quarta-feira, dezembro 20, 2006
QUANDO O TELEFONE TOCA: Adivinho dever a uma posição alfabética cimeira em listas de contactos os numerosos telefonemas que recebo, resultantes, presumo, da manipulação descuidada de telemóveis subtraídos à vigilância paterna, por parte de filhos pequenos de amigos e conhecidos. Para pôr cobro a este problema, apenas me ocorrem duas soluções: mudar de nome para Zulmiro Zueberbriggen, ou apresentar aos meus amigos (sobretudo aqueles com descendência recente e orientada para as novas tecnologias) um qualquer Aarão ou Abel recrutado para o efeito.
OBITUÁRIO DE XADREZ: Há uns dias atrás, dei por mim a enumerar mentalmente os meus ídolos de xadrez de todos os tempos. Lembrei-me de José Raul Capablanca, Akiba Rubinstein, David Bronstein, Mikhail Botvinnik e, obviamente, Anatoly Karpov. No mesmo dia, algumas horas mais tarde, eis que tomo conhecimento do falecimento de David Bronstein.
David Bronstein esteve a um passo de entrar para o muito restrito panteão de campeões do mundo de xadrez quando, em 1951, empatou um match com o então detentor do título, Mikhail Botvinnik (as regras ditavam que, em caso de empate, o campeão mantinha o título). De então para cá, têm surgido ciclicamente rumores de que Bronstein teria sido pressionado pelas autoridades soviéticas para não ganhar o match. O próprio Bronstein nunca admitiu que isso tivesse sucedido, mas, por mais de uma vez, exprimiu-se em relação a esse assunto de forma algo ambígua. Independentemente desse ponto nebuloso da historiografia xadrezística, Bronstein tornou-se famoso pelo seu imenso talento, pelo carácter imaginativo das suas partidas, e pela autoria de dois dos livros mais famosos da história deste jogo: "O Aprendiz de Feiticeiro" e, sobretudo, o livro do torneio de candidatos realizado em Zurique, 1953. Comprei uma cópia deste livro em Nova York, há mais de 3 anos. Está desde então na minha estante, há espera da atenção que mereceria e que nunca lhe concedi.
AQUI, uma extensa colecção de partidas de David Bronstein.
terça-feira, dezembro 05, 2006
ROHMER, TUDO LIGADO: Recentemente, revi na Cinemateca a primeira longa-metragem de Éric Rohmer, "Le Signe du Lion".
A folha que acompanhava este filme era da autoria de Antonio Rodrigues. Gostei bastante de a ler. Nela são feitos numerosos paralelismos entre este filme e obras posteriores de Rohmer, mas também são apontadas diferenças de monta. Ao ler a folha, porém, estranhei a omissão de uma referência (que eu recordava muito confusamente ter lido) à semelhança entre o motivo astrológico que preside ao filme (o signo do Leão) e outras manifestações de destino/azar/fatalidade que viriam a ser muito abundantes na obra rohmeriana.
Onde teria eu lido essa referência? Ao chegar a casa, verifiquei que a folha emitida pela Cinemateca aquando da exibição do mesmo filme em Julho de 1999 era diferente, e tinha como autor João Lopes. Li-a com avidez compreensível. O principal elo apontado por JL entre este filme e os restantes deste cineasta tem a ver com a presença do elemento moral. Aqui, inclino-me mais a concordar com Antonio Rodrigues quando ele escreve que "Le Signe du Lion" «é um conto (nem moral nem moralista)». A existir em "Le Signe du Lion", a moral apareceria de um modo quase puritano (e pouco subtil), redutível ao repúdio pelo dinheiro, radicalmente diferente do prevalecente nos "Contos Morais", onde se exprime essencialmente ao nível dos comportamentos humanos, e da fugidia fronteira entre livre-arbítrio, determinação e aleatoriedade.
Mas adiante. Continuava eu, depois disto, sem saber onde teria lido (se é que a li) a tal sugestão de analogia entre o Zodíaco, caprichoso e soberano, e os seus múltiplos sucedâneos que povoam os enredos rohmerianos. Continuo sem saber.
