ENSINO SUPERIOR: Li recentemente dois desabafos sobre o ensino superior que revelavam tremenda falta de conhecimento de causa e leviandade. No
primeiro, a propósito das denúncias de asfixia financeira por parte das universidades, sugere-se uma solução que aliaria a simplicidade à eficácia: aumentar as propinas, já que "nenhuma Universidade pública encosta as propinas ao tecto permitido" (um erro que o próprio autor corrigiu, mais tarde, por meio de contra-exemplos) e "quatro quintos dos alunos dispõe de viatura própria". Espanto-me com esta estatística, mas parto do princípio de que o autor se informou devidamente.
Supondo que as universidades dispõem de margem de manobra para aumentar ainda mais as propinas, e
admitindo que, de facto, 80 % dos estudantes universitário são felizes proprietários de um veículo motorizado, há que ter em conta duas coisas. Em
primeiro lugar, é límpido para quem segue a questão com um mínimo de atenção que o aumento progressivo das propinas, aproximando-as do custo real do ensino oferecido, é mais um paliativo do que uma solução para o financiamento dos estabelecimentos de ensino superior, e costuma ser acompanhado por desinvestimento orçamental no sector. Por outras palavras, as propinas funcionam como legitimação de cortes no orçamento, sucedâneos de receitas próprias que empurram as universidades para uma pseudo-autonomia financeira à custa do bolso dos estudantes. (E muito haveria a dizer, aliás, sobre as míticas "receitas próprias", apontadas como solução milagrosa por muitos, mas viáveis apenas na medida em que o permitem estruturas e corpos docentes já sobrecarregados pela dupla incumbência de ensinar e investigar.) Em
segundo lugar, a posse de carro, em muitos dos casos, será menos um sinal exterior de desafogo do que um imperativo por banais questões de mobilidade. Descrever os alunos universitários como meninos do papá birrentos é um lugar-comum que passa numa discussão de café, mas que convém usar com moderação quando o propósito é argumentar com um mínimo de seriedade.
O segundo grito de revolta, li-o
aqui. O autor insurge-se contra um doutoramento cujo tema é as construções nominais dos pronomes possessivos. Não vejo onde está o motivo de escândalo. O autor parece ter uma ideia muito aproximativa sobre o que é um doutoramento. Um doutoramento é um ciclo de estudos avançados que tem como fim, entre outros, demonstrar que o doutorando é capaz de conduzir investigação original sobre um determinado tema. Como estamos no século XXI, e não no século XIV, qualquer investigação com pretensões a originalidade deverá possuir um elevado grau de especialização. Só em casos muito específicos será de esperar que um tema de doutoramento tenha relevância imediata no contexto de um potencial emprego. Nesse caso, para que serve um doutoramento? Para demonstrar aptidões excepcionais ao nível da assimilação e resolução de problemas numa determinada área, e, desse modo, garantir um nível de desempenho condizente com expectativas elevadas por parte do empregador. Não nego que, frequentemente, uma pós-graduação pode ter significância nula para a formação de um indivíduo e para o seu sucesso na busca de emprego. Porém, é errado fazer recair as culpas sobre os temas de tese demasiado esotéricos e incompreensíveis para o comum dos mortais. (Alguém com conhecimento do assunto muito superior ao meu afiança-me que, longe de ser um irrelevante motivo de chacota, a investigação avançada ao nível de construções pronominais pode ser muito importante, por exemplo, para o aperfeiçoamento de correctores e analisadores morfossintácticos.)