terça-feira, fevereiro 20, 2007

QUEM PERDE GANHA: Na sua última crónica de segunda-feira, João César das Neves começa por admitir que o resultado do referendo sobre a despenalização da IVG foi uma enorme derrota para a Igreja católica. Como seria de esperar, porém, essa constatação não é senão um ponto de partida para mais um dos canhestros números de prestidigitação retórica com que este distinto economista nos costuma brindar: «A Igreja está habituada a perder. Aliás a vitória de há oito anos é que foi uma extraordinária excepção numa longa sequência de importantes baixas. São tantas as derrotas históricas que surpreende até como a Igreja consegue sobreviver e manter tanta influência. Mas não é apenas desse modo que a derrota é normal. Trata-se de um elemento básico e inato. O cristianismo é a religião da cruz e dos mártires. O seu Deus foi flagelado, coroado de espinhos, pendurado num madeiro até morrer. A fé cristã é o reino dos pobres e dos humildes.» Não me parece que, na história recente (digamos, para simplificar, no último século) as vitórias da Igreja, intra e extra-muros, tenham sido tão raras como isso. Lembro-me, por exemplo, do tratado de Latrão, da Concordata de 1940 com o Estado Novo, ou, mais próximo de nós, e muito a propósito, da decisão de submeter a despenalização da IVG a referendo, em vez de, como se impunha, resolver a questão por via parlamentar. Mas deixemos a contabilidade para os contabilistas. Uma coisa que JCN omite é que essa "longa sequência de importantes baixas" é uma consequência, fatal, deste facto muito simples: durante séculos, a Igreja gozou, em Portugal como em muitos outros países, de uma situação de privilégio e de hegemonia que hoje nos custa a conceber. Quando essa preponderância, e sobretudo a promiscuidade com o poder secular a ela associada, atingiram um zénite insustentável, teve início um declínio que se prolonga até hoje, e que está para durar. Para aqueles que têm tudo ou quase tudo, as probabilidades de perda, de derrota, de regressão, são forçosamente maiores do que as de conquista, vitória e progresso. Onde estamos definitivamente em desacordo é no seguinte: «O pior é que, quando a Igreja perde, quase ninguém ganha. A Igreja está preparada para perder, mas Portugal perde mais quando ela perde.» Basta pensar que a Igreja esteve, de forma sistemática e encarniçada, em Portugal e algures, contra o livre pensamento, contra a democracia, contra os direitos das mulheres, contra o divórcio, contra o acesso à contracepção e à educação sexual, para pôr em causa esta ousada hipótese de JCN. Eu atrever-me-ia até a aventar que a história recente está repleta de derrotas da Igreja que foram também excelentes notícias para a sociedade portuguesa. Como os primeiros parágrafos da sua crónica poderiam ter deixado no ar um vago aroma de razoabilidade e moderação, JCN apressa-se a dissipar essa desafortunada impressão, com pepitas como: «O aborto a pedido e pago pelo Sistema Nacional de Saúde assolará sobretudo as classes mais pobres, onde a tentação será mais forte. Paradoxalmente, como noutros países, isso minará a base eleitoral dos partidos de Esquerda. Haverá menos crianças a correr nos bairros de lata; menos crianças a correr nos infantários. Haverá menos crianças em todo o lado. Haverá menos portugueses.» Para quê tentar contrariar isto com estatísticas e argumentos? A vida é breve. Fiquemo-nos, sem mais comentários, com esta perturbante imagem de um bairro de lata deserto, sem vida, sem correrias de crianças, espelho fiel de um país em pleno descalabro moral.
UM CASO SÉRIO: Os cinemas Millenium Alvaláxia são um caso sério de incompetência e falta de respeito pelo cliente. Sucedeu-me hoje, pela segunda vez em poucos dias, ver-me impossibilitado de assistir ao filme que pretendia ("Scoop", de Woody Allen), devido a um erro na informação do horário da sessão, quer no jornal quer nos ecrãs junto das bilheteiras. Estas salas são as que se encontram mais próximas da minha casa, mas sinto-me cada vez mais relutante em visitá-las: planear uma tarde ou noite de cinema no Alvaláxia tem-se revelado um exercício com elevada componente de aleatoriedade, e não me apetece ver mais uma vez os meus planos arruinados devido a negligência grosseira por parte do prestador de serviços. Nem tudo foram agruras: tive assim, pela primeira vez na minha vida, oportunidade de rabiscar as páginas de um livro de reclamações. Foi um dia mau para cinefilia, mas bom para a cidadania. Acrescente-se a isto as bilheteiras onde também se vendem "consumíveis" (leia-se pipocas, coca-cola e outros inimigos da sétima arte), e funcionários que entram na sala a meio da sessão e ficam cinco minutos a contemplar a plateia, de braços cruzados (aconteceu-me no filme "Little Children"), e começamos a ter um caso a favor do boicote. Só as salas e o som, de muito boa qualidade, fazem pender a balança para o lado contrário.
BEGIN BEGAN BEGUN: Acabo de assistir, na RTP1, a um documentário sobre José Mourinho. Constatei uma verdade melancólica, mas que estava na altura de o nosso país enfrentar, fazendo das tripas coração: mesmo depois de mais de dois anos em Londres, Mourinho não fala tão bem inglês como Vale e Azevedo.

domingo, fevereiro 18, 2007

KUNDMANNGASSE:




Eu estive ...






A casa que Wittgenstein projectou aloja agora a embaixada da Bulgária.


À ATENÇÃO DAS COMPANHIAS FARMACÊUTICAS: Sabem o que seria realmente formidável? Que certos medicamentos fossem comercializados com sabor a sardinha, peru e borrego. Por exemplo, o Clavamox.







A gratidão de milhões de donos de gatos derramar-se-ia sobre quem tomasse tão feliz medida.
K AO KUADRADO: Num registo diarístico em que discorre sobre o processo de composição de uma novela, Kafka afirma que «...a novela, no caso de ser válida, contém em si própria a sua organização completa, mesmo quando ainda não se desenvolveu totalmente...», afirmação que poderá entender-se como sendo a própria história começada que, levando consigo o seu autor, continuasse a escrever-se a si mesma. (Maria Marques Chaves de Almeida, in "Perspectivas e Leituras do Universo Kafkiano", organização e introdução de Gonçalo Vilas-Boas e Zaida Rocha Ferreira, Apáginastantas, 1984.) A respeito desta citação, a autora insere a seguinte nota de rodapé: Esta afirmação de Kafka não pode deixar de comparar-se com as conhecidas palavras de Heinrich von Kleist: «die allmähliche Verfertigung der Geschichte beim Schreiben» (a progressiva construção da narrativa durante o acto da escrita). Desconheço a origem destas palavras, quase idênticas ao título de um ensaio do próprio Kleist: «Über die allmähliche Verfertigung der Gedanken beim Reden» (1807-1808). Ou seja, a progressiva construção das ideias pela palavra. Por sinal, este ensaio tem vindo a ser publicado na íntegra, e em fascículos, no blog Cartas do Meu Moinho. Era este um dos sonhos primordiais do 1bsk: que a sua razão de ser surgisse de forma síncrona com a sua própria elaboração. Formosos sonhos. Grandiosos desígnios. Em vez disso, temos tido bolos de arroz, Morangos com Açúcar e gatas pianistas.

quarta-feira, fevereiro 14, 2007

JUNK JUNK SCIENCE: O jcd descobriu que o top 10 de 2006 elaborado por um site que se auto-propõe denunciar, com todo o brio, abusos e falácias pseudo-científicas era encimado pelo documentário "An Inconvenient Truth", de Al Gore. Naturalmente, apressou-se a partilhar com os seus leitores tão delicioso veredicto. Um exame, ainda que superficial, teria permitido constatar que o site em questão, junkscience.com, longe de ser um imparcial paladino da ética científica, visa exclusivamente, de forma sistemática e tendenciosa, denegrir tudo o que cheire a agenda liberal: aquecimento global, protocolo de Kyoto, pesquisa em células estaminais, restrições contra o tabagismo, nada escapa ao seu fogo cruzado. Para além disso, uns escassos minutos de pesquisa em sites bem conhecidos como o Skeptic's Dictionary, a Wikipedia e o Sourcewatch teriam sido suficientes para perceber que o junkscience.com é essencialmente obra de um certo Steven J. Milloy, colunista da FoxNews associado a think tanks conservadores, e a quem está associado um já longo historial de violações éticas, facciosismo e ocultação de conflitos de interesse. A Internet é uma grande câmara de ecos, onde ressoam os rumores de batalhas longínquas. Inspirar-se em guerras alheias para alimentar guerrilhas locais revela, no mínimo, provincianismo. E são muitas as maneiras frutuosas e gratificantes de ocupar o tempo do dia e que não implicam reproduzir factóides colhidos aqui e ali, sem um q.b. de espírito crítico, e com o inevitável sorriso ufano estampado no rosto. (Atenção: o autor do post é o jcd, e não o João Miranda, como eu tinha escrito inicialmente. As minhas desculpas a ambos.)
FOREVER CHANGES (*): Mudei o meu blog para a conta Google, e eis que os posts foram invadidos por caracteres disparatados, pondo em causa (e com que dramatismo!) a sua legibilidade. Um simples ajuste nas opções do meu browser pôs cobro ao problema, mas angustia-me a possibilidade de outros leitores virem a sofrer da mesma vicissitude. Digam de vossa justiça, vilipendiem, vociferem. Todos os cidadãos têm direito inalienável à sua dose diária de 1bsk. (*) Singela homenagem a um álbum fabuloso dos Love de Arthur Lee.

segunda-feira, fevereiro 12, 2007

GEMINAÇÃO:



O Umblogsobrekleist partilha o seu aniversário com o do realizador Jacques Rivette. Rivette nasceu a 1 de Março de 1928. O 1bsk nasceu 75 anos mais tarde, a 1 de Março de 2003. Não se tratou de premeditação, mas poderia muito bem tê-lo sido. Jacques Rivette é um dos quatro ou cinco criadores, de todos os campos artísticos, que mais me influenciou e que mais admiro. Mal posso esperar pelo seu novo filme. Gostaria de estar no festival de Berlim, na fila para a sessão, com um copo grande de café a escaldar entre os dedos gelados. Adoro fotografias de rodagens. Esta é do filme "Out One". Rivette é o homem mascarado que olha para a sua imagem reflectida num espelho.
RIDENDO CASTIGAT: Os "Guignols de l'Info" (equivalente francês da "Contra-Informação") foram, em tempos, acusados de terem pesado decisivamente na eleição de Jacques Chirac nas presidenciais de 1995 (ver, por exemplo, aqui e aqui). Parece-me pouco crível que a (muito merecidamente) já mítica imitação que Ricardo Araújo Pereira fez de Marcelo Rebelo de Sousa tenha tido influência palpável no resultado do referendo do domingo passado. Porém, não me admiraria que esse devastador momento de humor tenha ajudado a mudar o sentido de voto de, pelo menos, umas quantas dezenas de almas, por esse Portugal fora. E não vejo nisso nenhum crime de lesa-democracia: uma sátira inteligente e certeira pode ser tão iluminadora como o mais lúcido comentário político.
OS ÚLTIMOS CARTUCHOS: De acordo com um horroroso folheto de propaganda ao "Não" que veio parar à minha caixa do correio, sexta-feira passada, podem-se detectar ondas cerebrais num feto de 6 semanas, por meio de electroencefalografia. Devemos congratular-nos por tudo ter acabado. Com mais meia dúzia de dias de campanha, acabariam por nos tentar convencer de que um óvulo fecundado já está em condições de tirar a carta de pesados.

