domingo, setembro 16, 2007
INSUCESSO SCOLARI: É muito raro eu escrever sobre futebol. São tantos os que o fazem que eu hesito antes de acrescentar algum ruído ao ruído. Mas há ocasiões em que a minha renitência se tem de confessar vencida.
Luiz Felipe Scolari é pago principescamente para exercer uma profissão que implica representar Portugal, e que lhe confere uma visibilidade enorme. Esta posição acarreta deveres e responsabilidades extremos. Dificilmente se poderia imaginar uma situação em que alguém se mostrasse mais indigno desses deveres e responsabilidades do que a que ocorreu em Alvalade, na passada quarta-feira. Agredir um adversário é agredir um adversário, sejam quais forem as atenuantes. Aliás, as atenuantes que têm sido alegadas são do foro da provocação verbal ou física. Não se tratou de um gesto de legítima defesa. Ainda que fosse na sequência de intimidações, tratou-se de uma AGRESSÃO, de um comportamento de arruaceiro, em directo para milhões de espectadores.
Se isto, por si, já seria grave, mais grave e patético (para além, temo-o, de definidor de um carácter) foi a atitude de Scolari na conferência de imprensa: negação pura e simples, tentativa de convencer aqueles que legitimamente o questionavam de que se tratara de uma situação normal em futebol, e de que se limitara a "abrir os braços". Foi de meter dó. Com uma pessoa assim, que nega o óbvio com tão assombrosa desfaçatez, não se argumenta; mas numa pessoa assim não se confia para dirigir homens e uma equipa.
Mesmo o tardio acto de contrição, 24 horas depois, soube a pouco. "Todos erram", afirmou Scolari, como que alegando tratar-se de um gesto de suprema humanidade, de um simples efeito colateral da condição falível partilhada por tudo quanto é Homo sapiens. O que faltou a Scolari foi admitir que nem todos os erros se assemelham pela magnitude, e que a estrondosa gravidade do seu erro colocou seriamente em causa a sua competência para a profissão que exerce.
Salpicando a justa indignação suscitada pelo gesto de Scolari, lá surgem as inevitáveis vozes contemporizadoras, cujo apetite para tapar o sol com uma raquete de badminton só tem paralelo com a prontidão com que falam em "cruzada moralista" de cada vez que alguém se insurge contra uma situação que lhe parece errada. Num país brando nos costumes e flácido na ética, os medíocres e os sonsos safam-se invariavelmente melhor do que aqueles que procuram pôr o dedo na ferida, e cauterizá-la se necessário.
Durante muito tempo, achei descabidas as críticas que choviam sobre o desempenho de Scolari, e impacientei-me contra os remoques de treinador de pantufas dirigidos a um treinador que conduziu Portugal a um vice-campeonato da Europa e às meias-finais de um Mundial. Convenço-me agora de que Scolari está a mais na selecção portuguesa, de cujo destino me desinteresso em definitivo, e cuja ausência do próximo Europeu talvez não fosse tão má como isso para a sanidade do país.
TODA A GENTE CÁ NA CASA PÕE A MÃO NO AR: As séries dos "Morangos com Açúcar" passam, mas certos motivos permanecem invariantes, a ponto de já não se conceber sem eles esta série tão ao gosto do público infanto-juvenil. Pequena lista ao correr da pena:
- Donos de bar de compleição robusta e que nunca apertam os botões de cima da camisa (Fred, Xavier).
- Personagens que desaparecem para países longínquos (Eslováquia, Suécia, Austrália) quando expira o seu tempo de vida útil do ponto de vista da economia narrativa da série.
- Personagens sobre cujas cabeças pende ameaça de recambiamento para lugares inóspitos, longe dos amigos e dos Morang'Ices (Alentejo, e novamente a Eslováquia).
- Acções cometidas sob efeito de substâncias alienantes sub-repticiamente introduzidas num alimento de aspecto inocente (lembram-se das tostas de frango do bar do Fred?).
- Agentes da PSP que ajudam a salvar situações delicadas, mas que são sempre intepretados pelos piores actores.
