MANET NUM DOMINGO EM TELHEIRAS COM MUITO VENTO:

Nunca tinha prestado atenção a este quadro ("Le Christ Aux Anges", de Manet) até o ver mencionado e comentado por Delfim Sardo, durante o ciclo de conferências sobre arte contemporânea que decorreu recentemente na Culturgest.

Nunca tinha prestado atenção a este quadro ("Le Christ Aux Anges", de Manet) até o ver mencionado e comentado por Delfim Sardo, durante o ciclo de conferências sobre arte contemporânea que decorreu recentemente na Culturgest.
Citando de memória, e confundindo, provavelmente, as ideias de Sardo com as do crítico Thierry de Duve (que ele mencionou), a singularidade deste quadro assombroso reside, antes de mais, na posição do Cristo: sentado, numa postura que possui o abandono do cadáver, mas à qual não falta uma certa majestade. O tema da ressurreição iminente (ou já a decorrer) encontra um equivalente pictórico na ambiguidade da postura. Afastando-se das representações consagradas pela pintura ocidental, nomeadamente as "pietà", Manet denota a mortalidade do filho do Homem através da lassidão muscular que desmente aquela que poderá ser a primeira impressão de um espectador que descubra o quadro: a impressão de estar perante um rei sentado no seu trono.
A esta ambiguidade latente, Manet acrescenta um nível suplementar, de natureza cronológica: o corpo do Cristo sofre um processo que se prolonga no tempo. Ao passo que o corpo é o de um homem morto, as feições evidenciam já o regresso à vida. A presença dos dois anjos (o da esquerda ainda atormentado pelo desgosto, o da direita ciente do que está a ocorrer) reforça a existência de dois momentos, um antes e um depois que enquadram o processo contínuo da ressurreição.
Assim, à execução deste quadro terá presidido a ambição de representar um processo dinâmico, o movimento de um estado de coisas para um novo estado. Tendo em conta aquilo que a evolução da Arte trouxe nos cento e tal anos que se seguiram a este quadro (que data de 1864), não será exagerado atribuir a este propósito de Manet um potencial revolucionário.
(A ferida no flanco de Jesus aparece, no quadro, do lado esquerdo. Tratou-se de um erro factual perfeitamente deliberado da parte do artista, talvez no intuito de traduzir por meio de uma inverosimilhança histórica o carácter conceptualmente invulgar do quadro.)



