domingo, julho 22, 2007

PLANO NACIONAL DE RELEITURA: Recebam a minha gratidão, autores do Cine-Australopitecus e do Design do Dasein, por se terem lembrado de mim. Como não vejo qual o interesse que poderia ter a lista dos últimos 5 livros que passaram pelas minhas mãos, prefiro elencar 5 dos livros que ambiciono reler num futuro não demasido remoto. (Não que esta lista possa, mais do que a outra, ser de molde a despertar paixões, mas pelo menos compromete-me perante o mundo.) "Margarita e o Mestre", de Mikhail Bulgakov. O título deveria ser "O Mestre e Margarita"; nunca saberei por que motivo o tradutor português inverteu a ordem dos termos. (A propósito, Rogério, afinal as notas de rodapé com explicações sobre trocadilhos no original russo são escassíssimas, ao contrário do que a minha claudicante memória me sugeria.) Para além de ser uma das histórias de amor mais improváveis e exaltantes da história da literatura, passar muitos anos sem recordar a passagem do diabo por Moscovo é nocivo a tudo o que seja órgão, sistema e víscera. "The Life and Opinions of Tristram Shandy, Gentleman", de Laurence Sterne. Li-o demasiado jovem; impõe-se uma segunda dose. A ousadia não deve, só por si, ser uma virtude nas artes, mas pode ser um dos principais auxiliares do génio. Dá ainda que pensar o facto de este prodígio de invenção e humor, repleto de convoluções narrativas e retóricas, ter sido redigido no século XVIII e ter tornado o seu autor famoso. Bela negaça ao lugar-comum do autor incompreendido no seu tempo e exaltado pelos seus vindouros. "Ulysses", de James Joyce. Passou, julgo, suficiente tempo desde a última leitura para que a próxima se assemelhe à primeira, o que acarreta um deleite ímpar que me entretenho (perversamente?) a antecipar. Talvez desta vez seja de evitar a controversa edição revista por Hans Walter Gabler. "La Vie Mode d'Emploi", de Georges Perec. Se alguém, alguma vez, me pedisse (isto nunca aconteceu) para me definir em X palavras, ofereceria a essa pessoa um exemplar de "La Vie Mode d'Emploi". Não só seria a atitude mais correcta e menos morosa, como seriam elevadas as probabilidades de fazer um novo amigo. "Ficções", de Jorge Luis Borges. Antes de ter nas mãos pela primeira vez este livro, as referências que dele me chegavam faziam-me supor um calhamaço com centenas de páginas. Lendo-o, maravilhou-me esse talento quase sobrenatural de Borges para sugerir os abismos do infinito por meio da brevidade, da alusão, da elipse e de um comedimento vagamente cabotino. Será essa a sensação que esperarei reencontrar quando encetar a releitura. O facto de "Pierre Menard, autor do Quixote" ser um dos textos mais subtis e empolgantes que conheço não é detalhe de importância menor. (Ah, e não passo a ninguém este desafio, nem o original que declinei. Talvez seja caturrice minha, mas acho que a blogosfera estaria mais fresca e airosa sem estes memes, versão mais sofisticada e tongue-in-cheek das cartas em cadeia exortando à oração a São Judas Tadeu.)
EU CÁ APOIO LUÍS FILIPE MENEZES: Um homem que foi capaz de afirmar, no rescaldo do referendo sobre a legalização da interrupção voluntária da gravidez, ter-se tratado de uma grande derrota para Jósé Sócrates, e isto sem ceder a uma gargalhada, merece maior protagonismo na política portuguesa. Amiúde, é nesta zona cinzenta que faz fronteira com a estultice e com o desplante que se encontram os líderes de excepção, capazes de conduzir uma nação à glória, ou pelo menos a um descalabro glorioso.
OUT, DAMNED SPOT!: "Macbeth" revisitado numa máquina de lavar Siemens. Acto 5, cena I.
LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Um jovem lia Cesário Verde na linha amarela do metropolitano. Seria esta uma ocasião de ouro para um daqueles trocadilhos de bazar que abundam em certas paragens, e que os leitores habituais deste espaço já sabem não ser o tipo de coisa que esperam poder encontrar aqui.