- Casalinhos separados por um infeliz mal-entendido, que se esclarece poucos dias antes do lançamento da nova grelha da TVI.
Aproveito para sugerir que o Duarte poderia ter facilmente reconquistado a Laura se se prontificasse a cortar o cabelo e deixar de usar Crocs. É um erro crasso acreditar que o amor é cego, em vez de apenas um bocadinho hipermétrope.
segunda-feira, setembro 03, 2007
THE WRONG MAN: Num artigo incluído no último suplemento "Ípsilon", João Bonifácio coloca a diversas personalidades do mundo literário a questão incontornável: "Qual é, afinal, o grande escritor americano vivo?" (com maiúsculas ficava melhor). Entre as fotografias que complementam agradavelmente o artigo, uma não pode deixar de causar perplexidade. A legenda "Thomas Pynchon" fez-me inicialmente acreditar tratar-se de uma adição recente à escassíssima (para não dizer inexistente) iconografia do autor de "Gravity's Rainbow". Um exame mais atento (e a impecável memória visual de Q.) fizeram ruir essa doce ilusão. O indivíduo em questão é, afinal, John Updike.
A fotografia publicada não era esta, mas o aspecto de John Updike é este:

Os deslizes acontecem. E há que admitir que não me pareceria de todo inadmissível que a fisionomia do jovem marujo Pynchon tivesse, ao envelhecer, convergido para a imagem da fotografia anterior. Com um pouco de fantasia e de fé, a coisa passa.

Mas a minha representação preferida de Pynchon é, sem qualquer dúvida, esta:
A fotografia publicada não era esta, mas o aspecto de John Updike é este:

Os deslizes acontecem. E há que admitir que não me pareceria de todo inadmissível que a fisionomia do jovem marujo Pynchon tivesse, ao envelhecer, convergido para a imagem da fotografia anterior. Com um pouco de fantasia e de fé, a coisa passa.

Mas a minha representação preferida de Pynchon é, sem qualquer dúvida, esta:
domingo, agosto 12, 2007
PALCO, VIDA E LINHA DOS TRÊS PONTOS: No seu livro "True and False - Heresy and Common Sense for the Actor", David Mamet estabelece a seguinte analogia entre o teatro e o basquetebol:
«The Method school would teach the actor to prepare a moment, a memory, an emotion for each interchange in the play and to stick to that preparation. This is an error on the order of the basketball coach instructing his team to stick to the plays which they practiced irrespective of what their opponents are doing.»
Há um poema de António Franco Alexandre (de "Quatro Caprichos") que fala de um treinador de basquetebol que era também encenador de teatro, embora fosse demasiado jovem e incompetente para qualquer uma das atribuições.
Também explorei esta analogia numa peça minha.
LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Na zona de restauração de um centro comercial do Saldanha, de cujo nome nunca me consigo recordar, um cavalheiro lia as "Metamorfoses" de Ovídio. Sem a atenção de Q., teria falhado este importante avistamento.
A propósito: no filme "Esther Kahn", uma das irmãs de Esther lê "Sesame and Lilies", de John Ruskin. Proust, que admirava Ruskin, traduziu para francês este livro, aparentemente com a colaboração da sua mãe e da prima do compositor Reynaldo Hahn.
OUTRA VEZ SARTRE: Lembro-me também (outra memória falsa?) de ler ou ouvir dizer que Sartre tinha recusado o Nobel por não querer receber dinheiro do inventor da dinamite.
No "Robert des grands écrivains de langue française" são mencionadas algumas motivações mais plausíveis:
- son refus constant des distinctions officielles
- sa conviction qu'«un écrivain qui prend des positions politiques, sociales ou littéraires ne doit agir qu'avec les moyens qui sont les siens, c'est-à-dire la parole écrite [et que] toutes les distinctions qu'il peut recevoir exposent ses lecteurs à une pression [qui n'est] pas souhaitable»
- le constat selon lequel «dans la situation d'aujourd'hui, le prix Nobel se présente objectivement comme une distinction réservée aux écrivains de l'Ouest ou aux rebelles de l'Est».
