terça-feira, fevereiro 20, 2007
UM CASO SÉRIO: Os cinemas Millenium Alvaláxia são um caso sério de incompetência e falta de respeito pelo cliente. Sucedeu-me hoje, pela segunda vez em poucos dias, ver-me impossibilitado de assistir ao filme que pretendia ("Scoop", de Woody Allen), devido a um erro na informação do horário da sessão, quer no jornal quer nos ecrãs junto das bilheteiras. Estas salas são as que se encontram mais próximas da minha casa, mas sinto-me cada vez mais relutante em visitá-las: planear uma tarde ou noite de cinema no Alvaláxia tem-se revelado um exercício com elevada componente de aleatoriedade, e não me apetece ver mais uma vez os meus planos arruinados devido a negligência grosseira por parte do prestador de serviços.
Nem tudo foram agruras: tive assim, pela primeira vez na minha vida, oportunidade de rabiscar as páginas de um livro de reclamações. Foi um dia mau para cinefilia, mas bom para a cidadania.
Acrescente-se a isto as bilheteiras onde também se vendem "consumíveis" (leia-se pipocas, coca-cola e outros inimigos da sétima arte), e funcionários que entram na sala a meio da sessão e ficam cinco minutos a contemplar a plateia, de braços cruzados (aconteceu-me no filme "Little Children"), e começamos a ter um caso a favor do boicote. Só as salas e o som, de muito boa qualidade, fazem pender a balança para o lado contrário.
BEGIN BEGAN BEGUN: Acabo de assistir, na RTP1, a um documentário sobre José Mourinho. Constatei uma verdade melancólica, mas que estava na altura de o nosso país enfrentar, fazendo das tripas coração: mesmo depois de mais de dois anos em Londres, Mourinho não fala tão bem inglês como Vale e Azevedo.
domingo, fevereiro 18, 2007
K AO KUADRADO:
Num registo diarístico em que discorre sobre o processo de composição de uma novela, Kafka afirma que «...a novela, no caso de ser válida, contém em si própria a sua organização completa, mesmo quando ainda não se desenvolveu totalmente...», afirmação que poderá entender-se como sendo a própria história começada que, levando consigo o seu autor, continuasse a escrever-se a si mesma.
(Maria Marques Chaves de Almeida, in "Perspectivas e Leituras do Universo Kafkiano", organização e introdução de Gonçalo Vilas-Boas e Zaida Rocha Ferreira, Apáginastantas, 1984.)
A respeito desta citação, a autora insere a seguinte nota de rodapé:
Esta afirmação de Kafka não pode deixar de comparar-se com as conhecidas palavras de Heinrich von Kleist: «die allmähliche Verfertigung der Geschichte beim Schreiben» (a progressiva construção da narrativa durante o acto da escrita).
Desconheço a origem destas palavras, quase idênticas ao título de um ensaio do próprio Kleist: «Über die allmähliche Verfertigung der Gedanken beim Reden» (1807-1808). Ou seja, a progressiva construção das ideias pela palavra. Por sinal, este ensaio tem vindo a ser publicado na íntegra, e em fascículos, no blog Cartas do Meu Moinho.
Era este um dos sonhos primordiais do 1bsk: que a sua razão de ser surgisse de forma síncrona com a sua própria elaboração. Formosos sonhos. Grandiosos desígnios. Em vez disso, temos tido bolos de arroz, Morangos com Açúcar e gatas pianistas.
quarta-feira, fevereiro 14, 2007
JUNK JUNK SCIENCE: O jcd descobriu que o top 10 de 2006 elaborado por um site que se auto-propõe denunciar, com todo o brio, abusos e falácias pseudo-científicas era encimado pelo documentário "An Inconvenient Truth", de Al Gore. Naturalmente, apressou-se a partilhar com os seus leitores tão delicioso veredicto. Um exame, ainda que superficial, teria permitido constatar que o site em questão, junkscience.com, longe de ser um imparcial paladino da ética científica, visa exclusivamente, de forma sistemática e tendenciosa, denegrir tudo o que cheire a agenda liberal: aquecimento global, protocolo de Kyoto, pesquisa em células estaminais, restrições contra o tabagismo, nada escapa ao seu fogo cruzado.