quarta-feira, fevereiro 07, 2007

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Sentada a uma mesa de café, na estação de metropolitano do Campo Grande, uma senhora lia "Pedro Páramo", de Juan Rulfo. Para quem conhece o lugar, era mesmo ao pé daquela loja de têxteis para o lar que pratica preços tão convidativos.
CIÊNCIA E MÁ FÉ: A acreditar na propaganda de alguns defensores do "Não", o feto, às dez semanas, já possui órgãos em pleno funcionamento, já diz "Papá" e "Mamã", já reage à música de Beethoven e já gatinha, sendo mesmo caso para nos perguntarmos se as restantes vinte e tal semanas de gestação não passam de um supérfluo capricho da Natureza. De entre tantas fantásticas alegações, uma que sempre me intrigou tem a ver com a existência de "actividade cerebral" (ou "ondas cerebrais"), registada por meio de electroencefalografia, às dez semanas ou até antes. Para melhor ilustrar a minha perplexidade, chamo a vossa atenção para esta figura: Isto é um dispositivo de aquisição de electroencefalografia (EEG). Uma rede de eléctrodos é colocada junto ao escalpe, e os potenciais eléctricos locais são registados para posterior processamento. Estes potenciais eléctricos reflectem a actividade dos neurónios corticais. Sucede que estes potenciais são de fraca intensidade (algumas dezenas de microvolt, em média), e que o registo é fortemente afectado pela dispersão eléctrica ocasionada pelas camadas de tecido que separam o cérebro do escalpe (meninges, osso, pele). Por maioria de razão, estas dificuldades acentuar-se-iam caso a intenção fosse registar o electroencefalograma do feto dentro do útero, devido à presença de camadas adicionais de tecido com diferentes condutividades eléctricas, para além da interferência provocada pelos potenciais cardíacos da mãe. Uma pesquisa simples permitiu-me esclarecer, pelo menos em parte, esta questão. Todas as referências a "EEG fetal" que encontrei referem-se: ou a registos obtidos em prematuros, ou a registos obtidos na sequência de abortos por cesariana. Como este último método caiu em desuso, e como os registos de prematuros dizem normalmente respeito a períodos de gestação superiores às 20 semanas, as referências bibliográficas citadas em apoio da ocorrência de ondas cerebrais antes das 10 semanas remetem para estudos realizados há várias décadas. Isso mesmo explica este notável artigo, que desmonta, de forma sistemática, a teia de citações científicas que têm servido de muleta aos adeptos da actividade cerebral prematura. Citar é fácil; citar bem e com honestidade é tarefa mais delicada. Este artigo relembra-nos que um nome e uma publicação não conferem, por artes mágicas, veracidade e consistência a uma afirmação. Infelizmente, poucas coisas no mundo são mais obstinadas do que os factóides: até há algumas horas atrás, no artigo "fetus" da Wikipedia lia-se: «Brain activity can be detected at around 54 days (eight weeks), and development of integrated brain functioning at 70 days (ten weeks).» Algumas revisões depois, esta frase foi substituída por uma versão mais conservadora: «Brain-stem activity has been detected 54 days after conception.» Na versão da página que está activa enquanto escrevo estas linhas, vai-se ainda menos longe: «While there has been some contention brain activity begins at ten weeks, researchers have yet to make a determination.» É ainda instrutivo dar uma olhadela no intrincado historial desta página, assim como nas inflamadas (e, obviamente, percorridas por linhas argumentação "pró-vida" e "pró-escolha") discussões que têm acompanhado estes recentes e vertiginosos esforços de edição. Claro está que este pomo da discórdia, não sendo académico, está longe de merecer uma atenção obsessiva: definir o início da vida por meio de algo de tão vago como "actividade cerebral" é, no mínimo, controverso. Os neurónios são, por natureza, células excitáveis, cujas flutuações de polaridade, ao nível das membranas podem ser detectados do exterior, sob a forma de potenciais eléctricos. Porém, a mera existência de um registo electroencefalográfico não é sinónimo de vida. As funções cerebrais superiores, e mesmo um "simples" estado de sono ou vigília, são caracterizados por padrões e ondas muito específicos e bem conhecidos. Mas claro que estas considerações são demasiado complexas para caberem num folheto de propaganda. De simples, a questão não tem nada. Para mal dos nossos pecados, simplificar de forma grosseira aquilo que é complexo é estratégia comum daqueles a quem a argumentação racional faz alergia. Por isso, da próxima vez que algum peremptório representante do movimento "Algarve pela Vida" ou "Caldas da Rainha Ocidental pela Vida" se pronunciar sobre o momento em que começa a vida humana, pergunte-lhe de onde provém a sua inabalável certeza. Mesmo num tempo em que a discussão serena e ponderada parece fora da ordem do dia, insistir na necessidade de sustentar afirmações levianas com factos concretos é um favor que se faz à comunidade.

quarta-feira, janeiro 31, 2007

NÃO TENHO NADA/MAS TENHO TENHO TUDO: Se os argumentistas da "Floribella" soubessem a facilidade com que expressões como "a minha cabeça é uma salada de frutas" podem induzir sonhos arcimboldianos, nos espectadores incautos, teriam mais cuidado com o que fazem brotar daquela boquinha tão mimosa.
O GÉNIO PASSEIA-SE: Ignoro se Goethe, quando redigia o diário da sua viagem a Itália (*), pensava na posteridade e nas sentenças que esta lhe haveria de reservar. Quer-me parecer que a obsessão com as opiniões dos seus contemporâneos pouco espaço deixaria livre para especulações sobre os vindouros. De Veneza, Goethe prometeu à amante Charlotte von Stein o envio do diário, fazendo-lhe contudo, ao mesmo tempo, a seguinte recomendação: «Se tu o fosses copiando, in-quarto mas com as folhas dobradas, mudasses o "tu" para "a senhora" e eliminasses as referências estritamente pessoais ou o que mais achares, quando eu regressasse teria pronto um exemplar que poderia corrigir, ordenando todo o conjunto!». Brincar em serviço era para os outros: o Grande Homem segregava literatura, com límpida premeditação, mesmo durante o que poderia parecer uma banal missão de alargamento de horizontes pessoais. O tom predominante é o de uma estudada humildade: «Quanto a mim, é um prazer e um dever celebrar a memória de um antecessor. Afinal, também eu sou apenas um antecessor de outros, na vida como em viagem!» (13 de Abril de 1787). Tem o seu quê de instrutivo presenciar os não raros momentos em que esta fachada soçobra. Por exemplo, quando, em trajecto pela Sicília profunda, que ele aproveita para trabalhar na sua tragédia sobre Nausícaa, Goethe escreve: «Ulisses, que, meio culpado, meio inocente, foi o causador de tudo isto, tem de declarar que vai partir e a boa donzela não tem outro remédio senão procurar a morte no último acto./Não havia nesta composição nada que eu não pudesse desenvolver realistamente a partir da minha própria experiência. Eu próprio ando fazendo o meu périplo, também em perigo de despertar afeições que, não tendo necessariamente um fim trágico, poderão ser bastante dolorosas, perigosas e perniciosas; (...)». No camarote do barco que o leva de regresso a Nápoles, e numa situação de naufrágio iminente, Goethe diz ter visto claramente diante de si uma gravura da Bíblia representando o lago Tiberíades, da autoria de um artista famoso do século XVII. Não duvido de que Goethe teria retirado supremo prazer da ideia de perder a vida em pleno êxtase estético. No meio de apontamentos de viagem frequentemente corriqueiros e descoloridos, e de meditações artísticas carentes de originalidade, as abundantes descrições de cariz geológico e mineralógico acabam por proporcionar algum repouso ao leitor, sobretudo a leigos como eu, pouco preocupados com a sua exactidão ou plausibilidade. (*) J.W. Goethe, "Viagem a Itália", Tradução, Prefácio e Notas de João Barrento, Relógio d'Água, Vol. 6 das "Obras Escolhidas".

domingo, janeiro 28, 2007

("Haut Bas Fragile", 1995)
(Marianne Denicourt e Nathalie Richard sonhando com Cyd Charisse e Ginger Rogers.)
AS IDADES DA INOCÊNCIA: Le cinéma a entrepris d'écrire ce dernier chapitre de l'histoire du monde. Le cinéma est l'innocence qui se sait perdue, la grâce qui se sait retrouvée, lorsque du moins ses marionnettes ne font pas de manières. Il permet à l'artiste cet «autre accès» que recherchait Kleist, puisque «le Paradis est verrouillé et le chérubin est derrière nous; il nous faut faire tout le tour du monde pour voir s'il n'y a pas peut-être quelque part derrière un autre accès». (Hélène Frappat, in "Jacques Rivette, secret compris", ed. Les Cahiers du Cinéma) Perfeitamente de acordo. No caso de Rivette, penso que em nenhum lugar isso é mais evidente do que em "Haut Bas Fragile", filme onde da impossibilidade da inocência brota uma ligeireza que supera essa própria inocência, primordial e inatingível. Uma ligeireza trabalhada, que nunca se poderia confundir com a espontaneidade de uma bailarina de musical americano dos anos quarenta. Uma leveza ponderada, supremamente consciente da força da gravidade e das limitações do corpo, por isso mesmo mais radicalmente próxima do sublime.

segunda-feira, janeiro 22, 2007

FIAMA (2): Uma definição da vida: trabalho permanente para despojar a morte da sua importância.
FIAMA:
«A morte não é um acontecimento da vida.» (Ludwig Wittgenstein)
f.h.p.b. 1938-2007
LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Local: linha verde do metropolitano. Um jovem folheava a antologia de Montale da Assírio & Alvim. Abriu-a no poema "Voz que Vem com os Galeirões" ("Voce Giunta con le Folaghe"). Possam os leitores de Montale proliferar pela rede do metropolitano, até suplantarem em número os não-leitores de Montale.