Aproveito para acrescentar que a "madame Z." a quem é dedicada a obra "Les Mots" era Lena Zonina, intérprete durante a visita de Sartre à URSS.
EMANAÇÃO: No "DN" do passado dia 7 surgiu uma notícia (creio que não disponível "online") com o título: "Dalai Lama proibido de voltar a reencarnar". No corpo da notícia, é-nos explicado que as autoridades chinesas proibiram novas reencarnações de Buda, naquilo que só pode ser entendido como uma inaudita deriva sobrenaturalista do poder judicial.
Ao carácter burlesco da notícia, o jornalista que a redigiu parece ter achado por bem acrescentar um suplemento de cómico involuntário: "O actual Dalai Lama, de 72 anos, vive no exílio desde a invasão chinesa(...). Quando morrer, a emanação de Buda vai reencarnar, passados 49 dias, num dos pequenos monges tibetanos.".
O que vem a ser a "emanação de Buda"??? E estará a realidade objectiva da reencarnação suficientemente demonstrada para que o fenómeno seja mencionado com este desprendimento? Não seria obrigação de um jornal sério introduzir este tipo de frase com um palavreado do tipo "Os seguidores da religião budista alegam que..."?
domingo, agosto 05, 2007
LA CARRIÈRE D'ÉRIC: Até ao recente segundo visionamento (primeiro em grande ecrã), na Cinemateca, tinha "La Carrière de Suzanne" como, de longe, o menos conseguido dos "Contos Morais" de Rohmer. Vi-me obrigado a reconsiderar esta opinião severa. Embora obviamente menos rico do que alguns dos títulos que se lhe seguiram ("Le Genou de Claire", "La Collectionneuse", "Ma Nuit Chez Maud" são exemplos óbvios), não faltam méritos a "La Carrière de Suzanne". Em retrospectiva, a personagem de Suzanne, cortejada sucessivamente pelo amigo do narrador e pelo próprio narrador, aparece como o primeiro grande exemplo de um tipo de personagem recorrente nos filmes de Rohmer: a manipuladora involuntária. Durante quase todo o filme, a evolução de Suzanne (a sua "carreira", no fundo) é, aparentemente, um fruto do acaso e do capricho, mais do que de qualquer premeditação. Ao envolver-se sucessivamente com os dois jovens que a assediam, nunca abdica da sua margem de manobra, nem do poder supremo de condicionar o enredo, acabando por se associar romanticamente a um terceiro homem. As palavras finais do narrador são estas:
Cette fille, pour qui je n'avais pu éprouver, au cours de l'année, qu'une espèce de pitié honteuse, nous réglait notre compte à tous sur la ligne d'arrivée, et nous réduisait au rang des gamins que nous étions. Coupable ou non, naïve ou rusée, après tout qu'importait? En me privant du droit de la plaindre, Suzanne s'assurait sa vraie revanche.

Se o narrador de "La Carrière de Suzanne" conhecesse a obra de Rohmer, saberia quão vã pode ser esta pergunta: "ingénua ou astuciosa"? Quase todos os filmes de Rohmer exploram situações em que a ambiguidade dos julgamentos morais é fruto de uma indefinição entre o acaso, a intenção e uma versão marcadamente laica e terrena da predestinação. Tal como o Gaspard de "Conte d'Été", como a Haydée de "La Collectionneuse", até como a Marquesa de O... na adaptação da obra de Kleist, Suzanne pode ser vista como uma estratega sagaz ou como uma personagem que se limita a viver os eventos que ocorrem, independentes da sua vontade. Culpada ou não? Responsável ou não? Este tipo de perguntas nunca perderão a sua pertinência na filmografia de Rohmer, embora raras vezes sejam colocadas de maneira tão explícita. Sobre toda a obra deste cineasta pairam as armadilhas conceptuais subjacentes à possibilidade de formular juízos de valor. Não há realizador que atribua tanta importância à moral, não há realizador menos prescriptivo.
