sexta-feira, abril 27, 2007

JÁ PARA NÃO FALAR DO COLEÓPTERO NA VARANDA DO SÃO JORGE: Local: Lisboa. Ocasião: filme de Hal Hartley no IndieLisboa, com presença do próprio, que é como quem diz do mesmo. Hartley, altíssimo, desengonçado, com cara de eterno adolescente, revela à audiência aquilo que as pessoas dizem do seu filme: que é "funny and sad", e que as pessoas falam muito depressa. Toca o telemóvel do apresentador português. Hartley: "Your cell phone is ringing. It's someone to tell you that: the film is funny and sad". Antes do filme propriamente dito, o público é entretido com sugestões publicitárias. Luís Represas canta e interrompe-se no anúncio da cerveja Bohemia. Há quem se dê ao trabalho de bater palmas trocistas, para gáudio de muitos. Hal Hartley deve ter ficado com a impressão de que Luís Represas é um ídolo de portentosa envergadura, e que os portugueses são um povo que ama os seus trovadores com paixão. O filme é bom, talvez demasiado na linha de "Henry Fool", de que é uma sequela explícita. Parker Posey é uma actriz que dá gosto ver. Constrói uma personagem perante os nossos olhos, mas dando a impressão de a habitar desde sempre. Corresponde na perfeição ao ideal hartleyano de lisura expressiva e bizarria isenta de cabotinismo. Os meus filmes preferidos de Hartley são "Simple Men" e "Flirt".
E POR FALAR EM TEATRO: Vem estrondosamente a propósito mencionar este blog, de um veterano nestas andanças, onde é divulgado teatro intra e extra-Porto.
TUDO É SUSCEPTÍVEL DE TEATRO: E, com Rivette como patrono, tudo fica mais suculento e resplandecente.
MAS SÃO TRÊS DESEJOS, NÃO É POSSÍVEL: Ribeiro e Castro selou o seu destino quando comparou Paulo Portas a um ovo Kinder. Fosse eu militante de um partido político, perante a contingência de escolher um novo líder, não hesitaria entre um ser de carne, osso e tendão e um ovo de chocolate com surpresa no interior. Não há indeciso que resista a estes tristes golpes de retórica.

domingo, abril 22, 2007

UM CIDADÃO REIVINDICA: Eu não quero ser tratado pelos poderes públicos como uma pessoa. Exijo ser tratado como um número.
LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Uma jovem lia "O Vermelho e o Negro", de Stendhal, na linha vermelha do metro. Estava vestida de negro. Não existe nenhuma linha negra no metro. O livro era uma edição antiga da Portugália.

segunda-feira, abril 16, 2007

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: No comboio Porto-Braga, um jovem lia Brecht em francês: "L'Opéra de Quat' Sous".
PARA SEMPRE: «(...)Perguntas-me se estarás para sempre ali, e eu digo: não estarei para sempre.» (Fiama Hasse Pais Brandão, in "Epístolas e Memorandos", Relógio d'Água, 1996.) 1 - Rasurar a palavra "não". 2 - Reler os versos.
RAZÕES PARA O SILÊNCIO: Este blog é, sempre foi, um trabalho de ódio. E o ódio, mesmo sem nunca esmorecer, manifesta-se por intermitências.

domingo, abril 01, 2007

MANET NUM DOMINGO EM TELHEIRAS COM MUITO VENTO:




Nunca tinha prestado atenção a este quadro ("Le Christ Aux Anges", de Manet) até o ver mencionado e comentado por Delfim Sardo, durante o ciclo de conferências sobre arte contemporânea que decorreu recentemente na Culturgest.

Citando de memória, e confundindo, provavelmente, as ideias de Sardo com as do crítico Thierry de Duve (que ele mencionou), a singularidade deste quadro assombroso reside, antes de mais, na posição do Cristo: sentado, numa postura que possui o abandono do cadáver, mas à qual não falta uma certa majestade. O tema da ressurreição iminente (ou já a decorrer) encontra um equivalente pictórico na ambiguidade da postura. Afastando-se das representações consagradas pela pintura ocidental, nomeadamente as "pietà", Manet denota a mortalidade do filho do Homem através da lassidão muscular que desmente aquela que poderá ser a primeira impressão de um espectador que descubra o quadro: a impressão de estar perante um rei sentado no seu trono.

A esta ambiguidade latente, Manet acrescenta um nível suplementar, de natureza cronológica: o corpo do Cristo sofre um processo que se prolonga no tempo. Ao passo que o corpo é o de um homem morto, as feições evidenciam já o regresso à vida. A presença dos dois anjos (o da esquerda ainda atormentado pelo desgosto, o da direita ciente do que está a ocorrer) reforça a existência de dois momentos, um antes e um depois que enquadram o processo contínuo da ressurreição.

Assim, à execução deste quadro terá presidido a ambição de representar um processo dinâmico, o movimento de um estado de coisas para um novo estado. Tendo em conta aquilo que a evolução da Arte trouxe nos cento e tal anos que se seguiram a este quadro (que data de 1864), não será exagerado atribuir a este propósito de Manet um potencial revolucionário.

(A ferida no flanco de Jesus aparece, no quadro, do lado esquerdo. Tratou-se de um erro factual perfeitamente deliberado da parte do artista, talvez no intuito de traduzir por meio de uma inverosimilhança histórica o carácter conceptualmente invulgar do quadro.)
NOSTALGIA AO RITMO DE SIMON E GARFUNKEL: Where have you gone, Tarcísio Meira, a nation turns its lonely eyes to you.
COMPATIBILIDADE: Serão Bertrand Russell e o tiramisù duas realidades mutuamente compatíveis? São. Acredita que o são, caro leitor, e nunca deixes que alguém te tente convencer do contrário.

quarta-feira, março 28, 2007

A DOIS MINUTOS DOS GELADOS BEN & JERRY'S: No próximo sábado, dia 31, a partir das 18h30, estarei presente na sessão "Instantâneos da Nova Ficção Portuguesa", no Teatro Municipal São Luiz, em Lisboa. Estarei na boa companhia de Cláudia Clemente, José Luís Peixoto e Gonçalo M. Tavares, a quem caberá dizer coisas interessantes sobre a ficção portuguesa, ao passo que eu trarei CDs de música dos anos 80 para animar a malta, como por exemplo Human League, ABC, Frankie Goes to Hollywood, Propaganda e Housemartins.

terça-feira, março 27, 2007

CINEMA: «Falling in love with style is a temptation a critic learns to be wary of: it's easy to be bedazzled by a film's rhetoric before you even think of asking whether it has anything to say. But why shouldn't a film's content primarily, or totally, consist of the way it writes itself on to the screen? Curiously, while it is generally seen as legitimate in critical circles to esteem certain examples of genre cinema precisely because they foreground style (John Woo, Michael Mann, Park Chan-wook...), self-consciously extravagant style is often frowned on when a film is perceived as sailing under an arthouse flag.» (Jonathan Romney, "Sight & Sound", Abril 2007, a propósito de um filme de Paolo Sorrentino que eu não vi.) Poderia ser um manifesto, que eu subscreveria sem hesitar, palavra por palavra, com a possível excepção de "extravagant".

segunda-feira, março 26, 2007

A NÃO PERDER: Os textos de João Lopes sobre o último Moretti. (Ainda não vi, mas tenho quase a certeza de que vou gostar.) Dos 5 prometidos, já tivemos direito ao primeiro e ao segundo. Esperamos o terceiro, o quarto e o quinto.
BRANDA SEVERIDADE: Em mais uma das suas imperdíveis crónicas da 2ª feira, João César das Neves, num esmerado exercício de auto-vitimização em que é useiro e vezeiro, fala-nos de um "racismo", dirigido à crença, que grassa na sociedade de hoje; fala-nos de uma Igreja contra a qual existe "desconfiança latente" e "severidade". Provavelmente por habitar em paragens muito longínquas, ou numa cave insonorizada com água potável e conservas para uma vida inteira, JCN ignora que vive numa sociedade que não só não discrimina os crentes, não só não dá mostras de severidade para com a Igreja, mas que, pelo contrário, a trata com uma benevolência que roça, por vezes, a subserviência. Pode até dar-se o caso de JCN ter ouvido falar de um país, chamado "Portugal", no qual a perseguição aos crentes não prima pela ferocidade: a Igreja tem direito a transmissão televisiva das eucaristias, a mensagem de Natal do patriarca, a emissões especiais por ocasião do aniversário da cidadã Lúcia de Jesus dos Santos, a uma Universidade, e, até há bem pouco tempo, a presença no protocolo do Estado. Isto, claro, para não falar de absoluta liberdade de culto. (Estranho racismo este. Ou melhor: estranho emprego da palavra "racismo", que me parece profundamente ofensivo para com aqueles que, ao longo dos séculos, e neste preciso momento, sofreram e sofrem na carne e no ânimo os golpes do verdadeiro racismo.) Portanto, JCN tem razões para se regozijar: nem tudo é tão negro como a sua lúgubre pena o pinta. Quando JCN afirma que «O mundo continua embaraçado perante o dinamismo dos Apóstolos», apetece-me rebater: o mundo continua embaraçado, sem dúvida, mas menos com o dinamismo do que com a desfaçatez de que dão mostras, sem se aperceberem da irrelevância para onde velozmente deslizam, as altas hierarquias da Igreja, quando continuam a tentar influenciar um mundo que lhes escapa, nem que seja por meio da chantagem e da coacção. Entre os exemplos mais recentes: as palavras do papa, admoestando com arrogância os dirigentes da União Europeia por mais uma omissão de referência a "raízes cristãs", ou qualquer outra metáfora botânica que caísse no goto do Vaticano; ou os patéticos apelos à desobediência que se seguem à aprovação de leis fracturantes, como a descriminalização da interrupção voluntária da gravidez ou o casamento de pessoas do mesmo sexo. «Importa mais obedecer a Deus que aos homens» (Act 5, 29), cita JCN. Seria arrepiante, se não fosse tão anacrónico. Isto sim, é embaraçoso.
UMA CERTA TENDÊNCIA...: Ainda a propósito de filmes menores que dão origem a debates maiores, ou vice-versa: há um bom bocado que acalentava a ideia de, com base em dois filmes, ilustrar uma das (lamentáveis) tendências da crítica portuguesa. Os filmes são "Gabrielle", de Patrice Chéreau (que adorei) e "Million Dollar Baby", de Clint Eastwood (de que não gostei mesmo nada). De uma forma geral, a crítica torceu energicamente o nariz ao primeiro e elogiou profusamente o segundo. Até aqui, tudo bem. Deprimente foi constatar que a rejeição do primeiro se deveu, maioritariamente, ao seu suposto "maneirismo" e excesso de ademanes estilísticos, ao passo que, sobre o segundo, choveram encómios por via da sua limpidez formal, só ao alcance do "último dos clássicos". É claro que qualquer crítico é livre de achar que "Gabrielle" peca por exagero no estilo. O problema é ser esta apenas uma instância de uma propensão para castigar tudo o que cheire, ainda que debilmente e à distância, a excesso de zelo formalista. Problema ainda maior é ser essa propensão uma desculpa para não aprofundar a análise de um filme, não averiguar até que ponto as opções formais do realizador são ou não justificadas, não pensar o filme, em suma. Regra geral, um investimento explícito e profundo ao nível da forma é visto como gratuito, e perde na comparação com o apagamento e a neutralidade, sobretudo se nostalgicamente encarados como atributos de um suposto "classicismo" caucionador. Sem dúvida que, para exprimir as minhas ideias sobre o cinema, me agrada mais partir de filmes de que gostei do que daqueles que me foram indiferentes ou (caso de "Babel") que apreciei moderadamente. Este post reflecte mais a minha admiração por "Gabrielle" e por Chéreau (nunca saí desiludido de um filme dele) do que animosidade contra Eastwood, de quem vi pelo menos um filme que me agradou muito ("Midnight in the Garden of Good and Evil"), mas que me parece beneficiar de um estado de graça permanente e difícil de justificar.
EFEITOS BENÉFICOS DA MUDANÇA DE HORA: Por exemplo, este: de manhã, os gatinhos Goneril e Jasmim, que se guiam pelo sol e ignoram o que seja um fuso horário, começam a arranhar a porta e a miar uma hora mais tarde. Pensam que é cedo quando afinal já é tarde, he he he.
UM APELO À CALMA: Senhores da comunicação social, por favor, tenham mais tento quando se trata de noticiar controversas trocas de declarações entre elementos de duas selecções contendoras num importante desafio de futebol internacional. Ânimos mais exaltados podem interpretar as manchetes garrafais como apelos ao desacato e à zaragata. E quem sofre no meio disto? Pois bem, quem sofre é o comércio local das zonas limítrofes dos recintos desportivos onde se desenrola o desafio em questão (no caso vertente o Estádio Alvalade XXI), que corre sérios riscos de vandalização. Estou a pensar, para citar alguns nomes ao acaso, na Telepizza, no Ovo de Colombo (frangos de churrasco para fora), na frutaria Aquário, na padaria Espigasol, na mercearia do Sr. António e noutros pacatos estabelecimentos do sempre formoso bairro de Telheiras.