Para além disso, uns escassos minutos de pesquisa em sites bem conhecidos como o Skeptic's Dictionary, a Wikipedia e o Sourcewatch teriam sido suficientes para perceber que o junkscience.com é essencialmente obra de um certo Steven J. Milloy, colunista da FoxNews associado a think tanks conservadores, e a quem está associado um já longo historial de violações éticas, facciosismo e ocultação de conflitos de interesse.
A Internet é uma grande câmara de ecos, onde ressoam os rumores de batalhas longínquas. Inspirar-se em guerras alheias para alimentar guerrilhas locais revela, no mínimo, provincianismo. E são muitas as maneiras frutuosas e gratificantes de ocupar o tempo do dia e que não implicam reproduzir factóides colhidos aqui e ali, sem um q.b. de espírito crítico, e com o inevitável sorriso ufano estampado no rosto.
(Atenção: o autor do post é o jcd, e não o João Miranda, como eu tinha escrito inicialmente. As minhas desculpas a ambos.)
FOREVER CHANGES (*): Mudei o meu blog para a conta Google, e eis que os posts foram invadidos por caracteres disparatados, pondo em causa (e com que dramatismo!) a sua legibilidade. Um simples ajuste nas opções do meu browser pôs cobro ao problema, mas angustia-me a possibilidade de outros leitores virem a sofrer da mesma vicissitude. Digam de vossa justiça, vilipendiem, vociferem. Todos os cidadãos têm direito inalienável à sua dose diária de 1bsk.
(*) Singela homenagem a um álbum fabuloso dos Love de Arthur Lee.
segunda-feira, fevereiro 12, 2007
GEMINAÇÃO:

O Umblogsobrekleist partilha o seu aniversário com o do realizador Jacques Rivette. Rivette nasceu a 1 de Março de 1928. O 1bsk nasceu 75 anos mais tarde, a 1 de Março de 2003. Não se tratou de premeditação, mas poderia muito bem tê-lo sido. Jacques Rivette é um dos quatro ou cinco criadores, de todos os campos artísticos, que mais me influenciou e que mais admiro. Mal posso esperar pelo seu novo filme. Gostaria de estar no festival de Berlim, na fila para a sessão, com um copo grande de café a escaldar entre os dedos gelados. Adoro fotografias de rodagens. Esta é do filme "Out One". Rivette é o homem mascarado que olha para a sua imagem reflectida num espelho.

O Umblogsobrekleist partilha o seu aniversário com o do realizador Jacques Rivette. Rivette nasceu a 1 de Março de 1928. O 1bsk nasceu 75 anos mais tarde, a 1 de Março de 2003. Não se tratou de premeditação, mas poderia muito bem tê-lo sido. Jacques Rivette é um dos quatro ou cinco criadores, de todos os campos artísticos, que mais me influenciou e que mais admiro. Mal posso esperar pelo seu novo filme. Gostaria de estar no festival de Berlim, na fila para a sessão, com um copo grande de café a escaldar entre os dedos gelados. Adoro fotografias de rodagens. Esta é do filme "Out One". Rivette é o homem mascarado que olha para a sua imagem reflectida num espelho.
RIDENDO CASTIGAT: Os "Guignols de l'Info" (equivalente francês da "Contra-Informação") foram, em tempos, acusados de terem pesado decisivamente na eleição de Jacques Chirac nas presidenciais de 1995 (ver, por exemplo, aqui e aqui).
Parece-me pouco crível que a (muito merecidamente) já mítica imitação que Ricardo Araújo Pereira fez de Marcelo Rebelo de Sousa tenha tido influência palpável no resultado do referendo do domingo passado. Porém, não me admiraria que esse devastador momento de humor tenha ajudado a mudar o sentido de voto de, pelo menos, umas quantas dezenas de almas, por esse Portugal fora. E não vejo nisso nenhum crime de lesa-democracia: uma sátira inteligente e certeira pode ser tão iluminadora como o mais lúcido comentário político.
