sexta-feira, março 09, 2007
CINEMA:
E ainda uma outra coisa: falar de um filme implica, no todo ou em parte, falar da sua, chamemos-lhe assim, "representação do mundo", o que poderá implicar ou convocar aspectos mais ou menos incipientemente relacionados com a sociologia, mas não muda o essencial e o essencial é que, até prova em contrário, a "representação do mundo" é um problema eminentemente cinematográfico. (Luís Miguel Oliveira)
Cem por cento de acordo. Iria até mais longe. Todo o filme pode ser visto sob um ângulo sociológico, assim como todo o filme pode ser visto sob um ângulo político (ainda que não necessariamente num sentido estrito, digamos "costa-gavrasiano" ou "loachiano" do termo). Ao concretizar uma visão do mundo, um filme implica uma atitude perante o meio humano e as suas componentes (pessoas, afectos, tempo, matéria, valores) que é da ordem do político. O que me exaspera não é que se façam leituras políticas a partir de um qualquer filme, mas sim o grau de indigência e de comodismo de que essas leituras, na grande maioria dos casos, se revestem. Nestes casos, com excessiva frequência, o crítico, com mais ou menos divagações e cambalhotas estilísticas pelo meio, pouco mais faz do que pronunciar-se sobre a eficácia e boa fé com que o realizador logrou transmitir a sua mensagem. Infelizmente, a eficácia e a boa fé são questionadas de forma alheia a qualquer critério do foro cinematográfico. Ou seja, o filme é avaliado segundo as suas vertentes de excelência artística e de validade ética, mas raramente enquanto filme. Se exceptuarmos a referência às interpretações e a aspectos técnicos avulsos (música, fotografia), grande parte daquilo que se escreve sobre cinema nos jornais portugueses poderia ser escrito acerca de um livro ou de uma peça.
Não faço ideia se isto contribui para esclarecer alguma coisa ou não, mas gostava de fechar a loja de Babel e das suas discussões colaterais. Ninguém me obrigou e se me queixo de alguém é de mim, mas acho que nunca perdi tanto tempo com um filme que, para o dizer curto e grosso, não me interessa em nada e por nada. (Luís Miguel Oliveira)
"Babel" não merece que sobre ele se funde um debate destes? Provavelmente, não. Estas questões são infinitamente mais importantes do que este filme. Ultrapassam-no e sobreviver-lhe-ão. Porém, com certeza não preciso recordar que, na história do cinema, não escasseiam exemplos de querelas e intervenções críticas influentes desencadeadas por filmes menores. De entre esses exemplos, destaco obviamente o artigo "De l'Abjection", de Jacques Rivette ("Cahiers du Cinéma", Junho de 1961), a propósito de "Kapo", de Gillo Pontecorvo.
Para finalizar: não o disse na altura por relutância em personalizar, e por achar desnecessário, mas Luís Miguel Oliveira, assim como Mário Jorge Torres, Vasco Câmara e João Lopes são, de entre os críticos de cinema que escrevem regularmente na imprensa portuguesa, aqueles que mais admiro. Fosse esta a bitola média da crítica portuguesa e o meu agastamento não se faria ouvir com tanta regularidade.
terça-feira, março 06, 2007
DO CONTEÚDO LÍRICO DO MOMENTO MAGNÉTICO NUCLEAR: Por razões profissionais, dedico um interesse muito grande à Ressonância Magnética Funcional, e é sempre com curiosidade que avalio a maneira como estudos sobre a função cerebral com esta técnica são relatados ou mencionados na imprensa generalista, ou até nos blogs... Em muitos casos, a falta de enquadramento contextual destas imagens de cérebros com lindas manchas coloridas assinalando as regiões activadas deixa-me desconsolado.

Porém, devo reconhecer que a concisão e nível de linguagem exigíveis numa secção de divulgação científica para o grande público não se compadecem com aprofundamentos excessivos.
