 2,5-1,5 Portugal-Letónia 1-3 Portugal-Nepal 4-0 Peru-Portugal 3-1 Síria-Portugal 0-4 Portugal-Sérvia e Montenegro 1-3 Portugal-República Dominicana 2,5-1,5 Portugal esteve aproximadamente ao nível esperado, tendo terminado a prova em 50º lugar (era 48º no ranking das selecções participantes), entre 150 equipas. No "sobe e desce" habitual em torneios disputados no sistema suíço, Portugal mostrou-se incapaz de surpreender as selecções mais cotadas (França, Hungria...), mas raramente deixou de se impor às equipas mais débeis. Quanto a actuações individuais, o equilíbrio foi a nota dominante. Nenhum dos xadrezistas portugueses se destacou pela positiva, e só o mestre internacional Sérgio Rocha esteve bastante abaixo do seu nível. (No entanto, refira-se que o seu fraco resultado se deveu fundamentalmente à derrota, logo na primeira jornada, com um cipriota muito menos cotado.) Melhor resultado colectivo: vitória 3,5-0,5 sobre o Azerbeijão, uma equipa poderosa mesmo sem os seus tenores Radjabov e Mamedyarov. Piores resultados colectivos: vitória tangencial sobre a paupérrima equipa de Chipre, e derrota face ao Peru. Melhores resultados individuais: vitórias do mestre internacional Diogo Fernando sobre os grandes-mestres Guseinov (Azerbeijão) e Sokolov (França). No que toca à competição feminina, os resultados das portuguesas foram os seguintes: Rússia-Portugal 3-0 Malta-Portugal 0-3 Portugal-Sri Lanka 2,5-1,5 Mongólia-Portugal 3-0 Portugal-Islândia 1,5-1,5 Portugal-Luxemburgo 1,5-1,5 Itália B-Portugal 0,5-2,5 Portugal-Colômbia 1-2 Noruega-Portugal 2-1 Bangladesh-Portugal 1,5-1,5 Portugal-Venezuela 2-1 Portugal-Uzbequistão 1-2 Macedónia-Portugal 0,5-2,5 Graças a esta bela vitória final sobre a Macedónia, Portugal concluiu o torneio na 47ª posição (era 53º no ranking), entre 108 selecções. Os resultados da equipa portuguesa feminina, que raramente fugiram ao esperado, foram relativamente homogéneos, não havendo lugar a destaques individuais. Uma nota para a baixa média de idades desta equipa (o que contrasta com o sector masculino, onde a renovação tem sido lenta): Catarina Leite nasceu em 1983, Margarida Coimbra também em 1983, Ariana Pintor em 1988 e Ana Filipa Baptista em 1990. Segui este torneio com muito prazer, e só lamento que os inevitáveis afazeres extra-blog não me permitam repetir a graça com maior frequência. Não deixei na altura, nem deixo agora, de acompanhar esta pequena promoção ao xadrez com um grito de revolta pela absurda desproporcionalidade de cobertura mediática entre o omnipresente futebol e outras modalidades. Para terminar, duas fotografias: a primeira do confronto entre Portugal e França, na sexta ronda:

(fotografia de Gabriele Grasso, retirada daqui)

Do lado português, à esquerda, vêem-se Luís Galego (em primeiro plano), Diogo Fernando e Sérgio Rocha (Rui Dâmaso está oculto ou ausente). Do lado francês, Étienne Bacrot, Andrei Sokolov, Laurent Fressinet e Maxime Vachier-Lagrave.

