quinta-feira, janeiro 18, 2007

COMPROMISSO POUCO OUSADO: Este blog voltará ao seu regime normal quando Vasco Graça Moura desistir de escrever sobre a TLEBS.

terça-feira, janeiro 16, 2007

COMO DESMASCARAR UM FALSO MILIONÁRIO: Um dos concursos/reality-shows cretinos que a TVI lançou recentemente para o éter, de seu nome "Pedro o Milionário", girava em torno de um suposto milionário (o Pedro), cortejado, com fins nupciais, por uma mancheia de moçoilas. A punchline, no meio disto, era que o Pedro, afinal, não era milionário. As infelizes concorrentes, que assim se esmifraram para nada, teriam feito bem em ler este romance: Em "Moll Flanders", Daniel Defoe entrega-se a longos e pragmáticos discursos sobre a necessidade de os nubentes inquirirem sobre a real situação financeira do candidato a cônjuge, antes de se decidirem a dar o nó. Quase se poderia falar de um pequeno tratado dentro do romance, tal é a insistência e exaustividade com que o assunto é abordado. Com perturbadora frequência, apercebemo-nos de que as respostas para os problemas da vida real se encontram, preto no branco, nas páginas da grande literatura, muitas vezes em obras com idade plurissecular. A qualquer pessoa que alimente ilusões sobre uma eventual ingenuidade das gentes de outrora (por oposição ao sofisticado cinismo que medra nos iníquos tempos modernos) recomendo a leitura de algumas dezenas de páginas de Balzac, Swift, Laclos ou Fielding. É quanto basta.
LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Na linha vermelha do metropolitano, uma jovem tinha entre mãos "The Black Book", Orhan Pamuk em versão inglesa. Q., que já leu o livro, afiança-me que se trata de um osso duro de roer. Em silêncio, faço votos para que não esmoreça o ânimo da jovem da linha vermelha, que liga a Alameda ao Oriente, e que talvez um dia chegue ao Aeroporto, via bairro da Encarnação.

sexta-feira, janeiro 12, 2007

O PULMÃO DO 19ÈME ARRONDISSEMENT: Só agora, tarde demais, me apercebo de que não visitei o soberbo parque de Buttes-Chaumont, em Paris, tão amiúde quanto teria sido possível e desejável. Em 1912, Kafka escreveu a Felice Bauer: «A minha vida deixá-la-ia por ti, mas não posso abandonar a tortura».
DE SÍMIOS E DE GALHOS: Que autoridade, que competência possuem os representantes da Igreja Católica para emitir pareceres sobre o referendo à despenalização da Interrupção Voluntária da Gravidez? Resposta: nenhuma. Tanta como o Clube de Coleccionadores de Saquetas de Chá Preto de Miranda do Corvo. Infelizmente, não só a Igreja se auto-reconhece essa autoridade e essa competência (servindo-se do inacreditável argumento de que tudo o que diz respeito ao ser humano cai sob a sua dilatadíssima alçada), como a comunicação social se mostra cúmplice contumaz dessa exorbitação. Por tradição? Por hábito? Por inércia? Até ao dia 11, não duvido de que a opinião pública continuará a ser visada pelo esforço de "iluminação das consciências" promovido por ilustres membros do clero. Por uma questão de equidade, espero que seja atribuído tempo de antena a médicos, juristas, filósofos e psicólogos para discorrerem sobre a santíssima trindade, sobre a exegese do Novo Testamento e sobre os desafios do ecumenismo neste dealbar do século XXI.
O NEVES DO KILIMANJARO (*): «Se virmos com atenção, os nossos partidos e eleitores são todos de direita. Quem representa no nosso Parlamento a direita desiludida e queixosa, resmunguenta e trauliteira? Quem, senão o Bloco de Esquerda?» Este memorável trecho de prosa pertence a João César das Neves, que o perpetrou na sua última crónica de 2ª feira no "DN". É preciso que se diga, para repor a questão no seu contexto, que, antes da pausa natalícia (que tão frustrante se revelou para seus inúmeros aficionados), mais exactamente a 27 de Novembro, JCN tinha comparado Afonso Costa a Hindenburg e a Bush, chamando-lhes "coveiros da liberdade", num ousado paralelo entre a 1ª República portuguesa, Weimar e o Iraque actual. Mesmo para alguém como JCN, que caiu no caldeirão do disparate quando era pequeno, trata-se de uma façanha. Resta saber se esta passagem à velocidade superior por parte do nosso esforçado cronista não esconde uma estratégia plena de sagacidade. A minha teoria é a seguinte. Lançando raciocínios a tal ponto delirantes, JCN espera que as impensáveis enormidades que terá reservadas até à data do referendo passem por sentenças cheias de sabedoria e cabimento. O tempo dirá se não estarei a tomar por astuta deliberação o que não passa de um arrepiante mergulho nos abismos oceânicos da indigência argumentativa. (*) Não deixemos que a irrelevância estrague um bom trocadilho.