quinta-feira, março 22, 2007

PRA QUE CONSTE: Sábado, 24 de Março, às 16h30. Nos Espaços JUP, Rua Miguel Bombarda, 187, Porto. APRESENTAÇÃO DA AGUASFURTADAS 10. 10 CONVIDADOS ESCOLHEM 10 OBRAS PUBLICADAS NOS 10 NÚMEROS DA REVISTAAGUASFURTADAS. Com a participação de Carlos Guedes, Daniel Pedrosa, Jorge Palinhos, Luís Trigo, Nelson d'Aires, Nelson Quinhones, Nuno F. Santos, Pedro Carreira de Jesus, Rui Dias, Rui Lage, Rui Penha, Samuel Silva, Sérgio Couto e Virgínia Pinho. (Eu não posso ir, mas aqui fica o meu apelo àqueles que podem ir: vão!)

sexta-feira, março 16, 2007

TELHEIRAS BEAUTY: Através da janela da cozinha, o gato Jasmim seguia com o olhar, tenso e fascinado, um saco de plástico do Aki esvoaçando ao sabor do vento. A ninguém que o observasse poderia escapar a alusão cinéfila ao filme "American Beauty". (A avaliar pelo seu comportamento habitual, porém, a grande referência do Jasmim em matéria de sétima arte é "Sleep", de Andy Warhol.)

sexta-feira, março 09, 2007

AGRADECIMENTO E MUDANÇA DE LEMA, POR ESTA ORDEM: Obrigado a todos aqueles que, com despropositada generosidade, acharam por bem assinalar os 4 anos deste espaço. Os brindes prometidos já seguiram pelo correio, em envelope discreto. O lema deste blog passa a ser: "Aquilo que os outros não dizem, nós sussurramos."
NÃO À DISCRIMINAÇÃO: Quase no fim do seu pletórico número semanal, Marcelo Rebelo de Sousa anuncia o Dia do Rim. Acto contínuo, ao meu lado, Q. formula o desejo de ver celebrado o Dia da Vesícula Biliar.
CINEMA: E ainda uma outra coisa: falar de um filme implica, no todo ou em parte, falar da sua, chamemos-lhe assim, "representação do mundo", o que poderá implicar ou convocar aspectos mais ou menos incipientemente relacionados com a sociologia, mas não muda o essencial e o essencial é que, até prova em contrário, a "representação do mundo" é um problema eminentemente cinematográfico. (Luís Miguel Oliveira) Cem por cento de acordo. Iria até mais longe. Todo o filme pode ser visto sob um ângulo sociológico, assim como todo o filme pode ser visto sob um ângulo político (ainda que não necessariamente num sentido estrito, digamos "costa-gavrasiano" ou "loachiano" do termo). Ao concretizar uma visão do mundo, um filme implica uma atitude perante o meio humano e as suas componentes (pessoas, afectos, tempo, matéria, valores) que é da ordem do político. O que me exaspera não é que se façam leituras políticas a partir de um qualquer filme, mas sim o grau de indigência e de comodismo de que essas leituras, na grande maioria dos casos, se revestem. Nestes casos, com excessiva frequência, o crítico, com mais ou menos divagações e cambalhotas estilísticas pelo meio, pouco mais faz do que pronunciar-se sobre a eficácia e boa fé com que o realizador logrou transmitir a sua mensagem. Infelizmente, a eficácia e a boa fé são questionadas de forma alheia a qualquer critério do foro cinematográfico. Ou seja, o filme é avaliado segundo as suas vertentes de excelência artística e de validade ética, mas raramente enquanto filme. Se exceptuarmos a referência às interpretações e a aspectos técnicos avulsos (música, fotografia), grande parte daquilo que se escreve sobre cinema nos jornais portugueses poderia ser escrito acerca de um livro ou de uma peça. Não faço ideia se isto contribui para esclarecer alguma coisa ou não, mas gostava de fechar a loja de Babel e das suas discussões colaterais. Ninguém me obrigou e se me queixo de alguém é de mim, mas acho que nunca perdi tanto tempo com um filme que, para o dizer curto e grosso, não me interessa em nada e por nada. (Luís Miguel Oliveira) "Babel" não merece que sobre ele se funde um debate destes? Provavelmente, não. Estas questões são infinitamente mais importantes do que este filme. Ultrapassam-no e sobreviver-lhe-ão. Porém, com certeza não preciso recordar que, na história do cinema, não escasseiam exemplos de querelas e intervenções críticas influentes desencadeadas por filmes menores. De entre esses exemplos, destaco obviamente o artigo "De l'Abjection", de Jacques Rivette ("Cahiers du Cinéma", Junho de 1961), a propósito de "Kapo", de Gillo Pontecorvo. Para finalizar: não o disse na altura por relutância em personalizar, e por achar desnecessário, mas Luís Miguel Oliveira, assim como Mário Jorge Torres, Vasco Câmara e João Lopes são, de entre os críticos de cinema que escrevem regularmente na imprensa portuguesa, aqueles que mais admiro. Fosse esta a bitola média da crítica portuguesa e o meu agastamento não se faria ouvir com tanta regularidade.

terça-feira, março 06, 2007

DO CONTEÚDO LÍRICO DO MOMENTO MAGNÉTICO NUCLEAR: Por razões profissionais, dedico um interesse muito grande à Ressonância Magnética Funcional, e é sempre com curiosidade que avalio a maneira como estudos sobre a função cerebral com esta técnica são relatados ou mencionados na imprensa generalista, ou até nos blogs... Em muitos casos, a falta de enquadramento contextual destas imagens de cérebros com lindas manchas coloridas assinalando as regiões activadas deixa-me desconsolado.








Porém, devo reconhecer que a concisão e nível de linguagem exigíveis numa secção de divulgação científica para o grande público não se compadecem com aprofundamentos excessivos.

O que eu nunca teria esperado era ler uma menção a esta técnica na obra de um poeta português contemporâneo:


Ele e ela são corpos músicos
e segundo o olhar dela é ele quem escreve. Ambos
sabem que estão num filme; que são uma imagem
de cinema. Uma imagem inexplicável guardada no cérebro
de alguém: uma ressonância magnética alucinou-a lá.


(Manuel Gusmão, in "Migrações do Fogo", Caminho.)
RECORRENTE FRUSTRAÇÃO CINÉFILA:

"Il Caimano", de Nanni Moretti...





...e "Manderlay", de Lars von Trier.






Dois filmes cujas estreias aguardo há meses, sucessivamente adiadas em nome de critérios que nem me apetece tentar desvendar. Será o Natal, serão os óscares, serão considerações de ordem astrológica, estratégias impenetráveis sustentadas pela aplicação de algoritmos de transcendente complexidade, envolvendo redes neuronais, lógica de Bayes e teoria do caos?

A distribuição de cinema em Portugal parece desligada daquela que se esperaria ser a sua função primordial: antecipar e servir os interesses da sua clientela, ou seja os espectadores de cinema. Em vez disso, deixa-se reger por duvidosas lógicas de mercado, preterindo produtos com impacto potencial elevado (Von Trier e Moretti são dois realizadores de enorme prestígio, com numerosas obras estreadas e apreciadas entre nós) em favor de títulos obscuros, cuja fugaz e pálida passagem pelas salas não deixa o menor rasto.