Encontrar pontos de contacto entre "Le Signe du Lion" e outros filmes de Rohmer é um ensejo natural e compreensível. E não me parece tarefa particularmente complicada. Por exemplo, o súbito e inesperado desenlace (o protagonista, devido a um acidente de automóvel a muitos quilómetros de distância, passa da indigência à condição de herdeiro rico) pode ser aproximado ao reencontro entre a protagonista de "Conte d'Hiver" e o amante, perdido anos antes por uma estúpida questão de endereço enganado, ou então do também súbito (mas não totalmente inesperado) desenlace de "Le Rayon Vert", em que a personagem de Marie Rivière observa finalmente o fenómeno atmosférico que perseguia com obstinação.
A ocorrência de uma improvável conjunção de acontecimentos que, à revelia da personagem principal, transforma um impasse num desfecho venturoso faz lembrar as cenas finais de "Conte d'Été" (os telefonemas recebidos por Melvil Poupaud, ultrapassado pelos acontecimentos mas, estranhamente, nunca parecendo deixar de ser dono do seu destino).
O mais notável, no entanto, é sentir como esta tarefa transcende o âmbito da crítica, da historiografia e da paixão cinéfila, para se situar num plano onde a felicidade e a realização pessoal também ocupam o seu espaço. Como se encontrar coerência na obra de um realizador de cinema digno da nossa estima equivalesse a verificar a integridade de um vínculo de confiança que nos une a ele.
(Éric Rohmer tem um novo filme em fase de acabamento. Chama-se "Les Amours d'Astrée et de Céladon".)
A folha que acompanhava este filme era da autoria de Antonio Rodrigues. Gostei bastante de a ler. Nela são feitos numerosos paralelismos entre este filme e obras posteriores de Rohmer, mas também são apontadas diferenças de monta. Ao ler a folha, porém, estranhei a omissão de uma referência (que eu recordava muito confusamente ter lido) à semelhança entre o motivo astrológico que preside ao filme (o signo do Leão) e outras manifestações de destino/azar/fatalidade que viriam a ser muito abundantes na obra rohmeriana.
Onde teria eu lido essa referência? Ao chegar a casa, verifiquei que a folha emitida pela Cinemateca aquando da exibição do mesmo filme em Julho de 1999 era diferente, e tinha como autor João Lopes. Li-a com avidez compreensível. O principal elo apontado por JL entre este filme e os restantes deste cineasta tem a ver com a presença do elemento moral. Aqui, inclino-me mais a concordar com Antonio Rodrigues quando ele escreve que "Le Signe du Lion" «é um conto (nem moral nem moralista)». A existir em "Le Signe du Lion", a moral apareceria de um modo quase puritano (e pouco subtil), redutível ao repúdio pelo dinheiro, radicalmente diferente do prevalecente nos "Contos Morais", onde se exprime essencialmente ao nível dos comportamentos humanos, e da fugidia fronteira entre livre-arbítrio, determinação e aleatoriedade.
Mas adiante. Continuava eu, depois disto, sem saber onde teria lido (se é que a li) a tal sugestão de analogia entre o Zodíaco, caprichoso e soberano, e os seus múltiplos sucedâneos que povoam os enredos rohmerianos. Continuo sem saber.
Encontrar pontos de contacto entre "Le Signe du Lion" e outros filmes de Rohmer é um ensejo natural e compreensível. E não me parece tarefa particularmente complicada. Por exemplo, o súbito e inesperado desenlace (o protagonista, devido a um acidente de automóvel a muitos quilómetros de distância, passa da indigência à condição de herdeiro rico) pode ser aproximado ao reencontro entre a protagonista de "Conte d'Hiver" e o amante, perdido anos antes por uma estúpida questão de endereço enganado, ou então do também súbito (mas não totalmente inesperado) desenlace de "Le Rayon Vert", em que a personagem de Marie Rivière observa finalmente o fenómeno atmosférico que perseguia com obstinação.
A ocorrência de uma improvável conjunção de acontecimentos que, à revelia da personagem principal, transforma um impasse num desfecho venturoso faz lembrar as cenas finais de "Conte d'Été" (os telefonemas recebidos por Melvil Poupaud, ultrapassado pelos acontecimentos mas, estranhamente, nunca parecendo deixar de ser dono do seu destino).