quinta-feira, janeiro 18, 2007

CINEMA: Em Julho de 1958, em Paris, Jacques Rivette, crítico de cinema dos "Cahiers du Cinéma", começa a rodar com a sua equipa "Paris Nous Appartient". O argumento tinha sido escrito por Rivette e Jean Gruault, nos cafés do bairro da Étoile. As condições de rodagem foram épicas, roçando a insanidade. Não havia produtor, mal havia dinheiro para a película. As oito semanas de rodagem inicialmente previstas foram rapidamente ultrapassadas. Sem a insistência do operador de imagem Charles Bitsch e da "dialogue coach" Suzanne Schiffman (outras duas figuras da Nouvelle Vague) para que Rivette efectuasse cortes no argumento, o filme correria o risco de durar quatro ou seis horas. Chegaram a rodar-se cenas que, no filme, se sucedem a outras rodadas um ano antes. Já em 1959, após o fim das filmagens, só o sucesso de "Les Cousins" e "Les Quatre Cents Coups", no festival de Cannes, permitem desbloquear a situação: Chabrol e Truffaut tornam-se co-produtores, e financiam a montagem e a pós-produção. A estreia só ocorrerá em Dezembro de 1961, aliás sem qualquer sucesso junto do público. A propósito deste filme escreveu Michel Delahaye, nos "Cahiers": «"Paris Nous Appartient" fait partie de ces œuvres qui doivent porter trace en elles des risques qu'elles ont couru et continuer de vivre dans le risque». Uma das características que atravessa a obra de Rivette, dos anos 50 até hoje, é o talento para tornar palpável e física a intriga e a conspiração, paradoxalmente através de um processo de aparente abstracção da própria intriga e da própria conspiração. Tudo isso existe já (e como!...) em "Paris Nous Appartient". Porém, neste caso, apetece dizer que a principal conspiração foi levar a cabo a feitura do próprio filme, com um desplante que se diria ser apanágio dos jovens, se Rivette não continuasse a evidenciá-lo ainda hoje. Há também o teatro, já então: "Péricles", de Shakespeare. E há Paris, sempre Paris, obsessivamente Paris, tão continuamente como o próprio tempo. Este filme pode ser visto na Cinemateca, no sábado, às 19 horas.
COMPROMISSO POUCO OUSADO: Este blog voltará ao seu regime normal quando Vasco Graça Moura desistir de escrever sobre a TLEBS.

terça-feira, janeiro 16, 2007

COMO DESMASCARAR UM FALSO MILIONÁRIO: Um dos concursos/reality-shows cretinos que a TVI lançou recentemente para o éter, de seu nome "Pedro o Milionário", girava em torno de um suposto milionário (o Pedro), cortejado, com fins nupciais, por uma mancheia de moçoilas. A punchline, no meio disto, era que o Pedro, afinal, não era milionário. As infelizes concorrentes, que assim se esmifraram para nada, teriam feito bem em ler este romance: Em "Moll Flanders", Daniel Defoe entrega-se a longos e pragmáticos discursos sobre a necessidade de os nubentes inquirirem sobre a real situação financeira do candidato a cônjuge, antes de se decidirem a dar o nó. Quase se poderia falar de um pequeno tratado dentro do romance, tal é a insistência e exaustividade com que o assunto é abordado. Com perturbadora frequência, apercebemo-nos de que as respostas para os problemas da vida real se encontram, preto no branco, nas páginas da grande literatura, muitas vezes em obras com idade plurissecular. A qualquer pessoa que alimente ilusões sobre uma eventual ingenuidade das gentes de outrora (por oposição ao sofisticado cinismo que medra nos iníquos tempos modernos) recomendo a leitura de algumas dezenas de páginas de Balzac, Swift, Laclos ou Fielding. É quanto basta.
LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Na linha vermelha do metropolitano, uma jovem tinha entre mãos "The Black Book", Orhan Pamuk em versão inglesa. Q., que já leu o livro, afiança-me que se trata de um osso duro de roer. Em silêncio, faço votos para que não esmoreça o ânimo da jovem da linha vermelha, que liga a Alameda ao Oriente, e que talvez um dia chegue ao Aeroporto, via bairro da Encarnação.

sexta-feira, janeiro 12, 2007

O PULMÃO DO 19ÈME ARRONDISSEMENT: Só agora, tarde demais, me apercebo de que não visitei o soberbo parque de Buttes-Chaumont, em Paris, tão amiúde quanto teria sido possível e desejável. Em 1912, Kafka escreveu a Felice Bauer: «A minha vida deixá-la-ia por ti, mas não posso abandonar a tortura».
DE SÍMIOS E DE GALHOS: Que autoridade, que competência possuem os representantes da Igreja Católica para emitir pareceres sobre o referendo à despenalização da Interrupção Voluntária da Gravidez? Resposta: nenhuma. Tanta como o Clube de Coleccionadores de Saquetas de Chá Preto de Miranda do Corvo. Infelizmente, não só a Igreja se auto-reconhece essa autoridade e essa competência (servindo-se do inacreditável argumento de que tudo o que diz respeito ao ser humano cai sob a sua dilatadíssima alçada), como a comunicação social se mostra cúmplice contumaz dessa exorbitação. Por tradição? Por hábito? Por inércia? Até ao dia 11, não duvido de que a opinião pública continuará a ser visada pelo esforço de "iluminação das consciências" promovido por ilustres membros do clero. Por uma questão de equidade, espero que seja atribuído tempo de antena a médicos, juristas, filósofos e psicólogos para discorrerem sobre a santíssima trindade, sobre a exegese do Novo Testamento e sobre os desafios do ecumenismo neste dealbar do século XXI.
O NEVES DO KILIMANJARO (*): «Se virmos com atenção, os nossos partidos e eleitores são todos de direita. Quem representa no nosso Parlamento a direita desiludida e queixosa, resmunguenta e trauliteira? Quem, senão o Bloco de Esquerda?» Este memorável trecho de prosa pertence a João César das Neves, que o perpetrou na sua última crónica de 2ª feira no "DN". É preciso que se diga, para repor a questão no seu contexto, que, antes da pausa natalícia (que tão frustrante se revelou para seus inúmeros aficionados), mais exactamente a 27 de Novembro, JCN tinha comparado Afonso Costa a Hindenburg e a Bush, chamando-lhes "coveiros da liberdade", num ousado paralelo entre a 1ª República portuguesa, Weimar e o Iraque actual. Mesmo para alguém como JCN, que caiu no caldeirão do disparate quando era pequeno, trata-se de uma façanha. Resta saber se esta passagem à velocidade superior por parte do nosso esforçado cronista não esconde uma estratégia plena de sagacidade. A minha teoria é a seguinte. Lançando raciocínios a tal ponto delirantes, JCN espera que as impensáveis enormidades que terá reservadas até à data do referendo passem por sentenças cheias de sabedoria e cabimento. O tempo dirá se não estarei a tomar por astuta deliberação o que não passa de um arrepiante mergulho nos abismos oceânicos da indigência argumentativa. (*) Não deixemos que a irrelevância estrague um bom trocadilho.

segunda-feira, janeiro 08, 2007

ONTEM NÃO TE VI NA BARATA SALGUEIRO: Detesto ler o adjectivo "obrigatório" a propósito de um filme, livro ou exposição. Neste caso, porém, a tentação é fortíssima. Se não se trata de um filme obrigatório, pelo menos é uma oportunidade rara a que qualquer cinéfilo que se preze deve estar atento. No próximo dia 20, sábado, às 19h, na Cinemateca, passa "Paris Nous Appartient", primeira longa-metragem do meu adorado Jacques Rivette. Paris, o teatro e a conspiração, já presentes neste filme magnificamente desconcertante. (Tentarei escrever sobre este filme antes da data da sua exibição. Da maneira como as coisas têm estado, mais vale não prometer seja o que for. )
DA AUSÊNCIA DE PAPAS NA LÍNGUA: Os meus aplausos de mãos ambas vão, neste início de ano, para dois actores portugueses:
  • para João Reis, que, na emissão final do "Dança Comigo", exprimiu alto e bom som o seu contentamento por (cito de memória) "ver tanta gente no Campo Pequeno, não para assistir a uma tourada, mas para um espectáculo de dança";
  • e para Miguel Guilherme, que, em resposta a um inquérito na "Dica da Semana", afirmou nunca consultar os horóscopos porque "isso é para pessoas sem cultura".

Que vos seja frutuoso o exercício da subtil arte de Talma durante o próximo ciclo solar!

CRÍTICA: Há pessoas que estão sempre a criticar aquilo que as outras pessoas fazem, e eu acho isso mal, porque criticar por criticar não leva a lado nenhum.
SEPARADOS À NASCENÇA?:

John S. Carlile (1817-1878), político norte-americano, senador do estado da Virgínia, apoiante da causa unionista durante a guerra da Secessão.

José Barroso, emigrante português de sucesso.

quarta-feira, dezembro 20, 2006

E POR FALAR EM RENAS...: Depois do ritmo alucinante destes últimos dias, o 1bsk parte para merecidas férias, longe da Internet. Que os leitores passem umas Festas felizes e tranquilas, é o nosso desejo sincero.
A NÃO PERDER: Este post no Renas e Veados.
QUANDO O TELEFONE TOCA: Adivinho dever a uma posição alfabética cimeira em listas de contactos os numerosos telefonemas que recebo, resultantes, presumo, da manipulação descuidada de telemóveis subtraídos à vigilância paterna, por parte de filhos pequenos de amigos e conhecidos. Para pôr cobro a este problema, apenas me ocorrem duas soluções: mudar de nome para Zulmiro Zueberbriggen, ou apresentar aos meus amigos (sobretudo aqueles com descendência recente e orientada para as novas tecnologias) um qualquer Aarão ou Abel recrutado para o efeito.
OBITUÁRIO DE XADREZ: Há uns dias atrás, dei por mim a enumerar mentalmente os meus ídolos de xadrez de todos os tempos. Lembrei-me de José Raul Capablanca, Akiba Rubinstein, David Bronstein, Mikhail Botvinnik e, obviamente, Anatoly Karpov. No mesmo dia, algumas horas mais tarde, eis que tomo conhecimento do falecimento de David Bronstein. David Bronstein esteve a um passo de entrar para o muito restrito panteão de campeões do mundo de xadrez quando, em 1951, empatou um match com o então detentor do título, Mikhail Botvinnik (as regras ditavam que, em caso de empate, o campeão mantinha o título). De então para cá, têm surgido ciclicamente rumores de que Bronstein teria sido pressionado pelas autoridades soviéticas para não ganhar o match. O próprio Bronstein nunca admitiu que isso tivesse sucedido, mas, por mais de uma vez, exprimiu-se em relação a esse assunto de forma algo ambígua. Independentemente desse ponto nebuloso da historiografia xadrezística, Bronstein tornou-se famoso pelo seu imenso talento, pelo carácter imaginativo das suas partidas, e pela autoria de dois dos livros mais famosos da história deste jogo: "O Aprendiz de Feiticeiro" e, sobretudo, o livro do torneio de candidatos realizado em Zurique, 1953. Comprei uma cópia deste livro em Nova York, há mais de 3 anos. Está desde então na minha estante, há espera da atenção que mereceria e que nunca lhe concedi. AQUI, uma extensa colecção de partidas de David Bronstein.
E VOCÊ, ONDE ESTAVA?: E você, onde estava quando soube que Manuel Cajuda se tinha demitido do Zamalek, garbosa agremiação com larga tradição no futebol cairota? Eu estava num táxi, a caminho da segunda circular.

