terça-feira, novembro 14, 2006

CINEMA: Terminei recentemente a leitura de um livro de memórias de Suso Cecchi d'Amico, sob a forma de conversas com a sua neta, Margherita d'Amico. Suso Cecchi d'Amico é uma figura incontornável do cinema italiano, tendo colaborado, como argumentista, em filmes de De Sica (entre os quais "Ladrões de Bicicletas"), Antonioni, Lattuada, Comencini, Zurlini, Rosi e muitos outros. Porém, a sua mais frutuosa relação profissional foi com Luchino Visconti, para quem escreveu ou co-escreveu os argumentos da quase totalidade dos filmes, incluindo obras-primas como "Senso", "Le Notti Bianche", "Rocco e i suoi Fratelli", "Il Gattopardo" e "Gruppo di Famiglia in un Interno". Procurando informação biográfica sobre esta senhora (ainda me recordo da ocasião em que descobri, para minha surpresa, que se tratava de uma mulher), constato que, aos 92 anos, acaba de assinar mais um argumento, para um filme, que se encontra em pós-produção: "Le Rose del Deserto". Quanto ao realizador, não é outro senão Mario Monicelli, outro histórico, que já completou 91 anos. Quantos outros exemplos existirão, na história do cinema, de filmes realizados e escritos por nonagenários?

sábado, novembro 11, 2006

REDE ELÉCTRICA EUROPEIA: Afinal, ao que parece, o corte de corrente de há uma semana, que afectou vários países europeus, foi ocasionado pela desactivação de uma linha de alta tensão, por forma a permitir a passagem segura de um navio de cruzeiro por um rio alemão. Uma manobra desastrada como esta pode acontecer a qualquer um. Ainda assim, tratando-se de uma intervenção de risco, não se percebe por que é que não aguardaram até ao final da exibição do filme na sala 3 do King. Teriam poupado o transtorno e a frustração a algumas dezenas de espectadores.
LIÇÕES QUOTIDIANAS DE GEOGRAFIA: Desde que os gatos Goneril e Jasmim aprenderam a saltar para a bancada da cozinha, abriu a época de caça aos ímanes do frigorífico. De entre estes, os mais vulneráveis, pela reduzida dimensão da superfície magnetizada, são uns que eu trouxe de França, e que vinham como brinde em artigos alimentares pré-cozinhados. Representam departamentos franceses, e estão ilustrados com atracções turísticas e ícones de região. Ultimamente, tem-se tornado ocorrência corriqueira encontrar a França aos pedaços disseminada pelas divisões da casa: Lozère na cozinha, Ardennes no hall, Côtes d'Armor no quarto, Loire Atlantique na sala, Lot-et-Garonne no escritório...

quarta-feira, novembro 08, 2006

CINEMA/LUGARES DE PARIS: No passado sábado, uma avaria eléctrica com origem na Alemanha originou um corte de corrente de grandes proporções, que se estendeu a vários países, e que afectou algumas zonas de Lisboa. Para as bandas da Avenida de Roma, o corte de corrente ocorreu perto do final de uma sessão do filme "Paris Je t'Aime", no cinema King, mais precisamente durante o segmento realizado por Alexander Payne (o autor de "Sideways", que não vi mas queria ver). Este episódio pareceu-me um dos mais conseguidos do filme. A história é de uma banalidade descoroçoante: Carol, uma carteira cinquentona de Denver conta, num francês trôpego e cheio de sotaque, as suas férias solitárias de uma semana em Paris. O tom monocórdico e as limitações linguísticas da narradora criam um distanciamento subtil que se coaduna de forma sedutora com a linearidade da narração, em jeito de álbum de memórias inócuo e vagamente ingénuo. No fim do episódio, Carol, sentada num banco do Parc Montsouris (que é um dos melhores sítios que eu conheço para uma epifania), tem uma revelação que a reconcilia com a vida e com as suas memórias, mais ou menos recalcadas, mais ou menos dolorosas. Em consonância com o resto deste pequeno filme, tudo se passa de forma pudica e corriqueira, e o real significado do evento aparece filtrado pelas dificuldades de expressão em francês que Carol sente. Por ironia, o corte do corrente, causado (ao que parece) por uma brusca quebra de temperatura em território alemão, coincidiu com o preciso momento em que Carol se preparava para contar a sua revelação. Durante os minutos que se seguiram, os espectadores do cinema King hesitaram longamente entre partir ou ficar, na esperança de verem satisfeita a sua curiosidade quanto ao conteúdo de uma revelação fictícia de uma turista americana fictícia, no (felizmente real) 14ème arrondissement de Paris. Aproveito para assinalar com agrado a reabertura da livraria do cinema King, após exasperantes meses de encerramento.
KLEIST PREPARA O FUTURO: As minhas sentidas desculpas aos leitores que terão estranhado a reduzida produção deste blog. Tenho estado ocupado pela tarefa absorvente de preparar uma edição ne varietur do Umblogsobrekleist, assistido por uma equipa de exegetas a quem pago o salário mínimo.

sexta-feira, novembro 03, 2006

MAPA DA EUROPA LIBERTADA:

E em breve, a França. Para quando Portugal?

segunda-feira, outubro 30, 2006

JUSTIÇA: O muito bom blog Duelo ao Sol também fez referência à retirada de Sven Nykvist do mundo dos vivos.

domingo, outubro 29, 2006

XADREZ: O russo Vladimir Kramnik bateu o búlgaro Veselin Topalov no match recentemente realizado em Elista, Rússia, e que ficou marcado por controvérsias rocambolescas e nada dignificantes, e por alegações veladas de fraude. O xadrez tem, assim, pela primeira vez desde 1993, um campeão mundial único e incontestado.