A segunda mostra Margarida Coimbra, segundo tabuleiro da formação portuguesa:

(foto de Pufichek; mais imagens de participantes nas Olimpíadas aqui).
PLAYLIST MENTAL: Gosto muito do tema "Being Tyler", um instrumental dos Lambchop que abre o álbum "Awcmon". "Gostar", pensando bem, peca por inadequação. Muito mais do que "gostar", deixei-me (sem me rebelar) obcecar por este tema. Que é portador de significados pessoais, sem dúvida, mas que nunca se esquece de ladinamente brilhar com fulgor próprio, independente de circunstâncias do domínio privado.
REVISÕES DO REVISIONISMO: Foi gratificante percorrer alguns dos posts recentes que versaram sobre o tema da Guerra Civil Espanhola, que eu abordei há coisa de uma semana e picos. Se não servirem para mais nada, ao menos que as efemérides sirvam para atiçar o debate. Ver aqui, aqui, aqui, aqui, e aqui, com as minhas desculpas pelas eventuais omissões. Vasco Pulido Valente dedicou uma crónica ao assunto (mais concretamente, à lei das vítimas da guerra civil), e a resposta de João Paulo Sousa surgiu pronta e em cheio no alvo.

quarta-feira, julho 26, 2006

AD HOMINEM: Pelos vistos, a gatinha Goneril faz parte daqueles que encaram com crescente cepticismo a actuação da Organização das Nações Unidas no conturbado mundo em que vivemos. Esta noite, atacou selvaticamente a imagem do secretário-geral Kofi Annan, na televisão da sala.
CONSTITUCIONALISTAS NAS HORAS VAGAS: O CDS-PP é atravessado por interessantes intermitências, no que toca à lei fundamental da República Portuguesa. Regra geral, denuncia a Constituição como um empecilho à modernização do país, um detestável resquício marxista, uma anacrónica camisa de forças de que urge libertarmo-nos. E contudo, não hesita em brandir essa mesma Constituição como uma referência moral e legal absoluta, quando se trata de investir contra leis como a da procriação medicamente assistida, que recentemente levantou alguma celeuma. Dá gosto ver um partido da nossa democracia dar mostras de tamanha maleabilidade, condição sine qua non para o sucesso num mundo em cada vez mais acelerada mutação.

quarta-feira, julho 19, 2006

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Na linha amarela do metropolitano, foi avistado um jovem que lia o 1º Volume dos Contos de Chekhov. Era só isto.

domingo, julho 16, 2006

ANÚNCIO DE GATO ENCONTRADO (AUTÊNTICO): Encontrados por mão amiga, num telhado de Alenquer. Instalados em Lisboa, chamam-se agora Goneril (em homenagem ao Rei Lear) e Jasmim (em homenagem ao chá, e, porque não, ao cenógrafo do filme "O Bobo"). A gatinha Goneril (em primeiro plano, na fotografia) demonstra grande interesse por televisão. O conteúdo moral das emissões é, para ela, motivo de preocupação. Durante o "Fiel ou Infiel", arranhava freneticamente o ecrã durante o flagrante delito de infidelidade. Menos dado ao fascínio do espectáculo mediático, o gatinho Jasmim (ao fundo) tem como principal ambição na vida penetrar em tudo o que é armário, despensa ou compartimento. Sarah Morton acha que ele é um lémur.
O INVERSO DA HISTÓRIA CONTEMPORÂNEA: Um regime democraticamente eleito, com instituições que funcionam, é derrubado por uma sublevação militar que, ao fim de uma guerra civil sangrenta, resulta numa ditadura que se prolonga durante décadas. Poderá isto não ser considerado uma derrota da democracia? Parece impossível, não é? Porém, nas mãos hábeis de Luciano Amaral, o difícil torna-se fácil. Na sua última e enérgica intervenção, publicada no "DN" da passada quinta-feira, Luciano Amaral debruça-se sobre a queda trágica da 2ª República Espanhola e sobre a Guerra Civil ganha por Franco. Agitando o espantalho histórico do radicalismo, evoca as revoltas de 1934 e a inflitração marxista-leninista para sustentar a tese de que uma ditadura de esquerda teria estado iminente. Nessas circunstâncias, compreende-se que o franquismo possa ter sido considerado um mal menor. Luciano Amaral limita-se veladamente a reciclar o clássico argumento de que uma ditadura pode ser preferível ao caos que a precedeu, argumento que, na prática, permite justificar todas as ditaduras. Não é a primeira vez que Luciano Amaral se dedica ao revisionismo histórico, com uma felicidade que, desgraçadamente, não está à altura das suas ambições. Há semanas, tinha-nos brindado com uma reapreciação do 28 de Maio, à luz do carácter "terrorista" da 1ª República. Pelo andar da carruagem, se Luciano Amaral prosseguir na veia das efemérides, lá para Setembro teremos direito à apologia de Pinochet à luz dos desmandos allendianos. Sem dúvida por desleixo, Luciano Amaral deixou passar o aniversário do armistício franco-alemão de 1940. Teria sido a ocasião certa para reavaliar o governo de Vichy (parece até que estou a ver o título, qualquer coisa como "A Frente Popular estava mesmo a pedi-las"). A prosa de Luciano Amaral insere-se naquela linha fundada pelo "Independente", e que se baseia fortemente na contestação àquilo que é visto como um sistema de valores vigente, um sistema inevitavelmente "bem pensante" e "politicamente correcto". É triste constatar, quando se percorre um artigo desta escola, que, por detrás das provocações mais ou menos adolescentes, e da auto-satisfação que decorre desse papel de paladinos da verdade doa-a-quem-doer, o que resta é uma argumentação frouxa, maliciosa, omissa e previsível.