segunda-feira, janeiro 08, 2007

ONTEM NÃO TE VI NA BARATA SALGUEIRO: Detesto ler o adjectivo "obrigatório" a propósito de um filme, livro ou exposição. Neste caso, porém, a tentação é fortíssima. Se não se trata de um filme obrigatório, pelo menos é uma oportunidade rara a que qualquer cinéfilo que se preze deve estar atento. No próximo dia 20, sábado, às 19h, na Cinemateca, passa "Paris Nous Appartient", primeira longa-metragem do meu adorado Jacques Rivette. Paris, o teatro e a conspiração, já presentes neste filme magnificamente desconcertante. (Tentarei escrever sobre este filme antes da data da sua exibição. Da maneira como as coisas têm estado, mais vale não prometer seja o que for. )
DA AUSÊNCIA DE PAPAS NA LÍNGUA: Os meus aplausos de mãos ambas vão, neste início de ano, para dois actores portugueses:
  • para João Reis, que, na emissão final do "Dança Comigo", exprimiu alto e bom som o seu contentamento por (cito de memória) "ver tanta gente no Campo Pequeno, não para assistir a uma tourada, mas para um espectáculo de dança";
  • e para Miguel Guilherme, que, em resposta a um inquérito na "Dica da Semana", afirmou nunca consultar os horóscopos porque "isso é para pessoas sem cultura".

Que vos seja frutuoso o exercício da subtil arte de Talma durante o próximo ciclo solar!

CRÍTICA: Há pessoas que estão sempre a criticar aquilo que as outras pessoas fazem, e eu acho isso mal, porque criticar por criticar não leva a lado nenhum.
SEPARADOS À NASCENÇA?:

John S. Carlile (1817-1878), político norte-americano, senador do estado da Virgínia, apoiante da causa unionista durante a guerra da Secessão.

José Barroso, emigrante português de sucesso.

quarta-feira, dezembro 20, 2006

E POR FALAR EM RENAS...: Depois do ritmo alucinante destes últimos dias, o 1bsk parte para merecidas férias, longe da Internet. Que os leitores passem umas Festas felizes e tranquilas, é o nosso desejo sincero.
A NÃO PERDER: Este post no Renas e Veados.
QUANDO O TELEFONE TOCA: Adivinho dever a uma posição alfabética cimeira em listas de contactos os numerosos telefonemas que recebo, resultantes, presumo, da manipulação descuidada de telemóveis subtraídos à vigilância paterna, por parte de filhos pequenos de amigos e conhecidos. Para pôr cobro a este problema, apenas me ocorrem duas soluções: mudar de nome para Zulmiro Zueberbriggen, ou apresentar aos meus amigos (sobretudo aqueles com descendência recente e orientada para as novas tecnologias) um qualquer Aarão ou Abel recrutado para o efeito.
OBITUÁRIO DE XADREZ: Há uns dias atrás, dei por mim a enumerar mentalmente os meus ídolos de xadrez de todos os tempos. Lembrei-me de José Raul Capablanca, Akiba Rubinstein, David Bronstein, Mikhail Botvinnik e, obviamente, Anatoly Karpov. No mesmo dia, algumas horas mais tarde, eis que tomo conhecimento do falecimento de David Bronstein. David Bronstein esteve a um passo de entrar para o muito restrito panteão de campeões do mundo de xadrez quando, em 1951, empatou um match com o então detentor do título, Mikhail Botvinnik (as regras ditavam que, em caso de empate, o campeão mantinha o título). De então para cá, têm surgido ciclicamente rumores de que Bronstein teria sido pressionado pelas autoridades soviéticas para não ganhar o match. O próprio Bronstein nunca admitiu que isso tivesse sucedido, mas, por mais de uma vez, exprimiu-se em relação a esse assunto de forma algo ambígua. Independentemente desse ponto nebuloso da historiografia xadrezística, Bronstein tornou-se famoso pelo seu imenso talento, pelo carácter imaginativo das suas partidas, e pela autoria de dois dos livros mais famosos da história deste jogo: "O Aprendiz de Feiticeiro" e, sobretudo, o livro do torneio de candidatos realizado em Zurique, 1953. Comprei uma cópia deste livro em Nova York, há mais de 3 anos. Está desde então na minha estante, há espera da atenção que mereceria e que nunca lhe concedi. AQUI, uma extensa colecção de partidas de David Bronstein.
E VOCÊ, ONDE ESTAVA?: E você, onde estava quando soube que Manuel Cajuda se tinha demitido do Zamalek, garbosa agremiação com larga tradição no futebol cairota? Eu estava num táxi, a caminho da segunda circular.