Foto de Murat Kul, retirada daqui.

Ao fim das doze partidas, o resultado estava empatado (três vitórias para cada lado, incluindo a falta de comparência de Kramnik na quinta partida), pelo que foi necessário recorrer ao desempate em ritmo semi-rápido, onde o russo demonstrou nervos mais sólidos: duas vitórias contra uma de Topalov e um empate. As minhas reacções a esta vitória são as seguintes. CONTENTAMENTO pelo fim de uma cisão de treze anos, provocada por Nigel Short e Garry Kasparov, e que, por melhores que fossem as intenções subjacentes, prejudicou gravemente a imagem da modalidade. SATISFAÇÃO pelo facto de as manobras desonestas e provocatórias do manager de Topalov não terem sido recompensadas com o triunfo final. APREENSÃO quanto ao futuro. Não está ainda inteiramente claro em que moldes serão organizados os próximos campeonatos mundiais, e a lendária incompetência da Federação Mundial de Xadrez (FIDE) para cumprir as suas promessas levanta legítimas inquietações. Para já, está previsto um torneio, no México, em 2007, no qual Kramnik deverá defender o seu título. Mas existem ainda fortes dúvidas sobre quem participará nesse torneio, e sobre o formato do próximo ciclo do campeonato mundial. CEPTICISMO quanto às relações futuras entre a FIDE e o novo campeão. Kramnik revela, longe dos tabuleiros, o mesmo calculismo e frieza, por vezes à beira do cinismo, que o caracterizam como jogador. Foi praticamente forçado, por uma questão de credibilidade, a disputar este match de reunificação, mas nunca escondeu que se considerava já campeão do mundo, invocando a legitimidade que advinha da vitória sobre o último campeão incontestado (Kasparov, em Londres, 2000). Durante o encontro de Elista, após o foco de controvérsia que originou a sua ausência da quinta partida, Kramnik deixou bem claro que, mesmo que saísse derrotado no final, continuaria a considerar-se campeão do mundo, jogando assim em dois tabuleiros: o desportivo e o moral/jurídico. Isto equivale a comer o bolo e querer ainda guardá-lo na despensa. Não me admiraria que, num futuro próximo, ao mínimo desacordo, Kramnik rompa com a FIDE, de quem com tanta relutância se aproximou, e regresse à sua postura primitiva, reivindicando o seu estatuto de campeão "clássico", na continuação de Kasparov, Karpov, Fischer, numa linha contínua (ou quase...) que já abarca três séculos e que começa com Steinitz, em 1886. Aguardemos, pois, pelo desenrolar dos acontecimentos.

quarta-feira, outubro 25, 2006

INSULAR: Olhar um desconhecido olhos nos olhos, em lugar público, equivale a violação de tabu social. Isto pode parecer angustiante. Porém, existem estratégias para contornar o problema. Por exemplo, fixar com os olhos a pessoa que o acaso urbano coloca à nossa frente, e desviar os olhos apenas depois de ela, por sua vez, retribuir o olhar. Um ou dois segundos de contacto visual aparentemente acidental não parecem levantar escândalo. Tags: olhos, brandura, mover, sereno, pupila.

quinta-feira, outubro 19, 2006

S&F: É claro que, em rigor, só faria sentido falar em fracasso se o sucesso alguma vez tivesse passado de uma fruste hipótese de trabalho.
O MAIOR PORTUGUÊS DE SEMPRE: EU VOTO NELE:

sexta-feira, outubro 13, 2006

MEU E ASSIM: Não tenho tido tempo nem para ir ver os filmes da Festa do Cinema Francês, nem para escrever sobre os filmes que não tenho tempo para ir ver. E esta é uma bela ilustração daquilo que tem sido este blog desde Março de 2003.

