
Nunca tinha prestado atenção a este quadro ("Le Christ Aux Anges", de Manet) até o ver mencionado e comentado por Delfim Sardo, durante o ciclo de conferências sobre arte contemporânea que decorreu recentemente na Culturgest.





(Francis Bacon, "Head VI", 1949)
(Vilhelm Hammershøi, "Weisse Türen/Offene Türen", 1905)

Isto é um dispositivo de aquisição de electroencefalografia (EEG). Uma rede de eléctrodos é colocada junto ao escalpe, e os potenciais eléctricos locais são registados para posterior processamento. Estes potenciais eléctricos reflectem a actividade dos neurónios corticais. Sucede que estes potenciais são de fraca intensidade (algumas dezenas de microvolt, em média), e que o registo é fortemente afectado pela dispersão eléctrica ocasionada pelas camadas de tecido que separam o cérebro do escalpe (meninges, osso, pele). Por maioria de razão, estas dificuldades acentuar-se-iam caso a intenção fosse registar o electroencefalograma do feto dentro do útero, devido à presença de camadas adicionais de tecido com diferentes condutividades eléctricas, para além da interferência provocada pelos potenciais cardíacos da mãe.
Uma pesquisa simples permitiu-me esclarecer, pelo menos em parte, esta questão. Todas as referências a "EEG fetal" que encontrei referem-se: ou a registos obtidos em prematuros, ou a registos obtidos na sequência de abortos por cesariana. Como este último método caiu em desuso, e como os registos de prematuros dizem normalmente respeito a períodos de gestação superiores às 20 semanas, as referências bibliográficas citadas em apoio da ocorrência de ondas cerebrais antes das 10 semanas remetem para estudos realizados há várias décadas. Isso mesmo explica este notável artigo, que desmonta, de forma sistemática, a teia de citações científicas que têm servido de muleta aos adeptos da actividade cerebral prematura. Citar é fácil; citar bem e com honestidade é tarefa mais delicada. Este artigo relembra-nos que um nome e uma publicação não conferem, por artes mágicas, veracidade e consistência a uma afirmação.
Infelizmente, poucas coisas no mundo são mais obstinadas do que os factóides: até há algumas horas atrás, no artigo "fetus" da Wikipedia lia-se:
«Brain activity can be detected at around 54 days (eight weeks), and development of integrated brain functioning at 70 days (ten weeks).»
Algumas revisões depois, esta frase foi substituída por uma versão mais conservadora:
«Brain-stem activity has been detected 54 days after conception.»
Na versão da página que está activa enquanto escrevo estas linhas, vai-se ainda menos longe:
«While there has been some contention brain activity begins at ten weeks, researchers have yet to make a determination.»
É ainda instrutivo dar uma olhadela no intrincado historial desta página, assim como nas inflamadas (e, obviamente, percorridas por linhas argumentação "pró-vida" e "pró-escolha") discussões que têm acompanhado estes recentes e vertiginosos esforços de edição.
Claro está que este pomo da discórdia, não sendo académico, está longe de merecer uma atenção obsessiva: definir o início da vida por meio de algo de tão vago como "actividade cerebral" é, no mínimo, controverso. Os neurónios são, por natureza, células excitáveis, cujas flutuações de polaridade, ao nível das membranas podem ser detectados do exterior, sob a forma de potenciais eléctricos. Porém, a mera existência de um registo electroencefalográfico não é sinónimo de vida. As funções cerebrais superiores, e mesmo um "simples" estado de sono ou vigília, são caracterizados por padrões e ondas muito específicos e bem conhecidos. Mas claro que estas considerações são demasiado complexas para caberem num folheto de propaganda.
De simples, a questão não tem nada. Para mal dos nossos pecados, simplificar de forma grosseira aquilo que é complexo é estratégia comum daqueles a quem a argumentação racional faz alergia. Por isso, da próxima vez que algum peremptório representante do movimento "Algarve pela Vida" ou "Caldas da Rainha Ocidental pela Vida" se pronunciar sobre o momento em que começa a vida humana, pergunte-lhe de onde provém a sua inabalável certeza. Mesmo num tempo em que a discussão serena e ponderada parece fora da ordem do dia, insistir na necessidade de sustentar afirmações levianas com factos concretos é um favor que se faz à comunidade.
Em "Moll Flanders", Daniel Defoe entrega-se a longos e pragmáticos discursos sobre a necessidade de os nubentes inquirirem sobre a real situação financeira do candidato a cônjuge, antes de se decidirem a dar o nó. Quase se poderia falar de um pequeno tratado dentro do romance, tal é a insistência e exaustividade com que o assunto é abordado.
