sábado, junho 23, 2007

E, POR FALAR EM NOMES DE REALIZADORES...: Na Fnac do Chiado, sector dos DVDs, alguém, suponho que um funcionário zeloso, rasurou com caneta azul o "R" que corrompia a correcta grafia do nome do realizador de "La Dolce Vita" ("Frederico Fellini"). Ainda não perdi a esperança de que alguém acabe por reparar no "S" traiçoeiro que se insinuou no nome de "Tarkosvsky", mesmo ao lado.
PARA DESCOMPLICAR: Não terá escapado a nenhum cinéfilo digno dos seus galões que "Uzo", lido ao contrário, fica "Ozu". Espera-se ardentemente que surjam em breve novos tarifários com nomes como "Awasoruk", "Esuran", "Namgreb" ou "Dradog".
ALCARAVIA: O livro "Ervas Aromáticas e Especiarias" (Jill Norman, Dorling Kindersley/Civilização) descreve o aroma da alcaravia (Carum carvi) como sendo pungente, ardente e agridoce, bastante picante, com uma nota de casca seca de laranja e um travo leve mas demorado de anis.



Esta especiaria será fácil de encontrar em Lisboa?


Qualquer sugestão representaria uma ajuda supremamente bem-vinda.

quarta-feira, junho 20, 2007

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS (*): Num dos episódios de "Yes, Minister", a mulher do ministro Jim Hacker está a ler, na cama, o romance "Rites of Passage", de William Golding, por sinal um grande livro. A fotografia do autor na contracapa dissipa quaisquer eventuais dúvidas. (*) Neste caso, em lugares privados e fictícios.
BARBAS E RELÂMPAGOS: Segundo Vasari, o pintor Raffaello Sanzio comparou os músculos dos estudos de anatomia com os músculos de seres humanos vivos, e observou a trama dos ossos, nervos e artérias até atingir o grau de maestria na reprodução do detalhe que se exige a um pintor de excelência. Porém, ao dar-se conta de que nunca seria capaz de atingir a perfeição de Michelangelo, Raffaello optou por trabalhar mais aprofundadamente a disposição dos elementos no quadro, e esforçou-se por estudar tudo o que é necessário à arte da pintura: tecidos, sapatos, capacetes, armaduras, penteados femininos, cabelos e barbas, vasos, árvores, grutas, rochedos, fogos, céus tempestuosos ou limpos, nuvens, chuvas, relâmpagos, o bom tempo, a noite, o luar, os efeitos do sol, etc.





(Santa Cecília com santos, c. 1514-1516.)

sábado, junho 16, 2007

FRACOS EM HISTÓRIA E EM DOUTRINA?: Quando ocorre um feriado de cariz patriótico, é comum as nossas televisões passarem reportagens de rua daquelas em que se questiona o transeunte incauto sobre o significado da efeméride. Infalivelmente, basta uma meia dúzia de balbuceios hesitantes («Restauração da independência... Foi quando D. Afonso expulsou os mouros, não foi?») para conduzir o repórter, alegre e fatidicamente, até à conclusão de que os portugueses ignoram a história do seu próprio país. Tudo isto sobre fundo de imagens de arquivo da multidão na Rua Augusta, com um ar adequadamente ocioso e alheado. Estranhamente, é bastante mais raro que semelhante zelo seja aplicado aquando dos feriados religiosos. Neste país em que os índices de catolicismo atingem, alegadamente, os noventa e tantos por cento, quantos cidadão seriam capazes de explicar o que se celebra no dia do Corpo de Deus, da Assunção de Nossa Senhora, ou da Imaculada Concepção (o mais ardiloso "falso amigo" de todos os dogmas)?
GREGOS E TROIANOS: Nem Ota, nem Alcochete, nem Poceirão. Construam o novo aeroporto no Second Life!

quinta-feira, junho 07, 2007

UM EXEMPLO PARA TODOS: «Desde João Soares que Lisboa está financeiramente ingovernável. Os presidentes podem fazer um ou outro arranjo, centrar as atenções numa ponte ou num viaduto ou num grande plano de reconversão da Baixa, que a distracção pode ter sucesso, mas as dívidas e os juros crescem exponencialmente. Sem resolver esta questão, tudo o resto é fazer uns arranjos florais nos jardins. O único exemplo a seguir é o de Rui Rio. Apareça alguém a dizer que vai seguir o exemplo do Porto, ouça-se o espernear dos animadores culturais a dizer de que o “contabilista” está a “matar” a cidade, e Lisboa pode vir a ser finalmente governável.» (Pacheco Pereira, no Abrupto, A.D. 14/5/2007. Negritos meus, e ai de quem mos tentar tirar.) Não sei o que é mais deplorável nesta citação, mas talvez seja isto: a convicção implícita de que não existe um meio termo entre a prodigalidade desvairada e uma parcimónia em guerra aberta contra a alegada subsidiodependência dos agentes culturais. Ou, por outras palavras: a alegação de que a luta contra o despesismo não admite outra postura que não seja a de Rio. Para além das boas práticas contabilísticas, urge reconhecer aquilo que a atitude do edil portuense encerra de populismo duro e puro. Sonegar alguns milhares de euros a companhias de teatro pouco peso terá nas contas municipais, mas inscreve na coluna do activo uma quantia choruda em divisa das mais fortes: inimigos impopulares. Refiro-me aos tais animadores culturais, a quem o continuado hábito de exercer uma actividade artística à custa de dinheiros públicos faz merecer o estigmatizante estatuto de parasita. Quem será o autarca que não singra com o ressentimento desses saltimbancos ociosos, detestáveis aos olhos do bom povo que trabalha para ganhar a sua tosta mista e o seu panaché? O meu populista é menos populista do que o vosso populista. Desgraçadamente, muita da argumentação sociopolítica que por aí se ouve e lê não passa de uma glosa preguiçosa desta frase.