terça-feira, dezembro 05, 2006

ROHMER, TUDO LIGADO: Recentemente, revi na Cinemateca a primeira longa-metragem de Éric Rohmer, "Le Signe du Lion". A folha que acompanhava este filme era da autoria de Antonio Rodrigues. Gostei bastante de a ler. Nela são feitos numerosos paralelismos entre este filme e obras posteriores de Rohmer, mas também são apontadas diferenças de monta. Ao ler a folha, porém, estranhei a omissão de uma referência (que eu recordava muito confusamente ter lido) à semelhança entre o motivo astrológico que preside ao filme (o signo do Leão) e outras manifestações de destino/azar/fatalidade que viriam a ser muito abundantes na obra rohmeriana. Onde teria eu lido essa referência? Ao chegar a casa, verifiquei que a folha emitida pela Cinemateca aquando da exibição do mesmo filme em Julho de 1999 era diferente, e tinha como autor João Lopes. Li-a com avidez compreensível. O principal elo apontado por JL entre este filme e os restantes deste cineasta tem a ver com a presença do elemento moral. Aqui, inclino-me mais a concordar com Antonio Rodrigues quando ele escreve que "Le Signe du Lion" «é um conto (nem moral nem moralista)». A existir em "Le Signe du Lion", a moral apareceria de um modo quase puritano (e pouco subtil), redutível ao repúdio pelo dinheiro, radicalmente diferente do prevalecente nos "Contos Morais", onde se exprime essencialmente ao nível dos comportamentos humanos, e da fugidia fronteira entre livre-arbítrio, determinação e aleatoriedade. Mas adiante. Continuava eu, depois disto, sem saber onde teria lido (se é que a li) a tal sugestão de analogia entre o Zodíaco, caprichoso e soberano, e os seus múltiplos sucedâneos que povoam os enredos rohmerianos. Continuo sem saber. Encontrar pontos de contacto entre "Le Signe du Lion" e outros filmes de Rohmer é um ensejo natural e compreensível. E não me parece tarefa particularmente complicada. Por exemplo, o súbito e inesperado desenlace (o protagonista, devido a um acidente de automóvel a muitos quilómetros de distância, passa da indigência à condição de herdeiro rico) pode ser aproximado ao reencontro entre a protagonista de "Conte d'Hiver" e o amante, perdido anos antes por uma estúpida questão de endereço enganado, ou então do também súbito (mas não totalmente inesperado) desenlace de "Le Rayon Vert", em que a personagem de Marie Rivière observa finalmente o fenómeno atmosférico que perseguia com obstinação. A ocorrência de uma improvável conjunção de acontecimentos que, à revelia da personagem principal, transforma um impasse num desfecho venturoso faz lembrar as cenas finais de "Conte d'Été" (os telefonemas recebidos por Melvil Poupaud, ultrapassado pelos acontecimentos mas, estranhamente, nunca parecendo deixar de ser dono do seu destino). O mais notável, no entanto, é sentir como esta tarefa transcende o âmbito da crítica, da historiografia e da paixão cinéfila, para se situar num plano onde a felicidade e a realização pessoal também ocupam o seu espaço. Como se encontrar coerência na obra de um realizador de cinema digno da nossa estima equivalesse a verificar a integridade de um vínculo de confiança que nos une a ele. (Éric Rohmer tem um novo filme em fase de acabamento. Chama-se "Les Amours d'Astrée et de Céladon".)
ENSINO SUPERIOR: Li recentemente dois desabafos sobre o ensino superior que revelavam tremenda falta de conhecimento de causa e leviandade. No primeiro, a propósito das denúncias de asfixia financeira por parte das universidades, sugere-se uma solução que aliaria a simplicidade à eficácia: aumentar as propinas, já que "nenhuma Universidade pública encosta as propinas ao tecto permitido" (um erro que o próprio autor corrigiu, mais tarde, por meio de contra-exemplos) e "quatro quintos dos alunos dispõe de viatura própria". Espanto-me com esta estatística, mas parto do princípio de que o autor se informou devidamente. Supondo que as universidades dispõem de margem de manobra para aumentar ainda mais as propinas, e admitindo que, de facto, 80 % dos estudantes universitário são felizes proprietários de um veículo motorizado, há que ter em conta duas coisas. Em primeiro lugar, é límpido para quem segue a questão com um mínimo de atenção que o aumento progressivo das propinas, aproximando-as do custo real do ensino oferecido, é mais um paliativo do que uma solução para o financiamento dos estabelecimentos de ensino superior, e costuma ser acompanhado por desinvestimento orçamental no sector. Por outras palavras, as propinas funcionam como legitimação de cortes no orçamento, sucedâneos de receitas próprias que empurram as universidades para uma pseudo-autonomia financeira à custa do bolso dos estudantes. (E muito haveria a dizer, aliás, sobre as míticas "receitas próprias", apontadas como solução milagrosa por muitos, mas viáveis apenas na medida em que o permitem estruturas e corpos docentes já sobrecarregados pela dupla incumbência de ensinar e investigar.) Em segundo lugar, a posse de carro, em muitos dos casos, será menos um sinal exterior de desafogo do que um imperativo por banais questões de mobilidade. Descrever os alunos universitários como meninos do papá birrentos é um lugar-comum que passa numa discussão de café, mas que convém usar com moderação quando o propósito é argumentar com um mínimo de seriedade. O segundo grito de revolta, li-o aqui. O autor insurge-se contra um doutoramento cujo tema é as construções nominais dos pronomes possessivos. Não vejo onde está o motivo de escândalo. O autor parece ter uma ideia muito aproximativa sobre o que é um doutoramento. Um doutoramento é um ciclo de estudos avançados que tem como fim, entre outros, demonstrar que o doutorando é capaz de conduzir investigação original sobre um determinado tema. Como estamos no século XXI, e não no século XIV, qualquer investigação com pretensões a originalidade deverá possuir um elevado grau de especialização. Só em casos muito específicos será de esperar que um tema de doutoramento tenha relevância imediata no contexto de um potencial emprego. Nesse caso, para que serve um doutoramento? Para demonstrar aptidões excepcionais ao nível da assimilação e resolução de problemas numa determinada área, e, desse modo, garantir um nível de desempenho condizente com expectativas elevadas por parte do empregador. Não nego que, frequentemente, uma pós-graduação pode ter significância nula para a formação de um indivíduo e para o seu sucesso na busca de emprego. Porém, é errado fazer recair as culpas sobre os temas de tese demasiado esotéricos e incompreensíveis para o comum dos mortais. (Alguém com conhecimento do assunto muito superior ao meu afiança-me que, longe de ser um irrelevante motivo de chacota, a investigação avançada ao nível de construções pronominais pode ser muito importante, por exemplo, para o aperfeiçoamento de correctores e analisadores morfossintácticos.)