OS ÚLTIMOS CARTUCHOS: De acordo com um horroroso folheto de propaganda ao "Não" que veio parar à minha caixa do correio, sexta-feira passada, podem-se detectar ondas cerebrais num feto de 6 semanas, por meio de electroencefalografia.
Devemos congratular-nos por tudo ter acabado. Com mais meia dúzia de dias de campanha, acabariam por nos tentar convencer de que um óvulo fecundado já está em condições de tirar a carta de pesados.
quarta-feira, fevereiro 07, 2007
CIÊNCIA E MÁ FÉ: A acreditar na propaganda de alguns defensores do "Não", o feto, às dez semanas, já possui órgãos em pleno funcionamento, já diz "Papá" e "Mamã", já reage à música de Beethoven e já gatinha, sendo mesmo caso para nos perguntarmos se as restantes vinte e tal semanas de gestação não passam de um supérfluo capricho da Natureza. De entre tantas fantásticas alegações, uma que sempre me intrigou tem a ver com a existência de "actividade cerebral" (ou "ondas cerebrais"), registada por meio de electroencefalografia, às dez semanas ou até antes.
Para melhor ilustrar a minha perplexidade, chamo a vossa atenção para esta figura:
Isto é um dispositivo de aquisição de electroencefalografia (EEG). Uma rede de eléctrodos é colocada junto ao escalpe, e os potenciais eléctricos locais são registados para posterior processamento. Estes potenciais eléctricos reflectem a actividade dos neurónios corticais. Sucede que estes potenciais são de fraca intensidade (algumas dezenas de microvolt, em média), e que o registo é fortemente afectado pela dispersão eléctrica ocasionada pelas camadas de tecido que separam o cérebro do escalpe (meninges, osso, pele). Por maioria de razão, estas dificuldades acentuar-se-iam caso a intenção fosse registar o electroencefalograma do feto dentro do útero, devido à presença de camadas adicionais de tecido com diferentes condutividades eléctricas, para além da interferência provocada pelos potenciais cardíacos da mãe.
Uma pesquisa simples permitiu-me esclarecer, pelo menos em parte, esta questão. Todas as referências a "EEG fetal" que encontrei referem-se: ou a registos obtidos em prematuros, ou a registos obtidos na sequência de abortos por cesariana. Como este último método caiu em desuso, e como os registos de prematuros dizem normalmente respeito a períodos de gestação superiores às 20 semanas, as referências bibliográficas citadas em apoio da ocorrência de ondas cerebrais antes das 10 semanas remetem para estudos realizados há várias décadas. Isso mesmo explica este notável artigo, que desmonta, de forma sistemática, a teia de citações científicas que têm servido de muleta aos adeptos da actividade cerebral prematura. Citar é fácil; citar bem e com honestidade é tarefa mais delicada. Este artigo relembra-nos que um nome e uma publicação não conferem, por artes mágicas, veracidade e consistência a uma afirmação.
Infelizmente, poucas coisas no mundo são mais obstinadas do que os factóides: até há algumas horas atrás, no artigo "fetus" da Wikipedia lia-se:
«Brain activity can be detected at around 54 days (eight weeks), and development of integrated brain functioning at 70 days (ten weeks).»
Algumas revisões depois, esta frase foi substituída por uma versão mais conservadora:
«Brain-stem activity has been detected 54 days after conception.»
Na versão da página que está activa enquanto escrevo estas linhas, vai-se ainda menos longe:
«While there has been some contention brain activity begins at ten weeks, researchers have yet to make a determination.»
É ainda instrutivo dar uma olhadela no intrincado historial desta página, assim como nas inflamadas (e, obviamente, percorridas por linhas argumentação "pró-vida" e "pró-escolha") discussões que têm acompanhado estes recentes e vertiginosos esforços de edição.
