quarta-feira, maio 30, 2007

ENTRE OS JACARANDÁS E AS FILAS PARA OS CHURROS: Em tempos, por via do trop-plein de energia anímica típico de um recém-chegado à blogosfera, deu-me para recensear títulos bizarros de obras avistadas na Feira do Livro de Lisboa. Sem o furor quase sistemático dessa era gloriosa, as modestas incursões deste ano permitiram-me acrescentar alguns espécimes de bom calibre à minha colecção. Das heróicas Edições Mortas, destacam-se, entre muitos outros, "Malgas de Peçonha", de Virgílio Liquito (a capa não desmerece do título) e "Punhetas de Wagner", de A. da Silva O. Porém, há que reconhecer que até estes portentos empalidecem perante o arrojo de "Morri! E Agora?", uma obra que põe o dedo na ferida com a veemência dos predestinados. Assinale-se ainda a presença na Feira de dois ministros do actual governo, de um popular blogger e de muitos anónimos.

terça-feira, maio 29, 2007

XADREZ: Segundo o livro "Life of Paul Morphy in the Vieux Carré of New-Orleans and Abroad", de Regina Morphy-Voitier, o lendário xadrezista Paul Morphy tinha por hábito andar de um lado para o outro na varanda da sua casa, murmurando as palavras «Il plantera la bannière de Castille sur les murs de Madrid au cri de Ville gagnée, et le petit Roi s’en ira tout penaud». Até hoje, ninguém foi capaz de determinar a origem desta citação, de acordo com o historiador de xadrez Edward Winter. (Contextualização nº 1: Paul Morphy (1837-1884) foi um dos jogadores mais notáveis da segunda metade do século XIX. Os Estados Unidos da América produzem campeões de xadrez de classe mundial com exasperante infrequência. Quando o fazem, porém, nunca se trata de um mangas-de-alpaca banalmente genial: a aura de mistério e um carisma mais ou menos delirante estão garantidos.) (Contextualização nº 2: Edward Winter é conhecido por levar a atenção pelo detalhe irrelevante a níveis que poucos se atrevem a tentar superar. Pode-se contar com ele para devotar dezenas de linhas à ortografia do nome de um amador que empatou com Capablanca numa simultânea, ou aos licores servidos num banquete onde participou Lasker. As suas "Chess Notes" são um manancial de esdrúxula erudição.)

sexta-feira, maio 25, 2007

PANOS: «Realiza-se pela segunda vez o festival de encerramento dos PANOS, um projecto que alia o teatro escolar/juvenil à nova dramaturgia. Inspirando-se no NT Connections do National Theatre de Londres, todos os anos há peças novas encomendadas a escritores reconhecidos, com apenas duas condições: escreverem para actores entre os 12 e os 18 anos; preverem um tempo de espectáculo não superior a uma hora.» Escritores reconhecidos? Só se for na acepção de "reconhecido aos jovens actores que, durante estes meses, se debateram com a transposição para a cena do meu indigesto entremez". Neste fim-de-semana, na Culturgest. Há ainda peças de Ali Smith e de Armando Silva Carvalho para ver. Horários e mais informações aqui.

quinta-feira, maio 17, 2007

AMEIXAS MADURAS E BARATAS! PRIMEIRA QUALIDADE! VENHAM COMPRAR!: No filme "O Comerciante das Quatro Estações", de Fassbinder, recentemente exibido pela Cinemateca com legendas em francês e português, o responsável pela versão portuguesa traduziu por "gira" uma palavra alemã (que não identifiquei) que o tradutor francês converteu em "bandante". Reticências repletas de pudor do tradutor português? Ou lúbrica malícia do tradutor francês? Este filme está longe de ser um dos meus Fassbinders preferidos, mas a margem deste post é demasiado pequena para eu explicar porquê.

terça-feira, maio 15, 2007


Segundo a embaixadora do Brasil no Vaticano, Lula afirmou ao papa que vai "preservar e consolidar o país como estado laico".