sexta-feira, julho 14, 2006

CINEMA: Do filme "Diários da Bósnia", afirma Eurico de Barros, no "DN" de hoje, que o realizador, Joaquim Sapinho, "não optou por tomar partidos nem pregar aos espectadores". O leitor atento recorda-se da primeira vez em que Eurico de Barros empregou estes termos, ou outros aproximadamente equivalentes, para exprimir a sua aprovação crítica? E será afoito o bastante para estimar quantas vezes reincidiu neste tipo de apreciação? Que Eurico de Barros desconfia de ideologias e vomita todo o cinema militante, é algo impossível de ignorar. Que se sirva da maior ou menor tendência de um filme para tomar partido ou defender uma tese como factor de valorização crítica, parece-me aceitável. Que eleve esse vector a critério principal, e muitas vezes único, das suas recensões, eis o que se torna francamente empobrecedor, para não dizer obsessivo. Num meio mais dado a exercícios meritocratas, já há muito alguém se teria aproximado de Eurico de Barros, com a piedosa missão de lhe dar a entender que, como dizer?, aquilo que ele faz não chega. Reacções viscerais, ódios de estimação e recusa sistemática de tudo o que remotamente cheire a "politicamente correcto" não fazem uma crítica, por mais vivaça que seja a prosa. Analisar e aprofundar também podem fazer parte do trabalho do crítico.
14 DE JULHO É REVOLUÇÃO: Num símbolo, cabe aquilo que cada um quiser. A tomada da Bastilha não foi um momento absolutamente determinante no desenrolar da Revolução Francesa. Outras datas, como o juramento do Jeu de Paume, ou a instauração da Primeira República, vêm à ideia quando se procuram acontecimentos fulcrais deste período. Mas talvez a sua relativa (sublinho o "relativa") irrelevância histórica tenha contribuído para reforçar a sua carga simbólica. Num símbolo, cabe aquilo que cada um quiser. Assim, aqueles que viram (apetecia-me usar o presente em vez do pretérito) na Revolução a fonte de todos os horrores da modernidade, associam ao 14 de Julho tudo aquilo que a França conheceu de atroz durante esses anos: os sangrentos excessos do Terror, a tirania, o caos institucional. Eu prefiro recordar que esta data, e a bandeira tricolor, e mais uns quantos símbolos, poderosos pela sua simplicidade, serviram de inspiração a muitos homens e muitas mulheres que ajudaram a libertar a Europa de tiranias e prepotências, e que contribuíram para a conquista de liberdades que todos nós, hoje, encaramos com tanta naturalidade como se fossem acidentes da paisagem. Em tempos, estranhei que a Revolução Francesa fosse tomada como a baliza que marcava o início da história contemporânea. Hoje, essa convenção parece-me auto-evidente. Quase tudo começou aqui. Os conceitos fundamentais da política moderna, da cidadania, dos direitos humanos, nasceram aqui, ou daqui retiraram impulso decisivo. E isto já não tem a ver com símbolos.