segunda-feira, outubro 09, 2006

OPORTUNIDADE MALBARATADA: Há dois anos estive em Budapeste. Certo dia, resolvi fazer uma incursão à Hungria profunda. Sem motivos concretos que me levassem a preferir este destino ou aquele, optei por Vác, cidadezinha nas margens do Danúbio, pouco distante da fronteira eslovaca. Naquela tarde amena, sem recear a improbabilíssima aparição de um turista lusófono, gozei de uma impunidade linguística de que hoje lamento não ter desfrutado devidamente. Nenhum sobrolho magiar se teria erguido um milímetro que fosse se eu, na avenida principal de Vác, tivesse proferido os mais crus impropérios, ou entoado os mais delirantes disparates no meu idioma natal. Em retrospectiva, recrimino-me com especial amargura por não ter agarrado com unhas e dentes a oportunidade de cantarolar em público um tema de Paco Bandeira, plenamente seguro de ser o único consciente dos seus gloriosos cambiantes. A "Quinta Sinfonia", ou "Ó Elvas ó Elvas" teriam sido escolhas plenas de pertinência. Paco Bandeira na província húngara: não me peçam para explicar porquê, mas estou certo de que esse teria sido, mais do que o ponto alto de um dia, algo digno do zénite de uma vida! ("Vác" pronuncia-se "váts". A cidade orgulha-se de uma catedral cuja arquitectura se inspira na basílica de São Pedro, em Roma.)
O REGRESSO DOS QUE NÃO FORAM: Quando alguém acha por bem noticiar que fulano de tal "quebrou o silêncio", o mais provável é eu nunca me ter apercebido do silêncio de fulano de tal.

domingo, outubro 08, 2006

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Linha verde do metropolitano. No sentido Cais do Sodré-Telheiras, uma jovem lia "La Nausée" de Sartre, em pé e em versão original. No sentido Telheiras-Cais do Sodré, um jovem lia "Mongólia", de Bernardo Carvalho, porém sentado.
FOR WHAT IT'S WORTH:
  1. No último filme de Pedro Almodóvar, a Penélope Cruz usa um telemóvel do mesmo modelo que o meu.
  2. A gatinha Goneril gosta de mordiscar a casca dos kiwis chilenos.

quinta-feira, outubro 05, 2006

NÃO HÁ FESTA COMO ESTA: O melhor cinema do mundo tem a sua festa anual em Portugal. Este ano na sua sétima edição, a Festa do Cinema Francês arrancou ontem, e as diversas iniciativas que se desenrolarão no seu âmbito prolongam-se até 21 de Novembro, em sete cidades. Espero comentar o programa para Lisboa nos próximos dias.
XADREZ: Resumo relâmpago dos últimos dias em Elista, palco do agitadíssimo match para a unificação do campeonato do mundo de xadrez. - O presidente da Federação Internacional de Xadrez (FIDE), Kirsan Ilyumzhinov, regressou a Elista para pôr cobro a esta situação, a meio caminho entre o desporto, a diplomacia e o saneamento básico, que descrevi neste post. A grande questão girava em torno do resultado com que se reataria a disputa, uma vez que Vladimir Kramnik perdera um encontro por falta de comparência. Decidiu-se que esse ponto, ganho por Veselin Topalov sem jogar, seria mantido, tendo sido determinado que o sexto jogo começaria com o resultado em 3-2 (a favor de Kramnik). - Contrariamente ao que muitos comentadores esperavam, Kramnik aceitou jogar o sexto jogo nestas condições, embora sob protesto. - O sexto e sétimo jogos terminaram empatados, tendo Kramnik conseguido conter os ímpetos de Topalov sem excessivas dificuldades. - Ontem, pouco antes do início do sétimo jogo, o inenarrável manager de Topalov, Silvio Danailov, emitiu um comunicado insinuando (sem formular acusações explícitas) que Kramnik estaria a recorrer a auxiliares informáticos ilegais, com base nas estatísticas da concordância entre os lances jogados pelo russo e os lances sugeridos pelo programa Fritz, um dos mais populares do mercado. Não tenho conhecimentos suficientes para me pronunciar sobre o assunto, mas a opinião da maior parte dos especialistas parece ser a de que as insinuações carecem de fundamento, e de que esta terá sido apenas mais uma tentativa para desestabilizar Kramnik. - Hoje, o oitavo jogo terminou com a primeira vitória "real" de Topalov. Jogando com negras, o búlgaro saiu-se melhor numa complexa posição em que dispunha de torre e dois cavalos contra duas torres. - O resultado está agora em 4-4 (contando com a derrota de Kramnik por falta de comparência). Na opinião de muitos fãs e comentadores, depois de todos estes episódios lamentáveis Topalov só será considerado um campeão legítimo se triunfar de maneira extremamente categórica. O objectivo principal deste evento, que era a consagração de um campeão único e aceite por todos, parece seriamente em risco. Amanhã é dia de descanso. O jogo 9 disputa-se no sábado.
REPÚBLICA: O 5 de Outubro sempre foi uma data com um significado muito especial aqui no 1bsk. A recente tendência para apoucar aquilo que a 1ª República significou em termos de emancipação política e cultural, e de resgate à tutela monárquica/ultramontana pré-1910, só contribui para reforçar a convicção com que assinalo esta efeméride. Gosto de viver numa República. Se faltassem argumentos a favor desta forma de governo, os deploráveis exemplos da Espanha e do Japão (intrincados debates sucessórios ao sabor dos cromossomas X ou Y dos infantes vindos ao mundo) deveriam bastar para demonstrar o carácter anacrónico da chefia de Estado hereditária. A monarquia é uma espécie em vias de extinção, que sobrevive em nichos dispersos procurando adiar o descalabro. Viva a República!!!
COITADO DO KLEIST: Cada vez mais me convenço de que viver e escrever num blog são actividades de duvidosa compatibilidade.