O que eu nunca teria esperado era ler uma menção a esta técnica na obra de um poeta português contemporâneo:
Ele e ela são corpos músicos
e segundo o olhar dela é ele quem escreve. Ambos
sabem que estão num filme; que são uma imagem
de cinema. Uma imagem inexplicável guardada no cérebro
de alguém: uma ressonância magnética alucinou-a lá.
(Manuel Gusmão, in "Migrações do Fogo", Caminho.)
RECORRENTE FRUSTRAÇÃO CINÉFILA:
"Il Caimano", de Nanni Moretti...

...e "Manderlay", de Lars von Trier.

Dois filmes cujas estreias aguardo há meses, sucessivamente adiadas em nome de critérios que nem me apetece tentar desvendar. Será o Natal, serão os óscares, serão considerações de ordem astrológica, estratégias impenetráveis sustentadas pela aplicação de algoritmos de transcendente complexidade, envolvendo redes neuronais, lógica de Bayes e teoria do caos?
A distribuição de cinema em Portugal parece desligada daquela que se esperaria ser a sua função primordial: antecipar e servir os interesses da sua clientela, ou seja os espectadores de cinema. Em vez disso, deixa-se reger por duvidosas lógicas de mercado, preterindo produtos com impacto potencial elevado (Von Trier e Moretti são dois realizadores de enorme prestígio, com numerosas obras estreadas e apreciadas entre nós) em favor de títulos obscuros, cuja fugaz e pálida passagem pelas salas não deixa o menor rasto.
A contragosto, sou forçado a resignar-me: o futuro da distribuição de cinema deverá passar cada vez mais pelo DVD e pela Internet, e apenas secundariamente pelas salas, dominadas pela hegemonia previsível dos blockbusters. A excepção poderão ser os festivais e cinematecas, cuja adesão me parece em crescendo (ainda ontem, sala cheia na Barata Salgueiro para ver "Stromboli", de Rossellini).
domingo, março 04, 2007
UM REGRESSO DE SAUDAR: Em tempos, fiz constar neste espaço a expressão da minha lástima pelo fim do diário "A Capital". O meu desgosto prendia-se, essencialmente, com o fim da página semanal de xadrez mantida por Luís Santos. Não posso, pois, deixar de manifestar profundo agrado pelo regresso de Luís Santos à imprensa nacional, nas páginas do diário gratuito "Diário Desportivo". Às terças, como nos bons velhos tempos (mas nos restantes dias da semana há estudos e problemas para entreter o aficionado). O figurino mantém-se: actualidade nacional e internacional, e partidas comentadas.
Só é de lamentar a pouco eficiente distribuição deste jornal gratuito. Passo todos os dias pela estação de metro do Campo Grande, provavelmente um dos pontos mais concorridos de toda a cidade de Lisboa, e é raro conseguir deitar a mão a um "Diário Desportivo". A minha frustração atingiria níveis incompatíveis com a minha condição de pessoa moderada e afável, se não se desse o caso de Luís Santos publicar regularmente os conteúdos das suas rubricas na sua página.
Numa das últimas terças-feiras, o xadrez teve, inclusivamente, direito a chamada de primeira página, com fotografia do grande-mestre arménio Vladimir Akopian, vencedor isolado do forte open de Gibraltar (onde também se destacou a portuguesa Margarida Coimbra, com norma de mestre internacional feminina). Pergunto-me se alguma vez Akopian chegou a saber ter sido assunto de capa num jornal português de grande tiragem. Não seria algo de facilmente prognosticável, mas é também para isto que serve a lei das probabilidades: namoriscar com o inverosímil, e injectar um pouco de alegria neste mundo previsível e grisalho.
JÁ CÁ CANTA:

"Close-Up", de Abbas Kiarostami. Um dos filmes da minha vida. Disponível na excelente colecção de DVDs da Midas Filmes.