Claro está que este pomo da discórdia, não sendo académico, está longe de merecer uma atenção obsessiva: definir o início da vida por meio de algo de tão vago como "actividade cerebral" é, no mínimo, controverso. Os neurónios são, por natureza, células excitáveis, cujas flutuações de polaridade, ao nível das membranas podem ser detectados do exterior, sob a forma de potenciais eléctricos. Porém, a mera existência de um registo electroencefalográfico não é sinónimo de vida. As funções cerebrais superiores, e mesmo um "simples" estado de sono ou vigília, são caracterizados por padrões e ondas muito específicos e bem conhecidos. Mas claro que estas considerações são demasiado complexas para caberem num folheto de propaganda.
De simples, a questão não tem nada. Para mal dos nossos pecados, simplificar de forma grosseira aquilo que é complexo é estratégia comum daqueles a quem a argumentação racional faz alergia. Por isso, da próxima vez que algum peremptório representante do movimento "Algarve pela Vida" ou "Caldas da Rainha Ocidental pela Vida" se pronunciar sobre o momento em que começa a vida humana, pergunte-lhe de onde provém a sua inabalável certeza. Mesmo num tempo em que a discussão serena e ponderada parece fora da ordem do dia, insistir na necessidade de sustentar afirmações levianas com factos concretos é um favor que se faz à comunidade.
Isto é um dispositivo de aquisição de electroencefalografia (EEG). Uma rede de eléctrodos é colocada junto ao escalpe, e os potenciais eléctricos locais são registados para posterior processamento. Estes potenciais eléctricos reflectem a actividade dos neurónios corticais. Sucede que estes potenciais são de fraca intensidade (algumas dezenas de microvolt, em média), e que o registo é fortemente afectado pela dispersão eléctrica ocasionada pelas camadas de tecido que separam o cérebro do escalpe (meninges, osso, pele). Por maioria de razão, estas dificuldades acentuar-se-iam caso a intenção fosse registar o electroencefalograma do feto dentro do útero, devido à presença de camadas adicionais de tecido com diferentes condutividades eléctricas, para além da interferência provocada pelos potenciais cardíacos da mãe.
Uma pesquisa simples permitiu-me esclarecer, pelo menos em parte, esta questão. Todas as referências a "EEG fetal" que encontrei referem-se: ou a registos obtidos em prematuros, ou a registos obtidos na sequência de abortos por cesariana. Como este último método caiu em desuso, e como os registos de prematuros dizem normalmente respeito a períodos de gestação superiores às 20 semanas, as referências bibliográficas citadas em apoio da ocorrência de ondas cerebrais antes das 10 semanas remetem para estudos realizados há várias décadas. Isso mesmo explica este notável artigo, que desmonta, de forma sistemática, a teia de citações científicas que têm servido de muleta aos adeptos da actividade cerebral prematura. Citar é fácil; citar bem e com honestidade é tarefa mais delicada. Este artigo relembra-nos que um nome e uma publicação não conferem, por artes mágicas, veracidade e consistência a uma afirmação.
Infelizmente, poucas coisas no mundo são mais obstinadas do que os factóides: até há algumas horas atrás, no artigo "fetus" da Wikipedia lia-se:
«Brain activity can be detected at around 54 days (eight weeks), and development of integrated brain functioning at 70 days (ten weeks).»
Algumas revisões depois, esta frase foi substituída por uma versão mais conservadora:
«Brain-stem activity has been detected 54 days after conception.»
Na versão da página que está activa enquanto escrevo estas linhas, vai-se ainda menos longe:
«While there has been some contention brain activity begins at ten weeks, researchers have yet to make a determination.»
É ainda instrutivo dar uma olhadela no intrincado historial desta página, assim como nas inflamadas (e, obviamente, percorridas por linhas argumentação "pró-vida" e "pró-escolha") discussões que têm acompanhado estes recentes e vertiginosos esforços de edição.
