JUSTE UNE IMAGE: No suplemento "6ª" do "DN" de dia 18/8, João Lopes, a propósito de Godard, fala da crença ingénua de que a imagem possa funcionar «como revelação aberta, transparente e incontestável de um mundo que, por definição, se exporia de modo igualmente aberto, sem resistências figurativas ou simbólicas». E ainda: «Será que nos servem uma visão do mundo sem nunca, nem por um instante, terem pensado que o estão a fazer?».
Se bem que a observação de João Lopes (com a qual estou integralmente de acordo) se dirija mais explicitamente aos telejornais, não me parece inoportuno estendê-la ao domínio do cinema e da crítica cinematográfica. Com efeito, se eu tivesse de apontar um único pecado mortal à crítica de cinema em Portugal (e só me refiro a esta, em particular, por ser a que conheço melhor), seria este: falar dos filmes parecendo incapaz de perceber que está a lidar com objectos cinematográficos, com especificidades próprias. Na grande maioria dos casos, o crítico fala de um filme como se falasse de um livro, e a crítica concentra-se no enredo ou no assunto do filme, e em ilações sobre esse enredo ou assunto, complementadas por referências ao desempenho dos actores, notas enciclopédicas sobre a filmografia precedente do realizador, etc. Raras vezes nos é dado ler uma apreciação que diga explicitamente respeito à natureza cinematográfica da obra, e ao modo como o realizador se serviu dos meios e técnicas ao seu dispor para dar corpo à sua intenção artística.
Não acredito que se trate de mera incompetência ou desleixo. Quer-me parecer, isso sim, que existe um défice de consciência do modo como a captação de uma imagem, a sua planificação e o seu registo, constituem um gesto artístico, com implicações a variadíssimos níveis, incluindo o ético; um gesto que nunca será inocente, e que só o seria se se pudesse admitir a tal transparência, a possibilidade de trazer ao espectador o mundo exterior de forma totalmente neutra e fiel.
Porém, reconheço que certos filmes tornam difícil ao crítico proceder de outro modo. Por serem realizados de forma tão mecânica, estandardizada e/ou desleixada, muitos dos filmes que estreiam entre nós pouco mais justificam ou merecem do que uma referência apressada à "história" (a sacrossanta história...), aos actores, e a uma qualquer anedota de produção. Mas não é desses filmes que falo.
"Les Amants Réguliers", de Philippe Garrel, é um excelente exemplo de um filme para o qual toda e qualquer leitura que menospreze a sua natureza última (uma sucessão de imagens em movimento, afinal é isso um filme) será uma leitura traidora e inútil. (E repare-se que isto não significa apoucar a importância do argumento desta ou de outras obras.) Vê-lo reduzido a um "filme sobre o Maio de 68" entristece-me ainda mais do que sucederia no caso de um filme menor. São inúmeros os exemplos de cenas deste filme que seriam irredutíveis a qualquer outro meio que não fosse a imagem em movimento, cenas cujo enquadramento rigoroso (esplendidamente servido pela fotografia do grande William Lubtchansky) não obstam a um empolgante sentido de liberdade.
Por vezes, às críticas "chapa 3" dos profissionais do ofício, quase prefiro as que, como
esta, pelo menos oferecem uma perspectiva marcadamente pessoal, e até se referem a cenas específicas do filme, com explicação das razões que levaram o autor a gostar, ou não. Claro que discordo de tudo o que nela leio: as estafadíssimas referências à lentidão, não faltando a previsível comparação com Oliveira (como se a lentidão, a demora, a exploração da evolução de uma situação no tempo, não fossem dispositivos tão cheios de virtualidades com quaisquer outros), a acusação de que nada acontece durante a longa cena das barricadas (e como é densa em acontecimentos essa cena!, e fascinante por isso mesmo, desde que se preste um mínimo de atenção, e não se espere que as peripécias saltem do ecrã para cair no colo do espectador, com efeitos sonoros a acompanhar), a alusão a "maneirismos/erros cinematográficos" (quais?), e a suposta banalidade dos amores e dos artistas que povoam o filme (como se a banalidade, e mesmo a mediocridade, não estivessem na origem de grandes obras da literatura e do cinema, como se só o excepcional fosse digno de ser retratado).

Termino com uma mensagem subliminar:
ide todos ao King ver o filme de Garrel! (E depois ao Porto, quando ele estrear lá.)
(Ver ainda este artigo de João Lopes sobre a exposição Godard no Centro Pompidou.)