"Close-Up", de Abbas Kiarostami. Um dos filmes da minha vida. Disponível na excelente colecção de DVDs da Midas Filmes.
quinta-feira, março 01, 2007
OS ANOS: Este blog faz hoje 4 anos. Não existe nisso especial mérito. A translação terrestre e a seta do tempo são os únicos que merecem felicitações, pela sua esplêndida e infalível constância. Ao longo deste último ano, reforçou-se a minha convicção de que o 1bsk não possui nenhuma "razão de ser" que lhe servisse de alicerce ou de impulso dinâmico, e que está condenado a ser aquilo que é: não mais do que a soma das palavras que acolhe. Insistindo nas definições pela negativa, este blog não é, certamente, um "projecto". Assisti já a numerosos blogs que se extinguiram quando o projecto que os sustentava se esvaziou. Trata-se de um conceito que me causa estranheza. Não existe nenhum princípio ou intenção situados num qualquer plano superior ao blog, que lhe confiram sentido ou propósito, e do qual dependa a sua sobrevivência. O 1bsk perdurará, não contra ventos e marés, mas como banal consequência do simples facto de existir.
Para além da cor verde, o outro aspecto que me parece indissociável deste blog é a sua condição de objecto gratuito e afuncional. Com efeito, para além de ter mudado a minha vida, ele nunca fez nada por mim.
quarta-feira, fevereiro 28, 2007
CINEMA: O filme "Babel" deu origem a mais um daqueles pitorescos debates sobre o papel da crítica que, de quando em vez, titilam agradavelmente o pequenino meio cinéfilo português. Desta feita, até teve direito a dossier especial no "Público". Pessoalmente, aquilo que achei mais descoroçoante na reacção crítica a esta obra de Alejandro González Iñárritu não foi o quase unâmime tom de reprovação, mas sim o facto de quase todos os pareceres negativos se basearem em critérios extra-cinematográficos. "Babel" foi acusado de quase tudo: de anti-americanismo (primário, como é óbvio), de simplismo, de não ser mais do que um panfleto anti-globalização, de humanismo serôdio. Infelizmente, escassos foram os críticos que não se ficaram por uma empobrecedora leitura sociológica. Quase nenhuma das apreciações que li continha sequer um esboço de uma explicação cabal sobre eventuais insuficiências que o condicionassem enquanto obra de cinema.
Na minha opinião, as acusações formuladas contra "Babel", em particular as de anti-americanismo, revelam mais sobre fantasmas da sociedade contemporânea, e sobre o absurdo grau de hiper-sensibilidade dessa mesma sociedade a certas questões, do que sobre o filme em si. Além disso, parece-me que, sem ser um grande filme, "Babel" possui argumentos mais do que suficientes para o resgatar à condição de nulidade irrisória a que grande parte da crítica achou por bem remetê-lo. Gostei, em particular, da forma como o realizador geriu os pontos de fricção entre os episódios mexicano e marroquino, e da maneira como soube colocar no mesmo plano o acaso e a intenção das personagens, ambos reduzidos à mera condição de servidores do enredo todo-poderoso. Houve coisas de que gostei e outras de que não gostei. Em todo o caso, entre as minhas principais preocupações, durante e após o visionamento do filme, nunca esteve a de averiguar se "Babel" pretendia "representar" ou "denunciar" isto ou aquilo, nem se o fazia mais ou menos canhestramente.
Este caso teve, à falta de outros, o mérito de pôr o dedo na ferida: uma das principais limitações da crítica de cinema portuguesa é tratar um filme como se fosse tudo menos um filme, ignorar as especificidades do cinema, entregar-se com demasiada prontidão a exercícios superficiais de análise política e sociológica. Isto sucede por diversas razões. Por desleixo, certamente; por incapacidade de ver para lá de agendazinhas pessoais míopes e confinadas, sem dúvida; acima de tudo, como reflexo puro e simples da falta de enraizamento, entre nós, de uma cultura de análise do objecto cinematográfico.
(Provocação final: se "Babel" tivesse ganho o óscar de melhor filme, seria muito mais merecido do que o atribuído, há dois anos, a "Million Dollar Baby", esse melodramático deserto de ideias assinado por aquele a quem o dúbio título de "o último dos clássicos" tem vindo a conferir um inusitado estado de graça.)
terça-feira, fevereiro 27, 2007
CONSPIRAÇÃO COM TEJO AO FUNDO:
(Texto publicado no suplemento "Ípsilon" do jornal "Público" do passado dia 16/2. Com alguns quadros para ficar mais alegre.)