O mais notável, no entanto, é sentir como esta tarefa transcende o âmbito da crítica, da historiografia e da paixão cinéfila, para se situar num plano onde a felicidade e a realização pessoal também ocupam o seu espaço. Como se encontrar coerência na obra de um realizador de cinema digno da nossa estima equivalesse a verificar a integridade de um vínculo de confiança que nos une a ele.
(Éric Rohmer tem um novo filme em fase de acabamento. Chama-se "Les Amours d'Astrée et de Céladon".)
ENSINO SUPERIOR: Li recentemente dois desabafos sobre o ensino superior que revelavam tremenda falta de conhecimento de causa e leviandade. No primeiro, a propósito das denúncias de asfixia financeira por parte das universidades, sugere-se uma solução que aliaria a simplicidade à eficácia: aumentar as propinas, já que "nenhuma Universidade pública encosta as propinas ao tecto permitido" (um erro que o próprio autor corrigiu, mais tarde, por meio de contra-exemplos) e "quatro quintos dos alunos dispõe de viatura própria". Espanto-me com esta estatística, mas parto do princípio de que o autor se informou devidamente. Supondo que as universidades dispõem de margem de manobra para aumentar ainda mais as propinas, e admitindo que, de facto, 80 % dos estudantes universitário são felizes proprietários de um veículo motorizado, há que ter em conta duas coisas. Em primeiro lugar, é límpido para quem segue a questão com um mínimo de atenção que o aumento progressivo das propinas, aproximando-as do custo real do ensino oferecido, é mais um paliativo do que uma solução para o financiamento dos estabelecimentos de ensino superior, e costuma ser acompanhado por desinvestimento orçamental no sector. Por outras palavras, as propinas funcionam como legitimação de cortes no orçamento, sucedâneos de receitas próprias que empurram as universidades para uma pseudo-autonomia financeira à custa do bolso dos estudantes. (E muito haveria a dizer, aliás, sobre as míticas "receitas próprias", apontadas como solução milagrosa por muitos, mas viáveis apenas na medida em que o permitem estruturas e corpos docentes já sobrecarregados pela dupla incumbência de ensinar e investigar.) Em segundo lugar, a posse de carro, em muitos dos casos, será menos um sinal exterior de desafogo do que um imperativo por banais questões de mobilidade. Descrever os alunos universitários como meninos do papá birrentos é um lugar-comum que passa numa discussão de café, mas que convém usar com moderação quando o propósito é argumentar com um mínimo de seriedade.
O segundo grito de revolta, li-o aqui. O autor insurge-se contra um doutoramento cujo tema é as construções nominais dos pronomes possessivos. Não vejo onde está o motivo de escândalo. O autor parece ter uma ideia muito aproximativa sobre o que é um doutoramento. Um doutoramento é um ciclo de estudos avançados que tem como fim, entre outros, demonstrar que o doutorando é capaz de conduzir investigação original sobre um determinado tema. Como estamos no século XXI, e não no século XIV, qualquer investigação com pretensões a originalidade deverá possuir um elevado grau de especialização. Só em casos muito específicos será de esperar que um tema de doutoramento tenha relevância imediata no contexto de um potencial emprego. Nesse caso, para que serve um doutoramento? Para demonstrar aptidões excepcionais ao nível da assimilação e resolução de problemas numa determinada área, e, desse modo, garantir um nível de desempenho condizente com expectativas elevadas por parte do empregador. Não nego que, frequentemente, uma pós-graduação pode ter significância nula para a formação de um indivíduo e para o seu sucesso na busca de emprego. Porém, é errado fazer recair as culpas sobre os temas de tese demasiado esotéricos e incompreensíveis para o comum dos mortais. (Alguém com conhecimento do assunto muito superior ao meu afiança-me que, longe de ser um irrelevante motivo de chacota, a investigação avançada ao nível de construções pronominais pode ser muito importante, por exemplo, para o aperfeiçoamento de correctores e analisadores morfossintácticos.)
sábado, dezembro 02, 2006
LAURA RIDING: No "Mil Folhas" do passado dia 11 de Março, Eduardo Prado Coelho escrevia: «Quem é Laura Riding? Duvido que haja portugueses que a conheçam(...)».
Posso garantir que alguns portugueses já conheciam esta autora, pelo menos aqueles que acompanharam este blog nas suas primeiras semanas de vida.