Luiz Inácio Lula da Silva, presidente democraticamente eleito de uma nação soberana e livre, sem qualquer obrigação de prestar vassalagem ao Vaticano, esse estado de duvidosa legitimidade cujas principais exportações são o desplante, o dogma, a arrogância e a intromissão nos assuntos alheios.

terça-feira, maio 08, 2007


O grupo Teatroàparte levará à cena, nos próximos dias 11, 12, 18 e 19, no auditório da Biblioteca Orlando Ribeiro (Telheiras, Lisboa) a peça "A Casa de Lorca", baseada em "A Casa de Bernarda Alba", de Federico García Lorca. A encenação é de Jorge Parente. Mais pormenores aqui.



Estão assim explicados os sorrisos cúmplices que os telheirenses trocam na rua, para estupefacção dos forasteiros.




VÍCIOS PÚBLICOS 1 - VÍCIOS PRIVADOS 0: No seu estudo biográfico "A Private Life of Henry James", Lyndall Gordon sustenta que "o Mestre" se comportou de forma abominável e negligente com duas mulheres que influenciaram grandemente a sua vida e a sua obra: a sua prima Minny Temple e a romancista Constance Fenimore Woolson. Muito mais do que as asserções pouco abonatórias sobre o carácter e a atitude de Henry James, chocou-me até às mais recônditas concavidades do meu ser a revelação de que ele preparou uma versão para teatro de "Daisy Miller" em que a heroína, em vez de morrer tragicamente na sequência da visita nocturna ao Coliseu, casa com o canastrão Winterbourne. Atentar contra a própria integridade artística para atingir a glória e a popularidade fica tão mal numa biografia como uma nódoa de coulis de framboesa numa toalha de linho branco.
O MÉRITO PREMEIA-SE: De acordo com o documentário incluído no DVD de "Caravaggio", as últimas palavras do realizador Derek Jarman terão sido: "Espero que o mundo se encha de patos amarelos e fofinhos". Qualquer que seja o futuro que a posteridade reserve ao seu legado artístico, ninguém com um pingo de vergonha na cara lhe negará o galardão de "mais original e divertido derradeiro fôlego de sempre". Outros prémios aparentados: Melhor ideia para epitáfio: "I told you I was sick!" (Spike Milligan). Melhor resposta à pergunta "O que é que ainda lhe falta fazer na sua longa carreira?": "Tocar com o calcanhar na parte de trás da cabeça" (George Burns). Melhor título de sempre: é minha firme convicção de que esta distinção perdeu razão de ser desde que, em 1986, o alemão Wolf Wondratschek lançou o seu "Carmen oder Bin ich das Arschloch der achtziger Jahre" ("Carmen ou serei eu o cara de cu dos anos 80"), dessa forma aniquilando a concorrência com efeitos perpétuos.

sábado, maio 05, 2007

O AR DO TEMPO: Muito em breve, aqui no Umblogsobrekleist, procederemos à separação das nossas redes de cabo e cobre. Não perca este momento histórico! (Nós não queríamos separá-las, mas obrigaram-nos.) A propósito, alguém tem um canivete suíço que nos possa emprestar?

sexta-feira, abril 27, 2007

JÁ PARA NÃO FALAR DO COLEÓPTERO NA VARANDA DO SÃO JORGE: Local: Lisboa. Ocasião: filme de Hal Hartley no IndieLisboa, com presença do próprio, que é como quem diz do mesmo. Hartley, altíssimo, desengonçado, com cara de eterno adolescente, revela à audiência aquilo que as pessoas dizem do seu filme: que é "funny and sad", e que as pessoas falam muito depressa. Toca o telemóvel do apresentador português. Hartley: "Your cell phone is ringing. It's someone to tell you that: the film is funny and sad". Antes do filme propriamente dito, o público é entretido com sugestões publicitárias. Luís Represas canta e interrompe-se no anúncio da cerveja Bohemia. Há quem se dê ao trabalho de bater palmas trocistas, para gáudio de muitos. Hal Hartley deve ter ficado com a impressão de que Luís Represas é um ídolo de portentosa envergadura, e que os portugueses são um povo que ama os seus trovadores com paixão. O filme é bom, talvez demasiado na linha de "Henry Fool", de que é uma sequela explícita. Parker Posey é uma actriz que dá gosto ver. Constrói uma personagem perante os nossos olhos, mas dando a impressão de a habitar desde sempre. Corresponde na perfeição ao ideal hartleyano de lisura expressiva e bizarria isenta de cabotinismo. Os meus filmes preferidos de Hartley são "Simple Men" e "Flirt".
E POR FALAR EM TEATRO: Vem estrondosamente a propósito mencionar este blog, de um veterano nestas andanças, onde é divulgado teatro intra e extra-Porto.
TUDO É SUSCEPTÍVEL DE TEATRO: E, com Rivette como patrono, tudo fica mais suculento e resplandecente.
MAS SÃO TRÊS DESEJOS, NÃO É POSSÍVEL: Ribeiro e Castro selou o seu destino quando comparou Paulo Portas a um ovo Kinder. Fosse eu militante de um partido político, perante a contingência de escolher um novo líder, não hesitaria entre um ser de carne, osso e tendão e um ovo de chocolate com surpresa no interior. Não há indeciso que resista a estes tristes golpes de retórica.