quarta-feira, julho 18, 2007

ENLACE-SE: Tem nome de filme e abundância de versos. Gosto mais de "Paris" do que de "Texas", mas quando os dois se juntam coisas simpáticas costumam acontecer.

segunda-feira, julho 16, 2007

FAIRE SIGNE:



Este é um dos "quadros negros" de Goya, um dos catorze que ele pintou nos seus últimos anos, nas paredes da "Quinta del Sordo". Muito menos conhecido do que "Saturno devorando o seu filho", é, para mim, muito mais poderoso e impressionante. Tal como aos restantes "quadros negros", Goya não lhe atribuiu um título. Chamaram-lhe "Um cão lutando contra a corrente"; mais tarde, simplesmente, "Um cão". Encontra-se hoje no museu do Prado.

Daniel Arasse, no seu livro "Le Détail", defende que, neste quadro, Goya fez da virtualidade o próprio sentido da obra. E mais afirma:

«Ainsi conçu, le symbole énonce le sens comme une virtualité de l'image, force et puissance active dans cette image, qui échappe cependant à toute explicitation où s'abollirait la présence de l'image et où triompherait un discours dont l'image ne serait que l'équivalent visuel. Le sens intime d'Un chien pourrait bien être ainsi inhérent à l'œuvre elle-même, en être une «inhérence indéchirable» (...). Le sens de l'œuvre pourrait être l'œuvre elle-même, présence d'un objet signifiant, rendu énigmatique par l'opacité même de la peinture qui y fait signe.»

Olhando para este quadro, fico com a impressão de que quase tudo o que importa na história da pintura passa por aqui. (E talvez não só da pintura, e talvez à mistura com algo da ordem da paixão.)
ESTREITEZA DE VISTAS 1 BOM SENSO 0: Por vezes, sentimo-nos tentados a nutrir a ilusão de que a responsabilidade e a coragem política vão falar mais alto do que a tibieza e a pusilânime tentação do compromisso. O inevitável amargo de boca que se segue tem o travo detestável do hábito e da fatalidade. A versão mais rigorosa (mais "hitleriana", ou mais "fundamentalista", dirão os histéricos do costume) da lei de interdição do tabaco em espaços públicos tinha tudo a seu favor: o bom senso, a opinião pública, dados recentes que indicam valores impressionantes para o número de mortes anuais devidas ao fumo passivo. Tudo a seu favor? Erro! Tudo, menos a proverbial tacanhez de espírito dos legisladores portugueses e o seu apetite atávico pela acomodação, pelo arranjismo e pela cedência ao compromisso. O resultado líquido das derradeiras manobras nos bastidores de São Bento foi uma lei mais complicada, que vai claramente ao arrepio da tendência geral na Europa Ocidental, e que se arrisca a, depois de tanto alarido e ranger de dentes, deixar quase tudo na mesma, no que toca ao consumo de tabaco em bares e restaurantes: com efeito, ninguém ignora que os estabelecimentos com menos de 100 metros quadrados, onde continuará a ser permitido fumar excepto se os proprietários decidirem em contrário, estão em larguíssima maioria. A partir de 1 de Janeiro, cá estaremos para ver quantos destes passam a interditar o tabaco. Palpita-me (fica prometido o devido acto de contrição caso me engane) que serão poucos, para gáudio dos arautos da pseudo-liberdade de escolha, que nunca hesitaram em recorrer aos argumentos mais escabrosamente ridículos para vociferar contra qualquer lei que os privasse do direito de poluir o ar alheio com o agente que é a maior causa de morte evitável no mundo ocidental. Os vindouros hão-de ver nesta lei pouco mais do que uma supérflua etapa intermédia rumo a regulamentações mais restritivas, que não tardarão a surgir à medida que os contornos reais deste problema de saúde pública se forem tornando cada vez mais nítidos. Entretanto, as mortes e horas de trabalho perdido por via da exposição ao fumo alheio continuam dentro de momentos. Com a cumplicidade daqueles que malbarataram esta oportunidade.