Uma das minhas cenas favoritas deste filme é uma cena que me parece totalmente gratuita (algo de pouco comum em Rohmer), em que as três personagens principais se entregam a uma pouco séria sessão de espiritismo. Trata-se de uma cena longa, na qual, à medida que a mensagem do "espírito de D. Giovanni" vai sendo decifrada, Rohmer intercala curtas imagens fixas de objectos do apartamento onde se desenrola a acção. Essas curtíssimas inserções, à maneira de vinhetas desinseridas de qualquer lógica de "raccord", podem talvez não ter outra função que não seja a de representar a própria duração temporal da cena, e a de sublinhar visualmente, de forma bem-humorada, a nula relevância da cena para a história. (Claro que tudo isto pode ser mero resultado da minha falta de perspicácia para detectar a função dessa cena e dessa opção de montagem.) Mais tarde, a gratuidade nos filmes de Rohmer haveria de se exprimir preferencialmente sob a forma de apontamentos de cariz etnográfico/turístico (a geografia urbana de Nevers em "Conte d'Hiver", os relatos sobre a pesca de alto mar em "Conte d'Été"...), deliciosamente supérfluos.
Para finalizar: gosto muito de uma coisa que António Rodrigues diz, na folha da Cinemateca dedicada à dupla sessão "La Boulangère de Monceau"/"La Carrière de Suzanne": «(...)como todo [o] classicista Rohmer tem a noção exacta das proporções», isto a propósito de todos os seus filmes terem a duração "certa". Sem dúvida que Rohmer é um classicista, e a sua obra arrebatadora surge como demonstração eloquente de que classicismo e liberdade criativa estão longe de ser inconciliáveis.
(Um classicista, um moderno e um criador livre? Mas isso são três desejos, não é possível...)
Cette fille, pour qui je n'avais pu éprouver, au cours de l'année, qu'une espèce de pitié honteuse, nous réglait notre compte à tous sur la ligne d'arrivée, et nous réduisait au rang des gamins que nous étions. Coupable ou non, naïve ou rusée, après tout qu'importait? En me privant du droit de la plaindre, Suzanne s'assurait sa vraie revanche.

Se o narrador de "La Carrière de Suzanne" conhecesse a obra de Rohmer, saberia quão vã pode ser esta pergunta: "ingénua ou astuciosa"? Quase todos os filmes de Rohmer exploram situações em que a ambiguidade dos julgamentos morais é fruto de uma indefinição entre o acaso, a intenção e uma versão marcadamente laica e terrena da predestinação. Tal como o Gaspard de "Conte d'Été", como a Haydée de "La Collectionneuse", até como a Marquesa de O... na adaptação da obra de Kleist, Suzanne pode ser vista como uma estratega sagaz ou como uma personagem que se limita a viver os eventos que ocorrem, independentes da sua vontade. Culpada ou não? Responsável ou não? Este tipo de perguntas nunca perderão a sua pertinência na filmografia de Rohmer, embora raras vezes sejam colocadas de maneira tão explícita. Sobre toda a obra deste cineasta pairam as armadilhas conceptuais subjacentes à possibilidade de formular juízos de valor. Não há realizador que atribua tanta importância à moral, não há realizador menos prescriptivo.
Uma das minhas cenas favoritas deste filme é uma cena que me parece totalmente gratuita (algo de pouco comum em Rohmer), em que as três personagens principais se entregam a uma pouco séria sessão de espiritismo. Trata-se de uma cena longa, na qual, à medida que a mensagem do "espírito de D. Giovanni" vai sendo decifrada, Rohmer intercala curtas imagens fixas de objectos do apartamento onde se desenrola a acção. Essas curtíssimas inserções, à maneira de vinhetas desinseridas de qualquer lógica de "raccord", podem talvez não ter outra função que não seja a de representar a própria duração temporal da cena, e a de sublinhar visualmente, de forma bem-humorada, a nula relevância da cena para a história. (Claro que tudo isto pode ser mero resultado da minha falta de perspicácia para detectar a função dessa cena e dessa opção de montagem.) Mais tarde, a gratuidade nos filmes de Rohmer haveria de se exprimir preferencialmente sob a forma de apontamentos de cariz etnográfico/turístico (a geografia urbana de Nevers em "Conte d'Hiver", os relatos sobre a pesca de alto mar em "Conte d'Été"...), deliciosamente supérfluos.