Que moral se poderá retirar daqui? Absolutamente nenhuma. Porém, descubro agora, perturbado, que o rosa que escolhi para fundo da página de arquivo do 1bsk desse mês é muito semelhante ao do amaciador de roupa marca Carrefour.
(Traduções de Riding para português aqui.)
LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Há horas de rara felicidade na vida de um caçador de leituras em lugares públicos (lembram-se dos tractores Fiatagri?).
No campus do Instituto Superior Técnico existe um edifício chamado Complexo Interdisciplinar. No pavilhão envidraçado da recepção, sobre uma secretária, na semana passada, viram estes meus olhos um exemplar de "Watt", de Samuel Beckett, na edição portuguesa da Assírio & Alvim.
A euforia daí resultante não me fez esquecer esta questão de importância maior: será que a leitura de Beckett durante a actividade laboral, para além de obviamente louvável, é recomendável do ponto de vista do desempenho profissional?
Povo de Portugal, de Norte a Sul: está aberto o debate.
NO PRÓXIMO FIM-DE-SEMANA:
Terão lugar nos próximos dias 8, 9 e 10 as representações da peça "Um por um para dois", pelo grupo teatroàparte, baseada na obra "Talem (Leito Conjugal)", do espanhol Sergi Belbel. Todas as informações relevantes encontram-se na página do teatroàparte, grupo amador da Associação de Residentes de Telheiras, do qual tenho a felicidade de fazer parte.
Frenética, pós-moderna, licenciosa, hilariante, inteligente: são os cinco adjectivos que me ocorrem para qualificar esta peça.
Caso subsistam ainda algumas hesitações, penso que o facto de eu não fazer parte do elenco desta peça deve constituir argumento decisivo para ir assistir.
Terão lugar nos próximos dias 8, 9 e 10 as representações da peça "Um por um para dois", pelo grupo teatroàparte, baseada na obra "Talem (Leito Conjugal)", do espanhol Sergi Belbel. Todas as informações relevantes encontram-se na página do teatroàparte, grupo amador da Associação de Residentes de Telheiras, do qual tenho a felicidade de fazer parte.
Frenética, pós-moderna, licenciosa, hilariante, inteligente: são os cinco adjectivos que me ocorrem para qualificar esta peça.
Caso subsistam ainda algumas hesitações, penso que o facto de eu não fazer parte do elenco desta peça deve constituir argumento decisivo para ir assistir.
domingo, novembro 26, 2006
PROVAVELMENTE, A MELHOR REVISTA DO MUNDO: Correm por aí alguns rumores segundo os quais existem maneiras mais proveitosas de ocupar o tempo do que ler a revista "Aguasfurtadas". São opiniões, que eu respeito. Sem querer entrar em estéreis trocas de argumentos, limito-me a fazer notar aos incréus que o número 10 desta revista inclui um ensaio de Manuel António Pina sobre o ursinho Winnie-the-Pooh. Parece-me não haver nada mais a acrescentar, a não ser que um vídeo de apresentação desse mesmo número 10 está disponível aqui.
quarta-feira, novembro 22, 2006
SORRISOS DE UMA NOITE DE VERÃO (2): Do blog John, Elias and Michelle (não conhecia, e recomendo - aliás como resistir a um título onde entram três personagens do "Elephant" de Gus Van Sant?) fazem-me notar que Pedro Costa não é tão avesso à tentação cómica como eu o pintei. São apontadas como provas cenas dos filmes "No Quarto da Vanda" e "Onde Jaz o Teu Sorriso?", que são precisamente aqueles que eu não conheço. Fica, pois, o reparo.
"Onde Jaz o Teu Sorriso?" poderia ser o título deste post e do anterior, aplicado ao cinema português em vez de à personagem de "Sicilia!" de Huillet/Straub.
segunda-feira, novembro 20, 2006
SORRISOS DE UMA NOITE DE VERÃO: São deploráveis as declarações do realizador de "O Filme da Treta", no sentido de ser esse um filme que contraria uma suposta proibição não escrita de fazer humor que condicionaria o cinema português.