quarta-feira, maio 30, 2007

ENTRE OS JACARANDÁS E AS FILAS PARA OS CHURROS: Em tempos, por via do trop-plein de energia anímica típico de um recém-chegado à blogosfera, deu-me para recensear títulos bizarros de obras avistadas na Feira do Livro de Lisboa. Sem o furor quase sistemático dessa era gloriosa, as modestas incursões deste ano permitiram-me acrescentar alguns espécimes de bom calibre à minha colecção. Das heróicas Edições Mortas, destacam-se, entre muitos outros, "Malgas de Peçonha", de Virgílio Liquito (a capa não desmerece do título) e "Punhetas de Wagner", de A. da Silva O. Porém, há que reconhecer que até estes portentos empalidecem perante o arrojo de "Morri! E Agora?", uma obra que põe o dedo na ferida com a veemência dos predestinados. Assinale-se ainda a presença na Feira de dois ministros do actual governo, de um popular blogger e de muitos anónimos.

terça-feira, maio 29, 2007

XADREZ: Segundo o livro "Life of Paul Morphy in the Vieux Carré of New-Orleans and Abroad", de Regina Morphy-Voitier, o lendário xadrezista Paul Morphy tinha por hábito andar de um lado para o outro na varanda da sua casa, murmurando as palavras «Il plantera la bannière de Castille sur les murs de Madrid au cri de Ville gagnée, et le petit Roi s’en ira tout penaud». Até hoje, ninguém foi capaz de determinar a origem desta citação, de acordo com o historiador de xadrez Edward Winter. (Contextualização nº 1: Paul Morphy (1837-1884) foi um dos jogadores mais notáveis da segunda metade do século XIX. Os Estados Unidos da América produzem campeões de xadrez de classe mundial com exasperante infrequência. Quando o fazem, porém, nunca se trata de um mangas-de-alpaca banalmente genial: a aura de mistério e um carisma mais ou menos delirante estão garantidos.) (Contextualização nº 2: Edward Winter é conhecido por levar a atenção pelo detalhe irrelevante a níveis que poucos se atrevem a tentar superar. Pode-se contar com ele para devotar dezenas de linhas à ortografia do nome de um amador que empatou com Capablanca numa simultânea, ou aos licores servidos num banquete onde participou Lasker. As suas "Chess Notes" são um manancial de esdrúxula erudição.)

sexta-feira, maio 25, 2007

PANOS: «Realiza-se pela segunda vez o festival de encerramento dos PANOS, um projecto que alia o teatro escolar/juvenil à nova dramaturgia. Inspirando-se no NT Connections do National Theatre de Londres, todos os anos há peças novas encomendadas a escritores reconhecidos, com apenas duas condições: escreverem para actores entre os 12 e os 18 anos; preverem um tempo de espectáculo não superior a uma hora.» Escritores reconhecidos? Só se for na acepção de "reconhecido aos jovens actores que, durante estes meses, se debateram com a transposição para a cena do meu indigesto entremez". Neste fim-de-semana, na Culturgest. Há ainda peças de Ali Smith e de Armando Silva Carvalho para ver. Horários e mais informações aqui.

quinta-feira, maio 17, 2007

AMEIXAS MADURAS E BARATAS! PRIMEIRA QUALIDADE! VENHAM COMPRAR!: No filme "O Comerciante das Quatro Estações", de Fassbinder, recentemente exibido pela Cinemateca com legendas em francês e português, o responsável pela versão portuguesa traduziu por "gira" uma palavra alemã (que não identifiquei) que o tradutor francês converteu em "bandante". Reticências repletas de pudor do tradutor português? Ou lúbrica malícia do tradutor francês? Este filme está longe de ser um dos meus Fassbinders preferidos, mas a margem deste post é demasiado pequena para eu explicar porquê.

terça-feira, maio 15, 2007


Segundo a embaixadora do Brasil no Vaticano, Lula afirmou ao papa que vai "preservar e consolidar o país como estado laico".