A contragosto, sou forçado a resignar-me: o futuro da distribuição de cinema deverá passar cada vez mais pelo DVD e pela Internet, e apenas secundariamente pelas salas, dominadas pela hegemonia previsível dos blockbusters. A excepção poderão ser os festivais e cinematecas, cuja adesão me parece em crescendo (ainda ontem, sala cheia na Barata Salgueiro para ver "Stromboli", de Rossellini).

domingo, março 04, 2007

UM REGRESSO DE SAUDAR: Em tempos, fiz constar neste espaço a expressão da minha lástima pelo fim do diário "A Capital". O meu desgosto prendia-se, essencialmente, com o fim da página semanal de xadrez mantida por Luís Santos. Não posso, pois, deixar de manifestar profundo agrado pelo regresso de Luís Santos à imprensa nacional, nas páginas do diário gratuito "Diário Desportivo". Às terças, como nos bons velhos tempos (mas nos restantes dias da semana há estudos e problemas para entreter o aficionado). O figurino mantém-se: actualidade nacional e internacional, e partidas comentadas. Só é de lamentar a pouco eficiente distribuição deste jornal gratuito. Passo todos os dias pela estação de metro do Campo Grande, provavelmente um dos pontos mais concorridos de toda a cidade de Lisboa, e é raro conseguir deitar a mão a um "Diário Desportivo". A minha frustração atingiria níveis incompatíveis com a minha condição de pessoa moderada e afável, se não se desse o caso de Luís Santos publicar regularmente os conteúdos das suas rubricas na sua página. Numa das últimas terças-feiras, o xadrez teve, inclusivamente, direito a chamada de primeira página, com fotografia do grande-mestre arménio Vladimir Akopian, vencedor isolado do forte open de Gibraltar (onde também se destacou a portuguesa Margarida Coimbra, com norma de mestre internacional feminina). Pergunto-me se alguma vez Akopian chegou a saber ter sido assunto de capa num jornal português de grande tiragem. Não seria algo de facilmente prognosticável, mas é também para isto que serve a lei das probabilidades: namoriscar com o inverosímil, e injectar um pouco de alegria neste mundo previsível e grisalho.
JÁ CÁ CANTA:




"Close-Up", de Abbas Kiarostami. Um dos filmes da minha vida. Disponível na excelente colecção de DVDs da Midas Filmes.

quinta-feira, março 01, 2007

OS ANOS: Este blog faz hoje 4 anos. Não existe nisso especial mérito. A translação terrestre e a seta do tempo são os únicos que merecem felicitações, pela sua esplêndida e infalível constância. Ao longo deste último ano, reforçou-se a minha convicção de que o 1bsk não possui nenhuma "razão de ser" que lhe servisse de alicerce ou de impulso dinâmico, e que está condenado a ser aquilo que é: não mais do que a soma das palavras que acolhe. Insistindo nas definições pela negativa, este blog não é, certamente, um "projecto". Assisti já a numerosos blogs que se extinguiram quando o projecto que os sustentava se esvaziou. Trata-se de um conceito que me causa estranheza. Não existe nenhum princípio ou intenção situados num qualquer plano superior ao blog, que lhe confiram sentido ou propósito, e do qual dependa a sua sobrevivência. O 1bsk perdurará, não contra ventos e marés, mas como banal consequência do simples facto de existir. Para além da cor verde, o outro aspecto que me parece indissociável deste blog é a sua condição de objecto gratuito e afuncional. Com efeito, para além de ter mudado a minha vida, ele nunca fez nada por mim.

quarta-feira, fevereiro 28, 2007

CINEMA: O filme "Babel" deu origem a mais um daqueles pitorescos debates sobre o papel da crítica que, de quando em vez, titilam agradavelmente o pequenino meio cinéfilo português. Desta feita, até teve direito a dossier especial no "Público". Pessoalmente, aquilo que achei mais descoroçoante na reacção crítica a esta obra de Alejandro González Iñárritu não foi o quase unâmime tom de reprovação, mas sim o facto de quase todos os pareceres negativos se basearem em critérios extra-cinematográficos. "Babel" foi acusado de quase tudo: de anti-americanismo (primário, como é óbvio), de simplismo, de não ser mais do que um panfleto anti-globalização, de humanismo serôdio. Infelizmente, escassos foram os críticos que não se ficaram por uma empobrecedora leitura sociológica. Quase nenhuma das apreciações que li continha sequer um esboço de uma explicação cabal sobre eventuais insuficiências que o condicionassem enquanto obra de cinema. Na minha opinião, as acusações formuladas contra "Babel", em particular as de anti-americanismo, revelam mais sobre fantasmas da sociedade contemporânea, e sobre o absurdo grau de hiper-sensibilidade dessa mesma sociedade a certas questões, do que sobre o filme em si. Além disso, parece-me que, sem ser um grande filme, "Babel" possui argumentos mais do que suficientes para o resgatar à condição de nulidade irrisória a que grande parte da crítica achou por bem remetê-lo. Gostei, em particular, da forma como o realizador geriu os pontos de fricção entre os episódios mexicano e marroquino, e da maneira como soube colocar no mesmo plano o acaso e a intenção das personagens, ambos reduzidos à mera condição de servidores do enredo todo-poderoso. Houve coisas de que gostei e outras de que não gostei. Em todo o caso, entre as minhas principais preocupações, durante e após o visionamento do filme, nunca esteve a de averiguar se "Babel" pretendia "representar" ou "denunciar" isto ou aquilo, nem se o fazia mais ou menos canhestramente. Este caso teve, à falta de outros, o mérito de pôr o dedo na ferida: uma das principais limitações da crítica de cinema portuguesa é tratar um filme como se fosse tudo menos um filme, ignorar as especificidades do cinema, entregar-se com demasiada prontidão a exercícios superficiais de análise política e sociológica. Isto sucede por diversas razões. Por desleixo, certamente; por incapacidade de ver para lá de agendazinhas pessoais míopes e confinadas, sem dúvida; acima de tudo, como reflexo puro e simples da falta de enraizamento, entre nós, de uma cultura de análise do objecto cinematográfico. (Provocação final: se "Babel" tivesse ganho o óscar de melhor filme, seria muito mais merecido do que o atribuído, há dois anos, a "Million Dollar Baby", esse melodramático deserto de ideias assinado por aquele a quem o dúbio título de "o último dos clássicos" tem vindo a conferir um inusitado estado de graça.)

terça-feira, fevereiro 27, 2007


CONSPIRAÇÃO COM TEJO AO FUNDO:


(Texto publicado no suplemento "Ípsilon" do jornal "Público" do passado dia 16/2. Com alguns quadros para ficar mais alegre.)


Há dias, assisti a uma sessão onde o crítico e historiador de arte Delfim Sardo abordou a possibilidade de emissão de juízos de valor perante uma obra de arte. Embora este assunto esteja longe de me deixar indiferente, torna-se para mim mais sedutor e urgente especular sobre algo que precede a questão da valoração qualitativa: refiro-me à simples presença da obra, à evidência crua e incontornável que a acompanha. A despudorada diferença entre a sua existência e o nada confere-lhe um estatuto que implica ascendente e poder sobre as coisas do mundo. Manejar placidamente a obra de arte como uma descartável ferramenta de entretenimento pode, na aparência, mitigar esse poder, mas não é disso que eu falo: falo de olhar com lisura e disponibilidade, falo de ouvir e entender.




(Luc Tuymans, "Slide #2", 2002)



A obra de arte existe na sociedade contemporânea essencialmente como mercadoria (estatuto a que, só por si, não associo carga pejorativa). Oferece-se à atenção do público mediada pelo jornalismo de cariz mais ou menos marcadamente crítico, e sempre associada a uma ocasião (lançamento de livro, inauguração de exposição, estreia de cinema). Tal acarreta o risco de nos desabituarmos de pensar na obra de arte desligada da sua relevância mediática, armada apenas daquilo que tem de perene. E, contudo, um quadro existe sem intermitências; a sua temível capacidade de transformar vidas pode desencadear-se a qualquer instante. Que fazer, perante esse resquício material de um trabalho subtraído à relevância banal do quotidiano? Pode-se passar adiante. É forçoso passar adiante. Mas a obra de arte dá-se esplendidamente bem com a efemeridade da atenção alheia. Tem tudo a seu favor, porque, como num escrínio, guarda dentro de si uma porção daquilo que, mais tarde ou mais cedo, alguém (com raiva e humildade) se forçará a vir buscar para se completar como ser humano. Tudo a seu favor: até mesmo a possibilidade de, à revelia de todos os circuitos de legitimação imagináveis, de todos os discursos teóricos, se auto-proclamar como arte, adquirindo, desde logo, esse poder que possui algo de tenebroso.


(Francis Bacon, "Head VI", 1949)


Perante uma obra de arte, somos todos cúmplices e companheiros de malogro. Unidos no pavor e no assombro, na certeza de ter todos os deveres e nenhum direito. (Sobretudo, nunca o direito de passar “um momento agradável” ou de “esquecer os seus problemas”.) O próprio direito a julgar valorativamente não passa de uma concessão, confinada ao estreitíssimo âmbito dos padrões estéticos que a sociedade fugazmente sanciona. À parte isso, o único julgamento possível, de natureza estritamente individual, consistiria em aferir da adequação da obra de arte como instrumento de salvação.

Um filme de Bresson presenciado, um poema de Yeats murmurado, um quadro de Cézanne examinado, são momentos desta conspiração sem fim último, sem intenção oculta a não ser a de perdurar, iludir a sua fragilidade.

Irmandade discreta e anónima, sem objectivos de tomada de poder nem de edificação da sociedade. Não trocam olhares dissimulados nos lugares públicos. Não se reconhecem graças a um qualquer aperto de mão maçónico. Cruzam-se, sem erguer a cabeça, nas ruas íngremes da cidade de Lisboa.

(Salpicam o rosto com água do bebedouro público do Jardim da Estrela, o rosto onde bate o sol feroz do fim da primavera.)

(Vilhelm Hammershøi, "Weisse Türen/Offene Türen", 1905)