Há dias, assisti a uma sessão onde o crítico e historiador de arte Delfim Sardo abordou a possibilidade de emissão de juízos de valor perante uma obra de arte. Embora este assunto esteja longe de me deixar indiferente, torna-se para mim mais sedutor e urgente especular sobre algo que precede a questão da valoração qualitativa: refiro-me à simples presença da obra, à evidência crua e incontornável que a acompanha. A despudorada diferença entre a sua existência e o nada confere-lhe um estatuto que implica ascendente e poder sobre as coisas do mundo. Manejar placidamente a obra de arte como uma descartável ferramenta de entretenimento pode, na aparência, mitigar esse poder, mas não é disso que eu falo: falo de olhar com lisura e disponibilidade, falo de ouvir e entender.
(Luc Tuymans, "Slide #2", 2002)
A obra de arte existe na sociedade contemporânea essencialmente como mercadoria (estatuto a que, só por si, não associo carga pejorativa). Oferece-se à atenção do público mediada pelo jornalismo de cariz mais ou menos marcadamente crítico, e sempre associada a uma ocasião (lançamento de livro, inauguração de exposição, estreia de cinema). Tal acarreta o risco de nos desabituarmos de pensar na obra de arte desligada da sua relevância mediática, armada apenas daquilo que tem de perene. E, contudo, um quadro existe sem intermitências; a sua temível capacidade de transformar vidas pode desencadear-se a qualquer instante. Que fazer, perante esse resquício material de um trabalho subtraído à relevância banal do quotidiano? Pode-se passar adiante. É forçoso passar adiante. Mas a obra de arte dá-se esplendidamente bem com a efemeridade da atenção alheia. Tem tudo a seu favor, porque, como num escrínio, guarda dentro de si uma porção daquilo que, mais tarde ou mais cedo, alguém (com raiva e humildade) se forçará a vir buscar para se completar como ser humano. Tudo a seu favor: até mesmo a possibilidade de, à revelia de todos os circuitos de legitimação imagináveis, de todos os discursos teóricos, se auto-proclamar como arte, adquirindo, desde logo, esse poder que possui algo de tenebroso.
(Francis Bacon, "Head VI", 1949)
Perante uma obra de arte, somos todos cúmplices e companheiros de malogro. Unidos no pavor e no assombro, na certeza de ter todos os deveres e nenhum direito. (Sobretudo, nunca o direito de passar “um momento agradável” ou de “esquecer os seus problemas”.) O próprio direito a julgar valorativamente não passa de uma concessão, confinada ao estreitíssimo âmbito dos padrões estéticos que a sociedade fugazmente sanciona. À parte isso, o único julgamento possível, de natureza estritamente individual, consistiria em aferir da adequação da obra de arte como instrumento de salvação.
Um filme de Bresson presenciado, um poema de Yeats murmurado, um quadro de Cézanne examinado, são momentos desta conspiração sem fim último, sem intenção oculta a não ser a de perdurar, iludir a sua fragilidade.
Irmandade discreta e anónima, sem objectivos de tomada de poder nem de edificação da sociedade. Não trocam olhares dissimulados nos lugares públicos. Não se reconhecem graças a um qualquer aperto de mão maçónico. Cruzam-se, sem erguer a cabeça, nas ruas íngremes da cidade de Lisboa.
(Salpicam o rosto com água do bebedouro público do Jardim da Estrela, o rosto onde bate o sol feroz do fim da primavera.)