Luiz Inácio Lula da Silva, presidente democraticamente eleito de uma nação soberana e livre, sem qualquer obrigação de prestar vassalagem ao Vaticano, esse estado de duvidosa legitimidade cujas principais exportações são o desplante, o dogma, a arrogância e a intromissão nos assuntos alheios.

terça-feira, maio 08, 2007


O grupo Teatroàparte levará à cena, nos próximos dias 11, 12, 18 e 19, no auditório da Biblioteca Orlando Ribeiro (Telheiras, Lisboa) a peça "A Casa de Lorca", baseada em "A Casa de Bernarda Alba", de Federico García Lorca. A encenação é de Jorge Parente. Mais pormenores aqui.



Estão assim explicados os sorrisos cúmplices que os telheirenses trocam na rua, para estupefacção dos forasteiros.




VÍCIOS PÚBLICOS 1 - VÍCIOS PRIVADOS 0: No seu estudo biográfico "A Private Life of Henry James", Lyndall Gordon sustenta que "o Mestre" se comportou de forma abominável e negligente com duas mulheres que influenciaram grandemente a sua vida e a sua obra: a sua prima Minny Temple e a romancista Constance Fenimore Woolson. Muito mais do que as asserções pouco abonatórias sobre o carácter e a atitude de Henry James, chocou-me até às mais recônditas concavidades do meu ser a revelação de que ele preparou uma versão para teatro de "Daisy Miller" em que a heroína, em vez de morrer tragicamente na sequência da visita nocturna ao Coliseu, casa com o canastrão Winterbourne. Atentar contra a própria integridade artística para atingir a glória e a popularidade fica tão mal numa biografia como uma nódoa de coulis de framboesa numa toalha de linho branco.
O MÉRITO PREMEIA-SE: De acordo com o documentário incluído no DVD de "Caravaggio", as últimas palavras do realizador Derek Jarman terão sido: "Espero que o mundo se encha de patos amarelos e fofinhos". Qualquer que seja o futuro que a posteridade reserve ao seu legado artístico, ninguém com um pingo de vergonha na cara lhe negará o galardão de "mais original e divertido derradeiro fôlego de sempre". Outros prémios aparentados: Melhor ideia para epitáfio: "I told you I was sick!" (Spike Milligan). Melhor resposta à pergunta "O que é que ainda lhe falta fazer na sua longa carreira?": "Tocar com o calcanhar na parte de trás da cabeça" (George Burns). Melhor título de sempre: é minha firme convicção de que esta distinção perdeu razão de ser desde que, em 1986, o alemão Wolf Wondratschek lançou o seu "Carmen oder Bin ich das Arschloch der achtziger Jahre" ("Carmen ou serei eu o cara de cu dos anos 80"), dessa forma aniquilando a concorrência com efeitos perpétuos.

sábado, maio 05, 2007

O AR DO TEMPO: Muito em breve, aqui no Umblogsobrekleist, procederemos à separação das nossas redes de cabo e cobre. Não perca este momento histórico! (Nós não queríamos separá-las, mas obrigaram-nos.) A propósito, alguém tem um canivete suíço que nos possa emprestar?

sexta-feira, abril 27, 2007

JÁ PARA NÃO FALAR DO COLEÓPTERO NA VARANDA DO SÃO JORGE: Local: Lisboa. Ocasião: filme de Hal Hartley no IndieLisboa, com presença do próprio, que é como quem diz do mesmo. Hartley, altíssimo, desengonçado, com cara de eterno adolescente, revela à audiência aquilo que as pessoas dizem do seu filme: que é "funny and sad", e que as pessoas falam muito depressa. Toca o telemóvel do apresentador português. Hartley: "Your cell phone is ringing. It's someone to tell you that: the film is funny and sad". Antes do filme propriamente dito, o público é entretido com sugestões publicitárias. Luís Represas canta e interrompe-se no anúncio da cerveja Bohemia. Há quem se dê ao trabalho de bater palmas trocistas, para gáudio de muitos. Hal Hartley deve ter ficado com a impressão de que Luís Represas é um ídolo de portentosa envergadura, e que os portugueses são um povo que ama os seus trovadores com paixão. O filme é bom, talvez demasiado na linha de "Henry Fool", de que é uma sequela explícita. Parker Posey é uma actriz que dá gosto ver. Constrói uma personagem perante os nossos olhos, mas dando a impressão de a habitar desde sempre. Corresponde na perfeição ao ideal hartleyano de lisura expressiva e bizarria isenta de cabotinismo. Os meus filmes preferidos de Hartley são "Simple Men" e "Flirt".
E POR FALAR EM TEATRO: Vem estrondosamente a propósito mencionar este blog, de um veterano nestas andanças, onde é divulgado teatro intra e extra-Porto.
TUDO É SUSCEPTÍVEL DE TEATRO: E, com Rivette como patrono, tudo fica mais suculento e resplandecente.