Infelizmente, estas afirmações nada têm de original. Vinda de numerosos quadrantes, é recorrente a acusação de sisudez crónica dirigida ao cinema português. Trata-se, como é óbvio, de uma daquelas ideias feitas de enorme conveniência para todos aqueles que preferem a facilidade da bojarda de efeito imediato à seriedade e ao estudo minimamente objectivo de uma questão.
Para perceber que não existe incompatibilidade entre a gargalhada e os realizadores portugueses (mesmo entre aqueles a quem se colou a tenebrosa reputação de "intelectual"), basta pensar em como, com poucas excepções, todos eles contam na sua filmografia com obras em que o humor é nota marcante. E não falo apenas de um registo de farsa: falo de comédia franca e explícita. Pensemos no Manoel de Oliveira de "Party", "O Passado e o Presente" e "O Meu Caso", pensemos em todo o João César Monteiro tardio, no João Botelho de "A Mulher que Acreditava Ser..." e de "Tráfico", em Paulo Rocha, em José Fonseca e Costa... Quanto às gerações mais novas, se é certo que alguns dos seus chefes de fila parecem desprovidos de qualquer veleidade cómica (Pedro Costa, Teresa Villaverde...), nomes como os de Joaquim Sapinho (de "Corte de Cabelo"), Miguel Gomes e João Nicolau são outros tantos contra-exemplos a opor ao estereótipo de um cinema português sorumbático e grisalho.
(Não é que eu tenha alguma coisa contra filmes sombrios e austeros, por São Bergman e São Tarkovsky! Mas deixemos a minha opinião de lado, neste caso.)
sábado, novembro 18, 2006
BALZAQUIANO UMA VEZ, BALZAQUIANO PARA SEMPRE: Recentemente, a Cristina publicou uma lista de filmes que tiveram a felicidade de contar com o talento magistral de William Lubtchansky na sua fotografia. O primeiro citado, e mais recente, é um certo "Ne touchez pas la hache". Ora, este filme não é outro senão o último de Jacques Rivette, adaptação de "La Duchesse de Langeais" , ainda por estrear. É a terceira vez que Rivette se baseia em Balzac, depois de "Out 1" ("Histoire des Treize") e de "La Belle Noiseuse" ("Le Chef-d'œuvre inconnu"), em ambos os casos de forma extremamente livre. Estou muito curioso por saber se, no caso de "La Duchesse de Langeais" (que aliás é parte integrante da "Histoire des Treize") , Rivette e os seus habituais colaboradores Pascal Bonitzer e Christine Laurent serão mais fiéis à obra original. No elenco, encontramos uma cúmplice de longa data, Bulle Ogier ("L'Amour Fou", "Out 1", "La Bande des Quatre"...), dois repetentes (Jeanne Balibar, depois de "Va Savoir", e Michel Piccoli, depois de "La Belle Noiseuse"), e um estreante em lides rivetteanas: Guillaume Depardieu. Quase não se encontra nada sobre este filme na Internet. Espero que as revelações não tardem, e que a estreia em Portugal não se faça esperar mais do que o razoável.
("Ne touchez pas la hache" é o título da primeira edição de "La Duchesse de Langeais". Regra geral, os títulos finais das obras da Comédia Humana parecem-me superiores aos que Balzac originalmente lhes atribuiu. Esta pode muito bem ser uma das poucas excepções.)
UM INIMIGO DA ESCOLA PÚBLICA: Há pessoas que desconhecem os talentos que possuem. Pergunto-me se André Abrantes Amaral estará ciente da sua superlativa capacidade para a distopia. Capacidade involuntária, presumo-o, visto que parece ser de inteira boa fé que ele propõe (suplemento "Dia D", "Público" de 27/10) um sistema de ensino inteiramente privado, e o fim total do monopólio estatal na educação. AAA começa, pouco originalmente, por agitar os espantalhos do corporativismo, do estatismo, da burocracia e dos abusos dos sindicatos para convencer o leitor da iniquidade do sistema actual. Se tais argumentos, embora minados pelo simplismo (próprio de quem deseja demonstrar, num artigo de página, uma tese sobre um tema de enorme complexidade), não são totalmente incompatíveis com o bom senso, rapidamente o leitor começa a ser brindado com pérolas às quais não falta o seu quê de sinistro.