Com perturbadora frequência, apercebemo-nos de que as respostas para os problemas da vida real se encontram, preto no branco, nas páginas da grande literatura, muitas vezes em obras com idade plurissecular. A qualquer pessoa que alimente ilusões sobre uma eventual ingenuidade das gentes de outrora (por oposição ao sofisticado cinismo que medra nos iníquos tempos modernos) recomendo a leitura de algumas dezenas de páginas de Balzac, Swift, Laclos ou Fielding. É quanto basta.
Detesto ler o adjectivo "obrigatório" a propósito de um filme, livro ou exposição. Neste caso, porém, a tentação é fortíssima. Se não se trata de um filme obrigatório, pelo menos é uma oportunidade rara a que qualquer cinéfilo que se preze deve estar atento. No próximo dia 20, sábado, às 19h, na Cinemateca, passa "Paris Nous Appartient", primeira longa-metragem do meu adorado Jacques Rivette. Paris, o teatro e a conspiração, já presentes neste filme magnificamente desconcertante.
(Tentarei escrever sobre este filme antes da data da sua exibição. Da maneira como as coisas têm estado, mais vale não prometer seja o que for. )
Que vos seja frutuoso o exercício da subtil arte de Talma durante o próximo ciclo solar!
John S. Carlile (1817-1878), político norte-americano, senador do estado da Virgínia, apoiante da causa unionista durante a guerra da Secessão.
José Barroso, emigrante português de sucesso.
A folha que acompanhava este filme era da autoria de Antonio Rodrigues. Gostei bastante de a ler. Nela são feitos numerosos paralelismos entre este filme e obras posteriores de Rohmer, mas também são apontadas diferenças de monta. Ao ler a folha, porém, estranhei a omissão de uma referência (que eu recordava muito confusamente ter lido) à semelhança entre o motivo astrológico que preside ao filme (o signo do Leão) e outras manifestações de destino/azar/fatalidade que viriam a ser muito abundantes na obra rohmeriana.
Onde teria eu lido essa referência? Ao chegar a casa, verifiquei que a folha emitida pela Cinemateca aquando da exibição do mesmo filme em Julho de 1999 era diferente, e tinha como autor João Lopes. Li-a com avidez compreensível. O principal elo apontado por JL entre este filme e os restantes deste cineasta tem a ver com a presença do elemento moral. Aqui, inclino-me mais a concordar com Antonio Rodrigues quando ele escreve que "Le Signe du Lion" «é um conto (nem moral nem moralista)». A existir em "Le Signe du Lion", a moral apareceria de um modo quase puritano (e pouco subtil), redutível ao repúdio pelo dinheiro, radicalmente diferente do prevalecente nos "Contos Morais", onde se exprime essencialmente ao nível dos comportamentos humanos, e da fugidia fronteira entre livre-arbítrio, determinação e aleatoriedade.
Mas adiante. Continuava eu, depois disto, sem saber onde teria lido (se é que a li) a tal sugestão de analogia entre o Zodíaco, caprichoso e soberano, e os seus múltiplos sucedâneos que povoam os enredos rohmerianos. Continuo sem saber.
Encontrar pontos de contacto entre "Le Signe du Lion" e outros filmes de Rohmer é um ensejo natural e compreensível. E não me parece tarefa particularmente complicada. Por exemplo, o súbito e inesperado desenlace (o protagonista, devido a um acidente de automóvel a muitos quilómetros de distância, passa da indigência à condição de herdeiro rico) pode ser aproximado ao reencontro entre a protagonista de "Conte d'Hiver" e o amante, perdido anos antes por uma estúpida questão de endereço enganado, ou então do também súbito (mas não totalmente inesperado) desenlace de "Le Rayon Vert", em que a personagem de Marie Rivière observa finalmente o fenómeno atmosférico que perseguia com obstinação.
A ocorrência de uma improvável conjunção de acontecimentos que, à revelia da personagem principal, transforma um impasse num desfecho venturoso faz lembrar as cenas finais de "Conte d'Été" (os telefonemas recebidos por Melvil Poupaud, ultrapassado pelos acontecimentos mas, estranhamente, nunca parecendo deixar de ser dono do seu destino).
O mais notável, no entanto, é sentir como esta tarefa transcende o âmbito da crítica, da historiografia e da paixão cinéfila, para se situar num plano onde a felicidade e a realização pessoal também ocupam o seu espaço. Como se encontrar coerência na obra de um realizador de cinema digno da nossa estima equivalesse a verificar a integridade de um vínculo de confiança que nos une a ele.