Para finalizar: gosto muito de uma coisa que António Rodrigues diz, na folha da Cinemateca dedicada à dupla sessão "La Boulangère de Monceau"/"La Carrière de Suzanne": «(...)como todo [o] classicista Rohmer tem a noção exacta das proporções», isto a propósito de todos os seus filmes terem a duração "certa". Sem dúvida que Rohmer é um classicista, e a sua obra arrebatadora surge como demonstração eloquente de que classicismo e liberdade criativa estão longe de ser inconciliáveis.
(Um classicista, um moderno e um criador livre? Mas isso são três desejos, não é possível...)
quinta-feira, agosto 02, 2007
QUEBRO O MEU SILÊNCIO SOBRE OS MORANGOS COM AÇÚCAR: Parece-me, por esta altura, inegável que ao Bar do Xavier falta o carisma que fazia do Bar do Fred e do Bar Azul lugares tão especiais, lugares onde parecia natural esperar que alguma coisa de singular e tremendamente relevante acontecesse a qualquer momento; cenários do improvável, generosos catalisadores das intrigas cruzadas que caracterizam esta série tão do agrado do público juvenil. E há que tempos que não vejo um Morang'Ice ser servido!
EPITÁFIO-TRAVELLING, M.A. (1912-2007):

Comparativamente a Bergman, a minha relação com o cinema de Antonioni era menos forte. Ou, pelo menos, é essa a minha convicção, facilmente abalável quando me recordo de obras tão poderosas como "La Notte", "Il Deserto Rosso", "Blow up", "L'avventura" e "Zabriskie Point" (estes últimos os meus três favoritos). Antonioni é um caso invulgar na história do cinema por se tratar de um realizador que, apesar de uma vida e uma carreira muito longas (passaram-se 61 anos entre "Gente del Po" e o episódio de "Eros"), tem as suas principais obras-primas concentradas numa só década, os anos 60. É claro que entra aqui uma importante dose de opinião pessoal: considero os seus filmes a partir de "Professione: Reporter" (inclusive) inferiores aos que acima citei.
Foi gratificante ler que Augusto M. Seabra considera "Zabriskie Point" uma das obras mais subestimadas da história do cinema. Vi este filme na adolescência, na RTP, e na altura marcou-me com intensidade. Faz parte daquele conjunto de filmes em relação aos quais, por uma questão de curiosidade algo mórbida, me pergunto se resistiriam a um segundo visionamento tanto tempo depois do primeiro. (Curiosamente, revi recentemente a cena da explosão no deserto que faz parte deste filme, numa conferência de Delfim Sardo.)
Um dos comentários mais oportunos que li sobre os desaparecimentos de Bergman e Antonioni foi da autoria de Fernando Lopes, que afirmou (cito de memória) tratar-se do fim de uma certa ideia de cinema. De facto, juntamente com Resnais (felizmente ainda vivo, mas para quando seu último filme em salas portuguesas?), Fellini, e mais um punhado de realizadores, Bergman e Antonioni personificavam um cinema de autor com impacto e significado ao nível do grande público, caixa de ressonância do mundo contemporâneo e das suas contradições. Aos seus sucessores (penso em Moretti, Wenders, von Trier, Almodóvar, entre outros cujo programa passa pela coexistência entre a exigência artística e a vontade de alcançar uma audiência significiativa) não falta necessariamente talento; falta, isso sim, o prestígio e a relevância que outras gerações atribuíram ao cinema. Não têm culpa da trivialização a que o cinema tem vindo a ser condenado, da sua subalternização relativamente a formas massificadas de distribuição de imagem em movimento.
Uma das razões pela qual o falecimento, no mesmo dia, destes dois cineastas foi uma amarga ironia do destino foi a maneira exemplar como cada um deles ilustra duas das principais correntes do cinema mundial das últimas décadas. Bergman pertence à linhagem daqueles, como Buñuel, Fellini, Lynch e (até certo ponto) Tarkovsky, que privilegiavam a transposição de fantasmas e obsessões pessoais para a tela, e a tradução pictórica do seu universo pessoal. Quanto a Antonioni, a sua abordagem analítica e impessoal aparenta-o a Godard, Resnais, Greenaway e Bresson. (Claro está que esta classificação se afigura problemática em muitos casos: de que lado da trincheira se poderiam colocar Pasolini, Fassbinder...?)