domingo, julho 08, 2007

ANÚNCIO DE ANÚNCIOS DE GATO PERDIDO INVENTADO PERDIDOS:
Paredes, muros, cercas,
na vossa singeleza plana e monócroma,
não lamentais a singular falta
de anúncios,
especialmente
anúncios de gato perdido inventados?
Eles costumavam ser tantos e
tão repletos
de brincalhões cambiantes verbais.
A paixão pelos bichanitos
engolidos pela ingrata paisagem urbana
de Lisboa
emanava deles
como luz de um candeeiro a gás,
quer dizer suave mas perene.
O seu fluxo de dizeres
angustiados e esperançosos
e de focinhos atrevidos
fotocopiados a preto e branco
era parte dos meus dias.
(Talvez a melhor parte deles.)
Fui todos esses donos
e todos esses felinos
que estranhavam o asfalto
húmido de chuva e óleo.
Decorei números de telemóvel,
algarismos resplandecentes
de significados,
de promessas de reencontro
num qualquer canto macio de lar aquecido.
Em todos esses reencontros estive presente
mesmo naqueles que nunca aconteceram.
Nada
do que as paredes dizem
agora me desperta.
Talvez todos os gatos perdidos da cidade
tenham sido encontrados.
Talvez haja gatos, mas não
as palavras destinadas
a evocá-los,
nesta cidade demasiado mesquinha
para ser fatal.
BERLIN, CHAMISSOPLATZ: Sim, Chamissoplatz diz-me muita coisa, por acaso. Lembra-me um trecho do filme de Thome que ficou gravado numa cassete VHS, entre outros dois programas. Hanns Zischler cantava, acompanhando-se ao piano, uma canção longa e bela, para uma personagem feminina. Ou seria ela que cantava para ele? Recordo-me (mas a memória é um processo que nem precisa de malícia para ser traiçoeiro) de um travelling longo e circular no interior de um apartamento berlinense. E é tudo.

Tenho saudades dos filmes de Rudolf Thome. Houve tempos em que chegaram a ser mostrados assiduamente nas salas de Lisboa ("O Filósofo", "Amor à Primeira Vista") e na RTP. Agora, tornou-se quase impossível vê-los. Tive ainda a sorte de ver e gravar algumas das suas obras enquanto estive em França ("The Sun Goddess", "Tigerstreifenbaby Wartet Auf Tarzan"), e de ver, em estreia, "Paradiso" (que, por sinal, me desiludiu). Tenho profunda admiração pela maneira aparentemente simples e plácida como desconstrói as relações humanas, pela sensualidade quase pueril com que este cineasta de actores filma os seus actores. Em Thome, o acto de filmar tem tudo de subversivo e nada de provocatório ou agressivo.

O meu filme preferido deste realizador trata (um pouco atipicamente) da irrupção do sagrado entre os fluxos amorosos superficiais de um grupo de personagens. Ou talvez não passe de um esvaziamento encenado da própria noção de sagrado. Tanto que eu gostaria de rever "O Segredo".




(A companhia de produção de Thome, a Moanafilm, tem um site que não está nada mal feito.)
PARA QUÊ GASTAR DINHEIRO COM ADVOGADOS QUANDO SE TEM UM AMIGO NA CASA BRANCA INCLINADO PARA A COMPAIXÃO?: Durante o seu mandato e meio como Governador do Texas, George W. Bush apenas concedeu clemência num dos 153 casos de condenação à morte que passaram pela sua secretária, e o número de execuções nesse estado foi maior do que com qualquer um dos seus antecessores no cargo. Há poucos dias, o mesmo Bush comutou a pena de prisão de Lewis Libby, antigo assistente do vice-presidente Cheney acusado por um júri federal na sequência do escândalo da revelação da identidade da agente da CIA Valerie Plame. Libby fora condenado a 30 meses de prisão, uma multa de 250 000 dólares e 400 horas de serviço comunitário, por perjúrio, obstrução da justiça e por prestar declarações falsas a investigadores federais. Bush, fazendo uso de uma prerrogativa constitucional, anulou a pena de prisão, alegando que a sentença era "excessiva". Nos últimos tempos, tem crescido o consenso em torno da convicção de que Bush é o pior presidente dos E.U.A. das últimas gerações. Em final de mandato, "W." parece apostado em acrescentar à simples (mas colossal) incompetência uma sólida camada de ignomínia. Seria em alturas como estas que eu mais gostaria de auscultar a opinião desses que desfraldam com ingenuidade juvenil a bandeira da americanofilia. Falo dos Luíses Delgados e Joões Carlos Espadas que ufanamente confundem os Estados Unidos com um incorruptível farol de moral e virtudes, e que teimosamente se recusam a admitir o óbvio: que nenhum país está imune a abusos dos seus dirigentes, e que as beliscadelas na separação de poderes são um passatempo que não conhece fronteiras.