AAA escandaliza-se com o facto de o Ministério da Educação se considerar mais bem preparado que os pais para decidir o que os alunos devem estudar. Pelo que me toca, não só isso não é minimamente chocante, como qualquer alternativa me pareceria inquietante. Quem, senão o Ministério, poderia assumir esse papel de liderança na condução das políticas da educação? A resposta de AAA é categórica: quem dela precisa, ou seja os alunos e os pais. Não passaria pela cabeça de ninguém, julgo, pôr os contribuintes a decidir a política fiscal, ou deixar que os enfermos definissem os moldes de gestão do parque hospitalar. Quando se trata da educação, porém, os liberais de serviço estão dispostos a ir até ao fim, e raramente hesitam (AAA não está certamente sozinho nesta cruzada intelectual) em proclamar a excelência absoluta do princípio do utente-decisor. Deixar que os pais tivessem voto de qualidade na organização do sistema educativo, e em particular na elaboração dos programas escolares seria, para mim, um erro de extrema gravidade. A privatização total do ensino, com "programas diferentes de escola para escola, numa livre concorrência e sempre salutar" teria o potencial para criar focos de proselitismo, sectarismo e comunitarismo, já para não falar nos prejuízos óbvios que traria para a mobilidade social. AAA afirma que "o seu [do Estado] interesse sempre foi bastante mais obscuro: Ele teme que os pais não incutam nos filhos o conceito de pertença ao Estado, mas antes à sua família e comunidade de vizinhança." Apetece-me dizer: et pour cause! Não me admira (e acho até desejável) que o Estado se dê a tais trabalhos para evitar derivar comunitárias, atendendo a tudo aquilo que de potencialmente explosivo encerra, nas sociedades de hoje, a sobreposição dos valores do grupo (religioso, étnico ou social) aos valores da sociedade e da nação. E desafio AAA a apontar seja o que for de tenebroso ou compulsivo nesse conceito de "pertença ao Estado", tal como este é, diz ele, "incutido" nas jovens e maleáveis mentes. Estamos longe dos tempos em que se entoavam loas ao marechal Carmona nos manuais escolares.
Isto para mencionar apenas os argumentos com uma vaga aparência de cabeça, tronco e membros. Passo em silêncio tiradas como "Ao ser afastado o dirigismo central, desaparecem os compadrios e os interesses obscuros". Demonstrar talento para o humor involuntário é uma coisa; fazer concorrência ao Gato Fedorento é outra. Não se pedia tanto a AAA.
Se não fossem as fotografias (e o que valem elas, na era do PhotoShop?), seria capaz de pensar que todos os cronistas/bloggers do "Dia D" não passam de heterónimos de uma só pessoa, optimista e hiperactiva.
(O artigo em questão encontra-se disponível neste blog, numa entrada do dia 30/10. Não consigo fazer o enlace directo.)
DESILUSÕES HERTZIANAS: O segundo canal da RTP, chame-se ele RTP2, TV2, 2:, "a dois", ou qualquer uma das muitas designações com que o têm ataviado ao longo dos anos, possui um historial de dar tiros no próprio pé que tem que se lhe diga. Da eliminação quase total do cinema à menorização e abandono do formato do magazine cultural diário (embora se deva dizer que o recente "Câmara Clara" me parece ser aposta ganha), passando pelos surtos de desprogramação inopinada de séries e pela inenarrável "Hora Discovery", têm sido legião as opções questionáveis. Daí que, infelizmente, não se possa classificar como totalmente inesperado aquilo que sucedeu à série "Curb Your Enthusiasm" ("Calma Larry!" em português): a meio da quarta série, mais exactamente após a exibição do sexto de dez episódios, eis que desapareceu da programação sem deixar rasto. Se a RTP adquiriu a totalidade dos episódios, porque não os exibe? Se não os adquiriu, por que diacho não o fez?
Não sou fã de séries. Raras vezes me deixo prender por uma. Nunca os (escassos) visionamentos que fiz de "Seinfeld" me despertaram algo que se pudesse confundir com entusiasmo. Mas a minha fidelidade ao "Curb" já se traduzia em nervoso miúdo sempre que, aos sábados à noite, me encontrava longe de casa e da televisão ao aproximar das dez e meia. Acho admirável a maneira como Larry David mistura os registos da sitcom e da reportagem em directo, e a forma como o tom de improvisação potencia os argumentos perversamente bem arquitectados. Vou ter saudades.