(Vilhelm Hammershøi, "Weisse Türen/Offene Türen", 1905)
terça-feira, fevereiro 20, 2007
QUEM PERDE GANHA: Na sua última crónica de segunda-feira, João César das Neves começa por admitir que o resultado do referendo sobre a despenalização da IVG foi uma enorme derrota para a Igreja católica. Como seria de esperar, porém, essa constatação não é senão um ponto de partida para mais um dos canhestros números de prestidigitação retórica com que este distinto economista nos costuma brindar:
«A Igreja está habituada a perder. Aliás a vitória de há oito anos é que foi uma extraordinária excepção numa longa sequência de importantes baixas. São tantas as derrotas históricas que surpreende até como a Igreja consegue sobreviver e manter tanta influência. Mas não é apenas desse modo que a derrota é normal. Trata-se de um elemento básico e inato. O cristianismo é a religião da cruz e dos mártires. O seu Deus foi flagelado, coroado de espinhos, pendurado num madeiro até morrer. A fé cristã é o reino dos pobres e dos humildes.»
Não me parece que, na história recente (digamos, para simplificar, no último século) as vitórias da Igreja, intra e extra-muros, tenham sido tão raras como isso. Lembro-me, por exemplo, do tratado de Latrão, da Concordata de 1940 com o Estado Novo, ou, mais próximo de nós, e muito a propósito, da decisão de submeter a despenalização da IVG a referendo, em vez de, como se impunha, resolver a questão por via parlamentar. Mas deixemos a contabilidade para os contabilistas. Uma coisa que JCN omite é que essa "longa sequência de importantes baixas" é uma consequência, fatal, deste facto muito simples: durante séculos, a Igreja gozou, em Portugal como em muitos outros países, de uma situação de privilégio e de hegemonia que hoje nos custa a conceber. Quando essa preponderância, e sobretudo a promiscuidade com o poder secular a ela associada, atingiram um zénite insustentável, teve início um declínio que se prolonga até hoje, e que está para durar. Para aqueles que têm tudo ou quase tudo, as probabilidades de perda, de derrota, de regressão, são forçosamente maiores do que as de conquista, vitória e progresso.
Onde estamos definitivamente em desacordo é no seguinte:
«O pior é que, quando a Igreja perde, quase ninguém ganha. A Igreja está preparada para perder, mas Portugal perde mais quando ela perde.»
Basta pensar que a Igreja esteve, de forma sistemática e encarniçada, em Portugal e algures, contra o livre pensamento, contra a democracia, contra os direitos das mulheres, contra o divórcio, contra o acesso à contracepção e à educação sexual, para pôr em causa esta ousada hipótese de JCN. Eu atrever-me-ia até a aventar que a história recente está repleta de derrotas da Igreja que foram também excelentes notícias para a sociedade portuguesa.
Como os primeiros parágrafos da sua crónica poderiam ter deixado no ar um vago aroma de razoabilidade e moderação, JCN apressa-se a dissipar essa desafortunada impressão, com pepitas como:
«O aborto a pedido e pago pelo Sistema Nacional de Saúde assolará sobretudo as classes mais pobres, onde a tentação será mais forte. Paradoxalmente, como noutros países, isso minará a base eleitoral dos partidos de Esquerda. Haverá menos crianças a correr nos bairros de lata; menos crianças a correr nos infantários. Haverá menos crianças em todo o lado. Haverá menos portugueses.»
Para quê tentar contrariar isto com estatísticas e argumentos? A vida é breve. Fiquemo-nos, sem mais comentários, com esta perturbante imagem de um bairro de lata deserto, sem vida, sem correrias de crianças, espelho fiel de um país em pleno descalabro moral.
UM CASO SÉRIO: Os cinemas Millenium Alvaláxia são um caso sério de incompetência e falta de respeito pelo cliente. Sucedeu-me hoje, pela segunda vez em poucos dias, ver-me impossibilitado de assistir ao filme que pretendia ("Scoop", de Woody Allen), devido a um erro na informação do horário da sessão, quer no jornal quer nos ecrãs junto das bilheteiras. Estas salas são as que se encontram mais próximas da minha casa, mas sinto-me cada vez mais relutante em visitá-las: planear uma tarde ou noite de cinema no Alvaláxia tem-se revelado um exercício com elevada componente de aleatoriedade, e não me apetece ver mais uma vez os meus planos arruinados devido a negligência grosseira por parte do prestador de serviços.