terça-feira, dezembro 05, 2006

ROHMER, TUDO LIGADO: Recentemente, revi na Cinemateca a primeira longa-metragem de Éric Rohmer, "Le Signe du Lion". A folha que acompanhava este filme era da autoria de Antonio Rodrigues. Gostei bastante de a ler. Nela são feitos numerosos paralelismos entre este filme e obras posteriores de Rohmer, mas também são apontadas diferenças de monta. Ao ler a folha, porém, estranhei a omissão de uma referência (que eu recordava muito confusamente ter lido) à semelhança entre o motivo astrológico que preside ao filme (o signo do Leão) e outras manifestações de destino/azar/fatalidade que viriam a ser muito abundantes na obra rohmeriana. Onde teria eu lido essa referência? Ao chegar a casa, verifiquei que a folha emitida pela Cinemateca aquando da exibição do mesmo filme em Julho de 1999 era diferente, e tinha como autor João Lopes. Li-a com avidez compreensível. O principal elo apontado por JL entre este filme e os restantes deste cineasta tem a ver com a presença do elemento moral. Aqui, inclino-me mais a concordar com Antonio Rodrigues quando ele escreve que "Le Signe du Lion" «é um conto (nem moral nem moralista)». A existir em "Le Signe du Lion", a moral apareceria de um modo quase puritano (e pouco subtil), redutível ao repúdio pelo dinheiro, radicalmente diferente do prevalecente nos "Contos Morais", onde se exprime essencialmente ao nível dos comportamentos humanos, e da fugidia fronteira entre livre-arbítrio, determinação e aleatoriedade. Mas adiante. Continuava eu, depois disto, sem saber onde teria lido (se é que a li) a tal sugestão de analogia entre o Zodíaco, caprichoso e soberano, e os seus múltiplos sucedâneos que povoam os enredos rohmerianos. Continuo sem saber. Encontrar pontos de contacto entre "Le Signe du Lion" e outros filmes de Rohmer é um ensejo natural e compreensível. E não me parece tarefa particularmente complicada. Por exemplo, o súbito e inesperado desenlace (o protagonista, devido a um acidente de automóvel a muitos quilómetros de distância, passa da indigência à condição de herdeiro rico) pode ser aproximado ao reencontro entre a protagonista de "Conte d'Hiver" e o amante, perdido anos antes por uma estúpida questão de endereço enganado, ou então do também súbito (mas não totalmente inesperado) desenlace de "Le Rayon Vert", em que a personagem de Marie Rivière observa finalmente o fenómeno atmosférico que perseguia com obstinação. A ocorrência de uma improvável conjunção de acontecimentos que, à revelia da personagem principal, transforma um impasse num desfecho venturoso faz lembrar as cenas finais de "Conte d'Été" (os telefonemas recebidos por Melvil Poupaud, ultrapassado pelos acontecimentos mas, estranhamente, nunca parecendo deixar de ser dono do seu destino). O mais notável, no entanto, é sentir como esta tarefa transcende o âmbito da crítica, da historiografia e da paixão cinéfila, para se situar num plano onde a felicidade e a realização pessoal também ocupam o seu espaço. Como se encontrar coerência na obra de um realizador de cinema digno da nossa estima equivalesse a verificar a integridade de um vínculo de confiança que nos une a ele. (Éric Rohmer tem um novo filme em fase de acabamento. Chama-se "Les Amours d'Astrée et de Céladon".)
ENSINO SUPERIOR: Li recentemente dois desabafos sobre o ensino superior que revelavam tremenda falta de conhecimento de causa e leviandade. No primeiro, a propósito das denúncias de asfixia financeira por parte das universidades, sugere-se uma solução que aliaria a simplicidade à eficácia: aumentar as propinas, já que "nenhuma Universidade pública encosta as propinas ao tecto permitido" (um erro que o próprio autor corrigiu, mais tarde, por meio de contra-exemplos) e "quatro quintos dos alunos dispõe de viatura própria". Espanto-me com esta estatística, mas parto do princípio de que o autor se informou devidamente. Supondo que as universidades dispõem de margem de manobra para aumentar ainda mais as propinas, e admitindo que, de facto, 80 % dos estudantes universitário são felizes proprietários de um veículo motorizado, há que ter em conta duas coisas. Em primeiro lugar, é límpido para quem segue a questão com um mínimo de atenção que o aumento progressivo das propinas, aproximando-as do custo real do ensino oferecido, é mais um paliativo do que uma solução para o financiamento dos estabelecimentos de ensino superior, e costuma ser acompanhado por desinvestimento orçamental no sector. Por outras palavras, as propinas funcionam como legitimação de cortes no orçamento, sucedâneos de receitas próprias que empurram as universidades para uma pseudo-autonomia financeira à custa do bolso dos estudantes. (E muito haveria a dizer, aliás, sobre as míticas "receitas próprias", apontadas como solução milagrosa por muitos, mas viáveis apenas na medida em que o permitem estruturas e corpos docentes já sobrecarregados pela dupla incumbência de ensinar e investigar.) Em segundo lugar, a posse de carro, em muitos dos casos, será menos um sinal exterior de desafogo do que um imperativo por banais questões de mobilidade. Descrever os alunos universitários como meninos do papá birrentos é um lugar-comum que passa numa discussão de café, mas que convém usar com moderação quando o propósito é argumentar com um mínimo de seriedade. O segundo grito de revolta, li-o aqui. O autor insurge-se contra um doutoramento cujo tema é as construções nominais dos pronomes possessivos. Não vejo onde está o motivo de escândalo. O autor parece ter uma ideia muito aproximativa sobre o que é um doutoramento. Um doutoramento é um ciclo de estudos avançados que tem como fim, entre outros, demonstrar que o doutorando é capaz de conduzir investigação original sobre um determinado tema. Como estamos no século XXI, e não no século XIV, qualquer investigação com pretensões a originalidade deverá possuir um elevado grau de especialização. Só em casos muito específicos será de esperar que um tema de doutoramento tenha relevância imediata no contexto de um potencial emprego. Nesse caso, para que serve um doutoramento? Para demonstrar aptidões excepcionais ao nível da assimilação e resolução de problemas numa determinada área, e, desse modo, garantir um nível de desempenho condizente com expectativas elevadas por parte do empregador. Não nego que, frequentemente, uma pós-graduação pode ter significância nula para a formação de um indivíduo e para o seu sucesso na busca de emprego. Porém, é errado fazer recair as culpas sobre os temas de tese demasiado esotéricos e incompreensíveis para o comum dos mortais. (Alguém com conhecimento do assunto muito superior ao meu afiança-me que, longe de ser um irrelevante motivo de chacota, a investigação avançada ao nível de construções pronominais pode ser muito importante, por exemplo, para o aperfeiçoamento de correctores e analisadores morfossintácticos.)

sábado, dezembro 02, 2006

LAURA RIDING: No "Mil Folhas" do passado dia 11 de Março, Eduardo Prado Coelho escrevia: «Quem é Laura Riding? Duvido que haja portugueses que a conheçam(...)». Posso garantir que alguns portugueses já conheciam esta autora, pelo menos aqueles que acompanharam este blog nas suas primeiras semanas de vida. Que moral se poderá retirar daqui? Absolutamente nenhuma. Porém, descubro agora, perturbado, que o rosa que escolhi para fundo da página de arquivo do 1bsk desse mês é muito semelhante ao do amaciador de roupa marca Carrefour. (Traduções de Riding para português aqui.)
LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Há horas de rara felicidade na vida de um caçador de leituras em lugares públicos (lembram-se dos tractores Fiatagri?). No campus do Instituto Superior Técnico existe um edifício chamado Complexo Interdisciplinar. No pavilhão envidraçado da recepção, sobre uma secretária, na semana passada, viram estes meus olhos um exemplar de "Watt", de Samuel Beckett, na edição portuguesa da Assírio & Alvim. A euforia daí resultante não me fez esquecer esta questão de importância maior: será que a leitura de Beckett durante a actividade laboral, para além de obviamente louvável, é recomendável do ponto de vista do desempenho profissional? Povo de Portugal, de Norte a Sul: está aberto o debate.
NO PRÓXIMO FIM-DE-SEMANA: Terão lugar nos próximos dias 8, 9 e 10 as representações da peça "Um por um para dois", pelo grupo teatroàparte, baseada na obra "Talem (Leito Conjugal)", do espanhol Sergi Belbel. Todas as informações relevantes encontram-se na página do teatroàparte, grupo amador da Associação de Residentes de Telheiras, do qual tenho a felicidade de fazer parte. Frenética, pós-moderna, licenciosa, hilariante, inteligente: são os cinco adjectivos que me ocorrem para qualificar esta peça. Caso subsistam ainda algumas hesitações, penso que o facto de eu não fazer parte do elenco desta peça deve constituir argumento decisivo para ir assistir.

domingo, novembro 26, 2006

JÁ CONHECEM...: ...o projecto "The Travelling Journal"?
PROVAVELMENTE, A MELHOR REVISTA DO MUNDO: Correm por aí alguns rumores segundo os quais existem maneiras mais proveitosas de ocupar o tempo do que ler a revista "Aguasfurtadas". São opiniões, que eu respeito. Sem querer entrar em estéreis trocas de argumentos, limito-me a fazer notar aos incréus que o número 10 desta revista inclui um ensaio de Manuel António Pina sobre o ursinho Winnie-the-Pooh. Parece-me não haver nada mais a acrescentar, a não ser que um vídeo de apresentação desse mesmo número 10 está disponível aqui.

quarta-feira, novembro 22, 2006

SORRISOS DE UMA NOITE DE VERÃO (2): Do blog John, Elias and Michelle (não conhecia, e recomendo - aliás como resistir a um título onde entram três personagens do "Elephant" de Gus Van Sant?) fazem-me notar que Pedro Costa não é tão avesso à tentação cómica como eu o pintei. São apontadas como provas cenas dos filmes "No Quarto da Vanda" e "Onde Jaz o Teu Sorriso?", que são precisamente aqueles que eu não conheço. Fica, pois, o reparo. "Onde Jaz o Teu Sorriso?" poderia ser o título deste post e do anterior, aplicado ao cinema português em vez de à personagem de "Sicilia!" de Huillet/Straub.

segunda-feira, novembro 20, 2006

SORRISOS DE UMA NOITE DE VERÃO: São deploráveis as declarações do realizador de "O Filme da Treta", no sentido de ser esse um filme que contraria uma suposta proibição não escrita de fazer humor que condicionaria o cinema português. Infelizmente, estas afirmações nada têm de original. Vinda de numerosos quadrantes, é recorrente a acusação de sisudez crónica dirigida ao cinema português. Trata-se, como é óbvio, de uma daquelas ideias feitas de enorme conveniência para todos aqueles que preferem a facilidade da bojarda de efeito imediato à seriedade e ao estudo minimamente objectivo de uma questão. Para perceber que não existe incompatibilidade entre a gargalhada e os realizadores portugueses (mesmo entre aqueles a quem se colou a tenebrosa reputação de "intelectual"), basta pensar em como, com poucas excepções, todos eles contam na sua filmografia com obras em que o humor é nota marcante. E não falo apenas de um registo de farsa: falo de comédia franca e explícita. Pensemos no Manoel de Oliveira de "Party", "O Passado e o Presente" e "O Meu Caso", pensemos em todo o João César Monteiro tardio, no João Botelho de "A Mulher que Acreditava Ser..." e de "Tráfico", em Paulo Rocha, em José Fonseca e Costa... Quanto às gerações mais novas, se é certo que alguns dos seus chefes de fila parecem desprovidos de qualquer veleidade cómica (Pedro Costa, Teresa Villaverde...), nomes como os de Joaquim Sapinho (de "Corte de Cabelo"), Miguel Gomes e João Nicolau são outros tantos contra-exemplos a opor ao estereótipo de um cinema português sorumbático e grisalho. (Não é que eu tenha alguma coisa contra filmes sombrios e austeros, por São Bergman e São Tarkovsky! Mas deixemos a minha opinião de lado, neste caso.)