(Na imagem, David Hemmings em "Blow up".)

Comparativamente a Bergman, a minha relação com o cinema de Antonioni era menos forte. Ou, pelo menos, é essa a minha convicção, facilmente abalável quando me recordo de obras tão poderosas como "La Notte", "Il Deserto Rosso", "Blow up", "L'avventura" e "Zabriskie Point" (estes últimos os meus três favoritos). Antonioni é um caso invulgar na história do cinema por se tratar de um realizador que, apesar de uma vida e uma carreira muito longas (passaram-se 61 anos entre "Gente del Po" e o episódio de "Eros"), tem as suas principais obras-primas concentradas numa só década, os anos 60. É claro que entra aqui uma importante dose de opinião pessoal: considero os seus filmes a partir de "Professione: Reporter" (inclusive) inferiores aos que acima citei.
Foi gratificante ler que Augusto M. Seabra considera "Zabriskie Point" uma das obras mais subestimadas da história do cinema. Vi este filme na adolescência, na RTP, e na altura marcou-me com intensidade. Faz parte daquele conjunto de filmes em relação aos quais, por uma questão de curiosidade algo mórbida, me pergunto se resistiriam a um segundo visionamento tanto tempo depois do primeiro. (Curiosamente, revi recentemente a cena da explosão no deserto que faz parte deste filme, numa conferência de Delfim Sardo.)
Um dos comentários mais oportunos que li sobre os desaparecimentos de Bergman e Antonioni foi da autoria de Fernando Lopes, que afirmou (cito de memória) tratar-se do fim de uma certa ideia de cinema. De facto, juntamente com Resnais (felizmente ainda vivo, mas para quando seu último filme em salas portuguesas?), Fellini, e mais um punhado de realizadores, Bergman e Antonioni personificavam um cinema de autor com impacto e significado ao nível do grande público, caixa de ressonância do mundo contemporâneo e das suas contradições. Aos seus sucessores (penso em Moretti, Wenders, von Trier, Almodóvar, entre outros cujo programa passa pela coexistência entre a exigência artística e a vontade de alcançar uma audiência significiativa) não falta necessariamente talento; falta, isso sim, o prestígio e a relevância que outras gerações atribuíram ao cinema. Não têm culpa da trivialização a que o cinema tem vindo a ser condenado, da sua subalternização relativamente a formas massificadas de distribuição de imagem em movimento.
Uma das razões pela qual o falecimento, no mesmo dia, destes dois cineastas foi uma amarga ironia do destino foi a maneira exemplar como cada um deles ilustra duas das principais correntes do cinema mundial das últimas décadas. Bergman pertence à linhagem daqueles, como Buñuel, Fellini, Lynch e (até certo ponto) Tarkovsky, que privilegiavam a transposição de fantasmas e obsessões pessoais para a tela, e a tradução pictórica do seu universo pessoal. Quanto a Antonioni, a sua abordagem analítica e impessoal aparenta-o a Godard, Resnais, Greenaway e Bresson. (Claro está que esta classificação se afigura problemática em muitos casos: de que lado da trincheira se poderiam colocar Pasolini, Fassbinder...?)
(Na imagem, David Hemmings em "Blow up".)
segunda-feira, julho 30, 2007
EPITÁFIO COM LANTERNA MÁGICA (1918-2007):


Quando se trata de um grande homem, a morte é sempre inesperada e ultrajante, quer ocorra aos 89 anos ou aos 49 anos. Nem a idade, nem a ordem natural das coisas, nem a inevitabilidade, nem a doença são capazes de mitigar o desgosto.
A importância da obra de Bergman é imensa. Não vou ofender as dezenas de obras-primas que ele realizou com uma pobre tentativa de exprimir essa importância em quatro ou cinco linhas.