(Em condições normais, pensaria em escrever ao provedor da RTP, mas perdi a confiança nele desde que se declarou a favor das transmissões de tourada na televisão, com o argumento de se tratar de um espectáculo legal e de grande adesão popular. Estamos mal quando um provedor se abstém de considerar critérios éticos, e se fica pela vertente jurídica e pelo êxito de bilheteira. Mas divago.)
Não sou fã de séries. Raras vezes me deixo prender por uma. Nunca os (escassos) visionamentos que fiz de "Seinfeld" me despertaram algo que se pudesse confundir com entusiasmo. Mas a minha fidelidade ao "Curb" já se traduzia em nervoso miúdo sempre que, aos sábados à noite, me encontrava longe de casa e da televisão ao aproximar das dez e meia. Acho admirável a maneira como Larry David mistura os registos da sitcom e da reportagem em directo, e a forma como o tom de improvisação potencia os argumentos perversamente bem arquitectados. Vou ter saudades.
(Em condições normais, pensaria em escrever ao provedor da RTP, mas perdi a confiança nele desde que se declarou a favor das transmissões de tourada na televisão, com o argumento de se tratar de um espectáculo legal e de grande adesão popular. Estamos mal quando um provedor se abstém de considerar critérios éticos, e se fica pela vertente jurídica e pelo êxito de bilheteira. Mas divago.)
terça-feira, novembro 14, 2006
CINEMA: Terminei recentemente a leitura de um livro de memórias de Suso Cecchi d'Amico, sob a forma de conversas com a sua neta, Margherita d'Amico. Suso Cecchi d'Amico é uma figura incontornável do cinema italiano, tendo colaborado, como argumentista, em filmes de De Sica (entre os quais "Ladrões de Bicicletas"), Antonioni, Lattuada, Comencini, Zurlini, Rosi e muitos outros. Porém, a sua mais frutuosa relação profissional foi com Luchino Visconti, para quem escreveu ou co-escreveu os argumentos da quase totalidade dos filmes, incluindo obras-primas como "Senso", "Le Notti Bianche", "Rocco e i suoi Fratelli", "Il Gattopardo" e "Gruppo di Famiglia in un Interno".
Procurando informação biográfica sobre esta senhora (ainda me recordo da ocasião em que descobri, para minha surpresa, que se tratava de uma mulher), constato que, aos 92 anos, acaba de assinar mais um argumento, para um filme, que se encontra em pós-produção: "Le Rose del Deserto". Quanto ao realizador, não é outro senão Mario Monicelli, outro histórico, que já completou 91 anos.
Quantos outros exemplos existirão, na história do cinema, de filmes realizados e escritos por nonagenários?
sábado, novembro 11, 2006
REDE ELÉCTRICA EUROPEIA: Afinal, ao que parece, o corte de corrente de há uma semana, que afectou vários países europeus, foi ocasionado pela desactivação de uma linha de alta tensão, por forma a permitir a passagem segura de um navio de cruzeiro por um rio alemão.
Uma manobra desastrada como esta pode acontecer a qualquer um. Ainda assim, tratando-se de uma intervenção de risco, não se percebe por que é que não aguardaram até ao final da exibição do filme na sala 3 do King. Teriam poupado o transtorno e a frustração a algumas dezenas de espectadores.
LIÇÕES QUOTIDIANAS DE GEOGRAFIA: Desde que os gatos Goneril e Jasmim aprenderam a saltar para a bancada da cozinha, abriu a época de caça aos ímanes do frigorífico. De entre estes, os mais vulneráveis, pela reduzida dimensão da superfície magnetizada, são uns que eu trouxe de França, e que vinham como brinde em artigos alimentares pré-cozinhados. Representam departamentos franceses, e estão ilustrados com atracções turísticas e ícones de região. Ultimamente, tem-se tornado ocorrência corriqueira encontrar a França aos pedaços disseminada pelas divisões da casa: Lozère na cozinha, Ardennes no hall, Côtes d'Armor no quarto, Loire Atlantique na sala, Lot-et-Garonne no escritório...
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