sábado, novembro 18, 2006

BALZAQUIANO UMA VEZ, BALZAQUIANO PARA SEMPRE: Recentemente, a Cristina publicou uma lista de filmes que tiveram a felicidade de contar com o talento magistral de William Lubtchansky na sua fotografia. O primeiro citado, e mais recente, é um certo "Ne touchez pas la hache". Ora, este filme não é outro senão o último de Jacques Rivette, adaptação de "La Duchesse de Langeais" , ainda por estrear. É a terceira vez que Rivette se baseia em Balzac, depois de "Out 1" ("Histoire des Treize") e de "La Belle Noiseuse" ("Le Chef-d'œuvre inconnu"), em ambos os casos de forma extremamente livre. Estou muito curioso por saber se, no caso de "La Duchesse de Langeais" (que aliás é parte integrante da "Histoire des Treize") , Rivette e os seus habituais colaboradores Pascal Bonitzer e Christine Laurent serão mais fiéis à obra original. No elenco, encontramos uma cúmplice de longa data, Bulle Ogier ("L'Amour Fou", "Out 1", "La Bande des Quatre"...), dois repetentes (Jeanne Balibar, depois de "Va Savoir", e Michel Piccoli, depois de "La Belle Noiseuse"), e um estreante em lides rivetteanas: Guillaume Depardieu. Quase não se encontra nada sobre este filme na Internet. Espero que as revelações não tardem, e que a estreia em Portugal não se faça esperar mais do que o razoável. ("Ne touchez pas la hache" é o título da primeira edição de "La Duchesse de Langeais". Regra geral, os títulos finais das obras da Comédia Humana parecem-me superiores aos que Balzac originalmente lhes atribuiu. Esta pode muito bem ser uma das poucas excepções.)
UM INIMIGO DA ESCOLA PÚBLICA: Há pessoas que desconhecem os talentos que possuem. Pergunto-me se André Abrantes Amaral estará ciente da sua superlativa capacidade para a distopia. Capacidade involuntária, presumo-o, visto que parece ser de inteira boa fé que ele propõe (suplemento "Dia D", "Público" de 27/10) um sistema de ensino inteiramente privado, e o fim total do monopólio estatal na educação. AAA começa, pouco originalmente, por agitar os espantalhos do corporativismo, do estatismo, da burocracia e dos abusos dos sindicatos para convencer o leitor da iniquidade do sistema actual. Se tais argumentos, embora minados pelo simplismo (próprio de quem deseja demonstrar, num artigo de página, uma tese sobre um tema de enorme complexidade), não são totalmente incompatíveis com o bom senso, rapidamente o leitor começa a ser brindado com pérolas às quais não falta o seu quê de sinistro. AAA escandaliza-se com o facto de o Ministério da Educação se considerar mais bem preparado que os pais para decidir o que os alunos devem estudar. Pelo que me toca, não só isso não é minimamente chocante, como qualquer alternativa me pareceria inquietante. Quem, senão o Ministério, poderia assumir esse papel de liderança na condução das políticas da educação? A resposta de AAA é categórica: quem dela precisa, ou seja os alunos e os pais. Não passaria pela cabeça de ninguém, julgo, pôr os contribuintes a decidir a política fiscal, ou deixar que os enfermos definissem os moldes de gestão do parque hospitalar. Quando se trata da educação, porém, os liberais de serviço estão dispostos a ir até ao fim, e raramente hesitam (AAA não está certamente sozinho nesta cruzada intelectual) em proclamar a excelência absoluta do princípio do utente-decisor. Deixar que os pais tivessem voto de qualidade na organização do sistema educativo, e em particular na elaboração dos programas escolares seria, para mim, um erro de extrema gravidade. A privatização total do ensino, com "programas diferentes de escola para escola, numa livre concorrência e sempre salutar" teria o potencial para criar focos de proselitismo, sectarismo e comunitarismo, já para não falar nos prejuízos óbvios que traria para a mobilidade social. AAA afirma que "o seu [do Estado] interesse sempre foi bastante mais obscuro: Ele teme que os pais não incutam nos filhos o conceito de pertença ao Estado, mas antes à sua família e comunidade de vizinhança." Apetece-me dizer: et pour cause! Não me admira (e acho até desejável) que o Estado se dê a tais trabalhos para evitar derivar comunitárias, atendendo a tudo aquilo que de potencialmente explosivo encerra, nas sociedades de hoje, a sobreposição dos valores do grupo (religioso, étnico ou social) aos valores da sociedade e da nação. E desafio AAA a apontar seja o que for de tenebroso ou compulsivo nesse conceito de "pertença ao Estado", tal como este é, diz ele, "incutido" nas jovens e maleáveis mentes. Estamos longe dos tempos em que se entoavam loas ao marechal Carmona nos manuais escolares. Isto para mencionar apenas os argumentos com uma vaga aparência de cabeça, tronco e membros. Passo em silêncio tiradas como "Ao ser afastado o dirigismo central, desaparecem os compadrios e os interesses obscuros". Demonstrar talento para o humor involuntário é uma coisa; fazer concorrência ao Gato Fedorento é outra. Não se pedia tanto a AAA. Se não fossem as fotografias (e o que valem elas, na era do PhotoShop?), seria capaz de pensar que todos os cronistas/bloggers do "Dia D" não passam de heterónimos de uma só pessoa, optimista e hiperactiva. (O artigo em questão encontra-se disponível neste blog, numa entrada do dia 30/10. Não consigo fazer o enlace directo.)
DESILUSÕES HERTZIANAS: O segundo canal da RTP, chame-se ele RTP2, TV2, 2:, "a dois", ou qualquer uma das muitas designações com que o têm ataviado ao longo dos anos, possui um historial de dar tiros no próprio pé que tem que se lhe diga. Da eliminação quase total do cinema à menorização e abandono do formato do magazine cultural diário (embora se deva dizer que o recente "Câmara Clara" me parece ser aposta ganha), passando pelos surtos de desprogramação inopinada de séries e pela inenarrável "Hora Discovery", têm sido legião as opções questionáveis. Daí que, infelizmente, não se possa classificar como totalmente inesperado aquilo que sucedeu à série "Curb Your Enthusiasm" ("Calma Larry!" em português): a meio da quarta série, mais exactamente após a exibição do sexto de dez episódios, eis que desapareceu da programação sem deixar rasto. Se a RTP adquiriu a totalidade dos episódios, porque não os exibe? Se não os adquiriu, por que diacho não o fez? Não sou fã de séries. Raras vezes me deixo prender por uma. Nunca os (escassos) visionamentos que fiz de "Seinfeld" me despertaram algo que se pudesse confundir com entusiasmo. Mas a minha fidelidade ao "Curb" já se traduzia em nervoso miúdo sempre que, aos sábados à noite, me encontrava longe de casa e da televisão ao aproximar das dez e meia. Acho admirável a maneira como Larry David mistura os registos da sitcom e da reportagem em directo, e a forma como o tom de improvisação potencia os argumentos perversamente bem arquitectados. Vou ter saudades. (Em condições normais, pensaria em escrever ao provedor da RTP, mas perdi a confiança nele desde que se declarou a favor das transmissões de tourada na televisão, com o argumento de se tratar de um espectáculo legal e de grande adesão popular. Estamos mal quando um provedor se abstém de considerar critérios éticos, e se fica pela vertente jurídica e pelo êxito de bilheteira. Mas divago.)

terça-feira, novembro 14, 2006

CINEMA: Terminei recentemente a leitura de um livro de memórias de Suso Cecchi d'Amico, sob a forma de conversas com a sua neta, Margherita d'Amico. Suso Cecchi d'Amico é uma figura incontornável do cinema italiano, tendo colaborado, como argumentista, em filmes de De Sica (entre os quais "Ladrões de Bicicletas"), Antonioni, Lattuada, Comencini, Zurlini, Rosi e muitos outros. Porém, a sua mais frutuosa relação profissional foi com Luchino Visconti, para quem escreveu ou co-escreveu os argumentos da quase totalidade dos filmes, incluindo obras-primas como "Senso", "Le Notti Bianche", "Rocco e i suoi Fratelli", "Il Gattopardo" e "Gruppo di Famiglia in un Interno". Procurando informação biográfica sobre esta senhora (ainda me recordo da ocasião em que descobri, para minha surpresa, que se tratava de uma mulher), constato que, aos 92 anos, acaba de assinar mais um argumento, para um filme, que se encontra em pós-produção: "Le Rose del Deserto". Quanto ao realizador, não é outro senão Mario Monicelli, outro histórico, que já completou 91 anos. Quantos outros exemplos existirão, na história do cinema, de filmes realizados e escritos por nonagenários?

sábado, novembro 11, 2006

REDE ELÉCTRICA EUROPEIA: Afinal, ao que parece, o corte de corrente de há uma semana, que afectou vários países europeus, foi ocasionado pela desactivação de uma linha de alta tensão, por forma a permitir a passagem segura de um navio de cruzeiro por um rio alemão. Uma manobra desastrada como esta pode acontecer a qualquer um. Ainda assim, tratando-se de uma intervenção de risco, não se percebe por que é que não aguardaram até ao final da exibição do filme na sala 3 do King. Teriam poupado o transtorno e a frustração a algumas dezenas de espectadores.
LIÇÕES QUOTIDIANAS DE GEOGRAFIA: Desde que os gatos Goneril e Jasmim aprenderam a saltar para a bancada da cozinha, abriu a época de caça aos ímanes do frigorífico. De entre estes, os mais vulneráveis, pela reduzida dimensão da superfície magnetizada, são uns que eu trouxe de França, e que vinham como brinde em artigos alimentares pré-cozinhados. Representam departamentos franceses, e estão ilustrados com atracções turísticas e ícones de região. Ultimamente, tem-se tornado ocorrência corriqueira encontrar a França aos pedaços disseminada pelas divisões da casa: Lozère na cozinha, Ardennes no hall, Côtes d'Armor no quarto, Loire Atlantique na sala, Lot-et-Garonne no escritório...

