«A morte não é um acontecimento da vida.» (Ludwig Wittgenstein)
f.h.p.b. 1938-2007
Em "Moll Flanders", Daniel Defoe entrega-se a longos e pragmáticos discursos sobre a necessidade de os nubentes inquirirem sobre a real situação financeira do candidato a cônjuge, antes de se decidirem a dar o nó. Quase se poderia falar de um pequeno tratado dentro do romance, tal é a insistência e exaustividade com que o assunto é abordado.
Com perturbadora frequência, apercebemo-nos de que as respostas para os problemas da vida real se encontram, preto no branco, nas páginas da grande literatura, muitas vezes em obras com idade plurissecular. A qualquer pessoa que alimente ilusões sobre uma eventual ingenuidade das gentes de outrora (por oposição ao sofisticado cinismo que medra nos iníquos tempos modernos) recomendo a leitura de algumas dezenas de páginas de Balzac, Swift, Laclos ou Fielding. É quanto basta.
Detesto ler o adjectivo "obrigatório" a propósito de um filme, livro ou exposição. Neste caso, porém, a tentação é fortíssima. Se não se trata de um filme obrigatório, pelo menos é uma oportunidade rara a que qualquer cinéfilo que se preze deve estar atento. No próximo dia 20, sábado, às 19h, na Cinemateca, passa "Paris Nous Appartient", primeira longa-metragem do meu adorado Jacques Rivette. Paris, o teatro e a conspiração, já presentes neste filme magnificamente desconcertante.
(Tentarei escrever sobre este filme antes da data da sua exibição. Da maneira como as coisas têm estado, mais vale não prometer seja o que for. )
Que vos seja frutuoso o exercício da subtil arte de Talma durante o próximo ciclo solar!
John S. Carlile (1817-1878), político norte-americano, senador do estado da Virgínia, apoiante da causa unionista durante a guerra da Secessão.
José Barroso, emigrante português de sucesso.
A folha que acompanhava este filme era da autoria de Antonio Rodrigues. Gostei bastante de a ler. Nela são feitos numerosos paralelismos entre este filme e obras posteriores de Rohmer, mas também são apontadas diferenças de monta. Ao ler a folha, porém, estranhei a omissão de uma referência (que eu recordava muito confusamente ter lido) à semelhança entre o motivo astrológico que preside ao filme (o signo do Leão) e outras manifestações de destino/azar/fatalidade que viriam a ser muito abundantes na obra rohmeriana.
Onde teria eu lido essa referência? Ao chegar a casa, verifiquei que a folha emitida pela Cinemateca aquando da exibição do mesmo filme em Julho de 1999 era diferente, e tinha como autor João Lopes. Li-a com avidez compreensível. O principal elo apontado por JL entre este filme e os restantes deste cineasta tem a ver com a presença do elemento moral. Aqui, inclino-me mais a concordar com Antonio Rodrigues quando ele escreve que "Le Signe du Lion" «é um conto (nem moral nem moralista)». A existir em "Le Signe du Lion", a moral apareceria de um modo quase puritano (e pouco subtil), redutível ao repúdio pelo dinheiro, radicalmente diferente do prevalecente nos "Contos Morais", onde se exprime essencialmente ao nível dos comportamentos humanos, e da fugidia fronteira entre livre-arbítrio, determinação e aleatoriedade.
Mas adiante. Continuava eu, depois disto, sem saber onde teria lido (se é que a li) a tal sugestão de analogia entre o Zodíaco, caprichoso e soberano, e os seus múltiplos sucedâneos que povoam os enredos rohmerianos. Continuo sem saber.
Encontrar pontos de contacto entre "Le Signe du Lion" e outros filmes de Rohmer é um ensejo natural e compreensível. E não me parece tarefa particularmente complicada. Por exemplo, o súbito e inesperado desenlace (o protagonista, devido a um acidente de automóvel a muitos quilómetros de distância, passa da indigência à condição de herdeiro rico) pode ser aproximado ao reencontro entre a protagonista de "Conte d'Hiver" e o amante, perdido anos antes por uma estúpida questão de endereço enganado, ou então do também súbito (mas não totalmente inesperado) desenlace de "Le Rayon Vert", em que a personagem de Marie Rivière observa finalmente o fenómeno atmosférico que perseguia com obstinação.
A ocorrência de uma improvável conjunção de acontecimentos que, à revelia da personagem principal, transforma um impasse num desfecho venturoso faz lembrar as cenas finais de "Conte d'Été" (os telefonemas recebidos por Melvil Poupaud, ultrapassado pelos acontecimentos mas, estranhamente, nunca parecendo deixar de ser dono do seu destino).
O mais notável, no entanto, é sentir como esta tarefa transcende o âmbito da crítica, da historiografia e da paixão cinéfila, para se situar num plano onde a felicidade e a realização pessoal também ocupam o seu espaço. Como se encontrar coerência na obra de um realizador de cinema digno da nossa estima equivalesse a verificar a integridade de um vínculo de confiança que nos une a ele.
(Éric Rohmer tem um novo filme em fase de acabamento. Chama-se "Les Amours d'Astrée et de Céladon".)