sábado, dezembro 02, 2006

LAURA RIDING: No "Mil Folhas" do passado dia 11 de Março, Eduardo Prado Coelho escrevia: «Quem é Laura Riding? Duvido que haja portugueses que a conheçam(...)». Posso garantir que alguns portugueses já conheciam esta autora, pelo menos aqueles que acompanharam este blog nas suas primeiras semanas de vida. Que moral se poderá retirar daqui? Absolutamente nenhuma. Porém, descubro agora, perturbado, que o rosa que escolhi para fundo da página de arquivo do 1bsk desse mês é muito semelhante ao do amaciador de roupa marca Carrefour. (Traduções de Riding para português aqui.)
LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Há horas de rara felicidade na vida de um caçador de leituras em lugares públicos (lembram-se dos tractores Fiatagri?). No campus do Instituto Superior Técnico existe um edifício chamado Complexo Interdisciplinar. No pavilhão envidraçado da recepção, sobre uma secretária, na semana passada, viram estes meus olhos um exemplar de "Watt", de Samuel Beckett, na edição portuguesa da Assírio & Alvim. A euforia daí resultante não me fez esquecer esta questão de importância maior: será que a leitura de Beckett durante a actividade laboral, para além de obviamente louvável, é recomendável do ponto de vista do desempenho profissional? Povo de Portugal, de Norte a Sul: está aberto o debate.
NO PRÓXIMO FIM-DE-SEMANA: Terão lugar nos próximos dias 8, 9 e 10 as representações da peça "Um por um para dois", pelo grupo teatroàparte, baseada na obra "Talem (Leito Conjugal)", do espanhol Sergi Belbel. Todas as informações relevantes encontram-se na página do teatroàparte, grupo amador da Associação de Residentes de Telheiras, do qual tenho a felicidade de fazer parte. Frenética, pós-moderna, licenciosa, hilariante, inteligente: são os cinco adjectivos que me ocorrem para qualificar esta peça. Caso subsistam ainda algumas hesitações, penso que o facto de eu não fazer parte do elenco desta peça deve constituir argumento decisivo para ir assistir.