quarta-feira, novembro 08, 2006

CINEMA/LUGARES DE PARIS: No passado sábado, uma avaria eléctrica com origem na Alemanha originou um corte de corrente de grandes proporções, que se estendeu a vários países, e que afectou algumas zonas de Lisboa. Para as bandas da Avenida de Roma, o corte de corrente ocorreu perto do final de uma sessão do filme "Paris Je t'Aime", no cinema King, mais precisamente durante o segmento realizado por Alexander Payne (o autor de "Sideways", que não vi mas queria ver). Este episódio pareceu-me um dos mais conseguidos do filme. A história é de uma banalidade descoroçoante: Carol, uma carteira cinquentona de Denver conta, num francês trôpego e cheio de sotaque, as suas férias solitárias de uma semana em Paris. O tom monocórdico e as limitações linguísticas da narradora criam um distanciamento subtil que se coaduna de forma sedutora com a linearidade da narração, em jeito de álbum de memórias inócuo e vagamente ingénuo. No fim do episódio, Carol, sentada num banco do Parc Montsouris (que é um dos melhores sítios que eu conheço para uma epifania), tem uma revelação que a reconcilia com a vida e com as suas memórias, mais ou menos recalcadas, mais ou menos dolorosas. Em consonância com o resto deste pequeno filme, tudo se passa de forma pudica e corriqueira, e o real significado do evento aparece filtrado pelas dificuldades de expressão em francês que Carol sente. Por ironia, o corte do corrente, causado (ao que parece) por uma brusca quebra de temperatura em território alemão, coincidiu com o preciso momento em que Carol se preparava para contar a sua revelação. Durante os minutos que se seguiram, os espectadores do cinema King hesitaram longamente entre partir ou ficar, na esperança de verem satisfeita a sua curiosidade quanto ao conteúdo de uma revelação fictícia de uma turista americana fictícia, no (felizmente real) 14ème arrondissement de Paris. Aproveito para assinalar com agrado a reabertura da livraria do cinema King, após exasperantes meses de encerramento.
KLEIST PREPARA O FUTURO: As minhas sentidas desculpas aos leitores que terão estranhado a reduzida produção deste blog. Tenho estado ocupado pela tarefa absorvente de preparar uma edição ne varietur do Umblogsobrekleist, assistido por uma equipa de exegetas a quem pago o salário mínimo.

sexta-feira, novembro 03, 2006

MAPA DA EUROPA LIBERTADA:

E em breve, a França. Para quando Portugal?

segunda-feira, outubro 30, 2006

JUSTIÇA: O muito bom blog Duelo ao Sol também fez referência à retirada de Sven Nykvist do mundo dos vivos.

domingo, outubro 29, 2006

XADREZ: O russo Vladimir Kramnik bateu o búlgaro Veselin Topalov no match recentemente realizado em Elista, Rússia, e que ficou marcado por controvérsias rocambolescas e nada dignificantes, e por alegações veladas de fraude. O xadrez tem, assim, pela primeira vez desde 1993, um campeão mundial único e incontestado.

Foto de Murat Kul, retirada daqui.

Ao fim das doze partidas, o resultado estava empatado (três vitórias para cada lado, incluindo a falta de comparência de Kramnik na quinta partida), pelo que foi necessário recorrer ao desempate em ritmo semi-rápido, onde o russo demonstrou nervos mais sólidos: duas vitórias contra uma de Topalov e um empate. As minhas reacções a esta vitória são as seguintes. CONTENTAMENTO pelo fim de uma cisão de treze anos, provocada por Nigel Short e Garry Kasparov, e que, por melhores que fossem as intenções subjacentes, prejudicou gravemente a imagem da modalidade. SATISFAÇÃO pelo facto de as manobras desonestas e provocatórias do manager de Topalov não terem sido recompensadas com o triunfo final. APREENSÃO quanto ao futuro. Não está ainda inteiramente claro em que moldes serão organizados os próximos campeonatos mundiais, e a lendária incompetência da Federação Mundial de Xadrez (FIDE) para cumprir as suas promessas levanta legítimas inquietações. Para já, está previsto um torneio, no México, em 2007, no qual Kramnik deverá defender o seu título. Mas existem ainda fortes dúvidas sobre quem participará nesse torneio, e sobre o formato do próximo ciclo do campeonato mundial. CEPTICISMO quanto às relações futuras entre a FIDE e o novo campeão. Kramnik revela, longe dos tabuleiros, o mesmo calculismo e frieza, por vezes à beira do cinismo, que o caracterizam como jogador. Foi praticamente forçado, por uma questão de credibilidade, a disputar este match de reunificação, mas nunca escondeu que se considerava já campeão do mundo, invocando a legitimidade que advinha da vitória sobre o último campeão incontestado (Kasparov, em Londres, 2000). Durante o encontro de Elista, após o foco de controvérsia que originou a sua ausência da quinta partida, Kramnik deixou bem claro que, mesmo que saísse derrotado no final, continuaria a considerar-se campeão do mundo, jogando assim em dois tabuleiros: o desportivo e o moral/jurídico. Isto equivale a comer o bolo e querer ainda guardá-lo na despensa. Não me admiraria que, num futuro próximo, ao mínimo desacordo, Kramnik rompa com a FIDE, de quem com tanta relutância se aproximou, e regresse à sua postura primitiva, reivindicando o seu estatuto de campeão "clássico", na continuação de Kasparov, Karpov, Fischer, numa linha contínua (ou quase...) que já abarca três séculos e que começa com Steinitz, em 1886. Aguardemos, pois, pelo desenrolar dos acontecimentos.

quarta-feira, outubro 25, 2006

INSULAR: Olhar um desconhecido olhos nos olhos, em lugar público, equivale a violação de tabu social. Isto pode parecer angustiante. Porém, existem estratégias para contornar o problema. Por exemplo, fixar com os olhos a pessoa que o acaso urbano coloca à nossa frente, e desviar os olhos apenas depois de ela, por sua vez, retribuir o olhar. Um ou dois segundos de contacto visual aparentemente acidental não parecem levantar escândalo. Tags: olhos, brandura, mover, sereno, pupila.

quinta-feira, outubro 19, 2006

S&F: É claro que, em rigor, só faria sentido falar em fracasso se o sucesso alguma vez tivesse passado de uma fruste hipótese de trabalho.
O MAIOR PORTUGUÊS DE SEMPRE: EU VOTO NELE:

sexta-feira, outubro 13, 2006

MEU E ASSIM: Não tenho tido tempo nem para ir ver os filmes da Festa do Cinema Francês, nem para escrever sobre os filmes que não tenho tempo para ir ver. E esta é uma bela ilustração daquilo que tem sido este blog desde Março de 2003.

segunda-feira, outubro 09, 2006

OPORTUNIDADE MALBARATADA: Há dois anos estive em Budapeste. Certo dia, resolvi fazer uma incursão à Hungria profunda. Sem motivos concretos que me levassem a preferir este destino ou aquele, optei por Vác, cidadezinha nas margens do Danúbio, pouco distante da fronteira eslovaca. Naquela tarde amena, sem recear a improbabilíssima aparição de um turista lusófono, gozei de uma impunidade linguística de que hoje lamento não ter desfrutado devidamente. Nenhum sobrolho magiar se teria erguido um milímetro que fosse se eu, na avenida principal de Vác, tivesse proferido os mais crus impropérios, ou entoado os mais delirantes disparates no meu idioma natal. Em retrospectiva, recrimino-me com especial amargura por não ter agarrado com unhas e dentes a oportunidade de cantarolar em público um tema de Paco Bandeira, plenamente seguro de ser o único consciente dos seus gloriosos cambiantes. A "Quinta Sinfonia", ou "Ó Elvas ó Elvas" teriam sido escolhas plenas de pertinência. Paco Bandeira na província húngara: não me peçam para explicar porquê, mas estou certo de que esse teria sido, mais do que o ponto alto de um dia, algo digno do zénite de uma vida! ("Vác" pronuncia-se "váts". A cidade orgulha-se de uma catedral cuja arquitectura se inspira na basílica de São Pedro, em Roma.)
O REGRESSO DOS QUE NÃO FORAM: Quando alguém acha por bem noticiar que fulano de tal "quebrou o silêncio", o mais provável é eu nunca me ter apercebido do silêncio de fulano de tal.

domingo, outubro 08, 2006

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Linha verde do metropolitano. No sentido Cais do Sodré-Telheiras, uma jovem lia "La Nausée" de Sartre, em pé e em versão original. No sentido Telheiras-Cais do Sodré, um jovem lia "Mongólia", de Bernardo Carvalho, porém sentado.
FOR WHAT IT'S WORTH:
  1. No último filme de Pedro Almodóvar, a Penélope Cruz usa um telemóvel do mesmo modelo que o meu.
  2. A gatinha Goneril gosta de mordiscar a casca dos kiwis chilenos.

quinta-feira, outubro 05, 2006

NÃO HÁ FESTA COMO ESTA: O melhor cinema do mundo tem a sua festa anual em Portugal. Este ano na sua sétima edição, a Festa do Cinema Francês arrancou ontem, e as diversas iniciativas que se desenrolarão no seu âmbito prolongam-se até 21 de Novembro, em sete cidades. Espero comentar o programa para Lisboa nos próximos dias.
XADREZ: Resumo relâmpago dos últimos dias em Elista, palco do agitadíssimo match para a unificação do campeonato do mundo de xadrez. - O presidente da Federação Internacional de Xadrez (FIDE), Kirsan Ilyumzhinov, regressou a Elista para pôr cobro a esta situação, a meio caminho entre o desporto, a diplomacia e o saneamento básico, que descrevi neste post. A grande questão girava em torno do resultado com que se reataria a disputa, uma vez que Vladimir Kramnik perdera um encontro por falta de comparência. Decidiu-se que esse ponto, ganho por Veselin Topalov sem jogar, seria mantido, tendo sido determinado que o sexto jogo começaria com o resultado em 3-2 (a favor de Kramnik). - Contrariamente ao que muitos comentadores esperavam, Kramnik aceitou jogar o sexto jogo nestas condições, embora sob protesto. - O sexto e sétimo jogos terminaram empatados, tendo Kramnik conseguido conter os ímpetos de Topalov sem excessivas dificuldades. - Ontem, pouco antes do início do sétimo jogo, o inenarrável manager de Topalov, Silvio Danailov, emitiu um comunicado insinuando (sem formular acusações explícitas) que Kramnik estaria a recorrer a auxiliares informáticos ilegais, com base nas estatísticas da concordância entre os lances jogados pelo russo e os lances sugeridos pelo programa Fritz, um dos mais populares do mercado. Não tenho conhecimentos suficientes para me pronunciar sobre o assunto, mas a opinião da maior parte dos especialistas parece ser a de que as insinuações carecem de fundamento, e de que esta terá sido apenas mais uma tentativa para desestabilizar Kramnik. - Hoje, o oitavo jogo terminou com a primeira vitória "real" de Topalov. Jogando com negras, o búlgaro saiu-se melhor numa complexa posição em que dispunha de torre e dois cavalos contra duas torres. - O resultado está agora em 4-4 (contando com a derrota de Kramnik por falta de comparência). Na opinião de muitos fãs e comentadores, depois de todos estes episódios lamentáveis Topalov só será considerado um campeão legítimo se triunfar de maneira extremamente categórica. O objectivo principal deste evento, que era a consagração de um campeão único e aceite por todos, parece seriamente em risco. Amanhã é dia de descanso. O jogo 9 disputa-se no sábado.
REPÚBLICA: O 5 de Outubro sempre foi uma data com um significado muito especial aqui no 1bsk. A recente tendência para apoucar aquilo que a 1ª República significou em termos de emancipação política e cultural, e de resgate à tutela monárquica/ultramontana pré-1910, só contribui para reforçar a convicção com que assinalo esta efeméride. Gosto de viver numa República. Se faltassem argumentos a favor desta forma de governo, os deploráveis exemplos da Espanha e do Japão (intrincados debates sucessórios ao sabor dos cromossomas X ou Y dos infantes vindos ao mundo) deveriam bastar para demonstrar o carácter anacrónico da chefia de Estado hereditária. A monarquia é uma espécie em vias de extinção, que sobrevive em nichos dispersos procurando adiar o descalabro. Viva a República!!!
COITADO DO KLEIST: Cada vez mais me convenço de que viver e escrever num blog são actividades de duvidosa compatibilidade.