terça-feira, fevereiro 20, 2007

QUEM PERDE GANHA: Na sua última crónica de segunda-feira, João César das Neves começa por admitir que o resultado do referendo sobre a despenalização da IVG foi uma enorme derrota para a Igreja católica. Como seria de esperar, porém, essa constatação não é senão um ponto de partida para mais um dos canhestros números de prestidigitação retórica com que este distinto economista nos costuma brindar: «A Igreja está habituada a perder. Aliás a vitória de há oito anos é que foi uma extraordinária excepção numa longa sequência de importantes baixas. São tantas as derrotas históricas que surpreende até como a Igreja consegue sobreviver e manter tanta influência. Mas não é apenas desse modo que a derrota é normal. Trata-se de um elemento básico e inato. O cristianismo é a religião da cruz e dos mártires. O seu Deus foi flagelado, coroado de espinhos, pendurado num madeiro até morrer. A fé cristã é o reino dos pobres e dos humildes.» Não me parece que, na história recente (digamos, para simplificar, no último século) as vitórias da Igreja, intra e extra-muros, tenham sido tão raras como isso. Lembro-me, por exemplo, do tratado de Latrão, da Concordata de 1940 com o Estado Novo, ou, mais próximo de nós, e muito a propósito, da decisão de submeter a despenalização da IVG a referendo, em vez de, como se impunha, resolver a questão por via parlamentar. Mas deixemos a contabilidade para os contabilistas. Uma coisa que JCN omite é que essa "longa sequência de importantes baixas" é uma consequência, fatal, deste facto muito simples: durante séculos, a Igreja gozou, em Portugal como em muitos outros países, de uma situação de privilégio e de hegemonia que hoje nos custa a conceber. Quando essa preponderância, e sobretudo a promiscuidade com o poder secular a ela associada, atingiram um zénite insustentável, teve início um declínio que se prolonga até hoje, e que está para durar. Para aqueles que têm tudo ou quase tudo, as probabilidades de perda, de derrota, de regressão, são forçosamente maiores do que as de conquista, vitória e progresso. Onde estamos definitivamente em desacordo é no seguinte: «O pior é que, quando a Igreja perde, quase ninguém ganha. A Igreja está preparada para perder, mas Portugal perde mais quando ela perde.» Basta pensar que a Igreja esteve, de forma sistemática e encarniçada, em Portugal e algures, contra o livre pensamento, contra a democracia, contra os direitos das mulheres, contra o divórcio, contra o acesso à contracepção e à educação sexual, para pôr em causa esta ousada hipótese de JCN. Eu atrever-me-ia até a aventar que a história recente está repleta de derrotas da Igreja que foram também excelentes notícias para a sociedade portuguesa. Como os primeiros parágrafos da sua crónica poderiam ter deixado no ar um vago aroma de razoabilidade e moderação, JCN apressa-se a dissipar essa desafortunada impressão, com pepitas como: «O aborto a pedido e pago pelo Sistema Nacional de Saúde assolará sobretudo as classes mais pobres, onde a tentação será mais forte. Paradoxalmente, como noutros países, isso minará a base eleitoral dos partidos de Esquerda. Haverá menos crianças a correr nos bairros de lata; menos crianças a correr nos infantários. Haverá menos crianças em todo o lado. Haverá menos portugueses.» Para quê tentar contrariar isto com estatísticas e argumentos? A vida é breve. Fiquemo-nos, sem mais comentários, com esta perturbante imagem de um bairro de lata deserto, sem vida, sem correrias de crianças, espelho fiel de um país em pleno descalabro moral.
UM CASO SÉRIO: Os cinemas Millenium Alvaláxia são um caso sério de incompetência e falta de respeito pelo cliente. Sucedeu-me hoje, pela segunda vez em poucos dias, ver-me impossibilitado de assistir ao filme que pretendia ("Scoop", de Woody Allen), devido a um erro na informação do horário da sessão, quer no jornal quer nos ecrãs junto das bilheteiras. Estas salas são as que se encontram mais próximas da minha casa, mas sinto-me cada vez mais relutante em visitá-las: planear uma tarde ou noite de cinema no Alvaláxia tem-se revelado um exercício com elevada componente de aleatoriedade, e não me apetece ver mais uma vez os meus planos arruinados devido a negligência grosseira por parte do prestador de serviços. Nem tudo foram agruras: tive assim, pela primeira vez na minha vida, oportunidade de rabiscar as páginas de um livro de reclamações. Foi um dia mau para cinefilia, mas bom para a cidadania. Acrescente-se a isto as bilheteiras onde também se vendem "consumíveis" (leia-se pipocas, coca-cola e outros inimigos da sétima arte), e funcionários que entram na sala a meio da sessão e ficam cinco minutos a contemplar a plateia, de braços cruzados (aconteceu-me no filme "Little Children"), e começamos a ter um caso a favor do boicote. Só as salas e o som, de muito boa qualidade, fazem pender a balança para o lado contrário.
BEGIN BEGAN BEGUN: Acabo de assistir, na RTP1, a um documentário sobre José Mourinho. Constatei uma verdade melancólica, mas que estava na altura de o nosso país enfrentar, fazendo das tripas coração: mesmo depois de mais de dois anos em Londres, Mourinho não fala tão bem inglês como Vale e Azevedo.

domingo, fevereiro 18, 2007

KUNDMANNGASSE:




Eu estive ...






A casa que Wittgenstein projectou aloja agora a embaixada da Bulgária.


À ATENÇÃO DAS COMPANHIAS FARMACÊUTICAS: Sabem o que seria realmente formidável? Que certos medicamentos fossem comercializados com sabor a sardinha, peru e borrego. Por exemplo, o Clavamox.







A gratidão de milhões de donos de gatos derramar-se-ia sobre quem tomasse tão feliz medida.
K AO KUADRADO: Num registo diarístico em que discorre sobre o processo de composição de uma novela, Kafka afirma que «...a novela, no caso de ser válida, contém em si própria a sua organização completa, mesmo quando ainda não se desenvolveu totalmente...», afirmação que poderá entender-se como sendo a própria história começada que, levando consigo o seu autor, continuasse a escrever-se a si mesma. (Maria Marques Chaves de Almeida, in "Perspectivas e Leituras do Universo Kafkiano", organização e introdução de Gonçalo Vilas-Boas e Zaida Rocha Ferreira, Apáginastantas, 1984.) A respeito desta citação, a autora insere a seguinte nota de rodapé: Esta afirmação de Kafka não pode deixar de comparar-se com as conhecidas palavras de Heinrich von Kleist: «die allmähliche Verfertigung der Geschichte beim Schreiben» (a progressiva construção da narrativa durante o acto da escrita). Desconheço a origem destas palavras, quase idênticas ao título de um ensaio do próprio Kleist: «Über die allmähliche Verfertigung der Gedanken beim Reden» (1807-1808). Ou seja, a progressiva construção das ideias pela palavra. Por sinal, este ensaio tem vindo a ser publicado na íntegra, e em fascículos, no blog Cartas do Meu Moinho. Era este um dos sonhos primordiais do 1bsk: que a sua razão de ser surgisse de forma síncrona com a sua própria elaboração. Formosos sonhos. Grandiosos desígnios. Em vez disso, temos tido bolos de arroz, Morangos com Açúcar e gatas pianistas.

quarta-feira, fevereiro 14, 2007

JUNK JUNK SCIENCE: O jcd descobriu que o top 10 de 2006 elaborado por um site que se auto-propõe denunciar, com todo o brio, abusos e falácias pseudo-científicas era encimado pelo documentário "An Inconvenient Truth", de Al Gore. Naturalmente, apressou-se a partilhar com os seus leitores tão delicioso veredicto. Um exame, ainda que superficial, teria permitido constatar que o site em questão, junkscience.com, longe de ser um imparcial paladino da ética científica, visa exclusivamente, de forma sistemática e tendenciosa, denegrir tudo o que cheire a agenda liberal: aquecimento global, protocolo de Kyoto, pesquisa em células estaminais, restrições contra o tabagismo, nada escapa ao seu fogo cruzado. Para além disso, uns escassos minutos de pesquisa em sites bem conhecidos como o Skeptic's Dictionary, a Wikipedia e o Sourcewatch teriam sido suficientes para perceber que o junkscience.com é essencialmente obra de um certo Steven J. Milloy, colunista da FoxNews associado a think tanks conservadores, e a quem está associado um já longo historial de violações éticas, facciosismo e ocultação de conflitos de interesse. A Internet é uma grande câmara de ecos, onde ressoam os rumores de batalhas longínquas. Inspirar-se em guerras alheias para alimentar guerrilhas locais revela, no mínimo, provincianismo. E são muitas as maneiras frutuosas e gratificantes de ocupar o tempo do dia e que não implicam reproduzir factóides colhidos aqui e ali, sem um q.b. de espírito crítico, e com o inevitável sorriso ufano estampado no rosto. (Atenção: o autor do post é o jcd, e não o João Miranda, como eu tinha escrito inicialmente. As minhas desculpas a ambos.)
FOREVER CHANGES (*): Mudei o meu blog para a conta Google, e eis que os posts foram invadidos por caracteres disparatados, pondo em causa (e com que dramatismo!) a sua legibilidade. Um simples ajuste nas opções do meu browser pôs cobro ao problema, mas angustia-me a possibilidade de outros leitores virem a sofrer da mesma vicissitude. Digam de vossa justiça, vilipendiem, vociferem. Todos os cidadãos têm direito inalienável à sua dose diária de 1bsk. (*) Singela homenagem a um álbum fabuloso dos Love de Arthur Lee.

segunda-feira, fevereiro 12, 2007

GEMINAÇÃO:



O Umblogsobrekleist partilha o seu aniversário com o do realizador Jacques Rivette. Rivette nasceu a 1 de Março de 1928. O 1bsk nasceu 75 anos mais tarde, a 1 de Março de 2003. Não se tratou de premeditação, mas poderia muito bem tê-lo sido. Jacques Rivette é um dos quatro ou cinco criadores, de todos os campos artísticos, que mais me influenciou e que mais admiro. Mal posso esperar pelo seu novo filme. Gostaria de estar no festival de Berlim, na fila para a sessão, com um copo grande de café a escaldar entre os dedos gelados. Adoro fotografias de rodagens. Esta é do filme "Out One". Rivette é o homem mascarado que olha para a sua imagem reflectida num espelho.
RIDENDO CASTIGAT: Os "Guignols de l'Info" (equivalente francês da "Contra-Informação") foram, em tempos, acusados de terem pesado decisivamente na eleição de Jacques Chirac nas presidenciais de 1995 (ver, por exemplo, aqui e aqui). Parece-me pouco crível que a (muito merecidamente) já mítica imitação que Ricardo Araújo Pereira fez de Marcelo Rebelo de Sousa tenha tido influência palpável no resultado do referendo do domingo passado. Porém, não me admiraria que esse devastador momento de humor tenha ajudado a mudar o sentido de voto de, pelo menos, umas quantas dezenas de almas, por esse Portugal fora. E não vejo nisso nenhum crime de lesa-democracia: uma sátira inteligente e certeira pode ser tão iluminadora como o mais lúcido comentário político.
OS ÚLTIMOS CARTUCHOS: De acordo com um horroroso folheto de propaganda ao "Não" que veio parar à minha caixa do correio, sexta-feira passada, podem-se detectar ondas cerebrais num feto de 6 semanas, por meio de electroencefalografia. Devemos congratular-nos por tudo ter acabado. Com mais meia dúzia de dias de campanha, acabariam por nos tentar convencer de que um óvulo fecundado já está em condições de tirar a carta de pesados.