Claro está que este pomo da discórdia, não sendo académico, está longe de merecer uma atenção obsessiva: definir o início da vida por meio de algo de tão vago como "actividade cerebral" é, no mínimo, controverso. Os neurónios são, por natureza, células excitáveis, cujas flutuações de polaridade, ao nível das membranas podem ser detectados do exterior, sob a forma de potenciais eléctricos. Porém, a mera existência de um registo electroencefalográfico não é sinónimo de vida. As funções cerebrais superiores, e mesmo um "simples" estado de sono ou vigília, são caracterizados por padrões e ondas muito específicos e bem conhecidos. Mas claro que estas considerações são demasiado complexas para caberem num folheto de propaganda.
De simples, a questão não tem nada. Para mal dos nossos pecados, simplificar de forma grosseira aquilo que é complexo é estratégia comum daqueles a quem a argumentação racional faz alergia. Por isso, da próxima vez que algum peremptório representante do movimento "Algarve pela Vida" ou "Caldas da Rainha Ocidental pela Vida" se pronunciar sobre o momento em que começa a vida humana, pergunte-lhe de onde provém a sua inabalável certeza. Mesmo num tempo em que a discussão serena e ponderada parece fora da ordem do dia, insistir na necessidade de sustentar afirmações levianas com factos concretos é um favor que se faz à comunidade.
quarta-feira, janeiro 31, 2007
O GÉNIO PASSEIA-SE: Ignoro se Goethe, quando redigia o diário da sua viagem a Itália (*), pensava na posteridade e nas sentenças que esta lhe haveria de reservar. Quer-me parecer que a obsessão com as opiniões dos seus contemporâneos pouco espaço deixaria livre para especulações sobre os vindouros. De Veneza, Goethe prometeu à amante Charlotte von Stein o envio do diário, fazendo-lhe contudo, ao mesmo tempo, a seguinte recomendação: «Se tu o fosses copiando, in-quarto mas com as folhas dobradas, mudasses o "tu" para "a senhora" e eliminasses as referências estritamente pessoais ou o que mais achares, quando eu regressasse teria pronto um exemplar que poderia corrigir, ordenando todo o conjunto!». Brincar em serviço era para os outros: o Grande Homem segregava literatura, com límpida premeditação, mesmo durante o que poderia parecer uma banal missão de alargamento de horizontes pessoais.
O tom predominante é o de uma estudada humildade: «Quanto a mim, é um prazer e um dever celebrar a memória de um antecessor. Afinal, também eu sou apenas um antecessor de outros, na vida como em viagem!» (13 de Abril de 1787). Tem o seu quê de instrutivo presenciar os não raros momentos em que esta fachada soçobra. Por exemplo, quando, em trajecto pela Sicília profunda, que ele aproveita para trabalhar na sua tragédia sobre Nausícaa, Goethe escreve: «Ulisses, que, meio culpado, meio inocente, foi o causador de tudo isto, tem de declarar que vai partir e a boa donzela não tem outro remédio senão procurar a morte no último acto./Não havia nesta composição nada que eu não pudesse desenvolver realistamente a partir da minha própria experiência. Eu próprio ando fazendo o meu périplo, também em perigo de despertar afeições que, não tendo necessariamente um fim trágico, poderão ser bastante dolorosas, perigosas e perniciosas; (...)». No camarote do barco que o leva de regresso a Nápoles, e numa situação de naufrágio iminente, Goethe diz ter visto claramente diante de si uma gravura da Bíblia representando o lago Tiberíades, da autoria de um artista famoso do século XVII. Não duvido de que Goethe teria retirado supremo prazer da ideia de perder a vida em pleno êxtase estético.
No meio de apontamentos de viagem frequentemente corriqueiros e descoloridos, e de meditações artísticas carentes de originalidade, as abundantes descrições de cariz geológico e mineralógico acabam por proporcionar algum repouso ao leitor, sobretudo a leigos como eu, pouco preocupados com a sua exactidão ou plausibilidade.