sexta-feira, setembro 29, 2006

(Imagem retirada daqui. Fotografia de Misha Savinov.)
NO CHESS TODAY: Deveria ter-se realizado hoje o quinto jogo do campeonato mundial de xadrez, em Elista, Rússia, entre Veselin Topalov e Vladimir Kramnik. Em vez disso, sucedeu um inimaginável golpe de teatro. Tudo começou quando, ontem, Silvio Danailov, manager de Topalov, emitiu um comunicado onde exprimia suspeitas devido ao excessivo número de idas à casa-de-banho por parte de Kramnik, durante o jogo (leiam outra vez - não estou a brincar). Nas entrelinhas, lia-se facilmente a suposição de que Kramnik estaria a fazer batota, aproveitando a presença na casa-de-banho para consultar um auxiliar informático. O órgão competente da Federação Internacional de Xadrez acedeu parcialmente aos pedidos de Topalov, encerrando as casas-de-banho privativas dos jogadores, e disponibilizando uma casa-de-banho comum. Considerando que tal violava as condições contratuais acordadas, Vladimir Kramnik recusou-se a comparecer ao jogo de hoje, tendo sido a vitória concedida a Topalov por falta de comparência. Perante a posição irredutível de ambas as partes, o match parece em perigo. As próximas horas poderão ser (aliás, terão de ser) decisivas. (Aqui encontra-se um bom resumo da situação, com actualizações regulares.) Que dizer de tudo isto? Nas reacções que tenho lido (ver aqui, aqui, aqui e aqui por exemplo) existe uma nota comum: dificilmente o xadrez poderia descer mais baixo. Este caso (já apodado de "Bladdergate" no blog de Mig Greengard), com as inevitáveis repercussões na imprensa, poderá ter efeitos devastadores para a pouca credibilidade de que a modalidade ainda goza. Em edições anteriores do campeonato do mundo, as polémicas, por vezes virulentas, raramente têm faltado. Nenhum fã de xadrez deixará de recordar o mítico embate entre Karpov e o refusnik Korchnoi, em Baguio (Filipinas), 1978. (Num episódio que ficou nos anais, Karpov foi acusado de receber mensagens cifradas da sua equipa por meio de iogurtes que lhe eram servidos durante o jogo. Para além disso, não faltaram gurus, parapsicólogos, acusações de hipnotismo...) Mas esses eram outros tempos. A guerra civil acabou, e com ela muita da exposição mediática de que o xadrez disfrutou, a reboque da sua condição de metáfora do conflito ideológico entre Leste e Ocidente. Hoje em dia, aquilo de que o xadrez necessita é de credibilidade, e não de conflitos pueris sobre casas-de-banho. Se Veselin Topalov (que tinha perdido os dois primeiros jogos e empatado os dois seguintes) acabar por manter o seu título de campeão mundial à custa do abandono do adversário, na sequência destas escaramuças psicológico-lavatoriais, será o campeão menos credível e mais ridicularizado da história.

quarta-feira, setembro 27, 2006

A CADA UM A SUA EUROPA: Mas o que esperava Luís Delgado? Que, a cada argolada do cidadão Ratzinger, a "Europa democrática, cristã e humanista" saísse às ruas em defesa da liberdade de expressão? Cordões humanos? Vigílias com velas raquíticas em copos de plástico e música sacra saindo de aparelhagens portáteis Panasonic? Haja bom senso. Por virtude da sua condição de regente-mor do bairro do Vaticano, Bento XVI ( Ratzinger) dispõe de uma atenção mediática clamorosamente desproporcionada face à sua real relevância. Grande exposição mediática implica cuidadinho com a língua. Mesmo tratando-se de uma citação histórica, juízos de valor negativos sobre uma outra religião seriam a última coisa que um líder religioso deveria deixar escapar de entre os seus lábios. A única dúvida que subsiste aqui é saber se se tratou de simples falta de tacto ou se Ratzinger utilizou deliberadamente o seu discurso para denegrir o islamismo, aproveitando en passant para lançar mais uma acha na sua fogueira predilecta: o argumento da superioridade do cristianismo, e a necessidade de o Ocidente reencontrar as suas raízes cristãs como único remédio para a putativa crise de valores que por aí grassa. Existem argumentos fortes em favor desta segunda hipótese. (Ver aqui, aqui, aqui e aqui.) O que nos traz de novo à "Europa democrática, cristã e humanista" de Luís Delgado. Não me revejo nessa Europa. A minha Europa é democrática e humanista, sem dúvida ("two out of three ain't bad"), porém laica e secular, pouco dada a ofender-se por suposto vilipêndio dirigido contra um ancião paramentado de branco e escarlate, que julga que existe compatibilidade entre a Religião e a Razão.
PARA LÁ DO BEM E DO MAL: Nesta vida há coisas boas e coisas más, e também algumas coisas (o colesterol é disso eficaz exemplo) que podem ser boas ou más. Desta dualidade maniqueísta, e de uma citação de Bellow, retirou um português expatriado em Edimburgo o título original do seu blog, entretanto mudado em "Pastoral Portuguesa". Muita literatura (sobretudo anglófona), alguma música, frequentes observações de índole diversa estão na ordem do dia. Há também um começo de polémica sobre um romance de DeLillo, na qual espero também vir a molhar a sopa. Fortemente aconselhável a miúdos e graúdos.
MESMO SEM SABER: Na letra da canção "Cinderela", de Carlos Paião (canção que cala fundíssimo no imaginário luso, a julgar por uma recente emissão da RTP apresentada por uma imitação em plástico da Isabel Angelino), há um verso que é mais ou menos assim: «Uns olhares envergonhados, e são namorados, mesmo sem saber.» A inadvertência pareceria excluída da ideia de namoro, para o qual a volição mútua se me afiguraria condição necessária. Mas a tenra ingenuidade do conceito resgata-o à condição de paradoxo canhestro a que estaria porventura condenado. Fez-me lembrar o conto "The Beast in the Jungle", de Henry James, em que um evento extraordinário, e de relevância máxima para duas pessoas, acaba por ser sentido apenas por uma, e não por aquela que mais o antecipara ao longo de toda uma vida. "The strangeness in the strangeness..." "Ah your not being aware of it"-and she seemed to hesitate an instant to deal with this -"your not being aware of it is the strangeness in the strangeness. It's the wonder of the wonder." She spoke as with the softness almost of a sick child, yet now at last, at the end of all, with the perfect straightness of a sibyl. She visibly knew that she knew, and the effect on him was of something co-ordinate, in its high character, with the law that had ruled him. It was the true voice of the law; so on her lips would the law itself have sounded. "It has touched you," she went on. "It has done its office. It has made you all its own.""So utterly without my knowing it?""So utterly without your knowing it." His hand, as he leaned to her, was on the arm of her chair, and, dimly smiling always now, she placed her own on it. "It's enough if I know it." Se os "Morangos com Açúcar" emulam, quiçá inadvertidamente, o épico de Guimarães Rosa, que atire a primeira pedra aquele que recusaria a Carlos Paião a legitimidade de se inspirar em Henry James. (A propósito, acabaram-se os posts sobre os "Morangos". Não tenciono ver a nova série, pois acho inconcebível que não saia a perder na comparação com a anterior.)

segunda-feira, setembro 25, 2006

XADREZ: Está a decorrer em Elista, capital da república autónoma russa da Calmíquia (será assim que se escreve em português?), o match para atribuição do título de campeão do mundo de xadrez. Trata-se de um encontro com características especiais, uma vez que representa a reunificação dos dois títulos que têm existido em paralelo desde que, em 1993, Garry Kasparov e Nigel Short provocaram um cisma com a Federação Mundial de Xadrez (FIDE). De então para cá, têm abundado as discussões, tão acaloradas quanto estéreis, sobre quem é o campeão do mundo legítimo. Por mais tortuoso e insatisfatório que tenha sido o caminho que conduziu a esta reunificação tão aguardada, os fãs de xadrez do mundo inteiro têm pelo menos a garantia de que, dentro de poucos dias, existirá finalmente um campeão mundial único e inconstestado. Os dois contendores são o búlgaro Veselin Topalov (campeão do mundo FIDE) e o russo Vladimir Kramnik (campeão do mundo oficioso, dito "clássico"). Dificilmente Kramnik poderia ter começado melhor, uma vez que ganhou as duas primeiras partidas, liderando portanto por 2-0. No entanto, um olhar atento sobre essas duas partidas mostra que o resultado é enganador. Na primeira, Topalov recusou um empate por repetição de lances, vindo a perder após algumas imprecisões. Na segunda partida (ontem), o búlgaro, após erro grave de Kramnik ao 31º lance, não viu uma continuação que lhe daria uma vitória rápida, tendo acabado por sair derrotado após um final em que o seu adversário evidenciou a sua famigerada precisão. A partir de agora, tratando-se de um match a 12 partidas, a missão de Topalov pode parecer impossível. Kramnik é um exímio defensor, e o búlgaro, ao ser obrigado a procurar o ataque a todo o custo, arrisca-se a sofrer supresas desagradáveis. Porém, se existe jogador no mundo capaz de desequilibrar posições aparentemente neutralizadas, e de encontrar recursos ofensivos mesmo contra os opositores mais coriáceos, esse jogador é Veselin Topalov. Nada está decidido. Não tenho nenhum favorito pessoal claro, mas ficaria mais satisfeito se o triunfo final pendesse para o lado de Topalov. Não tanto por uma questão de estilo (o de Kramnik, essencialmente posicional, agrada-me mais), mas por achar que o seu título de campeão possui maior legitimidade. Em rigor, penso até que ele não se deveria ter sentido obrigado a aceitar colocar o seu título em jogo desta maneira. Mas seja tudo pela reunificação. O lema da FIDE é Gens Una Sumus ("somos uma só gente", ou algo que o valha). Alguns dos sites onde este acontecimento é seguido de perto: Chessbase Échiquier Niçois The Week in Chess Susan Polgar Chess Blog The Daily Dirt Chess Blog Há ainda o site oficial, com transmissão gratuita em directo.
MÁQUINA DO TEMPO: Pode parecer incrível, mas é autêntico. No Abrupto, existe um post datado de 16 de Maio de 1990. Existem mais mistérios no bojo da blogosfera do que nos livros dos "Cinco" da Enid Blyton.
TRÊS VELINHAS: Seta Despedida: há 3 anos a negar o complexo de Zenão. Para gáudio de todos nós.