quarta-feira, fevereiro 07, 2007

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Sentada a uma mesa de café, na estação de metropolitano do Campo Grande, uma senhora lia "Pedro Páramo", de Juan Rulfo. Para quem conhece o lugar, era mesmo ao pé daquela loja de têxteis para o lar que pratica preços tão convidativos.
CIÊNCIA E MÁ FÉ: A acreditar na propaganda de alguns defensores do "Não", o feto, às dez semanas, já possui órgãos em pleno funcionamento, já diz "Papá" e "Mamã", já reage à música de Beethoven e já gatinha, sendo mesmo caso para nos perguntarmos se as restantes vinte e tal semanas de gestação não passam de um supérfluo capricho da Natureza. De entre tantas fantásticas alegações, uma que sempre me intrigou tem a ver com a existência de "actividade cerebral" (ou "ondas cerebrais"), registada por meio de electroencefalografia, às dez semanas ou até antes. Para melhor ilustrar a minha perplexidade, chamo a vossa atenção para esta figura: Isto é um dispositivo de aquisição de electroencefalografia (EEG). Uma rede de eléctrodos é colocada junto ao escalpe, e os potenciais eléctricos locais são registados para posterior processamento. Estes potenciais eléctricos reflectem a actividade dos neurónios corticais. Sucede que estes potenciais são de fraca intensidade (algumas dezenas de microvolt, em média), e que o registo é fortemente afectado pela dispersão eléctrica ocasionada pelas camadas de tecido que separam o cérebro do escalpe (meninges, osso, pele). Por maioria de razão, estas dificuldades acentuar-se-iam caso a intenção fosse registar o electroencefalograma do feto dentro do útero, devido à presença de camadas adicionais de tecido com diferentes condutividades eléctricas, para além da interferência provocada pelos potenciais cardíacos da mãe. Uma pesquisa simples permitiu-me esclarecer, pelo menos em parte, esta questão. Todas as referências a "EEG fetal" que encontrei referem-se: ou a registos obtidos em prematuros, ou a registos obtidos na sequência de abortos por cesariana. Como este último método caiu em desuso, e como os registos de prematuros dizem normalmente respeito a períodos de gestação superiores às 20 semanas, as referências bibliográficas citadas em apoio da ocorrência de ondas cerebrais antes das 10 semanas remetem para estudos realizados há várias décadas. Isso mesmo explica este notável artigo, que desmonta, de forma sistemática, a teia de citações científicas que têm servido de muleta aos adeptos da actividade cerebral prematura. Citar é fácil; citar bem e com honestidade é tarefa mais delicada. Este artigo relembra-nos que um nome e uma publicação não conferem, por artes mágicas, veracidade e consistência a uma afirmação. Infelizmente, poucas coisas no mundo são mais obstinadas do que os factóides: até há algumas horas atrás, no artigo "fetus" da Wikipedia lia-se: «Brain activity can be detected at around 54 days (eight weeks), and development of integrated brain functioning at 70 days (ten weeks).» Algumas revisões depois, esta frase foi substituída por uma versão mais conservadora: «Brain-stem activity has been detected 54 days after conception.» Na versão da página que está activa enquanto escrevo estas linhas, vai-se ainda menos longe: «While there has been some contention brain activity begins at ten weeks, researchers have yet to make a determination.» É ainda instrutivo dar uma olhadela no intrincado historial desta página, assim como nas inflamadas (e, obviamente, percorridas por linhas argumentação "pró-vida" e "pró-escolha") discussões que têm acompanhado estes recentes e vertiginosos esforços de edição. Claro está que este pomo da discórdia, não sendo académico, está longe de merecer uma atenção obsessiva: definir o início da vida por meio de algo de tão vago como "actividade cerebral" é, no mínimo, controverso. Os neurónios são, por natureza, células excitáveis, cujas flutuações de polaridade, ao nível das membranas podem ser detectados do exterior, sob a forma de potenciais eléctricos. Porém, a mera existência de um registo electroencefalográfico não é sinónimo de vida. As funções cerebrais superiores, e mesmo um "simples" estado de sono ou vigília, são caracterizados por padrões e ondas muito específicos e bem conhecidos. Mas claro que estas considerações são demasiado complexas para caberem num folheto de propaganda. De simples, a questão não tem nada. Para mal dos nossos pecados, simplificar de forma grosseira aquilo que é complexo é estratégia comum daqueles a quem a argumentação racional faz alergia. Por isso, da próxima vez que algum peremptório representante do movimento "Algarve pela Vida" ou "Caldas da Rainha Ocidental pela Vida" se pronunciar sobre o momento em que começa a vida humana, pergunte-lhe de onde provém a sua inabalável certeza. Mesmo num tempo em que a discussão serena e ponderada parece fora da ordem do dia, insistir na necessidade de sustentar afirmações levianas com factos concretos é um favor que se faz à comunidade.

quarta-feira, janeiro 31, 2007

NÃO TENHO NADA/MAS TENHO TENHO TUDO: Se os argumentistas da "Floribella" soubessem a facilidade com que expressões como "a minha cabeça é uma salada de frutas" podem induzir sonhos arcimboldianos, nos espectadores incautos, teriam mais cuidado com o que fazem brotar daquela boquinha tão mimosa.
O GÉNIO PASSEIA-SE: Ignoro se Goethe, quando redigia o diário da sua viagem a Itália (*), pensava na posteridade e nas sentenças que esta lhe haveria de reservar. Quer-me parecer que a obsessão com as opiniões dos seus contemporâneos pouco espaço deixaria livre para especulações sobre os vindouros. De Veneza, Goethe prometeu à amante Charlotte von Stein o envio do diário, fazendo-lhe contudo, ao mesmo tempo, a seguinte recomendação: «Se tu o fosses copiando, in-quarto mas com as folhas dobradas, mudasses o "tu" para "a senhora" e eliminasses as referências estritamente pessoais ou o que mais achares, quando eu regressasse teria pronto um exemplar que poderia corrigir, ordenando todo o conjunto!». Brincar em serviço era para os outros: o Grande Homem segregava literatura, com límpida premeditação, mesmo durante o que poderia parecer uma banal missão de alargamento de horizontes pessoais. O tom predominante é o de uma estudada humildade: «Quanto a mim, é um prazer e um dever celebrar a memória de um antecessor. Afinal, também eu sou apenas um antecessor de outros, na vida como em viagem!» (13 de Abril de 1787). Tem o seu quê de instrutivo presenciar os não raros momentos em que esta fachada soçobra. Por exemplo, quando, em trajecto pela Sicília profunda, que ele aproveita para trabalhar na sua tragédia sobre Nausícaa, Goethe escreve: «Ulisses, que, meio culpado, meio inocente, foi o causador de tudo isto, tem de declarar que vai partir e a boa donzela não tem outro remédio senão procurar a morte no último acto./Não havia nesta composição nada que eu não pudesse desenvolver realistamente a partir da minha própria experiência. Eu próprio ando fazendo o meu périplo, também em perigo de despertar afeições que, não tendo necessariamente um fim trágico, poderão ser bastante dolorosas, perigosas e perniciosas; (...)». No camarote do barco que o leva de regresso a Nápoles, e numa situação de naufrágio iminente, Goethe diz ter visto claramente diante de si uma gravura da Bíblia representando o lago Tiberíades, da autoria de um artista famoso do século XVII. Não duvido de que Goethe teria retirado supremo prazer da ideia de perder a vida em pleno êxtase estético. No meio de apontamentos de viagem frequentemente corriqueiros e descoloridos, e de meditações artísticas carentes de originalidade, as abundantes descrições de cariz geológico e mineralógico acabam por proporcionar algum repouso ao leitor, sobretudo a leigos como eu, pouco preocupados com a sua exactidão ou plausibilidade. (*) J.W. Goethe, "Viagem a Itália", Tradução, Prefácio e Notas de João Barrento, Relógio d'Água, Vol. 6 das "Obras Escolhidas".

domingo, janeiro 28, 2007

("Haut Bas Fragile", 1995)
(Marianne Denicourt e Nathalie Richard sonhando com Cyd Charisse e Ginger Rogers.)
AS IDADES DA INOCÊNCIA: Le cinéma a entrepris d'écrire ce dernier chapitre de l'histoire du monde. Le cinéma est l'innocence qui se sait perdue, la grâce qui se sait retrouvée, lorsque du moins ses marionnettes ne font pas de manières. Il permet à l'artiste cet «autre accès» que recherchait Kleist, puisque «le Paradis est verrouillé et le chérubin est derrière nous; il nous faut faire tout le tour du monde pour voir s'il n'y a pas peut-être quelque part derrière un autre accès». (Hélène Frappat, in "Jacques Rivette, secret compris", ed. Les Cahiers du Cinéma) Perfeitamente de acordo. No caso de Rivette, penso que em nenhum lugar isso é mais evidente do que em "Haut Bas Fragile", filme onde da impossibilidade da inocência brota uma ligeireza que supera essa própria inocência, primordial e inatingível. Uma ligeireza trabalhada, que nunca se poderia confundir com a espontaneidade de uma bailarina de musical americano dos anos quarenta. Uma leveza ponderada, supremamente consciente da força da gravidade e das limitações do corpo, por isso mesmo mais radicalmente próxima do sublime.

segunda-feira, janeiro 22, 2007

FIAMA (2): Uma definição da vida: trabalho permanente para despojar a morte da sua importância.
FIAMA:
«A morte não é um acontecimento da vida.» (Ludwig Wittgenstein)
f.h.p.b. 1938-2007
LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Local: linha verde do metropolitano. Um jovem folheava a antologia de Montale da Assírio & Alvim. Abriu-a no poema "Voz que Vem com os Galeirões" ("Voce Giunta con le Folaghe"). Possam os leitores de Montale proliferar pela rede do metropolitano, até suplantarem em número os não-leitores de Montale.

quinta-feira, janeiro 18, 2007

CINEMA: Em Julho de 1958, em Paris, Jacques Rivette, crítico de cinema dos "Cahiers du Cinéma", começa a rodar com a sua equipa "Paris Nous Appartient". O argumento tinha sido escrito por Rivette e Jean Gruault, nos cafés do bairro da Étoile. As condições de rodagem foram épicas, roçando a insanidade. Não havia produtor, mal havia dinheiro para a película. As oito semanas de rodagem inicialmente previstas foram rapidamente ultrapassadas. Sem a insistência do operador de imagem Charles Bitsch e da "dialogue coach" Suzanne Schiffman (outras duas figuras da Nouvelle Vague) para que Rivette efectuasse cortes no argumento, o filme correria o risco de durar quatro ou seis horas. Chegaram a rodar-se cenas que, no filme, se sucedem a outras rodadas um ano antes. Já em 1959, após o fim das filmagens, só o sucesso de "Les Cousins" e "Les Quatre Cents Coups", no festival de Cannes, permitem desbloquear a situação: Chabrol e Truffaut tornam-se co-produtores, e financiam a montagem e a pós-produção. A estreia só ocorrerá em Dezembro de 1961, aliás sem qualquer sucesso junto do público. A propósito deste filme escreveu Michel Delahaye, nos "Cahiers": «"Paris Nous Appartient" fait partie de ces œuvres qui doivent porter trace en elles des risques qu'elles ont couru et continuer de vivre dans le risque». Uma das características que atravessa a obra de Rivette, dos anos 50 até hoje, é o talento para tornar palpável e física a intriga e a conspiração, paradoxalmente através de um processo de aparente abstracção da própria intriga e da própria conspiração. Tudo isso existe já (e como!...) em "Paris Nous Appartient". Porém, neste caso, apetece dizer que a principal conspiração foi levar a cabo a feitura do próprio filme, com um desplante que se diria ser apanágio dos jovens, se Rivette não continuasse a evidenciá-lo ainda hoje. Há também o teatro, já então: "Péricles", de Shakespeare. E há Paris, sempre Paris, obsessivamente Paris, tão continuamente como o próprio tempo. Este filme pode ser visto na Cinemateca, no sábado, às 19 horas.
COMPROMISSO POUCO OUSADO: Este blog voltará ao seu regime normal quando Vasco Graça Moura desistir de escrever sobre a TLEBS.