terça-feira, julho 11, 2006

DOIS LAPSOS DE LINGUAGEM, DOIS:
  1. Em mais uma reportagem de um canal televisivo sobre o Mundial, o locutor, arfando improvisados lugares-comuns, declarou a páginas tantas que "Portugal tinha ganho respeito pelos alemães", querendo dizer (mas isto sou eu a supor, claro) que "Portugal tinha ganho o respeito dos alemães".
  2. Numa entrevista ao grande-mestre de xadrez norte-americano Maurice Ashley, menciona-se o Aikido como sendo uma "marital art".

sexta-feira, julho 07, 2006

JARDIM PONGE: À míngua de tempo para tratar do meu Jardim Ponge, agora transformado em selva, recorro à sub-contratação: «Disso é exemplo a poética de Francis Ponge: ao propor-se tomar o partido das coisas, que é também ter em conta a linguagem, ela responde à exigência de interromper a relação sujeito-objecto e desse modo abandonar a doxa, os valores que a constituem, e que são já uma significação imposta a partir daquele tipo de polaridade, um modo de parar a relação com o exterior. Pretender "tomar o partido das coisas" é antes de mais conceber o valor da decisão fora de qualquer arrogância subjectiva (individual ou colectiva). A poesia vale, testemunha o que vale, porque, diz Ponge, "há no homem uma faculdade (não reconhecida precisamente como tal) de perceber que uma coisa existe justamente porque ela será sempre incompletamente redutível ao seu espírito".» (Silvina Rodrigues Lopes, revista "Intervalo", nº 1)
OS ROUBADORES DE ÁGUA: Este post não é sobre João Miguel Fernandes Jorge, mas sim sobre o número 9 da revista "Aguasfurtadas", cuja data de lançamento estava marcada para ontem, dia 6. Não estive presente, espero que tenha sido de arromba. Penitenciando-me pelo atraso, não me parece que seja inoportuno recordar que este número 9, disponível nas livrarias e através de pedidos directos para jup@jup.pt, é um número que promete, e senão vejamos: inclui textos de Inês Lourenço, Tiago Gomes, Rui Lage, Pedro Ribeiro, Marcelo Rizzi, Adrienne Rich, Virginia Woolf, Filipe Guerra, entre muitos outros, para além de trabalhos inéditos de vários fotógrafos e artistas plásticos, e ainda um CD com obras de Alexandre Delgado, Ruben Andrade, Dimitris Andrikopoulos e do grupo de jazz Espécie de Trio. O Leitor pode (e deve) roubar 35 segundos à sua frenética agenda para assistir ao primeiro vídeo de promoção deste número nove, aqui:http://www.youtube.com/watch?v=MZ4rtoXgMfw. Durante anos fui obcecado pelo número 9, por causa da "Vida Nova" do Dante, esse Guelfo Branco no meio de Guelfos Negros.