sábado, setembro 23, 2006

24 VEZES POR SEGUNDO: Em matéria de directores de fotografia, receio bem que, para não variar, a minha francofilia inveterada governe as minhas preferências. Os meus eleitos são William Lubtchansky ("Les Amants Réguliers", vários filmes de Rivette, Iosseliani, Doillon...), Sacha Vierny (vários filmes de Greenaway, "Hiroshima Mon Amour" e "L'Année Dernière à Marienbad" entre outros filmes de Resnais, "Belle de Jour" de Buñuel...) e Raoul Coutard, figura indissociável da Nouvelle Vague (Truffaut, Chabrol, e muitos filmes de Godard, entre os quais "À Bout de Souffle", "Bande à Part" e "Passion", tendo em anos mais recentes trabalhado quase exclusivamente com Philippe Garrel).
SVEN NYKVIST (1922-2006): Foram escassas as menções na comunicação social dita "de referência", demasiadamente ocupada com os beijinhos da Floribella, com golos marcados com a mão e outros penosos cortejos de nulidades. Também não vi nada nos blogs (mas pode ter sido por falta de atenção), com a inevitável excepção do Paulo, a quem estas coisas não costumam escapar. Morreu Sven Nykvist, um dos grandes directores de fotografia da história do cinema. Trabalhou pela primeira vez com Ingmar Bergman em 1953, no filme "Gycklarnas Afton/La Nuit des Forains" (ignoro o título em português), e, do ano de 1960 em diante, participou em praticamente todas as obras do realizador sueco. Entre os realizadores com quem trabalhou contam-se nomes como Louis Malle, Volker Schlöndorff, Andrei Tarkovsky ("O Sacrifício"), Roman Polanski e Woody Allen ("Another Woman", um episódio de "New York Stories", "Crimes and Misdemeanors" e "Celebrity"), mas será pela sua longuíssima parceria com Bergman que Nykvist será provavelmente recordado. Torna-se espinhoso tentar encontrar um outro exemplo de uma tão rica e significativa colaboração entre um realizador de cinema e um técnico, e parece-me impossível discutir filmes como "Persona", "O Silêncio" ou "A Hora do Lobo" sem mencionar a excelência das poderosas imagens de Nykvist.

Max von Sydow e Ingrid Thulin no filme "A Hora do Lobo" (1968).

Bibi Andersson, Liv Ullmann, Sven Nykvist e Ingmar Bergman durante as filmagens de "Persona" (1966). Esta imagem e a anterior foram retiradas do excelente site "Bergmanorama".

Uma cena de "O Sacrifício", de Andrei Tarkovsky (1986).

terça-feira, setembro 19, 2006

O HOMEM QUE CITAVA VALÉRY NO PARLAMENTO: O mais puro acaso googleano conduziu-me à descoberta de que o deputado socialista Jean Le Garrec citou Paul Valéry na sessão da assembleia francesa de 8 de Fevereiro de 2005, durante um debate sobre direitos e condições laborais. Evocando o paradoxo de Zenão de Eleia, o deputado falou num "Achille immobile à grand pas" (do poema "Le Cimetière Marin"). Desabafo de um deputado da maioria UMP (Patrick Ollier) «On a fait le tour des grands poètes français dans ce débat !» (Ver aqui, e fazer busca com palavra chave "zénon".) O mundo passava sem ficar a saber isto, mas eu não passava sem dizer isto ao mundo.

quinta-feira, setembro 14, 2006

SAI UMA MORANGADA PARA A MESA DO CANTO: Num dos últimos episódios dos "Morangos com Açúcar", o Cristiano aceitou a encomenda de um cliente que pedia quatro (4) bolos para uma festa no dia seguinte, e isto para grande consternação da Bia, que achava o prazo demasiado curto. O Cristiano argumentou com a relutância em recusar uma primeira encomenda, algo de pouco aconselhável para um pequeno e médio negócio em plena fase de lançamento. A Bia, para além da falta de antecedência, protestava devido ao risco de perder um festival de música no qual depositava grandes expectativas. Os argumentos da Bia e do Cristiano são igualmente bons. Não se pode dizer que a razão tenha tendência a pender decisivamente para um lado ou para outro. Quanto ao facto de os bolos (torta de laranja, bolo de chocolate, bolo de bolacha, e um outro que não retive) terem saído na perfeição, apesar do estatuto de principiante absoluto destes improváveis pasteleiros, isso não me incomoda nem um pouco. Porque não haveriam os "Morangos" de ter direito ao seu quinhão de suspensão de incredulidade?
E PORQUE NÃO UMA TANGENTE OU UMA SECANTE?: O 1bsk também reclama pertencer ao arco da governabilidade. Não porque o poder nos tente, mas porque a expressão tem um não-sei-quê de castiço que a torna irresistível. (Esta justa ambição passa a ocupar o lugar por baixo do título do blog.)
CINEMA: "Ferro 3", de Kim Ki-duk. Visto na Cinemateca, 2ª feira passada. Neste filme (o quarto a estrear entre nós deste cineasta, algo de inaudito para um realizador coreano), a personagem principal parece ter ido buscar inspiração ao famoso texto de Kafka sobre as parábolas. Derrotado na parábola, resolve-se a ganhar na realidade. O seu principal passatempo (e única ocupação, ao que parece) consiste em visitar apartamentos na ausência dos seus donos. Mais do que isso, encontra prazer em fundir-se com a intimidade familiar revelada pelos quartos, objectos e imagens. Ao ceder a este desejo de partilhar um quotidiano sem ser visto, aproxima-se simbolicamente da invisibilidade. Mais tarde, depois de se envolver com uma mulher amargurada por um matrimónio infeliz, e de o desenrolar dos acontecimentos o conduzir à prisão, decide concretizar na realidade o projecto gorado no domínio simbólico. Gradualmente, desmaterializa-se diante dos nossos olhos (e que belas e fortes são as imagens do protagonista na sua minúscula cela, entregue ao seu duelo com o guarda). Não são precisos efeitos especiais. A invisibilidade é uma condição, um mero atributo. E ei-lo agora fantasma, fruto de um milagre que não o é. O único milagre é a ausência de solução de continuidade. O dilema do filme, que se confunde com o próprio filme, é resolvido com um desplante tão natural e poderoso como o sorriso malicioso que se desenha nos lábios deste arrombador educado. Haveria muito a dizer ainda sobre "Ferro 3". Os jogos entre diferentes planos reflectores, a profundidade de campo explorada com destreza e elegância, a maneira como vingança, redenção e dádiva se intercalam para compor uma complexa dimensão moral, típica dos filmes deste realizador. Contento-me em dizer que foi agradável confirmar a minha apetência por filmes que se reinventam a meio caminho, a partir de uma ruptura voluntária: "The Crying Game" (Neil Jordan), "Choses Secrètes" (Jean-Claude Brisseau), "Lost Highway" (David Lynch) e "Éloge de l'Amour" (Jean-Luc Godard) são outros notáveis exemplos. Talvez se possa argumentar que "Ferro 3", afinal de contas, vai menos longe do que qualquer um destes, em termos de cesura auto-imposta. É possível. Tudo depende de estarmos a falar da realidade ou da metáfora.

domingo, setembro 10, 2006

DARWIN É EVOLUÇÃO: Não se confirmaram os piores receios: do simpósio à porta fechada que Bento XVI ( Ratzinger) organizou, não saiu uma declaração de apoio a teorias anti-científicas como o criacionismo, ou ao "Intelligent Design", sua versão cool e pós-moderna. Num mundo regido pela sanidade, as decisões de um grupo de cavalheiros no Vaticano, acerca de um assunto relativamente ao qual carecem de competência e de autoridade para opinar, não deveria merecer mais do que indiferença. No entanto, o realismo obriga-nos a admitir que o beneplácito de Roma poderia constituir perigoso encorajamento para aqueles que fizeram da introdução de absurdas teorias anti-darwinistas no sistema escolar norte-americano a batalha das suas vidas. É por isso, e apenas por isso, que hesito em fazer minhas estas palavras de PZ Myers no Pharyngula: «While we can be pleased that the Vatican hasn't found common cause with another institutional enemy of good science, ultimately their decision is irrelevant. "Eppur si muove," and all that—the world keeps spinning, the alleles keep changing, biological history has happened, and all the dogma of old men in funny hats won't change that.» Lamentavelmente, os dogmas que emanam das cabeças ornadas com chapéus ridículos têm um impacto real (quanto mais não seja por culpa de uma comunicação social acrítica e demasiado acomodada aos rapapés e à complacência com as enormidades da Igreja católica). Ainda a este propósito, também não me escapou esta patética carta aberta. Nem vale a pena comentar o miserável nível científico. O texto deste ilustre criacionista é a sua própria caricatura, e todo ele, caro Vasco, mereceria sublinhado. Sendo ingrata a escolha, acho ainda assim que o meu naco preferido é o referente às leis das probabilidades e da causalidade corroborarem a criação, e não a evolução. Paira a dúvida sobre se o autor do livro é ignorante em probabilidades, em biologia, ou em ambas. Se eu enviar uma carta aberta ao "Público" será que ma publicam?

sexta-feira, setembro 08, 2006

DE TRINCHEIRAS E DOS SEUS LADOS (3): Caro Rui, compreendo o seu ponto de vista. Vejamos, contudo, para que serve uma manifestação. Serve, na grande maioria dos casos, para dar voz a uma reivindicação. Quando se trata de fanáticos, parece-me difícil justificar o propósito de uma manifestação. Qual seria a sua finalidade? Pedir aos fanáticos que se abstenham de matar e de semear o terror? Em certos casos, reagir nas ruas ao fanatismo criminoso parece-me algo de compreensível, e talvez não completamente destituído de eficácia. Penso, por exemplo, no movimento "Basta Ya!", como resposta aos assassinatos da ETA. Porém, aquilo que pode fazer algum sentido no contexto de uma comunidade pequena, e perante um movimento terrorista de alcance local que necessita de um mínimo de apoio da população para sobreviver, carece de pertinência face ao terrorismo hiper-globalizado e hiper-mediatizado. Solicitar aos senhores da Al-Qaida, de megafone em punho, o favor de não fazerem mal às pessoas honestas, assemelhar-se-ia a uma farsa grotesca. Pior ainda: estaria demasiado próximo de um abjecto pedido de clemência. E valerá a pena fazer manifestações contra o terrorismo apenas para "equilibrar" as manifestações dirigidas a líderes democráticos? (O tal princípio de vaiar também a equipa visitante.) As primeiras seriam, forçosamente, eventos catárticos, desabafos incapazes de anular as segundas, eminentemente reivindicativas. Poderiam funcionar como factor de coesão de uma comunidade que se sente ameaçada, e assim exercer um efeito positivo. Porém, o meu cepticismo mantém-se. Uma manifestação implica um interlocutor, e os facínoras não se prestam a esse papel.