terça-feira, julho 03, 2007

O QUE HÁ NUM NOME? (E NUMA ALCUNHA?): Num episódio da série "Dharma & Greg", Dharma aconselhava a sua sogra a nunca jogar bilhar a dinheiro com um homem que se chamasse "Sweet Lou". Tenho pautado a minha vida, desde então, por esta sábia advertência. E não me arrependo.
CHECK YOUR FACTS!: Mesmo para um jornal gratuito, o desleixo que parece presidir à redacção de algumas notícias do "Meia Hora" causa calafrios. Na edição de ontem, a propósito do concerto de homenagem à "Princesa do Povo" (que o nosso serviço público de televisão fez o inestimável obséquio de trazer até nós), este diário afirmava que "Os príncipes levaram a concerto artistas de que Diana gostava, como Joss Stone". Atendendo a que, à data do fatídico acidente do túnel da ponte de Alma, a futura intérprete de "Right To Be Wrong" tinha 10 anos, e ainda nem sequer protagonizara a sua primeira actuação em público. na escola secundária de Uffculme, no Devon, isto abona muito em favor da presciência da princesa Diana e da sua capacidade para descobrir novos talentos.

quinta-feira, junho 28, 2007

IDEIA PARA UMA PEÇA: Na primeira cena, duas personagens discorrem longamente sobre a vantagem e legitimidade, por parte de uma autarquia, de delegar em empresas municipais certas atribuições que lhe são próprias. Uma das personagens está disfarçada de mosqueteiro, a outra de chefe índio. Segue-se um baile de máscaras, no qual uma intriga de enorme complexidade e envergadura soçobra devido à intervenção do factor humano. Para finalizar, algumas lamechices.
AZEITE VIRGEM DE CALTANISSETTA: Queria destacar duas das compras que fiz na Feira do Livro deste ano.

A mais estimulante: "Dream of Fair to Middling Women" (Arcade Publishing), de Samuel Beckett.





Sou admirador profundo, convicto, apaixonado e feroz da prosa de Beckett, mais ainda do que da sua escrita para o teatro. Da, chamemos-lhe assim, proto-história desta prosa faz parte "More Pricks than Kicks", esse prodígio de erudição e sarcasmo que já se atravessou no meu caminho. Tal como esta última obra, "Dream of Fair..." ficou por publicar na altura da sua concepção; ambas seriam alvo, mais tarde, por parte do próprio autor, de um cepticismo coriáceo quanto aos seus reais méritos. Felizmente que, contra todas estas adversidades, ambas acabaram por ver a luz do dia sob forma impressa. Beckett escreveu "Dream of Fair..." no verão de 1932, na Rue de Vaugirard, que nenhum aficionado de estatísticas ociosas ignora tratar-se da mais longa artéria parisiense.

Lendo a contracapa, ficamos a saber que este livro é "Indispensable to anyone interested in the pulse of twentieth-century art" (St. Petersburg Times). Não me reconhecendo nesta descrição (será a arte do século XX um doente com achaques que recomende a monitorização dos seus sinais vitais?), não deixo de me sentir perfeitamente à vontade para subscrever, com gestos enfáticos e impacientes, a parte do "indispensável".


A mais impulsiva: "A Mafia Senta-se à Mesa - histórias e receitas da onorata societá [sic]", de Jacques Kermoal e Martine Bartolomei (Teorema).