Na nossa televisão, alguém teve a infeliz ideia de chamar a Bergman "o poeta do cinema", e dedicaram-lhe hoje pouco mais tempo do que a uma sucata clandestina que foi descoberta em Sobral de Monte Agraço.
(Na imagem, Ingrid Thulin e Max von Sydow no meu filme preferido de Bergman, "O Rosto". Retirada daqui.)
domingo, julho 29, 2007
REPUTAÇÃO: José Manuel Fernandes remata a sua crónica do "Público" de sábado passado do seguinte modo: «Mesmo sem apreciar literatura mágica, mas curioso por perceber o que cativou milhões de adolescentes e jovens, não sei se, depois de um ano muito cansativo, não levarei para férias os sete volumes de Harry Potter adiando, mais uma vez, a entrada noutros sete volumes: os de Em Busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust. Mesmo que à custa da minha reputação intelectual na implacável blogosfera.»
Em primeiro lugar, não se me afigura que a reputação intelectual de José Manuel Fernandes seja um dos tópicos de predilecção dos bloggers nacionais ou estrangeiros. Verdade seja dita, porém, que sou um leitor de blogs superficial, e não posso excluir a existência de numerosos recantos do ciberespaço (incluindo, quiçá, fóruns, comunidades no MySpace e províncias inteiras do Second Life) onde a envergadura intelectual de José Manuel Fernandes é objecto de debates electrizantes.
Em segundo lugar, não me parece que José Manuel Fernandes deva temer repercussões negativas deste seu ousado desabafo. Neste país que é o nosso, onde um termo como "bem-pensante" ganhou aura pejorativa, privilegiar a cultura popular sobre a dita "alta cultura" muito dificilmente será visto como uma confissão de frivolidade; muito pelo contrário, esse tipo de confissão mais depressa será encarado como um suculento desafio ao politicamente correcto, e o seu autor como um iconoclasta dotado da virtude de não se levar a sério.
Em terceiro lugar, julgo que estas inocentes negaças ao gosto dominante põem a reputação intelectual de José Manuel Fernandes menos em risco do que dislates como este (do editorial do "Público" de 24/7, a propósito das eleições legislativas na Turquia, negritos meus): «Os eleitores deram mais atenção a estes argumentos do que aos dos seus adversários, pelo que o voto de domingo foi um duro golpe para os militares, que, ao longo de décadas, garantiram o legado laico do Estado que Ataturk fundou sobre o modelo francês. Ou seja, sobre um modelo em que o Estado não é apenas independente da religião ou religiões, mas em que limita o espaço das religiões. Mesmo assim o voto de domingo não acaba com a polarização da sociedade turca, que se agravou nos últimos meses, pelo que o primeiro desafio do reeleito Erdogan passará por apaziguar as tensões entre secularistas e crentes, de forma a permitir que, do modelo francês, a Turquia possa evoluir para o anglo-saxónico, onde o Estado é laico mas não anti-religioso.» Lê-se e não se sabe o que mais admirar: se a mirabolante ideia de um modelo francês de Estado anti-religioso (própria de quem aprendeu a história da França por meio de fascículos piedosos com estampas coloridas) se a sugestão, não isenta de uma certa comicidade, de que a Inglaterra possa ser vista como um exemplo a seguir em termos de laicidade.
É este apetite pela distorção dos factos que preocupa, da parte do director de um dos diários portugueses de maior tiragem, e não a inócua veleidade de passar as férias mergulhado nas aventuras de um jovem feiticeiro de óculos de aros redondos.