terça-feira, janeiro 16, 2007

COMO DESMASCARAR UM FALSO MILIONÁRIO: Um dos concursos/reality-shows cretinos que a TVI lançou recentemente para o éter, de seu nome "Pedro o Milionário", girava em torno de um suposto milionário (o Pedro), cortejado, com fins nupciais, por uma mancheia de moçoilas. A punchline, no meio disto, era que o Pedro, afinal, não era milionário. As infelizes concorrentes, que assim se esmifraram para nada, teriam feito bem em ler este romance: Em "Moll Flanders", Daniel Defoe entrega-se a longos e pragmáticos discursos sobre a necessidade de os nubentes inquirirem sobre a real situação financeira do candidato a cônjuge, antes de se decidirem a dar o nó. Quase se poderia falar de um pequeno tratado dentro do romance, tal é a insistência e exaustividade com que o assunto é abordado. Com perturbadora frequência, apercebemo-nos de que as respostas para os problemas da vida real se encontram, preto no branco, nas páginas da grande literatura, muitas vezes em obras com idade plurissecular. A qualquer pessoa que alimente ilusões sobre uma eventual ingenuidade das gentes de outrora (por oposição ao sofisticado cinismo que medra nos iníquos tempos modernos) recomendo a leitura de algumas dezenas de páginas de Balzac, Swift, Laclos ou Fielding. É quanto basta.
LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Na linha vermelha do metropolitano, uma jovem tinha entre mãos "The Black Book", Orhan Pamuk em versão inglesa. Q., que já leu o livro, afiança-me que se trata de um osso duro de roer. Em silêncio, faço votos para que não esmoreça o ânimo da jovem da linha vermelha, que liga a Alameda ao Oriente, e que talvez um dia chegue ao Aeroporto, via bairro da Encarnação.

sexta-feira, janeiro 12, 2007

O PULMÃO DO 19ÈME ARRONDISSEMENT: Só agora, tarde demais, me apercebo de que não visitei o soberbo parque de Buttes-Chaumont, em Paris, tão amiúde quanto teria sido possível e desejável. Em 1912, Kafka escreveu a Felice Bauer: «A minha vida deixá-la-ia por ti, mas não posso abandonar a tortura».
DE SÍMIOS E DE GALHOS: Que autoridade, que competência possuem os representantes da Igreja Católica para emitir pareceres sobre o referendo à despenalização da Interrupção Voluntária da Gravidez? Resposta: nenhuma. Tanta como o Clube de Coleccionadores de Saquetas de Chá Preto de Miranda do Corvo. Infelizmente, não só a Igreja se auto-reconhece essa autoridade e essa competência (servindo-se do inacreditável argumento de que tudo o que diz respeito ao ser humano cai sob a sua dilatadíssima alçada), como a comunicação social se mostra cúmplice contumaz dessa exorbitação. Por tradição? Por hábito? Por inércia? Até ao dia 11, não duvido de que a opinião pública continuará a ser visada pelo esforço de "iluminação das consciências" promovido por ilustres membros do clero. Por uma questão de equidade, espero que seja atribuído tempo de antena a médicos, juristas, filósofos e psicólogos para discorrerem sobre a santíssima trindade, sobre a exegese do Novo Testamento e sobre os desafios do ecumenismo neste dealbar do século XXI.
O NEVES DO KILIMANJARO (*): «Se virmos com atenção, os nossos partidos e eleitores são todos de direita. Quem representa no nosso Parlamento a direita desiludida e queixosa, resmunguenta e trauliteira? Quem, senão o Bloco de Esquerda?» Este memorável trecho de prosa pertence a João César das Neves, que o perpetrou na sua última crónica de 2ª feira no "DN". É preciso que se diga, para repor a questão no seu contexto, que, antes da pausa natalícia (que tão frustrante se revelou para seus inúmeros aficionados), mais exactamente a 27 de Novembro, JCN tinha comparado Afonso Costa a Hindenburg e a Bush, chamando-lhes "coveiros da liberdade", num ousado paralelo entre a 1ª República portuguesa, Weimar e o Iraque actual. Mesmo para alguém como JCN, que caiu no caldeirão do disparate quando era pequeno, trata-se de uma façanha. Resta saber se esta passagem à velocidade superior por parte do nosso esforçado cronista não esconde uma estratégia plena de sagacidade. A minha teoria é a seguinte. Lançando raciocínios a tal ponto delirantes, JCN espera que as impensáveis enormidades que terá reservadas até à data do referendo passem por sentenças cheias de sabedoria e cabimento. O tempo dirá se não estarei a tomar por astuta deliberação o que não passa de um arrepiante mergulho nos abismos oceânicos da indigência argumentativa. (*) Não deixemos que a irrelevância estrague um bom trocadilho.

segunda-feira, janeiro 08, 2007

ONTEM NÃO TE VI NA BARATA SALGUEIRO: Detesto ler o adjectivo "obrigatório" a propósito de um filme, livro ou exposição. Neste caso, porém, a tentação é fortíssima. Se não se trata de um filme obrigatório, pelo menos é uma oportunidade rara a que qualquer cinéfilo que se preze deve estar atento. No próximo dia 20, sábado, às 19h, na Cinemateca, passa "Paris Nous Appartient", primeira longa-metragem do meu adorado Jacques Rivette. Paris, o teatro e a conspiração, já presentes neste filme magnificamente desconcertante. (Tentarei escrever sobre este filme antes da data da sua exibição. Da maneira como as coisas têm estado, mais vale não prometer seja o que for. )
DA AUSÊNCIA DE PAPAS NA LÍNGUA: Os meus aplausos de mãos ambas vão, neste início de ano, para dois actores portugueses:
  • para João Reis, que, na emissão final do "Dança Comigo", exprimiu alto e bom som o seu contentamento por (cito de memória) "ver tanta gente no Campo Pequeno, não para assistir a uma tourada, mas para um espectáculo de dança";
  • e para Miguel Guilherme, que, em resposta a um inquérito na "Dica da Semana", afirmou nunca consultar os horóscopos porque "isso é para pessoas sem cultura".

Que vos seja frutuoso o exercício da subtil arte de Talma durante o próximo ciclo solar!

CRÍTICA: Há pessoas que estão sempre a criticar aquilo que as outras pessoas fazem, e eu acho isso mal, porque criticar por criticar não leva a lado nenhum.
SEPARADOS À NASCENÇA?:

John S. Carlile (1817-1878), político norte-americano, senador do estado da Virgínia, apoiante da causa unionista durante a guerra da Secessão.

José Barroso, emigrante português de sucesso.

quarta-feira, dezembro 20, 2006

E POR FALAR EM RENAS...: Depois do ritmo alucinante destes últimos dias, o 1bsk parte para merecidas férias, longe da Internet. Que os leitores passem umas Festas felizes e tranquilas, é o nosso desejo sincero.
A NÃO PERDER: Este post no Renas e Veados.
QUANDO O TELEFONE TOCA: Adivinho dever a uma posição alfabética cimeira em listas de contactos os numerosos telefonemas que recebo, resultantes, presumo, da manipulação descuidada de telemóveis subtraídos à vigilância paterna, por parte de filhos pequenos de amigos e conhecidos. Para pôr cobro a este problema, apenas me ocorrem duas soluções: mudar de nome para Zulmiro Zueberbriggen, ou apresentar aos meus amigos (sobretudo aqueles com descendência recente e orientada para as novas tecnologias) um qualquer Aarão ou Abel recrutado para o efeito.
OBITUÁRIO DE XADREZ: Há uns dias atrás, dei por mim a enumerar mentalmente os meus ídolos de xadrez de todos os tempos. Lembrei-me de José Raul Capablanca, Akiba Rubinstein, David Bronstein, Mikhail Botvinnik e, obviamente, Anatoly Karpov. No mesmo dia, algumas horas mais tarde, eis que tomo conhecimento do falecimento de David Bronstein. David Bronstein esteve a um passo de entrar para o muito restrito panteão de campeões do mundo de xadrez quando, em 1951, empatou um match com o então detentor do título, Mikhail Botvinnik (as regras ditavam que, em caso de empate, o campeão mantinha o título). De então para cá, têm surgido ciclicamente rumores de que Bronstein teria sido pressionado pelas autoridades soviéticas para não ganhar o match. O próprio Bronstein nunca admitiu que isso tivesse sucedido, mas, por mais de uma vez, exprimiu-se em relação a esse assunto de forma algo ambígua. Independentemente desse ponto nebuloso da historiografia xadrezística, Bronstein tornou-se famoso pelo seu imenso talento, pelo carácter imaginativo das suas partidas, e pela autoria de dois dos livros mais famosos da história deste jogo: "O Aprendiz de Feiticeiro" e, sobretudo, o livro do torneio de candidatos realizado em Zurique, 1953. Comprei uma cópia deste livro em Nova York, há mais de 3 anos. Está desde então na minha estante, há espera da atenção que mereceria e que nunca lhe concedi. AQUI, uma extensa colecção de partidas de David Bronstein.
E VOCÊ, ONDE ESTAVA?: E você, onde estava quando soube que Manuel Cajuda se tinha demitido do Zamalek, garbosa agremiação com larga tradição no futebol cairota? Eu estava num táxi, a caminho da segunda circular.