(Na figura, a capa da edição francesa.) Onde se fica a saber como confeccionar salmonetes com sementes de funcho, borrego assado com azeite virgem de Caltanissetta, espargos quentes com natas de ovelha, e Flan de castanhas, e em que ocasião tais iguarias acompanharam momentos marcantes da história da cosa nostra.

Para quando uma história gastronónica de Portugal, com coordenação de José Mattoso e receitas ilustradas do Chefe Silva?

sábado, junho 23, 2007

E, POR FALAR EM NOMES DE REALIZADORES...: Na Fnac do Chiado, sector dos DVDs, alguém, suponho que um funcionário zeloso, rasurou com caneta azul o "R" que corrompia a correcta grafia do nome do realizador de "La Dolce Vita" ("Frederico Fellini"). Ainda não perdi a esperança de que alguém acabe por reparar no "S" traiçoeiro que se insinuou no nome de "Tarkosvsky", mesmo ao lado.
PARA DESCOMPLICAR: Não terá escapado a nenhum cinéfilo digno dos seus galões que "Uzo", lido ao contrário, fica "Ozu". Espera-se ardentemente que surjam em breve novos tarifários com nomes como "Awasoruk", "Esuran", "Namgreb" ou "Dradog".
ALCARAVIA: O livro "Ervas Aromáticas e Especiarias" (Jill Norman, Dorling Kindersley/Civilização) descreve o aroma da alcaravia (Carum carvi) como sendo pungente, ardente e agridoce, bastante picante, com uma nota de casca seca de laranja e um travo leve mas demorado de anis.



Esta especiaria será fácil de encontrar em Lisboa?


Qualquer sugestão representaria uma ajuda supremamente bem-vinda.

quarta-feira, junho 20, 2007

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS (*): Num dos episódios de "Yes, Minister", a mulher do ministro Jim Hacker está a ler, na cama, o romance "Rites of Passage", de William Golding, por sinal um grande livro. A fotografia do autor na contracapa dissipa quaisquer eventuais dúvidas. (*) Neste caso, em lugares privados e fictícios.
BARBAS E RELÂMPAGOS: Segundo Vasari, o pintor Raffaello Sanzio comparou os músculos dos estudos de anatomia com os músculos de seres humanos vivos, e observou a trama dos ossos, nervos e artérias até atingir o grau de maestria na reprodução do detalhe que se exige a um pintor de excelência. Porém, ao dar-se conta de que nunca seria capaz de atingir a perfeição de Michelangelo, Raffaello optou por trabalhar mais aprofundadamente a disposição dos elementos no quadro, e esforçou-se por estudar tudo o que é necessário à arte da pintura: tecidos, sapatos, capacetes, armaduras, penteados femininos, cabelos e barbas, vasos, árvores, grutas, rochedos, fogos, céus tempestuosos ou limpos, nuvens, chuvas, relâmpagos, o bom tempo, a noite, o luar, os efeitos do sol, etc.





(Santa Cecília com santos, c. 1514-1516.)

sábado, junho 16, 2007

FRACOS EM HISTÓRIA E EM DOUTRINA?: Quando ocorre um feriado de cariz patriótico, é comum as nossas televisões passarem reportagens de rua daquelas em que se questiona o transeunte incauto sobre o significado da efeméride. Infalivelmente, basta uma meia dúzia de balbuceios hesitantes («Restauração da independência... Foi quando D. Afonso expulsou os mouros, não foi?») para conduzir o repórter, alegre e fatidicamente, até à conclusão de que os portugueses ignoram a história do seu próprio país. Tudo isto sobre fundo de imagens de arquivo da multidão na Rua Augusta, com um ar adequadamente ocioso e alheado. Estranhamente, é bastante mais raro que semelhante zelo seja aplicado aquando dos feriados religiosos. Neste país em que os índices de catolicismo atingem, alegadamente, os noventa e tantos por cento, quantos cidadão seriam capazes de explicar o que se celebra no dia do Corpo de Deus, da Assunção de Nossa Senhora, ou da Imaculada Concepção (o mais ardiloso "falso amigo" de todos os dogmas)?