Nem tudo foram agruras: tive assim, pela primeira vez na minha vida, oportunidade de rabiscar as páginas de um livro de reclamações. Foi um dia mau para cinefilia, mas bom para a cidadania.
Acrescente-se a isto as bilheteiras onde também se vendem "consumíveis" (leia-se pipocas, coca-cola e outros inimigos da sétima arte), e funcionários que entram na sala a meio da sessão e ficam cinco minutos a contemplar a plateia, de braços cruzados (aconteceu-me no filme "Little Children"), e começamos a ter um caso a favor do boicote. Só as salas e o som, de muito boa qualidade, fazem pender a balança para o lado contrário.
BEGIN BEGAN BEGUN: Acabo de assistir, na RTP1, a um documentário sobre José Mourinho. Constatei uma verdade melancólica, mas que estava na altura de o nosso país enfrentar, fazendo das tripas coração: mesmo depois de mais de dois anos em Londres, Mourinho não fala tão bem inglês como Vale e Azevedo.
domingo, fevereiro 18, 2007
K AO KUADRADO:
Num registo diarístico em que discorre sobre o processo de composição de uma novela, Kafka afirma que «...a novela, no caso de ser válida, contém em si própria a sua organização completa, mesmo quando ainda não se desenvolveu totalmente...», afirmação que poderá entender-se como sendo a própria história começada que, levando consigo o seu autor, continuasse a escrever-se a si mesma.
(Maria Marques Chaves de Almeida, in "Perspectivas e Leituras do Universo Kafkiano", organização e introdução de Gonçalo Vilas-Boas e Zaida Rocha Ferreira, Apáginastantas, 1984.)
A respeito desta citação, a autora insere a seguinte nota de rodapé:
Esta afirmação de Kafka não pode deixar de comparar-se com as conhecidas palavras de Heinrich von Kleist: «die allmähliche Verfertigung der Geschichte beim Schreiben» (a progressiva construção da narrativa durante o acto da escrita).
Desconheço a origem destas palavras, quase idênticas ao título de um ensaio do próprio Kleist: «Über die allmähliche Verfertigung der Gedanken beim Reden» (1807-1808). Ou seja, a progressiva construção das ideias pela palavra. Por sinal, este ensaio tem vindo a ser publicado na íntegra, e em fascículos, no blog Cartas do Meu Moinho.
Era este um dos sonhos primordiais do 1bsk: que a sua razão de ser surgisse de forma síncrona com a sua própria elaboração. Formosos sonhos. Grandiosos desígnios. Em vez disso, temos tido bolos de arroz, Morangos com Açúcar e gatas pianistas.
quarta-feira, fevereiro 14, 2007
JUNK JUNK SCIENCE: O jcd descobriu que o top 10 de 2006 elaborado por um site que se auto-propõe denunciar, com todo o brio, abusos e falácias pseudo-científicas era encimado pelo documentário "An Inconvenient Truth", de Al Gore. Naturalmente, apressou-se a partilhar com os seus leitores tão delicioso veredicto. Um exame, ainda que superficial, teria permitido constatar que o site em questão, junkscience.com, longe de ser um imparcial paladino da ética científica, visa exclusivamente, de forma sistemática e tendenciosa, denegrir tudo o que cheire a agenda liberal: aquecimento global, protocolo de Kyoto, pesquisa em células estaminais, restrições contra o tabagismo, nada escapa ao seu fogo cruzado.
Para além disso, uns escassos minutos de pesquisa em sites bem conhecidos como o Skeptic's Dictionary, a Wikipedia e o Sourcewatch teriam sido suficientes para perceber que o junkscience.com é essencialmente obra de um certo Steven J. Milloy, colunista da FoxNews associado a think tanks conservadores, e a quem está associado um já longo historial de violações éticas, facciosismo e ocultação de conflitos de interesse.