segunda-feira, julho 03, 2006

CINEMA: Revisitando "Eyes Wide Shut": Tornou-se um lugar-comum afirmar dos grandes filmes que permitem ao espectador descobrir coisas novas a cada visionamento. "Eyes Wide Shut" é candidato a excepção. Ao revê-lo, instala-se em mim a convicção de que o último filme de Kubrick nada mais tem para revelar. Não existem nuances por explorar, nem detalhes ocultos que apenas a atenção do espectador avisado permitisse isolar. Tudo funciona como se o filme tivesse feito o seu trabalho, e, nos visionamentos subsequentes, actuasse como um memento de si mesmo, uma máquina evocadora dos sórdidos fantasmas que são a sua própria substância. Na sua lisura, na sua glacial opacidade, "Eyes Wide Shut" devolve ao espectador a missão de enfrentar as suas inquietações, e de, por sua conta e risco, esboçar uma tentativa de fazer sentido daquilo a que assistiu. Repare-se no olhar apreensivo de Tom Cruise. Ele teme pelo seu casamento, pela sua integridade física, e talvez pela sua sanidade mental. A aventura nocturna do Dr. Harford foi mais do que uma fantasia: aconteceu realmente, como o demonstram a máscara, o envelope que lhe é entregue através das grades do portão da mansão, e outros elementos. E, contudo, somos levados a pensar que aquela sucessão de peripécias grotescas e fantásticas (o encontro com a prostituta, a palavra de passe, a orgia mascarada) são demasiado típicas da imaginação perversa de um homem atormentado pelo ciúme e pela tentação do adultério para que possamos acreditar nelas. Com sobriedade, Kubrick coloca-nos num plano infinitamente mais subtil do que a simples dicotomia sonho/realidade. Talvez a angústia do Dr. Harford seja suficientemente potente para transtornar a narrativa que ele habita. Ao transformar uma simples visita à casa de um doente, acabado de falecer, numa rocambolesca e perigosa odisseia, a personagem subverte de dentro para fora a própria ficção que o envolve. E o filme "mais não é" do que a crónica passiva dessa suprema subversão. Mas também pode ser muito mais do que isso. Não vale a pena é contar com indícios, dicas ou degraus. O que houver para descobrir não se encontra nas ruas daquela Greenwich Village de pacotilha, nem no semi-luxo doméstico da casa dos Harfords. Cabe ao espectador fazer a sua própria viagem até ao fim de alguma coisa. Ou então (sem dúvida mais cómodo), lembrar-se de que se trata "apenas de um filme" e regressar ao que interessa realmente (refiro-me à vida).
O VEREDICTO: Por norma, falta-me a paciência para estes testes, que fazem as delícias dos meus colegas bloggers. Mas a este não resisti:
Você é A Cabana. Você é o típico melancólico, que gosta de pensar e repensar na vida. Romântico, adora cenários intimistas e pela-se pela doce amargura de um coração partido. Na cabana Junto à praia Entre as dunas e os canaviais Só o vento E o mar E as gaivotas Falam desse amor (Via "Simples Sopros".) E, a propósito, terei sido eu o único a reparar que os assobios larocas da canção "Love Generation" de Bob Sinclar apresentam semelhanças suspeitas com o "Como o Macaco Gosta de Banana"? Até quando permitiremos que os estrangeiros pilhem impunemente aquilo que é nosso?
INFERÊNCIA: Alexandra Teté, da Associação Mulheres em Acção, afirma ("Metro" de 29 de Junho) que "A vida tem a mesma dignidade desde a concepção até aos 90 anos", fim de citação. Daqui se conclui que um nonagenário tem menos dignidade do que um embrião.
LONGE DA VISTA: No "Metro" de hoje, chamou-me a atenção um anúncio de recrutamento de operadores de call-center em que um dos requisitos é "imagem cuidada". Talvez seja ingenuidade minha, mas alimento certas dúvidas sobre a necessidade de um operador de call-center ter "imagem cuidada". Vem-me à memória uma cena desopilante de "Radio Days" (que, por sinal, está longe de ser dos meus Woodies preferidos), em que uma das personagens manifesta indignação por a mulher (?) admirar um ventríloquo que ela só conhece através da rádio.
SEM DESCULPA: Coloco fim a um hiato de mais de uma semana sem escrever, desta vez sem desculpa nem atenuante, a não ser a absoluta falta de assunto. O que nem é dos menos válidos motivos, convenhamos. (Aos espíritos apressados, apelo a que não sejam tentados a deduzir que a presente retoma é sintoma de ter algo de inadiável para transmitir. Um blog que tem medrado sob o signo dos bolos de arroz e da estátua do Doutor Sousa Martins não se acanha em investir no supérfluo.)