terça-feira, dezembro 05, 2006

ROHMER, TUDO LIGADO: Recentemente, revi na Cinemateca a primeira longa-metragem de Éric Rohmer, "Le Signe du Lion". A folha que acompanhava este filme era da autoria de Antonio Rodrigues. Gostei bastante de a ler. Nela são feitos numerosos paralelismos entre este filme e obras posteriores de Rohmer, mas também são apontadas diferenças de monta. Ao ler a folha, porém, estranhei a omissão de uma referência (que eu recordava muito confusamente ter lido) à semelhança entre o motivo astrológico que preside ao filme (o signo do Leão) e outras manifestações de destino/azar/fatalidade que viriam a ser muito abundantes na obra rohmeriana. Onde teria eu lido essa referência? Ao chegar a casa, verifiquei que a folha emitida pela Cinemateca aquando da exibição do mesmo filme em Julho de 1999 era diferente, e tinha como autor João Lopes. Li-a com avidez compreensível. O principal elo apontado por JL entre este filme e os restantes deste cineasta tem a ver com a presença do elemento moral. Aqui, inclino-me mais a concordar com Antonio Rodrigues quando ele escreve que "Le Signe du Lion" «é um conto (nem moral nem moralista)». A existir em "Le Signe du Lion", a moral apareceria de um modo quase puritano (e pouco subtil), redutível ao repúdio pelo dinheiro, radicalmente diferente do prevalecente nos "Contos Morais", onde se exprime essencialmente ao nível dos comportamentos humanos, e da fugidia fronteira entre livre-arbítrio, determinação e aleatoriedade. Mas adiante. Continuava eu, depois disto, sem saber onde teria lido (se é que a li) a tal sugestão de analogia entre o Zodíaco, caprichoso e soberano, e os seus múltiplos sucedâneos que povoam os enredos rohmerianos. Continuo sem saber. Encontrar pontos de contacto entre "Le Signe du Lion" e outros filmes de Rohmer é um ensejo natural e compreensível. E não me parece tarefa particularmente complicada. Por exemplo, o súbito e inesperado desenlace (o protagonista, devido a um acidente de automóvel a muitos quilómetros de distância, passa da indigência à condição de herdeiro rico) pode ser aproximado ao reencontro entre a protagonista de "Conte d'Hiver" e o amante, perdido anos antes por uma estúpida questão de endereço enganado, ou então do também súbito (mas não totalmente inesperado) desenlace de "Le Rayon Vert", em que a personagem de Marie Rivière observa finalmente o fenómeno atmosférico que perseguia com obstinação. A ocorrência de uma improvável conjunção de acontecimentos que, à revelia da personagem principal, transforma um impasse num desfecho venturoso faz lembrar as cenas finais de "Conte d'Été" (os telefonemas recebidos por Melvil Poupaud, ultrapassado pelos acontecimentos mas, estranhamente, nunca parecendo deixar de ser dono do seu destino). O mais notável, no entanto, é sentir como esta tarefa transcende o âmbito da crítica, da historiografia e da paixão cinéfila, para se situar num plano onde a felicidade e a realização pessoal também ocupam o seu espaço. Como se encontrar coerência na obra de um realizador de cinema digno da nossa estima equivalesse a verificar a integridade de um vínculo de confiança que nos une a ele. (Éric Rohmer tem um novo filme em fase de acabamento. Chama-se "Les Amours d'Astrée et de Céladon".)
ENSINO SUPERIOR: Li recentemente dois desabafos sobre o ensino superior que revelavam tremenda falta de conhecimento de causa e leviandade. No primeiro, a propósito das denúncias de asfixia financeira por parte das universidades, sugere-se uma solução que aliaria a simplicidade à eficácia: aumentar as propinas, já que "nenhuma Universidade pública encosta as propinas ao tecto permitido" (um erro que o próprio autor corrigiu, mais tarde, por meio de contra-exemplos) e "quatro quintos dos alunos dispõe de viatura própria". Espanto-me com esta estatística, mas parto do princípio de que o autor se informou devidamente. Supondo que as universidades dispõem de margem de manobra para aumentar ainda mais as propinas, e admitindo que, de facto, 80 % dos estudantes universitário são felizes proprietários de um veículo motorizado, há que ter em conta duas coisas. Em primeiro lugar, é límpido para quem segue a questão com um mínimo de atenção que o aumento progressivo das propinas, aproximando-as do custo real do ensino oferecido, é mais um paliativo do que uma solução para o financiamento dos estabelecimentos de ensino superior, e costuma ser acompanhado por desinvestimento orçamental no sector. Por outras palavras, as propinas funcionam como legitimação de cortes no orçamento, sucedâneos de receitas próprias que empurram as universidades para uma pseudo-autonomia financeira à custa do bolso dos estudantes. (E muito haveria a dizer, aliás, sobre as míticas "receitas próprias", apontadas como solução milagrosa por muitos, mas viáveis apenas na medida em que o permitem estruturas e corpos docentes já sobrecarregados pela dupla incumbência de ensinar e investigar.) Em segundo lugar, a posse de carro, em muitos dos casos, será menos um sinal exterior de desafogo do que um imperativo por banais questões de mobilidade. Descrever os alunos universitários como meninos do papá birrentos é um lugar-comum que passa numa discussão de café, mas que convém usar com moderação quando o propósito é argumentar com um mínimo de seriedade. O segundo grito de revolta, li-o aqui. O autor insurge-se contra um doutoramento cujo tema é as construções nominais dos pronomes possessivos. Não vejo onde está o motivo de escândalo. O autor parece ter uma ideia muito aproximativa sobre o que é um doutoramento. Um doutoramento é um ciclo de estudos avançados que tem como fim, entre outros, demonstrar que o doutorando é capaz de conduzir investigação original sobre um determinado tema. Como estamos no século XXI, e não no século XIV, qualquer investigação com pretensões a originalidade deverá possuir um elevado grau de especialização. Só em casos muito específicos será de esperar que um tema de doutoramento tenha relevância imediata no contexto de um potencial emprego. Nesse caso, para que serve um doutoramento? Para demonstrar aptidões excepcionais ao nível da assimilação e resolução de problemas numa determinada área, e, desse modo, garantir um nível de desempenho condizente com expectativas elevadas por parte do empregador. Não nego que, frequentemente, uma pós-graduação pode ter significância nula para a formação de um indivíduo e para o seu sucesso na busca de emprego. Porém, é errado fazer recair as culpas sobre os temas de tese demasiado esotéricos e incompreensíveis para o comum dos mortais. (Alguém com conhecimento do assunto muito superior ao meu afiança-me que, longe de ser um irrelevante motivo de chacota, a investigação avançada ao nível de construções pronominais pode ser muito importante, por exemplo, para o aperfeiçoamento de correctores e analisadores morfossintácticos.)

sábado, dezembro 02, 2006

LAURA RIDING: No "Mil Folhas" do passado dia 11 de Março, Eduardo Prado Coelho escrevia: «Quem é Laura Riding? Duvido que haja portugueses que a conheçam(...)». Posso garantir que alguns portugueses já conheciam esta autora, pelo menos aqueles que acompanharam este blog nas suas primeiras semanas de vida. Que moral se poderá retirar daqui? Absolutamente nenhuma. Porém, descubro agora, perturbado, que o rosa que escolhi para fundo da página de arquivo do 1bsk desse mês é muito semelhante ao do amaciador de roupa marca Carrefour. (Traduções de Riding para português aqui.)
LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Há horas de rara felicidade na vida de um caçador de leituras em lugares públicos (lembram-se dos tractores Fiatagri?). No campus do Instituto Superior Técnico existe um edifício chamado Complexo Interdisciplinar. No pavilhão envidraçado da recepção, sobre uma secretária, na semana passada, viram estes meus olhos um exemplar de "Watt", de Samuel Beckett, na edição portuguesa da Assírio & Alvim. A euforia daí resultante não me fez esquecer esta questão de importância maior: será que a leitura de Beckett durante a actividade laboral, para além de obviamente louvável, é recomendável do ponto de vista do desempenho profissional? Povo de Portugal, de Norte a Sul: está aberto o debate.
NO PRÓXIMO FIM-DE-SEMANA: Terão lugar nos próximos dias 8, 9 e 10 as representações da peça "Um por um para dois", pelo grupo teatroàparte, baseada na obra "Talem (Leito Conjugal)", do espanhol Sergi Belbel. Todas as informações relevantes encontram-se na página do teatroàparte, grupo amador da Associação de Residentes de Telheiras, do qual tenho a felicidade de fazer parte. Frenética, pós-moderna, licenciosa, hilariante, inteligente: são os cinco adjectivos que me ocorrem para qualificar esta peça. Caso subsistam ainda algumas hesitações, penso que o facto de eu não fazer parte do elenco desta peça deve constituir argumento decisivo para ir assistir.

domingo, novembro 26, 2006

JÁ CONHECEM...: ...o projecto "The Travelling Journal"?
PROVAVELMENTE, A MELHOR REVISTA DO MUNDO: Correm por aí alguns rumores segundo os quais existem maneiras mais proveitosas de ocupar o tempo do que ler a revista "Aguasfurtadas". São opiniões, que eu respeito. Sem querer entrar em estéreis trocas de argumentos, limito-me a fazer notar aos incréus que o número 10 desta revista inclui um ensaio de Manuel António Pina sobre o ursinho Winnie-the-Pooh. Parece-me não haver nada mais a acrescentar, a não ser que um vídeo de apresentação desse mesmo número 10 está disponível aqui.

quarta-feira, novembro 22, 2006

SORRISOS DE UMA NOITE DE VERÃO (2): Do blog John, Elias and Michelle (não conhecia, e recomendo - aliás como resistir a um título onde entram três personagens do "Elephant" de Gus Van Sant?) fazem-me notar que Pedro Costa não é tão avesso à tentação cómica como eu o pintei. São apontadas como provas cenas dos filmes "No Quarto da Vanda" e "Onde Jaz o Teu Sorriso?", que são precisamente aqueles que eu não conheço. Fica, pois, o reparo. "Onde Jaz o Teu Sorriso?" poderia ser o título deste post e do anterior, aplicado ao cinema português em vez de à personagem de "Sicilia!" de Huillet/Straub.

segunda-feira, novembro 20, 2006

SORRISOS DE UMA NOITE DE VERÃO: São deploráveis as declarações do realizador de "O Filme da Treta", no sentido de ser esse um filme que contraria uma suposta proibição não escrita de fazer humor que condicionaria o cinema português. Infelizmente, estas afirmações nada têm de original. Vinda de numerosos quadrantes, é recorrente a acusação de sisudez crónica dirigida ao cinema português. Trata-se, como é óbvio, de uma daquelas ideias feitas de enorme conveniência para todos aqueles que preferem a facilidade da bojarda de efeito imediato à seriedade e ao estudo minimamente objectivo de uma questão. Para perceber que não existe incompatibilidade entre a gargalhada e os realizadores portugueses (mesmo entre aqueles a quem se colou a tenebrosa reputação de "intelectual"), basta pensar em como, com poucas excepções, todos eles contam na sua filmografia com obras em que o humor é nota marcante. E não falo apenas de um registo de farsa: falo de comédia franca e explícita. Pensemos no Manoel de Oliveira de "Party", "O Passado e o Presente" e "O Meu Caso", pensemos em todo o João César Monteiro tardio, no João Botelho de "A Mulher que Acreditava Ser..." e de "Tráfico", em Paulo Rocha, em José Fonseca e Costa... Quanto às gerações mais novas, se é certo que alguns dos seus chefes de fila parecem desprovidos de qualquer veleidade cómica (Pedro Costa, Teresa Villaverde...), nomes como os de Joaquim Sapinho (de "Corte de Cabelo"), Miguel Gomes e João Nicolau são outros tantos contra-exemplos a opor ao estereótipo de um cinema português sorumbático e grisalho. (Não é que eu tenha alguma coisa contra filmes sombrios e austeros, por São Bergman e São Tarkovsky! Mas deixemos a minha opinião de lado, neste caso.)