domingo, abril 22, 2007

UM CIDADÃO REIVINDICA: Eu não quero ser tratado pelos poderes públicos como uma pessoa. Exijo ser tratado como um número.
LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Uma jovem lia "O Vermelho e o Negro", de Stendhal, na linha vermelha do metro. Estava vestida de negro. Não existe nenhuma linha negra no metro. O livro era uma edição antiga da Portugália.

segunda-feira, abril 16, 2007

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: No comboio Porto-Braga, um jovem lia Brecht em francês: "L'Opéra de Quat' Sous".
PARA SEMPRE: «(...)Perguntas-me se estarás para sempre ali, e eu digo: não estarei para sempre.» (Fiama Hasse Pais Brandão, in "Epístolas e Memorandos", Relógio d'Água, 1996.) 1 - Rasurar a palavra "não". 2 - Reler os versos.
RAZÕES PARA O SILÊNCIO: Este blog é, sempre foi, um trabalho de ódio. E o ódio, mesmo sem nunca esmorecer, manifesta-se por intermitências.

domingo, abril 01, 2007

MANET NUM DOMINGO EM TELHEIRAS COM MUITO VENTO:




Nunca tinha prestado atenção a este quadro ("Le Christ Aux Anges", de Manet) até o ver mencionado e comentado por Delfim Sardo, durante o ciclo de conferências sobre arte contemporânea que decorreu recentemente na Culturgest.

Citando de memória, e confundindo, provavelmente, as ideias de Sardo com as do crítico Thierry de Duve (que ele mencionou), a singularidade deste quadro assombroso reside, antes de mais, na posição do Cristo: sentado, numa postura que possui o abandono do cadáver, mas à qual não falta uma certa majestade. O tema da ressurreição iminente (ou já a decorrer) encontra um equivalente pictórico na ambiguidade da postura. Afastando-se das representações consagradas pela pintura ocidental, nomeadamente as "pietà", Manet denota a mortalidade do filho do Homem através da lassidão muscular que desmente aquela que poderá ser a primeira impressão de um espectador que descubra o quadro: a impressão de estar perante um rei sentado no seu trono.

A esta ambiguidade latente, Manet acrescenta um nível suplementar, de natureza cronológica: o corpo do Cristo sofre um processo que se prolonga no tempo. Ao passo que o corpo é o de um homem morto, as feições evidenciam já o regresso à vida. A presença dos dois anjos (o da esquerda ainda atormentado pelo desgosto, o da direita ciente do que está a ocorrer) reforça a existência de dois momentos, um antes e um depois que enquadram o processo contínuo da ressurreição.

Assim, à execução deste quadro terá presidido a ambição de representar um processo dinâmico, o movimento de um estado de coisas para um novo estado. Tendo em conta aquilo que a evolução da Arte trouxe nos cento e tal anos que se seguiram a este quadro (que data de 1864), não será exagerado atribuir a este propósito de Manet um potencial revolucionário.

(A ferida no flanco de Jesus aparece, no quadro, do lado esquerdo. Tratou-se de um erro factual perfeitamente deliberado da parte do artista, talvez no intuito de traduzir por meio de uma inverosimilhança histórica o carácter conceptualmente invulgar do quadro.)
NOSTALGIA AO RITMO DE SIMON E GARFUNKEL: Where have you gone, Tarcísio Meira, a nation turns its lonely eyes to you.