A Internet é uma grande câmara de ecos, onde ressoam os rumores de batalhas longínquas. Inspirar-se em guerras alheias para alimentar guerrilhas locais revela, no mínimo, provincianismo. E são muitas as maneiras frutuosas e gratificantes de ocupar o tempo do dia e que não implicam reproduzir factóides colhidos aqui e ali, sem um q.b. de espírito crítico, e com o inevitável sorriso ufano estampado no rosto.
(Atenção: o autor do post é o jcd, e não o João Miranda, como eu tinha escrito inicialmente. As minhas desculpas a ambos.)
FOREVER CHANGES (*): Mudei o meu blog para a conta Google, e eis que os posts foram invadidos por caracteres disparatados, pondo em causa (e com que dramatismo!) a sua legibilidade. Um simples ajuste nas opções do meu browser pôs cobro ao problema, mas angustia-me a possibilidade de outros leitores virem a sofrer da mesma vicissitude. Digam de vossa justiça, vilipendiem, vociferem. Todos os cidadãos têm direito inalienável à sua dose diária de 1bsk.
(*) Singela homenagem a um álbum fabuloso dos Love de Arthur Lee.
segunda-feira, fevereiro 12, 2007
GEMINAÇÃO:

O Umblogsobrekleist partilha o seu aniversário com o do realizador Jacques Rivette. Rivette nasceu a 1 de Março de 1928. O 1bsk nasceu 75 anos mais tarde, a 1 de Março de 2003. Não se tratou de premeditação, mas poderia muito bem tê-lo sido. Jacques Rivette é um dos quatro ou cinco criadores, de todos os campos artísticos, que mais me influenciou e que mais admiro. Mal posso esperar pelo seu novo filme. Gostaria de estar no festival de Berlim, na fila para a sessão, com um copo grande de café a escaldar entre os dedos gelados. Adoro fotografias de rodagens. Esta é do filme "Out One". Rivette é o homem mascarado que olha para a sua imagem reflectida num espelho.

O Umblogsobrekleist partilha o seu aniversário com o do realizador Jacques Rivette. Rivette nasceu a 1 de Março de 1928. O 1bsk nasceu 75 anos mais tarde, a 1 de Março de 2003. Não se tratou de premeditação, mas poderia muito bem tê-lo sido. Jacques Rivette é um dos quatro ou cinco criadores, de todos os campos artísticos, que mais me influenciou e que mais admiro. Mal posso esperar pelo seu novo filme. Gostaria de estar no festival de Berlim, na fila para a sessão, com um copo grande de café a escaldar entre os dedos gelados. Adoro fotografias de rodagens. Esta é do filme "Out One". Rivette é o homem mascarado que olha para a sua imagem reflectida num espelho.
RIDENDO CASTIGAT: Os "Guignols de l'Info" (equivalente francês da "Contra-Informação") foram, em tempos, acusados de terem pesado decisivamente na eleição de Jacques Chirac nas presidenciais de 1995 (ver, por exemplo, aqui e aqui).
Parece-me pouco crível que a (muito merecidamente) já mítica imitação que Ricardo Araújo Pereira fez de Marcelo Rebelo de Sousa tenha tido influência palpável no resultado do referendo do domingo passado. Porém, não me admiraria que esse devastador momento de humor tenha ajudado a mudar o sentido de voto de, pelo menos, umas quantas dezenas de almas, por esse Portugal fora. E não vejo nisso nenhum crime de lesa-democracia: uma sátira inteligente e certeira pode ser tão iluminadora como o mais lúcido comentário político.
OS ÚLTIMOS CARTUCHOS: De acordo com um horroroso folheto de propaganda ao "Não" que veio parar à minha caixa do correio, sexta-feira passada, podem-se detectar ondas cerebrais num feto de 6 semanas, por meio de electroencefalografia.
Devemos congratular-nos por tudo ter acabado. Com mais meia dúzia de dias de campanha, acabariam por nos tentar convencer de que um óvulo fecundado já está em condições de tirar a carta de pesados.
Subscrever:
Mensagens (Atom)