sábado, novembro 18, 2006

BALZAQUIANO UMA VEZ, BALZAQUIANO PARA SEMPRE: Recentemente, a Cristina publicou uma lista de filmes que tiveram a felicidade de contar com o talento magistral de William Lubtchansky na sua fotografia. O primeiro citado, e mais recente, é um certo "Ne touchez pas la hache". Ora, este filme não é outro senão o último de Jacques Rivette, adaptação de "La Duchesse de Langeais" , ainda por estrear. É a terceira vez que Rivette se baseia em Balzac, depois de "Out 1" ("Histoire des Treize") e de "La Belle Noiseuse" ("Le Chef-d'œuvre inconnu"), em ambos os casos de forma extremamente livre. Estou muito curioso por saber se, no caso de "La Duchesse de Langeais" (que aliás é parte integrante da "Histoire des Treize") , Rivette e os seus habituais colaboradores Pascal Bonitzer e Christine Laurent serão mais fiéis à obra original. No elenco, encontramos uma cúmplice de longa data, Bulle Ogier ("L'Amour Fou", "Out 1", "La Bande des Quatre"...), dois repetentes (Jeanne Balibar, depois de "Va Savoir", e Michel Piccoli, depois de "La Belle Noiseuse"), e um estreante em lides rivetteanas: Guillaume Depardieu. Quase não se encontra nada sobre este filme na Internet. Espero que as revelações não tardem, e que a estreia em Portugal não se faça esperar mais do que o razoável. ("Ne touchez pas la hache" é o título da primeira edição de "La Duchesse de Langeais". Regra geral, os títulos finais das obras da Comédia Humana parecem-me superiores aos que Balzac originalmente lhes atribuiu. Esta pode muito bem ser uma das poucas excepções.)
UM INIMIGO DA ESCOLA PÚBLICA: Há pessoas que desconhecem os talentos que possuem. Pergunto-me se André Abrantes Amaral estará ciente da sua superlativa capacidade para a distopia. Capacidade involuntária, presumo-o, visto que parece ser de inteira boa fé que ele propõe (suplemento "Dia D", "Público" de 27/10) um sistema de ensino inteiramente privado, e o fim total do monopólio estatal na educação. AAA começa, pouco originalmente, por agitar os espantalhos do corporativismo, do estatismo, da burocracia e dos abusos dos sindicatos para convencer o leitor da iniquidade do sistema actual. Se tais argumentos, embora minados pelo simplismo (próprio de quem deseja demonstrar, num artigo de página, uma tese sobre um tema de enorme complexidade), não são totalmente incompatíveis com o bom senso, rapidamente o leitor começa a ser brindado com pérolas às quais não falta o seu quê de sinistro. AAA escandaliza-se com o facto de o Ministério da Educação se considerar mais bem preparado que os pais para decidir o que os alunos devem estudar. Pelo que me toca, não só isso não é minimamente chocante, como qualquer alternativa me pareceria inquietante. Quem, senão o Ministério, poderia assumir esse papel de liderança na condução das políticas da educação? A resposta de AAA é categórica: quem dela precisa, ou seja os alunos e os pais. Não passaria pela cabeça de ninguém, julgo, pôr os contribuintes a decidir a política fiscal, ou deixar que os enfermos definissem os moldes de gestão do parque hospitalar. Quando se trata da educação, porém, os liberais de serviço estão dispostos a ir até ao fim, e raramente hesitam (AAA não está certamente sozinho nesta cruzada intelectual) em proclamar a excelência absoluta do princípio do utente-decisor. Deixar que os pais tivessem voto de qualidade na organização do sistema educativo, e em particular na elaboração dos programas escolares seria, para mim, um erro de extrema gravidade. A privatização total do ensino, com "programas diferentes de escola para escola, numa livre concorrência e sempre salutar" teria o potencial para criar focos de proselitismo, sectarismo e comunitarismo, já para não falar nos prejuízos óbvios que traria para a mobilidade social. AAA afirma que "o seu [do Estado] interesse sempre foi bastante mais obscuro: Ele teme que os pais não incutam nos filhos o conceito de pertença ao Estado, mas antes à sua família e comunidade de vizinhança." Apetece-me dizer: et pour cause! Não me admira (e acho até desejável) que o Estado se dê a tais trabalhos para evitar derivar comunitárias, atendendo a tudo aquilo que de potencialmente explosivo encerra, nas sociedades de hoje, a sobreposição dos valores do grupo (religioso, étnico ou social) aos valores da sociedade e da nação. E desafio AAA a apontar seja o que for de tenebroso ou compulsivo nesse conceito de "pertença ao Estado", tal como este é, diz ele, "incutido" nas jovens e maleáveis mentes. Estamos longe dos tempos em que se entoavam loas ao marechal Carmona nos manuais escolares. Isto para mencionar apenas os argumentos com uma vaga aparência de cabeça, tronco e membros. Passo em silêncio tiradas como "Ao ser afastado o dirigismo central, desaparecem os compadrios e os interesses obscuros". Demonstrar talento para o humor involuntário é uma coisa; fazer concorrência ao Gato Fedorento é outra. Não se pedia tanto a AAA. Se não fossem as fotografias (e o que valem elas, na era do PhotoShop?), seria capaz de pensar que todos os cronistas/bloggers do "Dia D" não passam de heterónimos de uma só pessoa, optimista e hiperactiva. (O artigo em questão encontra-se disponível neste blog, numa entrada do dia 30/10. Não consigo fazer o enlace directo.)
DESILUSÕES HERTZIANAS: O segundo canal da RTP, chame-se ele RTP2, TV2, 2:, "a dois", ou qualquer uma das muitas designações com que o têm ataviado ao longo dos anos, possui um historial de dar tiros no próprio pé que tem que se lhe diga. Da eliminação quase total do cinema à menorização e abandono do formato do magazine cultural diário (embora se deva dizer que o recente "Câmara Clara" me parece ser aposta ganha), passando pelos surtos de desprogramação inopinada de séries e pela inenarrável "Hora Discovery", têm sido legião as opções questionáveis. Daí que, infelizmente, não se possa classificar como totalmente inesperado aquilo que sucedeu à série "Curb Your Enthusiasm" ("Calma Larry!" em português): a meio da quarta série, mais exactamente após a exibição do sexto de dez episódios, eis que desapareceu da programação sem deixar rasto. Se a RTP adquiriu a totalidade dos episódios, porque não os exibe? Se não os adquiriu, por que diacho não o fez? Não sou fã de séries. Raras vezes me deixo prender por uma. Nunca os (escassos) visionamentos que fiz de "Seinfeld" me despertaram algo que se pudesse confundir com entusiasmo. Mas a minha fidelidade ao "Curb" já se traduzia em nervoso miúdo sempre que, aos sábados à noite, me encontrava longe de casa e da televisão ao aproximar das dez e meia. Acho admirável a maneira como Larry David mistura os registos da sitcom e da reportagem em directo, e a forma como o tom de improvisação potencia os argumentos perversamente bem arquitectados. Vou ter saudades. (Em condições normais, pensaria em escrever ao provedor da RTP, mas perdi a confiança nele desde que se declarou a favor das transmissões de tourada na televisão, com o argumento de se tratar de um espectáculo legal e de grande adesão popular. Estamos mal quando um provedor se abstém de considerar critérios éticos, e se fica pela vertente jurídica e pelo êxito de bilheteira. Mas divago.)

terça-feira, novembro 14, 2006

CINEMA: Terminei recentemente a leitura de um livro de memórias de Suso Cecchi d'Amico, sob a forma de conversas com a sua neta, Margherita d'Amico. Suso Cecchi d'Amico é uma figura incontornável do cinema italiano, tendo colaborado, como argumentista, em filmes de De Sica (entre os quais "Ladrões de Bicicletas"), Antonioni, Lattuada, Comencini, Zurlini, Rosi e muitos outros. Porém, a sua mais frutuosa relação profissional foi com Luchino Visconti, para quem escreveu ou co-escreveu os argumentos da quase totalidade dos filmes, incluindo obras-primas como "Senso", "Le Notti Bianche", "Rocco e i suoi Fratelli", "Il Gattopardo" e "Gruppo di Famiglia in un Interno". Procurando informação biográfica sobre esta senhora (ainda me recordo da ocasião em que descobri, para minha surpresa, que se tratava de uma mulher), constato que, aos 92 anos, acaba de assinar mais um argumento, para um filme, que se encontra em pós-produção: "Le Rose del Deserto". Quanto ao realizador, não é outro senão Mario Monicelli, outro histórico, que já completou 91 anos. Quantos outros exemplos existirão, na história do cinema, de filmes realizados e escritos por nonagenários?

sábado, novembro 11, 2006

REDE ELÉCTRICA EUROPEIA: Afinal, ao que parece, o corte de corrente de há uma semana, que afectou vários países europeus, foi ocasionado pela desactivação de uma linha de alta tensão, por forma a permitir a passagem segura de um navio de cruzeiro por um rio alemão. Uma manobra desastrada como esta pode acontecer a qualquer um. Ainda assim, tratando-se de uma intervenção de risco, não se percebe por que é que não aguardaram até ao final da exibição do filme na sala 3 do King. Teriam poupado o transtorno e a frustração a algumas dezenas de espectadores.
LIÇÕES QUOTIDIANAS DE GEOGRAFIA: Desde que os gatos Goneril e Jasmim aprenderam a saltar para a bancada da cozinha, abriu a época de caça aos ímanes do frigorífico. De entre estes, os mais vulneráveis, pela reduzida dimensão da superfície magnetizada, são uns que eu trouxe de França, e que vinham como brinde em artigos alimentares pré-cozinhados. Representam departamentos franceses, e estão ilustrados com atracções turísticas e ícones de região. Ultimamente, tem-se tornado ocorrência corriqueira encontrar a França aos pedaços disseminada pelas divisões da casa: Lozère na cozinha, Ardennes no hall, Côtes d'Armor no quarto, Loire Atlantique na sala, Lot-et-Garonne no escritório...

quarta-feira, novembro 08, 2006

CINEMA/LUGARES DE PARIS: No passado sábado, uma avaria eléctrica com origem na Alemanha originou um corte de corrente de grandes proporções, que se estendeu a vários países, e que afectou algumas zonas de Lisboa. Para as bandas da Avenida de Roma, o corte de corrente ocorreu perto do final de uma sessão do filme "Paris Je t'Aime", no cinema King, mais precisamente durante o segmento realizado por Alexander Payne (o autor de "Sideways", que não vi mas queria ver). Este episódio pareceu-me um dos mais conseguidos do filme. A história é de uma banalidade descoroçoante: Carol, uma carteira cinquentona de Denver conta, num francês trôpego e cheio de sotaque, as suas férias solitárias de uma semana em Paris. O tom monocórdico e as limitações linguísticas da narradora criam um distanciamento subtil que se coaduna de forma sedutora com a linearidade da narração, em jeito de álbum de memórias inócuo e vagamente ingénuo. No fim do episódio, Carol, sentada num banco do Parc Montsouris (que é um dos melhores sítios que eu conheço para uma epifania), tem uma revelação que a reconcilia com a vida e com as suas memórias, mais ou menos recalcadas, mais ou menos dolorosas. Em consonância com o resto deste pequeno filme, tudo se passa de forma pudica e corriqueira, e o real significado do evento aparece filtrado pelas dificuldades de expressão em francês que Carol sente. Por ironia, o corte do corrente, causado (ao que parece) por uma brusca quebra de temperatura em território alemão, coincidiu com o preciso momento em que Carol se preparava para contar a sua revelação. Durante os minutos que se seguiram, os espectadores do cinema King hesitaram longamente entre partir ou ficar, na esperança de verem satisfeita a sua curiosidade quanto ao conteúdo de uma revelação fictícia de uma turista americana fictícia, no (felizmente real) 14ème arrondissement de Paris. Aproveito para assinalar com agrado a reabertura da livraria do cinema King, após exasperantes meses de encerramento.
KLEIST PREPARA O FUTURO: As minhas sentidas desculpas aos leitores que terão estranhado a reduzida produção deste blog. Tenho estado ocupado pela tarefa absorvente de preparar uma edição ne varietur do Umblogsobrekleist, assistido por uma equipa de exegetas a quem pago o salário mínimo.

sexta-feira, novembro 03, 2006

MAPA DA EUROPA LIBERTADA:

E em breve, a França. Para quando Portugal?