(*) J.W. Goethe, "Viagem a Itália", Tradução, Prefácio e Notas de João Barrento, Relógio d'Água, Vol. 6 das "Obras Escolhidas".
domingo, janeiro 28, 2007
AS IDADES DA INOCÊNCIA:
Le cinéma a entrepris d'écrire ce dernier chapitre de l'histoire du monde. Le cinéma est l'innocence qui se sait perdue, la grâce qui se sait retrouvée, lorsque du moins ses marionnettes ne font pas de manières. Il permet à l'artiste cet «autre accès» que recherchait Kleist, puisque «le Paradis est verrouillé et le chérubin est derrière nous; il nous faut faire tout le tour du monde pour voir s'il n'y a pas peut-être quelque part derrière un autre accès».
(Hélène Frappat, in "Jacques Rivette, secret compris", ed. Les Cahiers du Cinéma)
Perfeitamente de acordo. No caso de Rivette, penso que em nenhum lugar isso é mais evidente do que em "Haut Bas Fragile", filme onde da impossibilidade da inocência brota uma ligeireza que supera essa própria inocência, primordial e inatingível. Uma ligeireza trabalhada, que nunca se poderia confundir com a espontaneidade de uma bailarina de musical americano dos anos quarenta. Uma leveza ponderada, supremamente consciente da força da gravidade e das limitações do corpo, por isso mesmo mais radicalmente próxima do sublime.
segunda-feira, janeiro 22, 2007
LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Local: linha verde do metropolitano. Um jovem folheava a antologia de Montale da Assírio & Alvim. Abriu-a no poema "Voz que Vem com os Galeirões" ("Voce Giunta con le Folaghe"). Possam os leitores de Montale proliferar pela rede do metropolitano, até suplantarem em número os não-leitores de Montale.
quinta-feira, janeiro 18, 2007
CINEMA: Em Julho de 1958, em Paris, Jacques Rivette, crítico de cinema dos "Cahiers du Cinéma", começa a rodar com a sua equipa "Paris Nous Appartient". O argumento tinha sido escrito por Rivette e Jean Gruault, nos cafés do bairro da Étoile. As condições de rodagem foram épicas, roçando a insanidade. Não havia produtor, mal havia dinheiro para a película. As oito semanas de rodagem inicialmente previstas foram rapidamente ultrapassadas. Sem a insistência do operador de imagem Charles Bitsch e da "dialogue coach" Suzanne Schiffman (outras duas figuras da Nouvelle Vague) para que Rivette efectuasse cortes no argumento, o filme correria o risco de durar quatro ou seis horas. Chegaram a rodar-se cenas que, no filme, se sucedem a outras rodadas um ano antes.
Já em 1959, após o fim das filmagens, só o sucesso de "Les Cousins" e "Les Quatre Cents Coups", no festival de Cannes, permitem desbloquear a situação: Chabrol e Truffaut tornam-se co-produtores, e financiam a montagem e a pós-produção. A estreia só ocorrerá em Dezembro de 1961, aliás sem qualquer sucesso junto do público.
A propósito deste filme escreveu Michel Delahaye, nos "Cahiers": «"Paris Nous Appartient" fait partie de ces œuvres qui doivent porter trace en elles des risques qu'elles ont couru et continuer de vivre dans le risque».
Uma das características que atravessa a obra de Rivette, dos anos 50 até hoje, é o talento para tornar palpável e física a intriga e a conspiração, paradoxalmente através de um processo de aparente abstracção da própria intriga e da própria conspiração. Tudo isso existe já (e como!...) em "Paris Nous Appartient". Porém, neste caso, apetece dizer que a principal conspiração foi levar a cabo a feitura do próprio filme, com um desplante que se diria ser apanágio dos jovens, se Rivette não continuasse a evidenciá-lo ainda hoje.
Há também o teatro, já então: "Péricles", de Shakespeare. E há Paris, sempre Paris, obsessivamente Paris, tão continuamente como o próprio tempo.
Este filme pode ser visto na Cinemateca, no sábado, às 19 horas.
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