(Éric Rohmer tem um novo filme em fase de acabamento. Chama-se "Les Amours d'Astrée et de Céladon".)
Terão lugar nos próximos dias 8, 9 e 10 as representações da peça "Um por um para dois", pelo grupo teatroàparte, baseada na obra "Talem (Leito Conjugal)", do espanhol Sergi Belbel. Todas as informações relevantes encontram-se na página do teatroàparte, grupo amador da Associação de Residentes de Telheiras, do qual tenho a felicidade de fazer parte.
Frenética, pós-moderna, licenciosa, hilariante, inteligente: são os cinco adjectivos que me ocorrem para qualificar esta peça.
Caso subsistam ainda algumas hesitações, penso que o facto de eu não fazer parte do elenco desta peça deve constituir argumento decisivo para ir assistir.
Não sou fã de séries. Raras vezes me deixo prender por uma. Nunca os (escassos) visionamentos que fiz de "Seinfeld" me despertaram algo que se pudesse confundir com entusiasmo. Mas a minha fidelidade ao "Curb" já se traduzia em nervoso miúdo sempre que, aos sábados à noite, me encontrava longe de casa e da televisão ao aproximar das dez e meia. Acho admirável a maneira como Larry David mistura os registos da sitcom e da reportagem em directo, e a forma como o tom de improvisação potencia os argumentos perversamente bem arquitectados. Vou ter saudades.
(Em condições normais, pensaria em escrever ao provedor da RTP, mas perdi a confiança nele desde que se declarou a favor das transmissões de tourada na televisão, com o argumento de se tratar de um espectáculo legal e de grande adesão popular. Estamos mal quando um provedor se abstém de considerar critérios éticos, e se fica pela vertente jurídica e pelo êxito de bilheteira. Mas divago.)
Foto de Murat Kul, retirada daqui.
Ao fim das doze partidas, o resultado estava empatado (três vitórias para cada lado, incluindo a falta de comparência de Kramnik na quinta partida), pelo que foi necessário recorrer ao desempate em ritmo semi-rápido, onde o russo demonstrou nervos mais sólidos: duas vitórias contra uma de Topalov e um empate. As minhas reacções a esta vitória são as seguintes. CONTENTAMENTO pelo fim de uma cisão de treze anos, provocada por Nigel Short e Garry Kasparov, e que, por melhores que fossem as intenções subjacentes, prejudicou gravemente a imagem da modalidade. SATISFAÇÃO pelo facto de as manobras desonestas e provocatórias do manager de Topalov não terem sido recompensadas com o triunfo final. APREENSÃO quanto ao futuro. Não está ainda inteiramente claro em que moldes serão organizados os próximos campeonatos mundiais, e a lendária incompetência da Federação Mundial de Xadrez (FIDE) para cumprir as suas promessas levanta legítimas inquietações. Para já, está previsto um torneio, no México, em 2007, no qual Kramnik deverá defender o seu título. Mas existem ainda fortes dúvidas sobre quem participará nesse torneio, e sobre o formato do próximo ciclo do campeonato mundial. CEPTICISMO quanto às relações futuras entre a FIDE e o novo campeão. Kramnik revela, longe dos tabuleiros, o mesmo calculismo e frieza, por vezes à beira do cinismo, que o caracterizam como jogador. Foi praticamente forçado, por uma questão de credibilidade, a disputar este match de reunificação, mas nunca escondeu que se considerava já campeão do mundo, invocando a legitimidade que advinha da vitória sobre o último campeão incontestado (Kasparov, em Londres, 2000). Durante o encontro de Elista, após o foco de controvérsia que originou a sua ausência da quinta partida, Kramnik deixou bem claro que, mesmo que saísse derrotado no final, continuaria a considerar-se campeão do mundo, jogando assim em dois tabuleiros: o desportivo e o moral/jurídico. Isto equivale a comer o bolo e querer ainda guardá-lo na despensa. Não me admiraria que, num futuro próximo, ao mínimo desacordo, Kramnik rompa com a FIDE, de quem com tanta relutância se aproximou, e regresse à sua postura primitiva, reivindicando o seu estatuto de campeão "clássico", na continuação de Kasparov, Karpov, Fischer, numa linha contínua (ou quase...) que já abarca três séculos e que começa com Steinitz, em 1886. Aguardemos, pois, pelo desenrolar dos acontecimentos.