A PACIÊNCIA, MAIOR VIRTUDE DO CINÉFILO: Decididamente, escasseia-me a paciência para tentar penetrar os desígnios das distribuidoras de cinema. No site da Atalanta, eis que vários filmes deveras prometedores passaram da secção "Próximas Estreias" para "Brevemente", o que é tanto mais inquietante quanto o historial recente desta distribuidora já demonstrou quão elásticos podem ser os limites temporais deste termo. Falo, mais concretamente, dos filmes de Hou Hsiao-Hsien e de Kaurismäki, falo de "Peindre ou Faire l'Amour", dos irmãos Larrieu. É certo que alguns dos filmes que, vindos do nada, ocupam agora a secção "Próximas Estreias" são também de molde a despertar abundantes salivações cinéfilas: Tsai-Ming Liang, Emmanuelle Cuau (com a soberba Sandrine Kiberlain; vi um interessante filme desta realizadora em Paris, "Circuit Carole", com a rivetteana Laurence Côte), Iosseliani (se bem que este "Jardins en Automne", que já vi na Cinemateca, me pareça pouco acrescentar à obra do autor georgiano). Mas a questão não é essa. O que está em jogo aqui é a recorrente falibilidade das previsões da Atalanta sobre as datas de estreia dos próprios filmes. É uma questão de respeito pelo espectador, que assim se vê na contingência de implorar ao façanhudo deus das salas de cinema a dádiva de poder ver o filme há muito antecipado a partir da data que foi anunciada.
Terá de passar muito tempo até que eu me esqueça de "Manderlay", anunciado durante meses e que acabou saindo directamente em DVD. São amargos de boca como este que me tornam céptico quanto à sobrevivência do cinema em salas, excepção feita à Cinemateca, por um lado, e aos blockbusters, por outro. Receio que o futuro da relação entre o consumidor e o cinema com um mínimo de pretensão artística passe essencialmente pelo DVD e por canais de televisão especializados (já é isso que sucede fora dos grandes centros urbanos) e pelo aluguer directo via Internet.
(Ontem tentei ir ver "Juventude em Marcha" no Nimas, mas as sessões tinham sido canceladas, ao que parece por falta de autorização para a exibição do filme. Talvez isto tenha contribuído para este meu desencanto.)
Naturalmente que concentro estes meus reparos na Atalanta porque seria ocioso estar a dirigi-los aos seus concorrentes. O "Die Hard 4" não é para aqui chamado.
segunda-feira, julho 23, 2007
domingo, julho 22, 2007
A RONDA DA NOITE(1):

Diz-se que gostos e cores não se discutem... Por norma, discordo: não só os gostos se discutem, como discutir cores pode ser um dos passatempos mais indispensáveis a uma vida sã e preenchida. Casos há , porém, em que discussões desta índole me parecem enfadonhas de tão dispensáveis. Por exemplo, as argumentações relativas ao primeiro lugar do pódio da ficção portuguesa actual, por norma açambarcadas por antuninos e saramaguianos pletóricos, perdem razão de ser a cada novo livro de Agustina Bessa-Luís que sai para o mundo. Agustina é o maior talento da prosa narrativa portuguesa dos últimos 100 anos, e não vejo quem, além de Vergílio Ferreira, lhe poderá ser comparável em profundidade e ambição artística, argúcia, manejo da língua e versatilidade (para não falar da produtividade). É forte a tentação que sinto de mandar às malvas qualquer objecção quanto à subjectividade de um julgamento deste tipo. Romances magníficos de inteligência e liberdade como "A Ronda da Noite" tornam esta evidência demasiado límpida para que se perca mais tempo com a questão.

Diz-se que gostos e cores não se discutem... Por norma, discordo: não só os gostos se discutem, como discutir cores pode ser um dos passatempos mais indispensáveis a uma vida sã e preenchida. Casos há , porém, em que discussões desta índole me parecem enfadonhas de tão dispensáveis. Por exemplo, as argumentações relativas ao primeiro lugar do pódio da ficção portuguesa actual, por norma açambarcadas por antuninos e saramaguianos pletóricos, perdem razão de ser a cada novo livro de Agustina Bessa-Luís que sai para o mundo. Agustina é o maior talento da prosa narrativa portuguesa dos últimos 100 anos, e não vejo quem, além de Vergílio Ferreira, lhe poderá ser comparável em profundidade e ambição artística, argúcia, manejo da língua e versatilidade (para não falar da produtividade). É forte a tentação que sinto de mandar às malvas qualquer objecção quanto à subjectividade de um julgamento deste tipo. Romances magníficos de inteligência e liberdade como "A Ronda da Noite" tornam esta evidência demasiado límpida para que se perca mais tempo com a questão.
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